terça-feira, 4 de outubro de 2016

Psiquiatria: vendedores de ilusões perigosas?


Informo que foi publicado novo texto no BLOG DA REA:

Psiquiatria: vendedores de ilusões perigosas?

GILSON DANTAS
Muitos procedimentos que são levados adiante pela medicina baseada no lucro e na má ciência precisam ser alvo de debate. O risco de naturalizá-los pode ceifar desnecessariamente muitas vidas. Não é razoável validar todas as práticas médicas apenas porque estão, nesse momento, em uso corrente dentro da medicina [que está longe de ser uma área isenta, neutra, científica até o final]; muito menos em uma sociedade profundamente alienada por décadas de pensamento neoliberal, positivista; e com medicamentos e procedimentos médicos tendo entrado totalmente na esfera das mercadorias, do lucro, do grande capital...

LEIA NA ÍNTEGRA: https://espacoacademico.wordpress.com/2016/10/01/psiquiatria-vendedores-de-ilusoes-perigosas-e-o-pensamento-do-cientista-e-professor-da-universidade-de-copenhague-peter-gotzsche/

Não voto, não ligo, não confio: a cabeça do eleitor que ‘venceu’ esta eleição

O sapateiro carioca José Luiz Rodrigues, de 53 anos, fez questão, pela primeira vez, de apertar o “branco” quando foi votar no domingo. “Não confio em ninguém. O político só saber roubar e aumentar impostos. Minha vida, no final de contas, ninguém muda, quem muda é Deus. Eu continuo aqui de 8h às 18h, com trombose na perna e ainda tendo que pagar um plano de saúde”, reclama. Não houve programa eleitoral, candidato nem bispo, que o convencesse do contrário. “Já me arrependi de votar em Lula, em Dilma e em todos”, encerra. No mesmo pedaço de rua onde José Luiz trabalha, no bairro do Flamengo, um garçom, um porteiro e um lojista também votaram em ninguém nessas eleições municipais.
João Pedro de Paula, empreendedor de 27 anos, votou nulo pela primeira vez nesta eleição. “A pergunta que o eleitor responde no primeiro turno é 'quem você gostaria que fosse o prefeito da cidade?', e eu não apoio nenhum dos candidatos. Votei em Marcelo Freixo em 2012, mas hoje estou decepcionado com o PSOL e o tipo de diálogo que estabeleceu com a sociedade. Agora, no segundo turno, a pergunta ao eleitor é diferente e você escolhe quem prefere que seja o prefeito entre duas opções, e, aí sim, votarei no Freixo.”

A reportagem é de María Martín e publicada por El País, 03-10-2016.

