sábado, 8 de novembro de 2014

A Direita Militante


O crescimento histórico do fascismo não se deu sem a cumplicidade passiva, primeiro, ativa depois, das autoridades legalmente constituídas.


Lincoln Secco
Arquivo


O fascismo começou assim: pequenos grupos ridicularizados e sem visibilidade eleitoral.

O crescimento histórico do fascismo não se deu sem a cumplicidade passiva, primeiro, ativa depois, das autoridades legalmente constituídas. Afinal, tanto na Itália quanto na Alemanha os fascistas só romperam a legalidade depois e não antes de chegar ao poder.

No Brasil, o recrudescimento da ideologia antipetista e a degenerescência das jornadas de junho deram a uma direita militante o ar da novidade. Mas assim como o anticomunismo no passado, o antipetismo não é um fenômeno contrário a um partido. O antipetismo já existia nos anos 1980 e as suas motivações profundas são as mesmas: o medo que os pobres chutem a escada ou que subam alguns degraus e se aproxime de você.

O primeiro receio foi típico dos anos 1980 e o segundo é um resultado das políticas sociais de Lula.

A ideologia “anti” jamais é pacífica porque carrega sentimentos irracionais que o sistema legal não pode incorporar. Por isso, os fascistas sempre vivem numa legalidade paralela, manipulando racionalmente o irracionalismo de suas milícias.

Para liberais conservadores trata-se de um problema crucial. Seu modo de governo se baseia na apatia das massas e não em sua militância. Mas quando o partido de esquerda solapa este consenso e mobiliza seu exército, eles se veem nos braços dos fascistas.

É assim que assistimos à atual recusa dos tucanos em relação aos seus apoiadores mais entusiasmados. FHC e seus amigos passaram a vida toda querendo ser carregados nos braços do povo e quando isso se torna realidade, eles voltam para casa. É assim que em dois dias assistimos a autoridades do PSDB se desvencilhando da campanha pelo impeachment da presidenta Dilma Roussef.

Isso acontece devido ao elitismo de sua visão de democracia que não tolera massas, sejam de esquerda ou de direita. Mas sua recusa, num dado momento, se torna meramente ritual.

O governador paulista, por exemplo, disse que a defesa da Ditadura era algo “inaceitável”. Então por que aceita? Afinal, ao contrário das manifestações de movimentos sociais de esquerda nós não vimos repressão policial ou prisão de manifestantes.

Os que defendem a Ditadura violam a Constituição (ou alguém imagina alemães em Berlim defendendo hoje o III Reich?). O parlamentar que foi armado a um ato público descumpriu o artigo 5, inciso XVI da Constituição). Mas os “terríveis” black blocs com suas garrafas de água são processados...

Você sabe o que vai acontecer? Nada. Salvo quando são do PT, políticos não podem ir para a prisão. Salvo quando são manifestantes de esquerda ou são da oposição num país distante, digamos a Venezuela, a imprensa jamais pede que a polícia use a violência “desproporcional”. E quando se trata de manifestantes populares, a própria esquerda se encarrega de prendê-los pra mostrar seu compromisso republicano. Este é o mesmo compromisso que manteve impunes os criminosos da Ditadura e é só por isso que hoje seus apoiadores voltam às ruas.

(fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/A-Direita-Militante/4/32189)

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A herança maldita do PSDB em Minas

Por Rogério Correia, em seu site:

Desde o resultado das eleições para o Governo de Minas, uma grande preocupação percorre os corredores da Assembleia Legislativa: como Fernando Pimentel irá conseguir reverter o quadro desastroso deixado pelos 12 anos de governos tucanos em Minas Gerais?

Os governos de Aécio, Anastasia e Alberto – a trinca de Ás responsável pela derrocada do Estado de Minas Gerais – levaram ao sucateamento dos serviços públicos em todas as áreas. O malfadado Choque de Gestão deixa o estado em situação de caos, afunilando nossa economia e colocando Minas Gerais na contramão do desenvolvimento.

Reconstruir Minas Gerais será o maior desafio da gestão de Fernando Pimentel. Veja alguns dos problemas que o petista terá que enfrentar a partir de 1º de janeiro:

Educação
Os professores mineiros não recebem o Piso Salarial Profissional Nacional definido por Lei Federal. Nem o mínimo constitucional para a Educação (12% da receita estadual) é aplicado, o que gerou uma dívida com o setor de 8 bilhões de Reais. Faltam mais de 1 milhão de vagas para o Ensino Médio na rede pública. Por causa da falta de estrutura, existem escolas estaduais funcionando em locais antes utilizados como motel e posto de gasolina.

