A
Editora Contexto apresenta dois importantes lançamentos.
Goodbye,
Brazil, da premiada antropóloga Maxine L. Margolis, mostra
como é ser brasileiro no exterior. Conquistas e fracassos, perda
e reforço de identidade aparecem nesse livro delicioso, por vezes
divertido, por vezes pungente.
A
Sociologia como Aventura é o aguardado livro de memórias
de um dos mais importantes cientistas sociais do Brasil, José de
Souza Martins. A USP, os intelectuais, os amigos, os governos militares,
a repressão, as certezas e as dúvidas, tudo está
neste livro fascinante e esclarecedor.
Duas
obras necessárias em sua biblioteca pessoal.
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quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Dois livros que me parecem bem interessantes!
O lado oculto da votação que livrou Donadon
Ainda tem gente que se surpreende com as atitudes de uma boa parcela do Congresso. Enquanto não mudarmos uma série de coisas em nosso processo político, continuaremos a ver situações como esta, em que os nobres parlamentares se recusam a punir alguém do grupo. Mas é como o articulista diz: eles pensam no amanhã, quando também poderão estar na incômoda posição do deputado Donadon...
O lado oculto da votação que livrou Donadon
(publicado no site da Agência Carta Maior)
Efeito Orloff
Foi mais do que simples corporativismo. Muitos parlamentares ficaram aterrorizados com a situação de Natan Donadon (Sem partido-RO) porque viram a si próprios em sua pele. Ela tinha as marcas das algemas. É como se, em seus ouvidos, tivesse soado a frase celebrizada por uma antiga propaganda de vodca (Orloff) em que um clone diz ao seu original: "eu sou você amanhã".
A avaliação do caso é feita por assessores da Câmara dos Deputados, que trabalham em gabinetes de diferentes partidos, e consultores legislativos, que são servidores do quadro da Câmara, ouvidos sobre a votação possível, mas inimaginável da última quarta-feira, 28 de agosto.
Todos são assessores ou consultores com, pelo menos, mais de uma década na casa. Conhecem como ninguém o que pensam e como agem os parlamentares. Muitos lidam com os assuntos escabrosos que tiram o sono de seus deputados e, vez por outra, confidenciam seus dramas.
Dentre as várias razões decisivas para evitara a cassação de Natan Donadon, a mais importante de todas, sem sombra de dúvida, foi o pavor da carceragem da Polícia Federal. Ela contribuiu para a maior parte dos 131 votos pró-Donadon.
Coincidentemente, mais de uma centena de deputados tem processos na Justiça, alguns já em fase avançada, e temem algum dia sofrer condenações do mesmo tipo da que se abateu sobre Donadon, acusado de ter praticado um desvio da ordem de R$ 8 milhões, da Assembleia Legislativa de Rondônia.
Eram necessários pelo menos 257 votos para a perda de mandato. Houve apenas 233. Entre os 131 dados em defesa do parlamentar, um deles foi do próprio Donadon.
Time pró-Donadon chega a 1/3 da Câmara
O primeiro número (131) impressiona. Os que votaram contra a cassação do deputado correspondem a um quarto dos membros da Câmara. É mais da metade dos votos favoráveis à cassação (233). É maior do que o número dos que estiveram ausentes (108), que inclui os que faltaram à sessão e os que haviam registrado presença, mas não foram ao plenário votar.
Na verdade, o time de defensores de Donadon é ainda maior. Dada a situação do deputado-presidiário, deve-se incluir na conta os 41 que se abstiveram. A abstenção é uma das opções de voto dos parlamentares, que inclui também "sim", "não" e "obstrução".
Perguntados, assessores e consultores concordam que os deputados quiseram maquiar seu voto. Esconderam-se no anonimato do voto secreto e, até o momento, estão mais do que confortáveis com o foco negativo que grande parte da imprensa tem conferido aos ausentes. Os que não compareceram para votar têm sido tratados de forma até mais dura do que os que votaram favoravelmente a Donadon, que estão protegidos pelo sigilo da votação.
