quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Outubro rosa


Controle social, do Grande Irmão ao Big Data

Como Estados e mega-corporações praticam, juntos, vigilância permanente. De que modo isso corrói vida privada — sem a qual não pode, segundo Rousseau e Hannah Arendt, haver liberdade
Por Ignacio Ramonet | Tradução: Inês Castilho
A ideia de um mundo colocado sob “vigilância total” pareceu durante muito tempo um delírio utópico ou paranóico, fruto da imaginação mais ou menos alucinada dos obcecados pela conspiração. Mas é preciso reconhecer a evidência: vivemos, aqui e agora, sob o olhar de uma espécie de império da vigilância. Sem que saibamos, cada vez mais nos observam, nos espiam, nos vigiam, nos controlam, nos ficham. A cada dia novas tecnologias tornam-se mais refinadas, na perseguição do nosso rastro. Empresas comerciais e agências publicitárias registram nossa vida. Mas, sobretudo, sob o pretexto de lutar contra o terrorismo ou contra outras mazelas (pornografia infantil, lavagem de dinheiro, narcotráfico), os governos – incluindo os mais democráticos – se erigem em Grande Irmão e já não têm dúvidas em infringir suas próprias leis para nos espionar melhor. Secretamente, os novos Estados orwellianos buscam construir arquivos completos de nossos contatos e dados pessoais, exatamente como aparecem em diversos suportes eletrônicos.
Depois da onda de ataques terroristas que golpeou, há anos, cidades como Nova York, Paris, Boston, Otawa, Londres ou Madri, as autoridades não tiveram dúvidas em utilizar o grande pavor das sociedades abaladas para intensificar a vigilância e reduzir ainda mais a proteção de nossa vida privada.
Compreendamos: o problema não é a vigilância em geral, é a vigilância maciça clandestina. Num Estado democrático, as autoridades têm legitimidade, baseando-se na lei e com a autorização prévia de um juiz, para colocar sob vigilância pessoas que considerem suspeitas. Como disse Edward Snowden: “Não há nenhum problema em colocar sob escuta Osama Bin Laden. Sempre que os investigadores tenham que obter a permissão de um juiz – um juiz independente, genuíno, não um juiz secreto – e possam provar que existe uma boa razão para emitir uma ordem, podem executar esse trabalho. O problema surge quando nos controlam a todos, em massa, o tempo todo e sem nenhuma justificativa” (1).
TEXTO-MEIO
Com a ajuda de algoritmos cada vez mais aperfeiçoados, milhares de pesquisadores, engenheiros, matemáticos, estadistas e profissionais de informática buscam e classificam a informação que geramos sobre nós mesmos. Satélites e drones de visão penetrante nos seguem do espaço. Nos terminais dos aeroportos, escâners biométricos analisam nosso andar, leem nossa íris e nossas impressões digitais. Câmaras de infravermelhos medem nossa temperatura. As pupilas silenciosas das câmeras de vídeo nos examinam nas calçadas das cidades ou nos corredores dos hipermercados. Também seguem nossa pista no trabalho, nas ruas, no ônibus, no banco, no metrô, no estádio, nos estacionamentos, em elevadores, em shoppings, nas estradas, nas estações, em aeroportos …
A revolução digital que vivemos, que já transformou tantas atividades e profissões, também modificou completamente os serviços de informação e de vigilância. Na época da internet, a vigilância passou a ser algo onipresente e imaterial, imperceptível, indetectável. Caracteriza-se tecnicamente por uma simplicidade espantosa. Acabaram-se os trabalhos de alvenaria para instalar cabos e microfones, como no célebre filme “A Conversação” (2), no qual podíamos ver como um grupo de “encanadores” apresentava, em uma feira dedicada às técnicas de vigilância, aparatos mais ou menos elaborados, equipados com caixas “informantes” transbordantes de cabos eléctricos que precisavam ser escondidas nos paredes ou no chão.
Vários escândalos ruidosos dessa época – o caso Watergate nos Estados Unidos, o dos “encanadores” do jornal Le Canard Enchaîné  na França –, fracassos humilhantes dos serviços de informação, demonstraram os limites desses antigos métodos mecânicos, facilmente detectáveis e localizáveis.”
Hoje, colocar alguém sob escuta passou a ser feito com facilidade desconcertante. Uma pessoa comum que queira espionar alguém à sua volta encontra no comércio, vendido livremente, um vasto leque de opções: meia dúzia de programas de informática para espiar (mSpy, GsmSpy, FlexiSpy, Spyera, EasySpy), que “leem” facilmente os conteúdos dos telefones celulares, mensagens de texto, correios eletrônicos, contas de Facebook, Whatsapp, Twitter etc. Com o auge do consumo on line, a vigilância comercial também se desenvolveu enormemente, criando um gigantesco mercado de dados pessoais que se converteram em mercadorias. Em cada conexão a uma pagina da rede, os cookies registram o conjunto das buscas realizadas e permitem estabelecer nosso perfil de consumidor. Em menos de vinte milésimos de segundo, a página visitada vende aos possíveis anunciantes a informação que nos diz respeito, revelada pelos cookies. Apenas alguns milésimos de segundo mais tarde, a publicidade que supostamente nos atinge com maior impacto aparece em nossa tela.
De alguma maneira, a vigilância se “privatizou” e “democratizou”. Já não é um assunto reservado aos serviços estatais de informação. Mas ao mesmo tempo, a capacidade de os Estados em matéria de espionagem maciça cresceu de modo exponencial. Isso também se deve à estreita cumplicidade com as grandes empresas privadas que dominam as indústrias de informática e de telecomunicações. Julian Assange afirma: “As novas organizações como Google, Apple, Amazon e Facebook armaram estreitos vínculos com o aparato de Estado em Washington, em particular com os responsáveis por Assuntos Exteriores” (3). Este complexo da segurança e do digital – Estado + aparato militar de segurança + indústrias gigantes da Web – constitui um verdadeiro império da vigilância cujo objetivo, muito concreto e muito claro, é colocar a Internet (toda a Internet e todos os internautas) sob escuta. Para controlar a sociedade.
Para as gerações de menos de quarenta anos, a rede é o ecossistema em que poliram sua mente, sua curiosidade, seus gostos e sua personalidade. De seu ponto de vista, Internet não é só uma ferramenta autônoma, utilizada para tarefas concretas. É uma imensa esfera intelectual onde se aprende a explorar livremente todos os saberes. Uma ágora sem limites, um fórum onde as pessoas se reúnem, dialogam, trocam e adquirem, frequentemente de modo compartilhado, cultura, conhecimentos e valores.
A Internet representa, aos olhos destas novas gerações, o que era para os mais velhos, de modo simultâneo, a escola e a biblioteca, a arte e a enciclopedia, a pólis e o templo, o mercado e a cooperativa, o estádio e o palco, a viagem e os jogos, o circo e o bordel… É tão fabuloso que “o indivíduo, em seu prazer por evoluir num universo tecnológico, não se preocupa em saber, e menos ainda em compreender, que as máquinas gerenciam seu dia a dia. Que cada um de seus atos e gestos é gravado, filtrado, analisado e, eventualmente, vigiado. Que, longe de libertá-lo de seus obstáculos físicos, a informática da comunicação constitui a ferramenta de vigilância e de controle mais incrível que o ser humano jamais pode criar” (4).
