segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
Por que carros de luxo estão sendo destruídos nas ruas de Berlim
Publicado no site Outra Cidade. Por Ubiratan Leal
Na última semana, 28 carros foram destruídos nas ruas de Berlim. Dois Mercedes e dois BMWs foram queimados, enquanto os demais foram vandalizados. Um dia depois, outros 20 veículos foram atacados. A quantidade de automóveis destruídos em 24 horas chamou a atenção, mas ver carros queimados na rua se tornou estranhamente comum na capital alemã, em uma prática que já misturou protesto social com oportunismo de vândalos.
Klaus-Jürgen Rattay era um dos milhares de jovens da Berlim Ocidental que, insatisfeitos com o aumento de preços dos imóveis na cidade, passaram a ocupar edifícios abandonados. Em setembro de 1981, a polícia berlinense fez uma ação coletiva de desocupação desses imóveis, muitos deles indústrias desativadas. Protestos se espalharam pela cidade e, durante uma investida dos policiais, Rattay foi fatalmente atropelado por um ônibus. Tinha 18 anos.
Mais de 34 anos depois, seu nome volta a aparecer com força nos debates sobre moradia em Berlim, já uma cidade unificada. Na semana do Carnaval, 48 veículos (28 no sábado e outros 20 no domingo) foram destruídos pelo grupo de extrema-esquerda Comando da Bicicleta da Social Democracia Popular, que assumiu a autoria em uma carta assinada (veja aqui, em alemão) pelo Comando Klaus-Jürgen Rattay.
Protestavam contra a gentrificação de diversos bairros da cidade, que está se tornando inacessível a uma parcela cada vez maior da população. Um ataque violento, mas que está longe de ser inesperado pelas autoridades berlinenses.
No início do ano, o grupo havia prometido destruir € 1 milhão em propriedade privada a cada tentativa da polícia de desocupar algum imóvel invadido por sem-teto ou manifestantes. Entre 19 e 24 de janeiro, as autoridades realizaram diversas operações desse tipo, prendendo mais de cem pessoas. Então, era questão de tempo para aparecerem carros incendiados ou vandalizados. E o Comando atingiu seu objetivo, pois o prejuízo causado no Carnaval foi estimado em € 1,1 milhão.
A região atingida no sábado foi em torno da Potsdamer Platz, uma das mais importantes da cidade. Nos últimos anos, os imóveis da região valorizaram quase 500%, com o metro quadrado chegando a € 5,5 mil. O ataque do domingo ocorreu no bairro de Neukölln.
Para entender o ataque da última semana, é importante ressaltar que não se trata de uma prática incomum na relação entre manifestantes antigentrificação e as autoridades na capital alemã. Desde 2008, são mais de 200 veículos incendiados por ano. Só em 2011 foram 403. De acordo com a própria polícia, nem todos os casos têm motivação política. Para as autoridades, vândalos com diversas motivações se aproveitam da onda criada por manifestantes para atear fogo em mais automóveis e aumentar o caos.
A natureza desses ataques dificulta seu combate. Os ativistas agem na madrugada, colocando bandejas de papel alumínio com carvão embebido em combustível sob os veículos. O carro demora alguns minutos a pegar fogo em relação ao momento em que o fogo é aceso. Isso dá ao incendiário tempo de sobra para deixar o local e ficar virtualmente impossível de ser identificado. Até porque a Alemanha é reticente em adotar a vigilância eletrônica nas ruas com a mesma intensidade de Reino Unido e Estados Unidos.
De qualquer forma, esses “protestos” estão longe de atingir seu objetivo. A opinião pública é favorável a medidas que controlem os altos e baixos do mercado imobiliário, mas tem sido pouco receptivas aos incêndios de carros em bairros nobres.
(fonte: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/por-que-carros-de-luxo-estao-sendo-destruidos-nas-ruas-de-berlim/)
História da virgindade
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Invasões bárbaras
MARCELO GRUMAN*
O carnaval de rua faz a economia local girar, principalmente o segmento de bebidas alcoólicas, consumidas aos milhares de litros desde cedo, antes do meio-dia (horário limite extraoficial que os pinguços de plantão estabelecem para “iniciar os trabalhos”), afinal de contas, em algum lugar do planeta, já é de tarde. Eu mesmo, admito, faço parte desde grupo de beberrões diurnos. Também aproveitam para ganhar um dinheiro extra os pipoqueiros, os vendedores daquela espuma em aerossol insuportável que leva ao desespero a oftalmologista pediátrica do meu filho, o vendedor de algodão doce e muitos outros ambulantes que oferecem de tudo a preços não tão convidativos, inflacionados pela imensa demanda de foliões.
O carnaval também é a época do ano em que transgredimos determinadas regras sociais que, antes ou depois, são punidas, minimamente, com a marginalização social. Pelo segundo ano, saio pela porta da frente do meu prédio vestido de bailarina, de cabeça erguida, com os pelos do peito à mostra. Os porteiros não fazem troça, pelo menos não na minha frente, sabem que é parte do ethos carnavalesco a inversão de papéis sociais, não me consideram um louco. É curioso que seja mais comum homens se travestirem de mulher do que o contrário. Minha esposa gosta de sair de Branca de Neve. A maioria dos blocos toca tradicionais marchinhas de carnaval, cujas letras o público, em geral, já sabe de cor e salteado. Dificilmente vê-se qualquer tipo de confusão, empurra-empurra, há um clima de alegria.
E meu filho “odeia” o Carnaval. Eu o entendo.
A quantidade de foliões cresceu exponencialmente, e muitos blocos de rua ficam superlotados porque passam por ruas estreitas ou, simplesmente, porque o espaço em que ficam parados não comporta a multidão que resolver brincar o carnaval ali. Muitas vezes não é possível ouvir o som da banda, de tão longe que ela fica dos retardatários, transformado num barulho incompreensível.
Se o barulho ficasse restrito ao “horário comercial”, estendido, digamos, até às onze horas da noite, uma colher de chá, vá lá. Mas a desordem é total. Entretido num dos meus sonhos, sou acordado às duas horas da manhã com sons de bumbos e trompetes e a cantoria de dezenas de pessoas que passavam na frente do meu prédio. Aparentemente, não foram incomodados pela polícia. Este não foi um caso isolado, um amigo que mora próximo também se espantou quando começou a ouvir sons de instrumentos musicais próximo de meia-noite.