Os que se abstiveram queriam e têm, pelo menos por agora, conseguido ficar totalmente invisíveis no processo. Preservaram Donadon e evitaram ser listados como "gazeteiros" ou omissos, pechas aplicadas aos que não foram votar.
A abstenção foi ainda uma precaução para a possibilidade de que fossem flagrados, na hora do aperto dos botões, ou por fotógrafos posicionados nas galerias, ou por colegas vizinhos de cadeira, que poderiam dedurá-los.
Fora isso, há uma hipótese remota, mas não impossível: pesa até hoje uma desconfiança sobre o sigilo do voto, sobre o qual os parlamentares confiam desconfiando, desde o episódio da fraude da votação secreta do Senado, em 2000. Os, à época, presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (do extinto PFL) e o líder do governo FHC no Senado, José Roberto Arruda, do PSDB, disseram que tinham em mãos a lista dos parlamentares que votaram contra e a favor da cassação de Luiz Estevão.
Portanto, o time de Donadon é composto por 131 titulares e 41 reservas. Temos um em cada três deputados. É muito. O suficiente para explicar as dificuldades eternas em se aprovar uma reforma política que mexa, por exemplo, com as regras atuais de financiamento de campanha.
*Antonio Lassance é cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do instituto.
Foi mais do que simples corporativismo. Muitos parlamentares ficaram aterrorizados com a situação de Natan Donadon (Sem partido-RO) porque viram a si próprios em sua pele. Ela tinha as marcas das algemas. É como se, em seus ouvidos, tivesse soado a frase celebrizada por uma antiga propaganda de vodca (Orloff) em que um clone diz ao seu original: "eu sou você amanhã".
A avaliação do caso é feita por assessores da Câmara dos Deputados, que trabalham em gabinetes de diferentes partidos, e consultores legislativos, que são servidores do quadro da Câmara, ouvidos sobre a votação possível, mas inimaginável da última quarta-feira, 28 de agosto.
Todos são assessores ou consultores com, pelo menos, mais de uma década na casa. Conhecem como ninguém o que pensam e como agem os parlamentares. Muitos lidam com os assuntos escabrosos que tiram o sono de seus deputados e, vez por outra, confidenciam seus dramas.
Dentre as várias razões decisivas para evitara a cassação de Natan Donadon, a mais importante de todas, sem sombra de dúvida, foi o pavor da carceragem da Polícia Federal. Ela contribuiu para a maior parte dos 131 votos pró-Donadon.
Coincidentemente, mais de uma centena de deputados tem processos na Justiça, alguns já em fase avançada, e temem algum dia sofrer condenações do mesmo tipo da que se abateu sobre Donadon, acusado de ter praticado um desvio da ordem de R$ 8 milhões, da Assembleia Legislativa de Rondônia.
Eram necessários pelo menos 257 votos para a perda de mandato. Houve apenas 233. Entre os 131 dados em defesa do parlamentar, um deles foi do próprio Donadon.
Time pró-Donadon chega a 1/3 da Câmara
O primeiro número (131) impressiona. Os que votaram contra a cassação do deputado correspondem a um quarto dos membros da Câmara. É mais da metade dos votos favoráveis à cassação (233). É maior do que o número dos que estiveram ausentes (108), que inclui os que faltaram à sessão e os que haviam registrado presença, mas não foram ao plenário votar.
Na verdade, o time de defensores de Donadon é ainda maior. Dada a situação do deputado-presidiário, deve-se incluir na conta os 41 que se abstiveram. A abstenção é uma das opções de voto dos parlamentares, que inclui também "sim", "não" e "obstrução".
Perguntados, assessores e consultores concordam que os deputados quiseram maquiar seu voto. Esconderam-se no anonimato do voto secreto e, até o momento, estão mais do que confortáveis com o foco negativo que grande parte da imprensa tem conferido aos ausentes. Os que não compareceram para votar têm sido tratados de forma até mais dura do que os que votaram favoravelmente a Donadon, que estão protegidos pelo sigilo da votação.