Essa intenção de controle total representa um perigo inédito para sociedades democráticas: “Permitir a vigilância da Internet – afirma Grenn Greenwald, o jornalista norte-americano que defundiu as revelações de Edward Snowden – é o mesmo que submeter a um controle estatal completo praticamente todas as formas de interação humana, inclusive o pensamento propriamente dito” (5).
Essa é a grande diferença em relação aos sistemas de vigilância que existiam antes. Sabemos, desde Michel Foucault, que a vigilância ocupa uma posição central na organização das sociedades modernas. Estas são “sociedades disciplinadoras”, onde o poder, por meio de técnicas e de estratégias complexas de vigilância, busca exercer o maior controle social possível (6).
Esta vontade por parte do Estado, de saber tudo sobre os cidadãos, está legitimada politicamente pela promessa de maior eficácia na administração burocrática da sociedade. O Estado afirma que será mais competitivo e, portanto, servirá melhor os cidadãos se os conhecer da forma mais profunda possível. Ao ter se tornado cada vez mais invasiva, a intrusão do Estado terminou provocando, já faz tempo, rejeição crescente entre os cidadãos que apreciam a proteção da vida privada. Desde 1835, Alexis de Tocqueville já assinalava que as democracias modernas de massa produzem cidadãos privados, cuja principal preocupação é a proteção de seus direitos. E que isso faz com que sejam particularmente exigentes e hostis às pretensões intrusivas e abusivas do Estado (7).
Esta tradição prolonga-se atualmente na figura dos “lançadores de alertas”, como Julian Assange e Edward Snowden, perseguidos ferozmente pelos Estados Unidos. Em sua defesa, Noam Chomsky afirma: “Para esses ‘lançadores de alertas’, sua luta por uma informação livre e transparente é uma luta quase natural. Terão êxito? Depende de nós. Snowden, Assange e outros agem na qualidade de cidadãos. Estão ajudando o público a descobrir o que fazem seus próprios governos. Existe acaso uma tarefa mais nobre para um cidadão livre? Mas são castigados severamente. Se Washington pudesse colocar as mãos neles, seria pior ainda. Nos Estados Unidos existe uma lei de espionagem que data do Primeira Guerra Mundial; Obama a tem usado para evitar que a informação divulgada por Assange e Snowden chegue ao público. O governo vai tentar de tudo, até mesmo o indizível, para proteger-se de seu ‘inimigo principal’. E o ‘inimigo principal’ de qualquer governo é o seu próprio povo” (8).
Na era da Internet, compartilhamos nossos pensamentos mais pessoais e íntimos, tanto profissionais como emocionais. Quando o Estado, com ajuda de tecnologias superpoderosas, decide escanear nosso uso da rede, não somente rebaixa suas funções como profana nossa intimidade, descarna literalmente nosso espírito e saqueia o refúgio da nossa vida privada.
Sem saber, fomos reduzidos, aos olhos dos novos “Estados de vigilância”, em clones do herói do filme “O Show de Truman” (9), expostos ao olhar de milhares de câmaras e à escuta de milhares de microfones que expõem nossa vida privada à curiosidade planetárias dos serviços de informação.
A esse respeito, Vince Cerf, um dos inventores da web, considera que “na época das tecnologias digitais modernas, a vida privada é uma anomalía…” (10). Leonard Kleinroc, um dos pioneiros da Internet, é ainda mais pessimista: “Basicamente – considera –, nossa vida privada acabou e é impossível recuperá-la” (11).
Por um lado, muitos cidadãos se resignam, como se o fim do direito ao anonimato fosse uma fatalidade de época. Por outro, esta preocupação de defender nossa vida privada pode parecer reacionária ou “suspeita”: só os que têm algo a esconder tentariam esquivar-se à vigilância do Estado. Este discurso – “Dá-me um pouco de tua liberdade, e a devolvo centuplicada em garantia de segurança” – é uma cilada. A segurança total não existe, nem pode existir. No entanto, a “vigilância total” converteu-se numa realidade indiscutível.
Contra a cilada da segurança, cantilena de todos os poderes, recordemos a lúcida advertência lançada por Benjamin Franklin, um dos autores da Constituição norte-americana: “Um povo disposto a sacrificar um pouco de liberdade por um pouco de segurança não merece nem a primeira nem a segunda. E acaba perdendo as duas”. É uma sentença de atualidade perfeita, e que deve nos encorajar a defender o direito à vida privada. Jean-Jacques Rousseau, filósofo iluminista e primeiro pensador a “descobrir” a intimidade, deu o exemplo. Ele foi, também, o primeiro a se rebelar contra a sociedade de seu tempo e contra a sua vontade inquisidora de querer controlar a consciência dos indivíduos.
“O fim da vida privada seria uma autêntica calamidade existencial”, sublinhou igualmente a filósofa contemporânea Hanna Arendt em seu livro “A condição humana” (12). Com formidável clarividência, sua obra aponta os perigos, para a democracia, de uma sociedade na qual a distinção entre a vida privada e a vida pública estaria estabelecida de forma insuficiente, o que, segundo Arendt, significaria o fim do homem livre. E arrastaria nossas sociedades, de maneira implacável, para novas formas de totalitarismo.
Notas
(1) Katrina van den Heuvel et Stephen F. Cohen, “Edward Snowden: A ‘Nation’ Interview”, The Nation, Nova York, 28 de outubro de 2014.
(2) A Conversação, 1973. Direção: Francis F. Coppola. Intérpretes: Gene Hackman, John Cazale, Cindy Williams, Harrison Ford, Robert Duvall. Palma de Ouro 1974 no Festival de Cannes.
(3) Ignacio Ramonet, “Entrevista a Julian Assange: ‘Google nos espia e informa ao Governo dos Estados Unidos’”, Le Monde diplomatique em espanhol, dezembro de 2014.
(4) Jean Guisnel, em seu prefácio do livro de Reg Whitaker, Tous fliqués. La vie privée sous surveillance, Denoël, París, 2001
(5) Glenn Greenwald, Sem lugar para esconder, Edward Snowden, a NSA, e a espionagem do governo americano, Editora Primeira Pessoa, 2014.
(6) Michel Foucault, Vigiar e punir, Editora Vozes, Petrópolis, 1987
(7) Alexis de Tocqueville, A democracia na América, Martins Fontes, 2005.
(8) Ignacio Ramonet, “Entrevista com Noam Chomsky: Contra o império da vigilância”, Le Monde diplomatique en español, abril de 2015.
(9) O Show de Truman (The Truman Show) (1998). Direção: Peter Weir. Intérpretes: Jim Carrey, Ed Harris.
(10) Marianne, París, 10 de abril de 2015.
(11) El País, Madrid, 13 de janeiro de 2015.
(12) Hanna Arendt, A condição humana, Editora Forense Universitária, Rio de Janeiro, 2007.
(fonte: http://outraspalavras.net/capa/controle-social-do-grande-irmao-ao-big-data/)

