quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Chomsky: 'Este é o momento mais crítico na história da humanidade'

Agustín Fernández Gabard e Raúl Zibechi - La Jornada

“Os Estados Unidos sempre foram uma sociedade colonizadora. Inclusive antes de se constituírem como Estado já trabalhavam para eliminar a população indígena, o que significou a destruição de muitas nações originárias”, como bem lembra o linguista e ativista estadunidense Noam Chomsky, quando se pede que descreva a situação política mundial. Crítico feroz da política externa de seu país, ele recorda 1898, quando ela apontou seus dardos ao cenário internacional, com o controle de Cuba, “transformada essencialmente numa colônia”, e logo nas Filipinas, “onde assassinaram centenas de milhares de pessoas”.

Chomsky continua seu relato fazendo uma pequena contra-história do império: “roubou o Havaí da sua população originária 50 anos antes de incorporá-lo como um dos seus estados”. Imediatamente depois da II Guerra Mundial, os Estados Unidos se tornaram uma potência internacional, “com um poder sem precedente na história, um incomparável sistema de segurança, controlando o hemisfério ocidental e os dois grandes oceanos. E, naturalmente traçou planos para tentar organizar o mundo conforme a sua vontade”.

Contudo, ele aceita que o poder da superpotência diminuiu com respeito ao que tinha em 1950, o auge da sua hegemonia, quando acumulava 50% do produto interno bruto mundial, muito mais que os 25% que possui agora. Ainda assim, Chomsky lembra que “os Estados Unidos continua sendo o país mais rico e poderoso do mundo, e incomparável a nível militar”.

Um sistema de partido único


Em algum momento, Chomsky comparou as votações em seu país com a eleição de uma marca de pasta de dentes num supermercado. “Nosso país tem um só partido político, o partido da empresa e dos negócios, com duas facções, democratas e republicanos”, proclama. Mas ele acredita que já não é possível continuar falando dessas duas velhas coletividades políticas, já que suas tradições sofreram uma mutação completa durante o período neoliberal.

Chomsky considera que “os chamados democratas não são mais que republicanos modernos, enquanto a antiga organização republicana ficou fora do espectro, já que ambas as vertentes se moveram muito mais à direita durante o período neoliberal – algo que também aconteceu na Europa”. O resultado disso é que os novos democratas de Hillary Clinton adotaram o programa dos velhos republicanos, enquanto estes foram completamente dominados pelos neoconservadores. “Se você olha os espetáculos televisivos onde dizem debater política, verá como somente gritam entre eles e as poucas políticas que apresentam são aterrorizantes”.

Por exemplo, ele destaca que todos os candidatos republicanos negam que o aquecimento global ou são céticos – não o negam mas dizem que os governos não precisam fazer algo a respeito. “Entretanto, o aquecimento global é o pior problema que a espécie humana terá pela frente, e estamos nos dirigindo a um completo desastre”. Em sua opinião, as mudanças no clima têm efeitos comparáveis somente com os da guerra nuclear. Pior ainda, “os republicanos querem aumentar o uso de combustíveis fósseis. Esse não é um problema de centenas de anos, mas sim um criado pelas últimas duas gerações”.

A negação da realidade, que caracteriza os neoconservadores, responde a uma lógica similar à que impulsiona a construção de um muro na fronteira com o México. “Essas pessoas que tratamos de distanciar são as que fogem da destruição causada pelas políticas estadunidenses”.

“Em Boston, onde vivo, o governo de Obama deportou um guatemalteco que viveu aqui durante 25 anos, ele tinha uma família, uma empresa, era parte da comunidade. Havia escapado da Guatemala destruída durante a administração de Reagan. A resposta a isso é a ideia de construir um muro para nos prevenir. Na Europa acontece o mesmo. Quando vemos que milhões de pessoas fogem da Líbia e da Síria para a Europa, temos que nos perguntar o que aconteceu nos últimos 300 anos para chegar a isto”.


Invasões e mudanças climáticas se retroalimentam


Há apenas 15 anos, não existia o tipo de conflito que observamos hoje no Oriente Médio. “É consequência da invasão estadunidense ao Iraque, que é o pior crime do século. A invasão britânica-estadunidense teve consequências horríveis, destruíram o Iraque, que agora está classificado como o país mais infeliz do mundo, porque a invasão cobrou a vida de centenas de milhares de pessoas e gerou milhões de refugiados, que não foram acolhidos pelos Estados Unidos, e tiveram que ser recebidos pelos países vizinhos pobres, obrigados a recolher as ruínas do que nós destruímos. E o pior de tudo é que instigaram um conflito entre sunitas e xiitas que não existia antes”.

As palavras de Chomsky recordam a destruição da Iugoslávia durante os Anos 90, instigada pelo ocidente. Assim como Sarajevo, ele destaca que Bagdá era uma cidade integrada, onde os diversos grupos culturais compartilhavam os mesmos bairros e se casavam membros de diferentes grupos étnicos e religiosos. “A invasão e as atrocidades que vimos em seguida fomentaram a criação de uma monstruosidade chamada Estado Islâmico, que nasce com financiamento saudita, um dos nossos principais aliados no mundo”.

Um dos maiores crimes foi, em sua opinião, a destruição de grande parte do sistema agrícola sírio, que assegurava a alimentação do país, o que conduziu milhares de pessoas às cidades, “criando tensões e conflitos que explodiram após as primeiras faíscas da repressão”.

Uma das suas hipóteses mais interessantes consiste em comparar os efeitos das intervenções armadas do Pentágono com as consequências do aquecimento global.

Na guerra em Darfur (Sudão), por exemplo, convergiram os interesses das potências ocidentais e a desertificação que expulsa toda a população às zonas agrícolas, o que agrava e agudiza os conflitos. “Essas situações desembocam em crises espantosas, e algo parecido acontece na Síria, onde se registra a maior seca da história do país, que destruiu grande parte do sistema agrícola, gerando deslocamentos, exacerbando tensões e conflitos”, reflete.

