terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Arábia Saudita: os decapitadores escolhidos pelo Ocidente
Sam Albert - CounterPunch
As recentes execuções na Arábia Saudita deveriam deixar muito claro que a “guerra ao terror” das potências ocidentais não tem nada a ver com uma suposta oposição às decapitações ou ao fanatismo religioso sectário. Em vez de condenar esses crimes, os Estados Unidos, o Reino Unido e outras potências ocidentais continuam dando ao regime saudita, se não seu apoio público, ao menos um suporte prático. Tudo em nome de supostas necessidades e alianças criadas pela “guerra ao terror”.
Esses crimes fazem parte dos esforços da família real saudita para manter seu poder através de violênca estatal e autoridade religiosa, ambos representados pela espada do carrasco. O mais proeminente dentre os executados foi Nimr al-Nimir, um líder do clero xiita julgado secretamente e condenado por apoiar o movimento de protestos que tomou a população xiita na Arábia Saudita oriental e partes vizinhas de Bahrain em 2011; movimento esse particularmente popular entre a juventude influenciada pela Primavera Árabe. Muitas pessoas acusadas de participar de comícios na época, presos quando ainda eram adolescentes, devem ser executadas a seguir.
A execução de Nimir, ao lado da de muitos outros xiitas, foi uma resposta hedionda a protestos legítimos contra a discriminação presente no mercado de trabalho, no meio educacional, entre outros - prova de que o regime saudita, em vez de se afastar do fanatismo religioso característico do reino de Salman e de seus príncipes, está ampliando o uso de assassinatos, justificados por religião, para silenciar adversários políticos.
Mais do que isso, trata-se de um deliberado ato de provocação, direcionado a autoridades xiitas internacionalmente, em particular ao regime iraniano. Provavelmente existe a perspectiva de dificultar relações diplomáticas desse país com os Estados Unidos, uma vez que o Irã, também conhecido por realizar execuções em massa, deve dar uma resposta à altura.
Também há clara intenção de acabar de uma vez com qualquer questionamento da legitimidade da Casa de Saud por parte da Al Qaeda, do Estado Islâmico ou semelhantes, tanto dentro quanto fora do reino e até mesmo dentro da família real, tomando o papel de liderança de todos os sunitas e insinuando uma batalha religiosa.
As execuções foram um ato bárbaro mas não desmedido - elas serviram a objetivos políticos claros, os mesmos por trás da guerra saudita contra o Iêmem e os esforços sauditas para confrontar o regime de Assad e seus apoiadores iranianos em termos religiosos, desafiando a sharia do Estado Islâmico ao impor a sharia saudita. Esses são objetivos que, em alguns aspectos, convergem com os planos das potências ocidentais a respeito de como moldar o caos no Oriente Médio para o seu benefício.
A diferença entre o Estado Islâmico e o regime saudita não pode ser medida em termos de moderação ou crueldade. Embora a relação da monarquia com os Estados Unidos seja complexa e volátil - os Estados Unidos já atuaram nos dois lados da disputa sunita/xiita, inclusive tendo trabalhado com o regime xiita fundamentalista iraniano em alguns momentos - o fato é que os Estados Unidos e seus aliados não teriam sido capazes de dominar o Oriente Médio sem sua aliança com a Arábia Saudita, por mais problemática que essa aliança seja para ambos os lados atualmente.
Por isso, o presidente americano Barack Obama, o primeiro ministro britânico David Cameron e o presidente francês François Hollande têm silenciado diante das execuções. A princípio, representantes demonstraram desgosto diante da situação de “tensão sectária na região”, como se a intervenção ocidental em si não fosse o maior fator de agitação do conflito religioso no Oriente Médio. Conforme as ondas de choque foram se colocando, seus governos expressaram sua preocupação apenas a respeito dos inconvenientes políticos que poderiam ser criados, e não sobre a injustiça do ato.
O editorial de 4 de janeiro do Independent britânico não poderia ter sido mais explícito: ao mesmo tempo em que se distancia do entusiasmo desavergonhado do Partido Conservador britânico a respeito do regime saudita - note-se que o primeiro ministro Cameron recentemente apoiou a candidatura saudita ao Conselho de Direitos Humanos da ONU - o jornal concluiu que “não é do nosso interesse ver, e menos ainda provocar, a queda do regime de Saud”. É essa também, é claro, a política seguida por Obama, quem há um ano proclamou “a importância da relação Estados Unidos - Arábia Saudita como uma força na promoção da estabilidade e segurança do Oriente Médio e além.”
Os imperialistas ocidentais sempre souberam como atua o regime saudita. Sempre houve decapitações de apóstatas (pessoas acusadas de abandonar o Islã): está agendada a execução do jovem poeta e artista palestino Ashraf Fayadh, justamente por esse “crime”. Muitas das 153 pessoas executadas em 2015 e do total de 2200 pessoas nas últimas três décadas eram trabalhadores migrantes, principalmente do Sul da Ásia, os quais construíram os palácios da região do Golfo, shopping centers, museus, estádios esportivos e outras maravilhas arquitetônicas, virtualmente submetidas à espada real.
Os governantes sauditas devem suas espadas, no sentido mais amplo da palavra, às potências ocidentais. Em novembro, pouco antes das execuções e bastante depois do governo saudita anunciar seu plano para realizá-las, o Departamento de Estado de Obama aprovou uma solicitação saudita para comprar 1,29 bilhões de dólares em bombas e mísseis. O website do Departamento de Estado oferece com frieza um inventário das compras, o tipo de munição que a Arábia Saudita e seus aliados no Golfo tem feito chover sobre as cabeças do povo do Iêmem, numa guerra que já matou pelo menos 5700 pessoas, metade delas civis, desde que começou a invasão por ar e terra em março de 2015. Essa guerra de agressão contra um país que a Arábia Saudita considera tradicionalmente seu “quintal” não poderia acontecer sem o apoio logístico, o reabastecimento aéreo e os times de caça providenciados pelos Estados Unidos - o que torna Washington diretamente responsável pelo bombardeio de escolas e hospitais.
Apesar dos fatores serem complexos, essa guerra, assim como as execuções, está sendo travada em nome da autoridade religiosa da família real saudita contra xiitas e outros infiéis. Os rebeldes houthi, cuja crença Zaydi faz da sua fé uma prima do xiismo, são apoiados pelo Irã - o que está longe de ser o principal fator da rebelião dos houthis e de outros contra o regime da Arábia Saudita. Esse é outro exemplo de como os sauditas estão buscando agravar a dimensão religiosa dos conflitos da região - com apoio concreto dos Estados Unidos.
Obama veio pessoalmente encontrar-se com o Rei Salman, depois deste ser entronado há um ano, e seu reino tem sido aclamado como a inauguração de uma era de reforma por ocidentais. assim como aponta o comentarista liberal americano Thomas Friedman (em texto no New York Times de 25 de novembro de 2015, escrito quando essas execuções já estavam agendadas). A principal “reforma” até então tem sido promover eleições para as insignificantes estruturas municipais, e permitir que mulheres votem, apesar de não poderem dirigir ou tomar qualquer decisão sem permissão de seu homem responsável. Ao longo do último ano, o regime saudita tem ampliado suas execuções, em alguns casos crucificando os corpos decapitados e deixando-os a apodrecer publicamente.
