Os mais indignados com atentado contra “nossas mulheres” em
Colônia são aqueles que, nos outros 364 dias do ano, acham que elas são
pedaços de carne, a ser usadas segundo a vontade dos machos
Por Nuno Ramos
Vivemos num mundo hipócrita de meias-tintas. A Amazon alemã
comercializou, com grande sucesso, um CD com o hino do Pegida (Europeus
Patriotas contra a Islamização do Ocidente), organização racista alemã. O
fato provocou escândalo e protestos de alguns consumidores. Receando o
efeito comercial da questão, a empresa multinacional resolveu comunicar
que ia dar uma percentagem dos seus lucros nessa venda para apoio aos
refugiados. Se o exemplo frutifica, teremos as empresas que fabricam
bombas a dar uma percentagem simbólica dos seus lucros milionários às
vítimas de mais de dez anos de bombardeamentos no Oriente Médio, que já
mataram, só no Iraque, milhões de pessoas.
O mesmo mecanismo de hipocrisia funcionou com a polícia alemã, que
pouco fez em relação a uma multidão que roubava e agredia sexualmente
mulheres em Colônia, e que manteve esse crime escondido no congelador
porque parte dos seus autores seriam indivíduos que requeriam o estatuto
de refugiado na Alemanha.
A ideia de que uma vítima de bombardeamento é necessariamente uma boa
pessoa é simplesmente imbecil. O laxismo das autoridades revela uma má
consciência ocidental que está mal dirigida: os países que mandam no
mundo deviam abster-se de tentar impor o seu regime liberal a golpes de
míssil, nos países do Terceiro Mundo; não deviam colaborar com ditaduras
e regimes fundamentalistas, como a Arábia Saudita; e deviam deixar de
ser permissivos e laxistas com determinados crimes.
Lamento desiludir os racistas, mas os crimes sexuais não se esgotam
nos refugiados muçulmanos. Mulheres bósnias muçulmanas foram alegremente
violadas por croatas e sérvios que eram cristãos (católicos e
ortodoxos) sem que a sua suposta boa-fé os tivesse impedido de massacrar
e violar. Há muitos bispos da Igreja Católica acusados de violar
crianças. Existem milhares de crimes sexuais por toda a Europa que não
escolhem raça nem preferência religiosa. Têm apenas uma coisa em comum:
são perpetrados por gente que odeia as mulheres e acha que elas são
objetos para serem usados a seu bel-prazer.
O mais fascinante do assunto é que as pessoas que mais se indignaram
com o atentado contra “as nossas mulheres”, em Colônia, são aquelas que,
nos outros 364 dias do ano, acham que elas são pedaços de carne sem
cérebro, próprias para serem usadas segundo a vontade dos machos. A
jornalista alemã Sabrina Hoffmann, responsável das redes sociais, a
propósito do sucedido na Alemanha recenseava algumas declarações
educativas sobre os dias normais e comentários habituais nas redes
sociais:
“Bom, se elas vestem calças justas e um top, estão pedindo”; “As
garotas de 15 anos são perfeitamente conscientes do impacto que têm no
sexo oposto. Não são nada inocentes”; “Se realmente violaram uma mulher,
lamento muito, mas onde começa a violação?”, e outras declarações com o
mesmo grau de inteligência.
Ora, um crime não lava outros crimes, apenas nos permite perceber
melhor a razão do sucedido e as formas de impedir que venha a
repetir-se. O excelente jornalista João Carlos Barradas escreveu um
artigo que coloca algumas questões importantes: “Entre os migrantes
chegados à UE contam-se essencialmente homens (66% dos registros de
entradas em 2015 na Grécia e Itália), mais de 20% são menores não
acompanhados e, entre eles, 90% do sexo masculino. Uma migração
predominantemente masculina e juvenil, além de degradar ainda mais o
estatuto das mulheres nas sociedades de origem e limitar hipóteses de
reunião familiar, é fator de assinalável distorção das proporções de
homens e mulheres entre jovens adultos nos países de acolhimento.” É
preciso combater em toda a gente, e nos refugiados, culturas que
menosprezem a mulher. É preciso castigar os criminosos. Mas sobretudo é
necessário impedir que tenhamos um mundo a duas velocidades: um espaço
fechado, com condições, e uma selva bombardeada para 90% da população.
A solução do problema dos refugiados passa por normalizar a vida nos países de origem.
Nesta mesma Alemanha onde houve os crimes de Colônia, a polícia
distribuiu a crianças refugiadas lápis de cor e papel para elas
desenharem. Um deles, oferecido a um policial por uma menina, tinha uma
família em fuga retalhada pelas bombas, com uma mãe a esvair-se em
sangue, e um agradecimento a quem a acolheu. É preciso não fechar os
olhos a nada.
(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/homens-que-odeiam-mulheres/)
sábado, 30 de janeiro de 2016
Quarenta anos de procrastinação interesseira
Como as grandes petroleiras transnacionais souberam, desde 1977,
dos efeitos dramáticos da queima de CO² — e vêm lutando desde então para
escondê-los das sociedades
Por Neela Banerjee, Lisa Song e David Hasemyer, no InsideClimate News | Tradução: Gilberto Schittini
Por Neela Banerjee, Lisa Song e David Hasemyer, no InsideClimate News | Tradução: Gilberto Schittini
Em uma reunião na sede da Exxon Corporation, um
cientista sênior chamado James F. Black dirigiu-se a um grupo de
poderosos homens do petróleo. Falando sem texto enquanto passava por
slides detalhados, Black transmitiu uma séria mensagem: o dióxido de
carbono oriundo do uso mundial de combustíveis fósseis iria aquecer o
planeta e poderia eventualmente colocar a humanidade em perigo.
“Em primeiro lugar, existe um consenso científico
geral de que a maneira mais provável pela qual a humanidade estaria
influenciando o clima global seria pelo dióxido de carbono liberado na
queima de combustíveis fósseis”, Black disse ao Comitê Gerencial da
Exxon, segundo uma versão escrita que ele registrou mais tarde.
Era julho de 1977 quando os líderes da Exxon
receberam essa avaliação contundente, bem antes de o resto do mundo
ouvir falar sobre a crise climática iminente.
Um ano depois, Black, um especialista técnico do topo
da divisão de Pesquisa e Engenharia da Exxon, levou uma versão
atualizada da sua apresentação para uma audiência maior. Ele alertou os
cientistas e gerentes da Exxon de que pesquisadores independentes haviam
estimado que uma duplicação da concentração de dióxido de carbono (CO2)
na atmosfera elevaria a temperatura média global em 2 a 3 graus Celsius
(4 a 5 graus Fahrenheit), e poderia chegar a 10 graus Celsius (18 graus
Fahrenheit) nos polos. As chuvas ficariam mais fortes em algumas
regiões, e outros lugares se tornariam desertos.
“Alguns países se beneficiariam, mas outros teriam
sua produtividade agrícola reduzida ou destruída”, Black disse, conforme
o resumo escrito de sua apresentação de 1978.
Essas apresentações refletiam a incerteza que
permeava os meios científicos sobre os detalhes das mudanças climáticas,
como, por exemplo, o papel desempenhado pelos oceanos na absorção de
emissões. Ainda assim, Black previu que ações rápidas eram necessárias.
“De acordo com o conhecimento atual”, ele escreveu no resumo de 1978,
“estima-se que o homem tenha uma janela de cinco a dez anos antes que a
necessidade de que decisões duras sobre mudanças nas estratégias
energéticas se tornem críticas”
A Exxon respondeu rapidamente. Em meses a companhia
lançou sua própria pesquisa extraordinária sobre o dióxido de carbono
dos combustíveis fósseis e seu impacto na Terra. O programa ambicioso da
Exxon incluía tanto amostragem empírica de CO2 quanto
modelagem climática rigorosa. Ela reuniu um grupo de especialistas que
iria dedicar mais de uma década aprofundando o conhecimento da companhia
sobre esse problema ambiental que oferecia um risco de vida ao ramo do
petróleo.
Então, ao final da década de 1980, a Exxon reduziu
sua pesquisa sobre o dióxido de carbono. Ao invés disso, nas décadas que
se seguiram, a Exxon trabalhou na linha de frente da negação climática (climate denial).
A empresa dedicou a sua musculatura para sustentar esforços na produção
de dúvidas sobre a realidade do aquecimento global que seus próprios
cientistas um dia constataram. Ela articulou politicamente esforços para
bloquear ações federais e internacionais de controle de emissões de
gases de efeito estufa. Ela ajudou a construir um vasto edifício de
desinformação que se mantém de pé até o dia de hoje.
Esse capítulo não contado da história da Exxon, o dia
em que uma das maiores companhias energéticas do mundo se dedicou
ativamente para entender os danos causados pelos combustíveis fósseis,
emergiu de uma investigação de oito meses de duração feita pela
InsideClimate News. Os jornalistas da ICN entrevistaram antigos
empregados da Exxon, cientistas, agentes federais, e consultaram
centenas de páginas de documentos internos da Exxon, muitos deles
escritos entre 1977 e 1986, durante o auge do inovador programa de
pesquisa sobre clima da empresa. A ICN passou um pente fino em milhares
de documentos de arquivos incluindo aqueles tombados na Universidade de
Texas-Austin, no Instituto de Tecnologia de Massachussets-MIT e na
Associação Americana para o Avanço da Ciência.
Os documentos registraram pedidos de orçamento,
prioridades de pesquisa, e debates sobre as descobertas, e revelaram o
arco das atitudes internas da Exxon, seu trabalho sobre clima e quanta
atenção os resultados receberam.
Teve significância particular um projeto lançado em
agosto de 1979, quando a companhia equipou um superpetroleiro com
instrumentos customizados. A missão desse projeto foi de coletar
amostras de dióxido de carbono na atmosfera e nos oceanos ao longo de
uma rota que partiu do Golfo do México até o Golfo Pérsico.
Em 1980, a Exxon reuniu um time de especialistas em
modelagem climática que investigou questões fundamentais sobre a
sensibilidade do clima ao aumento da concentração de dióxido de carbono
no ar. Trabalhando em conjunto com cientistas da universidade e com o
Departamento de Energia dos Estados Unidos, a Exxon lutou para estar na
ponta das investigações sobre o que então era conhecido como efeito
estufa.
A determinação inicial da Exxon em entender os níveis
crescentes de dióxido de carbono surgiu de uma cultura corporativa com
visão de longo prazo, disseram antigos empregados. Eles descreveram uma
companhia que continuamente examinava riscos até o final da linha,
inclusive os fatores ambientais. Nos anos 1970s, a Exxon espelhou sua
divisão de pesquisa nos Laboratórios Bell, contratando cientistas e
engenheiros altamente qualificados.
Em uma resposta escrita a questões sobre a história
de suas pesquisas, o porta-voz da ExxonMobil Richard D. Keil disse que
“desde o tempo em que as mudanças climáticas surgiram pela primeira vez
como tópico para estudos e análises científicas, no final dos anos
1970s, a ExxonMobil se comprometeu com a análise científica, baseada em
fatos sobre esse importante tema”.
