quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Em tempos de Templo


Flutuando entre a pregação religiosa e a prática empresarial, Macedo inaugurou seu templo com um verdadeiro desfile de políticos.

Jacques Gruman


 Sempre admirei um aspecto do movimento hassídico (corrente judaica religiosa fundada na Europa Oriental há quase 3 séculos). Abandonando a severidade das regras dos rituais tradicionais, os hassidim passaram a usar a dança e a música para passar seus ensinamentos, para se elevar. A alegria invadia um mundo soturno demais para o meu gosto. Por outro lado, sacudir o esqueleto não exigia alta escolaridade, nem conhecimentos profundos da literatura religiosa. Os analfabetos saíram da marginalidade, foram acolhidos nos templos. Claro que os hassidim conservaram, e conservam, aspectos imutáveis da ortodoxia. A segregação das mulheres, mesmo nas danças, é um dos exemplos mais gritantes. No entanto, para um ateu incurável como eu, essa tática de popularização do sagrado através do movimento e do som não deixa de causar admiração. Dispensavam-se as catedrais góticas, os templos suntuosos, as aberrações pecuniárias, para se entrar numa comunhão verdadeiramente popular. É interessante perceber que a música hassídica permanece como importante fonte de inspiração para compositores judeus modernos, sendo raiz fundamental para o riquíssimo gênero klezmer.

O que diria um daqueles judeuzinhos das aldeias profundas do leste europeu se visse o Templo de Salomão, que acaba de ser inaugurado, em São Paulo, pela Igreja Universal do Reino de Deus? Certamente estranharia, de cara, a ostentação e, talvez mais ainda, o que o sociólogo Ricardo Bitun chamou de “tendência judaizante” da Universal. Não compreenderia muito bem aquela geografia Disney, que coloca uma loja de produtos religiosos na entrada do templo. O monumento, com uma altura equivalente a dezoito andares e capaz de abrigar até 10 mil pessoas sentadas, tem claras intenções de proselitismo, e essa história o hassid conhece muito bem – e não gosta. Uma Menorá gigante, importante símbolo do judaísmo, adorna um dos jardins, quase ao lado de uma imitação do Domo da Rocha, edifício sagrado do islã. O bispo e empresário Edir Macedo cultivou um modelito rabínico na noite de gala. Barba comprida, vestido com um talit (espécie de manto litúrgico no judaísmo) e solidéu na cabeça, simulou o gestual que se vê em sinagogas. Com que objetivo, não se sabe. Talvez a solução do mistério esteja guardada na “Arca da Aliança” fake que, com pompa e circunstância, foi trazida na cerimônia de inauguração. A cena faz lembrar uma passagem do primeiro Indiana Jones: Os caçadores da arca perdida. Este é um departamento mais chegado ao Menino do que ao nosso judeuzinho atônito. Lá pelas tantas, os nazistas vilões tratam de abrir a verdadeira Arca da Aliança. Para isso, um arqueólogo quinta-coluna se veste como um rabino, balbucia uma prece e ... Bem, acaba castigado exemplarmente. É uma cena inesquecível. Será que a vida, de alguma forma, beberá nesta fonte ficcional?

Chamou a atenção o desfile de políticos templo adentro. De presidente da República a governadores, passando pelo prefeito de São Paulo e ministros de Estado, todos posaram ao lado de Edir Macedo. Quando se espera uma prudente distância entre Estado e religião, estes personagens dão uma demonstração pública de desapreço a essa regra republicana. Uma pedagogia especialmente desastrosa se levada em conta a crônica despolitização do povão. Além disso, como dizia minha avó, cuidado com as más companhias. Ou, nas palavras do Barão de Itararé: Dize-me com quem andas e eu direi se vou contigo. Quem é o fundador e principal líder da Universal, dono da TV Record?

Edir Macedo tem um prontuário alentado. Escreveu o livro Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios?, no qual ofende e desqualifica os praticantes de cultos afro-brasileiros. Em determinados trechos do livro, classifica a Umbanda, a Quimbanda e o Candomblé como seitas demoníacas e responsáveis pelo subdesenvolvimento do país (!). Flutuando entre a pregação religiosa e a prática empresarial, Macedo é acusado por importação fraudulenta, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Usou sua influência para inaugurar o Templo de Salomão sem autorização definitiva do poder público. É o tradicional jeitinho brasileiro, sempre generoso com os de cima. Já beneficiada com as isenções fiscais de que gozam as igrejas, a Universal importou de Israel as pedras do Templo sem pagar qualquer imposto.