O que dizer da sujeira? As toneladas de lixo que se acumulam pelas calçadas mostram a (des)consideração e o (des)respeito que o cidadão carioca e também os turistas têm pela cidade. Ok, a quantidade de caçambas de lixo e de lixeiras pode não ser suficiente, mas a quantidade de dejetos de todo tipo, o rastro de imundície que os blocos de rua deixam é tamanha que fica difícil acreditar que apenas o poder público tem responsabilidade sobre o caos urbano rotineiro que se instala durante o carnaval. O pior é o dia seguinte aos cortejos, mesmo após a passagem da ala dos bravos garis da companhia de limpeza urbana, que fazem o possível para entregar o espaço público mais ou menos inteiro para mais um dia de folia, quando os moradores do entorno sentem aquele odor nauseabundo de chorume misturado com restos de cerveja, urina e outros líquidos indecifráveis, odor este potencializado em dias de sol forte. Pior ainda para as crianças do meu prédio que, se quiserem jogar bola, andar de bicicleta ou skate na praça em frente, têm de colocar capacete, joelheiras e tornozeleiras para evitar que as dezenas de cacos de vidro carinhosamente deixados no dia, noite e madrugada anteriores não lhes cause cortes mais ou menos profundos. Alalaô!!!
Na sexta-feira anterior ao carnaval, ao sair do trabalho, no centro da cidade, passei por vários prédios protegidos por tapumes de madeira ou metal. A princípio, imaginei que fossem obras, mas, logo em seguida, lembrei que, por ali, passariam diversos blocos de carnaval. Os condomínios estavam, isso sim, protegendo-se dos foliões por medo de danos ao patrimônio público e privado. Em lugares civilizados, este tipo de proteção física faz sentido quando a cidade se prepara para eventos climáticos, como tufões e maremotos. Na cidade maravilhosa, a preparação não é contra a fúria da natureza e sim contra os animais humanos mesmo. Pela cidade, canteiros de plantas são cercados para evitar a destruição por parte dos “mais exaltados”, na praça em frente ao meu prédio a fonte de água centenária também teve de ser cercada por estruturas de ferro. Nossos bárbaros são distintos daqueles enfrentados pelos romanos, os nossos vêm do interior de nossas fronteiras, são habitantes da cidade, são nossos vizinhos de porta que, aparentemente, não se incomodam em viver no meio do lixo, afinal, a rua não é de ninguém.
O professor Micael Herschmann, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, escreveu um interessante artigo em que analisa o crescimento do carnaval de rua na cidade do Rio de Janeiro no início do século XXI. Ele cita, em determinado momento, a presidente da Sebastiana, a Associação Independente dos Blocos da Zona Sul, Centro e Santa Teresa, Rita Fernandes, que credita, dentre os fatores para o boom sem precedentes do carnaval de rua o aumento da autoestima do carioca que, na visão do professor, é mais consequência do que causa da “retomada dos cortejos de rua”.
Fico me perguntando que carioca em sã consciência se orgulha do chiqueiro em que parte da cidade se transforma em apenas quatro dias, como que arrasada por um furacão. Nos estertores do carnaval, um grupo fazia um churrasco improvisado dentro do parquinho infantil localizado na praça em frente de casa, debaixo do nariz da guarda municipal e de fiscais da gloriosa Secretaria Especial de Ordem Pública. Casais de jovens sentavam-se na mureta do parquinho, já com vários tijolos destruídos, bebendo cerveja em garrafas delicadamente descartadas sobre as plantas que circundam o espaço.
Vai além da minha compreensão o comportamento destes bárbaros modernos que, apesar de habitarem a cidade, insistem em maltratá-la, em envergonhá-la. O carnaval não pode servir de salvo-conduto para tamanha afronta à cidadania. Mas quem se importa, não é mesmo? As Olimpíadas vêm aí. Pão e circo, pra variar.
(fonte: https://espacoacademico.wordpress.com/2016/02/20/invasoes-barbaras/)
“Papai, ‘odeio’ é uma palavra feia, não é?”.Quando eu era pequeno, na longínqua década de 1980, lembro que carnaval era sinônimo de desfile de escolas de samba na passarela da Marquês de Sapucaí. Brincar o carnaval, como se diz, resumia-se aos bailes dos clubes, a maior parte deles restritos a adultos, e à própria passarela do samba. De lá para cá, as coisas mudaram. O espaço público foi retomado pela população carioca a partir do início dos anos 2000, que passou a ser invadido, durante o período momesco, por dezenas de blocos carnavalescos de rua. Para termos uma ideia, em 2011 desfilaram pelas ruas da cidade, da zona norte à zona sul, 476 blocos, número que alcançou, neste ano de 2016, inacreditáveis 505 agremiações. E há para todos os gostos e faixas etárias. Para os pequenos, por exemplo, a diversão é garantida no “Cordão umbilical” e no “Largo do Machado, mas não largo do suquinho”.
“Sim, filho. É uma palavra muito forte”.
“Então eu odeio o carnaval”.
“Mas por que, meu filho?”
“Porque tem muito barulho e eu não consigo achar os meus amigos (no bloco de rua)”.
O carnaval de rua faz a economia local girar, principalmente o segmento de bebidas alcoólicas, consumidas aos milhares de litros desde cedo, antes do meio-dia (horário limite extraoficial que os pinguços de plantão estabelecem para “iniciar os trabalhos”), afinal de contas, em algum lugar do planeta, já é de tarde. Eu mesmo, admito, faço parte desde grupo de beberrões diurnos. Também aproveitam para ganhar um dinheiro extra os pipoqueiros, os vendedores daquela espuma em aerossol insuportável que leva ao desespero a oftalmologista pediátrica do meu filho, o vendedor de algodão doce e muitos outros ambulantes que oferecem de tudo a preços não tão convidativos, inflacionados pela imensa demanda de foliões.
O carnaval também é a época do ano em que transgredimos determinadas regras sociais que, antes ou depois, são punidas, minimamente, com a marginalização social. Pelo segundo ano, saio pela porta da frente do meu prédio vestido de bailarina, de cabeça erguida, com os pelos do peito à mostra. Os porteiros não fazem troça, pelo menos não na minha frente, sabem que é parte do ethos carnavalesco a inversão de papéis sociais, não me consideram um louco. É curioso que seja mais comum homens se travestirem de mulher do que o contrário. Minha esposa gosta de sair de Branca de Neve. A maioria dos blocos toca tradicionais marchinhas de carnaval, cujas letras o público, em geral, já sabe de cor e salteado. Dificilmente vê-se qualquer tipo de confusão, empurra-empurra, há um clima de alegria.
E meu filho “odeia” o Carnaval. Eu o entendo.
A quantidade de foliões cresceu exponencialmente, e muitos blocos de rua ficam superlotados porque passam por ruas estreitas ou, simplesmente, porque o espaço em que ficam parados não comporta a multidão que resolver brincar o carnaval ali. Muitas vezes não é possível ouvir o som da banda, de tão longe que ela fica dos retardatários, transformado num barulho incompreensível.
Se o barulho ficasse restrito ao “horário comercial”, estendido, digamos, até às onze horas da noite, uma colher de chá, vá lá. Mas a desordem é total. Entretido num dos meus sonhos, sou acordado às duas horas da manhã com sons de bumbos e trompetes e a cantoria de dezenas de pessoas que passavam na frente do meu prédio. Aparentemente, não foram incomodados pela polícia. Este não foi um caso isolado, um amigo que mora próximo também se espantou quando começou a ouvir sons de instrumentos musicais próximo de meia-noite.