“Sempre”, ele disse, “as opiniões e conclusões dos
nossos cientistas e pesquisadores nesse assunto estiveram solidamente
inseridas nos consenso geral da opinião científica do período e nosso
trabalho tem sido guiado pelo princípio fundamental de seguir para onde a
ciência nos levar. O risco de mudança climática é real e exige ação”.
No início das suas investigações climáticas, há quase
quatro décadas atrás, muitos executivos da Exxon, gerentes e cientistas
se imbuíram de um senso de urgência e de missão.
Um gerente do setor de pesquisa da Exxon, Harold N.
Weinberg, compartilhou seus “pensamentos grandiosos” sobre o papel
potencial da Exxon na pesquisa climática em um memorando interno da
companhia, em março de 1978, onde se lia: “Esse pode ser o tipo de
oportunidade que nós estávamos esperando para colocar os recursos de
tecnologia, gestão e liderança da Exxon no contexto de um projeto que
visa o bem da humanidade”.
Seus sentimentos ganharam eco em Henry Shaw, o
cientista que liderou o nascente esforço de da companhia na pesquisa
sobre dióxido de carbono.
“A Exxon precisa desenvolver um time científico de
credibilidade que possa avaliar criticamente as informações geradas
sobre o tema e que seja capaz de dar más notícias, se houver, para a
corporação”, Shaw escreveu para seu chefe Edward E. David, o presidente
setor de Engenharia e Pesquisa da Exxon em 1978. “Este time precisa ser
reconhecido por sua excelência pela comunidade científica, pelo governo e
internamente pela administração da Exxon”.
Irreversível e Catastrófico
A Exxon destinou mais de 1 milhão de dólares em três
anos para o projeto do petroleiro para medição de quão rápido os oceanos
estavam absorvendo CO2. Isso era apenas uma pequena fração
do orçamento anual de 300 milhões de dólares da Exxon Pesquisas, mas a
questão que os cientistas abordaram era uma das maiores incertezas na
ciência do clima: quão rápido poderiam as profundezas oceânicas absorver
o CO2 atmosférico? Se a Exxon pudesse encontrar a resposta, a
empresa poderia saber quanto tempo ainda demoraria até que a acumulação
de CO2 na atmosfera exigisse uma transição no sentido de abandonar o uso dos combustíveis fósseis.
A Exxon também contratou cientistas e matemáticos
para desenvolver modelos climáticos melhores e publicar os resultados de
pesquisa em jornais acadêmicos. Até 1982, os cientistas da própria
companhia, colaborando com pesquisadores de fora, criaram modelos
climáticos rigorosos – programas de computador que simulam o
funcionamento do clima para avaliar o impacto de emissões na temperatura
global. Eles confirmaram o consenso científico emergente: que o
aquecimento poderia ser até pior do que Black havia alertado cinco anos
antes.
A pesquisa da Exxon estabeleceu as bases para uma
cartilha corporativa de 1982 sobre dióxido de carbono e mudança
climática preparada por seu escritório de assuntos ambientais. Marcada
com “não deve ser distribuída externamente”, a cartilha continha
informações que “tiveram grande circulação na administração da Exxon”.
Nela a companhia reconhecia que, apesar dos aspectos desconhecidos
persistentes, para se prevenir o aquecimento global “seriam necessárias
reduções massivas na queima de combustíveis fósseis”.
Caso isso não ocorresse, “há eventos catastróficos em
potencial que precisam ser considerados”, seguiu a cartilha, citando
especialistas independentes. “Quando os efeitos se tornarem mensuráveis,
poderão não mais ser reversíveis”.
A Certeza da Incerteza
Assim como outros na comunidade científica, os
pesquisadores da Exxon reconheceram as incertezas em torno de muitos
aspectos da ciência do clima, especialmente na área de modelagem
preditiva.
“Modelos são controversos”, escreveram Roger Cohen,
chefe de ciências teóricas dos Laboratórios Corporativos de Pesquisa da
Exxon, e seu colega, Richard Werthamer, conselheiro sênior de tecnologia
na Corporação Exxon, num relatório em maio de 1980 sobre o estado do
programa de Exxon de modelagem climática. “Portanto, existem
oportunidades de pesquisa para nós”.
Quando pesquisadores da Exxon confirmavam informações
que a companhia poderia achar perturbadoras, eles não as escondiam
debaixo do tapete.
“Ao longo dos últimos anos um nítido consenso
científico emergiu”, Cohen escreveu em setembro de 1982, relatando sobre
as análises da própria Exxon sobre os modelos climáticos. A duplicação
da concentração de dióxido de carbono na atmosfera produziria um
aquecimento médio global de 3 graus Celsius, mais ou menos 1,5 grau C
(igual a 5 graus Fahrenheit mais ou menos 1,7 grau F).
“Há uma unanimidade na comunidade científica de que
um aumento na temperatura dessa magnitude produziria mudanças
significativas no clima da Terra”, ele escreveu, “inclusive sobre a
distribuição das chuvas e com alterações da biosfera”.
Ele alertou que a publicação dessas conclusões da
companhia iria atrair atenção da mídia, por causa da “conexão entre o
principal negócio da Exxon e o papel da queima de combustíveis fósseis
na contribuição para o aumento no CO2 atmosférico”.
Mesmo assim, ele recomendou a publicação.
“Nossa responsabilidade ética é de permitiu a
publicação de nossa pesquisa na literatura científica”, Cohen escreveu.
“De fato, fazer o contrário seria uma ruptura com o posicionamento
público da Exxon e sua crença ética na honestidade e na integridade”.
A Exxon seguiu seu conselho. Entre 1983 e 1984 seus
pesquisadores publicaram seus resultados em ao menos três artigos
científicos nas revistas Journal of the Atmosferic Sciences e American
Geophysical Union Monograph.
David, chefe de pesquisa da Exxon, disse em uma
conferência sobre aquecimento global financiada pela Exxon em 1982 que
“poucas pessoas tem dúvidas de que o mundo tenha entrado numa transição
enérgica que se afasta da dependência de combustíveis fósseis e avança
para uma combinação de recursos renováveis que não vai gerar problemas
de acumulação de CO2”. A única dúvida, ele disse, era quão rápido isso aconteceria.
Mas o desafio não o atemorizava. “Eu geralmente sou
otimista sobre as chances de sairmos bem desse que é o mais aventureiro
dentre todos os experimentos humanos com o ecossistema”, David disse.
A Exxon se considerava única entre as corporações
devido às suas pesquisas sobre dióxido de carbono e clima. A companhia
ostentou em um relatório de janeiro de 1981, “Estudo Abrangente sobre CO2”,
que nenhuma outra companhia aparentava estar conduzindo pesquisas
domésticas similares sobre o dióxido de carbono, e ela rapidamente
ganhou reputação entre pessoas externas como tendo uma expertise genuína
no assunto.
“Nós estamos muito satisfeitos com as intenções de pesquisa da Exxon sobre a questão do CO2.
Isso representa uma ação muito responsável, que esperamos servir como
modelo para outras contribuições do setor corporativo a pesquisas”,
disse David Slade, gerente do programa de pesquisa sobre dióxido de
carbono do Departamento de Energia do governo federal, em uma carta a
Shaw em maio de 1979. “Isso é realmente um serviço nacional e
internacional”.
Imperativos dos negócios
No início dos anos 1980s pesquisadores da Exxon
costumavam repetir que sua ciência não-enviesada daria à empresa
legitimidade para ajudar e dar forma a leis relacionadas ao clima que
afetariam sua lucratividade.
Ainda assim, executivos corporativos permaneceram
cautelosos ao falar com acionistas da Exxon sobre o aquecimento global e
a influência desempenhada pelo petróleo na sua causa, segundo mostra
uma revisão de arquivos federais.
Também não há menção nesses arquivos de que a preocupação com o CO2 estivesse começando a influenciar as decisões de negócios que a empresa estava tomando.
Ao longo dos anos 1980s, a companhia esteve
preocupada com o desenvolvimento de um enorme campo de gás na costa da
Indonesia, por causa da grande quantidade de CO2 que esse reservatório incomum iria liberar.
A Exxon também estava preocupada com relatórios que
apontavam que óleo sintético feito à base de carvão, areia betuminosa e
gás de xisto poderiam impulsionar significativamente as emissões de CO2.
A companhia estava investindo em combustíveis sintéticos para atender
ao crescimento futuro da demanda, num mundo no qual ela acreditava que
estava ficando sem óleo convencional.
No meio dos anos 1980s, após um inesperado excesso de
óleo que fez os preços colapsar, a Exxon fez cortes severos no seu
pessoal para economizar dinheiro, incluindo muitas pessoas que estavam
trabalhando com o clima. Mas o problema da mudança climática persistiu, e
estava se tornando uma parte mais proeminente do cenário político.
“O Aquecimento Global Começou, Especialistas Dizem ao
Senado”, declarou uma manchete de junho de 1988 de um artigo do New
York Times que descreveu o depoimento ao Congresso de James Hansen da
Nasa, um eminente especialista em clima. As declarações de Hansen
compeliram o Senador Tim Wirth (Democrata, Colorado) a declarar durante a
oitiva que “o Congresso precisar começar a considerar como nós iremos
reduzir ou interromper esse padrão de aquecimento”.
Com as sirenes de alarme repentinamente tocando, a
Exxon começou a financiar esforços para amplificar as dúvidas acerca do
estado da ciência do clima.
A Exxon ajudou a fundar e liderar a Coalizão
Climática Global, uma aliança entre algumas das maiores companhias do
mundo que buscava deter os esforços governamentais de redução das
emissões oriundas de combustíveis fósseis. A Exxon usou o American
Petroleum Institute, um think tank de direita, contribuições de campanha
e seu próprio lobby para impor uma narrativa de que a ciência climática
era incerta demais para que se exigissem reduções em emissões de
combustíveis fósseis.
Enquanto a comunidade internacional se movimentava em
1997 para dar o primeiro passo na redução de emissões via Protocolo de
Kyoto, o presidente e CEO da Exxon, Lee Raymond, defendeu a sua
interrupção.
“Concordemos que há muito que nós ainda não sabemos
realmente sobre como o clima irá mudar no século XXI e além”, Raymond
disse em seu discurso à frete do Congresso Mundial de Petróleo em
Pequim, em outubro de 1997.
“Nós precisamos entender melhor essa questão e,
felizmente, nós temos tempo”, ele disse. “É altamente improvável que a
temperatura no meio do próximo século seja significativamente alterada
se as políticas forem adotadas agora ou daqui a 20 anos”.
Ao longo dos anos, vários cientistas da Exxon que
haviam confirmado o consenso climático durante as pesquisas iniciais,
incluindo Cohen e David, foram para o lado de Raymond, disseminando
visões que andavam na contramão do mainstream científico.
Pagando o Preço
A meia-volta da Exxon sobre a mudança climática rendeu o desprezo da comunidade científica que ela antes havia cortejado.
Em 2006, a Royal Society, a academia de ciências do
Reino Unido, enviou uma dura carta à Exxon acusando-a de ser “imprecisa e
enganadora” na questão sobre incerteza climática. Bob Ward, o gerente
sênior da Academia para comunicação sobre políticas públicas, exigiu que
a Exxon interrompesse o repasse de dinheiro para dúzias de organizações
que ele disse que estavam ativamente distorcendo a ciência.