Chomsky acredita que a humanidade ainda não pensa com mais atenção sobre o que significa essa negação do aquecimento global e os planos a longo prazo dos republicanos, que pretendem acelerá-lo: “se o nível do mar continuar subindo e se elevar muito mais rápido, poderá engolir países como Bangladesh, afetando a centenas de milhões de pessoas. Os glaciares do Himalaia se derretem rapidamente, pondo em risco o fornecimento de água para o sul da Ásia. O que vai acontecer com essas bilhões de pessoas? As consequências iminentes são horrendas, este é o momento mais importante da história da humanidade”.

Chomsky crê que estamos diante um ponto crucial da história, no qual os seres humanos devem decidir se querem viver ou morrer: “digo isso literalmente, não vamos morrer todos, mas sim se destruiriam as possibilidades de vida digna, e temos uma organização chamada Partido Republicano que quer acelerar o aquecimento global. E não exagero, isso é exatamente o que eles querem fazer”.

Logo, ele cita o Relógio do Apocalipse, para recordar que os especialistas sustentam que na Conferência de Paris sobre o aquecimento global foi impossível conseguir um tratado vinculante, somente acordos voluntários. “Por que? Simples: os republicanos não aceitariam. Eles bloquearam a possibilidade de um tratado vinculante que poderia ter feito algo para impedir essa tragédia massiva e iminente, uma tragédia como nenhuma outra na história da humanidade. É disso que estamos falando, não são coisas de importância menor”.


Guerra nuclear, possibilidade certa


Chomsky não é de se deixar impressionar por modas acadêmicas ou intelectuais. Seu raciocínio radical e sereno busca evitar o furor, e talvez por isso não joga palavras ao vento sobre a anunciada decadência do império. “Os Estados Unidos possuem 800 bases ao redor do mundo e investe em seu exército tanto quanto todo o resto do mundo junto. Ninguém tem algo assim, soldados lutando em todas as partes do mundo. A China tem uma política principalmente defensiva, não possui um grande programa nuclear, embora seja possível que cresça”.

O caso da Rússia é diferente. É a principal pedra no sapato da dominação do Pentágono, porque “tem um sistema militar enorme”. O problema é que tanto a Rússia quanto os Estados Unidos estão ampliando seus sistemas militares, “ambos estão atuando como se a guerra fosse possível, o que é uma loucura coletiva”. Chomsky acredita que a guerra nuclear é irracional e que só poderia suceder em caso de acidente ou erro humano. Contudo, ele concorda com William Perry, ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, que disse recentemente que a ameaça de uma guerra nuclear hoje é maior que durante a Guerra Fria. O intelectual estima que o risco se concentra na proliferação de incidentes que envolvem as forças armadas de potências nucleares.

“A guerra esteve a ponto de ser deflagrada inumeráveis vezes”, admite ele. Um de seus exemplos favoritos é o sucedido sob o governo de Ronald Reagan, quando o Pentágono decidiu provar as defesas russas através de uma simulação de ataques contra a União Soviética.

“Acontece que os russos levaram a sério. Em 1983 depois que os soviéticos automatizaram seus sistemas de defesa, foi possível detectar um ataque de mísseis estadunidense. Nesses casos, o protocolo é ir direto ao alto mando e lançar um contra-ataque. Havia uma pessoa que tinha que transmitir essa informação, Stanislav Petrov, mas decidiu que era um alarme falso. Graças a isso, podemos estar aqui falando”.

Chomsky defende que os sistemas de defesa dos Estados Unidos possuem sérias falhas, e há poucas semanas se conheceu um caso de 1979, quando se detectou um ataque massivo com mísseis que vinham da Rússia. Quando o conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, estava levantando o telefone para chamar o presidente James Carter e lançar um ataque de represália, chegou a informação de que se tratava de um alarme falso. “Há cada ano são registradas dúzias de alarmes falsos”, assegura ele.

Neste momento, as provocações dos Estados Unidos são constantes. “A OTAN está realizando manobras militares a 200 metros da fronteira russa com a Estônia. Nós não toleraríamos algo assim se acontecesse no México”.

O caso mais recente foi a derrubada de um caça russo que estava bombardeando forças jihadistas na Síria, no final de novembro. “Há uma parte da Turquia quase rodeada pelo território sírio e o bombardeiro russo voou através dessa zona durante 17 segundos, até ser derrubado. Uma grande provocação que, por sorte, não foi respondida pela força”. Chomsky argumenta que fatos similares estão sucedendo quase diariamente no mar da China.

A impressão que ele tem, e que expressa em seus gestos e reflexões, é que se as potências agredidas pelos Estados Unidos atuassem com a mesma irresponsabilidade que Washington, o destino do planeta estaria perdido.


Visão sobre a Colômbia


O linguista estadunidense Noam Chomsky conhece de perto a realidade colombiana. Fiel ao seu estilo e suas ideias, ele visitou o país e sua diversidade, conheceu a Colômbia que existe longe dos focos acadêmicos e midiáticos, adentrou no Vale do Cauca, onde grupos indígenas constroem sua autonomia, com base em seus saberes ancestrais, atualizados em meio ao conflito armado.

“Parece haver sinais positivos nas negociações de paz”, reflete Chomsky. “A Colômbia tem uma terrível história de violência desde o século passado, a violência nos Anos 50 era monstruosa”, lembrou ele, reconhecendo que a pior parte foi obra de operações paramilitares. Mais recentes são as fumigações realizadas pelos Estados Unidos, verdadeiras operações de guerra química, que deslocaram populações enormes de camponeses, para beneficio das multinacionais.

Como consequência, a Colômbia se tornou o segundo país do mundo em número de migrantes dentro do próprio território, depois do Afeganistão. “Deveria ser um país rico, próspero, mas está se quebrando em pedaços”, agrega. Por isso, se as negociações tiverem sucesso, eliminarão alguns dos problemas, mas não todos. “A Colômbia, mesmo sem o problema da guerrilha, continuará sendo um dos piores países para os defensores dos direitos humanos, para líderes sindicais e outros”.

