quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
Ocidente restringe liberdade na internet: contra o terror?
França e EUA querem proibir criptografia. Paris planeja acabar com wi-fi público. O verdadeiro alvo podem ser os movimentos sociais e dissidentes
Por Antonio Martins
A onda de ataque às liberdades civis, desencadeada em diversos países ocidentais após os atentados de Paris, ameaça agora atingir a internet. Na França, documentos do ministério do Interior, vazados pelo jornal Le Monde, propõe fechar as redes de wi-fi públicas e proibir o uso do software Tor, que permite navegar na rede sob anonimato. Nos EUA, o presidente Obama encontrou-se ontem (7/12) com Hillary Clinton, pré-candidata à presidência pelo Partido Democrata para debater medidas semelhantes. Ao final da reunião, lançaram um apelo às empresas de tecnologia do país, para que deixem de incluir, em suas plataformas e produtos, mecanismos de proteção à privacidade.
Apresentadas como proteção necessária contra a ação de grupos terroristas, as medidas podem ter um objetivo totalmente diverso. Primeiro, porque grupos como o Estado Islâmico (ISIS) parecem capazes de zombar das restrições ao uso da internet criadas contra eles, segundo revela hoje um texto do New York Times. Horas após os atentados de San Bernardino, em 2 de dezembro, diversos perfis do Twitter lançavam desafios jocosos aos norte-americanos. À medida que eram deletados, outros idênticos surgiam. Segundos depois que a 99ª conta foi suspensa, uma centésima, denominada @IslamicState100, exibia um bolo com cem velas, troféus e fogos de artifício… Em outros casos, como nos atentados de Paris, mostra o mesmo texto, os terroristas sequer usaram ferramentas de criptografia.
Porém, ela tem se mostrado cada vez mais importante para quem deseja defender causas políticas ou fazer denúncias, sem ser vítima de perseguição policial ou dos denunciados. Foi decisiva para que Edward Snowden, dissidente norte-americano, pudesse revelar a malha de espionagem sobre os cidadãos montada por agências de “inteligência” como a NSA. É vista como um direito humano pela própria ONU.
“Criptografia e anonimato, separadamente ou em conjunto, criam uma zona de privacidade para proteger opinião e crença”, sustenta um documento recente de David Kay, relator especial do Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos. Atingi-la “permite às agências de vigilância praticar um vasto arco de atividades indesejadas: espionagem científica, e econômica, ou monitoramento dos movimentos sociais”, acrescenta o cientista político francês Felix Treguer, um dos articuladores da organização La Quadrature du Net, que defende liberdade e privacidade na internet.
Uma das metas explícitas de grupos como o ISIS é destruir as liberdades individuais do Ocidente, vistas pelos fundamentalistas como sinal de decadência. Governos da França e dos EUA parecem estar empenhados em alcançar idêntico objetivo.
(fonte: http://outraspalavras.net/blog/2015/12/08/ocidente-restringe-liberdade-na-internet-contra-o-terror/)
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Brasil: hora de repensar a mineração
Defender a Vale ou a atividade
minerária, alegando serem “vitais para o país”, revela um romantismo
desenvolvimentista e nacional-provinciano
Por Maria Orlanda Pinassi1
Hoje não há sentido em falar em desenvolvimento geral da produção
associado à expansão das necessidades humanas.
Assim, dada a forma em que se realizou
a deformada tendência globalizante do capital–
e que continua a se impor –, seria suicídio
encarar a realidade destrutiva do capital
como pressuposto do novo e absolutamente necessário
modo de reproduzir as condições sustentáveis da existência humana.
associado à expansão das necessidades humanas.
Assim, dada a forma em que se realizou
a deformada tendência globalizante do capital–
e que continua a se impor –, seria suicídio
encarar a realidade destrutiva do capital
como pressuposto do novo e absolutamente necessário
modo de reproduzir as condições sustentáveis da existência humana.
István Mészáros. Século XXI – socialismo ou barbárie
Os casos de Nova Lima (2001), Cataguases
(2003) e Miraí (2007), na Zona da Mata, e de Itabirito (2014), todos
ocorridos em Minas Gerais, deram a Mariana (2015) o protagonismo de uma
tragédia anunciada. Mas, até então, o que conhecíamos nós sobre
barragens de contenção de rejeitos (altamente tóxicos) da atividade
minerária? Por que nos interessaria saber que várias dessas barragens
seguem funcionando normalmente apesar dos sérios riscos de
desestabilização estrutural que oferecem? E que MG, reproduzindo e
ampliando uma realidade que é nacional, possui apenas quatro fiscais
para monitorar suas 735 barragens destinadas a tais fins?
Tragédias com essa magnitude costumam
revelar segredos empresariais criminosamente omitidos das populações
direta e indiretamente atingidas por suas atividades. E o Estado,
articulado com o capital em todas suas esferas de ação (federal,
estadual, municipal), é o cúmplice ativo destes crimes de lesa
humanidade porque seus órgãos de fiscalização sofrem de uma deficiência
crônica e proposital e porque não são poucas as artimanhas que cria para
penalizar intervenções pequenas ao mesmo tempo em que facilita e
agiliza a emissão de “licenciosidades” ambientais para projetos de
vulto.
O rompimento do dia 5 de novembro último liberou 65 milhões de metros cúbicos de rejeitos2
que seguiram pelos 880 km dos cursos dos rios Gualaxo do Norte, do
Carmo e Doce, atingindo os estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo,
Bahia, envenenando praias, mar, manguezais, santuários ecológicos. Os
testas-de-ferro da Samarco, subsidiária do consórcio formado pela
australiana BHP-Billiton e pela Vale Internacional, empresa responsável
pelos eventos relatados, negam-se a assumir a responsabilidade pelo
episódio e pela presença de metais pesados no material liberado. Mas
análises preliminares constataram que o nível de toxicidade da lama,
contaminada por manganês, alumínio, zinco, arsênio – por toda a tabela
periódica – estaria um milhão e trezentos mil por cento acima do limite
tolerável. As imagens devastadoras a que assistimos desde a tragédia e
as incertezas que pairam sobre o futuro das áreas e pessoas expostas à
lama corrosiva não precisam de legendas, nem explicações.
O arremate da tragédia de Mariana se deu
com o cinismo em fornecer água com querosene para as famílias afetadas
em Governador Valadares. O desdém é mantido com a represália das duas
maiores mineradoras do mundo às sanções impostas pela justiça que
envolvem o bloqueio de bens e a paralisação das atividades naquela mina
de ferro. Alegam, por isso, não terem recursos para prestar qualquer
assistência à população afetada, para recuperar os danos socioambientais
causados e nem mesmo para pagar os salários dos seus próprios
funcionários, ameaçados de demissão a partir de 31 de janeiro de 2016.
Flagelos da mineração ocorrem em todo o
país a todo instante e envolvem um espectro muito maior de processos
predatórios. Estima-se que cerca de dois mil municípios brasileiros
desenvolvam atividades dessa natureza pelas quais recebem o CFEM –
Compensação Financeira pelos Recursos Minerais. Conforme o MAM –
Movimento dos Atingidos pela Mineração, estima-se ainda que o Brasil
possui oito mil minas de exploração mineral e que para cada uma delas
exista uma barragem de rejeitos mais ou menos letais. Em Parauapebas,
município do sudeste paraense que sedia a maior reserva de ferro a céu
aberto do mundo (o Projeto Carajás3),
apenas uma dessas instalações, se rompida, tem potencial para despejar
muita, mas muita lama tóxica no rio Parauapebas que é afluente do rio
Itacaiúnas que é afluente do rio Tocantins que é afluente do rio Pará
que, por sua vez, deságua no Oceano Atlântico.
