terça-feira, 29 de abril de 2014

Tempestade em copo d'água

Os arautos do caos não param de profetizar sobre a tempestade perfeita que estaria prestes a desabar sobre o Brasil. Os números, porém, dizem outra coisa

Claudio Puty

Os arautos do caos – a oposição neoliberal e conservadora – não param de profetizar sobre a “tempestade perfeita” que estaria prestes a desabar sobre a economia brasileira. Dia e noite, eles nos bombardeiam, pela mídia, com previsões catastrofistas. Dizem que a inflação está à espreita, que as expectativas de crescimento econômico são pífias, que o desemprego está aumentando, as contas públicas estourando e a dívida crescendo.

Quem lê tanta notícia negativa tem razão para se assustar. Mas, quando se olha de perto os números reais da economia, percebe-se facilmente que estamos diante de uma situação totalmente diversa, com estabilidade, crescimento e queda do desemprego, mesmo dentro de um quadro de crise internacional persistente.

De onde se conclui que a questão fundamental é de natureza política, não econômica. O fato é que os conservadores buscam interditar o debate sobre a política econômica, classificando como “populista” qualquer desvio da ortodoxia econômica.

Vamos, então, aos números. De acordo com apresentação feita em abril passado pelo Presidente do Banco Central do Brasil  ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social verifica-se uma tendência de estabilidade nos principais indicadores econômicos da economia brasileira.

Desde a crise financeira, o crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB), por exemplo, tem sido constante. Se considerarmos 100 o índice de dezembro de 2007, ele apresenta uma curva ascendente desde 2009, atingindo 117,7 no 4º trimestre de 2013. É mais ou menos a mesma curva da Coreia do Sul. Para se ter uma ideia, o México, que também ostenta um PIB crescente, atingiu o índice 110,2, os EUA, 106,3. Já na a área do Euro o índice é de 97,9.

Em relação ao desemprego, podemos verificar um verdadeiro mergulho, do pico de cerca de 13% em 2003 para 5% no final do ano passado. Segundo os parâmetros internacionais, esse índice configura praticamente uma situação de pleno emprego.

Já as reservas internacionais estão estabilizadas no patamar de US$ 378 bilhões desde 2012, enquanto que a dívida externa líquida ficou em US$ 92,7 negativos no mesmo período, ou seja, somos credores externos  líquidos. Quanto aos investimentos estrangeiros diretos, desde 2011 eles estão na faixa dos US$ 66 bilhões ao ano. Podemos supor, sem medo de errar, que se o capital externo tivesse a mesma percepção que alguns setores do empresariado brasileiro, não se arriscaria a continuar investindo no Brasil.

No que diz respeito à política fiscal, a redução da dívida líquida do setor público prossegue com sua longa trajetória de queda, de 39% em 2010 para cerca de 33% do PIB em 2013. Esse resultado vem sendo obtido em razão de um superávit primário acima da média dos países do G-20 (Grupo dos 20). Enquanto em 2013 o Brasil atingiu um superávit primário de 1,9% do PIB, outros países do grupo tiveram déficit, como Japão (-8,8); Reino Unido (-4,7%); EUA (-3,6%); França (-2,0%) e México (-1,2%). Entre os que tiveram superávit primário, a Itália atingiu 2% e a Alemanha, 1,7%.   

E a inflação? Longe de estar fora de controle, a projeção para o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) mostra que, do pico de quase 17% em dezembro de 2002, esse índice caiu consideravelmente e vem se mantendo estável, apesar de toda pressão, inclusive internacional, em torno de 6%. É sempre bom lembrar que Lula recebeu de FHC uma inflação de mais de 12% ao ano. É de se imaginar o tamanho escarcéu que a oposição, os neoliberais e a direita fariam se, nos governos Lula e Dilma, o IPCA chegasse perto de tal patamar.    

A imagem do caos econômico ventilada pela oposição conservadora não é a tempestade perfeita, mas uma tempestade em copo d’água – na verdade, é uma tentativa de constranger o governo federal a abandonar os mecanismos de política econômica voltados ao desenvolvimento econômico sustentável e inclusivo, voltando a subordinar as ações do Estado às necessidades do capital financeiro, principalmente especulativo.

(*) Deputado federal (PT-PA), vice-líder do governo no Congresso Nacional.

(Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/Tempestade-em-copo-d-agua/7/30812)

Os hermanos e nós

A Editora Contexto apresenta Os Hermanos e Nós, obra em que os jornalistas Ariel Palacios (autor de Os Argentinos) e Guga Chacra revelam ao leitor brasileiro o que é o futebol argentino e a real relação existente entre nossos países, além da aparente rivalidade. Uma leitura imperdível e deliciosa.
O livro já está disponível, aproveite!
     
   
Além da paixão pelo futebol, brasileiros e argentinos têm em comum a admiração que suas seleções despertam ao redor do planeta.
Quando elas entram em campo, param o mundo. Pergunte a um palestino e a um israelense, a um grego e a um turco para qual time torcem na Copa do Mundo, quando o deles não está na disputa. Se não for o Brasil, será a Argentina.
Neste livro, os jornalistas brasileiros Ariel Palacios – que vive em Buenos Aires – e Guga Chacra – que já morou lá – contam de forma deliciosa o que é o futebol argentino, desde sua história até seu estilo de jogo. Como se manifesta o fanatismo das torcidas argentinas, aquelas que cantam sem parar, esteja o time ganhando ou perdendo? Quais seriam os equivalentes brasileiros de clubes argentinos como o River Plate, o Racing ou o Boca Juniors? E, afinal, é verdade que o maior rival da Argentina é o Brasil? (Já desvendamos o segredo: não é). Nós amamos odiá-los, eles odeiam nos amar, mas ambos somos os maiores praticantes do futebol-arte. Leitura imperdível e deliciosa.

Jornalistas contra a mediocridade musical

Com todo o meu apoio!!!