Crônica de um jornalismo que regrediu ao facebook

Incapaz de examinar e debater grandes temas nacionais, velha mídia compartilha comentário de rede social como furo de reportagem e busca curtidas ao invés de leitores
Por Viegas Fernandes da Costa, no Observatório da Imprensa
Nestas últimas semanas venho tentando me afastar das redes sociais e, principalmente, do jornalismo mainstream brasileiro. Não se trata de uma tentativa de alienação, ou de proteção contra o mundo caótico que diuturnamente nos apresentam (afinal, este mundo sempre foi caótico), mas de tentar manter um mínimo de sobriedade reflexiva.
Tenho comigo que o jornalismo mainstream brasileiro, em sua desesperada busca por consumidores, abdicou completamente da sua função de informar e promover o debate público para se submeter às vontades e crenças do consumidor. Ao invés de propor pautas e ousar abordagens diferentes para velhas questões, satisfaz-se em reproduzir o palatável, o questionável, reforçando mitos e preconceitos e instigando o ódio na sociedade.
Sei, obviamente, que o Brasil não é exceção, mas é daqui que falo. Aliás, lamento que, hoje, o principal jornal a propor debates nacionais com um mínimo de profundidade seja o espanhol El País. Um jornal espanhol pautando nossa reflexão. Seria salutar se nossa imprensa tupiniquim aprendesse a antropofagizar a imprensa internacional, produzindo algo genuíno e progressista. Seria bom se as faculdades de jornalismo, que atualmente formam peritos em Control+c e Control+v, instituíssem o estudo obrigatório do Manifesto Antropofágico em seus currículos. Aliás, muito mais do que de diplomas, precisamos de autonomia. Muito mais do que de bacharéis, precisamos da regulamentação da mídia, para que a democracia da informação se imponha pela pluralidade de veículos de comunicação e para que o controle social seja capaz de substituir o controle financeiro.
Um jornalismo conformado, que fomenta ódio
Quando vejo o parlamento brasileiro (assim mesmo, em letra minúscula) definindo família como uma união de pênis e vagina, responsabilizo também a mídia. Esta mídia de Sheherazade que torna normal o linchamento de seres humanos em praça pública. Esta mídia “escola” de um Manhattan Connection que considera o Nordeste “culturalmente atrasado” e entende ser esta uma opinião sofisticada da classe média, em contundente exemplo do quão vira-latas podem ser nossos jornalistas, que veem o Brasil a partir de Viena. Esta mídia esgoto que põe em rede estadual um Hélio Costa humilhando uma Andressa Urach [1], e reforçando, assim, estereótipos sobre a prostituição que, na ponta, estimulam o preconceito e a violência física e moral contra os profissionais do sexo. Esta mídia que promove boato como verdade, delação como prova, ofensa inconsequente como liberdade de expressão – e aqui a lista não se restringe apenas à revistaVeja, que em algum tempo já produziu jornalismo.
Cada vez mais, opinião vira notinha. Parece que o tempo do autor nas redações acabou. Crítica cultural, hoje, virou colunismo social. Análise política, fofoca de bastidores dosada em pílulas diárias. É como se estivéssemos vivendo uma espécie de twitterização da imprensa. Nada ultrapassa 140 caracteres. Tenho a impressão de que nossos editores, jornalistas e colunistas participaram de workshops de imersão em novilíngua e que Orwell apenas errou ao datar seu romance em 1984.
Chegamos ao tempo em que o jornalismo não forma mais opinião. É a opinião pública rés-do-chão que forma o jornalismo. Ou melhor, conforma. Porque é isto que temos hoje, um jornalismo conformado, obtuso, preconceituoso, que fomenta ódio em detrimento da reflexão, salvo raríssimas exceções. Um jornalismo que compartilha comentário de Facebook como furo de reportagem e busca curtidas ao invés de leitores.
***
Viegas Fernandes da Costa é historiador e professor do Instituto Federal de Santa Catarina
[Episódio ocorrido numa entrevista ao vivo na Record, de Santa Catarina, no dia 25/9, quando o apresentador Helio Costa chamou a ex-modelo gaúcha Andressa Urach de “vagabunda” por ter sido garota de programas no passado.
(fonte: http://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/cronica-sobre-um-jornalismo-que-regrediu-a-facebook/)