Saúde
Também sem a aplicação do mínimo constitucional para a Saúde, os mineiros seguem marcados pela amarga gestão do SUS/MG. Nenhum novo hospital. Nenhum programa estruturador. Some-se a isso uma ação movida pelo Ministério Público que questiona desvios da verba da Saúde para a Copasa da ordem de mais de 5 bilhões de Reais. Outra ação questiona um superfaturamento na compra de medicamento entre 2008 e 2012, que causou um rombo de 28 milhões de Reais aos cofres públicos mineiros.

Economia
Acumulada principalmente nos últimos 12 anos, a dívida pública mineira está estimada em 102 bilhões de Reais, colocando Minas Gerais na posição de 2º estado mais endividado do país. Apesar dos pagamentos de juros e amortização, a dívida cresce. A crise pela qual passa nosso estado já garantiu para 2015 baixas orçamentárias nas secretarias de Planejamento e Gestão, de Transportes e Obras Públicas e na de Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Previdência
A extinção do Funpemg (Fundo de Previdência do Estado de Minas Gerais) como forma de apropriação dos recursos do fundo para cobrir os déficits do caixa mineiro foi um dos maiores golpes contra o povo de Minas Gerais. Ainda assim, somente no ano passado, o Tesouro Estadual precisou fazer um aporte de 5,9 bilhões de Reais para cobrir o pagamento de benefícios previdenciários. Parte desse dinheiro foi excluído do pagamento com despesas de pessoal.

Será preciso muito trabalho de Fernando Pimentel a da base aliada na ALMG para dar conta do recado. Mas com grande força de vontade e com o apoio da população, será possível levar o estado de Minas Gerais a resgatar o respeito e relevância que possui no cenário nacional. Sem Choque de Gestão, sem as cartadas da trinca de Ás que derrubaram a vontade de vencer do povo de Minas Gerais.

O mundo “limpinho” da Flórida proíbe até caridade


6 de novembro de 2014 | 17:39 Autor: Fernando Brito

Do Facebook de Nilson Lage:
“Eis o mundo com que sonha a elite (!) brasileira.
Ele existe, está ali, ao alcance de todos que levem para lá o dinheiro que ganham aqui, Deus sabe como.
Em Fort Lauderdale, Flórida, sonho de consumo de todo imbecil rico e semi-analfabeto do Brasil, a limpeza social é tão intensa que é proibido dar comida a moradores de rua.
Mantém-se, assim, a aparência diferenciada da massa cheirosa.
Um senhor de 90 anos desafiou essa medida higiênica e ficará preso 60 dias.
Lage se refere à matéria do jornal O Dia, do Rio de Janeiro, onde é relatada a prisão de  Arnold Abbot, um veterano da 2a. Guerra Mundial que mantem há anos uma atividade de caridade que consiste em dar refeições a pessoas muito pobres da cidade. E nem sequer se poderia alegar sujeira ou interrupção de via pública: vê se nos vídeos do episodio algo bem modesto e organizado.
Abbot e dois pastores foram soltos após pagarem fiança e vão responder a processo.
Leia e veja como a ideia de varrer os pobres para longe não é uma exclusividade da elite brasileira que, aliás, acha a Flórida o máximo.

Idoso de 90 anos é detido por dar comida a moradores de rua na Flórida

“A boa ação de um idoso de 90 anos não foi bem vista por policiais na Flórida, EUA. O homem foi detido e pode ficar até 60 dias na prisão por alimentar moradores de rua em Fort Lauderdale. Uma polêmica nova lei da cidade proíbe grupos humanitários de compartilhar suas refeições com o público, o que pode gerar ainda uma multa de até R$ 1.250.
Arnold Abbott foi preso por policiais enquanto distribuía comida para moradores de rua em uma parque, no último domingo. O idoso foi detido e acusado junto com dois pastores da Igreja Santuário, que preparam refeições para repartir com os menos favorecidos todas as semanas em sua cozinha. As pessoas que viram a cena ficaram indignadas e reagiram gritando “vergonha” e outros xingamentos.
A nova lei entrou em vigor na última semana. Pelas regras os grupos humanitários devem ficar pelo menos a 500 metros de distância de propriedades e locais com alimentos. Instituições de caridade têm criticado as regras como uma forma de fazer limpeza social.
De acordo com o prefeito da cidade, Jack Seiler, esta medida é para que desabrigados não se acomodem e fiquem na rua, já que eles não se preocupariam em se alimentar. Recentemente, a cidade de Fort Lauderdale também aprovou uma lei limitando o armazenamento de bens pessoais em público.
Não duvido que aqui, com uma mentalidade destas, até a Irmã Zoé, famosa por sua obra de caridade do Dispensário dos Pobres, teria ido em cana…