O que dizer da sujeira? As toneladas de lixo que se acumulam pelas calçadas mostram a (des)consideração e o (des)respeito que o cidadão carioca e também os turistas têm pela cidade. Ok, a quantidade de caçambas de lixo e de lixeiras pode não ser suficiente, mas a quantidade de dejetos de todo tipo, o rastro de imundície que os blocos de rua deixam é tamanha que fica difícil acreditar que apenas o poder público tem responsabilidade sobre o caos urbano rotineiro que se instala durante o carnaval. O pior é o dia seguinte aos cortejos, mesmo após a passagem da ala dos bravos garis da companhia de limpeza urbana, que fazem o possível para entregar o espaço público mais ou menos inteiro para mais um dia de folia, quando os moradores do entorno sentem aquele odor nauseabundo de chorume misturado com restos de cerveja, urina e outros líquidos indecifráveis, odor este potencializado em dias de sol forte. Pior ainda para as crianças do meu prédio que, se quiserem jogar bola, andar de bicicleta ou skate na praça em frente, têm de colocar capacete, joelheiras e tornozeleiras para evitar que as dezenas de cacos de vidro carinhosamente deixados no dia, noite e madrugada anteriores não lhes cause cortes mais ou menos profundos. Alalaô!!!
Na sexta-feira anterior ao carnaval, ao sair do trabalho, no centro da cidade, passei por vários prédios protegidos por tapumes de madeira ou metal. A princípio, imaginei que fossem obras, mas, logo em seguida, lembrei que, por ali, passariam diversos blocos de carnaval. Os condomínios estavam, isso sim, protegendo-se dos foliões por medo de danos ao patrimônio público e privado. Em lugares civilizados, este tipo de proteção física faz sentido quando a cidade se prepara para eventos climáticos, como tufões e maremotos. Na cidade maravilhosa, a preparação não é contra a fúria da natureza e sim contra os animais humanos mesmo. Pela cidade, canteiros de plantas são cercados para evitar a destruição por parte dos “mais exaltados”, na praça em frente ao meu prédio a fonte de água centenária também teve de ser cercada por estruturas de ferro. Nossos bárbaros são distintos daqueles enfrentados pelos romanos, os nossos vêm do interior de nossas fronteiras, são habitantes da cidade, são nossos vizinhos de porta que, aparentemente, não se incomodam em viver no meio do lixo, afinal, a rua não é de ninguém.
O professor Micael Herschmann, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, escreveu um interessante artigo em que analisa o crescimento do carnaval de rua na cidade do Rio de Janeiro no início do século XXI. Ele cita, em determinado momento, a presidente da Sebastiana, a Associação Independente dos Blocos da Zona Sul, Centro e Santa Teresa, Rita Fernandes, que credita, dentre os fatores para o boom sem precedentes do carnaval de rua o aumento da autoestima do carioca que, na visão do professor, é mais consequência do que causa da “retomada dos cortejos de rua”.
Fico me perguntando que carioca em sã consciência se orgulha do chiqueiro em que parte da cidade se transforma em apenas quatro dias, como que arrasada por um furacão. Nos estertores do carnaval, um grupo fazia um churrasco improvisado dentro do parquinho infantil localizado na praça em frente de casa, debaixo do nariz da guarda municipal e de fiscais da gloriosa Secretaria Especial de Ordem Pública. Casais de jovens sentavam-se na mureta do parquinho, já com vários tijolos destruídos, bebendo cerveja em garrafas delicadamente descartadas sobre as plantas que circundam o espaço.
Vai além da minha compreensão o comportamento destes bárbaros modernos que, apesar de habitarem a cidade, insistem em maltratá-la, em envergonhá-la. O carnaval não pode servir de salvo-conduto para tamanha afronta à cidadania. Mas quem se importa, não é mesmo? As Olimpíadas vêm aí. Pão e circo, pra variar.
Referências bibliográficas
HERSCHMANN, Micael. Apontamentos sobre o crescimento do Carnaval de rua no Rio de Janeiro no início do século 21. Intercom, Rev. Bras. Ciênc. Comun., São Paulo, v. 36, n. 2, p. 267-289,Dec. 2013.
* MARCELO GRUMAN é Doutor em Antropologia Social (PPGAS/MN/UFRJ).
(fonte: https://espacoacademico.wordpress.com/2016/02/20/invasoes-barbaras/)
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Piketty: Sanders desafia a Era da Desigualdade
Eu sou muito cético com relação à possibilidade de algum candidato às eleições dos EUA realizar aquilo que promete. Se os leitores recordam, quando Obama foi eleito, eu disse a mesma coisa. Perante a euforia de um negro ocupar a presidência, havia muita esperança de mudança. O que se viu? Nada de essencial, pois o maior problema, que eram as guerras no Oriente Médio, agravou-se, em vez de se encerrar. Veremos, caso Sanders se eleja, se ele consegue enfrentar o "complexo industrial-militar"...
Crescimento, nos EUA, do candidato que quer redistribuir riqueza terá repercussão global: ele mostra que é possível reagir à aristocracia financeira
Por Thomas Piketty | Tradução: Inês Castilho
Como podemos interpretar o incrível sucesso do candidato “socialista” Bernie Sanders nas primárias dos EUA? O senador de Vermont está agora à frente de Hillary Clinton entre eleitores de tendência democrata com menos de 50 anos de idade, e é apenas graças à geração mais velha que Clinton consegue manter-se à frente nas pesquisas.
Sanders pode não vencer a competição, por estar enfrentando a máquina dos Clinton, assim como o conservadorismo da velha mídia. Mas já foi demonstrado que um outro Sanders – possivelmente mais jovem e menos branco – poderia num futuro próximo vencer as eleições presidenciais e mudar a fisionomia do país. Em vários aspectos, estamos testemunhando o fim do ciclo político-ideológico iniciado com a vitória de Ronald Reagan nas eleições de 1980.
Vamos dar uma olhada pra trás, por um instante. Dos anos 1930 aos 1970, os Estados Unidos estiveram na vanguarda de uma série de ambiciosas políticas com o objetivo de reduzir as desigualdades sociais. Em parte para evitar qualquer semelhança com a Velha Europa, vista então como extremamente desigual e contrária ao espírito democrático norte-americano, o país inventou no entre-guerras uma tributação altamente progressiva sobre a renda e o patrimônio, e instituiu níveis de progressividade nunca utilizados no outro lado do Atlântico. De 1930 a 1980 – durante meio século – o percentual para a tributação da renda mais alta dos EUA (acima de 1 milhão de dólares anuais) era em média de 82%. Chegou a 91% entre os anos 1940 e 1960 (de Roosevelt a Kennedy); e era ainda de 70% quando da eleição de Reagan, em 1980.
