sexta-feira, 12 de junho de 2015

O que juízes escandinavos acham das mordomias que seus colegas no Brasil se autoconcedem.


O texto abaixo é da jornalista Claudia Wallin, radicada na Suécia. Autora do livro Um país sem mordomias e excelências, Claudia tocará o projeto especial sobre a vida na Escandinávia para o DCM. Estamos nos momentos finais da arrecadação de dinheiro que permita a investigação.

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Ab ovo, desde o princípio dos tempos ditos civilizados, quid latine dictum sit altum sonatur, tudo que é dito em latim soa profundo nas egrégias Cortes da Justiça. Mas hic et nunc, neste instante, os linguistas mais perplexos com os atos de auto-caridade praticados pelo Judiciário do Brasil já estarão se perguntando, data venia, se não é chegada a hora de ampliar a definição do conceito de pornografia nos dicionários brasileiros.
In ambiguo, na dúvida, vejamos: em uma das maiores obscenidades já registradas em um mês das noivas, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro pediu e ganhou, em votação na Assembléia Legislativa em maio, uma bolsa-educação de até R$ 2,86 mil mensais a fim de bancar escolas e universidades particulares para filhos de juízes – que além de receberem salário de cerca de R$ 30 mil contam com vantagens como plano de saúde, auxílio-creche, auxílio-alimentação e carro com motorista à disposição.
Ao bacanal de maio seguiu-se o projeto do Supremo Tribunal Federal (STF) para a futura Lei Orgânica da Magistratura (Loman), que prevê auxílios para magistrados ab incunabulis, desde o berço até o caixão. Ganha uma toga quem adivinhar o resultado da votação do projeto pelos representantes do Congresso, a quem a dor dos vizinhos da praça dos poderes sempre parece incomodar.
O plano inclui o pagamento de até 17 salários por ano aos magistrados brasileiros, que deverão ter um leque admirável de benefícios extras e garantidos até o túmulo: até a conta do funeral dos juízes, conforme prevê a proposta do STF, será paga pelo erário.
Entre os vivos, encenou-se a devassidão de junho: os guardiões da lei do Rio Grande do Sul, que têm piso salarial de R$ 22 mil, acabam de se autoconceder um auxílio-alimentação de R$ 799 por mês.
Trata-se de um valor escandalosamente maior do que a maldita Bolsa Família (R$ 167,56 em média) dada aos pobres, que, segundo avançados estudos científicos conduzidos nos Jardins, não querem saber de aprender a pescar.
Como provavelmente não comeram nos últimos quatro anos, as excelências do Sul decidiram também que o pagamento do benefício deverá ser ex tunc, retroativo a 2011.