(fonte: http://tijolaco.com.br/blog/?p=22802)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Aulinha de história para uma criança de 6 anos

É o tipo da aulinha que muito adulto deveria ouvir!


– Mamãe, por que esse povo todo tá gritando?
– Eles querem que a presidente que foi eleita na semana passada saia e o candidato que perdeu entre no lugar dela.
– Uai, mas se ele perdeu, não pode ganhar, né?
– Não pode mesmo, filhinha. Quando a gente joga um jogo e você perde, tem que aceitar. Tentar ganhar no próximo jogo. Se você força a barra pra ganhar de qualquer jeito, tá roubando.
– Então esse povo aí quer roubar no jogo?
– Mais ou menos isso… Eles pedem até que o Exército ajude a tirar a presidente eleita, pro candidato que perdeu entrar no lugar dela.
– Os soldados?!
– É. Isso a gente chama de “golpe”. Aconteceu isso uma vez, há 50 anos atrás, exatamente. Tinha um presidente eleito chamado Jango. Bom, na verdade, ele era vice-presidente, mas na época os vices também eram eleitos, separadamente, sabe? Aí, quando o presidente renunciou (quis deixar o cargo, por livre e espontânea vontade), o Jango virou presidente. Depois de um tempo, acusado de ser comunista (não vou te explicar o que é isso agora, filhinha), ele foi tirado do poder pelos “soldados”. Antes disso, tinha um povo, igual esses aí, que ficava fazendo marchas pela cidade, que eles chamavam de Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Ficavam falando que o presidente era comunista, que o Brasil ia virar Cuba, que o governo não respeitava os “valores da família” etc. E pediam ajuda ao Exército para tirar o presidente na marra.
– E ele foi tirado?
– Foi. Os caras do Exército começaram a governar o país no lugar dele, e proibiram as eleições, o povo não pôde mais escolher quem governaria o país. E aí começou o que a gente chama de ditadura militar. Foi um período ruim no nosso país e demorou 21 longos anos. As pessoas eram presas, e eles machucavam elas de verdade (muitas vezes até matavam) só porque pediam o fim da ditadura. As pessoas não podiam escrever o que quisessem, até os discos tinham que passar pelos censores antes de serem lançados. Os censores trabalhavam para o governo e decidiam se as ideias das pessoas podiam ser publicadas do jeito que elas queriam ou não. As pessoas também não podiam se manifestar livremente, ir para a rua para fazer marchas e pedidos.
– Uai, mas então esse povo não ia conseguir marchar! Então por que esse povo quer a volta da ditadura hoje, mamãe?
– Por que são loucos! Ou não estudaram história. Se hoje vivêssemos numa ditadura militar, eles jamais poderiam estar aí, fazendo essas passeatas ridículas. Como vivemos em plena democracia, até esses maus perdedores têm liberdade pra sair por aí, pedindo coisas idiotas. Mal sabem eles que, na época da ditadura, além de poderem ser presos e torturados por saírem às ruas desse jeito, eles ainda iam viver numa economia com muito mais problemas que a de hoje, que depois deixou o Brasil quase falido. A educação e a saúde eram ruins e o país já era corrupto. Milhares de inocentes foram mortos.
– Mas por que eles não aceitam que a presidente foi eleita?
– Porque são maus perdedores. Ela foi eleita por poucos votos de diferença, mas foi a maioria do povo que escolheu, ponto. Eles dizem que o governo dela é corrupto e que é uma ditadura, que estamos virando Cuba e que os “valores da família” não estão sendo respeitados, porque ela apoia que quem machuque gays só por serem gays seja preso…
– Uai, mamãe, era a mesma coisa que falavam nas marchas que você citou antes?!
– Isso, a mesma coisa que falavam há 50 anos, contra o presidente Jango. E, depois, deu no que deu…
– Então xeu ver se entendi: esse povo aí reclama que a presidente, que deixa até eles pedirem a saída dela, é uma ditadora. Pra combater a ditadora, eles pedem ajuda do Exército, pra tirar ela à força e colocar um cara que nem foi eleito no lugar dela. E defendem a ditadura, que, se existir de verdade, nem vai deixar que eles saiam por aí fazendo marchas e vai sair machucando e matando as pessoas só por pensarem diferente?!
(É, filhinha, você só tem 6 anos, mas é mais esperta que todos eles juntos!)

