sábado, 13 de fevereiro de 2016

Crise mundial: petróleo derrete, republicanos celebram o carvão

por Najar Tubino

O capitalismo esclerosado está em convulsão mais uma vez. As maiores petrolíferas do mundo demitiram mais de 100 mil pessoas em 2015, 30 mil somente na Noruega. O gás de xisto, considerada a última maravilha do neoliberalismo dá sinais de falência literal – as empresas prestadoras de serviço como Saipem, Schlumberger, Weatherford, Baker and Hughes e Halliburton foram responsáveis por quase 50 mil demissões. Isso no ano passado e o setor de petróleo e gás se prepara para a segunda onda de demissões, corte de investimentos e fechamentos de poços em 2016. Em 10 anos, os bancos dos Estados Unidos emprestaram US$1 trilhão para estas empresas. Como forma de multiplicar os lucros, fatiaram os negócios e venderam ao mercado. As agências de classificação como Standard & Poors e Moody’s rebaixaram as notas de empresas como Chevron e Shell, além de outras dez menos conhecidas. A ExxonMobil, maior petrolífera do mundo está ameaçada de perder o AAA.

Incluindo a BP, do Reino Unido, todas estão cortando despesas, tiveram queda no faturamento e reduziram os lucros, desde o ano passado. A Exxon em 20%, a Shell em 57%, a Chevron em 30%. A redução de investimentos alcançará mais de 75 bilhões de dólares – em 2015 foi de US$595 bilhões e a previsão para 2016 é que não passe de US$520 bilhões. Mas este ainda não é o maior problema, além da redução histórica nos preços do barril do petróleo. Os contratos na Bolsa Mercantil de Nova York com vencimento em março apontam para uma cotação do petróleo leve (WTI) a US$27,94 e o Brent, usado como referência na Europa, a US$30,51.

Bolsas já perderam US$15 trilhões

As petrolíferas precisam de dinheiro até abril para pagar US$31 bilhões em dividendos aos seus acionistas, principalmente fundos de pensão, aposentados e fundos especulativos que têm nas ações da Exxon, Shell, BP, Crevron e Conocophilips uma garantia de renda anual. A Exxon aumenta os dividendos há 33 anos seguidos e a Shell desde 1945 não deixa de pagá-los. Entretanto, os títulos e ações do setor de petróleo e gás se arrastam no tufão que tomou conta das bolsas no mundo inteiro, em 2016 já perderam US$15 trilhões. O setor do fracking dos Estados Unidos tem um déficit de US$169 bilhões – em 2010 era de US$81 bilhões.

Existem mais de um milhão de poços de exploração de gás de xisto nos Estados Unidos – a rocha sedimentar que tem entre 5 e 10% de betume, que a criatividade industrial suga através da injeção de água misturada com areia e fluídos de hidrocarbonetos como benzeno, tolueno e etil benzeno, ou até mesmo óleo diesel. São 240 bilhões de litros de água poluídas que saem desses poços, sem contar o metano liberado na atmosfera.

Sim, nós mandamos

Para coroar a convulsão perfeita do mercado, a Suprema Corte dos Estados Unidos, numa contagem de 5 a 4 – cinco conservadores, segundo a mídia – trancou o Plano de Energia Limpa do presidente Barack Obama, que está ameaçado de entrar para a história como o maior demagogo do planeta, ao anunciar na COP 21 que os Estados Unidos cortariam 32% das emissões de gases das usinas de eletricidade, a maioria movida a carvão até 2030. O refrão “sim, nós podemos”, virou “sim, nós mandamos” dos republicanos como Paul Ryan, presidente da Câmara dos Deputados que pretende enterrar definitivamente a pretensão de Obama.

“- Essa regulação deve ser derrubada de forma permanente, antes que a indústria de carvão seja completamente destruída e os consumidores americanos sejam condenados a pagar mais caro pela energia”, disse ele, depois do anúncio da Suprema Corte, que ainda passará por uma revisão em junho num Tribunal de Recursos do Distrito de Colúmbia.

Ninguém sabe o que acontecerá em 2016

O poder conservador mostra que não está nem aí para o aquecimento global ou o que o restante da humanidade pensa sobre o grave problema que afeta os sete bilhões de habitantes. Foi uma decisão inusitada, a toque de caixa, para repercutir na campanha presidencial, e mostrar ao mundo que os Estados Unidos não estão nem um pouco interessados em abrir mão do seu estilo – carro, sanduíche gorduroso, obesidade e prepotência.

Mesmo assim o mercado continua derretendo. A briga entre Arábia Saudita e Irã é apenas uma face do problema. No rolo atual todos estão jogando mais petróleo no mercado, o Iraque vende a 25 dólares o barril para a Ásia, Noruega e Canadá vendem a 22 dólares. Não há mais parâmetro. Nenhum banco consegue prever petróleo custando mais do que 60 dólares durante 2016. A Agência Internacional de Energia prevê um milhão de barris dia a mais no mercado este ano e considera que o ponto de equilíbrio entre oferta e demanda ocorrerá em 2019.