O indecoroso Bolsa Caviar contemplará todos os juízes, desembargadores, promotores e procuradores, assim como – suprema ironia – os conselheiros do Tribunal de Contas do Estado, responsáveis pela fiscalização do uso do dinheiro dos impostos do cidadão. Tudo devidamente encaixado na categoria de verba indenizatória, para ficar isento de imposto de renda: afinal, o dinheiro público parece ser res nullius, coisa de ninguém.
Exempli gratia, por exemplo, levantamento do jornal O Dia mostra agora que 90% dos juízes e desembargadores do Rio de Janeiro receberam vencimentos que chegam a estourar o teto permitido pela Constituição Federal. Em janeiro, o contra-cheque de um juiz chegou a registrar R$ 241 mil. Só em março, a folha de pagamento de juízes e desembargadores fluminenses totalizou o equivalente a 50.279 salários mínimos.
E seguramente sem animus abutendi, intenção de abusar, procurou-se também calibrar ainda mais os supersalários da magistratura brasileira juris et de jure, de direito e por direito, no ano passado: foi quando os conselhos nacionais de Justiça e do Ministério Público aprovaram o auxílio-moradia de até R$ 4.377 para todos os juízes, desembargadores, promotores e procuradores do Brasil – mesmo para quem já mora em imóvel próprio. Cálculos aproximados estimam que o impacto anual decorrente do benefício será de R$ 1 bilhão, nestes tempos dourados de PIB gordo e pleno emprego no País das Maravilhas.
Há que se registrar as notáveis exceções à promiscuidade, como por exemplo a postura do desembargador Siro Darlan de Oliveira – que, ao se posicionar de forma veementemente contrária ao auxílio-educação para filhos de juízes, foi afastado de suas funções pelo Presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Luiz Fernando de Carvalho.
Mas quis custodiet ipsos custodes? – quem afinal vigia os vigias?
O fundamental respeito de uma sociedade por seu Judiciário vai aos poucos, e perigosamente, sendo engavetado como um processo de Geraldo Brindeiro.
Nas mídias sociais, a frase de um internauta dá a medida do temerário grau de escárnio que cresce entre tantos indignados com as benesses das Cortes: “Quando é que vai aparecer uma operação Lava-Toga”?
Recomendam o bom senso e a razão o graviter facere nos tribunais – agir com prudência, moderação, gravidade.
Decido ad judicem dicere, falar com um juiz, aqui na Suécia. Telefono então para
Göran Lambertz, um dos 16 integrantes da Suprema Corte sueca, para contar as últimas novidades da corte brasileira. Lambertz é aquele juiz que pedala todos os dias até a estação central, e de lá toma um trem para o trabalho – e que me disse há tempos, em vídeo gravado para a TV Bandeirantes, que luxo pago com dinheiro do contribuinte é imoral.
Quando descrevo a nova lista de benefícios dos juízes brasileiros, Göran Lambertz dispensa totalmente, para meu espanto, a tradicional reserva e a discrição que caracteriza o povo sueco.
“Em minha opinião, é absolutamente inacreditável que juízes tenham o descaramento e a audácia de serem tão egocêntricos e egoístas a ponto de buscar benefícios como auxílio-alimentação e auxílio-escola para seus filhos. Nunca ouvi falar de nenhum outro país onde juízes tenham feito uso de sua posição a este nível para beneficiar a si próprios e enriquecer”, diz Lambertz.
Com o cuidado de avisar que não se trata de um trote, telefono em seguida para o sindicato dos juízes suecos, o Jusek, e peço para ouvir as considerações de um magistrado sindicalizado acerca da última série de benefícios auto-concedidos a si próprios pelos magistrados brasileiros — o Bolsa Moradia, o Bolsa Educação, o Bolsa Alimentação.
Sim, existe um sindicato dos magistrados na Suécia. É assim que os juízes suecos, assim como os trabalhadores de qualquer outra categoria, cuidam da negociação de seus reajustes salariais.
Meu telefonema é transferido então para o celular do juiz Carsten Helland, um dos representantes da categoria no sindicato.

Sinto um impulso incontrolável de dizer a ele que fique à vontade para recusar o colóquio e bater impiedosamente o telefone como bate seu martelo na Corte, pois os fatos que vai ouvir podem provocar sensações indesejáveis de regurgitação neste horário inconveniente que antecede o almoço do magistrado.
Mas, como que invadida pela cegueira da Justiça, decido narrar de vez ao juiz, sem clemência nem advertência, todos os obscenos benefícios pedidos e concedidos aos colegas brasileiros no além-mar.
Para minha surpresa, o magistrado sueco dedica os segundos iniciais da sua resposta a uma sessão de risos de incredulidade.
“Juízes não podem agir em nome dos próprios interesses, particularmente em tamanho grau, com tal ganância e egoísmo, e esperar que os cidadãos obedeçam à lei”, diz enfim o juiz, na sequência da risada que não pôde ou não quis evitar.
Recobrado o equilíbrio e a compostura que a toga exige, Carsten Helland continua:
“Um sistema de justiça deve ser justo”, ele começa, constatando o óbvio com a fala didática de quem tenta se comunicar com uma criatura verde de outro mundo.