P.S. Neste momento em que escrevo, 4 de novembro, já se passaram três dias desde o protesto que reuniu 2.500 pessoas em São Paulo, das quais uma parte pedia intervenção militar para retirada da presidente da República reeleita democraticamente. Desde então, o governador reeleito democraticamente em São Paulo, Geraldo Alckmin, que agora já voltou a ser a principal liderança do PSDB no país, veio a público repudiar o pedido de uma intervenção militar. O músico Lobão, que virou uma espécie de ícone dos reaças nestas eleições, também veio a público dizer que “qualquer ditadura é injustificável”. Até o governo dos Estados Unidos já se posicionou contra esses pedidos anti-Dilma. Já o candidato Aécio Neves, derrotado nas urnas e pretexto para que essa multidão saia por aí pedindo impeachment de Dilma, não soltou um pio. Nem mesmo defendeu o coordenador digital de sua campanha, que foi xingado por ter criticado o teor das marchas de sábado. Nem mesmo se manifestou contra o absurdo e surreal pedido de intervenção militar no país. Aécio está lá… silencioso — ou omisso.

(fonte: http://kikacastro.com.br/2014/11/04/aulinha-de-historia-pra-uma-crianca-de-6-anos/)

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Sistema político brasileiro



Sistema político brasileiro

            As manifestações de junho de 2013 serviram para explicitar o mal-estar da sociedade brasileira, em face do direcionamento do sistema político brasileiro. Esse sistema não atende às carências de grande parte da população, especialmente dos pobres.
            O sistema de financiamento de campanha política, misto de público e privado, acaba privilegiando os mais ricos elegendo representantes nos legislativos, defensores de seus interesses. Há no sistema de financiamento de campanha uma série de impurezas que precisam ser extirpadas; O multipartidarismo permite a existência de pequenos partidos que acabam dominados pelos maiores e mais ricos. Os grandes partidos não conseguem se libertar do interesse do capital. E das classes médias superiores. O interesse do capital aparece no discurso da “Eficácia”, da “eficiência” e do empreendedorismo.
            Sistema midiático oligopolizado e oligárquico, notadamente a rede concessionária de TVs e rádios, articuladas a jornais, revistas e portais, atuando com “partido da imprensa golpista”, no dizer de Paulo Henrique Amorim. O partidarismo da imprensa não consegue ocultar a tendência em favor do capital. É o setor onde há maior e mais premente necessidade de reforma, como ocorreu na Argentina com a “Lei de Médios”. A estrutura do Estado brasileiro, historicamente, tem servido aos interesses das elites para a manutenção de seu poder sobre os trabalhadores, excluídos e o povo brasileiro. Portanto, o sistema político brasileiro é contrário aos interesses populares.
            O sistema tributário pesa sobre os cidadãos pobres. O sistema financeiro privado e o BNDES beneficiam o agronegócio em detrimento da produção agrícola familiar. Conforme o manifesto de 7 de setembro de 2013, nos últimos anos, tem-se presenciado essa estrutura de poder oprimindo as populações quilombolas, indígenas e populações ribeirinhas pelo desrespeito à sua cultura e ao seu território, em favor do agronegócio.
            As chamadas “reformas progressistas” colocadas em prática pelos governos Lula e Dilma, na área social, só podem ocorrer de forma tímida e sem assustar as elites. As demais reformas, como do sistema judiciário prisional, que atualmente, só penaliza os pobres; Reforma agrária e política agrícola tímidas; poder exorbitante dos bancos e do capital financeiro; intocabilidade da taxação às grandes fortunas. O atual sistema partidário anula a ação dos partidos progressistas impedindo as grandes transformações. A estatística mostra que nas eleições de 2014, o número de parlamentares milionários aumentou consideravelmente, o que contribui para aumentar os obstáculos às reformas e avanços desejados.
            Belo Horizonte, novembro de 2014.