Os que se abstiveram queriam e têm, pelo menos por agora, conseguido ficar totalmente invisíveis no processo. Preservaram Donadon e evitaram ser listados como "gazeteiros" ou omissos, pechas aplicadas aos que não foram votar.
A abstenção foi ainda uma precaução para a possibilidade de que fossem flagrados, na hora do aperto dos botões, ou por fotógrafos posicionados nas galerias, ou por colegas vizinhos de cadeira, que poderiam dedurá-los.
Fora isso, há uma hipótese remota, mas não impossível: pesa até hoje uma desconfiança sobre o sigilo do voto, sobre o qual os parlamentares confiam desconfiando, desde o episódio da fraude da votação secreta do Senado, em 2000. Os, à época, presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (do extinto PFL) e o líder do governo FHC no Senado, José Roberto Arruda, do PSDB, disseram que tinham em mãos a lista dos parlamentares que votaram contra e a favor da cassação de Luiz Estevão.
Portanto, o time de Donadon é composto por 131 titulares e 41 reservas. Temos um em cada três deputados. É muito. O suficiente para explicar as dificuldades eternas em se aprovar uma reforma política que mexa, por exemplo, com as regras atuais de financiamento de campanha.
*Antonio Lassance é cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do instituto.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Mais uma interpretação (boa) do possível conflito na Síria
Publicado no blog da KikaCastro, a análise do nosso colaborador emérito, José de Castro, revela novas facetas sobre os motivos do possível novo conflito na região do Oriente Médio.
Os reais motivos por trás de uma guerra dos EUA contra a Síria
Texto escrito por José de Souza Castro:
É
possível que muitos leitores estejam se indagando o quê, de fato, move
os Estados Unidos a entrar numa nova guerra, desta vez para derrubar
Bashar Al-Assad, pondo em risco milhares de vidas a pretexto de punir o
ditador pela morte, com armas químicas, de pouco mais de mil sírios.
Talvez Jerry Robinson,
autor do best-seller “Bankruptcy of Our Nation: 21 Income Streams” e
publisher do site "Follow the Money Weekly", possa ser de alguma ajuda
para vencer a nossa perplexidade.
Em artigo publicado no dia 27 de agosto e que pode ser lido AQUI
em tradução portuguesa, um tanto atroz, Robinson afirma que em 2011,
algumas semanas após ser desencadeada a guerra civil na Síria, o jornal
"Tehran Times" informou que Síria, Irã e Iraque planejavam construir o
Gasoduto Islâmico para exportar gás iraniano (e russo) para a Europa.
Teria extensão total de 6.000 quilômetros e custaria US$ 10 bilhões, com
previsão de ficar pronto em 2018.
Em
julho passado, os líderes da Síria, Irã e Iraque se reuniram para
assinar um acordo preliminar sobre o gasoduto, com esperança de fechá-lo
até o fim deste ano.
Os
três países são governados por xiitas. O problema é que países do Golfo
governados por sunitas, principalmente Arábia Saudita e Qatar, aliados
dos Estados Unidos e de outros países ocidentais, têm seu próprio
projeto (o Gasoduto Árabe), que também passaria pela Síria. Mas que
sofre forte oposição de Assad. Este, por sua vez, tem como inimigos na
região Israel, Jordânia e Turquia, além da Al Qaeda, que gostaria de
derrubar Assad para instalar um governo sunita na Síria.
Jerry
Robinson classifica como propaganda tudo isso que vem sendo dito a
respeito do uso de armas químicas pelo governo Assad. Afirma que os EUA
planejavam, há muito tempo, tomar a Síria. Ele cita um general
americano, Wesley Clark, segundo o qual os Estados Unidos já tinham
tomado a decisão de invadir a Síria em 2001. Além disso, afirma o autor,
evidências mais contundentes da intenção do Ocidente de lançar um
ataque preventivo contra a Síria foram reveladas num relatório
“explosivo” divulgado pelo jornal britânico “Daily Mail” em janeiro de
2013.