Por Dioclécio Luz 

Já não temos mais o direito de errar. Basta de mediocridade musical (MM). A trilha sonora do país não pode continuar sendo o lixo que atinge o cérebro, polui o coração e atrai as moscas varejeiras lambedoras de jabá. Convoco os colegas jornalistas para que ergam a cabeça e caiam na dança do Zarastustra nietzschiano não se deixando abater pela MM que assola o Brasil.

Invoco o espírito dos deuses ateus e a energia dos poetas deste país e do mundo. Invoco a deusa música, ateia e anarquista por natureza, razão e metafísica, para desfazer as trevas que se abatem sobre o país. Precisamos cravar uma estaca no coração dos vampiros que sugam a arte e a criatividade musical.
Música ruim sempre existiu, mas há pelo menos 30 anos que a música de má qualidade tomou posse das rádios, TVs, jornais e revistas, sites, “faces”, blogs. Agora é nossa obrigação enquanto jornalistas usar o cérebro e dizer a verdade. Por uma questão de estética e também de ética. Não se pode ficar calado enquanto o povo é enganado, levado a consumir o lixo, levar para casa e armazenar na alma esta coisa ruim que eles chamam de música.
Um país que tem Elomar e Caetano, Gil e Chico César, Lenine e Beto Brito, um Brasil que já deu Luiz Gonzaga e Caymmi, João Gilberto, Tom Jobim e Jackson do Pandeiro, não pode cair tanto. É preciso vergonha na cara e alegria da alma para dizer em alto e bom som estéreo: longe mim a MM!
Buraco musical
Não podemos deixar nos abater pelo mau gosto generalizado. Menos constrangimentos e mais verdade é o que peço aos colegas radialistas e jornalistas. Devemos ser sinceros. Devemos a sinceridade ao mundo. Sim, claro, esta convocação é para os caranguejos que têm cérebro, para os que fazem rádio e jornalismo e os que sabem de música, sabem de arte e desconfiam dos negócios que alguns chamam de arte. Menos jabá e mais arte, é o espírito do nosso manifesto.
Este é um manifesto pelo saber da música. Para fugir da língua fácil, da vida fácil, do jeito mais fácil de falar dessa MM. Este manifesto faz a defesa da poesia e da inteligência e por isso é contra bordões do tipo “e agora o sucesso do momento”. Vamos nos educar.
Sim, para ouvir música é preciso o mínimo de educação musical. Uma educação que começa pelos ouvidos. O povo, esse ente inexistente, assim definido porque é massa para ser comandada, infelizmente, é enganado, censurado. Censuram o acesso a nossa riqueza maior, o grande patrimônio sonoro musical do mundo. Dizem as empresas e os que fazem a MM: “temos que respeitar a vontade do povo”; ou dizem: “o povo gosta disso”. E é uma dupla mentira, primeiro porque povo não existe, o que existe é gente, ser humano, sociedade, pessoas... Segundo porque, na verdade, são eles que não respeitam essa gente, vendendo o pior da nossa música – sertanejo de plástico, pagode de televisão, “forró” elétrico, axé, romântico de feira livre, arrocha... Essa uma meia dúzia de gêneros que domina as rádios e TVs brasileiras, produtos pasteurizados, homogeneizados, de uma indústria criadora do descartável, do supérfluo. O consumismo na música é a nossa desgraça musical. Bandas e cantores e “músicas” têm prazo de validade: produtos de mercado, são autodestrutíveis como os programas da Microsoft, como o galã da novela, como os filmes de Hollywood. Baumann explica o consumo; Freud esclarece sobre a patologia; Ariano Suassuna enterra a MM.
Vamos pulverizar o sofisma mofado do mercado: “gosto não se discute”. Discute-se sim. Principalmente quando ele não é uma escolha, mas uma imposição do mercado, produto da censura e do jabá. Como acreditar que se trata de gosto popular se ao ouvinte lhe foi imposto esta música ruim? Ludibriado pelo jabá, ele acredita que escolhe. E não é isso. A bem da verdade o “povo” tem gostado do que lhe determinam gostar. Para perceber isso não é preciso que um médium invoque os rapazes da Escola de Frankfurt. Hoje, ouvir música boa é coisa de elite. Elite hoje é Luiz Gonzaga, Chico Science, Orquestra Contemporânea de Olinda, Papete, Siba, Fagner, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Ivanildo Vilanova, Oliveira de Panelas, Eddie, Otto, Chico Science, Zeca Baleiro e tantos outros cantores e cantoras segregados pelo jabá porque não fazem ou cantam música medíocre. Só uns poucos ouvintes podem mudar de estação. Porque rádio ou TV comercial que não seja só jabá não há em todo canto. Restam as emissoras livres para escolher o que tocar: são as educativas, públicas/estatais, comunitárias. Todavia, deve ser feita a exceção as muitas rádios que se apresentam como comunitárias (e têm até a “autorização” do Estado) mas pertencem a padre, pastor, empresário ou político.
Este manifesto é contra o fascismo do jabá porque ele segrega, discrimina, censura a nossa arte e o povo brasileiro.
Este manifesto não defende o sertanejo de raiz, a música de raiz, o regional, ou coisas do gênero, como se neles estivesse a nossa salvação. Porque isso é bom, mas não é o bastante. O que se defende aqui é a música enquanto arte – o que ela traz de novidade, originalidade, criatividade. Quando dez ou vinte bandas tocam do mesmo jeito com a mesma letra e a mesma melodia, chamar isso de música é uma agressão à cultura e à inteligência humana. No limite é uma arte menor, pobre. O que você diria de um pintor que pinta o mesmo quadro e faz uma exposição com 20 pinturas iguais? Chamaria de artista? E se vinte pintores pintassem a mesma coisa, gerando 400 quadros iguais? Poderiam ser chamados de artistas? Mas é assim que a MM se propaga, seu espírito de PVC sobrevive se copiando, repetindo-se, clonando-se. São vampiros de plástico que, como tal, produzem gases de efeitos estufa sobre a alma brasileira.
Isso tem a ver com a possibilidade de o planeta virar churrasco devido às mudanças climáticas. A nossa capacidade de adaptação, que é uma virtude dos seres vivos, no caso das mudanças climáticas é a nossa desgraça. As pessoas, os governantes e as instituições estão se adaptando à possibilidade de fim de mundo. Se o clima está cada vez mais quente, ao invés de propor mudanças no sistema de produção e alimentos, a Embrapa pesquisa sementes que se adaptem ao forno anunciado. Na música ocorre algo parecido, a MM infesta cada vez mais o mundo e a gente – jornalistas e radialistas – se adapta, aceita isso como se não tivéssemos o poder de reclamar, opinar, denunciar, exigir coisa melhor. Chegamos ao buraco musical, chafurdamos na lama, somos obrigados a comer lixo, porque o jornalista de cultura desistiu, adaptou-se; ele não reclama – anuncia o lixo, a MM, do mesmo modo que anuncia um show de craques como Yamandu Costa, Uakti, Marisa Monte, Luiz Melodia, Ednardo, Wado ou Belchior. Já não diferencia a mediocridade do que é bom, sujeita-se à ditadura do mercado, ao fascismo do mau gosto.
Coração congelado
