segunda-feira, 16 de março de 2015

Novo número da revista Espaço Acadêmico

Revista Espaço Acadêmico
v. 14, n. 166 (2015): Revista Espaço Acadêmico, n. 166, março de 2015
Sumário
http://www.periodicos.uem.br/…/EspacoAcademi…/issue/view/981
DOSSIÊ: Rio de Janeiro 450 anos (Orgs.: Renato Nunes Bittencourt & Viviane da Silva Araujo)
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Cidade Maravilhosa, Cidade Partida, Cidade Vendida (01-14)
Renato Nunes Bittencourt
Rio 45 graus: trajetória e efeito da violência e da segregação urbana
(15-21)
Salvatore Barreto Benvenuto
Romantismo e tragicidade em Paquetá (22-28)
Wellington Lima Amorim
Capoeiras e a Revolta da Vacina (29-38)
Fabio Samu da Cunha
Exotismos próximos: reflexões sobre a cidade moderna na imagem das primeiras favelas cariocas (39-51)
Viviane da Silva Araujo
Um conto de réis: o Rio de Janeiro de 1880 e o imposto do vintém (52-63)
Francisco Gouvea de Sousa
ciência & tecnologia
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Sobre a importância da equipe para gestão de projetos sob a óptica da produtividade (64-66)
Antonio Mendes Silva Filho
ciência política
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Democracia de públicos e política informacional para minorias: como os partidos políticos brasileiros usam a internet para se relacionar com minorias políticas (67-83)
Antonio Teixeira de Barros
ciências sociais
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Estatuto da Igualdade Racial: um longo processo para uma sociedade mais justa (84-91)
Lílian Amorim Carvalho
cinema
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Aproximações de Roger Bastide, Jean Paul Sartre e Simone de Beauvior com o cinema de Orlando Senna: influências da Filosofia e Sociologia nas telas (92-103)
Luis Alberto Gottwald Junior
questão racial
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Arte e tecnologia africana no tempo do escravismo criminoso (104-111)
Henrique Antunes Cunha Junior
resenhas & livros
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Sobre o significado permanente da fenomenologia: Husserl, Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty (112-114)
Roberto S. Kahlmeyer-Mertens

Corruptos e corruptores



Corruptos e corruptores

         Muito oportuno o editorial do Le Monde Diplomatique Brasil, edição 92, março de 2015, assinado por Sílvio Caccia Bava. Ao contrário do que divulga a grande imprensa brasileira, a corrupção não reside somente na esfera do poder executivo. No Legislativo há abuso e transgressão visíveis no manejo dos recursos públicos. As eleições de 2014 custaram 5 bilhões de reais e 95% desses recursos vieram de um pequeno grupo de grandes empresas. Em consequência, no Congresso existem bancadas de agronegócios e de empreiteiras.
         Para Bava, no judiciário fica mais difícil de identificar os caminhos da corrupção, mas são muitos os casos em que juízes pedem vistas de processo e só os devolvem depois que as penas prescrevem como foram os casos do Banestado; do mensalão tucano e do cartel do Metro em São Paulo. Quase sempre, os altos funcionários dos três poderes são corrompidos, subornados ou, em linguagem judicial, corruptos passivos. Não se pode deixar de lembrar o caso do juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, que desviou milhões do Ministério do Trabalho. Outro episódio significativo foi a proteção que a justiça deu ao empresário Daniel Dantas, na operação Satiagraha. 

         Por meio de muitos expedientes, os grandes grupos controlam o sistema político e dele se apropriam para submetê-lo a seus interesses privados. As dívidas de impostos das multinacionais que operam no Brasil, em 2012, somam R$ 680 bilhões. Para penalizar tais empresas o governo brasileiro precisa contar com o poder judiciário. 

         Diz Caccia Bava que em meio ao escândalo do HSBC, o segundo maior banco do mundo, identificaram-se 8.667 brasileiros que sonegaram ou lavaram dinheiro fora do país, por meio dessa instituição. Esses depositantes são parte da elite econômica de nosso país. O que vai acontecer com eles? Não é coincidência o fato de que as manifestações de rua e a campanha publicitária contra o governo brasileiro, tenha ocorrido no momento em que se constata o caso HSBC.  No Brasil é novidade o fato de a operação Lava Jato da PF atribuir às empresas a responsabilidade pelos processos de corrupção. Maior novidade, ainda, é o fato de executivos e donos de grandes construtoras estarem na cadeia. 