Desconfio que a leitura dos dados do último Censo do IBGE ajude a explicar os salamaleques dos políticos na inauguração do Templo. De acordo com o último Censo, de 2010, continua crescendo o número de evangélicos no Brasil, acompanhando a queda do contingente católico. Entre 1980 e 2010, aumentou em quase 240% a população que se declara evangélica. Dentre os evangélicos, a influência da Universal caiu no período entre 2000 e 2010, pressionada por igrejas dissidentes e outras que imitam seus métodos. Talvez por isso esteja investindo agressivamente em megaempreendimentos. Quer recuperar mercado. Conhecendo o potencial eleitoral do segmento evangélico, políticos se penduram em todas as oportunidades que surgem para demonstrar “simpatia” pela causa. Pobre da sociedade, prisioneira de agendas conservadoras e da covardia para enfrentar questões polêmicas que desagradam aos religiosos. Um exemplo da invasão nefasta do espaço público por práticas religiosas privadas aconteceu no Estado do Rio. Por pressão da bancada evangélica, uma lei que proibia a discriminação de gays em ambientes públicos foi derrubada na Justiça, em 2012.

Gostaria de levar tudo isso na esportiva. Na linha do que escreveu o José Simão: o templo do Edirzimo Macedo parece mesmo a caixa-forte do Tio Patinhas. Ou do que disse o chargista Genildo: a Dilma foi na inauguração do Templo procurar um especialista em economia. E o Alckmin foi pedir p’ra chover. Talvez seja melhor mesmo fechar os olhos, abrir um leve sorriso, rodopiar como um hassid. Esquecer, pelo breve tempo de um nigun, a ciranda de enganos que hipnotiza, paralisa, deprime.

(fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Cultura/Em-tempos-de-Templo/39/31537)

Em quem não votar


por Rudá Ricci

É compreensível que se faça crítica à gestão de Dilma Rousseff. Afinal, a economia faz água e o clima de “Brasil Grande” ou “Gigante que Acordou” parece que se foi. Também é compreensível que não se tenha tanta confiança em Eduardo Campos ou outro candidato não muito conhecido. Afinal, para que apostar no incerto? De qualquer maneira, entre os candidatos de pequenos partidos, há pessoas experientes ao menos como parlamentares, que já comprovaram que rumo tomam na vida pública, como Luciana Genro. Há os que defendem interesses específicos, como pastor Everaldo. Mesmo assim, é compreensível que um eleitor não deseje votar em quem não parece competitivo nesta eleição.

Finalmente, é compreensível que grande parte dos brasileiros tenha abandonado completamente sua esperança e expectativa com o sistema partidário inteiro do país. Mas não é compreensível se espelhar na candidatura de Aécio Neves. Explico. Aécio teve toda a sua vida adulta voltada para a política. Começou como secretário pessoal de Tancredo Neves. Deveria ter um amplo currículo de realizações.
Enfim, o que se espera de um político? Que nos represente e melhore nossas vidas.

Mas, o que fez Aécio? Seu cartão de visitas é o Choque de Gestão. Algo que foi elaborado por Antonio Anastasia e nada mais é que um remix da Nova Gestão Pública do Reino Unido. Uma proposta de gestão, não de realizações. É como se a maior realização de um time de futebol fosse a manutenção e conservação de seu estádio, não a conquista de campeonatos. Este é o único “legado” de Aécio. Na área social, não avançou em nada. Fiz um levantamento de todos os projetos sociais de seu governo. Muitos programas com baixa cobertura ou abrangência. Escrevi sobre isto.

Ainda no ano passado, em meio ao tiroteio das manifestações de junho, era de se esperar que falasse algo aos jovens. Ficou calado. Em seguida, propôs a velha cantilena das privatizações. Algo que revela a falta de projeto e perspectiva. Em seu próprio Estado, os manifestantes o rechaçaram, segundo pesquisa realizada pela Innovare.