Membros da família real (que, graças à poligamia, chega ao número de milhares) e membros do alto escalão do próprio regime tem apoiado a Al-Qaeda. O regime recebeu duras críticas da Al-Qaeda a respeito do estacionamento de tropas americanas nas terras sagradas do Islã, o que culminou com a transferência de tais tropas para bases em outros lugares do Golfo. Na Síria, a Arábia Saudita tem armado e financiado uma variada constelação de alianças fundamentalistas islâmicas. Quanto ao Estado Islâmico, que compartilha da ideologia Salafi (fundamentalista) que legitima o poder da Casa de Saud e, de forma semelhante, baseia seu sistema na opressão de mulheres, a mudança de seu nome de Estado Islâmico do Iraque e do Levante para apenas Estado Islâmico sinalizou uma ameaça direta à alegação de autoridade do regime saudita sobre todos os muçulmanos sunitas.
A monarquia absoluta saudita exige obediência e apregoa ser a terrena “protetora de Ummah” (a assim chamada comunidade de fiéis) e não por meio de poder religioso direto como o califado do Estado Islâmico, liderado por um auto-aclamado descendente de Maomé. Essa distinção é um perigo à existência da dinastia saudita, apesar de não representar uma grande diferença, especialmente se levarmos em conta que a resposta saudita à marca registrada do Estado Islâmico - de exterminar xiitas como apóstatas, além de infiéis - foi superar seus números e se tornar a maior assassina de xiitas.
As potências imperialistas ocidentais sabiam muito bem o que queriam ao se envolverem com a monarquia saudita. O Reino Unido ajudou a estabelecer a monarquia em 1932, depois de encorajar a ascenção do Wahhabismo (a forma específica de Salafismo associada com autoridades tribais árabes) em sua campanha para absorver o império Otomano. Em um tratado de 1945, assinado por Franklin D. Roosevelt, os Estados Unidos prometeram manter a monarquia saudita no poder, um pacto renovado por George W. Bush em 2005. Apesar dos Estados Unidos terem tomado o país do Reino Unido, como forma de substituir a dominação britânica sobre o Oriente Médio, o Reino Unido permanece mantendo laços financeiros e militares próximos com a Arábia Saudita. A França, sob o governo do presidente socialista Hollande, está agora forjando novos vínculos políticos e militares com o regime.
Ainda assim, a associação da Arábia Saudita com o imperialismo transformou profundamente o regime e sua classe dominante. Assim como em outros países do Golfo, ela se transformou num grande espaço de acumulação de capital dentro do capitalismo global dominado pelas potências imperialistas ocidentais. Isso aconteceu, por um lado, através da exploração no Golfo de trabalhadores do mundo islâmico e, por outro, pelo investimento de capital saudita e do Golfo em países muito maiores como o Egito, cuja economia, política e vida religiosa são amplamente condicionadas por essa relação.
De diversas formas, tais como influência política e subsídios a regimes como o paquistanês, a pregação religiosa para os milhões de árabes vindos para trabalhar no Golfo, o financiamento de grandes instituições religiosas e “filantrópicas” e centenas de pregadores televisivos e expoentes midiáticos, a Arábia Saudita e outras monarquias do Golfo são os principais vetores que trazem o Salafismo moderno ao mundo sunita. Isso ocorre ao mesmo tempo em que todos esses países se aproximam cada vez mais do mercado internacional e do sistema capitalista global, com uma decorrente rivalidade inevitável entre as classes dominantes, que apenas são capazes de acumular capital em competição mortal umas com as outras.
É verdade, como disse Obama, que “a relação entre Arábia Saudita e Estados Unidos” tem sido inestimável pros EUA e pro Ocidente como uma “força na promoção da estabilidade e da segurança do Oriente Médio”. Mas, ao mesmo tempo, essa relação proporcionou condições para a instabilidade atual na região, em que a contínua dominação americana não garantiu um cenário seguro de forma alguma. Grandes riscos exigem medidas desesperadas.
Muita gente, especialmente no Oriente Médio, cujo povo é de longe o maior alvo e a maior vítima do Estado Islâmico e de toda forma de fundamentalismo islâmico, considera que os Estados Unidos deliberadamente criaram o Estado Islâmico. Isso não é literalmente verdade. Apesar de Washington, Londres e Tel Aviv terem encorajado o islamismo em resposta a tendências políticas mais radicais na região, e apesar das forças imperialista terem criado as condições nas quais eles surgiram, as várias formas de fundamentalismo islâmico são um problema sem solução para os Estados Unidos e para outros imperialistas ocidentais. Ainda assim, a realidade sobre a qual se constrói a “guerra ao terror” não é um mero conflito bilateral. Em vez disso, imperialistas rivais e poderes regionais estão tentando avançar em seus próprios interesses reacionários entre acordos e conflitos, uns contra os outros, num campo de batalha muito complexo que pode ser interpretado como “cada classe dominante por si”. Ao mesmo tempo, de forma geral, todos esses adversários estão alimentando fundamentalismo religioso de algum tipo, não só intencionalmente, mas também como resultado de suas manobras políticas e militares e pelas relações econômicas retrógradas que eles representam.
O capital imperialista, agora representado por pessoas como Obama e seus colegas “líderes ocidentais”, precisa da autoridade de pessoas como o Rei Salman e de seus príncipes assassinos, que remetem a ideologias e sistemas sociais antigos, mas que devem seu poder ao imperialismo moderno. Os Estados Unidos e seus parceiros e rivais não podem deixar de fomentar fundamentalismos como o islâmico no século XXI. A “guerra ao terror” é uma fraude - é uma competição de quem consegue impor seus interesses e o maior terror.
Tradução por Allan Brum
(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Arabia-Saudita-os-decapitadores-escolhidos-pelo-Ocidente/6/35311)
A profunda ligação entre a Monsanto e o Facebook
Vandana Shiva - CommonDreams
Enquanto a Agência Reguladora de Telecomunicações da Índia decide o futuro do programa “Free Basics”, Mark Zuckerberg está na Índia com um bilhão de rúpias, em moeda trocada, para fazer sua publicidade. O programa é um internet.org repaginado ou, em outras palavras, um sistema em que o Facebook decide qual parte da internet compõe o pacote básico para os usuários.
A Reliance, parceira indiana do Facebook na empreitada do Free Basics, é uma megacorporação indiana com interesses em telecomunicação, energia, alimentos, varejo, infraestrutura e, é claro, terras. A Reliance obteve territórios para suas torres rurais de celulares do governo da Índia e tomou terras de fazendeiros para Zonas Econômicas Especiais através de violência e golpes. Como resultado e quase sem custo, a Reliance obteve um grande público rural, semiurbano e suburbano, especialmente fazendeiros. Embora o Free Basics tenha sido banido (por enquanto), a Reliance continua oferecendo seu serviço através de suas redes.
Um ataque corporativo coletivo está em curso globalmente. Tendo já programado suas ações, veteranos de corporações americanas como Bill Gates estão se juntando à nova onda de imperialistas filantropos, que inclui Mark Zuckerberg. É incrível a semelhança nas relações públicas de Gates e Zuckerberg, perfeitamente ensaiadas, que envolvem um preparo retórico e doação de fortunas. Qualquer entidade com que os Zuckerbergs se unam para administrar os 45 bilhões de dólares investidos provavelmente vai terminar parecendo a Fundação Bill e Melinda Gates; isto é, poderosa o suficiente para influenciar negociações climáticas, apesar não serem efetivamente responsáveis por nada.