Este manifesto é contra a produção em série do mercado, quando uma pretensa arte se esgota nas gôndolas de emissoras e revistas de fofocas. Isso sempre existiu, mas a arte sempre foi maior do que isso. Este manifesto faz a defesa da arte. A arte que gerou a Tropicália, o Movimento Armorial, o Clube da Esquina, a Vanguarda Paulista, o Mangue Beat, Pessoal do Ceará e tantos outros movimentos sem nome, tantos bons cantores e cantoras, não pode retroceder para a música de plástico. O país que tem Vanessa da Mata, Ná Ozzeti, Marisa Monte, Gal Costa, Elza Soares, Rita Ribeiro; o país que já deu Marinês, Nara Leão, Elis Regina, Claudia Nunes, Ângela Maria, Maysa, não pode se representar por vendedoras de xampu e cerveja que se apresentam como cantoras de música. Não são estas que nos orgulham. Vender xampu exige uma arte e uma inteligência, mas a música é outro tipo de arte.
Na verdade, a arte de verdade não tem pais de origem. Quando ela é grande ela se perde da pátria de origem. Yamandu Costa, Hamilton de Holanda, Dimas Sedícias, Roberto Correia, Hermeto Paschoal são grandes em qualquer língua. Do mesmo modo é bem-vinda a boa música de todos os lugares. Precisamos, porém, exorcizar esta alma de cachorro vira-latas anunciada por Nelson Rodrigues e olhar de frente, ao mesmo tom e volume, a música de fora. O maluco beleza Raul Seixas já debochou de quem acha que tudo de bom está vem dos States: “Lá em Nova York todo mundo é feliz”, dizia. E faz tempo. Mas quem ouviu Raul? Tem gente ainda comprando e ouvindo o lixo do império somente porque vem de lá.
Acordai radialista: também se faz música na Itália, Chile, Moçambique, Israel, Espanha, Portugal... Não tenha medo de procurar fora do eixo Nova York-Londres. A boa música, a mais criativa, a mais original, não frequenta as boates de Manhattan. Fique à vontade para usar o cérebro e dizer que essa música bate-estaca e suas muitas variáveis poderiam ter sido feitas por uma minhoca ou por uma bactéria. Atenção, a MM internacional prefere o inglês. Se você jornalista só ouve música em uma língua – o inglês do patrão, ou o português da Casa Grande –, acredite, é porque ainda não conhece a boa música do mundo.
Radialistas e jornalistas, não se deixem iludir pelo mercado que diz que o samba é o único gênero brasileiro, ou o maior de todos. Esse dogma foi feito pelos mercadores não pelos artistas. O samba é somente um dos milhares de gêneros musicais que brotam no Brasil. O país ganhou arte com a música de Cartola e Noel, Monarco e Martinho da Vila, mas esse bom samba não resume o Brasil. Neste país mestiço, onde se mistura sushi com feijoada, a cada dia brotam milhares de opções musicais. Elas estão por toda parte. Você ouviu, colega jornalista? Abra os olhos, cabra! Falar de música sem conhecer música é um crime contra os ouvintes e os leitores.
Este manifesto é contra a axé e em favor da Bahia de todos os sons. Feliz quem nasce na Bahia de João Gilberto, Moraes Moreira, Baby do Brasil, Pepeu Gomes, Armandinho, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Bethânia, Rudnei Monteiro, Raul Seixas, Xangai, Elomar. A Bahia é grande, mas a boa música que muitos ainda fazem é confinada aos guetos, cercados por uma muralha de axé. A Bahia, que já me deu régua e compasso para ampliar os limites do mundo, foi aprisionada numa pretensa “música baiana”, feita de plástico e silicone, identificada por ser igual a todas.
Este manifesto é contra a música gospel entrando pelos sete buracos da minha cabeça e destruindo meus neurônios. Ninguém suporta mais essa praga que tomou o dial de tudo que é rádio do Brasil. Pelo amor de Deus, respeitem os meus cabelos brancos, respeitem meu direito ao silêncio, respeitem a minha epifania que é gostar de arte. Católicos e evangélicos do meu Brasil sejam menos zelotas e mais cristãos, menos ambiciosos e menos avarentos, deixem as emissoras tocar música. Já paguei todos os meus pecados sendo tolerante a esse ruído que vocês chamam de música. Eu sei que vocês se amam como a si mesmos, mas sejam tolerantes e respeitem a minha alma. Toquem para vocês e deixem meus ouvidos em paz.
Quanto a isso que carimbam como música sertaneja, Herbert Daniel, o Betinho, explica que sua origem é dos anos 1970, quando a soja se expande e surgem os latifúndios, e os fazendeiros modernos. É quando os novos ricos do campo nem no campo moram mais. Frequentadores de Miami não queriam ser confundidos com a gente do Brasil. E dos Estados Unidos trouxeram a fantasia de vaqueiro de faroeste e a pretensa música country. Junto veio o rodeio. Como no Texas, onde a pena de morte é lei, trata-se de uma festa marcada pela crueldade contra o boi e o cavalo. A trilha sonora desta festa pobre é a MM. E ela é tal qual o gado nelore no pasto: tudo igual, nascido para morrer.
Senhoras e senhores radialistas e jornalistas, a MM não contesta, não provoca, não tem nada de original. Somos contra a MM porque ela faz mal ao cérebro e provoca o congelamento do coração. Somos contra a MM porque ela dá a entender que o Brasil se reduziu a isso. Que toquem a música MM – afinal, sempre existiu música MM –, mas que todos saibam que ela é menor e não representa a nossa riqueza musical. Pavões de lantejoulas de níquel, elas são muitas, mas não sabem avoar.
Inteligência e sensibilidade
Este manifesto é em defesa da boa música. Porque dela o artista sempre pode capturar um pedaço, parte ou partida, plantar e fazer algo maior. A boa música não tem prazo de validade – imune ao tempo, não precisa de botox para ser feliz; como toda boa arte o tempo passa e ela fica, baobá na alma da gente.
Este manifesto é contra o fim do mundo anunciado nas praias e clubes e baladas onde essa praga toca. É contra essa poluição que mata, aniquila, devora cérebros humanos. É preciso que o Ibama e a Organização Mundial da Saúde sejam chamados porque muitos morrerão nesse apocalipse que já se instalou nas praias a bordo de carrões e sonzões e botecos chiques ou fedorentos... Todos tocando a mesma MM numa Babilônia que nenhum profeta poderia prever. Se existe o inferno, a MM é a música mais pedida por lá.
Por fim, convoco os gestores de recursos públicos, prefeitos e secretários de Cultura, a não patrocinarem a MM. O povo merece o melhor. Se o que há na mídia é educação para o consumo do lixo, é obrigação do gestor mudar o rumo. Gestor de cultura que patrocina evento com esse tipo de música concorre para a inutilidade do cargo, é prova de que não entende nada de cultura. É a pessoa errada no lugar errado.
Esse manifesto defende a inteligência, a beleza, a alegria, a poesia, a música que o Brasil e o mundo produzem de melhor. Defende que o “povo” tenha acesso a músicas boas e não somente a essa coisa ruim, a MM. Defende que o “povo” tenha acesso a todo tipo de música e não somente as medíocres como ocorrem hoje, para que ele possa escolher o que ouvir. Convoca os colegas, jornalistas e radialistas, para que usem a inteligência e a sensibilidade para opinar, criticar, exigir dos meios de comunicação mais respeito com a nossa cultura, nossa história musical. A música brasileira é muito maior que a MM que nos vendem.
***
Dioclécio Luz é jornalista e radialista, autor do livro A arte de pensar e fazer rádios comunitárias
 
(Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed796_jornalistas_contra_a_mediocridade_musical) 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Pavor do Apocalipse



Na teoria da relatividade não há nada de valor absoluto e de duração
infinita. Nosso olhar e nossa primeira impressão são sempre falsos.

Refletindo sobre a crônica “Amor e Máquina”, de Contardo Calligaris,
“Folha de São Paulo”, 13 de fevereiro de 2014, podemos dizer que somos
obrigados a sermos integrados e apocalípticos ao mesmo tempo. Diante da
evidência dos teleguiados atômicos existentes, um apocalipse bélico é
possível. Mas a possibilidade de um apocalipse não nos apavora. Estamos
acostumados com as imagens reais e fictícias de bombardeios aéreos. O
apocalipse a que Caligaris se refere é simbólico da descontração das
mentalidades arraigadas na humanidade desde o surgimento da civilização.

Vale dizer, desde que teve fim a era Neolítica, a cerca de onze mil anos.

Quando alguém, diante do aumento da violência, pergunta “Onde é que
isso vai parar?”, certamente está com medo de ser a próxima vítima fatal.
Em alguns momentos somos “integrados”, pois nos colocamos a
raciocinar sobre a sobrevivência da humanidade e do humanismo em
convivência pacífica com a tecnologia. O homem contemporâneo vem se
aparelhando social e psicologicamente para viver sozinho, exercer funções
específicas e ficar alheio a seu entorno, como na ficção de Aldous Huxlei
“O admirável mundo novo”. Poderíamos dizer: admirável atualidade, na
qual as pessoas vivem sozinhas, enclausuradas, em interação com
aparelhagem eletrônica e com os animais de estimação. Diria Sartre:
condenados a serem felizes desse jeito. Ai, chega à conclusão de que as
relações virtuais e também com os animais, são mais seguras e vantajosas
que as relações reais. O velho ditado popular “antes só que mal
acompanhado” tem conotação com o sentimento de perigo de ter que
conviver com alguém, no mundo individualista e competitivo da atualidade.

A ideologia do “salve-se quem puder” e da competitividade sem
normas vem do novo liberalismo e do capitalismo global. Ele é causa, meio
e consequência da corrupção e da violência na atualidade.


Belo Horizonte, maio de 2014.