Como senador, os jornais publicaram que quase 90% de suas viagens de final de semana foram destinadas ao Rio de Janeiro. Um político mineiro que não veio a Minas Gerais.
Não vou listar as críticas ao seu comportamento pessoal. São muitas, desde quando a polícia barrou o automóvel que dirigia no Rio de Janeiro e que estava registrado na empresa Rádio Arco-Íris (Jovem Pan BH), cuja propriedade é de sua família e que passou a ser investigada pelo MP - leia mais aqui - à atual acusação de construção de aeroportos em cidades muito pequenas do interior mineiro, com dinheiro público, para uso ainda incerto. As acusações são graves e muito importantes para esclarecer como o candidato age quando governa. Mas está em vários jornais e websites. Basta consultar.

O que quero destacar é que Aécio não oferece segurança para o Brasil. E não parece ter experiência para governar a 7ª economia mundial, o segundo país mais poderoso do nosso continente, um país com 200 milhões de habitantes. Erramos uma vez ao tentar algo que se apresentava como novo, embora fosse de uma família de políticos regionais e já tinha sido governador o que, portanto, oferecia um currículo extenso para sabermos com quem estávamos tratando. Errar uma vez é até humano.  Cometer duas vezes o mesmo erro não tem perdão.

Briga de cachorro grande


duke_desigualdade
Texto escrito por José de Souza Castro:
As pessoas ricas estão cada vez mais ricas em São Paulo, revelou a prefeitura paulistana, com base nos Censos de 2000 e 2010 do IBGE. O grupo formado por 1% dos mais ricos fica com 20% da renda total dos salários, aluguéis e investimentos na cidade, conforme o último Censo. Dez anos antes, quando o país era presidido por Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, o percentual era de 13%.
É o avanço da concentração de renda representada pela população da cidade maior e mais endinheirada do país, ao longo dos primeiros oito anos do governo petista. Os oito anos do governo Lula.
Não sei se a reportagem assinada por Vanessa Correa e publicada no último domingo pela “Folha de S.Paulo” teve repercussão. É possível que boa parte daquele 1% dos mais ricos não tenha tomado conhecimento da notícia. Não é uma turma chegada a ler jornais.
Sendo assim, não deve ter amofinado os candidatos Aécio Neves e Eduardo Campos, mais do que eles já se preocupam com as dificuldades para financiar suas custosas campanhas eleitorais, mesmo sendo os principais opositores do governo de Dilma Rousseff e, presumivelmente, apoiados pelos donos do dinheiro, refratários a qualquer proposta de repartir mais igualitariamente a riqueza, como pregava antigamente o Partido dos Trabalhadores.
Os que tomaram conhecimento da notícia, porém, ficarão ainda mais relutantes. Por que dar dinheiro à oposição, se com a situação estão se dando muito bem? Não se mexe em time que está ganhando, não é mesmo?
Para mim, o surpreendente na notícia não é o aumento da concentração de renda, algo já sabido, mas a informação de que quem tem uma renda individual de R$ 15 mil por mês se inclui naquele grupo de pouco mais de 100 mil pessoas. Ou seja, no grupo de 1% mais rico, numa população que soma 11,8 milhões de moradores da capital paulista.
Fiquei curioso sobre a concentração que deve existir dentro desse grupo restrito de privilegiados. Será que 1% deles detém metade da renda do grupo? Como saber? É um pessoal que se esconde até quando são obrigados, pela lei, a declarar seus bens à Justiça Eleitoral.
É mais fácil, para os pesquisadores, conhecer a renda dos 50% da população de menor renda. Mas não é o caso de humilhá-los ainda mais, aqui, revelando quanto ganham. Basta dizer que a participação deles na renda paulistana cresceu muito menos, na primeira década deste século, do que a dos mais ricos.
Há até uma explicação para isso, dada pelo diretor do Departamento de Informação da Secretaria de Desenvolvimento Urbano, Tomás Wissenbach, responsável pela pesquisa. Desde a década de 1970, segundo ele, a cidade de São Paulo vem perdendo suas indústrias e também os empregos que pagavam bons salários a pessoas com escolaridade média. Hoje a economia paulistana está concentrada nos setores de serviços, que produzem, de um lado, superempregos para executivos e consultores e, de outro, ocupações de baixa remuneração em funções terceirizadas como limpeza e telemarketing.
Assim sendo, não surpreende que o candidato do PT tenha vencido nas últimas eleições a disputa pela prefeitura de São Paulo, pois os baixa-renda tendem a votar nesse partido. Haverá surpresa nas eleições de outubro próximo? O tempo dirá.
Enquanto isso, vamos ficar com mais uma notícia de domingo, no mesmo jornal paulista. Agora, uma reportagem de Dimmi Amora:
“O jatinho Embraer Phenom 300 vale R$ 18 milhões, mas estacioná-lo nos aeroportos brasileiros custa apenas R$ 1. Mais precisamente, apenas 92 centavos por hora. O preço para parar máquinas milionárias dentro dos aeroportos do país equivale a um décimo do custo de deixar um carro nos estacionamentos dessas unidades. Em Congonhas (SP), onde parar um Phenom sai a R$ 1,21 a hora, estacionar um carro pelo mesmo período custa R$ 14. Mesmo para um dia inteiro de uso, os preços são distorcidos. Uma diária de estacionamento de veículo custa R$ 70, enquanto para um avião não passa de R$ 26”, começa Amora o seu relato.
Mas isso deve mudar. Os aeroportos brasileiros eram administrados por uma estatal, a Infraero. Agora restam a ela apenas 63 aeroportos. Pelo menos 20 já são administrados pela iniciativa privada (nesse número, o jornal não inclui o famoso aeroporto de Cláudio...). O Sindicato Nacional das Empresas de Administração Aeroportuária conta com 13 empresas associadas e já solicitou à Agência Nacional de Aviação Civil a revisão das tarifas. Vai conseguir. Agora, é briga de cachorro grande...
(fonte: http://kikacastro.com.br/2014/08/05/briga-de-cachorro-grande/)