Em 2008, sob uma pressão crescente de acionistas
ativistas, a companhia anunciou que iria encerrar o apoio a alguns
grupos proeminentes como aqueles que Ward tinha identificado.
Ainda assim, os milhões de dólares que a Exxon gastou
desde os anos 1990s em negacionistas da mudança climática há muito
ultrapassou o que ela uma vez investiu na pesquisa de ponta a bordo do
Esso Atlantic.
“Eles gastaram tanto dinheiro e eles eram a única
companhia que fez esse tipo de pesquisa, até onde eu sei” Edward Garvey,
que foi um pesquisador chave no projeto do petroleiro da Exxon, disse
em uma entrevista recente ao InsideClimate News e Frontline. “Aquela foi
uma oportunidade não apenas para garantir um lugar à mesa, mas para
liderar, em muitos aspectos, um pouco da discussão. E o fato de que eles
escolheram não fazer isso no futuro é um tanto triste”.
Michael Mann, diretor do Centro de Ciências do
Sistema da Terra da Universidade Estadual da Pensilvânia, que tem sido
um alvo frequente de negacionistas climáticos, disse que inação, assim
como ação, tem consequências. Quando ele falou ao InsideClimate News,
ele ainda não sabia desse capítulo da história da Exxon.
“Tudo o que um eminente CEO de combustíveis fósseis
precisava saber era que isso é mais importante do que lucros de
acionistas, se trata do nosso legado”, ele disse. “Mas agora, por causa
do custo da inação – o que eu chamo “penalidade da procrastinação” – nós
enfrentamos uma batalha muito mais dura”.
–
No sítio do InsideClimate News há elos para a Parte II da reportagem, com o registro das pesquisas iniciais da Exxon sobre clima; Parte III, uma revisão dos esforços da Exxon em modelagem climática; Parte IV, um mergulho no projeto da Exxon sobre o campo de gás Natuna; Parte V, uma visão sobre os esforços da Exxon na promoção de combustíveis sintéticos; Parte VI, um registro das ênfases da Exxon nas incertezas da ciência sobre clima.
No sítio do InsideClimate News há elos para a Parte II da reportagem, com o registro das pesquisas iniciais da Exxon sobre clima; Parte III, uma revisão dos esforços da Exxon em modelagem climática; Parte IV, um mergulho no projeto da Exxon sobre o campo de gás Natuna; Parte V, uma visão sobre os esforços da Exxon na promoção de combustíveis sintéticos; Parte VI, um registro das ênfases da Exxon nas incertezas da ciência sobre clima.
Também participaram dessa reportagem os membros da
equipe do ICN Zahra Hirji, Paul Horn, Naveena Sadasivam, Sabrina
Shankman e Alexander Wood.
(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/quarenta-anos-de-procrastinacao/)
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Resenha do romance "O amor nos tempos do AI-5"
Agradeço ao nosso emérito colaborador a resenha do meu romance.
O amor nos tempos do AI-5
Ricardo de Moura Faria, o autor de “O
amor nos tempos do AI-5”, nasceu em Dores do Indaiá, cidade do Centro-Oeste de
Minas Gerais. Sua formação acadêmica foi na área de história, na UFMG. Sua
experiência profissional tem continuidade no campo da história, no ensino
superior. O tempo de estudante e o tempo de magistério superior ocorreram, em
grande parte, na vigência do período ditatorial no Brasil (1964-1984). Do
relacionamento amistoso e profissional nesse período, Ricardo extraiu os elementos
básicos para tipificar os personagens e tecer a trama do romance.
A historiografia formal ainda não havia
avaliado as consequências da mudança do sistema de cátedra acadêmica para o sistema
departamental nas universidades brasileira. Ricardo percorre os meandros burocráticos
da universidade através dos diálogos e debates dos personagens, mostrando como
os detentores do poder manipulam dados e alteram resultados, salvando seus
interesses. Paralelamente à anatomia das instituições de ensino, o autor desenvolve
a questão do erotismo entre alunos e professores. Ao contrário de telenovelas e
outros programas que exibem a libido máxima dos personagens e participantes
reais, “O amor nos tempos do AI-5” trata a sexualidade como uma forma de
crescimento mental e progresso cultural. De um lado, os mentores e atores do
regime ditatorial se caracterizavam pelo falso moralismo e do outro,
intelectuais, artistas, poetas e prosadores procurando tornarem-se
extrovertidos em suas relações sexuais.
Os personagens de “O amor nos tempos do
AI-5” não ambicionam riquezas financeiras, como os personagens dos romances de
Honoré de Balzac, mas buscam o enriquecimento intelectual. Foi a fome de saber
que atraiu Afonso e Haydée para encontros na biblioteca. Em seguida os encontros
para estudos tornam-se simples pretextos para encontros amorosos. Mas há uma
identidade com Balzac: o detalhismo de situações e de objetos no entorno dos
personagens.
A literatura é documento, pois corre
em sintonia com os momentos históricos. Ficher esclarece a ligação entre a história e a
literatura, dizendo que o escritor revela o mundo em que ele vive. O que é
histórico e o que é social não podem estar ausentes da obra de arte. Nesse
sentido, vale lembrar “Cem anos de solidão” de Gabriel Garcia Marques, que com
narrativa ficcional, redunda em excelente documentário histórico.
Kant achava que tanto os sentidos
quanto a razão eram muito importantes para a nossa experiência de mundo. Os
racionalistas atribuíam uma importância exagerada à razão. Nunca seremos
capazes de saber com toda a certeza, como as coisas são em si. Só podemos saber como elas se mostram a nós e como são percebidas pela razão. Os tratados
teóricos e pesquisas nas ciências sociais tendem à redução do social ao
objetivo. O conhecimento produzido pela literatura parte da subjetividade para
entender o mundo pela sensibilidade.
Se um historiador, um sociólogo ou
antropólogo tentassem abordar cientificamente o erotismo no âmbito das
universidades, não sairia da quantificação, apontando percentuais de
professores que se envolvem com alunas; de professores com professoras e de
funcionários com suas colegas. Falariam da frequência de professores e
professoras que se desfazem de seus casamentos para viver uma nova aventura
amorosa nos intramuros da universidade. Provavelmente, não geraria interesse de
estudiosos, além de depreciar o comportamento sexual da comunidade acadêmica.
“O amor nos tempos do AI-5” traz à vista
o que é comum e normal na vida de um casal, mas que na boca de moralistas é
perversão sexual. Se quiser saber, na verdade, o que é perversão leia o livro
“Os 120 dias de Sodoma” de Marques de Sade. O que Ricardo de Moura Faria diz,
através das palavras e ações dos quatro personagens principais, é que o
conhecimento e a consciência proporcionam a liberdade e o respeito, sem os
quais os atos sexuais são indignos.
Belo Horizonte, 26 de janeiro de 2016.
Antônio de Paiva Moura
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
Um muro para dividir a América
Dois pré-candidatos do Partido Republicano à Casa Branca querem
separar seu país do México e de toda América Latina. Por que a ideia,
mais que xenófoba, é uma encenação?
Por Camila Balthazar, no Calle2
Uma pequena multidão enfileirou-se em frente ao Flynn Center, em Burlington, a maior cidade do estado americano de Vermont, mesmo com pouco mais de 40 mil habitantes. Nesse dia gelado do inverno no hemisfério norte, 7 de janeiro de 2016, apoiadores e manifestantes disputavam um lugar entre os 1,4 mil assentos na plateia que assistiria ao discurso do pré-candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, de 69 anos.
Às 19h30, quando o empresário de ambições políticas subiu ao palco, com seu terno bem cortado, gravata vermelha – que vez ou outra se reveza com uma versão azul –, e sua vasta cabeleira loura esbranquiçada, os aplausos vieram apenas de apoiadores. Votantes indecisos ou manifestantes foram devidamente impedidos de entrar, segurando cartazes do lado de fora com dizeres como “Deporte Trump!” e “Não se entregue ao medo racista. Refugiados são bem-vindos aqui”.
Do lado de dentro, Donald Trump, conhecido por ser o apresentador da versão estadunidense do reality show “O Aprendiz”, tranquilizava os ouvintes ao repetir sua declaração controversa e um tanto xenófoba. “Não se preocupem. Nós vamos construir o muro”, disse o pré-candidato, seguido por mais aplausos e gritos eufóricos. Ao perceber a animação da plateia, ele prosseguiu: “Esperem um minuto…. E quem vai pagar pelo muro?”, questionou, ouvindo um uníssono “México!” como resposta. Claro que o presidente mexicano Enrique Peña Nieto já se manifestou, dizendo que a afirmação reflete a ignorância, a irresponsabilidade e o desconhecimento de Trump sobre a realidade.
Uma das principais frentes da campanha do bilionário do setor imobiliário, cujo slogan é “Make America Great Again” (algo como “Faça a América grande de novo”), é construir um muro que divide a fronteira sul do país com o México. O assunto não tem nada de inédito. Memórias afiadas devem se lembrar dos anos de 2006 e 2007 e do governo de George W. Bush, quando o então presidente assinou um decreto que autorizava a construção de 1,1 mil quilômetros de proteção ao longo da fronteira de 3,1 mil quilômetros.
Cercas de concreto foram erguidas, câmaras de vigilância e sensores que detectam calor foram instalados. Emigrantes criaram novas rotas, cavaram novos túneis. O relatório para o ano fiscal de 2016 do U.S. Department of Homeland Security, que protege o território de ataques terroristas e age em caso desastres naturais, prevê um gasto de US$ 3,7 bilhões para manter 21 mil agentes na fronteira e US$ 3,2 bilhões para os 23 mil inspetores nos portos. A região é uma das mais vigiadas do mundo, se considerarmos que se trata de dois países que vivem oficialmente em paz, sem guerras.
Agora Trump pretende fechar qualquer fresta de entrada, preenchendo a fronteira de leste a oeste. No meio dessa obra faraônica, uma imponente porta seria construída para receber “os mexicanos do bem”. “Será um muro com uma porta linda e grandiosa porque queremos que os imigrantes legalizados voltem para o nosso país”, afirmou o pré-candidato. Seu projeto também inclui a deportação dos 11 milhões de ilegais que atualmente moram e trabalham nos Estados Unidos.
Concorrendo à vaga do Partido Republicano com outros 11 candidatos, o nova-iorquino lidera as pesquisas mais recentes e parece ter uma chance real de disputar a corrida pela Casa Branca. De acordo com a CNN, Trump aparecia com 39% das intenções de votos no final de dezembro de 2015, seguido de Ted Cruz (18%), Ben Carso (10%) e Marco Rubio (10%). Seu principal oponente, o senador do Texas, Ted Cruz, também prega a construção do muro e a deportação dos ilegais. Na campanha do segundo colocado, nem os “bonzinhos” terão a chance de voltar. A revelação do candidato oficial do partido só será feita na convenção de Cleveland, marcada para a terceira semana de julho de 2016.