Antônio de Paiva Moura

Assim o Ocidente ressuscita a Guerra Fria



Além de não representar ameaça militar ou econômica, Rússia suportou provocações em série. Mas militares, petroleiras e mídia querem fabricar um demônio
Por Roberto Sávio | Tradução: Antonio Martins
Faz várias semanas, agora, que toda a mídia mainstream está engajada em denunciar primeiro a suposta ação de Putin na Crimeia – e em seguida, na Ucrânia. A última capa de The Economist mosta um urso engolindo a Ucrânia, sob o título “Insaciável”. A unanimidade na mídia é sempre constrangedora, porque significa algum ato de dobrar joelhos. Será possível que os quarenta anos de Guerra Fria estejam sendo ressuscitados?
A inércia desta guerra, na verdade, nunca foi rompida. Diga “o presidente comunista de Cuba, Raúl Castro”, e ninguém ficará chocado. Use a mesma lógica, e chame o presidente Obama de “capitalista” e repare nas reações. Na Itália, Sílvio Berlusconi foi capaz, durante vinte anos, de ganhar as eleições contra a “ameaça” do comunismo – representada, segundo ele, pelo partido à esquerda, agora no poder, sob Matteo Renzi, um católico devoto.
No caso da Ucrânia, há pelo menos quatro pontos fulcrais de análise que estão sendo ocultados pelo coro de mídia. O primeiro é que nunca se mencionam as responsabilidades do Ocidente no caso. Deveríamos lembrar que Mikhail Gorbachev, presidente russo ao final dos anos 1990, negociou com os chefes de Estado dos EUA (Ronald Reagan), Grã-Bretanha (Margareth Thatcher), Alemanha (Helmut Kohl) e França (François Mitterrand) que aceitaria a reunificação da Alemanha; mas que que o Ocidente, em contrapartida, não deveria tentar invadir a área de influência da Rússia. Sobre isso, há grande quantidade de documentos.
Mas assim que Gorbachev foi eliminado, o jogo foi reaberto. A total docilidade de Boris Yeltsin, seu sucessor, diante dos Estados Unidos, é bastante conhecida. Muito menos debatido é o fato de o Fundo Monetário Internacional ter oferecido um empréstimo de 3,5 bilhões de dólares, para sustantar o rublo. O empréstimo, porém, foi dirigido ao Bank of America, que o distribuiu entre várias contas russas. Nenhum centavo chegou ao Banco Central russo. O dinheiro desembarcou nas contas de oligarcas, que puderam comprar praticamente todas as empresas públicas russas. Em seu livro Farewell Russia, Gioulietto Chiesa explica o processo em detalhes. E o FMI jamais sequer balbuciou um protesto. Quando um desconhecido Vladimir Putin foi levado ao poder por Yeltsin, ele foi obrigado a aceitar um acordo de proteção aos oligarcas.
Depois de Yeltsin, Putin apoiou a invasão iminente do Afeganistão por Washington, de uma forma que teria sido inimaginável durante a Guerra Fria. Aceitou que aviões norte-americanos sobrevoassem o espaço aéreo da Rússia, que os EUA usassem as bases militares nas repúblicas da ex-União Soviética na Ásia Central, e ordenou aos militares que compatilhassem sua experiênia no Afeganistão. Então, em novembro de 2001, Putin visitou George Bush em seu rancho no Texas, em meio a declarações amistosas (“Putin é um novo líder que ajuda a paz mundial… trabalhando em proximidade com os Estados Unidos”). Poucas semanas depois, Bush anunciou que os EUA estavam abandonando o Tratado de Mísseis Anti-balísticos, para poder construir um sistema de guerra no espaço destinado, em palavras a proteger a OTAN do… Irã. Era uma ação claramente voltada, na prática, contra a Rússia, para espanto de Putin.