         O certo é que a elite abastada do Brasil tem horror à idéia de repatriar os dinheiros “lavados” do HSBC e do projeto de tributar as grandes fortunas. 

         Belo Horizonte, 16 de março de 2015.


         Antônio de Paiva Moura.

sábado, 14 de março de 2015

Golpismo sim, senhor

por Antonio Lassance

Era uma vez uma manifestação que se dizia em defesa do Brasil, da democracia e contra a corrupção. Aconteceria em várias capitais do país e reuniria todos os cidadãos de bem, honestos e interessados em lutar contra os desmandos e malfeitos que tomavam conta do país.

Era um movimento apartidário, de pessoas indignadas que abominavam a política como ela é e que resolveram tomar uma atitude em defesa da moral e dos bons costumes na política e na sociedade.

Palavras de ordem pediam a renúncia ou afastamento (o que hoje se chama pelo nome técnico de impeachment) de quem ocupava a Presidência da República. Uma minoria mais afoita pedia abertamente um golpe militar para varrer a sujeira que contaminava as instituições.

A imprensa golpista deu a essa iniciativa e a seu espírito aguerrido a mais ampla divulgação - antes, durante e depois. Celebridades se manifestaram, como que tomadas por imperioso e urgente esforço de emprestar um pouco de seu brilho àquele espetáculo.

Empresários benevolentes patrocinaram os gastos como quem paga um banquete caro, mas que vale a pena pelo que pode proporcionar num futuro próximo.

O evento foi um sucesso de público e crítica. Levou milhões às ruas. Se não levou, a imprensa golpista falou que levou e reproduziu imagens de aglomerações de centenas e mesmo milhares de pessoas que fariam os milhões parecerem verdade. Até mesmo expressões do tipo 'o país inteiro está com a gente' e 'ninguém aguenta mais' tornariam-se mentiras muito sinceras.

Um detalhe importante é que as pessoas se manifestavam por meio de cartazes que diziam 'queremos governo honesto', 'verde e amarelo, sem foice e sem martelo' e também pediam políticos no xadrez - não todos, só os que incomodavam. Afinal, é para isso que servem as prisões, para colocar lá as pessoas que não toleramos, não é mesmo?

A primeira daquelas marchas aconteceu há cerca de meio século - tempo suficiente para que muitos jamais tenham ouvido falar dela e outros a releguem ao esquecimento. Tempo suficiente para que a fórmula gasta possa ser reprisada sem que alguém pense já ter visto esse filme.

A primeira dessas manifestações ocorreu em São Paulo, a 19 de março do ano de 1964. A marcha apartidária era organizada por políticos reacionários de partidos de direita.

O combate à corrupção tinha o apoio entusiasmado do governador de São Paulo, Adhemar de Barros, talvez o primeiro político brasileiro associado ao epíteto "rouba, mas faz".

Foi apelidada de Marcha da Família com Deus, pela Liberdade, um slogan impositivo e bastante eficiente; afinal, quem não está com Deus, pela família e pela liberdade bom sujeito não é.

Nas manifestações de 1964, quando as pessoas 'de bem' chegavam, ao invés de Deus, família e liberdade, se deparavam com cartazes um pouco diferentes, do tipo 'tá chegando a hora de Jango ir embora', 'Brizola no xadrez' e 'intervenção militar, já!'. Faz parte da democracia cada um dizer o que quer, não é mesmo?

O espírito cívico e democrático do evento foi saudado como o primeiro passo para um golpe que, em 1º de abril daquele ano, instaurou uma ditadura. O trabalho de limpar o país da corrupção foi tão bem feito que nos deixou de legado, como maiores referências da política nacional de então, figuras como Paulo Maluf, José Sarney e Antônio Carlos Magalhães.

Em prol da liberdade se fez o Estado de sítio, a censura e a tortura em larga escala. Os que invocaram o nome de Deus transformaram os verbos roubar, matar e odiar em política de Estado.

A velha história de sempre se repete, ou quase. Da mesma forma como um filósofo barbudo e genial do século XIX nos alertava: da primeira vez, como tragédia; da segunda, como farsa.

Sabedores que somos da tragédia que se abateu sobre o país quando o golpismo e a intolerância se fingiram de espírito cívico e democrático, não devemos ter com a manifestação do dia 15 qualquer condescendência. Meias palavras servem apenas para raciocínios pela metade. 