O
jornal teria se baseado em e-mails alegadamente vazados que provariam
que a Casa Branca “deu luz verde a um ataque com armas químicas na Síria
que poderia ser atribuído ao regime de Assad”, para estimular uma ação
militar internacional contra o país devastado. Os e-mails seriam de dois
altos funcionários de uma empresa britânica (a Britan) do ramo de
defesa. Se verdadeiros, o Qatar é que financiaria as forças rebeldes na
Síria para o uso de armas químicas. Por sinal, algumas semanas atrás o
“Daily Mail” retirou essa história de seu site, “talvez na expectativa
da recente ação de armas químicas”, escreveu Robinson.
Outro autor, Paul Joseph Watson,
afirmou no dia 28 de agosto que interceptações de chamadas telefônicas
indicam que o governo sírio não ordenou o ataque. Mesmo assim, elas
seriam apresentadas pelo governo Obama como prova de que Bashar Al-Assad
estava por trás da matança por armas químicas.
As
chamadas telefônicas feitas pelo Ministério da Defesa da Síria foram
interceptadas pelo Mossad, o serviço secreto israelense, e comunicadas
aos EUA. Os oficiais sírios trocaram, em pânico, telefonemas com o líder
de uma unidade de armas químicas, exigindo respostas para uma ação que
matou mais de mil pessoas, horas após o ataque da semana passada. Por
que, indaga Watson, estaria o Ministério da Defesa fazendo tais chamadas
assustadas, se ele tivesse ordenado o ataque? Ou o Ministério não deu a
ordem ou, no pior dos cenários, ela foi dada por um oficial sírio que
ultrapassou os limites de sua competência.
O
que precisamos saber, antes de ser contra ou a favor de Barack Obama
nessa decisão de atacar a Síria, é se ele está preocupado mesmo com
vidas humanas ou com os bilhões de dólares que empresas de seu país
esperam ganhar com a guerra – ou com o Gasoduto – ou será oleoduto? –
Árabe.
A cruzada de Obama
Recebi hoje. Como não repassar?
A charge e a nota são do 247.
(Hollande, se o Obama já era uma decepção, o que pensar de você???)
247 - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, prepara sua intervenção à Síria, com apoio dos árabes amigos e apenas do presidente francês, François Hollande. Bashar al Assad já disse que um ataque ao país teria "repercussões negativas". Na arte do cartunista Carlos Latuff, Obama, o senhor da guerra:

Globo: o odor da saturação
Não sei a razão...(contém ironia!) mas ao saber do "arrependimento" da Globo com relação ao golpe de 64, fiquei a pensar no "arrependimento" dos "terroristas" que, depois de devidamente torturados, vieram a público mostrar-se "profundamente arrependidos" do que fizeram... O artigo abaixo é do Saul Leblon, publicado no site da Agência Carta Maior. Interessante que não vi em nenhum veículo da "grande imprensa" qualquer referência ao esterco jogado no prédio da Globo em SP. (claro... a última frase também contêm uma certa dose de ironia)
Globo: o odor da saturação
Não se sabe ainda se há relação de causalidade entre uma coisa e outra.O fato é que manifestantes do Levante Popular guarneceram a sede da Globo em SP, neste sábado (31), com fezes. A retribuição, em espécie, dizem os integrantes do protesto, remete ao conteúdo despejado diuturnamente pela emissora nos corações e mentes da cidadania brasileira.
Apenas algumas horas depois, uma nota postada no site do jornal ‘O Globo’ manifestava o arrependimento da corporação pelo editorial de 2 de abril de 1964, de apoio ao golpe que derrubou Jango e instalou, por 21 anos, uma ditadura militar no país (Leia os dois textos ao final desta nota).
Se a matéria-prima do protesto motivou a purgação é imponderável.
Mas por certo a recíproca é verdadeira.
O fecalismo voador de que foi alvo o edifício-sede das Organizações Globo na capital paulista é decorrência da ação coesa, contínua, não raro beligerante, que o maior grupo de mídia do país tem dispensado contra ideais e forças progressistas do país.