Um dos perigos que ele observa, no caso de que se assine o acordo definitivo de paz, seria a integração dos paramilitares ao governo, uma realidade latente no país. Ainda assim, ele sustenta que a redução do conflito com as FARC seria um grande passo para frente, por isso acredita que deve se fazer todo o possível para contribuir com o processo de paz.

Tradução: Victor Farinelli
(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Chomsky-Este-e-o-momento-mais-critico-na-historia-da-humanidade-/6/35471)

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Marcelo Monteiro: um escultor à margem do capitalismo

RUI BRAGADO DE SOUSA

Os pontos destacados acima – Realismo [pouco grotesco], a perda da Aura, o Surrealismo – são, a meu ver, os pontos-chave para a apreensão das esculturas e do pensamento de Monteiro. Mas não são os únicos devido à originalidade de Marcelo Monteiro, que tende a escapar de qualquer escola artística, constituindo assim seu próprio estilo, marcado pela revolta e melancolia. Se fosse possível condensar sua mensagem em uma imagem alegórica[8], diria que suas esculturas nos olham como a Medusa da mitologia grega. Mas trata-se de uma Medusa às avessas, em vez de petrificar aquele que a encara, as esculturas de Monteiro buscam justamente o inverso, isto é, devolver a aura ao ser materializado, ao autômato mecanizado, sem sentimentos... LEIA NA ÍNTEGRA: https://espacoacademico.wordpress.com/2016/01/30/marcelo-monteiro-um-escultor-a-margem-do-capitalismo-2/

O preso político que expõe o Império


Como uma comissão da ONU desmontou farsa montada para calar Julian Assange e o Wikileaks. Por que EUA, constrangidos, já não podem falar em “liberdade de expressão”
Por John Pilger | Tradução: Vinícius Gomes Melo

Uma das aberrações jurídicas mais épicas de nossa era está sendo desmascarado. O Grupo de Trabalho sobre Detenções Arbitrárias da ONU – o tribunal internacional que analisa e decide se os governos cumprem ou não suas obrigações em matéria de direitos humanos – julgou que Julian Assange está sendo detido ilegalmente pelo Reino Unido e a Suécia.

Após cinco anos lutando contra difamação impiedosa, Assange está mais próximo de obter justiça – e, quem sabe, liberdade – do que jamais esteve, desde que foi aprisionado em Londres sob um Mandato Europeu para Extradição, agora já desacreditado pelo próprio Parlamento britânico.

O Grupo de Trabalho da ONU baseia suas decisões na Convenção Europeia sobre Direitos Humanos e em três outros tratados de cumprimento obrigatório por seus signatários. Tanto o Reino Unido quanto a Suécia, participaram da investigação oficial da ONU, que durou 16 meses. Apresentando evidências e defendendo suas posições perante o tribunal. Será um tapa na cara do direito internacional se estes países não acatarem a decisão e permitirem que Assange deixe o refúgio oferecido pelo governo equatoriano em sua embaixada de Londres.

Em casos anteriores que o Grupo de Trabalho julgou, e foram festejados internacionalmente, ambos os países ofereceram seu apoiaram as decisões do tribunal sobre prisioneiros detidos ilegalmente. Foi o caso de Aung Sang Suu Kyi, em Myanmar; do líder oposicionista Anwar Ibrahim, na Malásia; e do jornalista do Washington Post Jason Rezaian, no Irã. A diferença agora é que a perseguição e confinamento de Assange acontece no coração de Londres.

O caso Assange nunca foi, primordialmente, sobre as alegações de má conduta sexual na Suécia – onde a chefe da promotoria de Estocolmo, Eva Finne, julgou a acusação improcedente, dizendo: “Eu não acredito que exista qualquer razão para suspeitar que ele tenha cometido estupro”. Além disso, uma das mulheres envolvidas acusou a polícia de fabricar evidências e forçá-la a prestar queixa, sendo que ela “não queria acusar Julian Assange de coisa alguma”. Foi quanto um segundo promotor, misteriosamente, reabriu o caso após intervenção política.

A perseguição a Assange tem suas raízes do outro lado Atlântico, numa Washington dominada pelo Pentágono. Sua obsessão é perseguir e acusar whistleblowers – especialmente Assange e o WikiLeaks — por terem exposto os crimes cometidos pelos EUA no Afeganistão e no Iraque: a matança desenfreada de civis e a violação da soberania dos países e da lei internacional. De acordo com a Constituição dos EUA, nenhuma dessas revelações é ilegal. Como candidato à presidência, em 2008, Barack Obama, professor de direito constitucional, afirmou que os whistleblowers são “parte de uma democracia saudável [e] devem ser protegidos contra qualquer vingança”.

Mas em seguida Obama, o traidor, perseguiu mais whistleblowers em seu governo, do que todos os outros presidentes norte-americanos juntos. A corajosa Chelsea Manning, que hoje cumpre 35 anos de prisão, foi torturada durante sua longa detenção pré-julgamento.

A perspectiva de um destino similar pairou sob Assange como uma espada de Dâmocles. De acordo com os documentos revelados por Edward Snowden, o nome de Assange está presente em uma “lista de alvos para caçada humana”. O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, classificou-o como “cyber-terrorista”. Em Alexandria, no estado da Virgínia, um tribunal secreto tentou fabricar algum crime pelo qual Assange pudese ser acusado. Apesar de ele não ser cidadão norte-americano, os EUA desencavaram a Lei de Espionagem, criada quase cem anos atrás, e a usaram para enquadrar Assange. Sob tal lei, um acusado pode ser condenado a prisão perpétua ou pena de morte.