“As Cortes de um país são o último posto avançado da garantia de justiça em uma sociedade, e por essa razão os magistrados devem ser fundamentalmente honestos e tratar os cidadãos com respeito. Se os juízes e tribunais não forem capazes de transmitir esta confiança e segurança básica aos cidadãos, os cidadãos não irão respeitar o Judiciário. E consequentemente, não irão respeitar a lei”, enfatiza o juiz sueco.
Pergunto a Carsten o que aconteceria na Suécia se os juízes, em um louco delírio, decidissem se auto-conceder benefícios como um auxílio-alimentação.
“Acho que perderíamos o nosso emprego”, ele diz, entre novo surto de risos. “Mas é simplesmente impossível que a aprovação de benefícios como auxílio-alimentação ou auxílio-moradia para magistrados aconteça por aqui”.
Por quê?
“Porque não temos esse tipo de sistema imoral. Temos um sistema democrático, que regulamenta o nível salarial da categoria dos magistrados, assim como dos políticos. E temos uma opinião pública que não aceitaria atos imorais como a concessão de benefícios para alimentar os juízes às custas do dinheiro público. Os juízes suecos não podem, portanto, sequer pensar em fazer coisas desse gênero”, conclui Carsten Helland.
O salário médio bruto de um juiz na Suécia é de cerca de 60 mil coroas suecas, o que equivale a aproximadamente 22,3 mil reais. O valor equivale ao salário de um deputado sueco, que em termos líquidos representa cerca de 50% a mais do que ganha um professor do ensino fundamental. O salário médio no país é de 27,3 mil coroas suecas.
“Há uma pequena variação nos salários dos magistrados suecos, que se situam em uma faixa entre 50 mil a 63 mil coroas suecas”, diz o juiz.
Há algum outro tipo de benefício além do salário?
“Não, absolutamente não” – ele responde.
A negociação anual dos reajustes salariais da magistratura se dá entre o sindicato Jusek e o Domstolsverket, a autoridade estatal responsável pela organização e o funcionamento do sistema de justiça sueco.
Para entender o sistema sueco, diz o juiz Helland, é preciso olhar um século para trás.
“A partir do final do século XIX, os sindicatos desempenharam um papel fundamental na construção da sociedade que temos hoje. Portanto, não é estranho ver magistrados ou qualquer outro profissional na Suécia sendo filiados a sindicatos. E é importante notar que ser membro de um sindicato, na Suécia, não significa que você seja de esquerda. Os sindicatos são parte essencial da base sobre a qual nossa sociedade foi consolidada – a dualidade entre trabalhadores e empregadores”, ele observa.
O reajuste salarial dos magistrados suecos trata normalmente, segundo o juiz, da reposição da perda inflacionária acumulada no período de um ano, e que se situa em geral entre 2% e 2,5%.
“Nossos reajustes seguem geralmente os índices aplicados às demais categorias de trabalhadores, que têm como base de cálculo os indicadores gerais da economia e parâmetros como o nível de aumento salarial dos trabalhadores do IF Metall (o poderoso sindicato dos metalúrgicos suecos)”, explica o juiz Carsten.
A negociação depende essencialmente do orçamento do Domstolsverket, que é determinado pelo Ministério das Finanças:
“Os juízes têm influência limitada no processo de negociação salarial”, diz Carsten. “As autoridades estatais do Domstolsverket recebem a verba repassada pelo governo, através do recolhimento dos impostos dos contribuintes, e isso representa o orçamento total que o governo quer gastar com as Cortes. A partir deste orçamento, o Domstolsverket se faz a pergunta: quanto podemos gastar com o reajuste salarial dos juízes?”, explica o juiz.
“Não podemos, portanto, lutar por salários muito maiores. Podemos apenas querer que seja possível ganhar mais”, acrescenta ele.
Greves de juízes não fazem parte da ordem do dia.
“Não fazemos greves, porque isso seria evidentemente perigoso para a sociedade”, diz Helland.
Já sei a resposta, de tanto fazer a mesma pergunta a jornalistas e a suecos em geral, mas resolvo perguntar mais uma vez: já ouviu falar de algum caso registrado de juiz corrupto na Suécia?
“Não”, diz Helland. “Nunca”.