Imensuráveis impactos sociais e
ambientais são e deverão ser sentidos com ainda maior intensidade. Por
exemplo, em toda cadeia produtiva do ferro, cobre e ouro, minérios cada
vez mais vitais à lógica da produção destrutiva4,
do consumismo industrial e individual irresponsável, da obsolescência
programada e do desperdício generalizado. Pois, para atender aos
interesses deste tipo de desenvolvimento do capital, crateras
gigantescas são abertas, florestas nativas desmatadas, rios assoreados e
o monocultivo de eucalipto põe o agronegócio no circuito para fornecer
carvão para os fornos das siderúrgicas. Um sem-número de hidrelétricas,
hidrovias, ferrovias e transposição de rios geram a energia demandada e
as vias de escoamento da produção. Atrás de tudo, fica um rastro de
destruição da fauna, da flora e da vida de comunidades inteiras de
indígenas, quilombolas e camponeses. Cidades experimentam forte explosão
demográfica sendo inexoravelmente afetadas por miséria, fome,
prostituição infanto-juvenil e pela péssima qualidade da água
proveniente de rios poluídos.
Tão grave quanto é constatar que nos
territórios controlados pela atividade minerária é recorrente a
incidência de trabalho escravo, de trabalho infantil e de doenças
laborais irreversíveis entre trabalhadores da própria empresa e,
principalmente, entre terceirizados, quarteirizados etc. Nestes locais
cresce a violência militar e paramilitar sobre as populações vulneráveis
que ousam insurgir-se contra as degradações impostas a elas pelo
capital e pelo Estado. Para se ter ideia, na mesma região sul e sudeste
do Pará, que testemunhou algumas das mais bárbaras chacinas políticas do
país, como a repressão à Guerrilha do Araguaia e o massacre de Eldorado
de Carajás5,
e que mantém uma sinistra tradição de extermínio de lutadores
populares, a CPT denuncia que, somente no ano de 2015, surgiram 125
focos de conflitos de terra com grande possibilidade desse número se
ampliar para 181. Onze trabalhadores foram assassinados e 29 outros
figuram nas listas dos ameaçados de morte. Os fatos exigem que o Estado
ative e execute o programa de proteção às pessoas que “vivem” nestas
condições.
A Vale, que ironicamente um dia foi do Rio Doce,
carro chefe do desenvolvimento e da (in)segurança nacional desde
Getúlio, deu saltos decisivos durante a ditadura, foi privatizada por
FHC a troco de tostões, transnacionalizada e estratosfericamente
valorizada no mercado de ações. Dos governos do PT recebeu enormes
incentivos fiscais e uma linha de crédito direta do BNDES – a Valepar –
para incrementar seus negócios, um dos quais é potenciar a vocação
brasileira de fornecer matéria prima para o primeiro mundo, lógica em
que exporta ferro para a produção de armamento do complexo industrial
militar dos EUA, China e Israel. O Movimento Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale
vem denunciando, desde 2010, o modo imperativo com que esta empresa
explora os recursos naturais e humanos no Brasil e outros 30 países nos
quais atua. Por onde passa, conduz com êxito a estratégia de subjugar e
controlar governos nacionais, independentemente dos indivíduos e dos
partidos que os ocupem.
Neste quadro, as multas que aqui e acolá
a Vale é obrigada a pagar são gorjetas perto de seus lucros
astronômicos. As ameaças de penalização mais severa sobre o setor fingem
uma soberania inexistente do público frente ao privado, de uma
autonomia ilusória da política em relação aos interesses econômicos. E,
ainda, os aconselhamentos para que se imponha uma maior regulamentação
sobre a atividade minerária caem na reserva moral dos crédulos ou
desatentos à forte movimentação no sentido da aprovação do Código da
Mineração que constituirá certamente enorme impulsionador à produção do
setor. A aplicação dos itens constantes da Agenda Brasil e da Lei
Antiterrorismo, adequações de nossa política interna às exigências do
TISA6,
do qual não somos signatários mas dependentes, irá garantir que o
capital da Vale e de tantas outras transnacionais se agigante, sem
qualquer limite humano, social, ambiental ou nacional no horizonte.
É assim que, para além de todas as
evidências ameaçadoras da mineração, importantes intelectuais das
esquerdas e líderes de expressivas organizações populares continuam a
defender a ideia de que se trata de uma atividade vital para o
desenvolvimento e a soberania do país.
Ora, que padrão de desenvolvimento é
esse que, apesar de pôr em risco a existência da humanidade, resiste no
romantismo desenvolvimentista nacional-provinciano?
Ir à raiz deste necessário
questionamento é ir na direção de uma ruptura absoluta com o sistema de
produção destrutiva que preside a atividade minerária com
características tão flagrantemente perigosas à vida. Por isso mesmo não
se pode crer que a solução para os negócios nefastos da Vale seja sua
reestatização, nem a renacionalização dos seus buracos, da sua lama e
seus estragos. Em benefício do nosso futuro, o desafio da luta
efetivamente popular deve ser pela sua absoluta erradicação e,
principalmente, pela erradicação do padrão societário que a torna tão
necessária.
–
1 Esse
texto foi escrito com a colaboração de Raimundo Gomes da Cruz Neto,
educador popular do CEPASP – Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria
Sindical e Popular, Marabá, PA e Célia Congilio, professora de Ciência
Política da UNIFESSPA, Marabá, PA.
2 [Nota da edição de Outras Palavras] Para efeito de comparação, vale lembrar que o volume de lama tóxica liberada equivale a 1/3 da água
hoje disponível (192 milhões de metros cúbicos em 1º/12/15) no
reservatório da Cantareira, que abastece todos os dias 5 milhões de
pessoas em São Paulo
3 “Na
implementação do projeto Carajás, a meta de exploração imposta pelos
militares foi de 10 milhões de toneladas métricas de minério-ano. Essa
produção passou nos anos 1990, principalmente após a privatização [da
Vale] para 109 milhões de toneladas anuais. Com a efetivação do projeto
S11D esse montante passará a 230 milhões de toneladas anualmente”. Elementos constitutivos do MAM. Iguana Editorial, 2015 (p.17)
4 A produção de ferro cresceu 37% nos últimos três anos em Mariana, MG.
5 Em
abril de 2016, o Massacre de Eldorado dos Carajás completa 20 anos sem
que aqueles dezenove assassinatos e outras tantas sequelas físicas e
psicológicas que marcaram definitivamente os sobreviventes tenham
encontrado a justiça exigida.
6 Ver a respeito https://wikileaks.org/tisa/ e http://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-grri/tisa-a-pior-ameaca-aos-servicos-ja-vista-5750.html
(fonte: http://outraspalavras.net/brasil/brasil-hora-de-repensar-a-mineracao/)
(fonte: http://outraspalavras.net/brasil/brasil-hora-de-repensar-a-mineracao/)
sábado, 5 de dezembro de 2015
ProUni: radiografia de uma inclusão segregadora
Por José Tadeu Arantes, na Agência Fapesp
O ensino superior privado lucrativo teve início, no Brasil, durante a ditadura militar e não parou de se intensificar desde então, adquirindo uma escala sem paralelo no planeta. Atua hoje, no país, o maior grupo educacional privado lucrativo do mundo, com cerca de 1 milhão de alunos.