Na sequência, em 2002, Bush convidou sete nações da ex-União Soviética – entre elas, Estônia, Lituânia e Letônia – a somar-se à OTAN, o que se concretizou em 2004. Em 2003, a invasão do Iraque, sem consentimento da França, Alemanha e Rússia, transformou Putin num cítico aberto dos Estados Unidos e de sua proposta de promover a democracia passando por cima do direito internacional. No mesmo ano, na Geórgia, a Revolução Rosa levou Saakashvili, um pró-ocidental, ao poder. Quatro meses depois, na Ucrânia, a Revolução Laranja empoderou outro presidente pró-ocidental, Yushcenko. Em 2006, a Casa Banca pediu permissão para reabastecer o avião de Bush em Moscou, mas deixou claro que Bush não teria tempo para saudar Putin. E em 2008, houve a declaração unilateral de independência de Kososo da Sérvia, com o apoio dos Estados Unidos e contra as posições da Rússia. Então, Bush pediu à OTAN para incorporar a Ucrânia e a Geórgia – um tapa na cara de Moscou. Em face disso, não deveria ter causado surpresa o gesto de Putin, que interveio militarmente na Geórgia em 2008, quando este país tentou incorporar as regiões da Ossétia do sul e Abkhazia, de maioria russa. Ainda assim, é fácil lembrar que a mídia tratou o movimento como ação sem motivos.
Obama tentou reparar os danos provocados por Bush nas relações internacionais dos EUA. Ele propôs uma retomada (“reset”) nas relações com a Rússia, que foi, de início, bem sucedida. Moscou aceitou oferecer seu espaço aéreo para transporte de suprimentos militares norte-americanos destinados ao Afeganistão. Em 2010, a Rússia e os Estados Unidos assinaram um novo tratado Start, reduzindo seu arsenal nuclear. E a Rússia apoiou as sanções aprovadas pela ONU contra o Irã, desistindo de vender seis mísseis terra-ar S/300 ao Teerã.
Mas logo a seguir, em 2011, tornou-se claro que os Estados Unidos tentaram intervir nas eleições parlamentares russas. Toda a mídia ocidental colocou-se contra Putin, que acusou os EUA de financiarem, com centenas de milhões de dólares, grupos oposicionistas. O embaixador norte-americano, McFaul, afirmou tratar-se de um grande exagero, e acrescentou que apenas algumas dezenas de milhões de dólares haviam sido doados a grupos da sociedade civil. Putin foi eleito novamente para a presidência em 2012 [após quatro anos como primeiro-ministro], já então obcecado com as ameaças ocidentais a seu poder. Em 2013, ele deu asilo ao ex-agente norte-americano Edward Snowden. Em represália, Obama cancelou um encontro bilateral – a primeira vez em que uma reunião de cúpula entre Washington e Moscou foi desmarcada, em cinquanta anos.
Em meio a tudo isso, houve a Primavera Árabe. A Rússia autorizou ação militar na Líbia, mas apenas para garantir ajuda humanitária. Ela foi utilizada para provocar mudança de regime, e Moscou sentiu-se enganada. Protestou, inutilmente. Então, surgiu a crise na Síria e o Ocidente tentou obter novamente o apoio da Rússia para uma mudança de regime – irritando-se com a recusa de Putin. Finalmente, agora, houve a bem conhecida intervenção na Ucrânia, para colocar o país na União Europeia e distante do bloco econômico eurasiano que a Rússia tenta criar.
O segundo ponto é que nenhuma ação política, exceto uma guerra, pode reduzir a Rússia à condição de um poder apenas local. É o maior país do mundo, em território. Estende-se das fronteiras da União Europeia até o Extremo Oriente. É, ao mesmo tempo, Europa e Ásia. Mantém rivalidade com a China na Ásia, tem conflitos territoriais com o Japão e está diante dos EUA no Estreito de Behring. É um produtor destacado de petróleo, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e tem um arsenal nuclear. Qualquer esforço para cercá-la ou enfraquecê-la, agora que o confronto ideológico ficou para trás, só pode ser visto como parte da velha política imperial.
A Rússia não é uma ameça, ao contrário da União Soviética. Seu PIB é 15% da Europa – que tem 500 milhões de habitantes e 16% das exportações mundiais. A China tem 1,3 bilhão de habitantes, e 9% do comércio mundial. A Rússia, apenas 145 milhões e 2,5% das exportações mundiais. Tem poucas indústrias, também porque Putin não está interessado na modernização do país, que inevitávelmente produziria um crescimento da classe de profissionais instruídos, que já se opõe a ele.
O terceiro ponto é que, portanto, a crise ucraniana deveria ser examinada melhor. É um Estado muito frágil, em que a corrupção controla a política e que vive problemas econômicos estruturais. Seu Oeste é mais rural; o Leste, mais industrializado. Os trabalhadores desta região sabem que um ingresso na Europa representaria o fim de muitas fábricas. No Oeste, muitos colocaram-se ao lado dos nazistas na II Guerra Mundial e há um movimento nacionalista forte, próximo ao fascismo. A Ucrânia é um problema muito caro e complicado.
É evidente que intervir apenas para desafiar Putin, e oferecer dinheiro (basicamente, o que fez a União Europeia) parece um pensamento muito tacanho. Estaria a UE preparada para mudar os critérios de pertencimento ao bloco, para aceitar um país que claramente não se adequa a eles; e a assumir um enorme peso, para aparecer como vencedora, na disputa contra um “homem forte”?
Isso finalmente nos leva ao quarto ponto. Putin é um ex dirigente da KGB, para quem a Rússia foi tratada injustamente, na dissolução da União Soviética. Todos os esforços para chegar a um entendimento com o Ocidente foram traídos, com sucessivas ampliações da OTAN, uma rede de bases militares cercando o país, um claro apoio do Ocidente a todas as oposições, um tratamento comercial medíocre. Ele sabe que estas opiniões sobre o declínio russo são compartilhadas por uma ampla maioria de cidadãos. Mas ele também é um autocrata arrogante, para dizer o menos, que nada tem feito para promover modernização econômica – porque, ao manter a produção e o comércio em suas mãos, conserva seu controle.
Para ele, a Ucrânia foi politicamente inaceitável. Ele está apresentando-se como defensor dos cidadãos russos, algo que lhe permite atuar em todos os lugares onde há minorias russas. A questão é: se Putin se for, haverá uma Rússia democrática, participatória, limpa, incorrompida? Aqueles que conhecem bem o país não acreditam nesta hipótese. Há inúmeros exemplos de que a remoção de autocratas não conduz à democracia por si mesma.
Portanto, haveria lógica em continua a cercar Putin, em nome da democracia? Isso não fortaleceria o próprio jogo do presidente, que associa sua imagem à de defensor dos russos? Eles também sofrem com a inércia da Guerra Fria e não veem o Ocidente exatamente como um aliado. Putin é hoje a única força de coesão na Rússia. Se ele se fosse, haveria, muito provavelmente, um longo período de caos. Isso certamente não interessa aos cidadãos russos… e é sempre perigoso praticar jogos de poder sem levar em conta a estabilidade da Europa… Claro, este não é o cálculo dos estrategistas ocidentais, que adorariam eliminar qualquer outro poder…
Como escreve Naomi Klein, o único vencedor, nesta disputa, são as empresas de energia. Elas estão fazendo campanha para que o mundo torne-se independente do petróleo russo. Portanto, vamos acelerar a produção petroleira nos EUA, a despeito dos notórios prejuízos ao ambiente. E vamos torcer para que a Europa deixe de usar gás russo – “nós exportaremos para eles”. Na verdade, não há estruturas para fazê-lo e seriam necessários muitos anos para criá-las… Mas exatamente no momento em que o mundo debate como controlar a mudança climática, e reduzir o uso de combustíveis fósseis, uma contra-estratégia importante é colocar o tema em segundo plano… Tarzi Vittach, um autor do Sri Lanka, disse, certa vez: “no fundo de tudo, há outra coisa”. Não há muitos exemplos de petróleo e democracia caminhando lado a lado…
(fonte: http://outraspalavras.net/capa/assim-o-ocidente-ressuscita-a-guerra-fria/ )

sábado, 26 de abril de 2014

As perguntas que não são feitas nas pesquisas eleitorais

Rompendo o tédio da rotina dos questionários elaborados pelos institutos de pesquisa, formulei seis perguntas cujos resultados me interessariam conhecer.


 Wanderley Guilherme dos Santos

Pesquisas de opinião são orientadas, claro, e as eleitorais não constituem exceção. Se alguém deseja saber quem prefere maçã ou banana deve perguntar justamente isso, sem confundir o pesquisado com as opções de abacaxis e mangas. Muitas pesquisas eleitorais desorientam os entrevistados ao introduzir opções que nada mais são do que abacaxis e mangas, nomes de candidatos sabidamente estéreis no contexto eleitoral efetivo. Obtêm-se antes de tudo uma idéia da dispersão aleatória da preferência eleitoral, não as escolhas sólidas a aparecer com perguntas focadas no que está, de fato, em jogo.  Mas nada impede que se investigue se o freguês é mais afeito a frutas ácidas ou cremosas – um tanto mais geral e inespecífica do que a pergunta anterior.