O professor mexicano Javier Urbano Reyes, formado em Relações Internacionais pela Universidade Autônoma do México, não tem dúvidas de que a história do muro não passa de um grande teatro entre os dois países. Durante uma entrevista em seu escritório na Cidade do México, o especialista em temas de cooperação internacional e migração destacou que o problema migratório é mais complexo do que se imagina.
“Pense: são 11 milhões de ‘indocumentados’, recebendo a metade ou menos de um salário regular pago nos Estados Unidos. Se você calcula por hora, há uma economia de muito dinheiro por dia, por trabalhador. Multiplique esse número por 11 milhões. A isso se chama subsídio econômico. Os Estados Unidos são subsidiados por essa mão-de-obra barata. Já no caso do México, recebemos mais de 24 bilhões de dólares por ano em remessas – dinheiro que só perde para o petróleo e o turismo. Se há uma regularização, os trabalhadores deixarão de enviar dinheiro ao México”, observa.
Com três livros publicados sobre o assunto e experiência com pesquisas de campo na fronteira norte do México, Javier aponta que o imigrante sem documentos e desprotegido da lei é conveniente para os dois países. “México e Estados Unidos brincam com um discurso. Eu finjo que me indigno e fico brabo porque violam os direitos dos emigrantes mexicanos e eles, EUA, fingem que colocam barreiras. O discurso do muro é uma mensagem para eleitores republicanos. Se houvesse interesse em modificar o fenômeno, já teriam feito há muito tempo. A grande potência mundial não pode parar a imigração? Claro que pode”.
A história humana guarda outros muros passados e presentes. Chineses, alemães, israelenses e tantos outros povos do Oriente Médio e do Norte da África, que se protegem com barreiras físicas de inimigos, imigrantes e terroristas. Para o professor Javier, nenhum deles se compara ao que acontece na fronteira sul dos Estados Unidos.
(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=262971)
Por Camila Balthazar, no Calle2
Uma pequena multidão enfileirou-se em frente ao Flynn Center, em Burlington, a maior cidade do estado americano de Vermont, mesmo com pouco mais de 40 mil habitantes. Nesse dia gelado do inverno no hemisfério norte, 7 de janeiro de 2016, apoiadores e manifestantes disputavam um lugar entre os 1,4 mil assentos na plateia que assistiria ao discurso do pré-candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, de 69 anos.
Às 19h30, quando o empresário de ambições políticas subiu ao palco, com seu terno bem cortado, gravata vermelha – que vez ou outra se reveza com uma versão azul –, e sua vasta cabeleira loura esbranquiçada, os aplausos vieram apenas de apoiadores. Votantes indecisos ou manifestantes foram devidamente impedidos de entrar, segurando cartazes do lado de fora com dizeres como “Deporte Trump!” e “Não se entregue ao medo racista. Refugiados são bem-vindos aqui”.
Do lado de dentro, Donald Trump, conhecido por ser o apresentador da versão estadunidense do reality show “O Aprendiz”, tranquilizava os ouvintes ao repetir sua declaração controversa e um tanto xenófoba. “Não se preocupem. Nós vamos construir o muro”, disse o pré-candidato, seguido por mais aplausos e gritos eufóricos. Ao perceber a animação da plateia, ele prosseguiu: “Esperem um minuto…. E quem vai pagar pelo muro?”, questionou, ouvindo um uníssono “México!” como resposta. Claro que o presidente mexicano Enrique Peña Nieto já se manifestou, dizendo que a afirmação reflete a ignorância, a irresponsabilidade e o desconhecimento de Trump sobre a realidade.
Uma das principais frentes da campanha do bilionário do setor imobiliário, cujo slogan é “Make America Great Again” (algo como “Faça a América grande de novo”), é construir um muro que divide a fronteira sul do país com o México. O assunto não tem nada de inédito. Memórias afiadas devem se lembrar dos anos de 2006 e 2007 e do governo de George W. Bush, quando o então presidente assinou um decreto que autorizava a construção de 1,1 mil quilômetros de proteção ao longo da fronteira de 3,1 mil quilômetros.
Cercas de concreto foram erguidas, câmaras de vigilância e sensores que detectam calor foram instalados. Emigrantes criaram novas rotas, cavaram novos túneis. O relatório para o ano fiscal de 2016 do U.S. Department of Homeland Security, que protege o território de ataques terroristas e age em caso desastres naturais, prevê um gasto de US$ 3,7 bilhões para manter 21 mil agentes na fronteira e US$ 3,2 bilhões para os 23 mil inspetores nos portos. A região é uma das mais vigiadas do mundo, se considerarmos que se trata de dois países que vivem oficialmente em paz, sem guerras.
Agora Trump pretende fechar qualquer fresta de entrada, preenchendo a fronteira de leste a oeste. No meio dessa obra faraônica, uma imponente porta seria construída para receber “os mexicanos do bem”. “Será um muro com uma porta linda e grandiosa porque queremos que os imigrantes legalizados voltem para o nosso país”, afirmou o pré-candidato. Seu projeto também inclui a deportação dos 11 milhões de ilegais que atualmente moram e trabalham nos Estados Unidos.
Concorrendo à vaga do Partido Republicano com outros 11 candidatos, o nova-iorquino lidera as pesquisas mais recentes e parece ter uma chance real de disputar a corrida pela Casa Branca. De acordo com a CNN, Trump aparecia com 39% das intenções de votos no final de dezembro de 2015, seguido de Ted Cruz (18%), Ben Carso (10%) e Marco Rubio (10%). Seu principal oponente, o senador do Texas, Ted Cruz, também prega a construção do muro e a deportação dos ilegais. Na campanha do segundo colocado, nem os “bonzinhos” terão a chance de voltar. A revelação do candidato oficial do partido só será feita na convenção de Cleveland, marcada para a terceira semana de julho de 2016.
O professor mexicano Javier Urbano Reyes, formado em Relações Internacionais pela Universidade Autônoma do México, não tem dúvidas de que a história do muro não passa de um grande teatro entre os dois países. Durante uma entrevista em seu escritório na Cidade do México, o especialista em temas de cooperação internacional e migração destacou que o problema migratório é mais complexo do que se imagina.
“Pense: são 11 milhões de ‘indocumentados’, recebendo a metade ou menos de um salário regular pago nos Estados Unidos. Se você calcula por hora, há uma economia de muito dinheiro por dia, por trabalhador. Multiplique esse número por 11 milhões. A isso se chama subsídio econômico. Os Estados Unidos são subsidiados por essa mão-de-obra barata. Já no caso do México, recebemos mais de 24 bilhões de dólares por ano em remessas – dinheiro que só perde para o petróleo e o turismo. Se há uma regularização, os trabalhadores deixarão de enviar dinheiro ao México”, observa.
Com três livros publicados sobre o assunto e experiência com pesquisas de campo na fronteira norte do México, Javier aponta que o imigrante sem documentos e desprotegido da lei é conveniente para os dois países. “México e Estados Unidos brincam com um discurso. Eu finjo que me indigno e fico brabo porque violam os direitos dos emigrantes mexicanos e eles, EUA, fingem que colocam barreiras. O discurso do muro é uma mensagem para eleitores republicanos. Se houvesse interesse em modificar o fenômeno, já teriam feito há muito tempo. A grande potência mundial não pode parar a imigração? Claro que pode”.
A história humana guarda outros muros passados e presentes. Chineses, alemães, israelenses e tantos outros povos do Oriente Médio e do Norte da África, que se protegem com barreiras físicas de inimigos, imigrantes e terroristas. Para o professor Javier, nenhum deles se compara ao que acontece na fronteira sul dos Estados Unidos.
(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=262971)
Em livro Papa aborda temas polêmicos como a homossexualidade e a corrupção
por Cristina Fontenele
Intitulado "O nome de Deus é misericórdia” ("El nombre de Dios es misericordia”, título em espanhol), o primeiro livro do Papa foi lançado mundialmente neste mês de janeiro, no Instituto Agostiniano, em Roma [Itália]. A obra foi apresentada pelo secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin e pelo premiado ator italiano Roberto Benigni, em encontro moderado pelo diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, padre Federico Lombardi.
Produzido pelo jornalista
italiano Andrea Tornielli, a partir
de entrevistas com o Papa Francisco em sua residência, a Casa Santa Marta, o
livro tem como tema central a misericórdia, uma referência ao "Ano Santo” do
Jubileu da Misericórdia, decretado pelo Sumo pontífice em 08 de dezembro de
2015.
Produzido pelo jornalista italiano Andrea Tornielli, a partir de entrevistas com o Papa Francisco em sua residência, a Casa Santa Marta, o livro tem como tema central a misericórdia, uma referência ao "Ano Santo” do Jubileu da Misericórdia, decretado pelo Sumo pontífice em 08 de dezembro de 2015.
Nas entrevistas, o Papa aborda questões como a homossexualidade, a corrupção no Vaticano e os divorciados que tornam a se casarem, assuntos polêmicos que têm sido acolhidos por Francisco, mas dividido os representantes da Igreja Católica. Reflete também sobre o conceito de perdão e reconciliação. "A misericórdia é o primeiro atributo de Deus. É o nome de Deus. Não existem situações das quais não podemos sair, não estamos condenados a nos afundar em areias movediças”, afirma Francisco em uma das suas declarações. Na obra, ele recorda ainda episódios da sua juventude, anedotas pessoais, curiosidades, além de suas experiências enquanto padre.
O livro deve ser publicado em mais de 86 países, em colaboração com 17 editoras, sendo disponibilizado nas versões italiano, inglês, francês, alemão, espanhol e português. Dividido em nove capítulos, o livro traz na capa o título escrito à mão pelo próprio Pontífice.
Ficha Técnica
Título: O nome de Deus é misericórdia
Autor: Papa Francisco
Ano: 2016
Editora: Grupo Planeta
Páginas: 120
Clique aqui para adquirir a versão digital em espanhol.
(fonte: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&cod=87840&lang=PT)
Intitulado "O nome de Deus é misericórdia” ("El nombre de Dios es misericordia”, título em espanhol), o primeiro livro do Papa foi lançado mundialmente neste mês de janeiro, no Instituto Agostiniano, em Roma [Itália]. A obra foi apresentada pelo secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin e pelo premiado ator italiano Roberto Benigni, em encontro moderado pelo diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, padre Federico Lombardi.
Produzido pelo jornalista italiano Andrea Tornielli, a partir de entrevistas com o Papa Francisco em sua residência, a Casa Santa Marta, o livro tem como tema central a misericórdia, uma referência ao "Ano Santo” do Jubileu da Misericórdia, decretado pelo Sumo pontífice em 08 de dezembro de 2015.
Nas entrevistas, o Papa aborda questões como a homossexualidade, a corrupção no Vaticano e os divorciados que tornam a se casarem, assuntos polêmicos que têm sido acolhidos por Francisco, mas dividido os representantes da Igreja Católica. Reflete também sobre o conceito de perdão e reconciliação. "A misericórdia é o primeiro atributo de Deus. É o nome de Deus. Não existem situações das quais não podemos sair, não estamos condenados a nos afundar em areias movediças”, afirma Francisco em uma das suas declarações. Na obra, ele recorda ainda episódios da sua juventude, anedotas pessoais, curiosidades, além de suas experiências enquanto padre.