Fracking é a última bolha especulativa

A questão é que as previsões são viciadas, na verdade ninguém está entendendo o que acontece. Desde 2012, a AIE anuncia uma previsão de consumo acima de 90 milhões de barris/dia no mundo. Em 2015 deveria ser 92 milhões de barris/dia. Não há informação de quanto foi consumido no ano passado, com a queda no consumo da China e a recessão na Europa e nos países emergentes. Pior: a previsão da Agência Internacional de Energia é para um consumo de 120 milhões de barris/dia em 2020, ou seja, daqui quatro anos. Na realidade as previsões escondem as intenções do mercado de continuar vendendo petróleo, combustível, carros, ou seja, perpetuando o ciclo do combustível fóssil, que os 195 países presentes na COP 21 recentemente fizeram juras para mudar, depois de 2020.

O “milagre” americano do fraturamento hidráulico é a última bolha especulativa do capitalismo esclerosado, os últimos estudos de várias universidades americanas apontam para a queda na produção antes de 2020. O analista da Moody’s, Terry Marshall declarou ao Financial Times “que o mercado de capitais tem sido tão forte e tão aberto para as empresas de petróleo e gás que muitas delas acabaram criando um monte de dívidas”. O filme é o mesmo de 2008, agora azar é de quem ficou com o mico nas mãos, no caso os títulos fatiados dos empréstimos das empresas do setor que vão virar pó. O diretor de pesquisa de Commodities do Citi Group na mesma matéria do FT disse:

“- Assim como o mercado de capitais guiou a indústria a um crescimento espetacular, o setor financeiro vai conduzi-la à consolidação e a contração”.
(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/Crise-mundial-petroleo-derrete-republicanos-celebram-o-carvao/3/35484)

Debate sobre a Base Nacional Comum Curricular


A ANPUH MG está participando dos debates em torno dos conteúdos de História presentes na BNCC.

No próximo dia 17/02 a entidade irá promover a Jornada de Ensino de História da ANPUH MG "A Base Nacional Comum Curricular em Debate".

A programação e demais informações estão disponíveis em nossa página: http://goo.gl/IkLlXq

O evento será gravado e os vídeos disponibilizados no canal do YouTube da ANPUH Nacional.

Att,

ANPUH MG
Gestão 2014/2016

--
Associação Nacional de História - ANPUH
Seção Minas Gerais

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Mudar Guantánamo — mas só de endereço…

Para salvar imagem, Obama pode transferir presos encarcerados na base infame. Planeja, porém, mantê-los na condição de condenados eternos, sem julgamento ou direito à defesa
Por Luis Matías López | Tradução: Inês Castilho

Barack Obama não quer passar para a história como um presidente cheio de boas intenções, algumas conquistas importantes (reforma da saúde, normalização das relações com Cuba, acordo nuclear com o Irã…), mas com a coluna de créditos do seu balanço mais curta do que o saldo devedor (incapacidade de impedir a emergência do Estado Islâmico, internacionalização do terrorismo jihadista, guerras de Bush falsamente encerradas, graves tensões com a Rússia…).

No afã do presidente norte-americano para salvar seu legado há uma questão de alto valor simbólico, porque supõe o sonoro e midiático descumprimento da promessa de fechar o cárcere vergonhoso de Guantánamo, na base de mesmo nome localizada em Cuba. Sua ocupação resulta do direito colonial rançoso, anterior à revolução cubana, e não do livre acordo entre aliados –, já que Havana não desistiu de sua reivindicação estéril para recuperar essa parte do país.

Além do alto valor estratégico de manter forte presença militar num país vizinho que os EUA não conseguiram submeter, em 57 anos, Guantánamo brindou tanto Bush como Obama com uma saída perfeita para reter, em condições frequentemente sub-humanas e já há 14 anos, centenas de combatentes inimigos, sem ter de reconhecer o direito de serem considerados inocentes até prova em contrário.

Obama sustenta que a culpa não é sua, mas de um Congresso dominado pelos republicanos que boicotou, sistematicamente, todas as tentativas de fechar a prisão atípica e vergonhosa. Não lhe falta parte da razão, mas, se é bem certo que o sistema de equilíbrio de poderes limita suas atribuições presidenciais, não é menos verdadeiro que deixa ampla margem ao Executivo quando este demonstra uma clara vontade política de batalhar contra a resistência do Legislativo. Trata-se tanto de poder como de querer, e não está claro se Obama deseja fechar Guantánamo a ponto de assumir, por essa questão, o desgaste de um conflito aberto com o Congresso.

Uma prova evidente de como o presidente relativiza o assunto é que, em que pesem suas advertências em contrário, ele terminou aceitando, em novembro, um orçamento de defesa que proíbe o traslado aos Estados Unidos de prisioneiros aprisionados na base. Enviá-los para território norte-americano suporia, entre outras coisas, reconhecer seu direito a um julgamento justo. Se se aceitasse este princípio, a grande maioria dos detidos ilegalmente – contra os quais não há provas sustentáveis diante de um tribunal imparcial – deveriam ser colocados em liberdade. Isso suporia reconhecer um dos maiores ultrajes legais cometidos pelos Estados Unidos em seus quase dois séculos e meio de história. E, num país onde os advogados florescem como cogumelos, poderia multiplicar as exigências de reparação pelos danos físicos e morais à multidão de encarcerados durante esses 14 anos.