Essa política não afetou, de forma alguma, o forte crescimento da economia norte-americana do pós-guerra. Certamente, porque não faz muito sentido pagar a super gestores 10 milhões de dólares, quando US$ 1 milhão dá conta. Os impostos sobre patrimônio eram igualmente progressivos. As alíquotas chegaram a 70% a 80% sobre as maiores fortunas durante décadas (elas quase nunca excederam 30% a 40%, na Alemanha ou na França) e reduziram enormemente a concentração do capital norte-americano, sem a destruição e as guerras que a Europa teve de enfrentar.
A restauração de um capitalismo mítico
Nos anos 1930, muito antes dos países da Europa, os EUA instituíram um salário mínimo federal. No fim dos anos 1960 valia 10 dólares a hora (no valor do dólar em 2016), de longe o mais alto naqueles tempos.
Tudo isso foi obtido quase sem desemprego, pois tanto o nível de produtividade quanto o sistema educacional possibilitavam. Esse é também o período em que os EUA finalmente colocam um fim na antidemocrática discriminação racial legal ainda em vigor no Sul, e lançam novas políticas sociais.
Toda essa mudança detonou uma oposição musculosa, particularmente entre as elites financeiras e os setores reacionários do eleitorado branco. Humilhados no Vietnã, os EUA dos anos 1970 estavam mais preocupados com o fato de que os derrotados da Segunda Guerra Mundial (liderados pela Alemanha e pelo Japão) ganhavam terreno em alta velocidade. Os EUA sofreram inclusive com crise do petróleo, a inflação e a sub-indexação das tabelas dos impostos. Surfando nas ondas de todas essas frustrações, Reagan foi eleito em 1980 com um programa cujo objetivo era restaurar o capitalismo mítico existente no passado.
O ápice deste novo programa foi a reforma fiscal de 1986, que pôs fim a meio século de um sistema de impostos progressivos e reduziu a 28% a alíquota sobre as rendas mais altas.
Os democratas nunca desafiaram de fato essa escolha, nos anos dos governos Clinton (1992-2000) e Obama (2008-2016), que estabilizaram a alíquota de impostos em cerca de 40% (duas vezes mais baixa do que o nível médio no período 1930-1980). Isso detonou uma explosão de desigualdade, ao lado de salários incrivelmente altos para aqueles que podiam consegui-los, e uma estagnação da renda para a maioria dos norte-americanos. Tudo isso foi acompanhado de baixo crescimento (num nível ainda pouco mais alto que o da Europa, lembremos, pois o Velho Mundo encontrava-se atolado em outros problemas).
Uma possível agenda progressista
Reagan decidiu também congelar o valor do salário mínimo federal, que desde 1980 foi sendo lenta, porém seguramente corroído pela inflação (pouco mais de 7 dólares por hora em 2016, contra perto de 11 dólares em 1969). Também nesse caso, esse novo regime político-ideológico foi apenas mitigado nos anos Clinton e Obama.
O sucesso de Sanders, hoje, mostra que a maioria dos norte-americanos está cansada do aumento da desigualdade e dessas falsas mudanças políticas, e pretende reviver tanto uma agenda progressista quanto a tradição norte-americana de igualitarismo. Hillary Clinton, que posicionou-se à esquerda de Barack Obama em 2008, em questões como seguro de saúde, aparece agora como defensora do status quo, como apenas mais uma herdeira do regime politico de Reagan-Clinton-Obama.
Sanders deixa claro que deseja restaurar a progressividade dos impostos e aumentar o salário mínimo (para 15 dólares por hora). A isso acrescenta assistência de saúde e educação universitária gratuitas, num país onde a desigualdade no acesso à educação alcançou níveis sem precedentes, e destacando assim o abismo permanente que separa as vidas da maioria dos norte-americanos dos tranquilizadores discursos meritocráticos pronunciados pelos vencedores do sistema.
Enquanto isso, o Partido Republicano afunda-se num discurso hiper-nacionalista, anti-imigrante e anti-Islã (ainda que o Islã não seja uma grande força religiosa no país) e o enaltecimento sem limites da fortuna acumulada pelos brancos ultra-ricos. Os juízes nomeados sob Reagan e Bush derrubaram qualquer limitação legal da influência do dinheiro privado na política, o que dificulta muito a tarefa de candidatos como Sanders.
Contudo, outras formas de mobilização política e crowdfunding podem prevalecer e empurrar os Estados Unidos para um novo ciclo político. Estamos longe das tétricas profecias sobre o fim da história.
(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/piketty-sanders-desafia-a-era-da-desigualdade/)
Crescimento, nos EUA, do candidato que quer redistribuir riqueza terá repercussão global: ele mostra que é possível reagir à aristocracia financeira
Por Thomas Piketty | Tradução: Inês Castilho
Como podemos interpretar o incrível sucesso do candidato “socialista” Bernie Sanders nas primárias dos EUA? O senador de Vermont está agora à frente de Hillary Clinton entre eleitores de tendência democrata com menos de 50 anos de idade, e é apenas graças à geração mais velha que Clinton consegue manter-se à frente nas pesquisas.
Sanders pode não vencer a competição, por estar enfrentando a máquina dos Clinton, assim como o conservadorismo da velha mídia. Mas já foi demonstrado que um outro Sanders – possivelmente mais jovem e menos branco – poderia num futuro próximo vencer as eleições presidenciais e mudar a fisionomia do país. Em vários aspectos, estamos testemunhando o fim do ciclo político-ideológico iniciado com a vitória de Ronald Reagan nas eleições de 1980.
Vamos dar uma olhada pra trás, por um instante. Dos anos 1930 aos 1970, os Estados Unidos estiveram na vanguarda de uma série de ambiciosas políticas com o objetivo de reduzir as desigualdades sociais. Em parte para evitar qualquer semelhança com a Velha Europa, vista então como extremamente desigual e contrária ao espírito democrático norte-americano, o país inventou no entre-guerras uma tributação altamente progressiva sobre a renda e o patrimônio, e instituiu níveis de progressividade nunca utilizados no outro lado do Atlântico. De 1930 a 1980 – durante meio século – o percentual para a tributação da renda mais alta dos EUA (acima de 1 milhão de dólares anuais) era em média de 82%. Chegou a 91% entre os anos 1940 e 1960 (de Roosevelt a Kennedy); e era ainda de 70% quando da eleição de Reagan, em 1980.
Essa política não afetou, de forma alguma, o forte crescimento da economia norte-americana do pós-guerra. Certamente, porque não faz muito sentido pagar a super gestores 10 milhões de dólares, quando US$ 1 milhão dá conta. Os impostos sobre patrimônio eram igualmente progressivos. As alíquotas chegaram a 70% a 80% sobre as maiores fortunas durante décadas (elas quase nunca excederam 30% a 40%, na Alemanha ou na França) e reduziram enormemente a concentração do capital norte-americano, sem a destruição e as guerras que a Europa teve de enfrentar.
A restauração de um capitalismo mítico
Nos anos 1930, muito antes dos países da Europa, os EUA instituíram um salário mínimo federal. No fim dos anos 1960 valia 10 dólares a hora (no valor do dólar em 2016), de longe o mais alto naqueles tempos.