terça-feira, 5 de agosto de 2014

“Aecioporto” virou pó na revista Veja

Só a "Óia" não sabia que todas as perguntas feitas por deputados em sessões de interrogatório, de CPI, de investigação, de sabatinas e etc que acontecem nas casas legislativas brasileiras (não só no Congresso) são elaboradas por assessores e consultores... eu mesmo já fiz um porrilhão de questões quando era consultor da Assembleia aqui de Minas. E olha que alguns deputados nem conseguiam ler direito as questões...

Por Altamiro Borges

Até os leitores mais tacanhos da Veja devem ter estranhado a capa da sua última edição. A revista da famiglia Civita, que já havia escondido o helicóptero de um velho aliado de Aécio Neves apreendido com 450 quilos de cocaína, simplesmente transformou em pó o “aecioporto” – o famoso aeroporto na fazenda do titio do presidenciável tucano construído com R$ 14 milhões dos cofres públicos de Minas Gerais. Para omitir o escândalo e ajudar seu candidato, a revista inventou uma denúncia sem pé nem cabeça sobre “A fraude na CPI da Petrobras”, revelando que os depoentes se preparam previamente para os depoimentos. Baita denúncia! Um furo de reportagem que entrará para os “anais” do jornalismo.

Além de esconder o “aecioporto”, numa técnica diversionista bem chinfrim, a Veja ainda deu munição para o seu dispositivo partidário no Congresso Nacional – formado pelo PSDB, DEM, PPS e outros capachos. Pautada pela revista – na verdade, socorrida por ela –, a oposição agora tenta sair da defensiva. Os tucanos criticam a “fraude na CPI” e exigem “apuração rigorosa”. “Vamos apurar a responsabilidade moral de Dilma neste episódio”, bravateia o senador Aloysio Nunes Ferreira, o estridente vice da chapa de Aécio Neves. Já o “ético” Agripino Maia, presidente do DEM, informa que os demos entrarão com “várias representações” contra o governo federal para investigar a sua ingerência “indevida” na CPI.

O restante da mídia, como uma sucursal da Veja, dá ampla repercussão ao novo factoide da revista e abafa de vez o escândalo do “aecioporto” – que não mereceu capas na maioria dos jornalões nem comentários hidrófobos nos telejornais. O Jornal Nacional da TV Globo, que se apressou em garantir amplo direito de defesa ao senador mineiro, agora faz escarcéu com a “fraude da CPI”. O jogo é combinado, numa ação orquestrada para salvar Aécio Neves e incriminar Dilma Rousseff.