O livro deve ser publicado em mais de 86 países, em colaboração com 17 editoras, sendo disponibilizado nas versões italiano, inglês, francês, alemão, espanhol e português. Dividido em nove capítulos, o livro traz na capa o título escrito à mão pelo próprio Pontífice.
Ficha Técnica
Título: O nome de Deus é misericórdia
Autor: Papa Francisco
Ano: 2016
Editora: Grupo Planeta
Páginas: 120
Clique aqui para adquirir a versão digital em espanhol.
(fonte: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&cod=87840&lang=PT)
Salários de juízes e de professores, uma aberração da cultura brasileira
Texto escrito por José de Souza Castro:
Uma
esperança para os professores estaduais paulistas. O governador Geraldo
Alckmin, do PSDB, nomeou o desembargador José Renato Nalini secretário
da Educação. O novo secretário sabe da importância de uma boa
remuneração para o exercício correto da profissão.
Pelo menos, a dos juízes. Diz ele, nesse vídeo que agora está bombando na Internet,
ao defender o auxílio-moradia para os juízes, que ele serve para que “o
juiz fique um pouquinho mais animado, não tenha tanta depressão, tanta
síndrome de pânico, tanto AVC etc.”
Se
não mudou de opinião no novo cargo, o desembargador talvez use os
mesmos argumentos (ou parte deles, porque os professores dispensam a
parte que fala de ir a Miami para comprar ternos) para defender o
reajuste dos salários dos mestres.
O governo federal reajustou no dia 16 deste mês de janeiro
o piso salarial dos professores da rede pública de ensino no país. Com o
reajuste de 11,36% em relação ao ano passado, o piso sobe para R$ 2.135
por mês. Mas governadores tentam evitar que o piso entre em vigor
agora.
Se
entrar, um professor, com o novo piso, vai ganhar 11 vezes menos que um
juiz, sem contar os vários benefícios e gratificações extras -- como o
auxílio-moradia --, que são recebidos por todos os juízes. No tribunal
do Rio de Janeiro, “entre proventos e benefícios, há juízes recebendo
150 mil mensais”, diz a jornalista e escritora brasileira Cláudia
Wallin. Ela mora na Suécia, e escreveu um artigo para um site comparando o comportamento – e os salários – dos juízes suecos e brasileiros. Trecho:
“Em
nenhuma instância do Judiciário sueco, magistrados têm direito a carro
oficial e motorista pago com o dinheiro do contribuinte. Sem
auxílio-aluguel e nem apartamento funcional, todos pagam do próprio
bolso por seus custos de moradia.
Para
viver em um país que tem um dos mais altos impostos do mundo, e um dos
custos de vida mais elevados do planeta, os juízes suecos têm salários
que variam entre 50 mil e 100 mil coroas suecas – o equivalente a cerca
de R$ 16,5 mil e R$ 33 mil, respectivamente.
Para
ficar no exemplo dos vencimentos máximos de um magistrado sueco:
descontados os impostos, um juiz da Suprema Corte da Suécia, que tem um
salário de 100 mil coroas, recebe em valores líquidos o equivalente a
cerca de R$ 18,2 mil por mês.
No
Brasil, um juiz federal recebe salário de 25,2 mil, e os ministros do
STF – que ganham atualmente 29,4 mil – aprovaram proposta para aumentar
os próprios salários para 35,9 mil. Isso sem contabilizar os diferentes
benefícios e gratificações extras disponíveis para as diferentes
categorias do Judiciário (...)
Também
não há Excelências entre os magistrados suecos. Assim me lembra Göran
Lambertz, juiz do Supremo Tribunal da Suécia, quando pergunto a ele
sobre suas impressões acerca dos recentes benefícios reivindicados pela
Corte brasileira.
'Claudia,
mais uma vez peço a você que me chame de Göran. Estamos na Suécia', ele
diz, quando o chamo mais uma vez de 'Sr. Lambertz'. E prossegue: 'É
realmente inacreditável saber que juízes se empenham na busca de tais
privilégios. Nós, juízes, somos pagos com o dinheiro dos impostos do
contribuinte, e temos que ser responsáveis. Juízes devem ser elementos
exemplares em uma sociedade, porque é deles que depende a ordem em um
país. E é particularmente importante que não sejam gananciosos.'”
Pergunta-se:
qual a justiça mais respeitada por seus cidadãos: a brasileira ou a
sueca? Sem esperar pela resposta, por óbvio, acrescento: quem é mais
respeitado no Brasil, um professor que ganha R$ 2.135 por mês ou um juiz
que ganha R$ 150 mil?
Dado
o caráter dos brasileiros, acostumados a séculos de subjugação pelos
poderosos daqui e de além, não me animo a garantir que a resposta seja
“o pobre professor”. E nem deveria, pois sou um defensor de melhores
salários para o professor. E não creio nessa conversa de que o mestre,
por exercer uma profissão missionária, não precisa ganhar bem.
Por
semear saberes, o professor precisa ser dignamente remunerado. Até
mesmo para que não seja desrespeitado dentro da sala de aulas por um
aluno cujo pai ganha bem mais que o professor. Aluno que cresceu numa
uma cultura como a desse desembargador defensor dos privilégios da casta
a que pertence e que, dificilmente, vai se rebaixar a defender com
denodo uma casta que deve julgar bem inferior – a dos professores.
Para
concluir, corrijo então a primeira frase do artigo: a nomeação do
desembargador não renova a esperança dos professores da rede pública no
Estado mais rico do país. Em São Paulo, conforme essa notícia de junho de 2015,
eles tinham remuneração por hora de R$ 15,10 e salário-base de R$
2.415,89. Menor, quem diria, que Minas Gerais (R$ 15,16 e R$ 2.425,50).
Minas, como já foi afirmado aqui no blog, destaca-se entre os Estados que pagam os piores salários aos professores.
(fonte: blog da Kika Castro)
domingo, 24 de janeiro de 2016
Uma semana curta, mas por bons motivos...
Esta semana foi curta, pois fiquei ausente de terça a sexta feira. O motivo? Olhem só!
todas as fotos: Ricardo de Moura Faria |
Mais do que justificado, não? Hotel Fazenda Recanto dos Fonda. Uma família da Eslovênia cujos herdeiros gerenciam esta Hotel Fazenda, perto de Caeté, onde se pode viver no silêncio, ouvindo o canto dos pássaros, curtindo uma paisagem belíssima, etc, etc, etc... Fica a dica!
Riqueza de 1% da população supera a de 99% em 2015, mostra Oxfam
Para mostrar o agravamento da desigualdade nos últimos
anos, a organização estima que "62 pessoas têm tanto capital como a
metade mais pobre da população mundial", quando, há cinco anos, era a
riqueza de 388 pessoas que estava equiparada a essa metade.
A riqueza acumulada por 1% da população mundial, os mais ricos, superou a dos 99% restantes em 2015, um ano mais cedo do que se previa, informou hoje (18) a organização não governamental (ONG) Oxfam, a dois dias do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça.
"O
fosso entre a parcela dos mais ricos e o resto da população aumentou de
forma dramática nos últimos 12 meses", diz relatório da ONG britânica
intitulado Uma economia a serviço de 1%.
"No ano passado, a Oxfam estimava que isso fosse ocorrer em 2016. No entanto, aconteceu em 2015, um ano antes", destaca no texto.
Para mostrar o agravamento da desigualdade nos últimos anos, a organização estima que "62 pessoas têm tanto capital como a metade mais pobre da população mundial", quando, há cinco anos, era a riqueza de 388 pessoas que estava equiparada a essa metade.
A dois dias do Fórum Econômico Mundial de Davos, onde vão se encontrar os líderes políticos e representantes das empresas mais influentes do mundo, a Oxfam pede a ação dos países em relação a essa realidade.
"Não podemos continuar a deixar que milhões de pessoas tenham fome, quando os recursos para ajuda estão concentrados, no mais alto nível, em tão poucas pessoas", afirma Manon Aubry, diretora dos Assuntos de Justiça Fiscal e Desigualdades da Oxfam na França, citada pela agência de notícias France Presse (AFP).
Segundo a ONG, "desde o início do século 21 a metade mais pobre da humanidade se beneficia de menos de 1% do aumento total da riqueza mundial, enquanto a parcela de 1% dos mais ricos partilharam metade do mesmo aumento".
Para combater o crescimento dessas desigualdades, a Oxfam pede o fim da "era dos paraísos fiscais", acrescentando que nove em dez empresas que figuram entre "os sócios estratégicos" do Fórum Econômico Mundial de Davos "estão presentes em pelo menos um paraíso fiscal".
"Devemos abordar os governos, as empresas e as elites econômicas presentes em Davos para que se empenhem a fim de acabar com esta era de paraísos fiscais, que alimenta as desigualdades globais", diz Winnie Byanyima, diretor-geral da Oxfam International, que estará em Davos.
No ano passado, vários economistas contestaram a metodologia utilizada pela Oxfam. A ONG defendeu o método utilizado no estudo de forma simples: o cálculo do patrimônio líquido, ou seja, os ativos menos a dívida.
A pequena localidade suíça de Davos vai acolher, a partir da próxima quarta-feira (20), líderes políticos e empresários para debater a 4ª Revolução Industrial.
Esta 46ª edição do fórum, que termina em 23 de janeiro, ocorre no momento em que o medo da ameaça terrorista e a falta de respostas coerentes para a crise de refugiados na Europa se juntam às dificuldades que a economia mundial encontra para voltar a crescer e à forte desaceleração das economias emergentes.
Segundo o presidente do fórum, Klaus Schwab, a "4ª revolução industrial refere-se à fusão das tecnologias", principalmente no mundo digital, que "tem efeitos muito importantes nos sistemas político, econômico e social".
(fonte: http://brasildefato.com.br/node/33929?utm_source=phplist835&utm_medium=email&utm_content=HTML&utm_campaign=Boletim+Semanal+-+Riqueza+de+1%+da+população+supera+a+de+99%+em+2015mostra+Oxfam
18/01/2016
Da Agência BrasilA riqueza acumulada por 1% da população mundial, os mais ricos, superou a dos 99% restantes em 2015, um ano mais cedo do que se previa, informou hoje (18) a organização não governamental (ONG) Oxfam, a dois dias do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça.
"No ano passado, a Oxfam estimava que isso fosse ocorrer em 2016. No entanto, aconteceu em 2015, um ano antes", destaca no texto.
Para mostrar o agravamento da desigualdade nos últimos anos, a organização estima que "62 pessoas têm tanto capital como a metade mais pobre da população mundial", quando, há cinco anos, era a riqueza de 388 pessoas que estava equiparada a essa metade.
A dois dias do Fórum Econômico Mundial de Davos, onde vão se encontrar os líderes políticos e representantes das empresas mais influentes do mundo, a Oxfam pede a ação dos países em relação a essa realidade.