Mas o que Bill Gates e Mark Zuckerberg teriam a ganhar quando ditam os termos aos governos do mundo durante a conferência climática? "A Breakthrough Energy Coalition vai investir em ideias que podem transformar a maneira como todos nós produzimos e consumimos energia", escreveu Zuckerberg em sua página no Facebook. Era um anúncio da Breakthrough Energy Coalition de Bill Gates, um fundo privado com uma riqueza combinada de centenas de bilhões de dólares de 28 investidores que irão influenciar a forma como o mundo produz e consome energia.
Ao mesmo tempo, Gates pressiona para forçar uma agricultura dependente de insumos químicos, combustíveis fósseis e transgênicos patenteados (#FossilAg) através da Aliança pela Revolução Verde na África (AGRA). Trata-se de uma tentativa de tornar fazendeiros africanos dependentes de combústiveis fósseis que deveriam ter permanecido no subsolo, além de criar uma relação de dependência com as sementes e petroquímicos da Monsanto.
95% do algodão na Índia pertence à Monsanto Bt Cotton. Em 2015, nas regiões de Punjab até Karnataka, 80% de sua plantação transgênica não vingou - isso significa que 76% dos produtores afiliados à Bt Cotton estavam sem algodão na época da colheita. Se tivessem opção, eles teriam trocado de variedade. Mas o que parece ser uma simples escolha entre sementes de algodão é na verdade a imposição de uma mesma semente Bt, comercializada por diferentes companhias com diferentes nomes, compradas por fazendeiros desesperados que tentam combinações de sementes, pesticidas, herbicidas e fungicidas - todos com nomes complexos o bastante para fazê-los se sentir inadequados - até que você não tenha nenhuma “escolha” a não ser tirar sua própria vida.
O que a Monsanto faz ao empurrar as leis de Direitos de Propriedade Intelectual (IPR) referentes ao comércio de sementes, Zuckerberg está tentando fazer com a liberdade de internet da Índia. E, assim como a Monsanto, ele está prejudicando os indianos mais marginalizados.
O Free Basics irá limitar o conteúdo da internet para a grande maioria de usuários indianos. Já de início, o programa afirmou que não irá permitir conteúdos de vídeo que interfiram nos serviços (leia-se: lucros) das companhias de telecomunicações - apesar da recomendação da própria Agência Reguladora de Telecomunicações da Índia de que conteúdo em vídeo seja acessível a diferentes partes da população.
Uma vez distribuída como um serviço gratuito, o que impedirá que as companhias de telecomunicações redefinam o uso da internet para satisfazer seus próprios interesses e o de seus parceiros? Afinal, a proibição ao Free Basics não impediu que a Reliance continuasse oferecendo seus serviços para uma grande base de usuários, muitos deles fazendeiros.
Por que deveria ficar a cargo de Mark Zuckerberg decidir o que é a internet para um fazendeiro em Punjab, que acabou de perder 80% de sua colheita de algodão por conta das sementes transgênicas da Monsanto e cujos produtos químicos (que foi coagido a usar) falharam completamente? Deveria a internet permitir que ele se informasse sobre o fracasso das tecnologias de transgênicos ao redor do mundo, que apenas são mantidas através de políticas de comércio injustas, ou deveria ela apenas induzir o uso de outra molécula patenteada em sua plantação?
A ligação entre o Facebook e a Monsanto é profunda. Os 12 maiores investidores da Monsanto são os mesmos que os 12 maiores investidores no Facebook, incluindo o Grupo Vanguard. Esse grupo é um grande investidor da John Deere, a novo parceira da Monsanto em “tratores inteligentes”, o que faz com que toda a produção e consumo de alimentos, da semente à informação, permaneça sob o controle de um pequeno punhado de investidores.
Não é de surpreender que a página do Facebook “March Against Monsanto” [Marcha contra a Monsanto], um grande movimento americano a favor da regulação e rotulagem de transgênicos, foi deletada.
Recentemente a Índia tem visto uma explosão em varejo online. Desde grande corporações a pequenos empreendedores, pessoas de todo o país tem podido vender o que produzem em um mercado previamente inacessível. Artesãos tem conseguido ampliar seus negócios, fazendas tem encontrado consumidores mais próximos.
Assim como a Monsanto e suas sementes patenteadas, Zuckerberg quer não apenas uma fatia, mas toda a pizza da economia indiana, especialmente seus fazendeiros e camponeses. O que o monopólio da Monsanto sobre informações climáticas significaria para fazendeiros escravizados através de um canal do Facebook com acesso limitado a essas informações? O que isso significaria para a internet e para a democracia alimentícia?
O direito ao alimento é o direito de escolher o que desejamos comer; saber o que está na nossa comida (#LabelGMOsNOW) e escolher alimentos saborosos e nutritivos - não os poucos alimentos processados que as corporações esperam que consumamos.
O direito à internet é o direito de escolher quais espaços e mídias nós acessamos; de escolher aquilo que nos enriquece - e não aquilo que as companhias pensam que deveria ser o nosso pacote básico.
Nosso direito de conhecer o que comemos é tão essencial quanto o direito à informação, qualquer informação. Nosso direito a uma internet aberta é tão essencial à nossa democracia quanto nosso direito de estocar, trocar e vender sementes polinizadas.
No eufemismo de Orwell, o “livre” para Zuckerberg significaria “privatizado”, algo totalmente diferente de privacidade - uma palavra inclusive estranha a ele. E assim como em acordos de “livre” comércio definidos por corporações, o Free Basics significa qualquer coisa menos ‘livre” para os cidadãos. É um cerceamento de bens essenciais, que deveriam ser acessíveis ao povo, sejam eles sementes, água, informação ou internet. Os Direitos de Propriedade Intelectual da Monsanto estão para as sementes como o Free Basics está para informação.
Tratores inteligentes da John Deere, utilizados em fazendas que plantam sementes patenteadas pela Monsanto, tratadas com insumos químicos da Bayer, com informações sobre clima e solo fornecidas pela Monsanto, transmitidas ao celular do fazendeiro pela Reliance, conectadas no perfil do Facebook, em terras pertencentes ao Grupo Vanguard.
Todos os passos de todos os processos, até o ponto em que você escolhe algo da prateleira de um supermercado, serão determinados pelos interesses dos mesmos acionistas.
Que tal conversarmos sobre liberdade de escolha?
tradução por Allan Brum
(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/A-profunda-ligacao-entre-a-Monsanto-e-o-Facebook/6/35309)
Enquanto a Agência Reguladora de Telecomunicações da Índia decide o futuro do programa “Free Basics”, Mark Zuckerberg está na Índia com um bilhão de rúpias, em moeda trocada, para fazer sua publicidade. O programa é um internet.org repaginado ou, em outras palavras, um sistema em que o Facebook decide qual parte da internet compõe o pacote básico para os usuários.