Na Suprema Corte sueca, os reajustes salariais também seguem a mesma regra aplicada ao restante da magistratura.
O salário bruto dos juízes do Supremo, segundo Goran Lambertz, é de 100 mil coroas suecas (cerca de 37 mil reais). Uma vez descontados os impostos, os vencimentos de cada juiz totalizam, in totum, um valor líquido de 55 mil coroas suecas (aproximadamente 20,4 mil reais). Sem nenhum benefício ou penduricalho extra, e sem carros com motorista.
Neste exótico país, os juízes da Suprema Corte também não têm status de ministro, e nem são chamados de excelências.
“Se o sistema judiciário de um país não for capaz de obter o respeito dos cidadãos, toda a sociedade estará ameaçada. Haverá mais crimes, haverá cada vez maior ganância na sociedade, e cada vez menos confiança nas instituições do país. Juízes têm o dever, portanto, de preservar um alto padrão moral e agir como bons exemplos para a sociedade, e não agir em nome de seus próprios interesses”, diz Göran Lambertz ao final da nossa conversa.
Ou em bom latim, conforme rezam os manuais jurídicos: nemo iudex in causa sua – ninguém pode ser juiz em causa própria.
(fonte: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-que-juizes-escandinavos-acham-das-mordomias-que-seus-colegas-no-brasil-se-autoconcedem-por-claudia-wallin/)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Retratos de Identificação será exibido em 21 de junho na 10ª CineOP


 
Pessoas que combateram a ditadura no Brasil contam suas histórias quando se deparam com fotos tiradas pela polícia e por militares no documentário que tem sessão às 20h, no Cine Vila Rica, seguida de bate-papo da diretora Anita Leandro com o público após a exibição do filme
 
Durante a ditadura, os presos políticos eram fotografados em diferentes situações: investigações, atos de prisão, tortura, exames de corpo de delito, processos de banimento, inquéritos e necropsias. Esses retratos de identificação policial, produzidos com o objetivo de controle dos prisioneiros, ressurgem agora em Retratos de Identificação, de Anita Leandro, como provas de crimes e atos violentos perpetrados pelas Forças Armadas e pela Polícia Civil.
 
Resultado de quatro anos de pesquisa junto aos arquivos públicos, o documentário será exibido na 10ª Mostra de Cinema de Ouro Preto a CineOP, em 21 de junho, às 20h, no Cine Vila Rica, seguido de um bate-papo da diretora com o público. O filme traz à tona um conjunto importante de documentos textuais e iconográficos, até então desconhecidos, da história da ditadura militar.
 
A documentação mostrada no filme refere-se, especificamente, à prisão de quatro pessoas, todas barbaramente torturadas. No filme, os dois únicos sobreviventes desse grupo se deparam, pela primeira vez, com documentos e fotografias relativos a esses acontecimentos.
 
Antônio Roberto Espinosa, na época comandante da organização VAR-Palmares, conta como foi sua prisão ao lado de Maria Auxiliadora Lara Barcellos e Chael Schreier, e testemunha sobre o assassinato de Schreier. Reinaldo Guarany, do grupo tático armado ALN, relembra sua saída do território nacional em 13 de janeiro de 1971, em troca da vida do embaixador suíço Giovanni Bucher; a vida no exílio, sem documentos, e o suicídio de Maria Auxiliadora Lara Barcellos, com quem vivia na época em Berlim.
 
Alguns documentos revelados pelo filme, como as fotos de Chael Schreier, comprovam que ele não foi ferido em combate na noite da prisão, como pretende um documento forjado por um de seus torturadores, o capitão Celso Lauria. As fotografias, provenientes dos acervos de diferentes agências de repressão, como o DOPS da Guanabara e o Serviço Nacional de Informação, encontram-se, hoje, sob a guarda do Arquivo Estadual do Rio de Janeiro, Arquivo Nacional e Superior Tribunal Militar.
 
A Diretora
Documentarista e professora de cinema na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Anita Leandro deu aulas, por 6 anos, na Université Bordeaux 3, onde coordenou o master profissional "Realização de documentários e valorização dos arquivos". Realizou diversos documentários e instalações audiovisuais. Sua pesquisa em torno dos acervos fotográficos das agências de repressão deu origem ao filme Retratos de identificação e às instalações sonoras da exposição Arquivos da ditadura (Centro Cultural Justiça Federal do Rio Janeiro, agosto-setembro de 2014).
 