"Não podemos continuar a deixar que milhões de pessoas tenham fome, quando os recursos para ajuda estão concentrados, no mais alto nível, em tão poucas pessoas", afirma Manon Aubry, diretora dos Assuntos de Justiça Fiscal e Desigualdades da Oxfam na França, citada pela agência de notícias France Presse (AFP).
Segundo a ONG, "desde o início do século 21 a metade mais pobre da humanidade se beneficia de menos de 1% do aumento total da riqueza mundial, enquanto a parcela de 1% dos mais ricos partilharam metade do mesmo aumento".
Para combater o crescimento dessas desigualdades, a Oxfam pede o fim da "era dos paraísos fiscais", acrescentando que nove em dez empresas que figuram entre "os sócios estratégicos" do Fórum Econômico Mundial de Davos "estão presentes em pelo menos um paraíso fiscal".
"Devemos abordar os governos, as empresas e as elites econômicas presentes em Davos para que se empenhem a fim de acabar com esta era de paraísos fiscais, que alimenta as desigualdades globais", diz Winnie Byanyima, diretor-geral da Oxfam International, que estará em Davos.
No ano passado, vários economistas contestaram a metodologia utilizada pela Oxfam. A ONG defendeu o método utilizado no estudo de forma simples: o cálculo do patrimônio líquido, ou seja, os ativos menos a dívida.
A pequena localidade suíça de Davos vai acolher, a partir da próxima quarta-feira (20), líderes políticos e empresários para debater a 4ª Revolução Industrial.
Esta 46ª edição do fórum, que termina em 23 de janeiro, ocorre no momento em que o medo da ameaça terrorista e a falta de respostas coerentes para a crise de refugiados na Europa se juntam às dificuldades que a economia mundial encontra para voltar a crescer e à forte desaceleração das economias emergentes.
Segundo o presidente do fórum, Klaus Schwab, a "4ª revolução industrial refere-se à fusão das tecnologias", principalmente no mundo digital, que "tem efeitos muito importantes nos sistemas político, econômico e social".
(fonte: http://brasildefato.com.br/node/33929?utm_source=phplist835&utm_medium=email&utm_content=HTML&utm_campaign=Boletim+Semanal+-+Riqueza+de+1%+da+população+supera+a+de+99%+em+2015mostra+Oxfam
São Francisco de Assis e Dom Helder Camara
WALTER PRAXEDES*
A figura de São Francisco de Assis há mais de oito séculos vem cativando a admiração e o respeito não apenas entre os católicos, mas também em artistas, cineastas, escritores, acadêmicos e até fiéis de outras confissões religiosas.
Essa reverência a Francisco também parece crescer na medida em que se tornam praticamente inacessíveis as fontes com informações seguras sobre a vida, os pensamentos e as ações do santo que nasceu em Assis (Itália) em 1181 ou 1182 com o nome de Giovanni Bernardone, e faleceu em Porciúncula, em 1226, um ano depois de compor o seu famoso Cântico do irmão sol, sendo canonizado pelo Papa Gregório IX apenas dois anos depois da sua morte.
Mas como enfatizou o historiador Jacques Le Goff, toda a trajetória de Francisco passou por inúmeras revisões por parte dos seus seguidores, membros da Ordem religiosa que fundou e da própria Santa Sé católica, recebendo versões mais rigorosas, no sentido da observância aos votos de pobreza e simplicidade, ou mais espiritualistas, a depender dos pontos de vistas e até interesses dos revisores, a tal ponto que a historiografia franciscana pode ser dividida em duas tendências:
O conceito de figura proposto por Auerbach é uma forma de interpretação tipológica da história e da realidade que dominou a Idade Média europeia e que chegou até o presente através do cristianismo, “que estabelece uma relação entre dois acontecimentos, ambos históricos, na qual um deles se torna significativo não apenas em si mesmo mas também para o outro, que, por sua vez, enfatiza e completa o primeiro. Nos exemplos clássicos, o segundo é sempre a encarnação de Cristo e dos acontecimentos ligados à encarnação que levaram à libertação e ao renascimento do homem…” (Auerbach, 1997, p. 79). Assim, a vida de São Francisco é considerada como uma imitação da vida humilde de Cristo. E foi assim que “nenhum outro estilo de vida, voz ou comportamento” da Idade Média teve tanta repercussão ao longo da história como a representação construída e difundida sobre a vida de São Francisco. “Sua personalidade sobressai em virtude de seus muitos contrastes. Sua piedade, ao mesmo tempo solitária e popular, seu caráter, ao mesmo tempo doce e austero, e seu comportamento, ao mesmo tempo humilde e áspero, tornaram-se inesquecíveis” (Auerbach, 1997, p. 65).
É precisamente esta figura de Francisco de Assis que inspirou o romancista grego Nikos Kazantzakis a reescrever a sua biografia no livro O pobre de Deus. Adotando como foco narrativo do ponto de vista de Frei Leão, o mais próximo seguidor de Francisco, Kazantzakis narra como o futuro santo buscava a coerência com a vida de Cristo, mesmo em meio aos maiores sofrimentos, provações e angústias.
Também José Saramago não resistiu à figura de Francisco quando escreveu a peça A segunda vida de Francisco de Assis, enfatizando como a prática de muitos de seus continuadores e da própria Ordem que fundou adotaram práticas que seriam inaceitáveis aos olhos do santo. Adotando a figura da reencarnação de Francisco, Saramago discute na peça como seria constrangedor para o santo presenciar as ações temporais de sua Ordem.
Essa ideia de Saramago nos inspira a pensar como São Francisco se sentiria infeliz e frustrado vendo como a sua Ordem se tornou uma grande proprietária de escravos na época do Brasil colonial. Mas só podemos ter esse raciocínio comparativo sobre a prática da Ordem Franciscana no Brasil em relação à pregação da humildade, da pobreza, da igualdade e da dignidade humana por São Francisco, porque temos como parâmetro a sua figura exemplar.

No livro que o meu querido professor e amigo Nelson Piletti e eu escrevemos sobre a vida do inesquecível Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Camara: o profeta da paz, dedicamos um capítulo para tratar da identificação de Dom Helder com a figura de São Francisco. (Piletti; Praxedes, 2009, p. 123-130)
Para Dom Helder viver segundo o Evangelho significava encarnar a origem popular do cristianismo, que tornava a ética da humildade e o estilo de vida simples e despojado, em elementos importantes do ideal de santidade cristã que incorporara desde jovem. Por isso a figura de São Francisco, com o seu casamento com a pobreza, é aceita por Helder como guia para a vida terrena que antecipa a vida celestial. O Francisco de Assis representava, assim, a encarnação da plenitude que conduziria à presença de Cristo.
Inspirado em São Francisco de Assis, Dom Helder concebe para si a missão de profetizar o retorno a uma Igreja Servidora e Pobre, de acordo com os princípios que orientaram o famoso “Pacto das Catacumbas”, no qual participa da celebração com um grupo de padres e bispos no final do Concilio Vaticano II, na Igreja de Santa Domitila, em 16 de novembro de 1965.
A presença de São Francisco no mundo foi um acontecimento histórico interpretado pelos seus seguidores e por Dom Helder como prenuncio de outros acontecimentos históricos concretos. Por isso, em seu apostolado ele buscava colocar em pratica os ensinamentos de Francisco, encarnando a verdade anunciada pelo santo de Assis.
Considerando Francisco como um precursor, encarnando-o em sua vida através de sua palavra e da sua ação, Dom Helder se legitimava dentro e fora da instituição católica para trabalhar em defesa dos pobres. Da perspectiva de muitos dos seus colaboradores, dos fiéis católicos e dos admiradores de todas as religiões espalhados pelo Brasil e pelo mundo Dom Helder preenche a demanda que muitas vezes sentimos por uma força messiânica, que encarne na vida real a figura de um líder religioso e até político com uma espiritualidade profunda e com um senso de realidade histórica para anunciar que um novo mundo é possível, inspirando e mobilizando muitos que estão insatisfeitos com o mundo existente.
(fonte: https://espacoacademico.wordpress.com/2016/01/23/sao-francisco-de-assis-e-dom-helder-camara/)
A figura de São Francisco de Assis há mais de oito séculos vem cativando a admiração e o respeito não apenas entre os católicos, mas também em artistas, cineastas, escritores, acadêmicos e até fiéis de outras confissões religiosas.
Essa reverência a Francisco também parece crescer na medida em que se tornam praticamente inacessíveis as fontes com informações seguras sobre a vida, os pensamentos e as ações do santo que nasceu em Assis (Itália) em 1181 ou 1182 com o nome de Giovanni Bernardone, e faleceu em Porciúncula, em 1226, um ano depois de compor o seu famoso Cântico do irmão sol, sendo canonizado pelo Papa Gregório IX apenas dois anos depois da sua morte.
Mas como enfatizou o historiador Jacques Le Goff, toda a trajetória de Francisco passou por inúmeras revisões por parte dos seus seguidores, membros da Ordem religiosa que fundou e da própria Santa Sé católica, recebendo versões mais rigorosas, no sentido da observância aos votos de pobreza e simplicidade, ou mais espiritualistas, a depender dos pontos de vistas e até interesses dos revisores, a tal ponto que a historiografia franciscana pode ser dividida em duas tendências:
De um lado, os rigoristas, que exigiam dos Frades Menores, a prática de uma pobreza total, coletiva e individual, a recusa a todo o aparato na liturgia dos ofícios da Ordem, assim nas igrejas e nos conventos, e a guardar distância da Cúria romana, suspeita de pactuar muito facilmente com o século. De outro lado os moderados, convencidos da necessidade de adaptar o ideal da pobreza à evolução de uma Ordem de frades cada vez mais numerosa, de não repelir, por uma recusa a toda a influência exterior, as multidões sempre mais densas que se voltavam para os Frades Menores, e da necessidade de ver na Santa Sé a fonte autêntica da verdade e da autoridade numa Igreja de que a Ordem era uma parte integrante. Onde situar o verdadeiro Francisco? (Le Goff, 2001, p. 48-49).Talvez a melhor resposta para a pergunta apresentada pelo historiador – Onde situar o verdadeiro Francisco? – não seja nem a procura obsessiva por fontes que atestem o modo de vida e o pensamento do Francisco histórico, e nem uma tentativa de desconstrução do mito franciscano, mas a adoção da forma de interpretação figural de São Francisco proposta pelo crítico literário Erich Auerbach, interpretação esta que poderia prevalecer mesmo se contássemos com o acesso às fontes fidedignas sobre a vida do santo de Assis, uma vez que adotamos o modo de representar um acontecimento do passado como prenúncio de acontecimentos posteriores, considerando o fato anterior como anunciador e precursor de um acontecimento que ocorreu depois, ou este como realização e preenchimento de uma figura que o anunciava no passado.