Que eles todos, sem exceção, sejam tratados da forma como bem merecem e homenageados pelo papel histórico que pretendem cumprir, como todos aqueles que marcharam contra Jango em 1964.

As manifestações do dia 15 são uma marcha golpista, antidemocrática, hipócrita, financiada empresarialmente, comandada pelos partidos que perderam as eleições e coalhada de gente irritada que quer apenas desabafar, mas não faz a menor ideia dos interesses que estão por trás do convite que receberam para protestar.

Falar de impeachment não é golpismo, certo? Certíssimo. Mas falar de impeachment de uma presidente da República eleita sobre a qual não pesa, em qualquer inquérito, a mínima evidência de qualquer envolvimento com crimes de corrupção é golpismo sim, senhor. Golpismo da pior espécie.

As manifestações de 2015 pelo impeachment são tão democráticas e inofensivas para as instituições quanto foram aquelas que serviram de mote para o golpe de 1964.

Quinze de março é dia do desfile da hipocrisia. Feito por gente que quer o impeachment de Dilma, mas gastou seu tempo no Congresso, nesta última semana, defendendo Eduardo Cunha (presidente da Câmara) e Renan Calheiros (presidente do Senado) contra a ação do Procurador-Geral da República no escândalo da Lava Jato.

O senador Aécio Neves diz que o ato, do qual fala como um verdadeiro porta-voz, é contra o estelionato eleitoral, assunto no qual é um especialista, basta ver os resultados de seu choque de gestão em Minas Gerais. Se for isso mesmo, no domingo se pedirá, em São Paulo, a cabeça do governador Geraldo Alckmin; em Curitiba, a de Beto Richa; no Rio Grande do Sul, a de José Ivo Sartori.

As manifestações de domingo são tão apartidárias quanto o ilustre candidato a vice-presidente na chapa de Aécio Neves, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), que já confirmou presença. São tão éticas e probas quanto era o ex-senador Demósthenes Torrres (DEM-GO), que ainda não confirmou presença, anda até meio sumido, mas certamente torce pelo sucesso de mais essa empreitada.

Dessa vez, a marcha do dia 19 de março cairá no dia 15, mas saberemos, assim como há 50 anos, o tamanho do golpismo no Brasil. E teremos a chance de ver sua face mais obtusa e saliente. Pena que não a fizeram já no ano passado. Poderiam ter comemorado bodas de sangue.

A tragédia golpista se repete agora como farsa golpista. Marte, o deus da guerra, virá platinado por um rio de panelas de alumínio, tão vazias de espírito cívico e democrático quanto as cabeças dos que as empunharão. Quanto mais ocas, mais estridentes.


Dia 15 passará para a posteridade como o dia em que a oposição, cansada de perder eleições, teve uma vitória de Pirro, mas saiu derrotada ao assumir de vez seu espírito antidemocrático, golpista, hipócrita e irresponsável diante das instituições do país. 

Aqueles que querem fazer parte da história do golpismo no Brasil poderão estrelar seu álbum de fotos. Que façam bom proveito de seu domingo.
(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Golpismo-sim-senhor/4/33053)

sexta-feira, 13 de março de 2015

Comemorando a milésima postagem neste blog!

Sim, esta é a postagem de número 1000 deste blog. Para comemorar, trago mais fotos da última viagem a Arraial da Ajuda.
Aí está o Beco do Jegue, onde fica a pousada Vila do Beco que mostrei ontem.

foto: RMF
Durante o dia... praia! Entre os sempre simpáticos vendedores de artesanato, uma remanescente da tribo Pataxó que habitava o local quando os portugueses chegaram, em 1500.

foto: RMF



E durante o dia pode-se apreciar a beleza das flores também:





todas as fotos: RMF




Isso, depois de ter apreciado o belíssimo nascer do sol...



E à noite, passear pela rua do Mucujê, pela Broadway... com dezenas de restaurantes, todos com boa música ao vivo... comer um gostoso crepe na Praça Caminho do Mar, ver conjuntos se apresentando e artistas anônimos fazendo suas performances. Esta moça que dança é argentina, que resolveu morar em Arraial.




quinta-feira, 12 de março de 2015

Você já foi à Bahia? Não? Então vá!