“Transitamos de pequenas faculdades isoladas para grandes universidades até chegar aos fundos de investimento, com ações altamente cotadas na Bolsa de Valores. São instituições voltadas para obter lucro com a educação. Fato bem diferente do que ocorre nos países desenvolvidos, onde não houve estímulo estatal para a existência de empresários donos de universidades”, afirma o pesquisador Wilson Mesquita de Almeida, em seu livro Prouni e o ensino superior privado lucrativo em São Paulo: uma análise sociológica, publicado com apoio da FAPESP.
O livro é resultado da pesquisa de doutoramento de Almeida, orientada pela professora Heloisa Helena Teixeira de Souza Martins, do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo.
Segundo o pesquisador, o modelo de ensino superior que se tornou dominante na graduação brasileira é um modelo empresarial, originado na década de 1970, no regime militar, por meio de dois incentivos dados às universidades privadas: a não cobrança de impostos e o crédito educativo, criado em 1976, atual Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).
“Com esses incentivos dados pelo Estado, que continuam até hoje, o setor privado lucrativo conseguiu acumular poder financeiro e político para fazer prevalecer seus interesses nos governos democráticos que vieram depois. O ensino superior privado lucrativo é algo bastante peculiar ao Brasil das quatro últimas décadas”, disse Almeida à Agência FAPESP.
Entre o fim da década de 1990 e início dos anos 2000, as universidades lucrativas enfrentaram grave crise financeira. Em 2005, o setor acabou beneficiado com a criação do Programa Universidade para Todos (ProUni), que confere bolsas de estudo integrais ou parciais, em cursos de graduação e sequenciais nas universidades privadas, para estudantes egressos do ensino médio da rede pública ou da rede particular na condição de bolsistas, com renda familiar per capita máxima de três salários mínimos. Os candidatos são selecionados pelas notas obtidas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Em troca das bolsas de estudo, na proporção de um bolsista para cada nove alunos pagantes, as instituições com fins lucrativos ficaram livres de impostos, ajudando-as a sobreviver naquele contexto de crise econômica.
Pesquisa qualitativa
Almeida centrou seu estudo no acesso e permanência dos bolsistas do ProUni em São Paulo, procurando verificar os limites, avanços e desafios do programa “Fiz uma pesquisa qualitativa, na qual investiguei os casos de 50 alunos de várias universidades privadas lucrativas da cidade de São Paulo. As entrevistas e questionários foram estruturados segundo quatro grandes eixos temáticos: família, trabalho, acesso à universidade e vida universitária dos bolsistas”, informou Almeida.
Segundo o pesquisador, a principal limitação do programa é ele ter sido montado em um sistema no qual a maioria das universidades participantes possui baixa qualidade educacional, atestada nos exames nacionais de avaliação do ensino superior.
“Para conseguirem mais lucros, os empresários do ensino reduzem investimentos no mais importante: na qualidade do professor (demitem e investem pouco em profissionais mais qualificados, com doutorado, devido ao “custo”) e em uma seleção mínima do estudante, de forma a ter maior número de alunos pagantes”, diz Almeida.
E acrescenta: “Hoje o quadro está mais sombrio, dado que as maiores instituições estão na Bolsa de Valores. Assim, a lógica do curtíssimo prazo, de resultado trimestral, passa a ditar as regras. Essa lógica econômica não combina com qualidade de ensino, sobretudo quando está direcionada para estudantes dos segmentos mais destituídos socialmente.”
A partir dos cruzamentos feitos, os resultados da pesquisa apontam que há uma heterogeneidade entre os bolsistas. Estudantes de Licenciatura e Tecnólogos, os quais constituem a maioria dos bolsistas pesquisados, são filhos de pais migrantes, de origem rural, com baixa escolaridade e com trajetos profissionais precários, trabalharam e estudaram durante a fase pré-vestibular, estão situados na faixa etária entre 25 e 30 anos, residem em bairros mais periféricos da Grande São Paulo. Não tentaram entrar na universidade pública, não fizeram pesquisas prévias sobre as instituições onde estudam e elegeram como motivos principais para escolha do curso a proximidade da residência e a oportunidade em si de cursar o ensino superior, independente da carreira desejada.
“Tais estudantes são tipicamente de mais baixa renda e estão nos cursos com formatos mais curtos, nas universidades mais desprestigiadas da hierarquia acadêmica quando o comparamos com o outro grupo pesquisado, os bacharelandos”, diz Almeida.
Esses, segundo a pesquisa, frequentam cursos tradicionais das universidades privadas mais qualificadas, com formatos mais longos, mais prestigiados e são alunos de baixa classe média, tendo um perfil bem próximo aos alunos que frequentam universidades públicas, inclusive, alguns chegaram a ser aprovados em tais universidades.
Inclusão social
“Seria então preciso questionar: para quais bolsistas, de forma efetiva, foi propiciado acesso a um curso com boa qualidade de ensino?”, diz o pesquisador.
Segundo sua análise, apesar de não ter sido criado com o objetivo de ser uma política de acesso e permanência no ensino superior e, sim, mais como um programa para socorrer as universidades lucrativas em um momento de crise financeira pela qual passavam, há um importante componente de inclusão social no programa.
“Ele possibilitou, na última década, que uma faixa de estudantes de baixa renda, negro e oriundo da escola pública pudesse chegar ao ensino superior. Não obstante as limitações apontadas, abriu perspectivas para um aluno brasileiro que ainda é constrangido por imensas desigualdades cotidianas”, pontua Almeida.
O pesquisador também descreve em seu livro que há desafios estruturais e conjunturais colocados ao ProUni para que ele possa tornar-se, de fato e de direito, uma política estratégica de inclusão no ensino superior dos estudantes de baixa renda. “Para ser mais eficiente economicamente e socialmente, o ProUni precisaria ficar restrito somente às instituições sérias, com qualidade educacional, o que, em grande medida, são as instituições sem fins lucrativos. É assim no mundo desenvolvido, no qual o ensino superior é público ou, quando é privado, não se volta para o lucro.”
Além disso, deveria cuidar mais da permanência do bolsista, articulando uma série de ações para que ele faça um curso superior consistente. “O Estado brasileiro repassa uma fortuna para sustentar esse segmento econômico, tendo um retorno muito baixo: de cada R$ 100 que os maiores grupos faturam, R$ 40 vêm do governo por meio de isenções fiscais do ProUni e dos repasses do Fies. É muito dinheiro, bilhões anualmente, com retorno educacional de qualidade extremamente duvidosa, o que impacta o sistema público e o mercado de trabalho brasileiros, pois o professor da educação básica pública e parte substantiva da força de trabalho são formados nesse setor privado lucrativo”, conclui Almeida.