Esse perigo parece distante, sem dúvida. De fato, o secretário de Defesa, Ashton Carter, anunciou que apresentará, ao Congresso, de um plano que, se colocado em prática, implica mudança da localização dos prisioneiros – de Guantánamo aos Estados Unidos –, sem alterar necessariamente seu status. Hoje, eles não podem ser transferidos a outros países; nem julgados (por falta de provas), nem libertados (porque continuam sob suspeita de terrorismo). Uma aberração legal, mas que não seria a mais grave perpetrada na “guerra contra o terror” empreendida por Bush desde 11 de Setembro, e que também aprisionou Obama, mais preocupado em salvar a própria pele do que com que se faça justiça.

Obama não é exatamente igual a Bush, e fez, sim, alguma coisa. Por exemplo, proibiu as torturas – ainda que persista tratamento degradante – que tiveram inclusive cobertura legal (embora secreta), e que foram praticadas de forma rotineira durante o mandato de seu predecessor. Reduziu o némero de presos aos 93 atuais, dos 245 que havia quando assumiu a presidência (há sete anos!), e um número muito distante dos 680 que Guantánamo chegou a ter no seu ápice, em 2003.

Dos 93 que continuam lá aprisionados, 34 estão tão “limpos” que se admite transferi-los a outros países – se houver quem aceite acolhê-los; três foram condenados pelas “comissões militares” que substituem os tribunais civis; sete estão sendo julgados por esses mesmos órgãos; e os 49 restantes, classificados como “combatentes ilegais”, estão retidos em caráter indefinido e sem indícios de culpabilidade que permitam serem processados com as mínimas garantias legais que deveriam ver reconhecidas.

As irracionalidades abundam. É claro que o sistema penitenciário, capaz de aprisionar o autor do atentado da maratona de Boston e o rei do narcotráfico, Chapo Guzmán – se for finalmente extraditado do México –, não teria problemas em deter, com garantias, um punhado de supostos terroristas. O problema é que, se chegarem aos Estados Unidos, fora já do limbo legal de Guantánamo, demonstrar sua culpabilidade, caso exista, seria questão quase impossível. E a propaganda dos republicanos, amplificada em pleno ano eleitoral, somada às reticências nos Estados onde se encontram as eventuais prisões receptoras, reafirma que haveria um grave risco à segurança nacional se, finalmente, a maioria desses reclusos acabassem em liberdade. Difícil imaginar maior exercício de hipocrisia num país que dá lições de democracia e respeito aos direitos individuais ao mundo todo.

Mas ainda tem mais. Pois Obama está preso à sua sonora promessa de fechar Guantánamo, e descumpri-la o colocaria em evidência. Por isso continuará esforçando-se para realizá-la, ainda que isso suponha pouco mais que maquiagem. Diversas organizações defensoras dos direitos humanos (como Anistia Internacional e a União de Liberdades Civis Americanas) temem que o eventual transporte dos prisioneiros para os Estados Unidos não inclua mudança em seu status atual de “presos indefinidos”.

A Anistia Internacional, por exemplo, sustenta, através da diretora do Programa de Segurança e Direitos Humanos nos Estados Unidos, Naureen Shah: “A única coisa que a proposta de Obama (realocação dos prisioneiros, conservando-os em detenção indefinida nos Estados Unidos) conseguiria seria mudar o código postal de Guantánamo (…) O certo seria por fim à detenção indefinida sem ressalvas, não mudá-la de lugar (…); os que não podem ser transferidos a outros países considerados seguros devem ser acusados diante de um tribunal federal ou postos em liberdade”. A Anistia exige, além disso, que os EUA assumam “a responsabilidade pelos abusos cometidos no passado” e que “sejam ampliadas as investigações sobre denúncias de tortura e outras violações dos direitos humanos.” Enquanto isso, a advogada novaiorquina Tina Foster, que representa vários prisioneiros, sustenta que o fechamento da prisão seria principalmente uma medida de relações públicas, sem nenhum significado real.

De outro lado, exportar para outros países os prisioneiros de Guantánamo não garantiria que estejam seguros e com seus direitos fundamentais a salvo, algo que exigiria um mecanismo de controle para garantir que não estão mudando de uma prisão para outra, igualmente injusta e arbitrária. Um exemplo: o marroquino Yunus Chekuri, transferido encapuzado e algemado a seu país após 14 meses detido na base norte-americana sem que houvesse nenhuma acusação contra ele, e sem que a CIA e o FBI o considerassem uma ameaça, continua aprisionado próximo a Rabat. E seu caso não é o único.