A capacidade de Assange se defender nesse mundo kafkano foi prejudicada pelos EUA, que classificaram os autos de seu caso como segredo de Estado. Uma corte federal bloqueou a liberação de todas as informações sobre aquilo que é conhecido como a investigação para “segurança nacional” do WikiLeaks.
O papel de coadjuvante nesse jogo de cartas marcadas ficou para a segunda promotora sueca Marianne Ny. Até há pouco, Ny recusou-se a cumprir o procedimento de rotina europeu, que exige que ela viaje até Londres para interrogar Assange e, assim, dar prosseguimento ao caso que James Catlin, um dos advogados do jornalista, classificou como “uma piada… é como se eles fossem inventando as coisas com o passar do tempo”. De fato, antes mesmo de Assange deixar a Suécia e seguir para Londres, em 2010, Marianne Ny não realizou nenhuma tentativa de interrogá-lo. No anos que se seguiram, ela nunca conseguiu explicar apropriadamente, até mesmo para as autoridades jurídicas da Suécia, a razão pela qual não prosseguiu com o caso que reabriu de maneira tão entusiasmada – assim como nunca explicou por que se recusou a oferecer a Assange a garantia de que ele não seria extraditado para os EUA, sob um arranjo secreto entre Washington e Estocolmo. Em 2010, o periódico britânico The Independent revelou que os dois governos já haviam conversado sobre a extradição de Assange.

E então aparece o pequenino e bravo Equador. Uma das razões pela qual o país sul-americano ofereceu asilo político a Assange é o fato de o governo de seu próprio país, a Austrália, não ter lhe oferecido qualquer ajuda – à qual ele tinha o direito legal. O conluio da Austrália com os EUA, contra o seu próprio cidadão, tornou-se evidente em documentos secretos revelados; não existem vassalos mais leais aos EUA do que os políticos obedientes da Austrália.

Há quatro anos, em Sydney, eu passei várias horas com o Malcolm Turnbull, então um parlamentar liberal. Discutimos as ameaças a Assange e suas implicações mais graves contra a liberdade de expressão, assim como a justiça; e por que a Austrália tinha a obrigação de ficar ao seu lado. Turnbull é agora o primeiro-ministro australiano e, enquanto escrevo, está participando de uma conferência internacional sobre a Síria, tendo como anfitrião o primeiro-ministro britânico David Cameron, a apenas 15 minutos de distância do quarto onde Julian Assange viveu os últimos três anos e meio, na pequena embaixada equatoriana.

A conexão síria é relevante, ainda que pouco conhecida. Foi o WikiLeaks que revelou que os EUA planejavam há muito tempo derrubar o governo Assad, na Síria. Hoje, enquanto troca apertos de mãos, o primeiro-ministro Turnbull tem a oportunidade de trazer um mínimo de propósito e verdade para a conferência, falando abertamente sobre o aprisionamento ilegal de seu compatriota, a quem ele demonstrara tanta preocupação quando nos encontramos. Tudo o que ele precisa fazer é citar a decisão do Grupo de Trabalho em Detenções Arbitrárias da ONU. Ele irá recuperar, para a Austrália, ao menos essa ínfima reputação perante o mundo decente?

O que é certo é que o mundo decente deve muito a Julian Assange. Ele nos contou como o poder indecente se comporta em segredo; como mente, manipula e se engaja em enormes atos de violência, mantendo guerras que matam, mutilam e transformam milhões de pessoas nos refugiados que agora vemos na televisão. Apenas por isso, por nos contar essa verdade, Assange merece sua liberdade, ao passo que ter justiça é o seu direito.
(fonte: http://outraspalavras.net/capa/o-preso-politico-que-expoe-o-imperio/)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O novo estado da vigilância global

Leitoras e leitores: chamo a sua atenção especial para a nota, ao final, número 9, em que se fala da fotografia da posse de Obama. Cliquem lá e verão algo realmente impressionante!