            Antônio de Paiva Moura

sábado, 1 de novembro de 2014

Injustiçados – o caso Pizzolato


Texto escrito por José de Souza Castro:
Há assuntos dos quais o leitor só consegue se informar razoavelmente bem em blogs. O caso Pizzolato é um deles. Quem tentou se informar lendo bons jornais brasileiros ou ouvindo rádio e televisão ficou com a ideia de que a Justiça italiana rejeitou o pedido de extradição do ex-funcionário do Banco do Brasil por causa das alegações da defesa sobre as péssimas condições carcerárias existentes aqui.
Lendo um artigo do jornalista Miguel do Rosário no blog O Cafezinho, dia 31 de outubro, entendi finalmente que a questão das penitenciárias foi a quinta entre as cinco alegações, numeradas por ordem de importância.
A primeira, e certamente a mais importante nas considerações dos juízes italianos, está ligada diretamente ao processo judiciário. Mais precisamente, a um gritante erro judiciário. Os interessados devem ler o que escreveu Miguel do Rosário, que resumiu em português as alegações da defesa e disponibilizou um link para quem quiser ler as 76 páginas em italiano. Não me animei a tanto, mas é possível fazer aqui um breve resumo com base no texto de Rosário.
Em primeiro lugar, concordo com ele que a sociedade, num ambiente democrático, pode e deve debater os arbítrios e o próprio mérito das sentenças de juízes, para evitar que venhamos a cair numa ditadura judicial. “Não há verdades absolutas numa democracia, e mais ainda em sentenças judiciais”, escreve Rosário. “Tudo deve ser posto sob o escrutínio implacável de um debate livre e aberto de ideias.” Sobretudo no caso da Ação Penal 470 que, para o autor, “é o mais perigoso ovo de serpente da nossa democracia”.
Por quê? Por ser um caso em que a Procuradoria Geral da República e o Supremo Tribunal Federal cederam claramente às pressões de setores politica e economicamente poderosos no Brasil.
Distante da pressão da mídia brasileira, a Justiça italiana pôde se debruçar sobre os questionamentos de todo o processo, feitos pela defesa de Pizzolato. E certamente não se deixará influenciar pelo indiciamento dele, feito agora pela Polícia Federal, por causa do uso de documentos falsos, para fugir do Brasil. Pois qualquer perseguido político tem o direito de falsificar documentos. Essa parece ser uma verdade reconhecida internacionalmente pelos tribunais.
E já não resta dúvida, após o julgamento na Itália, de que Pizzolato é um perseguido político. Ele foi usado com o objetivo final de enfraquecer e derrotar o PT, eleitoralmente.
O Ministério Público acusou 40 pessoas por envolvimento no Mensalão do PT. Como entre os acusados havia três deputados federais suspeitos de receberem pagamentos mensais para aprovarem projetos de interesse do governo Lula, todos acabaram sendo julgados pelo Supremo, que violou assim o princípio do juiz natural e do direito ao duplo grau de jurisdição.
O Supremo seria competente, por certo, para julgar crimes penais comuns atribuídos a pessoas que ocupam cargos específicos, como presidente e vice-presidente da República, membros do Congresso Nacional, ministros e o Procurador Geral da República. Ultrapassar essa competência, se não foi importante para o STF que decidiu também julgar quem não ocupava tais cargos na época da aceitação da denúncia, isso foi muito importante para os juízes italianos que julgaram na Itália o pedido de extração de Pizzolato. Pois, por maioria, os ministros do Supremo tiraram do acusado a possibilidade de recorrer da sentença de condenação a outro tribunal brasileiro. Desse modo, ele foi julgado por um tribunal incompetente que emitiu uma sentença inapelável.
Além disso, alegou a defesa de Pizzolato, houve violação do princípio de imparcialidade do órgão julgador, segundo o qual o juiz que acompanha a fase de investigação não pode julgar. O ministro Joaquim Barbosa acompanhou a fase de inquérito e apresentou, como relator, seu relatório final e também julgou e votou pela aceitação da denúncia apresentada pelo Procurador Geral da República.
Na fase seguinte, a da ação penal, ela foi acompanhada por Joaquim Barbosa, que em 2012 também julgou e votou, acumulando os cargos de relator, de juiz e de presidente do STF (cargo que assumiu no curso do julgamento). Exerceu assim um duplo papel incompatível com as garantias ditadas na Convenção Americana de Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário, e da Convenção Europeia dos Direitos do Homem.
Tão grave quanto isso foi a violação do direito de defesa, pois muitos documentos e elementos probatórios que teriam retirado as acusações contra Pizzolato foram negados à defesa com motivações enganosas.
É bom lembrar que havia pressa em apresentar as denúncias contra os “40 ladrões” – um número fabulosamente bem escolhido, por remeter a Ali Babá –, antes das eleições de 2006, para dificultar a reeleição de Lula. (Como houve pressa em concluir o julgamento antes da reeleição de Dilma.) Desse modo, o Procurador Geral apresentou denúncia contra as 40 pessoas, apesar de saber que as investigações da PF não tinham sido ainda concluídas. A Polícia Federal continuou as investigações após a denúncia feita pelo Ministério Público ao Supremo. E acabou apresentando documentos que demonstravam que Pizzolato, acusado pelos crimes de peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro, não era responsável pelos fatos que foram atribuídos a ele.
O Procurador Geral, porém, solicitou a Joaquim Barbosa – e este acatou – que em vez de anexar as provas ao processo para conhecimento da defesa de Pizzolato, que elas fossem separadas e colocadas num outro processo, com nova numeração (a de nº 2.474), para ser julgado na primeira instância, em segredo de Justiça.
Entre todos os funcionários do Banco do Brasil envolvidos na questão julgada contra Pizzolato, ele era o único petista. Talvez, aos olhos de Joaquim Barbosa, essa fosse sua principal culpa.
(fonte: blog da Kika Castro)