(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/mudar-guantanamo-mas-so-de-endereco/)

Fisk: os ventos de 1914 sopram na Síria

Tudo mudou: ISIS já não é invencível. Governos saudita e turco, contrariados, podem intervir. EUA ameaçam. Como às vésperas da I Guerra, uma fagulha pode deflagrar conflito global
Por Robert Fisk | Tradução: Inês Castilho |

Depois de perder mais de 60 mil soldados em cinco anos de luta, o exército sírio conquistou de repente sua maior vitória na guerra – ao abrir caminho para Aleppo, arrasando a Jabhat al-Nusra [filial da Al Quaeda na Síria, principal aliada do ISIS] e outras forças combatentes, e selar o destino desta batalha, enquanto a Rússia fazia operações de ataque aéreo fora da cidade.

As linhas de abastecimento dos combatentes, da Turquia para Aleppo, foram cortadas, mas isso não significa o fim da história. Durante vários meses, as próprias autoridades militares do regime — juntamente com dezenas de milhares de civis, inclusive muitos cristãos — ficaram presos em Aleppo, à mercê dos bombardeios e morteiros dos membros al-Nusra que os cercavam, até que o exército abriu a estrada principal para o sul.

Durante esse período, o único caminho para Aleppo era por avião, porque o exército ocupava uma pequenina península do território no caminho até aeroporto. Voei por lá uma noite, num avião militar lotado de soldados sírios feridos.

Mas o vento mudou. Agora, é o próprio Jabhat al-Nusra que está cercado, junto com dezenas de milhares de civis daquela parte da cidade – mas sem aeroporto para lhes dar sustentação. Com base em outras tantas batalhas desta guerra horrenda, é improvável que haja qualquer ofensiva para o centro dessa cidade que é a maior da Síria. Ao contrário, será necessário um lento e tortuoso cerco para forçar os combatentes a se render.

Numa irônica virada na história recente, os dois povoados xiitas, Nub e Zahra – cuja população esteve cercada e durante três anos passou fome, alimentada somente por víveres lançados de pára-quedas  –, foram retomados pelos militares sírios. Os xiitas, entre os quais incluiu-se o ramo alauíta, origem do presidente Bashar al-Assad, têm sido encurralados em vários povoados da região, embora sua dor tenham sido amplamente silenciada.

Agora os moradores da parte de Aleppo mantida em mãos dos rebeldes vão sentir a mesma sensação de isolamento – e, sem dúvida, o fogo da artilharia dos sitiadores. Sempre houve movimentação de pessoas entre as duas áreas da cidade. Serão essas passagens fechadas, agora? E o que dizer do fluxo de milhares de civis para o norte, em direção à Turquia?

A própria cidade de Aleppo demorou a entrar na guerra. Por uma espécie de milagre histórico, manteve-se desvinculada do conflito até 2012, quando os combatentes – pensando estar na rota de Damasco – conseguiram infiltrar-se na velha cidade. Suas ruas ficaram então em chamas, em meses de luta. Agora, parece ser a primeira grande cidade da Síria a voltar, efetivamente, para as mãos do regime. O que virá a seguir? A retomada da cidade romana de Palmira? A desobstrução das terras em torno de Deraa (famosas por causa de Lawrence da Arábia)?

E, muito mais drástico, quando irá o exército sírio, junto com o do Hezbollah e com seus aliados da força aérea russa, tomar seu rumo em direção à “capital” do ISIS, Raqqa?

O ISIS, que domina [a cidade romana histórica de] Palmira, deve estar acompanhando os extraordinários acontecimentos das últimas horas com profunda preocupação. O eterno “Califado Islâmico” sunita na Síria não parece mais tão eterno. Será por isso que os sauditas sunitas ofereceram tropas terrestres à Síria, repentinamente? E a razão por que os turcos estão tão perturbados? Duvido que haja alguém chorando no Irã xiita.

Os militares sauditas já estão com seus pés atolados na vergonhosa guerra do Iêmen. Mas se a Turquia enviar seus próprios soldados – que fazem parte da OTAN – através da fronteira síria, irá arriscar-se a vê-los atacados pelos russos. Este é um pesadelo que deve ser evitado, tanto por Washington como por Moscou. Do contrário, iremos nos encontrar em outro momento Gavrilo Princip [1]. E todos sabemos o que aconteceu em 1914.

[1] Referência ao estudante sérvio que assassinou, em 28/6/1914, em Sarajevo (Bósnia), o arquiduque Francisco Ferdinando, possível herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro. Em resposta, o império lançou um ultimato afrontoso à Sérvia e em seguida invadiu-a militarmente, deflagrando um conflito que rapidamente envolveria Rússia, Alemanha e França e Inglaterra, convertendo-se na I Guerra Mundial. Suas causas foram, é claro, muito mais profundas. As tensões entre os países envolvidos eram graves e crescentes — como parecem ser, hoje, os riscos de confrontos no Oriente Médio e em outras partes do mundo. O gesto de Princip foi a fagulha, num barril de gasolina. Ler também, a respeito, “Depois da Ponte”, de José Luís Fiori [Nota da Tradução].