A Reliance, parceira indiana do Facebook na empreitada do Free Basics, é uma megacorporação indiana com interesses em telecomunicação, energia, alimentos, varejo, infraestrutura e, é claro, terras. A Reliance obteve territórios para suas torres rurais de celulares do governo da Índia e tomou terras de fazendeiros para Zonas Econômicas Especiais através de violência e golpes. Como resultado e quase sem custo, a Reliance obteve um grande público rural, semiurbano e suburbano, especialmente fazendeiros. Embora o Free Basics tenha sido banido (por enquanto), a Reliance continua oferecendo seu serviço através de suas redes.
Um ataque corporativo coletivo está em curso globalmente. Tendo já programado suas ações, veteranos de corporações americanas como Bill Gates estão se juntando à nova onda de imperialistas filantropos, que inclui Mark Zuckerberg. É incrível a semelhança nas relações públicas de Gates e Zuckerberg, perfeitamente ensaiadas, que envolvem um preparo retórico e doação de fortunas. Qualquer entidade com que os Zuckerbergs se unam para administrar os 45 bilhões de dólares investidos provavelmente vai terminar parecendo a Fundação Bill e Melinda Gates; isto é, poderosa o suficiente para influenciar negociações climáticas, apesar não serem efetivamente responsáveis por nada.
Mas o que Bill Gates e Mark Zuckerberg teriam a ganhar quando ditam os termos aos governos do mundo durante a conferência climática? "A Breakthrough Energy Coalition vai investir em ideias que podem transformar a maneira como todos nós produzimos e consumimos energia", escreveu Zuckerberg em sua página no Facebook. Era um anúncio da Breakthrough Energy Coalition de Bill Gates, um fundo privado com uma riqueza combinada de centenas de bilhões de dólares de 28 investidores que irão influenciar a forma como o mundo produz e consome energia.
Ao mesmo tempo, Gates pressiona para forçar uma agricultura dependente de insumos químicos, combustíveis fósseis e transgênicos patenteados (#FossilAg) através da Aliança pela Revolução Verde na África (AGRA). Trata-se de uma tentativa de tornar fazendeiros africanos dependentes de combústiveis fósseis que deveriam ter permanecido no subsolo, além de criar uma relação de dependência com as sementes e petroquímicos da Monsanto.
95% do algodão na Índia pertence à Monsanto Bt Cotton. Em 2015, nas regiões de Punjab até Karnataka, 80% de sua plantação transgênica não vingou - isso significa que 76% dos produtores afiliados à Bt Cotton estavam sem algodão na época da colheita. Se tivessem opção, eles teriam trocado de variedade. Mas o que parece ser uma simples escolha entre sementes de algodão é na verdade a imposição de uma mesma semente Bt, comercializada por diferentes companhias com diferentes nomes, compradas por fazendeiros desesperados que tentam combinações de sementes, pesticidas, herbicidas e fungicidas - todos com nomes complexos o bastante para fazê-los se sentir inadequados - até que você não tenha nenhuma “escolha” a não ser tirar sua própria vida.
O que a Monsanto faz ao empurrar as leis de Direitos de Propriedade Intelectual (IPR) referentes ao comércio de sementes, Zuckerberg está tentando fazer com a liberdade de internet da Índia. E, assim como a Monsanto, ele está prejudicando os indianos mais marginalizados.
O Free Basics irá limitar o conteúdo da internet para a grande maioria de usuários indianos. Já de início, o programa afirmou que não irá permitir conteúdos de vídeo que interfiram nos serviços (leia-se: lucros) das companhias de telecomunicações - apesar da recomendação da própria Agência Reguladora de Telecomunicações da Índia de que conteúdo em vídeo seja acessível a diferentes partes da população.
Uma vez distribuída como um serviço gratuito, o que impedirá que as companhias de telecomunicações redefinam o uso da internet para satisfazer seus próprios interesses e o de seus parceiros? Afinal, a proibição ao Free Basics não impediu que a Reliance continuasse oferecendo seus serviços para uma grande base de usuários, muitos deles fazendeiros.
Por que deveria ficar a cargo de Mark Zuckerberg decidir o que é a internet para um fazendeiro em Punjab, que acabou de perder 80% de sua colheita de algodão por conta das sementes transgênicas da Monsanto e cujos produtos químicos (que foi coagido a usar) falharam completamente? Deveria a internet permitir que ele se informasse sobre o fracasso das tecnologias de transgênicos ao redor do mundo, que apenas são mantidas através de políticas de comércio injustas, ou deveria ela apenas induzir o uso de outra molécula patenteada em sua plantação?
A ligação entre o Facebook e a Monsanto é profunda. Os 12 maiores investidores da Monsanto são os mesmos que os 12 maiores investidores no Facebook, incluindo o Grupo Vanguard. Esse grupo é um grande investidor da John Deere, a novo parceira da Monsanto em “tratores inteligentes”, o que faz com que toda a produção e consumo de alimentos, da semente à informação, permaneça sob o controle de um pequeno punhado de investidores.
Não é de surpreender que a página do Facebook “March Against Monsanto” [Marcha contra a Monsanto], um grande movimento americano a favor da regulação e rotulagem de transgênicos, foi deletada.
Recentemente a Índia tem visto uma explosão em varejo online. Desde grande corporações a pequenos empreendedores, pessoas de todo o país tem podido vender o que produzem em um mercado previamente inacessível. Artesãos tem conseguido ampliar seus negócios, fazendas tem encontrado consumidores mais próximos.
Assim como a Monsanto e suas sementes patenteadas, Zuckerberg quer não apenas uma fatia, mas toda a pizza da economia indiana, especialmente seus fazendeiros e camponeses. O que o monopólio da Monsanto sobre informações climáticas significaria para fazendeiros escravizados através de um canal do Facebook com acesso limitado a essas informações? O que isso significaria para a internet e para a democracia alimentícia?
O direito ao alimento é o direito de escolher o que desejamos comer; saber o que está na nossa comida (#LabelGMOsNOW) e escolher alimentos saborosos e nutritivos - não os poucos alimentos processados que as corporações esperam que consumamos.
O direito à internet é o direito de escolher quais espaços e mídias nós acessamos; de escolher aquilo que nos enriquece - e não aquilo que as companhias pensam que deveria ser o nosso pacote básico.
Nosso direito de conhecer o que comemos é tão essencial quanto o direito à informação, qualquer informação. Nosso direito a uma internet aberta é tão essencial à nossa democracia quanto nosso direito de estocar, trocar e vender sementes polinizadas.
No eufemismo de Orwell, o “livre” para Zuckerberg significaria “privatizado”, algo totalmente diferente de privacidade - uma palavra inclusive estranha a ele. E assim como em acordos de “livre” comércio definidos por corporações, o Free Basics significa qualquer coisa menos ‘livre” para os cidadãos. É um cerceamento de bens essenciais, que deveriam ser acessíveis ao povo, sejam eles sementes, água, informação ou internet. Os Direitos de Propriedade Intelectual da Monsanto estão para as sementes como o Free Basics está para informação.
Tratores inteligentes da John Deere, utilizados em fazendas que plantam sementes patenteadas pela Monsanto, tratadas com insumos químicos da Bayer, com informações sobre clima e solo fornecidas pela Monsanto, transmitidas ao celular do fazendeiro pela Reliance, conectadas no perfil do Facebook, em terras pertencentes ao Grupo Vanguard.