Países desenvolvidos tiveram governos fortes depois de eleições apertadas

Tão logo se consolidaram os resultados da eleição presidencial no Brasil, no último domingo, os sites dos principais jornais do país começaram a destacar em suas manchetes o fato de que Dilma Rousseff havia sido reeleita com uma margem muito estreita de votos. O tom geral da cobertura dava a entender que o país estava dividido e que isso seria fruto de um enorme descontentamento da população com a política petista. Era como se a vitória, por não ser uma lavada, não chancelasse a candidata vencedora.
Além desta vitória ser "menos legítima" do que as últimas conquistas do PT, a ausência de uma votação acachapante encurtaria radicalmente a margem de manobra do próximo governo. Em outras democracias, como os Estados Unidos ou a França, disputas polarizadas são regra e não exceção. Barack Obama, por exemplo, bateu Mitt Romney em 2012 por uma diferença de menos de três pontos percentuais. Naquele mesmo ano, François Hollande abriu pouco mais de 2 pontos sobre Nicolas Sarkozy.
Anthony Pereira, diretor do Brazil Institute, no King's College de Londres, não acredita que eleições apertadas sejam necessariamente um empecilho à governabilidade. Ele lembra, por exemplo, que Margaret Thatcher foi eleita por apenas dois milhões de votos em 1979, para o mandato em que iniciou uma série de reformas estruturais de cunho liberal. "George W. Bush, em 2000, perdeu" no número de votos absolutos. Foi naquela gestão à frente da Casa Branca, que ele mudou o curso da história ao convencer metade do planeta a caçar armas de destruição em massa onde não havia.
Para o professor americano James Green, diretor da Brazil Initiative, na Brown University de Rhode Island (EUA), foi a incompetência da oposição em apresentar candidaturas fortes nas últimas eleições que fez com que os brasileiros se acostumassem às vitórias avassaladoras do PT. "O fato de o PSDB ter lançado no passado candidatos que foram muito fracos (Geraldo Alckmin e José Serra) deixaram as pessoas imaginarem que o PT ou qualquer outro partido teriam que vencer com margens de 10% a 20%".