Mais especificamente, vá a Arraial da Ajuda, local paradisíaco. Estive lá, mais uma vez, e sempre há coisas para se descobrir. 
Dessa vez foi uma pousada, chamada Vila do Beco, que fica no Beco do Jegue. Achou estranho os nomes? Nada... os baianos são muito engraçados ao nomear as coisas...
Olha só o Beco: 
foto: RMF


E olha só a pousada:









todas as fotos: RMF

Amanhã tem mais!

terça-feira, 10 de março de 2015

Quem foi o deputado do PSDB que intimidou Janot para proteger Aécio?

Janot foi intimidado por um capanga do PSDB e o povo brasileiro tem o direito de saber o nome quem foi o parlamentar que fez o serviço. 

Antônio Lassance


Congressistas do PSDB disseram ao jornal O Estado de S. Paulo (7/3) que um de seus deputados federais foi até Rodrigo Janot, procurador-geral da República, assim que se soube que o doleiro Alberto Yousseff havia denunciado o senador Aécio Neves em uma de suas delações.

Segundo o termo de delação número 20, feito por Yousseff ainda no final do ano passado, o doleiro descreveu um esquema na estatal Furnas Centrais Elétricas que garantia o recebimento de propina pelo PSDB e pelo Partido Progressista.

O Estadão informou que um deputado federal funcionou como emissário para passar um duro 'recado' a Janot: a delação de Youssef contra Aécio deveria ser considerada como denúncia vazia, pois isso seria inaceitável para alguém que teve 53 milhões de votos. (Minha dúvida: Se acontecer uma delação do Youssef ou do outro bandido contra Dilma, também deverá ser considerada como denúncia vazia, pois isso será inaceitável para alguém que teve mais votos que Aécio?)

Então é para isso que servem os votos dados a Aécio? Para intimidar o procurador-geral quando se tem alguma denúncia contra o PSDB?

Chamar a isso de 'recado' é eufemismo. Janot foi é intimidado por um capanga do PSDB que não sabe se portar como parlamentar. O caso deveria ensejar apuração, requerimentos de informação ao procurador-geral e processo por quebra de decoro contra o deputado.

Por sua vez, Janot, como qualquer autoridade da República, está sob as obrigações da Lei de Acesso às Informações. Tem o dever de divulgar publicamente sua agenda e de relatar qualquer encontro que seja objeto de questionamentos que digam respeito à suafunção.

O povo brasileiro tem o direito de saber quem do PSDB foi ao procurador-geral para intimidá-lo e o exato teor das conversas havidas.  Mais ainda se houve algum acordo.

A preocupação não é só com a figura de Janot, mas com a condição do Ministério Público Federal, que é um órgão da República que não pode se acovardar nem se render a qualquer tipo de barganha.

Janot é candidato a permanecer no cargo de Procurador-Geral do Ministério Público. Sua recondução obrigatoriamente passa pelo Senado, conforme manda a Constituição. Além da intimidação, se outros fatores pesaram em sua decisão, ele terá que dar satisfações.

Aécio está tão enrolado nas delações de Youssef quanto seu correligionário Antonio Anastasia, que está citado no inquérito e não recebeu a mesma graça do arquivamento. O capanga deve ter se esquecido de defendê-lo com a mesma empáfia.

O Estadão notoriamente é aliado do governador Geraldo Alckmin na disputa contra Aécio Neves pela candidatura tucana à disputa presidencial de 2018. Pouco importa.

O que realmente importa é a verdade e que ninguém, mesmo um parlamentar, ainda que seja um deputado que acha que pode tudo, pode intimidar o Ministério Público e ficar por isso mesmo.

Ainda mais importante é que procurador-geral da República que se preze não se deixa intimidar e nem barganha lugares em sua engaveta para esconder malfeitos de quem quer que seja.

(*) Antonio Lassance é cientista político.
(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Quem-foi-o-deputado-do-PSDB-que-intimidou-Janot-para-proteger-Aecio-/4/33020)

Medo: matéria-prima da indústria farmacêutica



Como os laboratórios globais manipulam insegurança e desemparo quotidianos para multiplicar vendas — desrespeitando, se necessário, a saúde dos pacientes

Por Martha Rosenberg, no Alternet 

Muito antes da internet e da publicidade direta ao consumidor, a profissão médica tentava tranquilizar as pessoas sobre suas preocupações de saúde. Claro, fadiga e dores de cabeça poderiam ser sintoma de um tumor cerebral; certo, tosse poderia ser um sintoma de câncer de pulmão. Mas a maioria dos médicos tentava atenuar o medo – ao invés de semeá-lo. Lembra do “tome duas aspirinas e me ligue pela manhã?”
Projetemos isso para os “guias de sintomas” online de hoje, testes para ver se você tem uma determinada doença e exortações para que vá a seu médico, mesmo que se sinta bem. Desde que a indústria farmacêutica descobriu que medo de doenças e até a hipocondria vendem drogas, as novas doenças, sintomas e riscos com que as pessoas precisam se preocupar parecem não ter fim.