O conceito de figura proposto por Auerbach é uma forma de interpretação tipológica da história e da realidade que dominou a Idade Média europeia e que chegou até o presente através do cristianismo, “que estabelece uma relação entre dois acontecimentos, ambos históricos, na qual um deles se torna significativo não apenas em si mesmo mas também para o outro, que, por sua vez, enfatiza e completa o primeiro. Nos exemplos clássicos, o segundo é sempre a encarnação de Cristo e dos acontecimentos ligados à encarnação que levaram à libertação e ao renascimento do homem…” (Auerbach, 1997, p. 79). Assim, a vida de São Francisco é considerada como uma imitação da vida humilde de Cristo. E foi assim que “nenhum outro estilo de vida, voz ou comportamento” da Idade Média teve tanta repercussão ao longo da história como a representação construída e difundida sobre a vida de São Francisco. “Sua personalidade sobressai em virtude de seus muitos contrastes. Sua piedade, ao mesmo tempo solitária e popular, seu caráter, ao mesmo tempo doce e austero, e seu comportamento, ao mesmo tempo humilde e áspero, tornaram-se inesquecíveis” (Auerbach, 1997, p. 65).
É precisamente esta figura de Francisco de Assis que inspirou o romancista grego Nikos Kazantzakis a reescrever a sua biografia no livro O pobre de Deus. Adotando como foco narrativo do ponto de vista de Frei Leão, o mais próximo seguidor de Francisco, Kazantzakis narra como o futuro santo buscava a coerência com a vida de Cristo, mesmo em meio aos maiores sofrimentos, provações e angústias.
Também José Saramago não resistiu à figura de Francisco quando escreveu a peça A segunda vida de Francisco de Assis, enfatizando como a prática de muitos de seus continuadores e da própria Ordem que fundou adotaram práticas que seriam inaceitáveis aos olhos do santo. Adotando a figura da reencarnação de Francisco, Saramago discute na peça como seria constrangedor para o santo presenciar as ações temporais de sua Ordem.
Essa ideia de Saramago nos inspira a pensar como São Francisco se sentiria infeliz e frustrado vendo como a sua Ordem se tornou uma grande proprietária de escravos na época do Brasil colonial. Mas só podemos ter esse raciocínio comparativo sobre a prática da Ordem Franciscana no Brasil em relação à pregação da humildade, da pobreza, da igualdade e da dignidade humana por São Francisco, porque temos como parâmetro a sua figura exemplar.

No livro que o meu querido professor e amigo Nelson Piletti e eu escrevemos sobre a vida do inesquecível Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Camara: o profeta da paz, dedicamos um capítulo para tratar da identificação de Dom Helder com a figura de São Francisco. (Piletti; Praxedes, 2009, p. 123-130)
Para Dom Helder viver segundo o Evangelho significava encarnar a origem popular do cristianismo, que tornava a ética da humildade e o estilo de vida simples e despojado, em elementos importantes do ideal de santidade cristã que incorporara desde jovem. Por isso a figura de São Francisco, com o seu casamento com a pobreza, é aceita por Helder como guia para a vida terrena que antecipa a vida celestial. O Francisco de Assis representava, assim, a encarnação da plenitude que conduziria à presença de Cristo.
Inspirado em São Francisco de Assis, Dom Helder concebe para si a missão de profetizar o retorno a uma Igreja Servidora e Pobre, de acordo com os princípios que orientaram o famoso “Pacto das Catacumbas”, no qual participa da celebração com um grupo de padres e bispos no final do Concilio Vaticano II, na Igreja de Santa Domitila, em 16 de novembro de 1965.
A presença de São Francisco no mundo foi um acontecimento histórico interpretado pelos seus seguidores e por Dom Helder como prenuncio de outros acontecimentos históricos concretos. Por isso, em seu apostolado ele buscava colocar em pratica os ensinamentos de Francisco, encarnando a verdade anunciada pelo santo de Assis.
Considerando Francisco como um precursor, encarnando-o em sua vida através de sua palavra e da sua ação, Dom Helder se legitimava dentro e fora da instituição católica para trabalhar em defesa dos pobres. Da perspectiva de muitos dos seus colaboradores, dos fiéis católicos e dos admiradores de todas as religiões espalhados pelo Brasil e pelo mundo Dom Helder preenche a demanda que muitas vezes sentimos por uma força messiânica, que encarne na vida real a figura de um líder religioso e até político com uma espiritualidade profunda e com um senso de realidade histórica para anunciar que um novo mundo é possível, inspirando e mobilizando muitos que estão insatisfeitos com o mundo existente.
Referências
AUERBACH, Erich. Figura. São Paulo, Ática, 1997.
KAZANTZAKIS, Nikos. O pobre de Deus. São Paulo, Círculo do Livro, s/d.
LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis. Rio de Janeiro, Record, 2001.
PILETTI, Nelson; PRAXEDES, Walter. Dom Helder Camara – o profeta da paz. São Paulo, Contexto, 2008.
SARAMAGO, José. “A segunda vida de Francisco de Assis”. In: Que farei com este livro?. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.
* WALTER PRAXEDES é Cientista Social, Mestre e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e professor associado do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá (PR). Blog: https://walterpraxedes.wordpress.com/
(fonte: https://espacoacademico.wordpress.com/2016/01/23/sao-francisco-de-assis-e-dom-helder-camara/)
sábado, 23 de janeiro de 2016
Não podemos desistir de lutar pela democracia
Do Swiss Info
Por Mirela Tavares, São Paulo
Em
meio a uma das maiores crises política e econômica em que se encontra o
Brasil, a frase acima do advogado, jurista, escritor e professor
aposentado Fábio Konder Comparato serve de motivação. Ela se refere a
seus esforços e de outros brasileiros que incansavelmente tentam
contribuir para mudanças concretas em pró da democracia no País. Uma
luta que ele alerta ser difícil e demorada até porque, como salienta, a
democracia no Brasil nunca existiu na prática.
Sua
afirmação é sustentada por uma realidade histórica mantida, sob sua
ótica, nas mãos de uma dominação política e econômica oligárquica. E
exemplifica como isso torna claramente difícil, senão impossível, para o
povo exercer sua soberania, fator essencial para a democracia.
Seus
argumentos se tornam ainda mais fortes quando descortina manobras
políticas que se repetem em uma espécie de jogo contra das próprias
instituições. Pouco divulgadas pela grande imprensa, tais manipulações
de representantes públicos impedem as pessoas de entenderem e se
manifestarem eficientemente contra um sistema que só aumenta essa
concentração de poder.
Ainda
assim, ele não esmorece na busca de soluções. Entre elas, atua
fortemente em projetos como o pela iniciativa popular (direito dos
cidadãos de proporem projetos de lei para a apreciação do Poder
Legislativo) e a disseminação de massa de informações claras sobre
política e economia. Para ele, romper a barreira do desconhecimento do
que está por trás de certas ações dos poderes Legislativo, Executivo e
Judiciário é um passo fundamental para esclarecer a população, jogando
luz sobre o que são práticas democráticas e buscando de fato a soberania
do povo brasileiro.
swissinfo.ch: Qual a realidade da crise política e econômica do Brasil e como está relacionada à democracia do País?
Fábio Konder Comparato:
Estamos com a probabilidade de um colapso econômico, o que certamente
repercute muito fortemente no campo político. Este cenário é resultado
de uma fase de desindustrialização em que entrou o Brasil e, com isso,
de não crescimento econômico. Teremos este ano e certamente o ano que
vem dois anos de recesso econômico, ou seja, de crescimento negativo.
Isso só ocorreu na história do Brasil nos anos de 1930 e 1931, em
consequência da crise de 1929. Então, precisamos saber qual é a causa
disso. A meu ver a causa está no fato de a classe dominante atual não
ser mais composta de industriais, e sim de banqueiros. Os banqueiros, ou
melhor, o próprio sistema financeiro não é produtor de riquezas; quando
muito auxilia a produção do crescimento econômico. O que acontece
também é que a mentalidade dominante, não só no Brasil, mas no mundo
inteiro, é de ganhar dinheiro com especulação financeira ou simplesmente
com investimentos em papéis que dão renda. Os antigos industriais se
transformaram em rentistas. Estamos passando da fase do capitalismo
industrial para a do capitalismo financeiro.
swissinfo.ch: Um caminho que parece irreversível?
FKC:
Isso não vai ser resolvido pelo Brasil. Tem de ser decidido e mudado no
mundo todo. Mas com o provável colapso econômico no País, vai se tentar
uma mudança superficial no campo poliítico: sai fulano, entra beltrano;
faz-se outra coligação partidária etc. Mas isso não muda a origem da
doença, que é o fato de que a classe dominante, composta de banqueiros,
não tem condição de mudar a regra do jogo.
swissinfo.ch: O que o cidadão comum pode fazer para tentar mudar essa realidade?
FKC:
Nós temos que procurar mudanças institucionais. É por isso que faço
parte de um pequeno grupo de advogados, juristas, economistas e
cientistas políticos, que decidiu entrar em contato com alguns deputados
federais para tentar abrir uma fresta, um buraco nessa muralha
oligárquica, que existe desde sempre entre nós. Nossa oligarquia é
composta de potentados econômicos privados, intimamente associados aos
principais agentes estatais.
swissinfo.ch: Esse cenário já não é resultado da falta de conhecimento das pessoas sobre os próprios direitos?
FKC:
Podemos conhecer nossos direitos, mas não podemos exigir o cumprimento
deles, porque tudo depende de um poder de dominação; poder, como eu
disse, composto de potentados econômicos privados, ou seja, de grandes
empresários, agora sobretudo do sistema financeiro e dos principais
agentes estatais, tanto do Legislativo, quanto do Executivo e do
Judiciário.
swissinfo.ch: Como está atuando nesse grupo do qual mencionou?
FKC:
Entramos em contato com a deputada Luiza Erundina, que reuniu em
Brasília cerca de 30 deputados federais, ocasião em que expus a ideia de
que precisamos deixar de cuidar apenas dos sintomas econômicos e
políticos para tratar a doença na sua causa principal, que é a dominação
oligárquica e a desigualdade social.
swissinfo.ch: É possível mudar?
FKC:
Sim, mas obviamente não é uma mudança a ser feita da noite para o dia.
Vai levar muito tempo, sobretudo porque é preciso atuar sobre a opinião
pública, que ignora tudo isso e é permanentemente deformada pelo poder
ideológico exercido pelos líderes capitalistas. Numa sociedade de
massas, como a atual, a opinião pública sofre a influência decisiva dos
meios de comunicação de massa. Estima-se que o tempo médio de
acompanhamento de televisão no Brasil é de três horas diárias. Então,
veja: a grande imprensa, o rádio e a televisão estão nas mãos de quem?
De empresários e políticos. Há um número considerável de políticos que
têm rádios locais, ou então estão ligados a redes de televisão, o que
chegou a ser denunciado pela Unesco em um relatório de 2010. Temos de
tentar, como eu disse, abrir brechas nessa muralha, o que requer
projetos de lei específicos.
swissinfo.ch: Poderia exemplificar?