Com maior ou menor generalidade o que importa é que há um mundo de interrogações adequadas ao conjunto das frutas, todas legítimas, respeitadas modestas regras de lógica. Simples, mas esquecido quando os institutos divulgam seus resultados, aceitos com sagrada intimidação. Na verdade, os mesmos tópicos das pesquisas podem ser investigados por inquéritos variados, nada havendo de interdito no terreno do mexerico.

Em pesquisas de opinião são fundamentais a representatividade da amostra dos pesquisados, a correção dos questionários e, concluindo, a leitura dos resultados. É intuitivo que em uma comunidade onde 99% são religiosos o inquérito não pode concentrar-se no 1% restante, exceto se o pesquisador estiver interessado justamente na opinião da extrema minoria de agnósticos que ali vivem. Isto respeitado, tudo bem quanto à representatividade dos números.

Mas a leitura dos resultados pode ser marota. Jogando uma moeda para o ar centenas de vezes, o número de experimentos em que ao cair a moeda mostrará a “cara” tende a ser o mesmo número de “coroas”. Ignorando quando e porque acontece uma ou outra coisa, deduz-se que a probabilidade de dar “cara” ou “coroa” é de 50%, ou seja, metade das vezes uma, metade, a outra. Em certos convescotes essa peculiaridade é chamada de “acaso”.

Mas essa é uma probabilidade diferente da que indica o futuro do clima, por exemplo. As chances de que chova nas próximas 48 horas não é derivada diretamente de uma série de 48 horas do passado, mas das condições em que milhares de 48 horas foram chuvosas: umidade do ar, regime de ventos, formação de nuvens, etc. explicam com relativo grau de precisão (a probabilidade) as variações climáticas. O que justifica o probabilismo é o conhecimento das particularidades associadas ao aparecimento do fenômeno “chuva”, não o mero fato de sua repetição.

Pois a probabilidade derivada de uma série de pesquisas eleitorais é análoga à do jogo “cara” ou “coroa”, não à dos prognósticos atmosféricos. De onde se segue serem um tanto marotas as previsões de resultados eleitorais apoiadas em séries históricas, por mais extensas que sejam. A diferença é ontológica: uma eleição não é um jogo de “cara” ou “coroa”. A seguir, uma crítica, digamos, construtiva. 

Rompendo o tédio da rotina dos questionários elaborados pelos institutos de pesquisa, formulei seis perguntas cujos resultados me interessariam conhecer. Aí vão:

1 – o Sr(a) prefere:
    a) continuar com a presidenta atual (Dilma Roussef)
    b) voltar ao governo do PSDB (Aécio Neves)
    c) indiferente

2 – o Sr(a) votaria em alguém que:
       a) defende a manutenção do emprego de quem trabalha
       b) promete medidas impopulares
       c) indiferente

3) – o Sr(a) apóia o controle nacional do petróleo do pré-sal?
        a) sim
        b) não
        c) indiferente

4) - A oposição atual representa seu ideal de governo?
     a) sim
     b) não
     c) indiferente

5) Em relação à distribuição de renda o Sr.(a) é:
     a) a favor
     b) contra
     c) indiferente

6) Os atrasos na conclusão de aeroportos e estádios demonstram que:
     a) a iniciativa privada não é confiável
     b) há sempre imprevistos em grandes obras
     c) indiferente


Escolhi agregar todos os votos “não sei/prefiro não responder”, brancos e nulos em uma única opção porque estou interessado somente nas escolhas claras. E indiquei o nome de dois candidatos na pergunta 1 porque este é o desenho do questionário e, conforme o manual da boa pesquisa, o entrevistado deve estar de posse das informações relevantes para responder corretamente. Naturalmente, os entrevistados com preferência por outros nomes ou por nenhum estariam representados na resposta c.

O diabo é que ninguém acredita que os questionários dos institutos são apenas uma aproximação do que os eleitores perguntam a si mesmos, na hora do vamos ver. Por isso suas pesquisas ao final de uma corrida eleitoral se tornam mais diretas e econômicas, reduzindo o percentual de erro. Ainda assim, por vezes o palpite estatístico é desastrosamente equivocado. É quando o instituto, ao contrário de tentar replicar o que pensa o eleitor, busca fazer com que o eleitor pense como ele. Não dá certo.

(Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/As-perguntas-que-nao-sao-feitas-nas-pesquisas-eleitorais/4/30793)

Reflexos da ditadura na educação impedem país de avançar

Em audiência na Câmara, especialistas pontuaram as heranças do período autoritário que impactam na má qualidade do ensino público e no acesso à educação.


Brasília - Os reflexos da ditadura civil militar sobre a educação foram tão nocivos e profundos que até hoje, 30 anos após o início da redemocratização, impedem o país de alavancar a qualidade e democratizar o acesso a este que deveria ser um direito fundamental de todo brasileiro.  Em audiência pública promovida pela Comissão de Educação da Câmara, nesta quinta (24), especialistas foram unânimes em apontar as heranças do regime como principais responsáveis pela má qualidade da educação pública e pela vergonhosa falta de acesso a ela para os pelo menos 14 milhões de analfabetos, além de número maior ainda de analfabetos funcionais.

Presidente do Instituto Paulo Freire, Moacir Gadotti lembrou que a ditadura pôs fim ao ambiente de otimismo pedagógico dos educadores brasileiros com o avanço da educação popular e emancipatória já nos primeiros dias após o golpe. Em 14 de abril de 1964, um dia antes do general Castelo Branco assumir o posto de ditador, foi extinto o Programa Nacional de Alfabetização, que vinha sendo implantado no país pelo educador Paulo Freire e seria inaugurado oficialmente em maio. Segundo ele, não foi nenhum rompante do regime. A decisão já havia sido tomada um ano antes, quando Castelo Branco ouvira Paulo Freire em um evento no interior paulista. “Vocês estão engordando cobras”, teria diagnosticado o futuro ditador.