Por Ignacio Ramonet | Tradução: Vinícius Gomes Melo

Em nossa vida cotidiana deixamos, constantemente, rastros que entregam nossa identidade, mostram nossos relacionamentos, reconstroem nossos deslocamentos, identificam nossas ideais, revelam nossos gostos, nossas escolhas e nossas paixões – incluindo as mais secretas. Por todo o globo, múltiplas redes de controle maciço não param de nos vigiar. Em todas as partes, alguém nos observa através de fechaduras digitais. O desenvolvimento da internet das coisas e a proliferação de objetos conectados (1) multiplicam a quantidade de todo o tipo de dedos-duros que nos rodeiam. Nos Estados Unidos, por exemplo, a empresa eletrônica Vizio, sediada em Irvine (California), fabricante de televisões inteligentes conectadas a internet, revelou recentemente que seus aparelhos espionavam seus usuários através de dispositivos tecnológicos incorporados aos produtos.
Essas TVs gravam tudo o que seus espectadores consomem em matéria de programas audiovisuais: os programas em canais a cabo, o que é assistido em DVD, os pacotes de acesso a internet ou até mesmo os games… Dessa maneira, a Vizio pode saber tudo sobre o que seus clientes preferem em matéria de lazer audiovisual. E, consequentemente, pode vender essas informações a empresas publicitárias que, por meio da análise dos dados recolhidos, conhecerão com precisão os gostos de seus usuários e estarão em melhor posição para tê-los sob suas miras (2).
Por si só, essa não é uma estratégia diferente daquela que, por exemplo, o Facebook e o Google utilizam frequentemente para conhecer seus internautas e oferecer uma publicidade ajustada aos seus supostos gostos. Recordemos que, em 1984 de George Orwell, os televisores – obrigatórios em cada residência – “viam”, em suas telas, o que as pessoas faziam. (“Agora podemos vê-los!”). E a questão obrigatória hoje, diante da existência de aparelhos como os da Vizio, é saber se estamos dispostos a aceitar que nossa televisão nos espione.
A julgar pela denúncia apresentada, em agosto de 2015, pelo deputado californiano Mike Gatto contra a sul-coreana Samsung, parece que não. A empresa foi acusada de também equipar seus novos televisores com um microfone oculto, capaz de gravar as conversas dos telespectadores, sem que estes soubessem, e de transmiti-las a terceiros (3)… Mike Gatto, que preside a Comissão de Proteção ao Consumidor e da Privacidade na Câmara Estadual, apresentou um proposta de lei proibindo que televisões espionassem as pessoas.
De maneira contrária, Jim Dempsey, diretor do centro de Direito e Tecnologias, na Universidade da California, acredita que os televisores-espiões irão proliferar: “A tecnologia permitirá analisar os comportamentos das pessoas. E isso não será interessante apenas para os publicitários. Também permitirá avaliações psicológicas ou culturais, que, por exemplo, interessarão também às companhias de seguro”. Sobretudo, se se considera que as empresas de recursos humanos e de trabalhos temporários já utilizam sistemas de análise de voz para estabelecer um diagnóstico psicológico imediato das pessoas que lhes telefonam em busca de emprego…
Espalhados por todas as partes, os detectores de nossas ações e atitudes abundam o nosso entorno. Sensores registram a velocidade de nossos movimentos ou de nossos itinerários; tecnologias de reconhecimento facial memorizam o formato de nossos rostos e criam, sem que saibamos, bases de dados biométricos de cada um de nós… Isso sem falar dos novos de chips de identificação por radiofrequência (RFID, sigla em inglês) (4), que, automaticamente, descobrem nosso perfil de consumo, assim como fazem os “cartões de fidelidade” que a maioria dos grandes supermercados e grandes marcas oferecem de maneira generosa.
Já não estamos sozinhos frente ao nosso computador. Quem, a essa altura, duvida que estão examinando e filtrando nossas mensagens eletrônicas, nossas pesquisas de internet, nossas conversações nas redes sociais? Cada clique, cada telefonema, cada compra no cartão de crédito e cada navegação na internet, fornecem excelentes informações sobre cada um de nós, que são entregues e analisadas por um império operando nas sombras a serviço de corporações comerciais, empresas publicitárias, entidades financeiras, partidos políticos ou autoridades governamentais.
O necessário equilíbrio entre liberdade e segurança corre, portanto, o perigo de se romper. No filme 1984, baseado na obra de Orwell e dirigido por Michael Radford, o presidente supremo, chamado Big Brother, definia assim sua doutrina: “A guerra não tem por objetivo ser vencida, seu objetivo é continuar”, e: “A guerra é feita pelos mandatários contra seus próprios cidadãos, e tem, por objetivo, manter intacta a estrutura dessa mesma sociedade” (5). Dois princípios que, estranhamente, são a ordem do dia em nossas sociedades contemporâneas. Com o pretexto de proteger toda a sociedade, as autoridades enxergam em cada cidadão um potencial infrator. A guerra permanente (e necessária) contra o terrorismo lhes proporciona o álibi moral perfeito e favorece a construção de um impressionante arsenal de leis para estabelecer o controle social total.
Além disso, deve-se levar em conta que crises econômicas inflam o descontentamento social; que, aqui ou ali, podem tomar a forma de revoltas entre cidadãos, levantes de camponeses ou rebeliões nas cidades. Mais sofisticadas que os cassetetes e os jatos de água das forças de segurança, as novas armas de vigilância permitem identificar melhor seus líderes e tirá-los de cena antecipadamente.
As autoridades nos dizem: Haverá menos privacidade e menos respeito pela vida particular, mas haverá mais segurança”. Mas em nome desse imperativo instala-se, de maneira furtiva, um regime de segurança que podemos classificar como “sociedade de controle”. Em seu livro “Vigiar e Punir”, o filósofo Michel Foucault explica como o “Panótico” (“o olho que tudo vê”) (6) é um dispositivo arquitetônico que cria uma “sensação de onisciência invisível” e permite que os guardas vigiem sem serem vistos dentro da prisão. Atualmente, o princípio do “panótico” é aplicado a toda sociedade.
Na prisão, os detidos expostos permanentemente à mirada oculta dos “vigilantes”, vivem com o temor de serem flagrados cometendo alguma falta. Isso os leva a se autodisciplinarem… Podemos deduzir que o princípio organizador de uma sociedade disciplinária é o seguinte: estabelecendo-se uma vigilância ininterrupta, as pessoas acabam por modificar seus comportamentos. Como afirma Glenn Greenwald, “as experiências históricas demonstram que a simples existência de um sistema de vigilância em grande escala, seja qual for a maneira pela qual é utilizada, é o suficiente para reprimir dissidentes. Uma sociedade consciente de estar permanentemente vigiada torna-se, por consequência, mais dócil e amedrontada”. (7)
Hoje em dia, o sistema panótico foi reforçado com uma particular novidade em relação às sociedades de controle anteriores, que confinavam as pessoas consideradas antissociais, marginais, rebeldes ou inimigas em lugares de privação fechada: prisões, reformatórios, manicômios, asilos, campos de concentração, etc. Nossas sociedades de controle modernas oferecem uma aparente liberdade a todos os suspeitos (ou seja, a todos cidadãos), enquanto os mantêm sob permanente vigilância eletrônica. A contenção digital sucedeu a contenção física.
Às vezes, essa vigilância constante também acontece com a ajuda de dedos-duros tecnológicos que adquirimos “livremente”: computadores, telefones celulares, tablets, bilhetes eletrônicos para transportes públicos, cartões de crédito inteligentes, cartões de fidelidade, aparelhos GPS, etc. Por exemplo, o portal Yahoo!, que cerca de 800 milhões de pessoas consultam regular e constantemente, captura uma média de 2.500 rotinas de cada um de seus usuários por mês.
o Google, cujo número de usuários é maior que 1 bilhão, dispõe de um impressionante número de sensores para espionar o comportamento de cada usuário (8): o buscador Google Search, por exemplo, permite saber onde o internauta se encontra, o que ele busca e em que momento. O navegador Google Chrome, um mega-dedo-duro, envia diretamente para a Alphabet (a empresa matriz do Google) tudo o que o usuário faz quando navega na internet. O Google Analytics elabora estatísticas muito precisas sobre a navegação dos usuários na rede. O Google Plus recolhe informações complementárias e as mescla. O Gmail analisa a correspondência trocada – o que revela muito sobre o remetente e seus contatos. O serviço DNS (Sistema de Nome de Domínio) do Google analisa os sites visitados. O YouTube, o serviço de vídeos mais visitados do mundo, que também pertence a Google – e portanto, à Alphabet – registra tudo o que fazemos em seu interior. O Google Maps identifica o lugar em que nos encontramos, para onde vamos, quando e por qual itinerário… AdWords sabe o que queremos vender ou promover.
E desde o momento em que ligamos um smartphone que opera com Android, o Google sabe imediatamente onde estamos e o que estamos fazendo. Ninguém nos obriga a utilizar o Google, mas quando o fazemos, eles sabem tudo sobre nós. E, segundo Julian Assange, imediatamente informa as autoridades dos Estados Unidos….
Em outras ocasiões, os que espionam e rastreiam nossos movimentos são sistemas dissimulados ou camuflados, semelhantes aos radares nas avenidas, os drones ou as câmeras de vigilância (também chamadas de “videoproteção”). Esse tipo de câmera tem se proliferado tanto que, por exemplo, no Reino Unido – onde existem mais de 4 milhões dela, uma para 15 habitantes – um pedestre pode ser filmado em Londres até 300 vezes ao dia. E as câmeras de última geração, com a Gigapan, de altíssima definição (mais de um bilhão de pixels) permitem obter, com apenas uma fotografia e através de um poderoso zoom que entra na própria fotografia – a ficha biométrica do rosto de cada uma das milhares de pessoas presentes em um estádio, um comício ou uma manifestação política. (9)
Apesar de existirem sérios estudos, que já demonstraram a fraca eficiência da videovigilância (10) em matéria de segurança, esta técnica segue sendo ratificada pelos grandes meios de comunicação. Uma parte da opinião pública acaba por aceitar a restrição de suas próprias liberdades: 63% dos franceses declaram estar dispostos a uma “limitação das liberdades individuais na internet, por conta da luta contra o terrorismo”. (11).
O que demonstra haver, ainda, muita margem de submissão a ser explorada pelos que nos vigiam….