A nota deste sábado é histórica.
Mais pela evidência da mudança na correlação de forças que obriga a emissora a se desfazer de um legado incomodo, do que pelo arrependimento que simula.
Na verdade, nem simula direito.
A nota faz malabarismo, tergiversa e mente para justificar o golpe que apoiou ostensivamente.
No fundo, apenas lamenta ter sido tão desabrida, como se não houvesse amanhã.
O amanhã chegou.
Seja na forma de matéria fecal, protestos massivos, redes alternativas de informação, desqualificação ética, queda de audiência e desprestígio editorial.
O fato é que há na sociedade um discernimento crescente em relação aos verdadeiros propósitos e interesses que movem o noticiário, as campanhas e perseguições movidas pelas Organizações Globo contra projetos, direitos, governos, lideranças e partidos.
A Globo foi e é parte diretamente interessada no assalto ao poder que interrompeu a democracia brasileira em março de 1964.
Não se trata de um editorial isolado, como tenta edulcorar a nota deste sábado.
Testemunha-o o acervo de 49 anos de pautas golpistas depois do golpe.E décadas de idêntico engajamento pré-64.
Ou terá sido coincidência que, em 24 de agosto de 1954, consternado com a notícia do suicídio de Vargas, o povo carioca perseguiu e escorraçou porta-vozes da oposição virulenta ao Presidente; cercou e depredou a sede da rádio Globo, que saiu do ar?
O mesmo cerco que levaria Vargas ao suicídio, asfixiou Jango, dez anos depois.
Foi da mídia (a Globo na comissão de frente), a iniciativa de convocar o medo, a desconfiança, o linchamento das reputações que levariam uma parte da classe média a apoiar o movimento golpista.
Mente a nota ‘arrependida’, ao afirmar, citando Roberto Marinho, em 1984: “os acontecimentos se iniciaram, como reconheceu o marechal Costa e Silva, ‘por exigência inelutável do povo brasileiro’. Sem povo, não haveria revolução, mas apenas um ‘pronunciamento’ ou ‘golpe’, com o qual não estaríamos solidários.”
Quem inoculou o terror anticomunista na população, de forma incessante e sem pejo?
Quem gerou o pânico e, a contrapelo dos fatos, martelou a tecla de um governo isolado e manipulado ‘pelo ouro de Moscou’?
O acervo do Ibope, catalogado pelo Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, reúne pesquisas de opinião pública feitas às vésperas do golpe.
Os dados ali preservados foram cuidadosamente ocultados pela mídia no calor dos acontecimentos e por décadas posteriores.
Agora conhecidos, ganham outro significado quando emoldurados pela atuação do aparato midiático ontem – mas hoje também.
Enquetes levadas às ruas entre os dias 20 e 30 de março de 1964, quando a democracia já era tangida ao matadouro pelos que bradavam a sua defesa em manchetes e editoriais, mostram que:
a) 69% dos entrevistados avaliavam o governo Jango como ótimo (15%), bom (30%) e regular (24%). Apenas 15% o consideravam ruim ou péssimo, fazendo eco dos jornais.
b) 49,8% cogitavam votar em Jango, caso ele se candidatasse à reeleição, em 1965 (seu mandato expirava em janeiro de 1966); 41,8% rejeitavam essa opção.
c) 59% apoiavam as medidas anunciadas pelo Presidente na famosa sexta-feira, 13 de março.
Em um comício que reuniu então 150 mil pessoas na Central do Brasil (o país tinha 72 milhões de habitantes), Jango assinou decretos que expropriavam as terras às margens das rodovias para fins de reforma agrária; e nacionalizou refinarias de petróleo.
As pesquisas sigilosas do Ibope formam apenas o desnudamento estatístico de um jornalismo que ocultou – e oculta – elementos da equação política quando se trata de sabotar as aspirações progressistas da sociedade; convocou e convoca, exortou e exorta, manipulou e manipula, incentivou e incentiva o complô, a manobra, a desqualificação, ao cassação e, no limite, o golpe.