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

O século de sangue

O período que vai de 1914 a 2014 foi marcado por conflitos dos mais importantes, que mudaram a configuração geopolítica mundial, transformando radicalmente o curso da História.
O Século de Sangue é uma viagem pelas guerras desse último século.


  O Século de Sangue
  Emmanuel Hecht, Pierre Servent (Orgs.)
 
Os últimos cem anos favoreceram enormes avanços civilizatórios (a internet, a penicilina, a pílula anticoncepcional e tantos outros), mas também propiciaram enorme avanço na capacidade dos homens se autodestruírem. Este livro narra vinte dos conflitos mais sangrentos a que o mundo assistiu de 1914 até os dias de hoje. Há guerras globais, como a Segunda Guerra Mundial, e embates localizados, todos eles fundamentais para desenhar o mapa do mundo da forma que ele tem hoje. Escrito de forma saborosa e enriquecido por 26 mapas, O século de sangue nos leva para o front.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

A grande divisão: quanto pior, pior

Texto escrito por José de Souza Castro:
Quem não quiser esperar o lançamento no Brasil de “Great Divide: Unequal Societies and What We Can Do About Them”, de Joseph Stiglitz, ganhador do prêmio Nobel de Economia, pode comprar o livro na Amazon, gastando pouco mais de 18 dólares. Mas o lançamento aqui, com o título provável de “A grande divisão:  sociedades desiguais e o que podemos fazer sobre isso”, deve sair ainda neste ano pela Alta Books.
Como outros livros de Stiglitz, este tem merecido grande atenção e já foi objeto de umaresenha na “Folha de S.Paulo”, no dia 3 de outubro, feita pela ex-editora executiva do jornal, Eleonora de Lucena. Trecho:
“Seu ponto central: a desigualdade galopante é fruto de políticas deliberadas e poderia ter sido evitada. Stiglitz ressalta que o fosso social fabricado nos Estados Unidos – e replicado pelo mundo –  impede uma recuperação mais robusta da economia, reforçando iniquidades e mais concentração de riqueza.
Com uma linguagem contundente e didática, o autor extrapola em muito o estrito mundo econômico. Sua reflexão passa pelo comportamento da elite, cada vez mais divorciada das necessidades da população.
Alienada das condições sociais gerais, da saúde, da educação, da segurança e da infraestrutura, essa fração dos superricos vive numa bolha, não liga para o que acontece com a maioria e gera efeitos perversos para o país. Nas palavras do Nobel:
"De todos os custos impostos pelo 1% para a nossa sociedade talvez o maior seja a erosão de nosso senso de identidade, no qual o jogo justo, a igualdade de oportunidade e o senso de comunidade são tão importantes".
Stiglitz, 72, lembra que Alexis de Tocqueville (1805-1859) identificou nos norte-americanos a existência de um "interesse próprio bem compreendido", ou seja: para o próprio bem-estar individual é preciso prestar atenção nas condições dos outros.
Segundo o Nobel, os americanos aprenderam que "ajudar os outros não é apenas bom para a alma, mas é bom para os negócios". No entanto, agora a elite não entende que o seu destino está interconectado com o da maioria da população – os 99%.
"A história mostra que isso é algo que, no final, o 1% mais rico pode aprender – muito tarde", diz. O alerta está em "Do 1%, pelo 1%, para o 1%", famoso ensaio publicado originalmente pela revista "Vanity Fair", em 2011, e que serviu de inspiração para protestos como o Occupy Wall Street.
O texto é um dos mais esclarecedores do livro, que recupera discussões de outras obras de Stiglitz, como "The Price of Inequality" (2012) e "Freefall" (2010). Ex-executivo do Banco Mundial e do conselho econômico da administração Bill Clinton, Stiglitz reforça, também nesta obra, seu ataque contra os bancos.”
Ainda não li o livro vendido pela Amazon desde abril, mas desde já me sinto reconfortado, pois tenho escrito aqui alguns artigos críticos ao sistema financeiro atual que vem se impondo sobre as políticas públicas no Brasil e na maioria dos países, para benefício de 1% da população mais rica e em grave prejuízo para os outros. Por exemplo, escrevi AQUIAQUIAQUI, e AQUI. Como observou Eleonora de Lucena, sobre o país mais rico do mundo, os Estados Unidos:
“O bem-estar das corporações foi engordando ao mesmo tempo que encolhiam os projetos de ajuda aos mais pobres. Um norte-americano típico ganha hoje menos do que ganhava há 45 anos – feitas todas as correções. Uma em cada quatro crianças vive na pobreza (na Grécia é uma em seis).
O 1% mais rico abocanha um quarto da renda e 40% da riqueza dos EUA. Há 25 anos, essas percentagens eram de 12% e 33% respectivamente. Políticos e parlamentares fazem dessa superelite e atuam em função dela.
Essa crescente desigualdade destrói o mito dos EUA como a terra de oportunidades, sabota a eficiência da economia e, principalmente, abala os pilares da democracia. O lema de "um homem um voto" está sendo convertido em "um dólar um voto".
No Brasil, a situação é ainda pior. Nosso país é campeão mundial da desigualdade, apesar dos avanços observados neste século. E nada indica que a última reforma política anunciada pela presidente Dilma Rousseff venha para melhor. Como diz Jânio de Freitas neste domingo, no mesmo jornal, comentando as mudanças em seu ministério: “O que importa é estar tudo pronto, enfim: quanto pior, pior”.
Sim, mas não precisa ser assim. Há soluções. Algumas são apontadas pelo economista francês Thomas Piketty, NESTA entrevista à BBC Brasil. Ele está em São Paulo para divulgar seu best-seller O Capital no Século XXI (Editora Intrínseca). Segundo ele, o nível de desigualdade no Brasil pode ser reduzido com uma série de políticas. Cita: “Investir em educação e em instituições sociais, (implementar) um sistema de impostos progressivo, em que os ricos pagam mais que os pobres, (criar) boas políticas para o mercado de trabalho e aumentar o salário mínimo – algo que no Brasil foi importante nos últimos 10, 15 anos. Todas essas políticas são complementares. Não dá para escolher.”
(fonte: blog da Kika Castro)