(1) A expressão “objetos conectados” refere-se àqueles cuja missão principal não é apenas a de ser periféricos informáticos ou interfaces de acesso à web, mas agregar, graças a uma conexão com a internet, valor adicional em termos de funcionalidade, informação, interação com o entorno ou de uso (Fonte: Dictionnaire du Web)
(2) El País, 2015
(3) A partir de então, a Samsung anunciou que mudaria sua política, e assegurou que o sistema de gravação instalado em seus televisores só seria ativado quando o usuário apertasse o botão de gravação
(4) Que já são parte de muitos dos produtos habituais de consumo, assim como os documentos de idenbtidade.
(5) Michael Radford, 1984
(6) Inventado em 1791 pelo filósofo utilitarista inglês Jeremy Bentham.
(7) Glenn Greenwald, Sem lugar para se esconder, Editora Sextante, 2014.
(8) Ver “Google et le comportement de l’utilisateur”, [“Google e o comportamento do utilizador”], AxeNet.

(9) Ver, por exemplo, a fotografia da cerimônia da primeira posse do presidente Obama, em Washington, 20/1/2009.
(10) “Assessing the impact of CCTV” [“Avaliando o impacto da CCTV”], o mais completo dos informes dedicados ao tema, publicado em fevereiro de 2005 pelo ministério do Interior britânico (Home Office), marca um ponto contra a videovigilância. Segundo este estudo, a debilidade do dispositivo deve-se a três elementos: a execução técnica, a ambição extrema dos objetivos pretendidos e o fator humano. Ver Noé Le Blanc, “Sous l’oeil myope des caméras”, Le Monde Diplomatique, Paris, setembro de 2008.
(11) Le Canard enchaîné, Paris, 15/4/2015

(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/o-novo-estado-da-vigilancia-global/)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Assim agem os mega-bilionários

Gráfico da Oxfam revela crescimento acelerado da desigualdade. Em 2010, eram necessários 388 mega-bilionários para igualar a riqueza de metade da população do planeta. Em 2015, este número já havia caído para 58
Gráfico da Oxfam revela crescimento acelerado da desigualdade. Em 2010, eram necessários 388 mega-bilionários para igualar a riqueza de metade da população do planeta. Em 2015, este número caiu para 62

Retrato de um sistema em degradação moral: nove das dez pessoas mais ricas do mundo estão envolvidas com trabalho escravo e infantil, superexploração, espionagem e patrocínio de golpes de Estado
Por Mauro Lopes, editor do blog Caminho pra casa

Teve grande repercussão o estudo divulgado pela OXFAM segundo o qual 1% das pessoas mais ricas do mundo detêm mais riqueza que as demais 99%. No mesmo estudo, indicou-se que apenas 62 multimilionários têm riqueza equivalente à da metade da população do planeta. Veja aqui a íntegra do estudo em português. Agora, um conselheiro da entidade, que reúne 17 organizações não-governamentais, o russo Mikhail Maslennikov demonstrou como essa concentração é fruto de ação meticulosa das elites globais – veja a entrevista em português, veiculada pelo Outras Palavras clicando aqui.

A BBC Brasil apresentou em reportagem quem são os 62 multimilionários que controlam metade da riqueza mundial – leia aqui se quiser. Na reportagem da BBC há algo que é uma febre nas redes: listas. O texto apresentou os “Top Ten”, os 10 mais ricos. É uma lista reveladora do caráter do capitalismo. Da dezena listada, nove são conhecidos por práticas que incluem uso de mão de obra escrava, superexploração de trabalhadores e espionagem a serviço da agência americana de segurança (NSA).O sistema ideológico do capitalismo enfia na cabeça e coração das pessoas histórias de “heróis” que fizeram fortuna com base em sua criatividade, genialidade, perseverança, intuição… É o que nos é vendido na mídia tradicional, pelo sistema escolar e acadêmico dominante, consultorias, publicidade… Mas os pés de barro desses “gigantes” ficam ocultos.
Vejamos a lista dos “10 mais”:

1. Bill Gates (US$ 79 bi) – a Microsoft é alvo de seguidas denúncias de uso de mão de obra em condições análogas à escravidão na Ásia, além de uso de crianças nas linhas de montagem – leia aqui.

2. Carlos Slim (US$ 77 bi) – empresas do império de telecomunicações do mexicano têm sido acusadas de condições degradantes de trabalho, especialmente em terceirizadas sob sua contratação, inclusive no Brasil – leia aqui.