(fonte: http://outraspalavras.net/capa/fisk-os-ventos-de-1914-sopram-na-siria/)

Como sair da crise


Por Jaime Pinsky

A privatização do dinheiro público – para usar um eufemismo - promovida pelo mensalão e pelo saque à Petrobrás vem sendo apontada como responsável por mudanças no comportamento do brasileiro nos últimos tempos. Não que alguém possa justificar a instrumentalização do Estado a favor de um grupo, mesmo que sob o falso argumento de dar conta de um ideal distributivista. Parece, contudo que, animados por sua própria retórica, muitos colunistas estão confundindo alhos com bugalhos, chegando ao cúmulo de erigir torturadores como paladinos da democracia e explicar a falta de solidariedade da sociedade contemporânea como decorrência de atitudes de políticos e de empresários responsáveis por grandes obras. Isto não é verdade. A irresponsabilidade de grande parcela do povo brasileiro com relação ao coletivo tem a ver, antes, com o pecado original ainda não superado, aquele que opõe povo e Estado, um não se sentindo representado pelo outro e o outro não se sentindo responsável pelo um...

Além disso fomos atingidos em cheio – por não termos desenvolvido defesas apropriadas – pela globalização, da forma como ela se deu: criando necessidades de consumo em escala mundial (todos “precisamos” ter iPhones de última geração, automóveis superequipados, jeans de marca, etc, do contrário seremos infelizes, muito infelizes).

A mudança de valores vem ocorrendo paulatinamente, mas com nitidez, para quem quer enxergar. A cultura do ter, o culto ao produto novo, está presente em todos, no mundo todo. O compromisso com o país, a “responsabilidade” para com os menos privilegiados, é coisa do passado, de uma sociedade que acreditava na utopia, gente dos anos 70, no máximo 80. Em vez dos estudantes que queriam mudar o mundo e se recusavam a tomar refrigerantes de multinacionais, hoje os universitários se manifestam pelo direito de fazer festinhas no campus, de celebrar  acordos com indústrias de cerveja, que aproveitam a falta de idealismo dos jovens para criar novas gerações de dependentes de álcool. O Zé Dirceu tem culpa disso?

No período das eleições os ânimos se acirram, notadamente quando as pessoas, por conta da facilidade que as mídias sociais propiciam. Ao contrário do que seria aconselhável, lê-se pouco e se escreve muito, o que equivale a pensar pouco e falar bastante. Na verdade, nem se lê tão pouco: Lê-se mal, notas rápidas, superficiais, mal construídas, sem causas nem consequências, e, frequentemente, acredita-se nelas. Como -já dizia minha tia Ana - quem fala o que quer ouve o que não quer: amizades reais são desfeitas por plataformas virtuais, colegas brigam via facebook, famílias se desestruturam via twiter, namorados fazem caretas pelo instagram. Claro, há posições inconciliáveis, por vezes e bom conhecer melhor o que pensam as pessoas próximas, mas o clima de torcida organizada não esclarece nada, rotula todo mundo, exagera defeitos dos adversários e virtudes dos partidários. Não superaremos a crise no Brasil ofendendo os outros. Só faremos isso construindo algo novo. Com uma reforma educacional corajosa que não fique no papel, com apoio a quem produz e emprega, com mudanças nas relações trabalhistas de origem fascista que ainda mantemos, com a modernização e manutenção de portos, aeroportos, estradas. Mas nada disso acontecerá sem que se supere a crise política.

E crise política só se supera politicamente. Mas como acreditar na possibilidade disso acontecer no Brasil de hoje? Estará escondida no Congresso uma geração de deputados e senadores, obnubilada pelas velhas raposas, disposta a realizar no seu âmbito o trabalho que jovens promotores e juízes estão realizando de forma desassombrada, a ponto de provocar a admiração da maioria da população? Estarão aguardando o desenrolar dos acontecimentos para dar sinal de vida estes futuros condutores da nação, desde já dispostos a, efetivamente lutar pelo país, não por seus interesses pessoais?

Que apareçam. Que mostrem mãos limpas, dispostas a assim permanecer. Que estejam dispostos a viver confortavelmente, mas sem luxos excessivos, que se satisfaçam com aviões de carreira, com carros sem motoristas (ou com motoristas compartilhados), que não se sintam obrigados a resolver os problemas econômicos das duas gerações seguintes, que sejam dotados de espírito público.

Vocês existem? Então apareçam. E ousem.

Vocês terão nosso apoio.
 (historiador, professor titular da Unicamp, diretor da Editora Contexto, autor de Por que gostamos de história, entre outros livros)
(

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Violências contra a mulher: os homens franceses no banco dos réus

Hollande concede a graça presidencial a uma condenada pela morte do marido. Na França, de dois em dois dias uma mulher morre nas mãos de um marido violento


Leneide Duarte-Plon, de Paris*

Os imigrantes são violentos e estupradores em potencial, alegam os que querem fechar as portas da Europa aos refugiados. Na França e na Alemanha, a extrema-direita tenta asssimilar os imigrantes a todos os perigos que vão do terrorismo à violência contra mulheres.

Quem não tomou conhecimento do fato que 800 mulheres procuraram a polícia depois do réveillon, na cidade de Colônia, para denunciar abuso sexual e estupro da parte de pessoas que elas disseram ser imigrantes?