A manobra midiática, porém, é tão canhestra que levanta suspeita até nos assíduos frequentadores da velha mídia. No Painel do Leitor da Folha, Fabiana Tambellini questiona: “Por que, por um lado, o deputado federal André Vargas está sendo investigado pelo Conselho de Ética da Câmara pelo empréstimo do jatinho de um doleiro suspeito e, por outro, Aécio Neves, que financiou com dinheiro público um aeroporto em terras de parentes e usou a pista sem autorização, nem sequer é investigado?”. Pena que muitos leitores da Veja não possuam este senso crítico!
(fonte: http://altamiroborges.blogspot.com.br/2014/08/aecioporto-virou-po-na-revista-veja.html#more)

UERJ lança o "manchetômetro"


Por Miguel do Rosário, no blog O Cafezinho:

Reproduzo trecho de email que recebi. Volto em seguida.

(…) Acompanho seu trabalho no Cafezinho e escrevo para te convidar a conhecer o Manchetômetro, um site sobre a cobertura das eleições na grande mídia (Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal Nacional) que nós do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública do Iesp lançamos semana passada.http://www.manchetometro.com.br/

Estamos também no facebook: https://www.facebook.com/manchetometro?fref=ts

E no twitter: https://twitter.com/Manchetometro

*****

Prezados pesquisadores da UERJ, a iniciativa é extremamente bem vinda! Todos os ângulos pesquisados nos fornecem um rico manancial para analisarmos a conjuntura política a partir da cobertura dos grandes meios de comunicação.

Vocês deram uma excelente contribuição ao debate político!

Os números não mentem. Os jornais tem feito uma campanha sistemática contra a presidenta Dilma.





Observe que somente em julho, com a eclosão do aeroescândalo de Aécio Neves, houve um repique negativo para o tucano.

Os pesquisadores confirmaram, cientificamente, o que as redes sociais sabem há tempos. A grande imprensa faz campanha diária contra a política e suas instituições. O item “enquadramento política”, que monitora a abordagem midiática das instituições políticas brasileiras (partidos, congresso, executivo, etc.), das políticas públicas e das personalidades políticas, revela que 98,7% das manchetes são negativas.



E olha que os pesquisadores deixaram a Veja de fora…

Vejam a cobertura por partido político. Não preciso nem falar nada. Tirem suas próprias conclusões.


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Jornalista desenvolve portal para desmentir notícias que circulam nas redes sociais



acesse o link: http://www.boatos.org/page/2                    

Christh Lopes* | 30/07/2014 15:15

A internet oferece uma infinidade de oportunidades aos usuários. Por meio dela, podemos expressar ideias, formar opiniões e dialogar com as pessoas. No entanto, este mesmo espaço tem sido utilizado para divulgar informações falsas. Independentemente dos motivos que levam ao seu compartilhamento na rede, a ideia do jornalista Edgard Matsuki é desmentir tais notícias.

Jornalista desvenda verdade sobre boatos  divulgados na web
Em junho de 2013, ele desenvolveu o Boatos.org. A página mostra que diversas histórias curtidas pelos internautas não passam de meras criações. Ao fazer a cobertura de tecnologia para grandes veículos de comunicação, Matsuki “via a necessidadede existir um espaço que explicasse o volume das informações na internet e que seria um tema de interesse”, conta.

“Podemos verificar alguns casos de notícias que enganaram jornalistas que não conseguiram checar corretamente uma informação”, completa. Entre eles, está a declaração do jogador da seleção argelina Slimani de que o time iria doar o prêmio conquistado na Copa para palestinos de Gaza. O site foi o primeiro a desmentir a informação, divulgada em diversos veículos.

Tudo funciona como uma bola de neve. No episódio do argelino, os portais brasileiros tinham como referência jornais estrangeiros, que filtraram a notícia de sites de futebol, que se basearam em um tuiteiro influente que, finalmente, descobriu a informação por meio de um perfil falso do atleta no Twitter. “Se a fonte da notícia fosse checada, não teríamos o problema”, diz Matsuki.

Crédito:Reprodução
Página ajuda a conferir notícias falsas nas redes sociais
Na avaliação do jornalista, a ânsia pela informação rápida tem dominado as redações pelo dever de obter o furo de reportagem sobre o fato “A primeira consequência é mais volume de informação, mais cópia e menos apuração. A segunda são os boatos e as barrigas”, revela. 