Retratos de Identificação
Documentário, Brasil, 2014, cor, 71min
Realização: Anita Leandro / UFRJ / Comissão de Anistia do Ministério da Justiça (Projeto Marcas da Memória)
Direção: Anita Leandro
Imagem: Marcelo Brito
Som Direto: Alexandre Nascimento
Edição e Tratamento das Fotografias: Marta Leandro
Montagem: Anita Leandro
Corte final: Joana Collier e Isabel Castro
Videografismo: Guilherme Hoffmann
Criação Sonora e Mixagem: Edson Secco
Produção: Anita Leandro
Produção de Finalização: Amanda Moleta e Pojó Filmes
Assistente de Produção: Maíra Bosi
Finalização: Link Digital

terça-feira, 9 de junho de 2015

Convite para Congresso na cidade do Porto, Portugal

Segue, anexo, a primeira circular do XI Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação (COLUBHE), Porto, 2016. Investigar, Intervir e Preservar: Caminhos da História da Educação Luso-Brasileira, que se encontra em fase de preparação.

O Congresso vai realizar-se no Porto (Portugal), entre os dias 20 e 23 de junho de 2016, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Neste sentido, agradecemos a divulgação da notícia deste Congresso nos vossos países, através dos canais de divulgação habituais, sobretudo com o intuito de chegar ao conhecimento dos historiadores da Educação que possam amplificar a difusão deste evento. O prazo para apresentar propostas de comunicações e mesas coordenadas encerra em 15 de agosto de 2015, como consta na informação veiculada pelo sítio da internet que se encontra disponível em: http://web3.letras.up.pt/colubhe/.

Esperamos ver-vos pelo Porto durante este próximo COLUBHE que promete, à semelhança das edições anteriores, abrir caminhos da História da Educação Luso-Brasileira.


As Comissões Organizadoras:

Comissão Portuguesa:

Carlos Manique – IE/UL
Cláudia Pinto Ribeiro – FL/UP/CITCEM
Joaquim Pintassilgo – IE/UL
Luís Alberto Marques Alves – FL/UP/CITCEM
Rodrigo Azevedo – FL/UP/CITCEM

Comissão Brasileira:

César Augusto Castro – UFMA
Claudia Engler Cury – UFPB/SBHE
Elizabeth Sá – UFMT
Marcus Levy Albino Bencostta – UFPR
Maria Helena Camara Bastos – GTHE/ANPED

Neste XI COLUBHE gostávamos de, à semelhança das anteriores edições, partilhar investigações realizadas pela comunidade científica e identificar sintonias temáticas que potenciem encontros e projetos coletivos.
Desejamos assumir um papel mais interventivo na sociedade, na educação e na cultura, criando evidências da consistência epistemológica dos nossos trabalhos.
Pretendemos identificar fontes da cultura escolar, partilhar experiências de preservação e de divulgação desse património coletivo.
Queremos conhecer itinerários, percorridos ou por percorrer, e identificar desafios que alarguem as fronteiras do possível e dignifiquem o percurso luso-brasileiro na História da Educação.
1. Fontes, métodos e técnicas de investigação
2. Percursos da Pesquisa: tendências metodológicas
3. Políticas e Práticas Educativas
4. Subsistemas (educativos) e Instituições Educacionais
5. Leitura, Cultura Escrita e Cultura Escolar
6. Agentes e destinatários da Educação (Professores, Alunos e Família)
7. Pensamento Pedagógico
8. Património, Museologia e Arquivo
9. Espaço(s) de intervenção da História da Educação

Memorial da Assembleia de Minas

Para os interessados, vale uma visita!




segunda-feira, 8 de junho de 2015

Não vá


por Jaime Pinsky




É verdade que a situação política por aqui está feia, que tem gente perdendo emprego, que o dinheiro que falta para a Educação sobra nas mordomias usufruídas por membros dos três poderes.

É verdade que a Petrobrás é a única petrolífera do mundo a dar prejuízo, por conta da má administração e da roubalheira desenfreada, enquanto os bancos privados batem recordes de lucro a cada semestre.

É verdade que ainda temos capitais sem um único metro de rede de esgoto e que o estado mais rico da federação está com falta de água e com sobra de dengue.

É verdade que o álcool continua sendo consumido descontroladamente, que motoristas irresponsáveis não param de matar e mutilar milhares de brasileiros, sem que se tome medidas sérias contra este nosso hábito de “beber socialmente” e dirigir. Também é verdade que o asfalto das ruas de nossas cidades é esburacado, que os trajetos são mal sinalizados, que um assaltante pode estar de tocaia em cada congestionamento e em cada farol fechado.