O marido de Jacqueline Sauvage era um francês autêntico, “de souche”, como dizem os que distinguem os verdadeiros franceses dos “metecos” que foram chegando com as diferentes ondas migratórias do século XX.

Norbert Marot bateu em sua mulher Jacqueline e abusou sexualmente de suas filhas por longos anos. Até que em 2012, num momento de desespero, um ato considerado legítima defesa por aqueles que a defenderam mas contestado pela acusação, madame Sauvage o matou. Em dezembro de 2015, Jacqueline Sauvage, de 68 anos, foi  condenada a dez anos de prisão.

O caso emocionou grande número de franceses, chocados ao tomar conhecimento das estatísticas: no país dos direitos humanos, de dois em dois dias uma mulher morre nas mãos de um marido violento. São entre 120 e 130 casos por ano. Essas mesmas estatísticas mostram que apenas 10% das mulheres que sofrem de violência conjugal vão à polícia denunciar os maridos ou companheiros violentos.

Ao conceder a graça presidencial, François Hollande quis que madame Sauvage voltasse ao seio de sua família. Suas filhas depuseram a favor da mãe e comemoraram sua próxima libertação, depois da graça concedida pelo presidente no último dia de janeiro, um recurso que François Hollande só usara uma vez antes desse caso.  A condenação de Jacqueline Sauvage mobilizou mais de 400 mil pessoas que assinaram a petição solicitando a graça presidencial. Jamais uma petição de apoio a uma causa obteve tantas assinaturas em tão pouco tempo.

Entre essas assinaturas, havia muitos homens políticos como Jean-Luc Mélenchon, líder e fundador do Parti de Gauche, além de Daniel Cohn-Bendit, o ex-enfant terrible de Maio de 1968.

A prefeita socialista de Paris, Anne Hidalgo também assinou a petição, assim como outras personalidades do mundo político, de direita como de esquerda.

Jacqueline Sauvage chegou a ser levada duas vezes ao hospital, em 2007 e 2012, depois de ser agredida por seu marido, violento e alcoólatra.

Advogados franceses pretendem defender uma lei para introduzir a noção de “légitime défense différée” para a reação que não se dá num momento de risco iminente de vida. O risco de morte é permanente para as mulheres que sofrem de maus tratos, alegam.

Norbert Marot acordara sua mulher que fazia a sesta dando-lhe socos e ela o eliminou com um fuzil quando ele lhe deu as costas. As filhas do casal deram apoio à mãe durante todo o processo. Duas das três filhas sofreram abuso sexual por parte do pai por longos anos.

* Leneide Duarte-Plon é jornalista, trabalha em Paris e é co-autora, com Clarisse Meireles, da biografia de frei Tito de Alencar, Um homem torturado-Nos passos de frei Tito de Alencar.

(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Violencias-contra-a-mulher-os-homens-franceses-no-banco-dos-reus/6/35470)

Chomsky: 'Este é o momento mais crítico na história da humanidade'

Agustín Fernández Gabard e Raúl Zibechi - La Jornada

“Os Estados Unidos sempre foram uma sociedade colonizadora. Inclusive antes de se constituírem como Estado já trabalhavam para eliminar a população indígena, o que significou a destruição de muitas nações originárias”, como bem lembra o linguista e ativista estadunidense Noam Chomsky, quando se pede que descreva a situação política mundial. Crítico feroz da política externa de seu país, ele recorda 1898, quando ela apontou seus dardos ao cenário internacional, com o controle de Cuba, “transformada essencialmente numa colônia”, e logo nas Filipinas, “onde assassinaram centenas de milhares de pessoas”.

Chomsky continua seu relato fazendo uma pequena contra-história do império: “roubou o Havaí da sua população originária 50 anos antes de incorporá-lo como um dos seus estados”. Imediatamente depois da II Guerra Mundial, os Estados Unidos se tornaram uma potência internacional, “com um poder sem precedente na história, um incomparável sistema de segurança, controlando o hemisfério ocidental e os dois grandes oceanos. E, naturalmente traçou planos para tentar organizar o mundo conforme a sua vontade”.

Contudo, ele aceita que o poder da superpotência diminuiu com respeito ao que tinha em 1950, o auge da sua hegemonia, quando acumulava 50% do produto interno bruto mundial, muito mais que os 25% que possui agora. Ainda assim, Chomsky lembra que “os Estados Unidos continua sendo o país mais rico e poderoso do mundo, e incomparável a nível militar”.

Um sistema de partido único


Em algum momento, Chomsky comparou as votações em seu país com a eleição de uma marca de pasta de dentes num supermercado. “Nosso país tem um só partido político, o partido da empresa e dos negócios, com duas facções, democratas e republicanos”, proclama. Mas ele acredita que já não é possível continuar falando dessas duas velhas coletividades políticas, já que suas tradições sofreram uma mutação completa durante o período neoliberal.

Chomsky considera que “os chamados democratas não são mais que republicanos modernos, enquanto a antiga organização republicana ficou fora do espectro, já que ambas as vertentes se moveram muito mais à direita durante o período neoliberal – algo que também aconteceu na Europa”. O resultado disso é que os novos democratas de Hillary Clinton adotaram o programa dos velhos republicanos, enquanto estes foram completamente dominados pelos neoconservadores. “Se você olha os espetáculos televisivos onde dizem debater política, verá como somente gritam entre eles e as poucas políticas que apresentam são aterrorizantes”.