Apuração reforçada

Para investigar as notícias que circulam na internet, Matsuki reuniu estudantes e recém-formados em jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) que já haviam trabalhado com ele em outros projetos. No momento, a equipe conta com oito profissionais dispostos a revelar o contexto por trás do que é divulgado nas redes sociais. 

Apesar de reconhecer o potencial dos membros da iniciativa, ele revela que há recomendações para que sejam verificados os dados de cada informação a ser analisada. “Vale identificar sites que divulgam notícias falsas ou duvidosas. Acho que o caso do Diário Pernambucano, que algumas vezes é confundido com o Diário de Pernambuco, é emblemático”.

“Não foram poucas as notícias desta fonte divulgadas como verdade. Por fim, vale seguir sites como o Boatos.org. Até porque, o desmentido está virando pauta no jornalismo”, diz. A principal ferramenta para o trabalho de apuração pode ser mais simples do que se possa imaginar. 

O jornalista acredita que o Google pode ser um ótimo aliado do repórter no processo de apuração de uma informação para uma reportagem, pois nele podemos encontrar “fotos ou datas de indexação das matérias. É possível fazer uma engenharia reversa de uma história”.

Novos projetos em pauta

Atualmente, o portal se dedica exclusivamente ao conceito inicial, mas em ano de eleições, a página deve ganhar visibilidade, devido ao número de informações falsas levantadas no período. “Estamos sempre de olho. Nós vamos desmentindo na medida em que elas aparecerem", revela.

“Há apenas o cuidado de demonstrar que o site não tem nenhum objetivo político”. Pelo trabalho desenvolvido durante um ano de iniciativa, o reconhecimento chegou, mas de forma não muito agradável. “Já fomos convidados para sermos parceiros de sites com objetivos partidários, mas não aceitamos”, conta Edgard Matsuki.

Novas ferramentas para o Boatos.org estão em pauta, como parcerias na mídia e vídeos produzidos pelo portal. No entanto, o conteúdo das conversas não foram revelados. “Por enquanto, estamos apenas na fase de negociações. Mas não há previsão para as implementações”, conclui. 

Recomendações

Apesar de tratar de diversos assuntos, o jornalista diz que tem preferências sobre alguns temas, como supostos crimes, política e religião. Em destaque, ele aponta as seguintes matérias.


Entre os casos repercutidos pela mídia, vale conferir:

- Snowden pede asilo no Brasil em troca de informações.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

Leia também
Diretor da “Playboy” cria blog para afastar boatos sobre o fim da revista

O massacre visto por dentro


140804-Gaza2

Dois médicos noruegueses em Gaza descrevem, atônitos, guerra que visa especialmente residências e hospitais e faz população acreditar que já “não há nada a perder”

Por  Gideon Levy e Alex Levac, no Haaretz | Tradução: Cauê Ameni e Gabriela Leite
Os números são escritos em tinta na palma de sua mão, como se fosse uma um aluno anotando uma cola para uma prova: 1.035 mortos, 6.233 feridos, em duas horas na segunda-feira. A cada dia, ele apaga as cifras e atualiza.
Nesta semana, o professor Mads Gilbert deixou o Hospital de Shifa, na Faixa de Gaza, para breve férias em sua terra natal, Noruega, depois de duas semanas consecutivas tratando as vítimas da guerra. Seu colega e compratriota, o professor Erik Fosse, deveria substituir Gilbert em Gaza, mas até o meio da semana Israel ainda o impedia. Fosse passou, também, a primeira semana da Operação Borda de Proteção em Shifa, e queria voltar.
Gilbert e Fosse trabalharam em Shifa durante a Operação Chumbo Fundido, em 2008-09, e publicaram na sequência o livro Olhos em Gaza, um best-seller internacional. Agora, eles afirmam que, em termos de dano causado à população civil, e principalmente às crianças, a atual guerra na Faixa de Gaza é ainda mais angustiante do que a anterior.
Ambos estão em seus sessenta anos. Eram admiradores de Israel em sua juventude, mas na primeira guerra do Líbano em 1982 – em que se alistaram para ajudar a tratar os palestinos feridos – suas perspectivas e vidas mudaram para sempre. “Foi então que vi a máquina de guerra israelense pela primeira vez”, Gilbert lembra.
Fosse dirige uma organização chamda NORWAC (Comitê da Ajuda Norueguesa), que presta assistência médica aos palestinos, e é financiada pelo governo norueguês. Gilbert (que é voluntário independente) e Fosse têm, ambos, dedicado boa parte de suas vidas ajudando os palestinos, o que tornou Gaza uma segunda casa para eles. Na segunda-feira à tarde, encontramos Fosse, um cirurgião cardíaco, em Herzlia, retornando para Gaza, depois de suas férias na Noruega. E conhecemos Gilbert, um anestesista, enquanto saía da passagem da fronteira de Erez a caminho de casa. As imagens descritas pelos dois deve pesar muito na consciência de cada ser humano decente.