—
ProUni e o ensino superior privado lucrativo em São Paulo
De Wilson Mesquita de Almeida
Musa Editora Ltda, 2014
304 páginas | R$ 60
(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=239386)
Nos subterrâneos da Indústria Farmacêutica
Viagem ao mundo do medicamento-mercadoria. A pesquisa submissa ao marketing. O trabalho infenal, nos laboratórios. A “eficácia" das drogas atestada em estudos fraudados
Por Quentin Ravelli, no Le Monde Diplomatique | Tradução: Inês Castilho
“Percebi que estava grampeado, que sabiam exatamente o que eu receitava”, indigna-se um médico instalado em Paris. “Fui ingênuo, não fazia ideia. [Um dia], uma representante comercial me disse: “Você não prescreve muito!” Eu me perguntei: “Como ela pode saber disso?” Essa prática de vigilância, que choca muitos profissionais, é articulada pelos serviços comerciais dos laboratórios. Para aumentar ou manter sua fatia do mercado, os grandes grupos farmacêuticos implementam artifícios de engenhosidade mirabolante. Não hesitam, por exemplo, em alterar as indicações de seus medicamentos para conquistar novos clientes.
Considerado por certos médicos como “o Rolls Royce dos antibióticos dermatológicos”, a Pyostacyne (no Brasil, Pristinamicina), fabricado pela Sanofi – um dos primeiros grupos farmacêuticos do mundo em volume de negócios (33 bilhões de euros em 2013) – conheceu tal destino. Durante muito tempo de uso dermatológico, o antibiótico viveu uma “virada respiratória”: é agora utilizado maciçamente em casos de infecção broncopulmonar e de ouvido, nariz e garganta. Este último uso, criticado por numerosos médicos e depois denunciado pelo poder público, podia conduzir a um superconsumo de antibióticos, sendo assim parte do problema mais amplo do fortalecimento das resistências bacterianas – um grande desafio de saúde pública, responsável por setecentas mil mortes por ano em todo o mundo (ver “O outro pesadelo de Darwin“).
Para compreender a natureza versátil da mercadoria da indústria farmacêutica, acompanhamos a vida desse medicamento ordinário, desde os laboratórios de pesquisa até os visitantes comerciais, passando pela fábrica de produção do princípio ativo1. A cada etapa, a mercadoria muda de nome: os biólogos falam da bactéria Pristinae Spiralis; os químicos, da pristinamicina fabricada pela bactéria; os representantes alardeiam os méritos da “Pyol” aos médicos; os trabalhadores denominam-na afetuosamente “a Pristina”. Ao longo dessa cadeia, o antagonismo entre as necessidades do doente e os lucros do industrial, entre o valor de uso e o valor de troca2 nunca param de se manifestar.
Ele expõe a oposição entre assalariados e executivos, particularmente sensível em uma empresa em plena reestruturação, onde os trabalhadores estão lutando para conter os cortes de emprego e impor suas próprias concepções do papel do medicamento.
Vender
“Seu trabalho é manter o seu desempenho”
Esse aumento não corresponde a uma explosão do número de doenças ou a uma epidemia devastadora, mas a uma estratégia comercial: o mercado de infecções respiratórias envolve um volume de prescrições muito mais importante que o de infecções dermatológicas. “Acontece que, contra os germes que infectam os brônquios, pulmões, seios da face, o medicamento vai muito bem”, diz um médico da empresa. “Por isso, em seguida ele foi desenvolvido com essa indicação.” Da pele ao pulmão, o valor de troca metamorfoseou o valor de uso.
Os ourives desse gênero de giro terapêutico são os “gerentes de produto”, funcionários especializados na promoção de um só medicamento ou de alguns medicamentos com indicações aproximadas. Aqui, se é “gerente de produto Pristinamicina”, “gerente de produto Tavanic”, “gerente de produtos analgésicos” e até mesmo “gerente de produtos psicóticos”. Célia Davos3, gerente de produto Pristinamicina, que se diz “muito voltada aos negócios”, descreve o conteúdo do seu ofício: “Seu trabalho é monitorar o desempenho do medicamento, é seguir seu produto para ver aonde ele vai, de acordo com os concorrentes, de acordo com o mercado, de acordo com a patologia, e fazer todos os esforços para maximizar o volume de negócios.” Esse posto, situado no coração do serviço de marketing, ele próprio no centro da sede social, funciona como uma mesa giratória onde os funcionários chegam de várias áreas e podem em seguida ser realocados para outros horizontes, como gerentes, responsáveis pelas áreas de marketing, comunicações, relações públicas, vendas.
O papel do gerente de produto consiste em destacar a utilidade de um medicamento na preparação do material dos propagandistas de laboratório, esses comerciantes que se deslocam pelos consultórios para convencer os médicos a prescrever seus produtos. No arsenal da Pristinomicina, encontram-se a ajuda de visita, espécie de guia a partir do qual o visitante constrói seu discurso segundo os argumentos elaborados pelo marketing; os elementos-chave, de informação médica, que sintetizam os pontos mais importantes; os número de uma revista científica como Infectologia, cujo patrono é a Sociedade de Patologia Infecciosa de Língua Francesa (Spilf) e que apresentam apenas os últimos resultados de ensaios clínicos bem sucedidos relativos à Pristinomicina. Mas também uma multidão de gadgets paramédicos – pequenas lâmpadas plásticas com uma espátula para pensar sobre o Pristinomicina, ao olhar o fundo da garganta do paciente; caixas de tecido para decorar o escritório do doutor; canetas Pristinomicina; pen-drive Pristinomicina. Esses textos e objetos, que se repetem por todo lugar no consultório do profissional, serão encontrados no porta-malas dos propagandistas.
Nem todos os médicos interessam aos laboratórios todos na mesma medida. Aqueles que têm um importante “potencial de prescrição” tornam-se objeto de atenção particular. Para identificá-los, os laboratórios utilizam os serviços do Grupo de Elaboração e Realização de Estatísticas (GERS), que dispõe das cifras das vendas aos distribuidores e das vendas diretas em farmácias; ou do Centro de gestão, de documentação de informática e de marketing (Cegedim), que fornece dados do software das prescrições dos médicos. A essas fontes oficiais, somam-se as redes de inteligência informais, como as enquetes dos visitantes médicos com farmacêuticos e seus colegas. Para os serviços de marketing, toda informação relativa às práticas dos médicos interessa, pois permite estabelecer uma “segmentação de clientes” em potencial. Assim, há os ”baixos ATB, baixos Pristinomacina” (os que prescrevem pouco antibiótico em geral, ou pouca Pristinomacina) e os “baixos ATB, altos Pristinomacina” (que já prescrevem abundantemente o produto promovido). Estes, serão menos visados que os “altos ATB, pequenos Pristinomacina” — pois podem substituir uma parte importante de suas receitas de outros antibióticos em receitas de Pristinomacina.
Evidentemente, essas estratégias não se traduzem mecanicamente em vendas. É necessário que elas sejam postas em prática pelos visitantes médicos. Na França, em 2014 havia dezesseis mil empregados de empresas farmacêuticas, que passavam o tempo todo em reuniões com os médicos. À taxa de duzentos e treze dias de trabalho por ano e seis visitas por dia, são mais de vinte milhões de conversas que travadas, anualmente com os médicos. Essas entrevistas são minuciosamente preparadas. Para aumentar a eficácia, os serviços de marketing redigem por exemplo brochuras apresentando diversos “tipos de perfil” de médicos: a “mulher médica sindicalista”, o “médico amigo”, o “médico cientista”, o “médico estressado”… Essas brochuras são utilizadas no decorrer de seminários de formação para ajudar os visitantes médicos a colocar em prática a “rota de fidelização”, com vistas a conhecer melhor suas metas. Aprendemos , nesses “workshops de produto”, que o médico da família – 55 anos, grande clientela, presidente de um programa de educação médica continuada – é mais “sensível à abordagem humanística do paciente” do que o médico cientista “instalado no campo”, de “contacto muito frio”, ao contrário do namorado companheiro, “alegre, mas um pouco mole.” Uma vez formados neste jogo, os representantes comerciais devem sair a campo para melhorar a “elasticidade” de médicos. Quanto mais um médico é considerado “elástico”, mais receptivo ele é ao discurso indústria farmacêutica.