É verdade que os críticos das “elites” tomam vinho de 3000 reais (sem problemas, já que a origem do dinheiro são “consultorias” pra lá de suspeitas). É também verdade que ainda se elogia a ignorância, que se valoriza a falta de cultura, que ler e considerado chato, que alegria é quase sempre sinônimo de ruído (sem consideração pelos vizinhos).

É verdade que resquícios da escravidão estão presentes no nosso cotidiano, no preconceito nosso de cada dia, no horror que ainda temos ao trabalho físico, no amor ao bacharelismo. Está presente ainda no paternalismo típico das senzalas que, em vez de oferecer oportunidades (liberdade, boa escolaridade) prefere ser paternalista, dando peixes e não ensinando a pescar.

É verdade que remédios custam mais caro aqui do que na Suíça, camisas mais do que na Itália, brinquedos mais do que em Orlando, refeições mais do que na França, automóveis mais do que no mundo inteiro. Já a cachaça e a cerveja são baratas.

É verdade que viver na periferia (onde a maioria mora) é muito perigoso, que caminhar à noite é arriscado e que engolir o óleo diesel dos veículos provoca doenças respiratórias.

É verdade que criamos leis que não pegam, mas em compensação temos “não leis” que pegam. A pena de estupro nas prisões não existe no nosso código penal e é aplicada sistematicamente, como se tivesse sido aprovada pelo legislativo e referenciada pelo Supremo...

É verdade que nossos motoristas não sabem como dirigir: nas estradas andam pela pista do meio em baixa velocidade (brasileiro que se preze não vai pela pista da direita); nas cidades não dão seta, fazem conversões em diagonal, não sabem que pisca alerta é só quando se para o carro, não usam farol quando devem (e quando usam, ligam o farol alto), estacionam na frente de garagens e em ponto de ônibus e não respeitam faixa de pedestres.

É verdade que pais desejosos de uma boa educação para seus filhos acabam colocando-os em caríssimos guetos educacionais, onde as crianças estabelecem vínculos exclusivamente com seus supostos iguais. A escola, que deveria ser espaço democratizante, não passa de mais uma (talvez a mais importante) reprodutora de desigualdade.

Tudo isso é verdade, e há muitas outras verdades desagradáveis em nosso país. Por um lado, isto é ruim. Por outro, isto mostra que há muito para se fazer no Brasil. Por isso mesmo viver e trabalhar aqui dá uma sensação de que podemos ser  uteis, temos condição de fazer algo para quem precisa. Há muito por fazer por aqui e isto nos ajuda a dar um sentido às nossas vidas. Você que está lutando por um passaporte da União Europeia ou por um Green Card americano, você tem certeza de que quer viver em um país já constituído, já formado, com sua identidade nacional já definida, para o bem e para o mal?

Nosso país ainda não está pronto. Você pode ajudar a construí-lo, colocar a sua pedra, o seu cimento, plantar a sua árvore, arrancar as ervas daninhas que proliferam por aqui.

Não vá. Fique por aqui com sua competência e sua honestidade. Melhore nosso país. Ele precisa de você.

 Jaime Pinsky, historiador, professor titular da Unicamp, diretor da Editora Contexto, autor de Por que gostamos de história, entre outros livros

sábado, 6 de junho de 2015

O que incomoda EUA e seus prepostos no Brasil não é o suposto comunismo mas o nacionalismo possível