“Pensei que a a Operação Chumbo Fundido seria a experiência mais terrível da minha vida”, disse Gilbert, “até que cheguei em Gaza há duas semanas. Era ainda mais chocante. Os dados revelam que há 4,2 vítimas palestinas por hora… Mais de um quarto dos mortos são crianças; mais da metade são mulheres e crianças. As forças armadas de Israel admitem que 70% são civis; a ONU diz que 80% são; mas pelo que vi no Shifa, mais de 90% são civis. Isso significa que estamos falando de um massacre da população civil”.
“Shujaiyeh foi um verdadeiro massacre”, continua ele. “Na Operação Chumbo Fundido, eu não vi esse tipo de ataque em edifícios residenciais; naquela época, os prédios públicos foram atacados. A brutalidade, o dano intencional a civis e a destruição são mais angustiantes agora do que na Operação Chumbo Fundido. Não me impressiona o o fato de que as pessoas recebam um aviso de 80 segundos para evacuar suas casa. Isso é desumano. A visão de Shujaiyeh é mais terrível do que qualquer coisa que vimos em Chumbo Fundido”.
“Dê uma olhada em Shujaiyeh – parece Hiroshima. Eu nunca vou me acostumar com a visão de uma criança ferida, quando não temos à disposição meios adequados para tratar deles. Usamos anestesia local, devido à falta de remédios, e não há drogas suficientes nem para isso”.
Gilbert, que leciona na Universidade do Norte da Noruega, também está furioso com o que vê como dano intencional do exército aos hospitais. Nada sobrou do hospital de reabilitação Al-Wafa; o hospital infantil Mohammed al-Dura em Beit Hanun foi bombardeado pelo exército, e uma criança de dois anos e meio, internada na UTI, foi morta. Quatro pessoas morreram no Hospital Al-Aqsa. Gilbert tinha visitado o hospital infantil e testemunhou a cena com seus próprio olhos. Nove ambulâncias foram atacadas; os médicos foram mortos e feridos. Na opinião de Gilbert, estes incidentes constituem crimes de guerra.
O médico ficou particularmente impressionado pela determinação e comportamento dos residentes, primeiramente aqueles das equipes médicas locais. Em Shipa, nenhum dos funcionários recebeu salário por três mêses; nos oito meses anteriores, apenas receberam metade dele. Mesmo os que tiveram suas casas destruídas permaneceram trabalhando. Sua devoção à profissão sob tais condições deixaram-no atônito.
No que diz respeito à afirmação de que os líderes de Hamas estão escondidos em Shifa, os dois noruegueses dizem não terem visto um único homem armado ou qualquer chefe da organização; alguns ministro do Hamas foram visitar os feridos.
Gilbert diz que, também na Operação Chumbo Fundido, o exército de Israel tentou assustar o serviço médico dizendo que os militantes armados estavam escondidos no hospital. Mas a última pessoa com armas que os noruegueses viram em Shifa foi um médico israelense, durante a primeira intifada, anos atrás. Gilbert diz que avisou o homem sobre a lei internacional, que proíbe levar armas a hospitais.
Da mesma maneira, ele recusa as declarações de que o Hamas está usando a população civil de Gaza como escudo humano, e adiciona: “Onde a resistência clandestina ao nazismo se escondia, na Holanda e na França? E onde escondia suas armas?”
“Eu não apoio o Hamas”, diz Gilbert. “Eu apoio palestinos, e também seu direito de escolher os líderes errados. E quem escolheu [o primeiro-ministro israelense] Neanyahu e [o ministro de Relações Exeteriores, de extrema-direita,] Lieberman? Eles [os palestinos] têm o direito de cometer erros. Visito Gaza há 17 anos. Quanto mais você a bombeia, mais o apoio pela resistência cresce. Sinto que a tentativa de retratar Hamas como um Boko Haram é ridícula. Boko Haram é o exército de Israel, que está violando a lei internacional. Como seus comandantes podem estar orgulhosos de matar civis?