Todos os passos de todos os processos, até o ponto em que você escolhe algo da prateleira de um supermercado, serão determinados pelos interesses dos mesmos acionistas.
Que tal conversarmos sobre liberdade de escolha?
tradução por Allan Brum
(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/A-profunda-ligacao-entre-a-Monsanto-e-o-Facebook/6/35309)
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
A semana no Café História
[1] Café História TV:
Paleografia
Na
nova edição do "Curtinhas", seção do Café História TV, a historiadora
Suely Almeida, professora do departamento de história da Universidade
Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), explica o que é Paleografia. [Confira]
[2] Mural do Historiador: Cinemateca Popular
Uma
ideia fantástica. Assim podemos definir a Cinemateca Popular
Brasileira, organizada pelo Armazém Memória no Youtube. O projeto
disponibiliza centenas de filmes nacionais gratuitamente na internet,
tendo por fonte de pesquisa o Dicionário de Filmes Brasileiros de
Antônio Leão da Silva Neto e os catálogos da ANCINE. [Confira]
[3] Notícia em destaque:
Colaboracionismo
Mais
de 200.000 fichas policiais e demais documentos relativos ao período da
ocupação nazista da França, procedentes essencialmente dos ministérios
das Relações Exteriores, Justiça e Interior, estão acessíveis desde a
segunda-feira da semana passada, após a publicação de um decreto
assinado pelo primeiro-ministro, Manuel Valls. [Veja]
[4] Livros:
Frank Sinatra
1212.
Este é o abundante número de páginas da segunda e última parte da mais
nova biografia do cantor e ator norte-americano Frank Sinatra
(1915-1998), ídolo pop de várias gerações mundo à fora. “Sinatra – O
Chefão”, continuação de “Sinatra – a Voz”, foi escrito pelo jornalista
americano James Kaplan e publicado, no Brasil, pela Companhia das
Letras. [Clique aqui]
Visite Cafe Historia em: http://cafehistoria.ning.com/?xg_source=msg_mes_network
Carta aos jornais que descobriram, com atraso, a degola de um bebê indígena
“Querida Grande Imprensa, eu queria lembrá-la de outras pautas
indígenas esquecidas; crianças mortas, povos confinados, apartheid;
nunca será tarde”
Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
Querida Grande Imprensa,
Vejo que, finalmente, você percebeu que um bebê de 2 anos foi degolado em Santa Catarina. O Estadão até publicou um texto, nesta quinta-feira, lá nos confins de uma página interna, três dias após a jornalista Eliane Brum acabar de escancarar o caso, em sua coluna no El País Brasil – e uma semana após identificarmos, na mídia contra-hegemônica, a omissão dos grandes jornais. Expus essa angústia, no dia 31 de dezembro: Eu, leitor, à espera de notícias sobre um bebê indígena assassinado. Pena que O Globo não deu as matérias do G1 na edição impressa. A Folha a gente segue aguardando.
E nem era tão longe, né? Foi ali, em Santa Catarina. Mas que bom que deu tempo. Nunca será tarde demais. Aproveitando, então, o interesse demonstrado pela morte de Vítor Pinto, e supondo que não seja ocasional a preocupação com o bebê Kaingang, sugiro que a Senhora coloque em pauta outros exemplos do massacre sistemático praticado contra os povos indígenas no país. Um caso antigo, ainda mais antigo que a história de Estadão, Folha, O Globo – todas as suas histórias somadas. É a história de um genocídio – de cabeças arrancadas, etnias inteiras dizimadas ou extintas, confinadas, espoliadas.
Por exemplo, o massacre dos Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. Estão para ser despejados 4 mil indígenas na região de Japorã. Eu adoraria ir ao local, mas não tenho recursos. Vocês, que têm encolhido o tamanho dos jornais sem reduzir o preço, talvez ainda tenham algum troco para enviar bons repórteres (sei que ainda os têm) à região, para contar a história completa – antes que famílias inteiras sejam mais uma vez humilhadas. Mas fiquem um bom tempo: tem muita aldeia para visitar. O massacre dos Guarani Kaiowá é o maior da América do Sul, ao lado dos Mapuche, no Chile. Várias lideranças indígenas foram assassinadas. Crianças são discriminadas.
E não é o único caso, sabiam? Há tantos outros pelo país. Lembro-me que a Folha esteve em Humaitá (AM), há dois anos, cobrindo o apartheid contra os Tenharim, na Transamazônica, região do Rio Madeira. Bom, sei que não foi essa a abordagem do jornal, mas de fato o que acontece por lá é um apartheid. Poderiam enviar novamente um repórter, questionar o fato de não terem reconstruído a sede da Funai, ou da Secretaria de Saúde Indígena – incendiadas por uma população furiosa, instigada por comerciantes, fazendeiros e madeireiros. Carros e barcos foram queimados. E a população indígena ainda vive com medo.
Acreditam que não se trata do único caso de apartheid? Esse caso mesmo de Santa Catarina decorre de uma segregação. Um colunista gaúcho chegou a ser condenado, chamou os Kaingang de “sujos, ignorantes e vagabundos“. Há tantos outros casos, de norte a sul do país, que clamam por ser relatados para um grande público. No nordeste de Minas Gerais, membros da etnia Maxakali são espancados e mortos. O SBT fez uma matéria, em agosto, mas não precisam se acanhar. A história ainda existe e sempre pode ser contada de outra forma: Índios são vítimas de agressão e assassinato no nordeste de Minas Gerais.
E tem os Tupinambá de Olivença, na Bahia, os Saterê-Mawé no Amazonas, povos diversos em Santarém, no Pará. Seria exaustivo enumerar todos os casos. Estamos diante de um fenômeno que não pode motivar apenas coberturas episódicas, somente quando acontece algo mais grave – e nem isso tem ocorrido. Trata-se de algo sistemático. Que poderia motivar editoriais frequentes, menção pelos colunistas mais importantes, reportagens de fôlego, acompanhamento regular dos conflitos e das iniciativas da Funai, do Ministério Público, das organizações indigenistas. Mas não somente uma vez por ano, para ganhar prêmios de jornalismo, vamos combinar?
RACISMO E GENOCÍDIO
Sabe, Grande Imprensa. Não é por fúria revolucionária que pedimos isso. É pela preservação de direitos elementares, consagrados no pós-guerra por países capitalistas. Pelo próprio sistema. Pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não sei se recordam, mas promulgamos também uma Constituição, em 1988. Não é um documento incendiário. É bastante tímido em relação à nossa desigualdade no campo e à nossa dívida histórica para com camponeses, quilombolas, povos tradicionais e originários. Mas estão garantidos lá os direitos indígenas. O direito à demarcação de terras – terras deles. Para não falar no direito à vida.
E os temas estão relacionados, sabiam? Acho que já falei do Mato Grosso do Sul. Lá morrem muitas crianças por desnutrição (fome), atropelamentos ou falta de atendimento médico. Ontem mesmo – 6 de janeiro de 2016 – morreu um bebê de 1 ano em Coronel Sapucaia: Sem ambulância, criança indígena de um ano morre em acampamento. Seria inimaginável um espaço nos jornais, um canto de página que fosse? Só provisoriamente, até fazerem uma reportagem de maior fôlego sobre o tema. Quem sabe com chamada de capa. A mortalidade infantil indígena tem aumentado no Brasil. Não é constrangedor o veículo mais atento ao tema ser o espanhol El País?