3. Warren Buffet (US$ 72,7 bi) – é um ícone dos defensores do capitalismo, endeusado por eles, logo depois do “primeiro deus” (o dinheiro, claro). Fez sua fortuna investindo em empresas ao redor do mundo. Em 2015, sua holding firmou parceria com a 3G Capital, uma dessas empresas de fusões e aquisições ao estilo das mais selvagens dos anos 80: sua especialidade é fundir empresas e cortar milhares e milhares de pessoas. Buffet chegou a confrontar-se com acionistas de sua holding para defender as práticas de sua nova sócia – leia aqui.

4. Amancio Ortega (US$ 64,5 bi) – a Zara e outras empresas de Ortega são as líderes mundiais da chamada “fast fashion” (moda rápida), baseada em uso de mão de obra em condições análogas à escravidão no Brasil, Ásia e África – leia aqui.

5. Larry Ellison (US$ 54 bi) – sua empresa, a Oracle, está sob investigação na China pela acusação de ter colaborado com a NSA (agência de segurança do governo americano) no hackeamento das redes de universidades chinesas e de Hong Kong, do Ministério de Segurança Pública e do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento do Conselho de Estado – leia aqui.

6. Charles Koch (US$ 42,9 bi) – ele e seu irmão David, proprietários de empresas de petróleo e outras, são grandes financiadores das articulações de direita golpistas na América Latina, de cientistas que se opõem às evidências do aquecimento global e do livre porte de armas – leia aqui.

7. David Koch (US$ 42,9 bi) – irmão de Charles, o sexto da lista.

8. Christy Walton (US$ 41,7 bi) – os irmãos Walton, controladores da Walmart (terceira maior empresa do planeta) implantaram desde sua fundação, em 1962, uma política de salários irrisórios e veto a qualquer tentativa de organização de seus trabalhadores –leia aqui.

9. Jim Walton (US$ 40,6 bi) – irmão de Christy, a oitava da lista.

10. Liliane Bettencourt (US$ 40,1 bi) – a L’Oreal e sua controladora são as únicas sobre as quais não pesam acusações/evidências de maus tratos às pessoas ou ação contra seus direitos.

O caráter do capitalismo pelos seus “ídolos”.
Por fim, uma leitura imperdível se você quer entender o processo de concentração da renda e a impossibilidade de uma solução de paz e humana no contexto do capitalismo Um artigo do professor Ronaldo Herrlein Jr. Da UFRGS – leia aqui.

(fonte: http://outraspalavras.net/blog/2016/01/28/assim-agem-os-mega-bilionarios/)

As razões da tempestade na Saúde

O que a explosão de dengue e zika, e a ação de um ministro caricaturesco, têm a ver com a tentativa de desmontar o SUS e os ecos do “ajuste fiscal”
Por Guilherme Boulos 

O caos na saúde não é propriamente uma novidade no Brasil. Mas este início de 2016 parece superar todas as expectativas. O surto do zika vírus, trágico por si, encontrou um ministro da Saúde despreparado e capaz de pérolas como “vamos torcer para que mulheres antes de entrar no período fértil peguem o zika”.

A indicação, na contramão da Reforma Psiquiátrica, do ex-diretor do maior manicômio privado da América Latina, Valencius Wurch, para a coordenação da Saúde Mental do Ministério e o fechamento das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e hospitais no Rio de Janeiro, por falta de verba, dão as cores da paisagem. O quadro é desastroso.

Na hora que a crise estoura aparece, enfim, a discussão das responsabilidades. De tanto ser repetida, já tornou-se senso comum a tese de que o problema do SUS é de gestão: sobrariam recursos, faltaria competência administrativa.

No entanto, até mesmo o Banco Mundial –que não é bem um entusiasta de gastos sociais – reconhece que há verba de menos no país em ações de saúde: o Brasil gasta em média 525 dólares anuais por habitante. A Argentina, 721; o Uruguai, 1.000 e o Canadá mais de 4.000 dólares por habitante. O que temos é uma granja com galinhas subnutridas e gente dizendo que faltam ovos por falta de gestão “eficiente”.
E, para resolver o “problema de gestão”, defendem entregar o galinheiro na mão das raposas, isto é, ao limpinho e cheiroso setor privado. Triste dizer, mas os defensores da privatização da saúde chegaram atrasados. A solução que defendem já é amplamente aplicada e representa parte da crise de financiamento da saúde pública brasileira.

O repasse de dinheiro pelo governo para a gestão privada na saúde é prática sistemática, particularmente através das organizações sociais (OS). Os problemas de atendimento permanecem e frequentemente as OS protagonizam escândalos de desvios de verba pública, como o caso dos irmãos Wagner Pelegrini e Walter Pelegrini Júnior, donos da Organização Social Biotech (gestora de hospitais públicos do Rio de Janeiro), que foram presos no mês passado acusados de fraudar R$48 milhões.

No geral, o setor privado ocupa mais da metade do gasto com saúde no Brasil (51%) e movimenta mais de R$230 bilhões, segundo o Ministério da Saúde e a ANS — mas atende apenas um quarto dos brasileiros.
Atendimento seletivo e estimulado por recursos públicos. O pesquisador Carlos Ocké-Reis mostrou que, com a renúncia fiscal dos planos de saúde, o Estado deixa de arrecadar R$ 18,3 bilhões em um ano (os dados são de 2012). O montante representa 23% dos R$ 80 bilhões aplicados pelo Ministério da Saúde no mesmo ano.

Sem falar no calote sistemático do ressarcimento obrigatório ao SUS, pago pelos planos com clientes atendidos em serviços públicos de saúde. Em maio de 2015, o ex-ministro Arthur Chioro afirmou que o valor total do ressarcimento a ser cobrado era de R$1,4 bilhão. Quem deveria cobrar o pagamento é a Agência Nacional de Saúde Suplementar, responsável por regular e fiscalizar a saúde privada no país.