Por exemplo, ele destaca que todos os candidatos republicanos negam que o aquecimento global ou são céticos – não o negam mas dizem que os governos não precisam fazer algo a respeito. “Entretanto, o aquecimento global é o pior problema que a espécie humana terá pela frente, e estamos nos dirigindo a um completo desastre”. Em sua opinião, as mudanças no clima têm efeitos comparáveis somente com os da guerra nuclear. Pior ainda, “os republicanos querem aumentar o uso de combustíveis fósseis. Esse não é um problema de centenas de anos, mas sim um criado pelas últimas duas gerações”.

A negação da realidade, que caracteriza os neoconservadores, responde a uma lógica similar à que impulsiona a construção de um muro na fronteira com o México. “Essas pessoas que tratamos de distanciar são as que fogem da destruição causada pelas políticas estadunidenses”.

“Em Boston, onde vivo, o governo de Obama deportou um guatemalteco que viveu aqui durante 25 anos, ele tinha uma família, uma empresa, era parte da comunidade. Havia escapado da Guatemala destruída durante a administração de Reagan. A resposta a isso é a ideia de construir um muro para nos prevenir. Na Europa acontece o mesmo. Quando vemos que milhões de pessoas fogem da Líbia e da Síria para a Europa, temos que nos perguntar o que aconteceu nos últimos 300 anos para chegar a isto”.


Invasões e mudanças climáticas se retroalimentam


Há apenas 15 anos, não existia o tipo de conflito que observamos hoje no Oriente Médio. “É consequência da invasão estadunidense ao Iraque, que é o pior crime do século. A invasão britânica-estadunidense teve consequências horríveis, destruíram o Iraque, que agora está classificado como o país mais infeliz do mundo, porque a invasão cobrou a vida de centenas de milhares de pessoas e gerou milhões de refugiados, que não foram acolhidos pelos Estados Unidos, e tiveram que ser recebidos pelos países vizinhos pobres, obrigados a recolher as ruínas do que nós destruímos. E o pior de tudo é que instigaram um conflito entre sunitas e xiitas que não existia antes”.

As palavras de Chomsky recordam a destruição da Iugoslávia durante os Anos 90, instigada pelo ocidente. Assim como Sarajevo, ele destaca que Bagdá era uma cidade integrada, onde os diversos grupos culturais compartilhavam os mesmos bairros e se casavam membros de diferentes grupos étnicos e religiosos. “A invasão e as atrocidades que vimos em seguida fomentaram a criação de uma monstruosidade chamada Estado Islâmico, que nasce com financiamento saudita, um dos nossos principais aliados no mundo”.

Um dos maiores crimes foi, em sua opinião, a destruição de grande parte do sistema agrícola sírio, que assegurava a alimentação do país, o que conduziu milhares de pessoas às cidades, “criando tensões e conflitos que explodiram após as primeiras faíscas da repressão”.

Uma das suas hipóteses mais interessantes consiste em comparar os efeitos das intervenções armadas do Pentágono com as consequências do aquecimento global.

Na guerra em Darfur (Sudão), por exemplo, convergiram os interesses das potências ocidentais e a desertificação que expulsa toda a população às zonas agrícolas, o que agrava e agudiza os conflitos. “Essas situações desembocam em crises espantosas, e algo parecido acontece na Síria, onde se registra a maior seca da história do país, que destruiu grande parte do sistema agrícola, gerando deslocamentos, exacerbando tensões e conflitos”, reflete.

Chomsky acredita que a humanidade ainda não pensa com mais atenção sobre o que significa essa negação do aquecimento global e os planos a longo prazo dos republicanos, que pretendem acelerá-lo: “se o nível do mar continuar subindo e se elevar muito mais rápido, poderá engolir países como Bangladesh, afetando a centenas de milhões de pessoas. Os glaciares do Himalaia se derretem rapidamente, pondo em risco o fornecimento de água para o sul da Ásia. O que vai acontecer com essas bilhões de pessoas? As consequências iminentes são horrendas, este é o momento mais importante da história da humanidade”.

Chomsky crê que estamos diante um ponto crucial da história, no qual os seres humanos devem decidir se querem viver ou morrer: “digo isso literalmente, não vamos morrer todos, mas sim se destruiriam as possibilidades de vida digna, e temos uma organização chamada Partido Republicano que quer acelerar o aquecimento global. E não exagero, isso é exatamente o que eles querem fazer”.

Logo, ele cita o Relógio do Apocalipse, para recordar que os especialistas sustentam que na Conferência de Paris sobre o aquecimento global foi impossível conseguir um tratado vinculante, somente acordos voluntários. “Por que? Simples: os republicanos não aceitariam. Eles bloquearam a possibilidade de um tratado vinculante que poderia ter feito algo para impedir essa tragédia massiva e iminente, uma tragédia como nenhuma outra na história da humanidade. É disso que estamos falando, não são coisas de importância menor”.