FKC:
Foi aprovado por unanimidade, no Senado Federal, um projeto de lei que
regula o direito de resposta no rádio e na televisão. Ele foi para a
Câmara dos Deputados, onde o Presidente Eduardo Cunha vem impedindo a
sua tramitação regular. Ele mesmo disse que só se conseguirá aprovar na
Câmara um projeto de lei sobre meios de comunicação social, passando por
cima do seu cadáver. Pois bem, esse grupo de 30 parlamentares vai
tentar desbloquear esse projeto, sem ter que passar, evidentemente, por
cima do cadáver do Cunha. Outro ponto importante diz respeito à
iniciativa popular legislativa. Até hoje nenhum projeto de iniciativa
popular foi aprovado no Congresso Nacional. Fala-se muito do projeto de
Ficha Limpa para as candidaturas ao Congresso, mas ele não foi aprovado
como projeto de iniciativa popular. Ele acabou sendo transformado em
projeto de lei de alguns deputados.
swissinfo.ch: Por quê?
FKC:
Por uma exigência absurda, imposta pela direção da Câmara dos
Deputados: a conferência de todas as assinaturas. Veja, nós temos hoje
cerca de 150 milhões de eleitores. A Constituição exige que o projeto de
iniciativa popular seja apresentado por 1% do eleitorado, o que perfaz,
em boa matemática, 1,5 milhão de eleitores. Ora, a Câmara dos Deputados
não tem organização para fazer a conferência de 1,5 milhão de
assinaturas, nem em um ano ou mesmo dois. Por isso que estou preparando
um anteprojeto de lei sobre iniciativa popular que dispense a
conferência de assinaturas.
swissinfo.ch: O povo, então, está engessado?
FKC:
É óbvio. Na verdade, temos duas constituições em vigor. Uma, oficial,
saudada como “Constituição-cidadã” e que é apenas uma fachada. Por trás
dela, vigora outra constituição pela qual os interesses dos grupos
dominantes são preservados. Por exemplo, a Constituição oficial prevê
como manifestações da soberania popular o referendo, o plebiscito e a
iniciativa popular. Já disse que a iniciativa popular é impossível,
porque os oligarcas impuseram a exigência de se conferirem todas as
assinaturas, exigência essa que não está na Constituição, nem na lei de
1998, que regula a matéria.
swissinfo.ch: Imposições que cerceiam o poder popular?
FKC:
Claro. O que se quer é mostrar para o mundo que somos um país
civilizado, dotado de uma constituição democrática, na qual se declara
que a soberania popular se manifesta, não só pela iniciativa direta de
leis, mas também por plebiscitos e referendos. Acontece que a
Constituição Brasileira, em seu artigo 49, inciso XV, declara ser da
competência exclusiva do Congresso Nacional autorizar referendo e
convocar plebiscito. Os parlamentares, como sabido, se intitulam
representantes ou mandatários do povo. O mandatário, como ninguém
ignora, deve agir segundo a vontade do mandante. Mas o mandato político
que aqui vigora é sui generis, pois o povo mandante só pode manifestar
sua vontade, quando seus representantes o permitirem.
swissinfo.ch: E o povo está, de certa forma, alheio a isso?
FKC:
De que maneira a população se informa dos assuntos públicos?
Basicamente através do rádio e da televisão. Mas esses meios de
comunicação social são controlados neste país pelos grupos oligárquicos.
Então, o que podemos tentar fazer para superar esse impasse é uma
aliança com determinados blogs, como o "Conversa Afiada" do Paulo
Henrique Amorim, para que eles deem ao povo as informações sonegadas
pelos grupos que controlam os meios de comunicação de massa.
swissinfo.ch: O antigo problema dos meios de comunicação no País.
FKC:
A Constituição tem vários dispositivos importantes sobre meios de
comunicação social. O artigo 220, parágrafo 5º, diz que os meios de
comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de
monopólio ou oligopólio. Por outro lado, o artigo 221, inciso I,
determina que a produção e a programação das emissoras de rádio e
televisão deem preferência a finalidades educativas, artísticas,
culturais e informativas. A Constituição foi promulgada em 1988. Até
hoje, passados mais de um quarto de século, o Legislativo não
regulamentou isso. Então, em 2011, eu ajuizei no Supremo Tribunal
Federal, em nome de um partido político e de uma confederação nacional
de trabalhadores, uma ação direta de inconstitucionalidade por omissão.
Em 2011!
swissinfo.ch: Em que pé está isso?
FKC: Não está em pé nenhum. Está debaixo do braço da ministra Rosa Weber.
swissinfo.ch: Por que é tão difícil o cidadão exercer a prática democrática no Brasil?
FKC:
Exatamente porque o povo não tem poder nenhum. Qual é o poder do povo?
Eleger representantes? Todo mundo sabe que as eleições são decididas
pelo poder econômico, em ligação com os políticos profissionais.
swissinfo.ch: É bastante desanimador.
FKC:
Eu, porém, não perco a esperança. É preciso é conhecer a profundidade
da moléstia e saber como atuar. Por exemplo, o tal ajuste fiscal,
proposto pelo ministro Joaquim Levy, acabará por afundar ainda mais o
setor industrial. O que vamos propor ao grupo de deputados a que me
referi é chamar representantes da indústria e saber como é possível
relançar a industrialização do País. A partir daí, apresentar projetos
de lei, mas sabendo que os banqueiros, que são atual classe dominante,
estão ligados intimamente ao pessoal do Congresso, do Executivo e também
do Judiciário. Por exemplo, sobre a questão do financiamento
empresarial de campanhas eleitorais, a OAB entrou (em 2014) com uma ação
de inconstitucionalidade da lei que permite isso. Aberto o processo no
Supremo Tribunal Federal, seis ministros votaram pela procedência da
ação. Foi então que o Ministro Gilmar Mendes – quando a matéria já
estava decidida, pois o Supremo tem 11 ministros – pediu vista
antecipada dos autos, e o presidente do Supremo concedeu. O que ele fez?
Segurou os autos e não os devolveu até hoje. Coincidentemente, o
presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, logrou aprovar
irregularmente naquela Casa uma emenda constitucional, oficializando o
financiamento empresarial de campanhas eleitorais.
swissinfo.ch: Como se deu a manobra?
FKC:
Na primeira votação ele perdeu. O que diz a Constituição? Emenda
Constitucional rejeitada só poderá ser reapresentada na sessão
legislativa seguinte. Portanto, ele teria de esperar 2016. Contudo, no
dia seguinte à recusa dessa proposta de emenda constitucional, Cunha
apresentou outra do mesmo teor, manobrou e conseguiu sua aprovação em 24
horas. Então, 61 deputados entraram com um mandado de segurança no
Supremo, que foi distribuído para a Ministra Rosa Weber. Ela negou a
medida liminar de suspensão da tramitação na Câmara, deixando a
entender, com isso, que vai votar no mérito contra esse mandado de
segurança. Ora, se tudo isso fosse explicado para o povo, já seria um
enfraquecimento do poder oligárquico. Por que não sai a notícia nas
grandes redes de televisão, da imprensa e de rádio? Porque elas estão
nas mãos do grupo oligárquico.
swissinfo.ch: E aí voltamos para o motivo dessa entrevista, a questão da democracia brasileira.
FKC:
A nossa democracia não existe. Democracia é soberania do povo. O
soberano decide diretamente as grandes questões nacionais, como a
aprovação de uma Constituição e suas emendas, sem se limitar a eleger
representantes. Há até alguns países, como os Estados Unidos, onde em 15
Estados o eleitorado tem o poder de destituir aqueles que elegeu. É o
chamado recall.
swissinfo.ch: A Suíça também, mas há quem diga que a democracia só funciona lá por ser um país pequeno.
FKC:
Não é por isso. É pelo fato de que na Suíça existe uma classe média
tradicionalmente forte, não havendo a terrível desigualdade social que
sempre existiu no Brasil. Na Suíça, agora, é tradicionalmente a classe
média que tem a maioria e que decide em última instância sobre emendas à
Constituição, por exemplo. A Constituição Suíça desde sempre é de
democracia direta. Os povos daquela região se uniram em uma confederação
na qual os povos dos diferentes cantões decidem diretamente as grandes
questões de interesse geral.
swissinfo.ch: O que poderia ter sido feito também no Brasil?
FKC:
Claro. Não vale esse argumento de a Suíça ser pequena. O problema todo
do Brasil é que o povo nunca teve soberania. Quando é que começou
realmente o Estado do Brasil? Depois das capitanias hereditárias, que
eram feudos autônomos. Em 1549, chegou ao Brasil o primeiro Governador
Geral, Tomé de Souza, acompanhado de 1200 funcionários, civis, militares
e um punhado de jesuítas, liderados pelo Padre Manuel da Nóbrega. Ele
trouxe o Regimento Geral de Governo, que era uma espécie de
constituição. Tudo nele estava previsto. Nessa organização política
havia, porém, uma lacuna: não havia povo. A população indígena autóctone
não o formava, pois os índios não tinham direitos. Tampouco formava o
conjunto de cidadãos a massa crescente de escravos trazidos da África.
Ora, esses administradores que para cá vinham como representantes do rei
de Portugal só tinham um pensamento: enriquecer no Brasil e voltar em
seguida para a metrópole. E de que maneira senão aliando-se aos senhores
de engenho, aos grandes proprietários rurais ou então se tornando eles
próprios senhores de engenho, tendo parentes com testas de ferro. Isso
perdurou durante todo o Brasil Colônia.
swissinfo.ch: E continuou.
FKC:
Depois nos tornamos um país independente, dotado de uma Constituição do
mesmo nível das que vigoravam nos principais países europeus e nos
Estados Unidos. O esquema de governo, no entanto, continuou o mesmo. Os
grandes políticos, com o poder centralizado na Corte, o Rio de Janeiro,
permaneceram intimamente ligados aos coronéis do interior. E o povo?
Ora, o povo! O povo elegia seus representantes indiretamente até o final
do Império. Havia eleições em dois turnos. Primeiro, elegiam-se os
chamados grandes eleitores, os quais em seguida elegiam os membros da
Assembleia Geral do Império. O Senado não era composto de representantes
do povo, mas sim de pessoas nomeadas pelo Imperador. Aí, chegamos à
República, quando se estabeleceu basicamente o que existe até hoje: o
único poder do povo é eleger representantes no Legislativo e os chefes
de Executivo. A Constituição é feita pelos membros do Congresso
Nacional, cuja eleição é decidida, em sua quase totalidade pelo dinheiro
ou pelo poder político local. É por isso que precisamos começar por
demolir essa barreira oligárquica.
swissinfo.ch: O senhor tem exemplos práticos?
FKC:
Em 2004, eu apresentei em nome da OAB um projeto de lei regulando
plebiscito, referendo e iniciativa popular. Obviamente ele continua lá
na Câmara até hoje, sem ter sido votado. É por isso que estou insistindo
em iniciativa popular legislativa e no desbloqueio dos meios de
comunicação social. É indispensável, por exemplo, liberar o
funcionamento das rádios comunitárias. A Globo conseguiu, de início, que
a criação de rádios comunitárias fosse tipificada como um crime. Agora
essas rádios são permitidas, mas com tantas restrições que praticamente
não funcionam. Para mudar tudo isso, é preciso dar poder efetivo ao povo
e tentar demolir o poder ideológico exercido pela oligarquia através
dos meios de comunicação social. Mas, como eu disse, não é um trabalho
fácil, ou que se faça em pouco tempo.
(fonte: enviado por email pela leitora Sandra Araújo)
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