Ou então, os médicos se tornam cada vez mais críticos, a ponto de fechar suas portas para os visitantes médicos, cujo número caiu depois de dez anos. Esta resistência crescente empurra a empresa a encontrar outras formas de lobbying, mais científicas e menos perceptíveis, particularmente ao dirigir-se a formadores de opinião (chamados KOL, key opinion leaders/líderes-chave de opinião) – ouvidos e respeitados por milhares de prescritores. Assim, a Sanofi procura influenciar docentes de universidades, por vezes percebidos como responsáveis pelo espírito crítico de jovens médicos.
Quando fui estagiário na Sanofi, tive por exemplo de construir “argumentos para decanos”, buscando convencer os mais reticentes em acolher a empresa em suas classes. Os maus resultados de algumas faculdades foram usados – especialmente em Paris-V, onde houve uma queda dramática na proporção de alunos classificados no primeiro trimestre da competição nacional. Esse resultado era explicado, de acordo com a Sanofi, pela personalidade do decano, considerado um dos mais indóceis, por não permitir a livre circulação de panfletos, cartazes e outros produtos de publicidade disfarçada.
Toda essa máquina de influência não funciona sem choque ou oposição. Há, em todos os níveis, dúvidas, dissonâncias, contradições. Certos representantes, particularmente conscientes dos problemas de resistência bacteriana, procuravam, por exemplo, falar com os médicos sobre todos os antibióticos disponíveis e não apenas daqueles que geram mais dinheiro. Eles esforçam-se por tecer laços não comerciais com os profissionais, não hesitam a partilhar suas dúvidas e suas críticas. Mas são frequentemente confrontadas com mudanças arbitrárias, transferências de zona, a chamadas da direção, que são difíceis de contrariar quando pairam ameaças de demissão.
Produzir
“Há dois anos que perdi o sono”
Na oficina de fermentação, o barulho atinge, como hélices de avião em marcha lenta, as longas lâminas de dezenas de fermentadores de duzentos e vinte metros cúbicos, movimentadas continuamente. É aqui que nasce a molécula pristinamicina, que se encontrará nas milhões de caixas acondicionadas na Espanha, depois vendidas em farmácias. Segundo os trabalhadores, o trabalho em si mesmo é interessante e frequentemente imprevisível, pois envolve organismos vivos. Mas as condições são particularmente duras. Os operários trabalham em regime 5 × 8. Significa que são divididos em cinco equipes, que trabalham dois dias das 5h às 12h, em seguida, dois dias das 12h às 20h, e finalmente dois dias das 20h às 5h.
Oficialmente, em seguida eles se beneficiam de quatro dias de descanso. Mas, onze vezes no ano, um desses quatro dias é suprimido, segundo o sistema de “remontagem” sem o qual o tempo de trabalho seria inferior a trinta e cinco horas semanais, a jornada legal na França. Frequentemente, portanto, Não restam mais que três dias de repouso, fortemente encurtados pela noite do último ciclo ou pela manhã do próximo. Quem segue esse ritmo não dorme, jamais, três vezes seguidas no mesmo horário. “O cérebro não é mais capaz de retomar os ritmos de vigília e sono”, diz o Sr. Etienne Warheit, que está no 34º ano de 5 × 8. “Dois anos atrás, perdi o sono e não conseguia mais fazer seis horas por noite. Ficava cansado às 22 horas, mas estava acordado à meia-noite e não havia maneira para dormir antes de 2:00. E vice-versa… chegava ao trabalho, estava cansado, e por isso tomava café. Você torna-se incapaz de fazer o trabalho. Precisa repeti-lo novamente três vezes, porque tem medo de esquecer as coisas, ter cometido um erro, você perde a confiança em si mesmo.”
Quando os trabalhadores acham esse ritmo muito desgastante e querem mudar de horário o gestor se recusa, principalmente porque não tem outros postos para lhes oferecer. O objetivo é primeiro rentabilizar as máquinas, que funcionam permanentemente. Para justificar esse ritmo infernal, a direção esconde-se atrás de uma espécie de determinismo tecnológico: os ritmos da fermentação bioquímica e extração de bactérias tornariam inevitável o sistema 5 × 8. “É óbvio que, numa fábrica como esta, a partir do momento em que a produção é contínua e só pode ser contínua, não é possível fazer de outra forma”, diz o médico da fábrica. Esta explicação científica desestimula a pesquisa de organização coletiva do trabalho. É parte de um discurso mais geral, que pode ser chamado de “biotecnologia”: a fábrica, voltada para produtos do futuro, seria mais semelhante a um laboratório, onde o protesto trabalhista não teria mais razão de ser.
Há, portanto, um abismo entre as práticas concretas do grupo industrial e seu discurso – “O essencial é a saúde”, proclama o slogan inscrito na entrada da fábrica. Mas os protestos, que dão a um dos responsáveis da área de recursos humanos a impressão de “um barril de pólvora”, e que inclusive provocam medo no gerente de “descer” nas oficinas, são integrados à estratégia de negócios da empresa. Ao oferecer a vários trabalhadores a possibilidade de se tornarem técnicos, usando o discurso da biotecnologia como forma de mascarar a realidade da fábrica, a empresa tem conseguido transformar a reivindicação coletiva de unificar todas as forças sindicais em promoção de desejos profissionais individuais. Essa recuperação repousa, notadamente, sob o medo: durante vários anos, do final dos anos 1990 até 2005, a direção do grupo fez pairar a ameaça de venda da fábrica. Esse cenário, que jamais se concretizou, permitiu sobretudo que os trabalhadores aceitassem uma reestruturação e o corte de 15 dos 77 postos de trabalho no sistema 5 x 8. De ameaçada, a fábrica foi promovida a “unidade piloto” do grupo Sanofi.
Tal virada – que não mudou as condições de trabalho nem os salários – reflete a forte utilidade industrial das bactérias. O “bom da biotecnologia” marca uma orientação geral do capitalismo industrial deste início do século XXI, que desenvolve biotecnologias ditas verdes (agricultura), brancas (indústria), amarelas (tratamento de poluição), azuis (a partir de organismos marinhos) ou vermelhas (medicina). Por causa de todas essas aplicações, os mercados desenvolvem-se, e frequentemente as taxas de lucro são excepcionais, o que explica a razão pela qual a indústria farmacêutica tem comprado, no últimos anos, as empresas de biotecnologia. Em abril de 2011, a Sanofi comprou por 20 bilhões de dólares a Genzyme, uma empresa norte-americana especializada em produtos biofarmacêuticos para esclerose múltipla e doenças cardiovasculares. Esta atração pode ser explicada pelo fato de que as novas moléculas utilizadas no tratamento de muitas doenças não vêm da química de síntese clássica, mas do uso de materiais vivos, muitas vezes geneticamente modificados, que permitem fazer importante economia na produção.