Em defesa dos mesmos interesses que fizeram 64.
O editorial ‘O Renascimeto da Democracia’, de que se arrepende a empresa ora guarnecida com resíduo fecal, não foi um ponto fora da curva. Mas o curso natural de um engajamento histórico.
Não se deduza disso que a democracia brasileira vivia em 1964 mergulhada na paz de um lago suíço.
Num certo sentido, vivia-se, como agora, o esgotamento de um ciclo e o difícil parto do novo.
Uma parte da sociedade – majoritária, vê-se agora pelos dados escondidos no acervo do Ibope – considerava no mínimo pertinente o roteiro de soluções proposto pelas forças progressistas aglutinadas em torno do governo Jango.
As reformas de base – a agrária, a urbana, a fiscal, a educacional — visavam destravar potencialidades e recursos de um sistema econômico exaurido.
Jango pretendia associar a isso um salto de cidadania e justiça social.
O que importa reter aqui, como traço de atualidade inescapável, é o comportamento extremado do aparato midiático diante desse projeto.
Convocada a democracia e a sociedade a discutir o passo seguinte da história brasileira, os campeões da legalidade de ontem e de hoje optaram pelo golpe.
Deram ao escrutínio popular um atestado de incompetência política para formar os grandes consensos indispensáveis à emergência de um novo ciclo de desenvolvimento com maior justiça social.
Não há revanchismo nesse retrospecto.
Pauta-o a necessidade imperativa de dotar a democracia brasileira das salvaguardas de pluralidade midiática e participação social que a preservem da intolerância conservadora.
Aquela que em 54 matou Getúlio.
Em 1964, negou à sociedade a competência para decidir o seu destino.
Em 2002 fez terrorismo contra Lula.
Em 2005 tentou derrubá-lo e impedir a sua reeleição em 2006.
E assim se sucede desde 2010, contra Dilma.
A exemplo do que se assiste agora contra o PT e suas lideranças, ao mesmo tempo em que se exacerba a gravidade dos desafios econômicos na manipulação das expectativas dos mercados.
Veiculado pela família Marinho dois dias depois do golpe, o editorial do Globo, não foi um ponto fora da curva.
Ele consagra um método.
Que a experiência recente não pode dizer que caiu em desuso.
Mas que vive um ponto de saturação.
Ilustra-o a necessidade de mostrar arrependimento.
Bem como o sugestivo odor exalado das paredes da sede da Globo em São Paulo.
O arrependimento simulado serve também como admissão de culpa.
De quem moveu a alavanca da derrubada de um governo democrático. Mais que isso: legitimou, ocultou e se esponjou nas vantagens obtidas junto a um regime que recorreu à tortura e ao assassinato contra opositores.
Cabe à Comissão da Verdade fazer desse 'arrependimento' um verdadeiro ato de justiça. E convocar a Globo a depor perante a Nação.
domingo, 1 de setembro de 2013
Barbosa fica na defensiva após revelações sobre seu patrimônio
É... que ele era o candidato preferido de muita gente, lá isso era...
Mas já imaginou um presidente da República destemperado como ele?
Agora passou à fase da negação. Psicólogos de plantão, depois dessa fase qual será a próxima?
Barbosa fica na defensiva após revelações sobre seu patrimônio
Brasília – Em entrevista
ao jornal ‘The New York Times’ em 23/8/2013, Barbosa afirmou: “não sou
candidato a nada”. A frase categórica contrasta com as anteriores,
evasivas, de que se sentia lisonjeado em ser lembrado em pesquisas como
uma opção para 2014, ou de que "não se via" como candidato a presidente,
e mesmo com a afirmação de que o Brasil não estaria preparado para
eleger um presidente negro. A entrevista trouxe pela primeira vez a
frase "não sou candidato".
A declaração clara e cristalina é seguida da explicação do jornal: Barbosa foi posto na defensiva por conta de algumas revelações complicadoras sobre seu patrimônio.