Sobre o bebê degolado em Imbituba, espero também que a Senhora cumpra sua função civilizatória, tomando todos os cuidados para que não se linche midiaticamente o assassino confesso. Os direitos do rapaz precisam ser garantidos, pela polícia e pela Justiça, pois são os direitos de todos nós. Ele parece ser uma pessoa confusa. E é claro que precisa ser punido com rigor. Agora, não foi ele quem criou esse ódio. Sua condenação não purgará todas as culpas do Brasil e do Ocidente em relação aos povos indígenas. A Matheus apenas o que é de Matheus.
Como lembrou ontem a mãe do Vítor, foi por algum motivo que ele escolheu um bebê indígena para matar. E não por uma força externa, pelo satanismo, como já querem nos fazer crer. Escolheu porque a cultura (local, regional, nacional) é a do racismo. Essa é a palavra correta. E as pessoas que perpetuam o racismo contra indígenas não são exatamente confusas. Sabem muito bem o que estão fazendo. Ela fazem parte do poder político, do poder econômico. São proprietárias de terras, boa parte delas usurpada. São deputados, senadores. Não se esqueça delas, sim?
Atenciosamente,
Um jornalista.
(fonte:http://outraspalavras.net/alceucastilho/2016/01/07/carta-aos-jornais-que-descobriram-com-atraso-a-degola-de-um-bebe-indigena-em-sc/)
Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
Querida Grande Imprensa,
Vejo que, finalmente, você percebeu que um bebê de 2 anos foi degolado em Santa Catarina. O Estadão até publicou um texto, nesta quinta-feira, lá nos confins de uma página interna, três dias após a jornalista Eliane Brum acabar de escancarar o caso, em sua coluna no El País Brasil – e uma semana após identificarmos, na mídia contra-hegemônica, a omissão dos grandes jornais. Expus essa angústia, no dia 31 de dezembro: Eu, leitor, à espera de notícias sobre um bebê indígena assassinado. Pena que O Globo não deu as matérias do G1 na edição impressa. A Folha a gente segue aguardando.
E nem era tão longe, né? Foi ali, em Santa Catarina. Mas que bom que deu tempo. Nunca será tarde demais. Aproveitando, então, o interesse demonstrado pela morte de Vítor Pinto, e supondo que não seja ocasional a preocupação com o bebê Kaingang, sugiro que a Senhora coloque em pauta outros exemplos do massacre sistemático praticado contra os povos indígenas no país. Um caso antigo, ainda mais antigo que a história de Estadão, Folha, O Globo – todas as suas histórias somadas. É a história de um genocídio – de cabeças arrancadas, etnias inteiras dizimadas ou extintas, confinadas, espoliadas.
Por exemplo, o massacre dos Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. Estão para ser despejados 4 mil indígenas na região de Japorã. Eu adoraria ir ao local, mas não tenho recursos. Vocês, que têm encolhido o tamanho dos jornais sem reduzir o preço, talvez ainda tenham algum troco para enviar bons repórteres (sei que ainda os têm) à região, para contar a história completa – antes que famílias inteiras sejam mais uma vez humilhadas. Mas fiquem um bom tempo: tem muita aldeia para visitar. O massacre dos Guarani Kaiowá é o maior da América do Sul, ao lado dos Mapuche, no Chile. Várias lideranças indígenas foram assassinadas. Crianças são discriminadas.
E não é o único caso, sabiam? Há tantos outros pelo país. Lembro-me que a Folha esteve em Humaitá (AM), há dois anos, cobrindo o apartheid contra os Tenharim, na Transamazônica, região do Rio Madeira. Bom, sei que não foi essa a abordagem do jornal, mas de fato o que acontece por lá é um apartheid. Poderiam enviar novamente um repórter, questionar o fato de não terem reconstruído a sede da Funai, ou da Secretaria de Saúde Indígena – incendiadas por uma população furiosa, instigada por comerciantes, fazendeiros e madeireiros. Carros e barcos foram queimados. E a população indígena ainda vive com medo.
Acreditam que não se trata do único caso de apartheid? Esse caso mesmo de Santa Catarina decorre de uma segregação. Um colunista gaúcho chegou a ser condenado, chamou os Kaingang de “sujos, ignorantes e vagabundos“. Há tantos outros casos, de norte a sul do país, que clamam por ser relatados para um grande público. No nordeste de Minas Gerais, membros da etnia Maxakali são espancados e mortos. O SBT fez uma matéria, em agosto, mas não precisam se acanhar. A história ainda existe e sempre pode ser contada de outra forma: Índios são vítimas de agressão e assassinato no nordeste de Minas Gerais.
E tem os Tupinambá de Olivença, na Bahia, os Saterê-Mawé no Amazonas, povos diversos em Santarém, no Pará. Seria exaustivo enumerar todos os casos. Estamos diante de um fenômeno que não pode motivar apenas coberturas episódicas, somente quando acontece algo mais grave – e nem isso tem ocorrido. Trata-se de algo sistemático. Que poderia motivar editoriais frequentes, menção pelos colunistas mais importantes, reportagens de fôlego, acompanhamento regular dos conflitos e das iniciativas da Funai, do Ministério Público, das organizações indigenistas. Mas não somente uma vez por ano, para ganhar prêmios de jornalismo, vamos combinar?
RACISMO E GENOCÍDIO
Sabe, Grande Imprensa. Não é por fúria revolucionária que pedimos isso. É pela preservação de direitos elementares, consagrados no pós-guerra por países capitalistas. Pelo próprio sistema. Pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não sei se recordam, mas promulgamos também uma Constituição, em 1988. Não é um documento incendiário. É bastante tímido em relação à nossa desigualdade no campo e à nossa dívida histórica para com camponeses, quilombolas, povos tradicionais e originários. Mas estão garantidos lá os direitos indígenas. O direito à demarcação de terras – terras deles. Para não falar no direito à vida.
E os temas estão relacionados, sabiam? Acho que já falei do Mato Grosso do Sul. Lá morrem muitas crianças por desnutrição (fome), atropelamentos ou falta de atendimento médico. Ontem mesmo – 6 de janeiro de 2016 – morreu um bebê de 1 ano em Coronel Sapucaia: Sem ambulância, criança indígena de um ano morre em acampamento. Seria inimaginável um espaço nos jornais, um canto de página que fosse? Só provisoriamente, até fazerem uma reportagem de maior fôlego sobre o tema. Quem sabe com chamada de capa. A mortalidade infantil indígena tem aumentado no Brasil. Não é constrangedor o veículo mais atento ao tema ser o espanhol El País?
Sobre o bebê degolado em Imbituba, espero também que a Senhora cumpra sua função civilizatória, tomando todos os cuidados para que não se linche midiaticamente o assassino confesso. Os direitos do rapaz precisam ser garantidos, pela polícia e pela Justiça, pois são os direitos de todos nós. Ele parece ser uma pessoa confusa. E é claro que precisa ser punido com rigor. Agora, não foi ele quem criou esse ódio. Sua condenação não purgará todas as culpas do Brasil e do Ocidente em relação aos povos indígenas. A Matheus apenas o que é de Matheus.