Humanismo



Antônio de Paiva Moura

            O humanismo é justificável, se o homem não é o único ser vivente da terra?   Pensar sobre a validade do humanismo não significa excluir a necessidade de refletir sobre os demais seres vivos da fauna e da flora.
Desde que adquiriu a fala e a razão, o homem passou a ter noção de sua finitude. Saber que tem um tempo de vida e que a morte é inevitável é extremamente angustiante. Tanto assim, que para amenizar esse sofrimento foi criada a idéia de vida após a morte, só para o ser humano.  Com o uso da palavra os humanos vivem ofendendo seus semelhantes. O sofrimento por ofensas verbais é constante e intenso. Tão intenso que, muitas vezes, culmina em morte dos ofensores. Como o homem teme perder a vida, mais que qualquer outra coisa, uma das piores ofensas é dizer ao outro que deseja sua morte ou que vai matá-lo.
Com a aquisição da técnica, o homem tornou-se imensamente poderoso e capaz de exterminar milhões de seus semelhantes em questão de minuto. Quando o dinheiro passou a representar os bens reais e tornou-se o centro de todas as coisas, a dominação de poucos sobre muitos, tornou-se mais efetiva. A civilização criou condições para o domínio de poucos sobre muitos e aumento das desigualdades sociais. A força bélica, a lei, a religião, as armas e os preconceitos contribuíram para o aumento da dominação de uns sobre os outros. A vida humana tem momentos de prazer, mas nunca sem o sacrifício de seus semelhantes e dos demais seres vivos.
Einstein e Freud contribuíram para o desenvolvimento dessa epistemologia do humanismo. Em 1931 a Liga das Nações criou um programa para promover a troca de correspondências entre intelectuais, em busca de explicação à freqüência de guerras no mundo. Einstein escreveu carta a Freud iniciando o debate. Freud já havia publicado algo relacionado ao assunto, em 1930, no trabalho intitulado “O mal-estar na civilização”. Em um dos parágrafos da carta de Einstein ele diz:
O insucesso, malgrado sua evidente sinceridade, de todos os esforços, durante a última década, no sentido de alcançar essa meta, não deixa lugar à dúvida de que estão em jogo fatores psicológicos de peso que paralisam tais esforços. Alguns desses fatores são mais fáceis de detectar. O intenso desejo de poder, que caracteriza a classe governante em cada nação, é hostil a qualquer limitação de sua soberania nacional. Essa fome de poder político está acostumada a medrar nas atividades, de outro grupo, cujas aspirações são de caráter econômico, puramente mercenário. Refiro-me especialmente a esse grupo reduzido, porém decidido, existente em cada nação, composto de indivíduos que, indiferentes às condições e aos controles sociais, consideram a guerra, a fabricação e venda de armas simplesmente como uma oportunidade de expandir seus interesses pessoais e ampliar a sua autoridade pessoal.
                Sem aprofundar muito no mérito da resposta de Freud a Einstein, percebe-se que ele foi ao centro da questão. O direito como garantia do exercício do poder e da dominação.
O senhor começou com a relação entre o direito e o poder. Não se pode duvidar de que seja este o ponto de partida correto de nossa investigação. Mas, permita-me substituir a palavra ‘poder’ pela palavra mais nua e crua, a violência. Atualmente, direito e violência se nos afiguram como antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra e, se nos reportarmos às origens primeiras e examinarmos como essas coisas se passaram, resolve-se o problema facilmente. Perdoe-me se, nessas considerações que se seguem, eu trilhar chão familiar e comumente aceito, como se isto fosse novidade; o fio de minhas argumentações o exige.
É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto o que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir. No caso do homem, sem dúvida ocorrem também conflitos de opinião que podem chegar a atingir as mais raras nuanças da abstração e que parecem exigir alguma outra técnica para sua solução. Esta é, contudo, uma complicação a mais. No início, numa pequena horda humana, era a superioridade da força muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer sua vontade. A força muscular logo foi suplementada e substituída pelo uso de instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A partir do momento em que as armas foram introduzidas, a superioridade intelectual já começou a substituir a força muscular bruta; mas o objetivo final da luta permanecia o mesmo — uma ou outra facção tinha de ser compelida a abandonar suas pretensões ou suas objeções, por causa do dano que lhe havia sido infligido e pelo desmantelamento de sua força. Conseguia-se esse objetivo de modo mais completo se a violência do vencedor eliminasse para sempre o adversário, ou seja, se o matasse. Isto tinha duas vantagens: o vencido não podia restabelecer sua oposição, e o seu destino dissuadiria outros de seguirem seu exemplo. Ademais disso, matar um inimigo satisfazia uma inclinação instintual, que mencionarei posteriormente. À intenção de matar opor-se-ia a reflexão de que o inimigo podia ser utilizado na realização de serviços úteis, se fosse deixado vivo e num estado de intimidação. Nesse caso, a violência do vencedor contentava-se com subjugar, em vez de matar, o vencido. Foi este o início da idéia de poupar a vida de um inimigo, mas a partir daí o vencedor teve de contar com a oculta sede de vingança do adversário vencido e sacrificou uma parte de sua própria segurança.
            O debate Einstein Freud constata que o discurso sem a prática não produz efeito. Eles viram o melancólico fim da Liga das Nações. A Organização das Nações Unidas, ONU, criada no fim da Segunda Guerra Mundial, é dominada, exatamente pelas nações mais poderosas do globo. O interesse das potências é que prevalece. A ONU não consegue evitar que Israel avance sobre a Palestina; Não conseguiu evitar a invasão do Iraque pelos EUA. Os naufrágios de embarcações conduzindo refugiados de guerra da África não comovem a ninguém. Nas calçadas das grandes cidades do mundo inteiro, os bem situados na vida tropeçam em mendigos e moradores de rua, sem jamais refletirem sobre o sofrimento de seus semelhantes.