Acostumado a, nos últimos tempos, fazer uma cruzada moralizadora, Barbosa acabou acusado de ter recebido salários da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) mesmo sem trabalhar.
O ‘New York Times’ também registra a denúncia da aquisição de um apartamento em Miami de forma irregular. A criação da empresa para comprar o apartamento, lembra o jornal norte-americano, foi vista como uma tentativa de pagar menos impostos na transação. Sobre este último assunto, o ‘Times' economizou os detalhes. Segundo reportagens de jornais brasileiros, o ministro teria criado uma empresa fantasma, cuja sede tinha como endereço o do apartamento funcional de Barbosa, o que é expressamente proibido.
Barbosa estaria agora amargando uma defensiva e uma piora em seu humor na corte, que nunca foi dos melhores, apenas mudou de foco. Na entrevista, é lembrado o episódio no qual Joaquim Barbosa acusou Gilmar Mendes de ter "capangas" em Mato Grosso. A bola da vez é o ministro Ricardo Lewandowski, em embates no julgamento da Ação Penal (AP) 470. O "mensalão" é traduzido pelo jornal como "big monthly allowance" ("grande subsídio mensal"), o que mostra o quanto o apelido criado por Roberto Jefferson e que caiu no gosto da velha mídia é um eufemismo pobre para traduzir o cerne do problema, que é o financiamento empresarial às pretensões eleitorais de políticos.
Em sua defensiva, Barbosa justifica ao jornal que seu temperamento não se adapta à política. A desculpa é contraditória, pois o presidente do STF é hoje o magistrado cuja retórica é a mais parecida com a que se vê sair da boca de políticos em suas denúncias contra rivais. Nas tribunas do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores, as acusações de caráter pessoal e contra a reputação de adversários são comuns. Por esse parâmetro, Barbosa seria na verdade o mais afiado de todos os ministros para seguir carreira política. Não necessariamente um candidato de uma nova política.
O destempero com seus pares no STF e a ênfase no julgamento do mensalão foram fórmula de sucesso, mas abriram flancos em relação a fatos que dizem respeito à sua própria reputação.
De todo modo, coincidência ou não, uma semana depois da entrevista, o TSE mandou retirar do ar uma página na internet que fazia propaganda eleitoral antecipada de Joaquim Barbosa. Disponível desde outubro de 2012, trazia a biografia e fotos do ministro Joaquim Barbosa, além de charges, depoimentos favoráveis à candidatura e até link para a impressão de adesivos. A página foi criada pela Trato Comunicação e Editora Ltda., cujo sócio majoritário é o vereador Átila Alexandre Nunes Pereira, do PSL-RJ, um partido que talvez seja considerado por Barbosa como um daqueles "de mentirinha".
A declaração clara e cristalina é seguida da explicação do jornal: Barbosa foi posto na defensiva por conta de algumas revelações complicadoras sobre seu patrimônio.
Acostumado a, nos últimos tempos, fazer uma cruzada moralizadora, Barbosa acabou acusado de ter recebido salários da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) mesmo sem trabalhar.
O ‘New York Times’ também registra a denúncia da aquisição de um apartamento em Miami de forma irregular. A criação da empresa para comprar o apartamento, lembra o jornal norte-americano, foi vista como uma tentativa de pagar menos impostos na transação. Sobre este último assunto, o ‘Times' economizou os detalhes. Segundo reportagens de jornais brasileiros, o ministro teria criado uma empresa fantasma, cuja sede tinha como endereço o do apartamento funcional de Barbosa, o que é expressamente proibido.
Barbosa estaria agora amargando uma defensiva e uma piora em seu humor na corte, que nunca foi dos melhores, apenas mudou de foco. Na entrevista, é lembrado o episódio no qual Joaquim Barbosa acusou Gilmar Mendes de ter "capangas" em Mato Grosso. A bola da vez é o ministro Ricardo Lewandowski, em embates no julgamento da Ação Penal (AP) 470. O "mensalão" é traduzido pelo jornal como "big monthly allowance" ("grande subsídio mensal"), o que mostra o quanto o apelido criado por Roberto Jefferson e que caiu no gosto da velha mídia é um eufemismo pobre para traduzir o cerne do problema, que é o financiamento empresarial às pretensões eleitorais de políticos.