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“O conflito de interesses é permanente”
Nas Jornadas
Nacionais de Infectologia da França, dois “espaços” se defrontam. De um
lado, o “espaço das marcas”, onde os comerciantes falam da
Pristinamicina: 56 estandes de laboratórios farmacêuticos, dispostos em
sete fileiras, segundo uma lógica de blocos desalinhados que impõe um
deslocamento em zigue-zague aos 1,5 mil médicos inscritos. Do outro, o
“espaço das moléculas”: dois auditórios, batizados de Einstein e
Pasteur, onde acontecem simpósios científicos. Assim, paralelamente a um
desinvestimento na pesquisa privada – a Sanofi fechou, em 2004, seu
centro de pesquisa anti-infecciosa de Romainville –, os laboratórios
exercem certo controle sobre a pesquisa pública: eles financiam os
congressos médicos e influenciam, em contrapartida, a organização
científica, material e espacial deles.Para chegar ao espaço científico das Jornadas de Infectologia, que se encontra do lado oposto da entrada do congresso, os médicos devem passar, no mínimo, diante de treze estandes, cujo aspecto reflete o peso e a influência do expositor. Aos deliciosos petits fours da transnacional Boehringer-Ingelheim, degustados em meio a assentos com design e sob a luz azul de grandes lâmpadas halógenas verticais, responde o suco de maçã, servido sobre uma grande mesa de fórmica coberta de objetos em desordem, oferecido pelo StudioSanté, uma rede francesa de coordenação de cuidados médicos especializada na perfusão em domicílio…
Apesar da aparente separação dos espaços, as ligações entre o universo comercial e o mundo científico são sólidas. Durante o congresso, o principal objetivo das empresas é mostrar a superioridade científica de seus produtos. Os simpósios exibem, portanto, o nome de seus patrocinadores – “Simpósio Bayer”, “Simpósio GSK”, “Simpósio Sanofi” – nos quais se enfrentam os KOLs de cada laboratório. Para assegurar os serviços de médicos influentes, os lobistas dos grandes grupos conduzem um trabalho de fôlego que passa principalmente pela organização de viagens com vocação pseudocientífica. Uma “médica de produto” da Sanofi conta como constituiu o grupo de especialistas de um medicamento apoiando-se sobre os médicos cuidadores que influenciavam os outros “receitadores”. “Eu disse: tenho dez lugares, só quero aqueles que ganham 1 milhão de euros ou mais [em volume de negócios]. No primeiro ano, eu os levei para Cingapura. No segundo, aconteceu de serem no geral os mesmos. Aonde fomos? A Durban [África do Sul]! Um ano depois, estávamos em Cancún [México] e, no seguinte, na Birmânia. É desnecessário dizer – isso não se diz porque não se tem o direito –, mas é assim que você cria parceiros de verdade.”
Reencontramos, na organização dos testes clínicos, uma imbricação similar do valor de troca e do valor de uso. Um dos KOLs da Pristinamicina, o doutor Jean-Jacques Sernine, responsável por alguns testes clínicos, é um dos infectologistas mais renomados da França. Sua carreira foi construída em torno de duas práticas profissionais: a coordenação de testes clínicos para a indústria farmacêutica (sobretudo para Pristinamicina, na Sanofi) e a expertise junto às agências públicas do medicamento. Ainda que não avaliasse os mesmos medicamentos nos dois casos – ou haveria um flagrante conflito de interesses –, ele fazia parte de um pequeno grupo de especialistas que, tomados coletivamente, passava de uma margem para a outra, da indústria farmacêutica à medicina pública. “O conflito de interesses é permanente. O principal deles, quando se está lá dentro, é se interessar pelos antibióticos!”, justifica. “As coisas só são possíveis se há uma troca entre os avaliadores que somos no nível administrativo e a indústria farmacêutica.” Juiz e, em parte, condenado ao conflito de interesses, o grupo social dos especialistas fica dessa forma prisioneiro de sua própria competência.
Tal situação repercute na Agencia Nacional de Segurança do Medicamento e dos Produtos de Saúde francesa (ANSM), cujo trabalho baseia-se inteiramente na expertise. Situada na periferia norte de Paris, ela fica em um imponente prédio com vidros que não têm a graça e a leveza da sede comercial da Sanofi: quando chegamos ali, a porta giratória, temporariamente travada pelas intempéries, estava cercada por uma fita de construção vermelha e branca. Foi por uma porta clássica que tivemos de passar, para chegar a uma sala de espera à qual várias plantas de plástico, com folhas cheias de poeira, davam um ar de gabinete de taxidermista.
Essa desigualdade estética reflete uma profunda ausência de simetria social e econômica, que torna difícil acreditar que a ANSM exerça um contrapoder eficaz. Com efeito, ela muitas vezes não tem o tempo nem os meios de ler e analisar o conjunto dos dossiês de pedidos de autorização de colocação no mercado (AMM) que as empresas fazem chegar a ela. Sernine ironiza sobre um pedido de AMM para o qual ele contribuiu: “Eram 57 volumes de seiscentas ou setecentas páginas cada um, que pesavam 110 quilos e atingiam 2 metros de altura. E era apenas uma parte do dossiê”. Essa situação está longe de ser nova. A crônica jurídica de Bertrand Poirot-Delpech no Le Monde, durante o escândalo sanitário do Stalinon em 1957, já a mencionava como um problema fundamental: “Mestre Floriot, por exemplo, dedicou-se a um cálculo indiscreto. Sabendo que 2.276 vistos tinham sido concedidos em 1953 e que os comissários reuniram-se oito vezes por ano à razão de algumas horas a cada vez, ele chegou ao tempo recorde de 40 segundos por exame de dossiê”4
Hoje, os testes clínicos sobre os antibióticos desenvolvem-se em condições opacas, sobre um fundo de divisão seletivo e mesmo com manipulações de dados. Um teste sobre a utilização da Pristinamicina nos casos de pneumonia ilustra o problema: havia, segundo Sernine, sete fracassos do tratamento para o grupo de pacientes tratados com a droga e somente quatro no grupo de controle. Segundo o especialista, que partilha a opinião da diretora médica do laboratório, teriam sido incluídos doentes em situações a tal ponto severas que requereriam outro tratamento diferente. “Portanto, a conclusão a que cheguei sobre isso é que se trata do fracasso não do antibiótico, e sim da estratégia”. Um argumento surpreendente do ponto de vista lógico: como julgar a eficácia de um medicamento se os pacientes que ele não cura não são imediatamente desqualificados, se se parte do princípio de que ele só é eficaz quando é eficaz?
É difícil para a ANSM desviar-se desse tipo de raciocínio circular no seio de dossiês estatísticos complexos, que hoje substituíram a argumentação baseada no olhar médico que percorre os casos clínicos individuais. Com frequência, essa manipulação dos números conduz a falsificações. Em 2007, o caso do Ketek suscitou várias mortes de pacientes por causa de problemas hepáticos e levou um dos responsáveis pelos testes a purgar uma pena de prisão de dois anos nos Estados Unidos, por ter “inventado” pacientes para inflar artificialmente a eficácia do medicamento. Longe de ignorar o problema, certos dirigentes científicos lembram, vários anos após o escândalo, que para esse medicamento “havia cadáveres nos armários”.