MEMÓRIA DO HOLOCAUSTO > DOCUMENTÁRIO SOBRE CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO


Digitalização dissemina imagens que o mundo não viu

Por Sheila Sacks 
Para o jornalista Elio Gaspari, o mundo só começou a encarar o Holocausto a partir dos anos 1960, com o julgamento público de Adolf Eichmann em Israel. De fato, a captura do oficial nazista em Buenos Aires por um comando israelense, seu transporte clandestino para Tel Aviv e as audiências na Suprema Corte em Jerusalém renderam milhares de reportagens, centenas de livros e ensaios, questionamentos políticos, filmes e documentários.
Entretanto, essa revelação histórica – a do mais brutal massacre institucional de cidadãos promovido por um governo em solo europeu – poderia ter sido antecipada e exibida ao mundo 15 anos antes, ainda em 1945, caso as autoridades britânicas e americanas não tivessem arquivado em uma repartição pública militar os cinco cilindros de filme que registraram em tempo real o horror dos campos de concentração alemães.
Uma decisão jamais discutida, em qualquer tempo, pelos meios de comunicação, pesquisadores, intelectuais e organizações sociais a quem caberia, ao menos, uma palavra de indignação diante do ocorrido.
Cenário macabro
A filmagem feita por cinegrafistas do exército aliado acompanha a libertação de onze campos de concentração nazistas – de um total de 1.094 já documentados – a partir de abril de 1945. Entre eles os campos de Bergen-Belsen, com 70 mil mortos (onde Anne Frank morreu), Majdanek (80 mil), Dachau (30 mil) Buchenwald (56 mil), Ebensee (20 mil), Matthausen (150 mil) e Auschwitz-Birkenau (1,1 milhão).
Dachau / Foto Wikimedia / Licença Creative Commons
Dachau / foto aérea feita pelas Forças Aliadas em 1945  – Foto Wikimedia / Licença Creative Commons
As imagens aéreas mostram vastas planícies ocupadas por fileiras de barracões cercadas por arame farpado e guaritas. No solo, cadáveres sem roupa se misturam aos doentes e moribundos que agonizam sob a indiferença daqueles que ainda reúnem forças para disputar algum resto de comida. Um cenário macabro onde proliferam a imundície, as epidemias e a fome.
O filme também mostra as equipes nazistas – homens e mulheres – que atuavam nos campos da morte. Sob a ordem do exército aliado, esses soldados alemães cavam imensos buracos onde são jogados os milhares de cadáveres que jazem insepultos. Todos esquálidos e desnudos. O material, catalogado sob a inscrição F3080, permaneceu abandonado nas prateleiras de um departamento do antigo ministério da Guerra (hoje, ministério da Defesa) e em 1952 foi transferido para o “Imperial War Museum” – IWM que o registrou sob o título de “Memory of the Camps” (Memória dos Campos). Ali ficou enterrado e esquecido por décadas.
Culpa coletiva
Planejado para ser um documento histórico e didático que funcionaria como uma prova real da existência dos campos e das práticas abomináveis exercidas pelo regime nazista, o projeto do comando aliado ficou sob a responsabilidade de Sidney Bernstein (1899-1993), chefe da seção de cinema da divisão de Informação britânica, que chamou Richard Crossman para ajudá-lo no roteiro. Crossman foi um dos primeiros oficiais britânicos a pisarem no campo de Dachau e posteriormente entrou para a política, tornando-se líder do Partido Trabalhista e ministro do Trabalho. Com apoio dos colegas do serviço americano de informação, Bernstein recrutou ainda o diretor de cinema Alfred Hitchcock (1899-1980), que trabalhava em Hollywood, para supervisionar o documentário.
Mas, em 9 de julho de 1945, menos de três meses após o início efetivo do projeto, os americanos retiram a sua participação no filme. Em setembro de 1945, com o documentário inacabado, as autoridades britânicas resolvem interromper o trabalho. O comando militar, àquela altura, estava empenhado em melhorar as relações anglo-germânicas, conter uma possível expansão soviética e não dar publicidade à vitimização dos judeus que lutavam por uma pátria na terra de Israel sob mandato britânico. A exibição do filme iria incutir uma culpa coletiva sobre a população alemã, o que segundo as autoridades aliadas aumentaria ainda mais o caos e a desmoralização de uma nação derrotada.
Bergen Belsen mass graveyard
Campo de Bergen-Belsen / imagem do documentário Memory of the Camps / foto Wikimedia – licença Creative Commons
Nas imagens engavetadas, moradores das cidades e vilas próximas aos campos, convocados pelo exército aliado, visitam esses locais em plena efervescência de uma indescritível e absurda tragédia humana. As câmeras registram o constrangimento e a aparente vergonha dos alemães diante daquela multidão de seres desfigurados, reduzidos ao nível mais baixo de miséria e humilhação. Um pesadelo inimaginável que se sucedia a poucos quilômetros de suas casas, sem que ninguém soltasse um suspiro de misericórdia. Vizinhos das indústrias da morte, os moradores são forçados a encarar, naquela primavera de 1945, a máquina genocida que amparada na indiferença e pouco caso de seus cidadãos exterminou milhões de crianças, idosos e cidadãos civis inocentes.