“A História vai julgá-los e acredito que o exército de Israel não vai sair disso bem, dados os fatos. Eu faço um chamado aos israelenes: ergam-se. Mostrem coragem. Israel etá se movendo na direção de ser pior que a África do Sul — e isso seria uma forma vergonhosa de deixar o palco da história.”
Fosse é mais comedido, provavelmente porque trabalhou apenas até a invasão por terra em Gaza começar. Em Shifa, ele conduziu cerca de dez operações por dia. Elogia a especialidade dos médicos de Gaza, com quem trabalhou.
Ele vê sua missão como uma extensão para além da sala de cirurgia, ao levantar um grito de alarme para o mundo, depois de Gaza ser esvaziada de qualquer presença internacional por Israel. Ele afirma que a maioria dos feridos que tratou foram atingidos por mísseis guiados de precisão. Está certo, portanto, de que o maior número de ataques a civis e crianças foi intencional.
Em seu livro, os noruegueses reproduziram uma foto dos atiradores do exército de Israel, vestindo camisetas com as legendas: “Menores — mais duros” e “Uma bala — dois mortos”. Desta vez, são os mísseis inteligentes que estão matando crianças. Mas na opinião de Fosse, o cerco de Israel a Gaza é ainda mais sério para seus residentes que a guerra. E é esse o motivo de o Hamas estar mais agressivo agora.
“Há sete anos, a sociedade inteira está se desmoronando. Não há comércio, não há exportação nem saída. A única ocupação que permite acumular dinheiro é o contrabando, e isso destrói a sociedade. Destrói Gaza como uma sociedade normal. O cerco criou um reduzido grupo de pessoas que enriquecem contrabandeando. Todas as outras são pobres. Isso mina a estrutura da sociedade, e é o maior problema de Gaza.
“Fui lembrado de minhas conversas com cirurgiões palestinos da minha idade. Por anos, eles viveram em uma Gaza aberta, que tinha conexões excelentes com os médicos israelenses. Sempre sonharam em voltar a isso. Agora, esses mesmos médicos se reúnem em volta da televisão e ficam felizes quando foguetes caem no país vizinho. Eu digo a eles: mas Israel vai reagir. E eles dizem: não nos importamos mais. Vamos morrer de qualquer maneira. É melhor morrer em um bombardeio.
“Eles perderam toda a esperança. É chocante ver estas pessoas perdendo seus filhos e não se importarem mais. Israel está perdendo soldados, agora, para preservar uma situação a que o mundo inteiro se opõe. Isso é um crime contra uma população civil imensa”, Fosse acrescenta.
“Vocês roubaram seu futuro e eles estão em desespero. O Hamas não tem muito apoio, mas há um imenso apoio ao sentimento de que não há mais nada a perder. E, do outro lado, está a sociedade israelense, que não se importa. É muito triste. Vocês, que passaram pelo Holocausto, tornaram-se racistas. Em minha opinião, isso é uma tragédia. Por que estão fazendo isso? Estão ultrapassando todos os limite éticos — e, no fim, isso também vai destruir sua própria sociedade.”

* Gideon Levy é um colunista e membro do conselho editorial do jornal Haaretz, de Israel. Ele é o autor da coluna semanal Twilight Zone, que tem cobrido a ocupação israelense na Cisjordânia e em Gaza nos últimos 25 anos, e também escreve editoriais políticos para o jornal. Levy foi o ganhador do Prêmio de Euro-Med de Jornalismo em 2008; o Prêmio Leipzig de Liberdade em 2001; o Prêmio da União de Jornalistas de Israel; e o Prêmio da Associação de Direitos Humanos em Israel em 1996.

(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/o-massacre-visto-por-dentro/)