Tudo isso foi obtido quase sem desemprego, pois tanto o nível de produtividade quanto o sistema educacional possibilitavam. Esse é também o período em que os EUA finalmente colocam um fim na antidemocrática discriminação racial legal ainda em vigor no Sul, e lançam novas políticas sociais.
Toda essa mudança detonou uma oposição musculosa, particularmente entre as elites financeiras e os setores reacionários do eleitorado branco. Humilhados no Vietnã, os EUA dos anos 1970 estavam mais preocupados com o fato de que os derrotados da Segunda Guerra Mundial (liderados pela Alemanha e pelo Japão) ganhavam terreno em alta velocidade. Os EUA sofreram inclusive com crise do petróleo, a inflação e a sub-indexação das tabelas dos impostos. Surfando nas ondas de todas essas frustrações, Reagan foi eleito em 1980 com um programa cujo objetivo era restaurar o capitalismo mítico existente no passado.
O ápice deste novo programa foi a reforma fiscal de 1986, que pôs fim a meio século de um sistema de impostos progressivos e reduziu a 28% a alíquota sobre as rendas mais altas.
Os democratas nunca desafiaram de fato essa escolha, nos anos dos governos Clinton (1992-2000) e Obama (2008-2016), que estabilizaram a alíquota de impostos em cerca de 40% (duas vezes mais baixa do que o nível médio no período 1930-1980). Isso detonou uma explosão de desigualdade, ao lado de salários incrivelmente altos para aqueles que podiam consegui-los, e uma estagnação da renda para a maioria dos norte-americanos. Tudo isso foi acompanhado de baixo crescimento (num nível ainda pouco mais alto que o da Europa, lembremos, pois o Velho Mundo encontrava-se atolado em outros problemas).
Uma possível agenda progressista
Reagan decidiu também congelar o valor do salário mínimo federal, que desde 1980 foi sendo lenta, porém seguramente corroído pela inflação (pouco mais de 7 dólares por hora em 2016, contra perto de 11 dólares em 1969). Também nesse caso, esse novo regime político-ideológico foi apenas mitigado nos anos Clinton e Obama.
O sucesso de Sanders, hoje, mostra que a maioria dos norte-americanos está cansada do aumento da desigualdade e dessas falsas mudanças políticas, e pretende reviver tanto uma agenda progressista quanto a tradição norte-americana de igualitarismo. Hillary Clinton, que posicionou-se à esquerda de Barack Obama em 2008, em questões como seguro de saúde, aparece agora como defensora do status quo, como apenas mais uma herdeira do regime politico de Reagan-Clinton-Obama.
Sanders deixa claro que deseja restaurar a progressividade dos impostos e aumentar o salário mínimo (para 15 dólares por hora). A isso acrescenta assistência de saúde e educação universitária gratuitas, num país onde a desigualdade no acesso à educação alcançou níveis sem precedentes, e destacando assim o abismo permanente que separa as vidas da maioria dos norte-americanos dos tranquilizadores discursos meritocráticos pronunciados pelos vencedores do sistema.
Enquanto isso, o Partido Republicano afunda-se num discurso hiper-nacionalista, anti-imigrante e anti-Islã (ainda que o Islã não seja uma grande força religiosa no país) e o enaltecimento sem limites da fortuna acumulada pelos brancos ultra-ricos. Os juízes nomeados sob Reagan e Bush derrubaram qualquer limitação legal da influência do dinheiro privado na política, o que dificulta muito a tarefa de candidatos como Sanders.
Contudo, outras formas de mobilização política e crowdfunding podem prevalecer e empurrar os Estados Unidos para um novo ciclo político. Estamos longe das tétricas profecias sobre o fim da história.
(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/piketty-sanders-desafia-a-era-da-desigualdade/)
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Bomba atômica social: automação, acumulação e desigualdade
É óbvio que a computação eletrônica trouxe grandes
benefícios para a vida humana e para a natureza de um modo geral. Mas
ela é bem de capital, que gera riqueza a quem a possuiu e alto custo a
quem dela necessita.
Por Antônio de Paiva Moura,
No
alvorecer do corrente século surgiram muitos estudos sobre o aumento
progressivo da desigualdade e da acumulação de renda no mundo. As
grandes empresas comerciais, industriais, financeiras e prestadoras de
serviços só permanecem atuantes se houver perspectiva de altos lucros.
Qualquer sinal de queda no nível da lucratividade, elas paralisam ou
diminuem o nível de produção. Muitas vezes, o capital desviado do setor
de produção vai para a área financeira legal ou clandestina.
Segundo
Chiavenato, a performance econômica das empresas é analisada pelos
investimentos e retornos que são registrados, processados e medidos em
termos de dinheiro; a busca de obtenção de lucros, índice de
rentabilidade. Para obtenção de resultados a empresa seleciona ao máximo
o quadro de servidores, deixando somente aqueles que se revelam como
talentos, e substituem ao máximo o trabalho humano por instrumentos
automáticos.
A automação microeletrônica provocou
transformações rápidas no sistema econômico mundial, com reflexo
imediato nas performances das empresas e na degradação social. Além do
desemprego, a automação provoca a desclassificação de trabalhadores.
Apenas
um exemplo para ilustrar essa questão: a empresa de transporte Gontijo,
fundada em 1943, já na década de 1990 era dona de linhas que percorriam
todos os estados do Brasil. Na agência de Belo Horizonte a empresa
empregava seis bilheteiros. Com o uso do computador para emitir
passagens, apenas um bilheteiro faz todo o serviço. O serviço mecânico
para a frota é terceirizado.
Não é coincidência o fato
de a empresa ter chegado ao domínio de mais de 100 linhas interestaduais
e transporte de sete milhões de passageiros por ano, contudo,
diminuindo o número de empregados nos serviços de apoio.
É
necessário chamar a atenção para o fato de que esse é um exemplo entre
milhares de situações. Nas duas últimas décadas, as empresas mineradoras
encontraram forma tecnológica de multiplicar a extração de minérios e
transportá-los com o mínimo de ocupação humana. É óbvio que a computação
eletrônica trouxe grandes benefícios para a vida humana e para a
natureza de um modo geral. Mas ela é bem de capital, que gera riqueza a
quem a possuiu e alto custo a quem dela necessita.
Em
janeiro de 2016 Winnie Byanyma, diretor geral da Oxfam Internacional,
compareceu ao Fórum Econômico Mundial de Davos para demonstrar os
efeitos da 4ª Revolução Industrial desencadeada pelo avanço tecnológico.
O pleno emprego de força humana é o melhor meio de dinamizar a
circulação monetária e, em consequência, a circulação das mercadorias.