Como lembrou ontem a mãe do Vítor, foi por algum motivo que ele escolheu um bebê indígena para matar. E não por uma força externa, pelo satanismo, como já querem nos fazer crer. Escolheu porque a cultura (local, regional, nacional) é a do racismo. Essa é a palavra correta. E as pessoas que perpetuam o racismo contra indígenas não são exatamente confusas. Sabem muito bem o que estão fazendo. Ela fazem parte do poder político, do poder econômico. São proprietárias de terras, boa parte delas usurpada. São deputados, senadores. Não se esqueça delas, sim?
Atenciosamente,
Um jornalista.
(fonte:http://outraspalavras.net/alceucastilho/2016/01/07/carta-aos-jornais-que-descobriram-com-atraso-a-degola-de-um-bebe-indigena-em-sc/)
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
XX Encontro Regional de História da ANPUH-MG
A
Diretoria da ANPUH MG tem a satisfação de apresentar a todos os seus
sócios a página do XX Encontro Regional de História da ANPUH-MG
"História em Tempos de Crise".
Por questões internas da universidade alteramos a data do evento para os dias 26 a 29 de julho de 2016.
Na
página do evento, além de outras informações, será possível ver o
cronograma e realizar as inscrições para coordenação de Simpósios
Temáticos e Minicursos.
Ao longo do início do próximo ano iremos inserir novas informações na página.
Desde já agradecemos o apoio recebido e contamos com a participação de todos.
Att,
Direção da ANPUH-MG
Gestão 2014/2016
Associação Nacional de História - ANPUH
Seção Minas Gerais
Arábia Saudita, o verdadeiro estado islâmico
Retrógrado, misógino, intolerante, Reino de Saud financia e
estimula o ISIS. Decapitou 47 opositores, no primeiro dia do ano. É o
grande aliado do “mundo livre” no Oriente Médio…
Por Nuno Ramos de Almeida
“Era de manhã em Karbala, cidade a cerca de 100 quilômetros ao sul de Bagdad, e o mercado local estava cheio quando todos ouviram gritos. Um grupo de homens vestidos de preto, levando espadas e bandeiras negras, invadiu o mercado matando crianças, mulheres, idosos e adultos. Avançaram pelas ruas até tomar o controle de toda a cidade. Neste dia, cerca de 4 mil pessoas morreram. Os homens vestidos de preto que organizaram esta matança não eram do grupo autodenominado Estado Islâmico. O massacre ocorreu há mais de 200 anos e o grupo era comandando por um dos primeiros governantes da Arábia Saudita, que acabava de formar um novo movimento religioso: o wahabismo”, recorda a insuspeita BBC.
A história tem várias versões, mas resumindo e simplificando conta-se da seguinte maneira: uma vez pediram ao ocupante de turno da Casa Branca que se pronunciasse sobre Anastásio Somoza Garcia, o primeiro da família como ditador da Nicarágua. O líder do mundo livre terá feito um silêncio e respondido: “é um filho da puta, mas é o nosso filho da puta”.
Só essa lógica oportunística justifica o apoio dos Estados Unidos e dos seus aliados europeus à monarquia reinante na Arábia Saudita. Mas essa lógica de ter aliados pouco recomendáveis para fazerem o jogo mais sujo, arrisca-se a rebentar-lhes nas mãos, como os apoios que deram a Bin Laden durante a guerra do Afeganistão contra a ocupação soviética.
Não só vêm da Arábia Saudita os principais financiamentos a grupos terroristas como o Estado Islâmico; também é o reino que fornece a sua base ideológica: sem o wahabismo, doutrina salafista, pregada pelo poder saudita, não haveria interpretações radicais do Islã, que transformam a religião muçulmana numa identidade assassina para todas as pessoas, inclusive os muçulmanos que não acreditam numa interpretação feudal, misógina e conservadora que viola repetidamente as palavras do Corão. Por todo o mundo muçulmano, os sauditas exportaram a sua forma de religião, com o dinheiro do petróleo financiam madrassas e outras escolas religiosas que propagam o salafismo além fronteiras.
Esse apostolado tem tido frutos venenosos: quando vemos como regride a situação das mulheres nas zonas libertadas do Sahara Ocidental ou da Palestina, percebemos o papel da influência religiosa do wahhabismo.
Finalmente, a Arábia Saudita é a concretização na prática do que seria um país dirigido pelo Estado Islâmico. Nesse território, as mulheres são seres de segunda, os imigrantes são abaixo de cão, os não crentes podem ser mortos, os estrangeiros estão proibidos de visitar às cidades sagradas de Meca e Medina, e qualquer oposição ao poder despótico vigente é condenada à morte por decapitação.
No entanto, com a execução neste sábado de 47 condenados, entre os quais o clérigo xiita Nimr al Nimr, a estratégia terrorista de apoios ao Estado Islâmico atingiu um novo e perigoso patamar. O líder dos xiitas da Arábia Saudita foi preso, torturado e decapitado. As suas últimas palavras foram um aviso: “a minha morte será um motivo para ação”. Esse aviso há muito que monarquia saudita conhece: aquilo que se pretende com esta execução é transformar a guerra contra o Estado Islâmico num conflito entre sunitas e xiitas.
O governo da Arábia Saudita está envolvido numa guerra em várias frentes contra os xiitas, nomeadamente no Iemen, Bahrein, Síria e Iraque. Os governos do Ocidente têm fechado os olhos a estas ações, porque elas são contra a maior potência xiita, o Irã. Mas as ruas de Paris são a prova que não há guerras limpinhas para os aliados do reino. Um conflito que opusesse sunitas e xiitas poderia salvar, momentaneamente, o Estado Islâmico e Riad, mas conduziria o mundo a uma guerra sem fronteiras.
(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/arabia-saudita-o-verdadeiro-estado-islamico/)
Por Nuno Ramos de Almeida
“Era de manhã em Karbala, cidade a cerca de 100 quilômetros ao sul de Bagdad, e o mercado local estava cheio quando todos ouviram gritos. Um grupo de homens vestidos de preto, levando espadas e bandeiras negras, invadiu o mercado matando crianças, mulheres, idosos e adultos. Avançaram pelas ruas até tomar o controle de toda a cidade. Neste dia, cerca de 4 mil pessoas morreram. Os homens vestidos de preto que organizaram esta matança não eram do grupo autodenominado Estado Islâmico. O massacre ocorreu há mais de 200 anos e o grupo era comandando por um dos primeiros governantes da Arábia Saudita, que acabava de formar um novo movimento religioso: o wahabismo”, recorda a insuspeita BBC.
A história tem várias versões, mas resumindo e simplificando conta-se da seguinte maneira: uma vez pediram ao ocupante de turno da Casa Branca que se pronunciasse sobre Anastásio Somoza Garcia, o primeiro da família como ditador da Nicarágua. O líder do mundo livre terá feito um silêncio e respondido: “é um filho da puta, mas é o nosso filho da puta”.
Só essa lógica oportunística justifica o apoio dos Estados Unidos e dos seus aliados europeus à monarquia reinante na Arábia Saudita. Mas essa lógica de ter aliados pouco recomendáveis para fazerem o jogo mais sujo, arrisca-se a rebentar-lhes nas mãos, como os apoios que deram a Bin Laden durante a guerra do Afeganistão contra a ocupação soviética.