por Mauro Santayana, em seu blog

(Jornal do Brasil) – O Senado Federal aprovou, esta semana, a constituição do Novo Banco de Desenvolvimento, o chamado Banco dos BRICS, formado pelos governos do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, com capital final previsto de 100 bilhões de dólares. A Câmara dos Deputados já havia dado sua autorização para a participação do Brasil no projeto, além da constituição de um fundo de reservas para empréstimos multilaterais de emergência também no valor de 100 bilhões de dólares.
Fazer parte do Banco dos BRICS, e do próprio grupo BRICS, de forma cada vez mais ativa, é uma questão essencial para o Brasil, e para a sua inserção, com alguma possibilidade de autonomia e sucesso, no novo mundo que se desenha no Século XXI.
Neste novo mundo, a aliança anglo-norte-americana, e entre os Estados Unidos e a Europa, que já por si não é monolítica, cujas contradições se evidenciaram por sucessivas crises capitalistas nestes primeiros anos do século, está sendo substituída, paulatinamente, pelo deslocamento do poder mundial para uma nova Eurásia emergente – que não inclui a União Europeia – e, principalmente, para a China, prestes a ultrapassar, em poucos anos, os EUA como a maior economia do mundo.
Pequim já é, desde 2009, o maior sócio comercial do Brasil, e também o maior parceiro econômico de muitos dos países latino-americanos.
A China já é, também, a maior plataforma de produção industrial do mundo.
Foi-se o tempo em que suas fábricas produziam artigos de duvidosa qualidade, e, hoje, suas centenas de milhares de engenheiros e cientistas – mesmo nas universidades ocidentais é difícil que se faça uma descoberta científica de importância sem a presença ou a liderança de um chinês na equipe – produzem tecnologia de ponta que, muitas vezes, não está disponível nem mesmo nos mais avançados países ocidentais.
Nesse novo mundo, a China e a Rússia, rivais durante certos períodos do século XX, estão se preparando para ocupar e desenvolver, efetivamente, as vastas estepes e cadeias de montanhas que as separam e os países que nelas se situam, construindo,nessa imensa fronteira, hoje ainda pouco ocupada, dezenas de cidades, estradas, ferrovias e hidrovias.
A peça central desse gigantesco projeto de infraestrutura é o Gasoduto Siberiano.
Também chamado de Gasoduto da Eurásia, ele foi lançado em setembro do ano passado em Yakutsk, na Rússia, e irrigará a economia chinesa com 38 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano, para o atendimento ao maior contrato da história, no valor de 400 bilhões de dólares, que foi assinado entre os dois países.
Nesse novo mundo, a Índia, cuja população era massacrada, ainda há poucas décadas, pela cavalaria inglesa, possui mísseis com ogivas atômicas, é dona da Jaguar e da Land Rover, do maior grupo de aço do planeta, é o segundo maior exportador de software do mundo, e manda, com meios próprios, sondas espaciais para a órbita de Marte.
E o Brasil, que até pouco tempo, devia 40 bilhões de dólares para o FMI, é credor do Fundo Monetário Internacional, e o terceiro maior credor externo dos Estados Unidos.
Manipulada por uma matriz informativa e de entretenimento produzida ou reproduzida a partir dos EUA, disseminada por redes e distribuidoras locais e pelos mesmos canais de TV a cabo norte-americanos que podem ser vistos em muitos outros países, a maioria da população brasileira ignora, infelizmente, a existência desse novo mundo, e a emersão dessa nova realidade que irá influenciar, independentemente de sua vontade, sua própria vida e a vida da humanidade nos próximos anos.
Mais grave ainda. Parte da nossa opinião pública, justamente a que se considera, irônica e teoricamente, a mais bem informada, se empenha em combater a ferro e fogo esse novo mundo, baseada em um anticomunismo tão inconsistente quanto ultrapassado, que ressurge como o exalar podre de uma múmia, ressuscitando, como nos filmes pós-apocalípticos, milhares de ridículos zumbis ideológicos.
É nesse sentido que se insere a aprovação do Banco dos BRICS pelo Congresso.
Apesar de termos escalado, desde 2002, sete posições entre as maiores economias do mundo, a Europa e os EUA se negam, há anos, a reformular o sistema de quotas para dar maior poder ao Brasil, e a outros países dos BRICS, no FMI e no Banco Mundial.
Se não quiserem que não o façam. Como mostra o Banco dos BRICS, podemos criar as nossas próprias instituições financeiras multilaterais.
Os BRICS, têm, hoje, como grupo, não apenas o maior território e população do mundo, mas também mais que o dobro das reservas monetárias dos EUA, Japão, Alemanha, Inglaterra, Canadá, França e Itália, somados.
O que incomoda os Estados Unidos e a Europa, e os seus prepostos, no Brasil, não é o suposto comunismo ou “bolivarianismo” do atual governo, mas o nacionalismo possível, até certo ponto tímido, politicamente contido, e sempre combatido, dos últimos anos.
Existe uma premeditada, permanente, hipócrita, subalterna, entreguista, pressão, que não se afrouxa, voltada para que se abandone uma política externa minimamente independente e soberana, que possa situar o Brasil, geopoliticamente, frente aos desafios e às oportunidades do mundo cada vez mais complexo e competitivo do século XXI.