Essa expressão, utilizada por uma das diretoras médicas do grupo, testemunha certo cinismo no interior da empresa, cujos altos executivos interiorizaram profundamente os códigos. Para eles, os interesses do grupo vêm antes da saúde dos pacientes, sempre que surge, entre estes dois sistemas de valores, um conflito. De maneira geral, nos escritórios do serviço médico e nos do marketing reina uma forma de amnésia seletiva do medicamento. A história dos efeitos colaterais imprevistos, dos testes clínicos deturpados e dos escândalos sanitários não é memorizada, e o fracasso clínico não tem o mesmo status do sucesso.
Toca-se aqui num dos problemas de fundo da indústria farmacêutica: o fato de os testes clínicos, ou seja, a prova da eficácia dos medicamentos, serem estabelecidos por aqueles que produzem esses mesmos medicamentos. Alguns chamaram esse fenômeno de dependência de “captura regulamentar” do Estado pelas empresas. Essa engrenagem ressurge a cada novo escândalo: Stalinon (1957), talidomida (1962), Distilbène (1977), Prozac (1994), cerivastatina (2001), Vioxx (2004)… A cada onda daquilo que os tribunais chamam de “homicídios involuntários”, a questão da independência dos testes clínicos volta à tona, mas nunca as reformas que se seguem questionam o regime de propriedade comercial do medicamento.
O problema está profundamente enraizado no sistema econômico, que não é mais moral para o medicamento que para o petróleo ou os cosméticos. Não somente porque são os mesmos acionistas que se encontram nos comandos – a L’Oréal continua sendo a principal acionista da Sanofi, desde a recente saída da Total –, mas também porque a possibilidade de lucrar com os medicamentos aguça os velhos antagonismos entre o valor de uso e o valor de troca.
1
Conduzida no âmbito de um doutorado em Sociologia, esta pesquisa durou
quatro anos, durante os quais o autor foi contratado para vários cargos,
por exemplo, o de estagiário nos serviços comerciais da Sanofi,
operário nas fábricas do grupo etc.
2A
economia clássica distingue o valor de uso e o valor de troca de uma
mercadoria. Adam Smith distingue, por exemplo, o diamante, com alto
valor de troca e fraco valor de uso, da água, com fraco valor de troca e
alto valor de uso.
3Os nomes dos funcionários foram modificados para preservar seu anonimato.
4 Bertrand Poirot-Delpech, Le Monde, 1o nov. 1957.
(fonte: http://outraspalavras.net/capa/nos-subterraneos-da-industria-farmaceutica/)
(fonte: http://outraspalavras.net/capa/nos-subterraneos-da-industria-farmaceutica/)
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
A semana no Café História
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
A execução de adolescentes no Rio e o vídeo do Unicef que ninguém viu
O que separa o assassinato de cinco jovens por policiais, no Rio, e o depoimento de mães de adolescentes mortos? Como a opinião pública percebe esses dramas?
Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
(Não consegui trazer o vídeo para o blog. Peço que entrem no link lá do final do artigo e vejam. É muito importante divulgá-lo. Peço, inclusive, a algum leitor mais afeito com a tecnologia, que tente colocar o vídeo no Facebook, no Twiter e em outras redes sociais.)
Durante 95 segundos, três mães – três mães negras – falam sobre seus filhos. Sorrindo. “Eu nunca vi uma pessoa igual a ele”, diz a mãe de Hítalo Gabriel, de 12 anos. “Todos os dias ele falava pra mim: ‘Você é a melhor mãe do mundo, te amo'”. A mãe de Cristian, de 13 anos, lembra que ele praticava vários esportes, era brincalhão, difícil vê-lo de cara feia. Queria estudar e ser bombeiro, como o tio. “Ele trabalhava, com 17 anos já tinha emprego registrado”, conta a mãe de Christian. “Era um menino cheio de sonhos. Era o primeiro em matemática. Era o primeiro na minha vida”.
Os depoimentos fazem parte de uma campanha que o Unicef – o Fundo das Nações Unidas para a Infância – lançou no dia 20, o Dia da Consciência Negra. Nos 40 segundos finais do vídeo, as mães baixam a cabeça. Fecham os olhos. Choram. Enquanto isso lemos que, todos os dias, 28 crianças e adolescentes morrem assassinados no Brasil. E que a maioria são meninos negros, pobres e moradores da periferia. A mãe de Christian completa: “Ele já tinha namorada. Já tinha emprego. E eu só tinha ele”.
Em dez dias, o vídeo teve apenas 1.000 visualizações no YouTube. E por que tão pouca gente viu? Porque a imprensa não divulgou.
NO RIO, A HISTÓRIA CONTINUA
Alguns internautas, porém (inclusive uma publicação de esquerda), não se acanharam em divulgar a imagem dos cadáveres dos cinco jovens abaixo: Carlos Eduardo da Silva de Souza, 16 anos; Roberto de Souza Penha, 16 anos; Cleiton Corrêa de Souza, de 18 anos; Wilton Esteves Domingos Júnior, de 20 anos; e Wesley Castro Rodrigues, de 25 anos. Não dessa foto com eles sorridentes, mas dos corpos.
Todos eram negros. Estavam em um carro, na Estrada João Paulo, zona norte do Rio, e foram fuzilados pela polícia. Na noite do sábado (28), com 50 tiros. Douglas Belchior, na CartaCapital, informa que o crime foi cometido na comunidade da Lagartixa, no Complexo da Pedreira, bairro de Costa Barros. Parentes contaram ao jornal Extra que eles tinham ido comemorar o primeiro salário de Roberto como jovem aprendiz no Atacadão da avenida Brasil. No domingo, iriam à praia.
O site GuadalupeNews relatou que quatro policiais usaram luvas para pegar a chave do veículo e tentar abrir o porta-malas. Não conseguiram. Aí tentaram forjar a cena do crime de forma canhestra: colocaram uma arma de brinquedo sob o pneu esquerdo dianteiro. Não colou. Foram presos. Mesmo numa cidade e num país acostumado aos chamados “autos de resistência”, quando policiais executam e colocam a culpa nas vítimas, a cara-de-pau não passou batida.
GENOCÍDIO DE JOVENS NEGROS
O articulista da CartaCapital – militante do movimento negro e membro do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, o Conanda – observa que o grupo de jovens estava em um carro com documentação em dia, motorista habilitado e desarmados. E pergunta, antes de cobrar o secretário de Segurança Pública e o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB): “O que havia ali que pudesse justificar a ação dos policiais? Serem todos negros?”
A campanha do Unicef com as mães de crianças e adolescentes assassinados informa que, no caso dos adolescentes, o Brasil só fica atrás da Nigéria. Até 2019, mais 42 mil podem ser mortos – mantido o ritmo atual. “As crianças e adolescentes assassinados têm cor, classe social e endereço”, enfatiza o órgão da ONU. “São em sua maioria meninos negros, pobres, que vivem nas periferias e áreas metropolitanas das grandes cidades”.
A taxa de homicídio entre adolescentes negros é quase 4 vezes maior do que aquela entre os brancos. E suas mortes são justificadas, “de forma equivocada”, pelos conflitos entre facções ou pelo tráfico de drogas. O Unicef informa que entre 92% e 95% dos homicídios cometidos no Brasil – de todos os homicídios – não são solucionados. E que parte dessa estatística se deve aos tais “autos de resistência”. (E não somente no Rio, a cidade onde a polícia mais mata no país.)