Na sequência, vieram as reformas educacionais que arrasaram com o modelo de educação brasileira. O presidente do Instituto narrou que, em 10 de junho de 64, na primeira reunião com secretários de educação, Castelo disse textualmente: o objetivo do meu governo é estabelecer a ordem entre trabalhadores, estudantes e militar.  E seu ministro Suplicy completou: estudante deve estudar, professor deve ensinar, e não fazer política. “Aí está o programa da ditadura: uma visão autoritária da educação e uma visão tecnicista que ainda permanece, suavizada, sem a ostentação e arrogância daquele período”, avaliou.

Gardotti ressaltou também a introdução do caráter mercantilista da educação, trazido dos Estados Unidos, que a transforma em negócio, ao invés de direito. “Havia uma lógica de privatizar”, denuncia. Ele criticou a reforma universitária, que promoveu a “departamentalização”, apontada como estratégia para fragmentar o conhecimento. E também a forma autoritária como eram impostos os diretores, selecionados não pelo desempenho acadêmico, mas pelo perfil gerencial. “A reforma universitária visava reformar para desmobilizar”, resumiu.

Sobraram críticas também à reforma do ensino básico, feita de modo a impedir o crescimento intelectual dos alunos. “A reforma da educação básica tem coisas hilárias, como dizer que todo mundo tem que se profissionalizar porque Jesus Cristo foi carpinteiro”, exemplificou. Segundo ele, em uma época que até o Banco Mundial preconizava que os trabalhadores tinham que ter uma formação generalista, a ditadura obrigou todas as escolas de ensino médio a introduzir a formação técnica compulsório, sem nenhum preparo para isso, e o resultado foi um fracasso.

Outro fracasso registrado foi o do Mobral, criado para alfabetizar jovens e adultos e extinto no governo Sarney. Em quase 20 anos, o programa, que prometia acabar com o analfabetismo em 10, conseguir reduzir a taxa apenas de 33% para 25%. “O Mobral alfabetizou muito pouco. E era muito mais fácil do que hoje, porque esses 8% residual que temos agora está no campo e em locais de difícil acesso”, analisou.

No inventário dos prejuízos causados pela ditadura à educação brasileira, ele incluiu também o desmantelamento dos vários movimentos sociais e populares, a eliminação da representação estudantil e a perda da capacidade dos educadores de influir nos rumos da educação. Para ele, é preciso mudar a concepção da educação. “Nós temos que formar professores a partir de uma outra ótica, de uma outra concepção de educação que respeite o saber das pessoas, que introduza o diálogo, o respeito, e vença aquilo que é o mais duro do que foi herdado da ditadura: a falta de democracia”, diagnosticou.

Como exemplo, ele citou o quanto ainda é difícil implantar um conselho de escola ou mesmo difícil discutir política na escola, o que considera salutar para o país.

“Estamos formando gerações sem discutir que país queremos”, afirmou. Gardotti lembrou que Paulo Freire já dizia que educar é politizar sim. “Não podemos formar estudantes na velha teoria do capital humano: estude, trabalhe e ganhe dinheiro. Paulo Freire respondeu claramente a esta teoria na época: a educação que não é emancipadora faz com que o oprimido queira se transformar em opressor”, concluiu.

O sociólogo e colunista da Carta Maior, Emir Sader, lembrou que o arrocho salarial foi tão importante para a sustentação da ditadura quanto a repressão sistemática, o que acabou comprometendo a qualidade dos serviços públicos, inclusive a educação. “O santo do chamado “milagre econômico” foi o arrocho salarial”, afirmou. Segundo ele, até então, a escola pública era um espaço de convivência entre a classe pobre e a classe média, um espaço de socialização. “A classe média, a partir daquele momento, passou a se bandear para escola particular, fazendo um esforço enorme, colocando no orçamento os gastos de escola e deixando a escola pública como um fenômeno social de pobre”, observou.

O sociólogo avalia que a ruptura causada foi tão significativa que a escola pública, até hoje, não recuperou seu vigor. “A democratização não significou a democratização do sistema educacional, não significou a recuperação da educação pública, da saúde pública. Isso está sendo feita a duras penas na última década, mas com uma herança acumulada brutal. Já tem reflexos no ensino universitário, mas não em toda a educação: a escola pública nós perdemos”, ressaltou.

Para ele, os investimentos em educação superior são importantes, mas é a reconquista da qualidade da educação primária e média que deve ser tema fundamental e urgente à democracia brasileira. “Estamos muito atrasados. Até a saúde pública, apesar do viés duríssimo da perda da CPMF, nós conseguimos melhorar agora com o programa Mais Médicos. Mas a educação, não. A estrutura de poder herdada da ditadura só se consolidou, inclusive a da educação privada”, observou Sader, lembrando que os oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso aprofundaram ainda mais o processo de privatização deflagrado pelos militares.

Sadir Dal Rosso, professor da Universidade de Brasília (UnB), uma das mais afetadas pelo golpe civil militar, submetida a três intervenções, abordou o impacto da ditadura na universidade e na construção do pensamento brasileiro. Segundo ele, o controle das administrações universitárias, a demissão e expurgos de professores que não concordavam com o regime, os assassinatos de estudantes, o controle das organizações estudantis e a implantação de serviços de informação no meio acadêmico causaram prejuízos imensuráveis ao país, que ainda precisam ser investigados e punidos. “É necessário esclarecer a verdade e, neste sentido, é necessário rever a Lei da Anistia”, defendeu.

(fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Educacao/Reflexos-da-ditadura-na-educacao-impedem-pais-de-avancar/13/30792)