Não só vêm da Arábia Saudita os principais financiamentos a grupos terroristas como o Estado Islâmico; também é o reino que fornece a sua base ideológica: sem o wahabismo, doutrina salafista, pregada pelo poder saudita, não haveria interpretações radicais do Islã, que transformam a religião muçulmana numa identidade assassina para todas as pessoas, inclusive os muçulmanos que não acreditam numa interpretação feudal, misógina e conservadora que viola repetidamente as palavras do Corão. Por todo o mundo muçulmano, os sauditas exportaram a sua forma de religião, com o dinheiro do petróleo financiam madrassas e outras escolas religiosas que propagam o salafismo além fronteiras.
Esse apostolado tem tido frutos venenosos: quando vemos como regride a situação das mulheres nas zonas libertadas do Sahara Ocidental ou da Palestina, percebemos o papel da influência religiosa do wahhabismo.
Finalmente, a Arábia Saudita é a concretização na prática do que seria um país dirigido pelo Estado Islâmico. Nesse território, as mulheres são seres de segunda, os imigrantes são abaixo de cão, os não crentes podem ser mortos, os estrangeiros estão proibidos de visitar às cidades sagradas de Meca e Medina, e qualquer oposição ao poder despótico vigente é condenada à morte por decapitação.
No entanto, com a execução neste sábado de 47 condenados, entre os quais o clérigo xiita Nimr al Nimr, a estratégia terrorista de apoios ao Estado Islâmico atingiu um novo e perigoso patamar. O líder dos xiitas da Arábia Saudita foi preso, torturado e decapitado. As suas últimas palavras foram um aviso: “a minha morte será um motivo para ação”. Esse aviso há muito que monarquia saudita conhece: aquilo que se pretende com esta execução é transformar a guerra contra o Estado Islâmico num conflito entre sunitas e xiitas.
O governo da Arábia Saudita está envolvido numa guerra em várias frentes contra os xiitas, nomeadamente no Iemen, Bahrein, Síria e Iraque. Os governos do Ocidente têm fechado os olhos a estas ações, porque elas são contra a maior potência xiita, o Irã. Mas as ruas de Paris são a prova que não há guerras limpinhas para os aliados do reino. Um conflito que opusesse sunitas e xiitas poderia salvar, momentaneamente, o Estado Islâmico e Riad, mas conduziria o mundo a uma guerra sem fronteiras.
(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/arabia-saudita-o-verdadeiro-estado-islamico/)
A democracia em declínio e os tambores da guerra
Desarmados pelas finanças, governos veem-se impotentes, desgastam-se com rapidez, são derrotados. Espalha-se uma tentação: e se saída estiver no ódio ao outro e nas armas?
Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Inês Castilho
Foi um mau ano para os partidos no poder que enfrentaram eleições. Eles vêm sofrendo derrotas completas ou ao menos relativas. O foco tem se voltado para as eleições em que os chamados partidos de direita saem-se melhor — às vezes, muito melhor — que partidos no poder considerados de esquerda. Exemplos notáveis são Argentina, Venezuela e Dinamarca. Talvez possa-se acrescentar os Estados Unidos.
Menos comentada tem sido a situação opostas: partidos no poder que são “de direita” perdendo para forças de esquerda ou, ao menos, reduzindo seu percentual e número de cadeiras em plano nacional e ou local. Isso é verdade, de distintas maneiras, no Canadá, Austrália, Espanha, Portugal, Holanda, Itália e Índia.
O problema talvez não sejam os programas implementados pelos partidos, mas o fato de que os partidos no poder estão sendo culpados pela má situação das economias. Uma reação que vimos em quase todo lugar é o populismo xenófobo, de direita. Outra reação é demandar mais — e não menos — medidas do Estado de bem-estar social, conhecidas como “anti-austeridade”. Claro, é possível ser xenófobo e anti-austeridade ao mesmo tempo.
Mas quando um partido chega ao poder e precisa governar, espera-se que faça diferença na vida de quem o elegeu. E se não consegue fazê-lo, pode enfrentar reação severa nas eleições futuras, muitas vezes num breve prazo de tempo. É o que o primeiro ministro Modi, da Índia, aprendeu quando, menos de um ano depois de uma eleição nacional arrebatadora, seu partido teve mau desempenho nas eleições provinciais de Nova Deli e Bihar, onde acabara de vencer.
Não penso que essa volatilidade vá acabar tão cedo. A razão é bastante simples. Os mantras neoliberais de crescimento e competitividade não são capazes de reduzir significativamente os níveis de desemprego. Como resultado, podem forçar a transferência de riqueza dos estratos mais baixos para os mais ricos. Isso é muito visível e é o que leva à denúncia dos programas de austeridade.
A reação xenófoba responde a uma necessidade psíquica, mas não leva à elevação do nível de emprego, e portanto também não ao aumento da renda real. Os eleitores podem então retirar esses partidos do poder, como podem aqueles que lutam por objetivos de esquerda, como a elevação dos impostos pagos pelos muito ricos. Por sua vez, os governos – de esquerda, centro ou direita – têm menos dinheiro para as medidas de proteção social.
A combinação desses elementos não é muito negativa apenas para aqueles que se encontram na base da pirâmide de renda. Significa também o chamado declínio da classe média – ou seja, a queda de muitas famílias para as fileiras dos estratos mais baixos. Note-se, porém, que o modelo de eleições parlamentares disputadas basicamente por dois partidos mainstream é baseado na existência de um estrato de classe média numericamente grande, pronto para deslocar seus votos leve e calmamente entre dois partidos de centro, bastante semelhantes. Sem esse modelo funcionando, o sistema político torna-se imprevisível, tal como estamos vendo agora.
Acabo de descrever a cena intra-Estados. Mas há também a cena inter-Estados – o poder global relativo dos diferentes Estados. Assim como deve-se olhar para os níveis reais de emprego dentro de cada Estado, as taxas de câmbio entre as moedas são a chave para avaliar o poder entre Estados. O dólar mantém-se no topo, principalmente porque não há nenhuma boa alternativa no curto prazo. Contudo, a moeda norte-americana não é estável, e está também sujeito a mudanças súbitas e voláteis, assim como a um declínio relativo, no longo prazo.
Taxas de câmbio caóticas significam que resta uma última solução, extremamente perigosa, para reforçar o poder relativo entre Estados: a guerra. A guerra é ao mesmo tempo intimidadora e remuneradora no curto prazo, ainda que seja devastadora humanamente e leve à exaustão, no longo prazo. De modo que, quando os Estados Unidos debatem como perseguir seus interesses na Síria ou no Afeganistão, é muito forte a pressão para ampliar o envolvimento militar, ao invés de reduzi-lo.
Não é, em suma, um cenário bonito. A questão, para os partidos políticos, é que não é um bom tempo para realizar eleições. Alguns partidos no poder estão começando a julgar que não deveriam realizá-las, ou ao menos evitar eleições que sejam, ainda que marginalmente, competitivas.
(fonte: http://outraspalavras.net/capa/a-democracia-em-declinio-e-os-tambores-da-guerra/)
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