Guerra nuclear, possibilidade certa


Chomsky não é de se deixar impressionar por modas acadêmicas ou intelectuais. Seu raciocínio radical e sereno busca evitar o furor, e talvez por isso não joga palavras ao vento sobre a anunciada decadência do império. “Os Estados Unidos possuem 800 bases ao redor do mundo e investe em seu exército tanto quanto todo o resto do mundo junto. Ninguém tem algo assim, soldados lutando em todas as partes do mundo. A China tem uma política principalmente defensiva, não possui um grande programa nuclear, embora seja possível que cresça”.

O caso da Rússia é diferente. É a principal pedra no sapato da dominação do Pentágono, porque “tem um sistema militar enorme”. O problema é que tanto a Rússia quanto os Estados Unidos estão ampliando seus sistemas militares, “ambos estão atuando como se a guerra fosse possível, o que é uma loucura coletiva”. Chomsky acredita que a guerra nuclear é irracional e que só poderia suceder em caso de acidente ou erro humano. Contudo, ele concorda com William Perry, ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, que disse recentemente que a ameaça de uma guerra nuclear hoje é maior que durante a Guerra Fria. O intelectual estima que o risco se concentra na proliferação de incidentes que envolvem as forças armadas de potências nucleares.

“A guerra esteve a ponto de ser deflagrada inumeráveis vezes”, admite ele. Um de seus exemplos favoritos é o sucedido sob o governo de Ronald Reagan, quando o Pentágono decidiu provar as defesas russas através de uma simulação de ataques contra a União Soviética.

“Acontece que os russos levaram a sério. Em 1983 depois que os soviéticos automatizaram seus sistemas de defesa, foi possível detectar um ataque de mísseis estadunidense. Nesses casos, o protocolo é ir direto ao alto mando e lançar um contra-ataque. Havia uma pessoa que tinha que transmitir essa informação, Stanislav Petrov, mas decidiu que era um alarme falso. Graças a isso, podemos estar aqui falando”.

Chomsky defende que os sistemas de defesa dos Estados Unidos possuem sérias falhas, e há poucas semanas se conheceu um caso de 1979, quando se detectou um ataque massivo com mísseis que vinham da Rússia. Quando o conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, estava levantando o telefone para chamar o presidente James Carter e lançar um ataque de represália, chegou a informação de que se tratava de um alarme falso. “Há cada ano são registradas dúzias de alarmes falsos”, assegura ele.

Neste momento, as provocações dos Estados Unidos são constantes. “A OTAN está realizando manobras militares a 200 metros da fronteira russa com a Estônia. Nós não toleraríamos algo assim se acontecesse no México”.

O caso mais recente foi a derrubada de um caça russo que estava bombardeando forças jihadistas na Síria, no final de novembro. “Há uma parte da Turquia quase rodeada pelo território sírio e o bombardeiro russo voou através dessa zona durante 17 segundos, até ser derrubado. Uma grande provocação que, por sorte, não foi respondida pela força”. Chomsky argumenta que fatos similares estão sucedendo quase diariamente no mar da China.

A impressão que ele tem, e que expressa em seus gestos e reflexões, é que se as potências agredidas pelos Estados Unidos atuassem com a mesma irresponsabilidade que Washington, o destino do planeta estaria perdido.


Visão sobre a Colômbia


O linguista estadunidense Noam Chomsky conhece de perto a realidade colombiana. Fiel ao seu estilo e suas ideias, ele visitou o país e sua diversidade, conheceu a Colômbia que existe longe dos focos acadêmicos e midiáticos, adentrou no Vale do Cauca, onde grupos indígenas constroem sua autonomia, com base em seus saberes ancestrais, atualizados em meio ao conflito armado.

“Parece haver sinais positivos nas negociações de paz”, reflete Chomsky. “A Colômbia tem uma terrível história de violência desde o século passado, a violência nos Anos 50 era monstruosa”, lembrou ele, reconhecendo que a pior parte foi obra de operações paramilitares. Mais recentes são as fumigações realizadas pelos Estados Unidos, verdadeiras operações de guerra química, que deslocaram populações enormes de camponeses, para beneficio das multinacionais.

Como consequência, a Colômbia se tornou o segundo país do mundo em número de migrantes dentro do próprio território, depois do Afeganistão. “Deveria ser um país rico, próspero, mas está se quebrando em pedaços”, agrega. Por isso, se as negociações tiverem sucesso, eliminarão alguns dos problemas, mas não todos. “A Colômbia, mesmo sem o problema da guerrilha, continuará sendo um dos piores países para os defensores dos direitos humanos, para líderes sindicais e outros”.

Um dos perigos que ele observa, no caso de que se assine o acordo definitivo de paz, seria a integração dos paramilitares ao governo, uma realidade latente no país. Ainda assim, ele sustenta que a redução do conflito com as FARC seria um grande passo para frente, por isso acredita que deve se fazer todo o possível para contribuir com o processo de paz.

Tradução: Victor Farinelli
(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Chomsky-Este-e-o-momento-mais-critico-na-historia-da-humanidade-/6/35471)