Em
2012 o prêmio Nobel de Economia, o norte-americano Joseph Stiglitz
publicou o livro intitulado “O preço da desigualdade”, tendo tido para
tal obra a colaboração do economista italiano Mauro Gallegati. Nessa
obra, ele afirma que a classe de 1% mais rica do mundo não é muito
afeita ao consumo. Mesmo que o fosse não contribuiria com o
desenvolvimento industrial e com o PIB. Somente uma classe média
bem-sucedida e favorecida pela distribuição de renda tende a consumir
todos ou quase todos os seus recursos, sustentando o PIB do próprio país
e a economia de modo geral.
O enunciado científico de
Stiglitz e Gallegati é o seguinte: "quando o 1% mais rico da população
concentra 25% da renda a bomba atômica econômica explode, isto é, o
capitalismo entra em crise".
Eles demonstram que isso
aconteceu em 1929, 1998 e de 2003 a 2008. A descoberta de Stiglitz e
Gallegati demonstra que a desigualdade corrói o PIB até matá-lo, não só
por causa da queda do consumo, mas também porque o sistema de
concentração é ineficiente. Segundo Bernabucci, este foi o maior ataque
teórico e científico ao neoliberalismo.
Com base no
enunciado de Stiglitz a perspectiva é de agravamento da crise do sistema
econômico mundial com prejuízo para as classes trabalhadoras, com
tendência a aumentar e se agravar. Conforme dados divulgados pela Oxfam,
a riqueza de 1% da população mundial supera a do restante 99% no
balanço de 2015. Diz uma nota da Agência Brasil que o fosso entre a
parcela mais rica e o resto da população aumentou de forma dramática
durante o ano de 2015. Apenas 62 pessoas no mundo possuem mais bens que a
metade de toda a população do mundo.
O estopim da bomba
atômica social já está aceso. Ele é visível no aumento da violência
interpessoal, nos conflitos de grupos, nos atos terroristas, guerras e
multidões de refugiados perambulando pelo mundo. Basta ver sob as
marquises e viadutos das cidades o aumento da população de sem tetos. Só
na cidade de New York são mais de 80 mil moradores de rua. A
superpopulação carcerária também é um forte componente da bomba atômica
social.
(fonte: enviado pelo autor, publicado originalmente no Brasil de Fato - http://www.brasildefato.com.br/node/34169)
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
Francisco volta a provocar hierarquia católica
Em discurso surpreendente aos bispos mexicanos, Papa amplia polêmica contra Cúria romana e fustiga conservadorismo, fascínio pela riqueza e espírito burocrático encravados na igreja
Por Mauro Lopes, editor do site Caminho pra Casa
O discurso do Papa para os bispos mexicanos neste sábado foi surpreendente — mas Francisco não se cansa de surpreender. A chave de leitura para compreender o que ele disse ao episcopado mexicano é o seu duríssimo discurso à Cúria romana no fim de dezembro de 2014 quando denunciou as 15 doenças curiais (mexericos, carreirismo, oportunismo, acúmulo de riquezas, indiferença em relação às pessoas, perda do “primeiro amor” pelo seguimento do Cristo, Alzheimer espiritual e outras). Se quiser lembrar ou conhecer um discurso histórico e inédito de um Papa à burocracia vaticana, clique no link clicando aqui.
Um leitura combinada das duas manifestações do Papa indica claramente seu antagonismo com a hierarquia da Igreja, que, a partir da cúria romana, insurgiu-se contra o espírito do Vaticano II desde o primeiro momento, ainda nos anos 1960. Tal espirito foi contido por Paulo VI – João Paulo I acompanhava o passo de João XXIII e Paulo VI, mas sua morte, 33 dias depois de eleito (em agosto de 1978) interrompeu o caminho do espírito conciliar.
O conservadorismo prevalecente na cúpula da Igreja no Vaticano e, de uma maneira geral, ao redor do planeta, com exceções que confirmam a regra (como a Alemanha e, agora, a Espanha) não foi obra do acaso ou apenas do “espírito da época”. Durante mais de 30 anos, as nomeações de bispos e cardeais obedeceram a três lógicas: 1) rigorismo (seguimento às regras e normas e não ao espírito do Evangelho); 2) conservadorismo político e social (afastamento dos pobres); e 3) visão institucional da Igreja (olhar para dentro e submissão à burocracia eclesial). A atual cúpula da Igreja é obra de construção metódica e obstinada, feita por corações e mentes alinhados com uma visão particular do cristianismo.
Isto faz com que Francisco tenha ao seu redor uma grande massa de bispos e cardeais que respiram o espírito de contrarreforma e comportam-se como os burocratas nos governos: ficam quietos, às vezes encenam concordância com o “chefe” — e esperam pelo próximo Papa. O Papa governa com um pequeno mas aguerrido núcleo de bispos e cardeais sintonizados com a retomada dos valores originais da Igreja e o espírito do Concílio Vaticano II. Os padres têm um papel de baixa relevância nesse processo, pois com o espírito conservador dos últimos anos, tiveram seu protagonismo praticamente liquidado. De fato, o processo dominante dos últimos anos formou milhares de padres preocupados com suas roupas, em encontrar uma paróquia “rica”, em oposição à ideia do serviço cristão.
Neste cenário adverso, Francisco navega com coragem e descortino que animam os cristãos e as pessoas de bem de todo o mundo. Como disse o bispo mexicano Raul Vera há um “efeito Francisco” nas pessoas, “mas ainda não na Igreja. Somos nós, os bispos e sacerdotes os que temos que nos converter à integridade do Evangelho”. Vera é um desses lideres da Igreja sintonizados por Francisco e que sofreu enormes perseguições por parte de seus pares mexicanos. Leia a entrevista dele aqui.
Qual a possibilidade de uma reforma na cúpula da Igreja? O Papa instituiu o Grupo dos 9, cardeais fiéis ao espírito do Vaticano II e que estão finalizando o novo desenho da organização do Vaticano. O coordenador do grupo é o valente e inspirado cardeal de Tegucigalpa, Óscar Tegucigalpa. É um caminho. Mas os cristãos que vivem no espírito original do Evangelho e das primeiras comunidades devem rezar por um papado de mais uns bons anos à frente, para que Francisco consiga modificar o panorama da hierarquia católica. Pessoas de todos os credos e mesmo ateus parecem rezar ou torcer por isso.
Francisco tirou a Igreja da irrelevância a que tinha se encolhido nos últimos anos e recolocou-a no centro do mundo -mas a partir das margens, dos pobres. Este é o espírito de seu papado e assim deve ser lido seu discurso aos bispos mexicanos.
A Igreja mexicana é hoje dominada por uma cúpula conservadora que persegue leigos, padres e bispos vinculados aos pobres do país. O México é o berço do grupo clerical de direita, os milionários Legionários de Cristo, que se envolveu num grande escândalo — seu fundador, e idolatrado no grupo, Marcial Maciel, era pedófilo, teve filhos com várias mulheres, era dependente químico e, claro, perseguia todas as pessoas que não seguissem o “código moral” conservador…
No discurso aos bispos mexicanos, Francisco colocou o dedo na ferida logo de cara: “Vigiai para que os vossos olhares não se cubram com as penumbras da névoa do mundanismo; não vos deixeis corromper pelo vulgar materialismo nem pelas ilusões sedutoras dos acordos feitos por baixo da mesa; não ponhais a vossa confiança nos “carros e cavalos” dos faraós de hoje, porque a nossa força é a “coluna de fogo” que irrompe separando em duas as águas do mar, sem fazer grande rumor (Ex 14, 24-25).”