O historiador Geoffrey Megargee, do Museu do Holocausto de Washington, afirma que de 1933 a 1945 o regime nazista implantou uma rede de trabalho escravo que funcionou em 42.500 locais na Alemanha e nos países ocupados. Foram 1.094 campos de concentração e 1.150 guetos, além de milhares de fábricas e outros centros de trabalho forçado, de tortura e de morte.
O mapeamento e o censo completo desses locais irão compor uma enciclopédia que deverá estar concluída nos próximos anos. “A existência de campos de concentração não era segredo e dada a dimensão dos números é quase impossível acreditar que os alemães não tinham conhecimento do sistema de matança de Hitler”, avalia o pesquisador. “Quando você tem dezenas de milhares de acampamentos e milhões de trabalhadores forçados, prisioneiros de guerra e prisioneiros de campos de concentração em todos os lugares, todos fazendo todo o tipo de trabalho que se possa imaginar, é muito difícil dizer que você não sabia de nada desse sistema”, completa.
Exibição na TV
Em 7 de maio de 1985, após 40 anos de um esquecimento premeditado e moralmente injustificável, o documentário em estado bruto é apresentado na TV americana. Pesquisadores do premiado programa de jornalismo investigativo Frontline – focado em temas políticos e internacionais – haviam encontrado em um cofre do IWM, em Londres, os cinco cilindros de filme e mais um rolo sem data, com imagens não editadas, um roteiro datilografado para narração e uma lista de termos que corresponderia às imagens editadas (um sexto carretel de filme que mostrava a libertação dos campos de Auschwitz e Majdanek teria sido levado para Moscou por cinegrafistas soviéticos).
O ator britânico Trevor Howard (1913-1988) é escalado para a narração das imagens que se mantém fiel ao roteiro original. Com o mesmo título registrado pelo museu, Memory of the Camps é exibido pelo canal aberto PBS (Public Broadcasting Service), dos Estados Unidos, uma emissora pública voltada para programas culturais e educativos.
Acerca do filme, um dos cinegrafistas responsáveis pelas imagens chocantes registradas no campo de Bergen-Belsen foi o sargento do exército britânico Mike Lewis, que não tinha ideia do que iria encontrar naquela tarde de 15 de abril de 1945 ao cruzar os portões do campo recém-libertado. Tinham dito que ele iria filmar um acampamento de prisioneiros, de criminosos. Anos depois, sua filha, Helen, conta a saga do pai: “Ele entrou pelos portões de arame farpado e deparou com um terreno baldio cheio de corpos de pessoas mortas, em sua maioria despidas, ao lado de outras morrendo de fome. Eram em torno de 10 mil pessoas que jaziam insepultas e outras 13 mil que morriam de desnutrição e doenças.”
Helen Lewis diz que seu pai permaneceu por 10 dias filmando no campo de Belsen, apesar da epidemia de tifo que assustava a todos. “Foi um trabalho de registro histórico que inclusive foi usado em um dos primeiros julgamentos de crimes de guerra.” De fato, cenas do documentário foram apresentadas como prova documental no julgamento de Josef Kramer, o chefe do campo de Bergen-Belsen, cuja imagem está presente no filme. Conhecido como “a besta de Belsen”, Kramer também foi responsável pelo controle das câmaras de gás de Auschwitz. Ele foi condenado por uma corte militar britânica e enforcado em 13 de dezembro de 1945.
Em Berlim
Um ano antes, em 1984, por ocasião do 34º Festival de Cinema de Berlim, as imagens de Memory of the Camps foram mostradas à parte da competição oficial. O documentário sem som foi precedido pela leitura do texto dos editores originais. Após os 60 minutos de filme houve um debate acompanhado pela rede americana de TV NBC (National Broadcasting Company). O tema abordava a possibilidade de exibição do documentário em toda a Alemanha Ocidental (o muro de Berlim que separava as duas Alemanhas – a Oriental sob o governo soviético e a Ocidental, alinhada com os Estados Unidos – só foi derrubado em novembro de 1989). Porém, o assunto não foi adiante em termos práticos e os debatedores e a plateia se mostraram evasivos.
O crítico de cinema Harlan Kennedy, que escrevia para a revista americana Film Comment e estava presente ao encontro, comentou que o único traço de realidade sobre o que acontecia no país na época em relação ao Holocausto veio através da observação de um estudante. “Ele disse que nunca se falava sobre essas atrocidades na escola. E que havia participado de uma visita com seus colegas a Bergen-Belsen, mas a história e o horror do lugar foram apresentados de forma bem abreviada. Disse ainda que nunca tinha visto nada parecido com as imagens do filme, o que fez o mediador local pular da cadeira e justificar que não havia esse tipo de material disponível na Alemanha.”