Vender sintomas para pessoas sugestionáveis tem sido uma mina de ouro para as grandes transnacionais farmacêuticas desde que começaram a fazer propaganda diretamente ao consumidor, no final dos anos 1990. Graças a tal marketing, que na verdade “vende” doenças para construir a demanda, milhões de pessoas que já estiveram muito bem têm agora alergias de estação, Gerd (Doença do refluxo gastroesofágico), distúrbio de atenção, distúrbio de dor e outras “doenças”.
Não se trata de ignorar sofrimento legítimo. Mas para muita gente, a relação com os medicamentos prescritos é melhor expressa na camiseta que diz “Tomo aspirina para a dor de cabeça causada pelo Zyrtec, que uso contra a rinite alérgica que adquiri com o Relenza para a dor de estômago da Ritalina que eu tomo para o déficit de atenção causado pelo Scopoderm, que uso para o enjôo que me dá o Lomotil, que tomo para a diarréia causada pelo Xenical que tomo para perder o peso ganho com o Paxil que tomo para a ansiedade que me dá o Zocor, que uso para o colesterol alto, porque praticar exercício, boa dieta e tratamento quiroprático regularmente dão muito trabalho” (uma camiseta que nem pode ser vestida por gente que usa números pequenos…)
Eis algumas das estratégias que a indústria farmacêutica usa para manter o público comprando drogas.


1. Medo de envelhecer e perder o apetite sexual
As terapias de de reposição hormonal (TRH), que milhões de mulheres fizeram até cerca de dez anos atrás, eram oficialmente vendidas para acabar com as ondas de calor e manter os ossos fortes. Mas, extraoficialmente, era difundidas como um modo de manter-se jovem e sexy. Anúncios publicitários de terapia de reposição hormonal precoce diziam às mulheres que elas tinham “sobrevivido aos seus ovários” e não se mantinham à altura de seus maridos, que queriam mulheres com aparência mais jovem. Quando descobriu-se que TRH aumentava o risco de ataque do coração e câncer (“sentimos muito por isso”), as drogas para fortalecer os ossos assumiram o papel de portadoras mensagem da indústria farmacêutica (“não fique velha!”) para as mulheres. Agora a indústria está dizendo aos homens que eles também necessitam de terapia de reposição hormonal para sua “baixa testosterona” e para manter sua potência sexual. A TRH masculina não parece mais segura que a feminina.
 
2. Medo de sintomas que parecem benignos
Antigamente, pessoas com azia tomavam Eno, Alka Seltzer ou Sonrisal e juravam não comer muito. Não se preocupavam se tinham refluxo gastroesofágico (Gerd), estavam a caminho de um câncer do esôfago; nem tomavam inibidores de bomba de prótons para o resto de suas vidas. Da mesma forma, embora a depressão possa causar um sofrimento inimaginável, é também verdade que a tristeza ocasional – a dor causada por problemas no casamento, na família, no trabalho, pela situação financeira ou mesmo a perda de alguém amado – faz parte da vida. Mas o marketing das grandes farmacêuticas sugerem que você deveria ir correndo ao médico, no instante que sentir-se mal; e se pendurar em “pílulas da felicidade” por uma década ou mais. Claro que o grande sucesso da indústria ao produzir medo em torno de sintomas benignos está convencendo pais e professores de que crianças saudáveis e muito ativas estão sofrendo de ADHD (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade).
 