O tema das intrigas e do carreirismo, que ele abordara no discurso contra a cúpula do Vaticano, voltou no México: “Assim, não percais tempo e energias nas coisas secundárias, nas críticas e intrigas, em projetos vãos de carreira, em planos vazios de hegemonia, nos clubes estéreis de interesses ou compadrios. Não vos deixeis paralisar pelas murmurações e maledicências.”
O esquecimento do “primeiro amor” ao seguimento de Cristo, que fora uma crítica central aos cardeais curiais em 2014 também foi destacado hoje: “Se o nosso olhar não dá testemunho de ter visto Jesus, então as palavras que recordamos d’Ele não passam de figuras retóricas vazias. Talvez expressem a nostalgia daqueles que não podem esquecer o Senhor, mas, em todo o caso, são apenas o balbuciar de órfãos junto do sepulcro. No fim de contas, são palavras incapazes de impedir que o mundo fique abandonado e reduzido ao próprio poder desesperado.”
O clericalismo e a indiferença, também objeto do discurso em Roma, esteve presente no México: “Por isso nós, pastores, precisamos vencer a tentação da distância e do clericalismo, da frieza e da indiferença, do triunfalismo e da auto-referencialidade. Guadalupe ensina-nos que Deus é familiar no seu rosto, que a proximidade e a condescendência podem fazer mais do que a força.”
Uma crítica que esteve ausente em Roma foi relativa à pastoral — que não inexiste na burocracia vaticana. No México, Papa acusou o olhar superior dos que se julgam acima dos pobres: “Por isso, sede bispos capazes de imitar esta liberdade de Deus, escolhendo o que é humilde para manifestar a majestade do seu rosto e copiar esta paciência divina ao tecer, com o fio sútil da humanidade que encontrais, aquele homem novo que o vosso país espera. Não vos deixeis levar pela vã pretensão de mudar o povo, como se o amor de Deus não tivesse força suficiente para o mudar.”
O conservadorismo foi alvo de uma crítica direta do Papa: “Peço-vos para não cairdes na estagnação de dar velhas respostas às novas questões. O vosso passado é um poço de riquezas por escavar, que pode inspirar o presente e iluminar o futuro. Ai de vós se vos deixais adormentar sobre os louros! É preciso não desperdiçar a herança recebida, guardando-a com um trabalho constante. Estais sentados aos ombros de gigantes: bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos fiéis «até ao fim», que deram a vida para a Igreja poder cumprir a sua missão. Do alto de tal pódio, sois chamados a alongar o olhar sobre o campo do Senhor para programar a sementeira e esperar a colheita.”
Impressionante a coragem de Francisco ao apontar o fascínio pela riqueza e grandiosidade que larva na cúpula da Igreja mexicana (como em outras ao redor do planeta) como “perda da sacralidade do sentido da vida humana e do respeito pelo planeta e, portanto, uma insurreição ainda que silenciosa aos termos da encíclica Laudato Si. O trecho é impressionante: “A Igreja, mesmo quando se reúne numa majestosa catedral, não poderá deixar de considerar-se como uma «casita» onde os seus filhos se sintam à vontade. Diante de Deus, pode-se permanecer apenas se se é pequeno, se se é órfão, se se é mendicante. (…) O fato de nos termos esquecido de «tirar as sandálias» para entrar não estará porventura na raiz da perda do sentido da sacralidade da vida humana, da pessoa, dos valores essenciais, da sabedoria acumulada ao longo dos séculos, do respeito pela natureza? Sem recuperar, na consciência dos homens e da sociedade, estas raízes profundas, incluindo o generoso empenho em prol dos legítimos direitos humanos, faltará a seiva vital que só pode vir dum manancial que a humanidade não poderá jamais dar-se por si mesma.”
No estertor do discurso, o Papa atacou diretamente o espírito de “realeza” que toma conta da Igreja e que nada tem a ver com o Reino de Deus. Falou claramente dos “príncipes” que povoam a hierarquia católica e fez um apelo por sua reconversão. O Papa advertiu a cúpula mexicana a não encalhar a barca da Igreja local. O texto chega a ser estonteante: “Não há necessidade de «príncipes», mas de uma comunidade de testemunhas do Senhor. Cristo é a sua única luz; é a fonte da água viva; da sua respiração, sai o Espírito que estende as velas da barca eclesial. Em Cristo glorificado, que os membros deste povo gostam de honrar como Rei, acendei juntos a luz, enchei-vos da sua presença que não Se extingue; respirai a plenos pulmões o ar bom do seu Espírito. Compete-vos semear Cristo no território, manter acesa a sua luz humilde que ilumina sem ofuscar, garantir que nas suas águas se sacie a sede do vosso povo; levantar as velas de modo que o sopro do Espírito as impulsione e não encalhe a barca da Igreja no México.”
Qual será a repercussão de mais um discurso sem precedentes e que chacoalha não só a cúpula mexicana mas carrega uma mensagem a atravessar a hierarquia católica em quase todo o planeta? Difícil dizer, mas que o Papa está cada dia mais decidido a enfrentar abertamente aqueles que traíram a Igreja das origens e os compromissos do Vaticano II não resta dúvida.
(fonte: http://outraspalavras.net/blog/2016/02/15/francisco-volta-a-provocar-hierarquia-catolica/)
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
Economia: por que perdura risco do colapso global
Desde 2008, nenhuma das políticas “contra a crise” ousou questionar papel dos bancos e aristocracia financeira. Reforçados, eles ameaçam provocar novos desastres. Há alternativas
Por Joseph E. Stiglitz | Tradução: Inês Castilho |
Sete anos depois de irromper a crise financeira global, em 2008, a economia mundial continuou a tropeçar, em 2015. Conforme o relatório da ONU Situação e Perspectivas da Economia Mundial 2016 , a taxa média de crescimento nas economias desenvolvidas teve queda de mais de 54% desde a crise. Cerca de 44 milhões de pessoas estão desempregadas em países desenvolvidos, algo como 12 milhões a mais do que em 2007, enquanto a inflação alcançou seu nível mais baixo desde o início da crise.
Mais preocupante, as taxas de crescimento dos países avançados também tornaram-se mais voláteis. Isso é surpreendente, porque, como economias desenvolvidas, com contas de capital totalmente abertas, elas deveriam ter-se beneficiado do livre fluxo de capital e participação internacional nos riscos – e portanto, experimentado pequena volatilidade macroeconômica. Além disso, os investimentos sociais, incluindo os auxílios aos desempregados, deveriam ter permitido às famílias estabilizar seu consumo.