Unidos no discurso, divididos na prática

No discurso que fez logo após a vitória, Dilma tentou apaziguar as diferenças que, evidentemente, foram catalizadas por uma campanha de rara agressividade. "Minhas primeiras palavras são, portanto, de chamamento e união. Democracia madura e união não significam necessariamente unidade de ideias nem ação monolítica conjunta, mas, em primeiro lugar, disposição para o diálogo. Esta presidente aqui está disposta ao diálogo", disse ela.
Nenhum dos dois especialistas acredita piamente nisso. Para Green, há uma polarização política e outra regional, que não serão eliminadas facilmente. Principalmente por conta do rastro de rancor deixado pelo discurso xenófobo contra os nordestinos. O preconceito divide-se entre o deliberado ("O Brasil tinha que se separar" ou "O sul e o sudeste carregam o nordeste nas costas", para ficar nos mais leves) e aquele "embutido no discurso contra o Bolsa Família. Eu fiquei muito triste com essa maneira de atacar o governo, alegando que pessoas que recebem o Bolsa Famíllia não têm capacidade de pensar seu voto porque estão recebendo ajuda do governo".
Para ele, essa polarização deve continuar e por isso o discurso da presidente não deve ser lido de maneira muito literal. "Essa coisa de insistir sobre reivindicações que a presidente 'tem que' imediatamente implementar, isso não existe em outros países. Quem ganha, ganha. Ganhou, venceu e vai implementar seu programa", afirma o professor da Brown University.
"Parece que ela está sentindo a necessidade de unir o eleitorado, falar sobre a reforma política, fazer alianças", observa Anthony Pereira. "Em termos de argumento normativo - 'ela tem que fazer isso' -, eu não concordo necessariamente. Acho que, em qualquer democracia, você tem a eleição e o vencedor tem todo o direito de governar como ele quiser". Ele pondera, no entanto, que no contexto brasileiro, ela sente que é necessário "não somente restaurar as relações com a oposição, mas internamente".
Pereira se refere ao PMDB, que impõe empecilhos ao ponto chave das promessas de Dilma para o novo mandato: a reforma política. Ela pede plebiscito, mas querem referendo os caciques da base - que são o que são porque têm a fórmula e a estrutura política para se manter no poder desde a ditadura. O referendo implica que o texto passe pelo Congresso e que sobre para a população um simples "sim" ou "não" sobre o que eles decidirem.

Democratização da mídia

Uma reforma incomoda muita gente. Duas reformas incomodam muito mais. E a segunda delas, a democratização da mídia, foi natimorta no passado, quando Lula aventou a possibilidade de um conselho social da mídia e terminou censurado por uma enxurrada de acusações de querer "censurar". Dilma prometeu naquele mesmo discurso que não será radical neste sentido, mas quer regulações econômicas e do direito de resposta.
Para os especialistas, impressionados com o deserto de regulação em que trabalham os grandes veículos brasileiros, ela deveria ir além disso: "Eu acho uma pena que ela não tenha liderado uma tentativa mais séria de propor algum tipo de regulação porque há mito que um governo propondo alguma regulação sobre como a mídia pode agir, isso implica necessariamente no fim da liberdade de imprensa", diz Anthony Pereira.

França e Grã-Bretanha têm regulação estrita

Mas, para ele, "isso não é verdade. Se você olha, por exemplo, a França ou a Grã-Bretanha, há regras importantes sobre o comportamento da mídia. Mas acho que Dilma, por causa desta postura da maioria dos atores da mídia contra o governo dela, parece que ela tem hesitação em enfrentar essa questão", observa o professor.
Green vai na mesma linha: "Eu não conheço nenhum outro país democrático em que a grande imprensa apóia um só partido político e é totalmente contra um governo. Não existe isso. Nos Estados Unidos, tem jornais liberais, jornais conservadores, a linha editorial é uma coisa, as reportagens são outra coisa. No Brasil, não é nada disso. As reportagens, as manchetes, são totalmente parciais e politizadas, explica que só existe uma versão sendo transmitidas para as classes médias que compram os jornais e para as classes populares, que assistem ao Jornal Nacional, da Rede Globo".
Curiosamente, os dois especialistas concordam em discordar da imprensa brasileira no que tange a análise dos resultados eleitorais e o prognóstico para os próximos anos de Dilma Rousseff à frente da presidência. Um deles vem da Inglaterra, que é a mãe biológica do neoliberalismo. O outro, dos Estados Unidos, pai de criação. E os dois acreditam que, enquanto a grande mídia for regulada exclusivamente pelo mercado, nossa democracia não será completa.
fonte: http://www.portugues.rfi.fr/geral/20141030-paises-desenvolvidos-tiveram-governos-fortes-depois-de-eleicoes-apertadas