3. Medo de novas doenças
Quem se lembra da Síndrome do Atraso das Fases do Sono, ou da Síndrome das 24 Horas em dormir, diagnosticadas para pessoas que provavelmente não dormiam suficientemente? Doenças obscuras sobre as quais a indústria farmacêutica “aumenta o alerta” não são inventadas – mas elas são tão raras que não seriam jamais tratadas em publicidade, a menos que a indústria estivesse tentando criar “demanda” para medicamentos caros – inclusive porque não há exame de sangue ou de laboratório confirmando um diagnóstico. Há pouco, a AbbVie, uma empresa farmacêutica norte-americana, lançou duas campanhas, promovendo drogas de alto custo, para convencer pessoas com dor nas costas que eles tinham espondilite anquilosante; as pessoas com diarreia de que tinham insuficiência pancreática exócrina., replete de sites ajudando-as a discernir que têm a doença por seus sintomas. Será que as pessoas com sintomas ou doenças realmente precisam que a indústria farmacêutica lhes diga quando ir ao médico e o que elas têm?
 
4. Medo de que seus filhos não sejam normais
O ADHD (“transtorno do déficit de atenção com hiperatividade”) não é a única receita da indústria farmacêutica para medicalizar e monetizar a infância. As birras são agora chamadas “Transtornos de Humor”. Graças à “psicofarmacologia pediátrica”, as crianças estão cada vez mais diagnosticadas com transtorno desafiador opositivo (DDO), manias mistas, fobias sociais, distúrbios bipolares, transtornos de conduta, depressão e transtornos do “espectro”. Por que a indústria gosta de crianças? Crianças são pacientes submissos que farão o que seus pais, professores e médicos mandarem, diz o ex-promotor de vendas da indústria farmacêutica Gwen Olsen, autor de Confessions of an Rx Drug Pusher [“Confissões de um Vendedor de Drogas”]. Eles são os “tipos de paciente ideal porque representam prescrição contínua, obediente e longeva. “Em outras palavras, eles vão ser pacientes ao longo da vida e renovar o estoque de clientes para a indústria. Não é exagero. Além disso, além de consumirem drogas pesadas e desnecessárias, muita crianças apresentarão reações que exigirão mais drogas, para tratar dos efeitos colaterais.


5. Medo de que sua droga deixe de produzir efeitos

Desde que as grandes indústrias farmacêuticas descobriram que era fácil acrescentar mais drogas a uma droga original — seja para crianças ou pessoas com doenças mentais –, começou a era das drogas “agregadas” e das condições “resistentes a tratamento”. Seu remédio pode não funcionar, dizem novas campanhas do Alility ou Seroquel, porque você precisa de uma segunda droga para ativar a primeira e torná-la mais efetiva. A redefinição da depressão, para vender medicamentos, foi particularmente furtiva. Médicos financiados pela indústria reclassificaram a doença como uma condição para a vida toda, que requer uso permanente de drogas. E há mais! Quase sem evidência médica alguma, a depressão foi considerada “progressiva” — o que, é claro, ampliou seu potencial de produzir medo. “À medida em que o número de grandes episódios depressivos aumento, o risco de episódios subsequentes é previsível”, alertava um artigo denominado “Neurobiology of Depression: Major Depressive Disorder as a Progressive Illness” [“Neurobiologia da Depressão: o Grande Distúrbio Depressivo como Doença Progressiva”], publicado no site médico Medscape, e ladeado por anúncios do antidepressivo Pristiq.
 
6. Medo de doenças silenciosas
E se você não apresentar sintomas e estiver se sentindo bem? Isso não significa que você não sofre de condições silenciosas, que podem estar ameaçando sua saída sem que você saiba. Nenhuma pílula, na história, foi tão bem sucedida como a estatina Lipitor, com sua campanha de TV “Know Your Numbers” [“Conheça seus Números”] e o medo crescente de ataques cardíacos relacionados ao colesterol. Milhões de pessoas usam estatinas para proteger contra o medo de doenças cardíacas silenciosas, embora recentemente, em alguns estudos, o colesterol tenha sido excluído, como risco central de doença cardíaca (ainda bem que a patente do Lipitor expirou…). Também as campanhas da indústria farmacêutica que amedrontam as mulheres sobre perda silenciosa de ossos venderam drogas anti-oesteosporose como Fosamax, Boniva e Prolia, ao convencerem mulheres que algum dia, sem nenhum aviso, seus ossos em processo de enfraquecimento irão se partir. A previsão era verdadeira, com um pequeno detalhe: algumas das mulheres cujos ossos estalaram estavam usando drogas anti-osteosporose, cujos efeitos colaterais passaram a incluir fraturas!

(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/medo-materia-prima-da-industria-farmaceutica/)