Mas as políticas dominantes durante o período pós-crise – redução de impostos e flexibilização quantitativa (quantitative easing, ou QE, na sigla em inglês) [1] pelos principais bancos centrais – ofereceu pouco apoio para estimular o consumo das famílias, os investimentos, e o crescimento. Ao contrário, estas medidas tenderam a tornar as coisas piores.
Nos Estados Unidos, a flexibilização quantitativa não estimulou o consumo e o investimento, em parte porque o volume maior de liquidez adicional retornava aos cofres dos bancos centrais em forma de excesso de reservas. A Lei de Desregulamentação dos Serviços Financeiros de 2006, que autorizou o Federal Reserve (banco central norte-americano) a pagar juros sobre as reservas necessárias e em excesso, prejudicou, assim, o principal objetivo do QE.
Em 2008, com o setor financeiro dos EUA à beira do colapso, a Lei de Estabilização Econômica Emergencial ampliou, para três anos, o prazo para que o Tesouro pagasse juros sobre suas reservas. Como resultado, o excesso de reservas controladas pelo Fed disparou, de uma média de 200 bilhões de dólares no período de 2000 a 2008 para 1,6 trilhões durante 2009-2015. As instituições financeiras preferiram manter seu dinheiro com o banco central (Federal Reserve, ou Fed, nos EUA), ao invés de emprestá-lo para a economia real. Lucraram perto de 30 bilhões de dólares – completamente livres de riscos – durante os últimos cinco anos.
Equivale a um subsídio generoso – e bem escondido – do Fed ao setor financeiro. Em consequência da alta da taxa de juros norte-americanos, no mês passado, o subsídio irá aumentar cerca de 13 bilhões de dólares, este ano.
Incentivos perversos são apenas uma das razões por que os esperados benefícios de baixas taxas de juros não se materializaram. Dado que o QE conseguiu manter as taxas de juros próximas de zero por quase sete anos, isso deveria ter encorajado os governos nos países desenvolvidos a emprestar e investir em infra-estrutura, educação e área social. O aumento das transferências sociais durante o póscrise teria impulsionado a demanda agregada e sustentado os padrões de consumo.
Ademais, o relatório da ONU mostra claramente que, por todo o mundo desenvolvido, o investimento privado não cresceu como se esperava, diante das taxas de juros ultra baixas. Em 17 das 20 maiores economias desenvolvidas, o crescimento dos investimentos permaneceu mais baixo durante o período pós 2008 do que nos anos anteriores à crise; cinco delas viveram um declínio do investimento durante 2010-2015.
Globalmente, os títulos da dívida emitidos por corporações não-financeiras – supostamente para realizar investimentos fixos – aumentou significativamente durante o mesmo período. Consistente com outras evidências, isso implica que várias corporações não-financeiras tomaram emprestado, aproveitando-se das taxas de juros baixas. Mas, ao invés de investir, usaram o dinheiro para comprar de volta suas próprias ações ou adquirir outros ativos financeiros. Assim, o QE estimulou aumentos acentuados na alavancagem, capitalização do mercado e lucratividade do setor financeiro.
Mas, de novo, nada disso foi de muita ajuda para a economia real. Claramente, manter as taxas de juros próximo de zero não necessariamente leva a níveis mais altos de crédito ou investimento. Quando é dada aos bancos liberdade de escolher, eles escolhem lucro sem risco ou até mesmo especulação financeira, em vez de empréstimos que dariam suporte ao objetivo mais amplo de crescimento da economia.
Por contraste, quando o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional emprestam dinheiro barato aos países em desenvolvimento, impõem condições sobre o que pode ser feito com os recursos. Para alcançar o efeito desejado, o QE teria de ter sido acompanhado não apenas de esforços oficiais para restaurar canais de empréstimo prejudicados (especialmente aqueles dirigidos a empreendimentos pequenos e médios), mas também por metas específicas de empréstimos para os bancos. Ao invés de incentivar de forma eficaz os bancos a não emprestar, o Fed deveria estar penalizando os bancos por manter reservas em excesso.
Se as taxas de juros ultra baixas ofereceram poucos benefícios para os países desenvolvidos, eles impuseram custos significativos às economias emergentes e em desenvolvimento. Uma consequência acidental, mas não inesperada, da flexibilização da política monetária tem sido o forte aumento nos fluxos de capital transfronteiriços. O fluxo total de capital para países em desenvolvimento aumentou de cerca de 20 bilhões de dólares em 2008 para 600 bilhões em 2010.
Diversos países emergentes tiveram dificuldades para gerir a repentina explosão de fluxo de capital. Parte muito pequena dele foi para investimentos fixos. Na verdade, o crescimento dos investimentos nos países em desenvolvimento desacelerou significativamente durante o período pós crise. Neste ano, espera-se que o conjunto dos países em desenvolvimento registrem seu primeiro ano de fuga de capital líquido – um total de 615 bilhões de dólares – desde 2006.
Nem a política monetária, nem o setor financeiro estão fazendo o que devem. Parece que a enchente de liquidez foi destinada, desproporcionalmente, à criação de riqueza financeira e a inflar bolhas de ativos, em vez de fortalecer a economia real. Apesar das fortes quedas nos preços das ações em todo o mundo, permanece alta a capitalização do mercado, em percentual do PIB mundial. O risco de outra crise financeira não pode ser ignorado.
Outras políticas, de sentido oposto, poderiam restaurar um crescimento sustentável e inclusivo. Para começar, é preciso reescrever as regras da economia de mercado para assegurar maior igualdade, buscar mais planejamento de longo prazo, e colocar rédeas no mercado financeiro, com regulação efetiva e estruturas adequadas de incentivo.
Mas também será necessário um grande aumento do investimento público em infra-estrutura, educação e tecnologia. Este terá de ser financiado, ao menos em parte, pela criação de impostos ambientais — inclusive sobre a emissão de carbono — e de impostos sobre o monopólio e outras rendas não ligadas à produção — que se disseminaram na economia de mercado e contribuem enormemente com a desigualdade e o crescimento fraco.
—
[1] Trata-se de um processo de injeção maciça de dinheiro nas economias dos EUA e União Europeia, por iniciativa coordenada de seus governos e bancos centrais. Estes liquidaram antecipadamente grandes quantidades de recursos públicos — ou seja, pagaram em dinheiro aos aplicadores –, num esforço para combater a recessão pós-2008 ampliando o estoque de moeda disponível. No entanto, como explica Stiglitz a seguir, fizeram-no beneficiando os extratos mais ricos. Tais grupos, ao invés de movimentar a economia, ampliando o consumo ou investimento, utilizaram os recursos para novas aplicações financeiras ou aquisição de empresas já existentes — inclusive no exterior. O quantitative easing favoreceu, entre outros processos, a ultra-valorização do real brasileiro, entre 2009 e 2014. [Nota da Tradução]
(fonte: http://outraspalavras.net/capa/stiglitz-por-que-continuamos-a-beira-de-colapso-global/)
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