Em sua defensiva, Barbosa justifica ao jornal que seu temperamento não se adapta à política. A desculpa é contraditória, pois o presidente do STF é hoje o magistrado cuja retórica é a mais parecida com a que se vê sair da boca de políticos em suas denúncias contra rivais. Nas tribunas do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores, as acusações de caráter pessoal e contra a reputação de adversários são comuns. Por esse parâmetro, Barbosa seria na verdade o mais afiado de todos os ministros para seguir carreira política. Não necessariamente um candidato de uma nova política.
O destempero com seus pares no STF e a ênfase no julgamento do mensalão foram fórmula de sucesso, mas abriram flancos em relação a fatos que dizem respeito à sua própria reputação.
De todo modo, coincidência ou não, uma semana depois da entrevista, o TSE mandou retirar do ar uma página na internet que fazia propaganda eleitoral antecipada de Joaquim Barbosa. Disponível desde outubro de 2012, trazia a biografia e fotos do ministro Joaquim Barbosa, além de charges, depoimentos favoráveis à candidatura e até link para a impressão de adesivos. A página foi criada pela Trato Comunicação e Editora Ltda., cujo sócio majoritário é o vereador Átila Alexandre Nunes Pereira, do PSL-RJ, um partido que talvez seja considerado por Barbosa como um daqueles "de mentirinha".
(Artigo da redação da Agência Carta Maior)
Está com cheiro de guerra no ar?
Lá vamos nós outra vez... é triste ver um governo supostamente democrata, como o do Obama, meter-se em guerras por motivos inconfessáveis, na mesma região em que o Bush atolou suas tropas (Afeganistão e Iraque). E vamos ter mais uma guerrinha de computador, com riscos verdes e vermelhos riscando os céus de Damasco, para atingir alvos necessários e - infelizmente! - como acontece nessas ocasiões, atingindo casas, hospitais, escolas... mas fazer o quê, não é? quem mandou os sírios construírem casas, hospitais e escolas no rumo dos mísseis?
Alguns artigos podem clarear a situação, bem mais do que os mísseis clareiam os céus do Oriente Médio.
Às vésperas de uma guerra obscena
Aliados
a monarquias medievais, EUA querem ampliar seu poder no Oriente
Médio: eis o real motivo da escalada contra Damasco. Por Tarik
Ali (Outras Palavras)
http://outraspalavras.net/capa/as-vesperas-de-uma-guerra-obscena/
Quem usou as armas químicas
Ao governo sírio, não interessava
fazê-lo. À oposição, que inclui Al Qaeda, certamente sim. Mas
outras razões mobilizam Washington. Por
Phyllis
Bennis
e David
Wildman (Outras Palavras)
Socialistas franceses querem ir à guerra com Obama
O presidente francês, François Hollande, se alinhou à
estratégia norte-americana e se prepara para participar com Washington
na provável ação militar contra o regime sírio de Bachar Al-Assad, em
represália contra a suposta utilização de armas químicas em um ataque
lançado dia 21 de agosto contra as posições dos rebeldes nos arredores
de Damasco. Por Eduardo Febbro, de Paris.
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22610
Quem usou as armas químicas
Ao governo sírio, não interessava fazê-lo. À oposição, que inclui Al Qaeda, certamente sim. Mas outras razões mobilizam Washington. Por Phyllis Bennis e David Wildman (Outras Palavras)
Socialistas franceses querem ir à guerra com Obama
O presidente francês, François Hollande, se alinhou à estratégia norte-americana e se prepara para participar com Washington na provável ação militar contra o regime sírio de Bachar Al-Assad, em represália contra a suposta utilização de armas químicas em um ataque lançado dia 21 de agosto contra as posições dos rebeldes nos arredores de Damasco. Por Eduardo Febbro, de Paris.
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22610
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