Imagens digitalizadas
Em 2015, três décadas após essas apresentações que tiveram divulgação restrita, o governo britânico resolve marcar os 70 anos da libertação dos campos nazistas e o fim da II Grande Guerra (1939-1945) com o documentário recuperado sob o título original: German Concentrations Camps Factual Survey (Inspeção local dos campos de concentração alemães, em tradução livre). Pesquisadores do IWM, onde o filme esteve abandonado por mais de 60 anos, se empenharam no processo de digitalização das imagens e de outros acabamentos, como a inclusão de som e áudio e a reabilitação do rolo dado como perdido.
Contudo, permanece a estranheza sobre a decisão das forças aliadas de desistirem de concluir o documentário, em 1945, e deixá-lo enterrado por tanto tempo, longe do olhar e da consciência do mundo. A filha de Sidney Bernstein, o idealizador do filme, revelou em entrevista ao jornal israelense Haaretz, que não tinha conhecimento da existência do material até 1984, quando as imagens foram liberadas em estado bruto. Cineasta e autora de dezenas de curtas-metragens, Jane Wells confessou que foi uma surpresa completa saber que o pai esteve em Bergen-Belsen. Realmente, Bernstein, impressionado com o pavoroso relato do correspondente britânico da rádio BBC Richard Dimbleby, sobre o campo de Belsen, foi ao local e decidiu retratar os crimes dos nazistas de tal maneira que seria impossível alguém negar que aquilo existiu.
Em 1984, aos 85 anos, Bernstein lamentou que o documentário não se concluísse. “Minhas instruções eram para filmar tudo, o que provaria que realmente aquilo aconteceu. Eu queria provar que tinha visto porque a maioria das pessoas iria negar.” Sobre a presença de Hitchcock no filme, acredita-se que foi importante para delinear o roteiro, enfatizando quão perto estavam os campos de concentração das aldeias e cidades, onde civis alemães viveram durante a guerra. O cineasta queria planos longos, sem cortes, para que o documentário transmitisse credibilidade e assim se tornar irrefutável a possíveis controvérsias quanto ao extermínio sistemático de milhões de pessoas naquelas fábricas de mortes.
Memory é tema de filme
Ressuscitado da censura e do ostracismo, o documentário de 1945 agora está sendo apresentado em museus e centros de cultura a uma geração que na maioria das vezes dá de ombros para o que aconteceu porque não houve um processo sistemático de conscientização coletiva sobre o tema que ficou restrito às teias literárias, memoriais e artísticas. Mas, ainda assim suas imagens surpreendem pelo extremo nível de desumanidade e a brutalidade que registram.
Ciente e sensibilizado pelo trabalho de restauração do documentário, o antropólogo e documentarista inglês Andre Singer partiu para a realização de um filme tendo como base oMemory of the Camps. Autor de documentários premiados de TV e ex-diretor do Discovery Channel na Europa, Singer revive a história de alguns sobreviventes, apresentando imagens do filme original, depoimentos de soldados e cinegrafistas que estiveram nos campos, e a visão de Bernstein e Hitchcock. Apresentado no Festival de Berlim em 2014, o filme Night Will Fall (em alusão à citação do roteiro original: “A menos que o mundo aprenda a lição que essas imagens ensinam, a noite vai cair”) foi exibido na TV, no início de 2015, em mais de 15 países, durante a semana de celebração do Dia Internacional do Holocausto (27 de janeiro).
Foto Wikimedia / Licença Creative Commons
Heinrich A. Winkler – Foto Wikimedia / Licença Creative Commons
Na Alemanha, onde o filme teve estreia mundial, o historiador Heinrich August Winkler admitiu que “o Holocausto é o fato central da história alemã do século 20”. Também afirmou que a população da Alemanha levou muitas décadas para reconhecer o Holocausto e que não se pode colocar um ponto final diante desses acontecimentos. Professor emérito da Universidade Humboldt, de Berlim, ele discursou no parlamento alemão na cerimônia dos 70 anos do fim da Segunda Grande Guerra, em sessão especial realizada em 8 de maio de 2015. Falando para uma plateia de autoridades, o historiador lembrou que a ascensão política de Hitler foi o triunfo do mito sobre a razão e advertiu que a xenofobia e o antissemitismo atuais presentes na vida das sociedades alimentam e nutrem esses mitos, que na verdade nunca desapareceram. Continuam à espreita, esperando a sua hora para agir.
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Sheila Sacks é jornalista
(fonte: http://observatoriodaimprensa.com.br/memoria-do-holocausto/digitalizacao-dissemina-imagens-que-o-mundo-nao-viu/)