NADA MAIS TEM IMPORTÂNCIA?
Se a notícia sobre os cinco executados no Rio correu as redes sociais, assim como ocorreu com outros assassinatos de crianças e adolescentes na cidade, em 2015, por que o vídeo do Unicef não teve repercussão? Haveria algum problema no formato? Alguma preferência pela exclamação efêmera (quando não, mórbida) em detrimento de uma reflexão séria, consistente e perene? Para o diretor do vídeo do Unicef, o publicitário Alex Ribondi, estamos anestesiados.
Ele conta que as histórias das mães emocionaram as nove pessoas que estavam no set de filmagem. Ele acredita que, diante do momento político, da quantidade de notícias e escândalos, o filme tenha perdido espaço “nesse universo de confusões transmitidos e propagados todos os dias”. “Infelizmente estamos vivendo um momento em que nada tem tanta importância mais”, reflete. “E se tiver alguma, não dura muito”.
Ele já tinha feito outros trabalhos que tocavam nesse tema. Alguns
extremamente fortes e pesados. “Não há como ficar indiferente a essa
realidade”, considera. “São histórias tristes, dolorosas e terrivelmente
verdadeiras. Cada uma delas aumenta a percepção do quanto perdemos
tempo com problemas irrelevantes e o quão anestesiada está a maior parte
das pessoas. Acho que ainda vamos demorar muito até conseguirmos mudar a
situação de verdade. Infelizmente”.
CRÍTICA: O PAPEL DA MÍDIA
A campanha do Unicef não saiu na Globo e não ganhará menção do Criança Esperança. O Unicef já foi o parceiro da rede platinada no Criança Esperança, entre 1986 e 2003; desde 2004 é a Unesco. Mas não dá nem para comparar o alcance de sua campanha contra o genocídio infantojuvenil ao alcance do que a emissora abençoa. E isso diz muito sobre o país. A campanha lançada pelo Unicef no Dia da Consciência Negra vai direto ao ponto central: a matança de crianças e adolescentes existe e, se nada for feito, terá mais 42 mil mortos em cinco anos. Em outro planeta, a Globo perpetua a mensagem de “esperança”, despolitizada, como se fosse mais um quadro populista do Luciano Huck, jogando a responsabilidade pela política pública específica (aquela relativa a crianças e adolescentes) ao telespectador na sala de jantar, subitamente generoso, a investir em projetos isolados. E o Brasil faz de conta que purga suas responsabilidades.
Enquanto isso, a campanha do Unicef – politizada – atinge uma ou outra testemunha espalhada pelo país. A imprensa – toda ela – ignora. Mas depois noticia (como se fosse uma mercadoria perecível) mais uma execução de adolescentes negros no Rio. E mais uma. Mais uma. Outra. E outra. Mesmo na Globo. Não importa. Linearmente. Sem coesão, sem que o silêncio e a dor de cada pai sejam tomados como a ferida exposta de todo um país. Sem uma postura efetiva de quem queira tomar o assunto como prioridade absoluta. Em meio a uma ética de conveniência e ao progressivo abandono da estética. Numa palavra: a cobertura não é digna. A narrativa não é digna. A pulverização das notícias é indigna. Cada jornalista e cada internauta (mesmo aquele que não profanaria um cadáver) é também responsável por essa dor e por esse embotamento.
(fonte: http://outraspalavras.net/alceucastilho/2015/12/01/a-execucao-de-adolescentes-no-rio-e-o-video-do-unicef-que-ninguem-viu/ )
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Mulheres em fuga: migrantes centro-americanas escapam da violência em seus países
Adital
Sem segurança em casa, as mulheres fogem para protegerem a si mesmas e seus filhos dos assassinatos, extorsão e estupros. Mas, nessas migrações forçadas, os mais vulneráveis também são as crianças e as mulheres. Estatísticas do governo dos Estados Unidos (EUA) mostram que mais de 66 mil famílias, em geral mães e crianças, chegaram aos Estados Unidos, em 2014.
A pesquisa da Acnur entrevistou 160 mulheres, que chegaram aos Estados Unidos desde outubro de 2013. Elas relatam como grupos criminosos aterrorizam a população de seus países, para controlarem grandes áreas. 64% das entrevistadas disseram terem recebido ameaças diretas e ataques de gangues, sendo este o motivo principal de fuga do próprio país.
Anya, de Honduras, relata: "eu vi o [cartel de drogas] matar alguém na rua, quando eu estava saindo da escola. Eles me viram fugindo. As ameaças começaram nesse dia. Eles me disseram que, se eu dissesse qualquer coisa ou me mudasse, eles me encontrariam e me matariam. O [criminoso] me estuprou duas vezes, me raptou quatro vezes, bateu no meu parceiro, e me maltratou de muitas outras formas. Eles disseram que iam me matar. Eles também disseram que, se eu não saísse, eles achariam minha família e a matariam também. Então, eu decidi ir”.
Além da violência imposta pelos grupos criminosos, existem os abusos físicos, sexuais e, muitas vezes, abusos psicológicos, realizado pelos próprios parceiros das mulheres. O relatório informa que 58% das entrevistadas deram testemunhos de agressão e abuso sexual. Quase todas as mulheres que sobreviveram de abuso doméstico lembraram que são chamadas de "vagabundas” ou "prostitutas” por seu parceiro.
Também há casos de violência e abuso policial. Uma transgênero de El Salvador relatou ao informe da Acnur: "eu fiz uma queixa criminal contra os policiais que me estupraram e me bateram, e eu tenho medo que eles vão me matar... Eles matam mulheres trans frequentemente . Eu tinha muitos amigas que foram assassinados”.
Separar-se dos filhos é outra situação de violência que enfrentam as "mulheres em fuga”. Mais de 60% das entrevistadas relataram que tiveram que deixar para trás uma ou mais crianças. Carolina, de Honduras, foi forçada a partir sem os filhos, que ficaram com o marido abusador. Em contato telefônico com a filha de 13 anos, Carolina revelou que o marido, agora, estava abusando da garota. "Ela [minha filha] está pagando pelo que aconteceu comigo”.
Cuba
Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores de Cuba denuncia que existe uma situação complexa de migração, envolvendo mais de 1 mil cidadãos cubanos que chegam a Costa Rica com a intenção de viajarem para os Estados Unidos. E acabam se tornando vítimas de traficantes e de grupos criminosos que, de maneira "inescrupulosa”, lucram com o controle da passagem dessas pessoas pela América do Sul, América Central e México.
No documento, o Ministério denuncia também que esses migrantes se converteram em vítimas da politização do tema migratório por parte do Governo dos EUA, da Lei de Ajuste Cubano, em particular, da aplicação da chamada política de "pés secos-pés molhados”. "Pés secos” significam que aqueles que conseguem pisar em terra estadunidense poderão solicitar a residência permanente. "Pés molhados” referem-se aos indivíduos que tentam entrar nos EUA por via marítima e são interceptados, antes de alcançarem o objetivo.
"Essa política estimula a emigração irregular desde Cuba para os Estados Unidos e constitui uma violação da letra e do espírito dos Acordos Migratórios em vigor, mediante os quais ambos os países assumiram a obrigação de garantirem uma emigração legal, segura e ordenada”, afirma o Ministério cubano.
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