O diretor da ANS é José Carlos Abrahão, que em 2010 se posicionou na Folha de S.Paulo contra o ressarcimento. Não é de se estranhar a mixaria que o SUS recebe dos planos, mesmo o pagamento sendo previsto por lei. Abrahão foi antes presidente da Confederação Nacional de Saúde, que representa estabelecimentos privados de saúde, incluindo as operadoras de planos. É a raposa cuidando do galinheiro.
O agravamento da crise na saúde pública se deve ao financiamento insuficiente do SUS pelo Governo, combinado com a crescente escalada privatista.

A queda na arrecadação da União, estados e municípios deve piorar ainda mais o problema ao longo de 2016. O investimento público diminuirá, impactando a já combalida oferta do serviço. E a demanda de atendimentos pelo SUS já tem aumentado – e deverá crescer ainda mais – devido ao desemprego e à redução da massa salarial, que levam a uma migração de clientes dos planos privados.

Redução da oferta, aumento da demanda e predomínio da lógica da “saúde como negócio”. Temos aí a tempestade perfeita. Trocar o ministro – apesar de necessário – não resolverá o problema.

Viagem insólita à periferia dos EUA


Retratos da Desigualdade: em Baltimore, 25% da população está abaixo da linha de pobreza; índice de homicídios é duas vezes maior que no Rio; polícia agride negros e há bizarros “desertos de comida”
Por Pedro Abramovay, no Quebrando o Tabu |


A cerca de 40 minutos de trem da capital dos EUA e um pouco mais de duas horas de Nova York fica a cidade de Baltimore, capital do estado de Maryland.
Acabo de sair de lá depois de um dia bastante intenso visitando projetos da Fundação Open Society na cidade.

Logo de manhã ouvi o depoimento de uma moça chamada Jabria. Jabria, quando tinha 16 anos, estava discutindo com sua avó. A avó teve um ataque do coração durante a discussão. Jabria foi presa, em um estabelecimento para adultos, por homicídio. Após cerca de um ano experimentando todo tipo de violências no cárcere, Jabria poderia ter direito a liberdade condicional. O pedido foi negado pelo juiz pelo fato de Jabria ter tido mais de 30 suspensões na escola. As suspensões foram ocasionadas por Jabria chegar na escola com o uniforme sujo, pois sua avó não a deixava lavar o uniforme quando elas discutiam.
Jabria hoje lidera uma iniciativa contra a prisão de adolescentes nos Estados Unidos e sabe que histórias como essa são a regra na sua comunidade.

Depois fui a uma escola. Uma escola que, como todas as outras nos bairros pobres de Baltimore convivia com altos níveis de violência, de suspensão de alunos e, não surpreendentemente, péssimos resultados acadêmicos.

Vale dizer que, até recentemente, Baltimore distribuía seus recursos educacionais da mesma forma perversa com que esses recursos são distribuídos na maioria dos EUA. A escola recebe impostos de acordo com a arrecadação de IPTU no bairro em que ela fica. Assim, escolas de bairros ricos recebem uma enormidade de recursos públicos. Em bairros pobres, vivem na miséria. Felizmente, após uma batalha judicial, foi possível mudar isso em Baltimore.

Fiquei muito impressionado ao entrar na escola. Cinquenta anos após os movimentos contra a segregação racial nos EUA, todos, todos, os alunos na escola são negros. O trabalho de justiça restaurativa feito na escola em que eu fui era incrível. As brigas caíram, as suspensões praticamente acabaram e os níveis acadêmicos melhoraram muito. Mas isso ainda é uma gota no oceano em um bairro onde 1/3 dos alunos foram suspensos no ano passado.

Depois da escola fui a uma igreja, ver o trabalho social que eles faziam. Uma senhora, especialista em segurança alimentar, me explicou que um dos maiores problemas da cidade, que contabiliza 25% dos seus habitantes abaixo da linha de pobreza, eram os food deserts (algo como desertos de comida). Áreas da cidade nas quais os moradores não têm acesso a comida. Não há um supermercado ou uma loja que venda comida em um raio de mais de 8 quilômetros. O sistema de transporte público é precário. Assim, as pessoas têm que andar grandes distância para ter acesso a comida. Muitas vezes elas não fazem isso. E acabam comprando Doritos e balas na loja da esquina para alimentar suas famílias, gastando muito mais do que gastariam se comprassem alimentação decente. Ou, simplesmente, passam fome.

Vale lembrar que essa é uma cidade na qual o comparecimento eleitoral chega a 17% da população com idade de votar. O voto, como em todos os EUA, é facultativo.

A taxa de homicídios em Baltimore é altíssima (55 por 100.000 habitantes), equivalente à taxa de cidades da baixada fluminense. Mais que o dobro da taxa do Rio de Janeiro.

Em abril, a polícia matou um rapaz, negro, chamado Freddie Gray. Jovens negros incendiaram a cidade em protesto.

Esse panorama é fundamental para que possamos entender que o capitalismo norte-americano não pode ser visto como um modelo a ser replicado. Baltimore não é um caso isolado nos EUA, não é um acidente. Baltimore é produto de uma sociedade desigual, racista, violenta, injusta e pouco democrática.
Atualmente, sempre que alguém faz um comentário em defesa de mais justiça social, rapidamente ouve-se a resposta: Vai pra Cuba! Não considero Cuba um modelo a ser seguido pelo Brasil. Mas um dia em Baltimore reforçou a ideia de que o modelo de sociedade baseado em um Estado que pune adolescentes, que fortalece o capital privado na decisão de como alocar recursos públicos, que ignora as desigualdades raciais, que acha que o voto facultativo salva a política, esse modelo de sociedade defendido por tanta gente raivosa na internet e inspirada nos EUA. Esse modelo não nos leva ao mundo mágico da Disneyworld. Esse modelo nos leva a Baltimore.

E não vou responder aos #vaipraCuba! que eu ouço com um #vaipraBaltimore. A Baltimore que eu conheci hoje não desejo para ninguém.

Talvez seja difícil saber o que queremos para o Brasil. Mas certamente começar o debate sabendo que não queremos ser nem Cuba nem Baltimore já seria um bom começo.
(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=265412)