Como a mídia enterrou o caso Swissleaks.

 Por Paulo Nogueira

E então ficamos sabendo que o HSBC fechou um acordo com a Suíça para encerrar o escândalo Swissleaks.
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O acordo é o clássico: o HSBC pagou para não ser mais importunado com processos, investigações e coisas desagradáveis do gêneroO que nós não ficamos sabendo, no Brasil, é o lado brasileiro do caso.
Num dos maiores fracassos do jornalismo nacional, a parceria UOL e Globo para cobrir o assunto deu em nada.
Foi uma soma bizarra. Um mais um, UOL mais Globo, deu zero.
O experiente Fernando Rodrigues, do UOL, fez um papel ridículo, é certo. A lista dos sonegadores brasileiros foi passada a ele por uma obscura associação internacional de jornalistas investigativos da qual ele faz parte.
Poderia ser seu momento de glória, mas acabou sendo seu instante de opróbrio.
Fernando Rodrigues praticou também sonegação. Um outro tipo de sonegação: o de informações.
É verdade que  as chamadas ordens de cima devem ter limitado brutalmente sua autonomia para cuidar da história.
Os Frias, donos da Folha e do UOL, estavam na lista.
Se os Frias não cobriram nem a sonegação documentada da Globo, imagine o que eles não fariam com sonegação caseira.
O maior erro de Rodrigues provavelmente foi não manobrar para passar adiante, para mãos menos comprometidas, a tarefa de ser o responsável pela divulgação do escândalo no Brasil?
Vaidade? Ignorância a respeito da sonegação contumaz das corporações jornalísticas brasileiras?
Cada um fique com sua explicação. Acho que a hipótese dois, o desconhecimento, é a mais provável.
A morte do caso deve muito também ao comportamento omisso da Receita Federal e das autoridades econômicas do governo.
Sonegação é um assunto que exige, dos governos, berros. Em inglês, há uma expressão comumente usada: “name and shame”.
Você dá os nomes e constrange os sonegadores.
No Reino Unido, o governo nomeou, há pouco tempo, empresas como Apple, Amazon e Starbucks como donas de práticas indecentes para evadir impostos.
Basicamente, elas fazem o seguinte: ganham dinheiro no Reino Unido mas pagam impostos em paraísos fiscais.
Os britânicos ficaram sabendo quanto faturam as empresas e quanto pagam de impostos. Isso gerou indignação na opinião pública. Houve manifestações em lojas da Starbucks em Londres, por exemplo.
No Brasil, o governo não se manifesta sobre nada, e a Receita menos ainda.
Quando se sabe quanto é vital equilibrar as contas, e os sacrifícios advindos do ajuste fiscal, é um silêncio indefensável.
A omissão faz entender uma colocação recente do antigo funcionário do HSBC que vazou a lista, Hervé Falciano.
Numa entrevista ao Estadão, Falciano disse que os especialistas em evasão – em geral advogados – se deslocaram nos últimos anos da Europa, onde o cerco agora é grande, para países como o Brasil.
Aqui, as coisas são bem mais fáceis para os grandes sonegadores.
Falciano usou a expressão “bancos opacos” para designar os que oferecem aos clientes manobras para evasão fiscal.
“O Brasil é o maior alvo dos bancos que praticam a opacidade financeira no mundo inteiro”, disse ele.
Somos, segundo Falciani, “o país em que há mais facilidade para todas as atividades de finanças opacas”.
Bilhões se perdem assim, e sistematicamente.
Mas ninguém bate panelas contra isso. Quanto à mídia, num universo menos imperfeito ela deveria ajudar a combater a sonegação.
Só que ela também sonega, como ficou claro mesmo nas miseráveis informações prestadas sobre o Swissleaks pela Dupla Zero, UOL e Globo.

(fonte: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/um-momento-onde-foi-parar-o-caso-swissleaks-por-paulo-nogueira/)