Como o sapateiro, mais de 204.100 pessoas (5,5% dos eleitores) votaram em branco no Rio e, como o empreendedor, outras 473.324 pessoas (12,76%) anularam seu voto. A soma dos dois percentuais representa um alta de 35% em relação as eleições municipais de 2012, e favoreceu para tornar o Rio a capital do não voto nessas eleições. A soma dos votos brancos e nulos e a abstenção, que foi de 24,28%, superou os votos conquistados pelos vencedores do primeiro turno, Marcelo Crivella (PRB) e Marcelo Freixo (PSOL) juntos.
Em São Paulo, João Doria teve uma vitória avassaladora, uma conquista sem precedentes com mais de três milhões de votos. Mas também aqui, os que não votaram em nenhum dos candidatos superaram os eleitores do empresário. Em uma tendência similar à do Rio, os votos brancos e nulos aumentaram 30% de 2012 para cá até 16,64%, enquanto a abstenção cresceu 18% se situando em 21,84% (a média nacional foi de 17,58%). São percentuais que não se viam desde 1996. Os dados chamaram a atenção até do presidente Michel Temer, que viu no resultado do pleito um recado. “É um sentimento de decepção com toda a classe política”, afirmou durante encontro com a imprensa em Buenos Aires.
Jairo Nicolau, cientista político e especialista em sistemas eleitorais, acredita que o alto número de abstenções confirma, na verdade, que o voto obrigatório não tem mais o peso que tinha sobre as pessoas e que as punições não são suficientes para levar o eleitor às urnas. “Mas não necessariamente trata-se de desinteresse ou um voto de protesto. Há idosos e analfabetos que têm o voto facultativo, há pessoas sem dinheiro para pegar um ônibus e ir a votar, registros eleitorais desatualizados que ainda contemplam falecidos”, diz ele. Para ele, os votos brancos e nulos são sim um sinal de descontentamento. “É um sentimento que começamos a ver em 2013, veio mais forte em 2015 e 2016 com as denúncias de corrupção e a crise do PT, que era uma espécie de reserva moral desse sistema político, e refletiu-se nessa eleição. É claro que aumentou o pessimismo das pessoas. Mas o que mais me assustou nessa eleição não foi uma pesquisa, senão a conversa com pessoas mais pobres que transformaram a insatisfação no não voto. É uma surpresa” , afirma Nicolau.
O elevado número de votos brancos e nulos e as abstenções viu-se em outras grandes capitais. Além de no Rio e em São Paulo, em Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Belém (PA), Cuiabá (MT), Campo Grande (MS) e Aracaju (SE) os votos brancos e nulos somados às abstenções venceram o primeiro turno nestas eleições, segundo um levantamento da EBC. Em Curitiba, por exemplo, o percentual de votos brancos e nulos aumentou 61,36% chegando a 13,78%. As abstenções quase dobraram (9,09% em 2012, a 16,6% nesta eleição). A soma de todos eles (360.348 votos) supera também a do candidato mais votado. Em Porto Alegre, outro exemplo, foram 15,8% de votos brancos e nulos frente aos 9,4% de 2012.
Para o presidente do Tribunal Superior eleitoral, Gilmar Mendes, o número de votos brancos e nulos nas grandes capitais (ainda não foi fechado um índice nacional) não são importantes. "Os votos brancos e nulos não nos parecem relevantes. Na nossa avaliação, é mais um voto de desinformação do que de protesto", declarou. Segundo Mendes, o índice de abstenção deste ano (17,58%) é baixo em relação às eleições presidenciais de 2014, quando 20% dos eleitores brasileiros não votaram. Nas eleições municipais de 2012, 16,41% do eleitorado não foi às urnas.
As razões que explicam a abstenção e a escolha do voto branco e nulo não se restringe apenas pela insatisfação política do eleitor, afirma a cientista política Alessandra Aldé, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. “Além do fenômeno anti-político que vivemos, o timing dessa eleição foi particularmente infeliz: o desgaste era muito forte depois do longo processo de impeachment. A opinião publica funciona em ondas de interesses e agora há um desgaste do eleitor que está envolvido em discussões políticas desde a eleição de 2014”, afirma Aldé. “As novas regras eleitorais recortaram também o tempo de campanha, tirando visibilidade dos candidatos e o eleitor teve menos tempo de se interessar ao longo do processo”, completa.

Ativismo do voto nulo

Fora o desgosto pelos candidatos, o ativismo do voto nulo também esteve presente nesta eleição. No Largo do Machado, no bairro do Catete, enquanto meia dúzia de militantes de Marcelo Freixo balançava bandeiras, um grupo ocupava a praça. “Não vote, lute”, clamavam em defesa do boicote eleitoral como negação do sistema.
O designer Tony de Marco, de 52 anos, optou por esse “voto de protesto”, como ele o chama, em São Paulo. Ele vota nulo desde 1986. “Militei no movimento estudantil de 1980 até 1986. Fiz muita campanha, acreditava que fazia a diferença. Com o tempo vi que a estrutura é muito engessada e a eleição, do jeito como se apresenta, é uma ilusão de participação. Acho que as pessoas superestimam a democracia, acham que basta votar no ‘menos ruim’ para tudo ir melhorando. Mas as forças que movem as eleições são muito maiores”, explica.
O que faria ele votar de novo passa por uma mudança de dentro para fora do sistema eleitoral. “Desde as regras para a criação de um partido, passando pelas absurdas regras eleitorais que regem coligações e votações proporcionais (que sempre puxam eleitos totalmente desproporcionais) até chegar na dificílima compreensão de que é preciso participar o tempo todo das decisões dos partidos, e não só de quatro em quatro anos”. Uma reforma eleitoral completa – e até utópica – num país onde ainda não é prioridade nem a reforma política.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/560774-nao-voto-nao-ligo-nao-confio-a-cabeca-do-eleitor-que-venceu-esta-eleicao)

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Pré-sal: quem desdenha quer vender



Texto escrito por José de Souza Castro:

No dia 5 de maio último escrevi neste blog artigo intitulado “O que se pode esperar de Parente na Petrobras”. Passados quase cinco meses, não tenho o que mudar no texto. Como dito ali, ele acaba de confirmar que pretende repassar pedaços do pré-sal à iniciativa privada e, ao invés de valorizar o ativo à venda, cobiçado pelas grandes petroleiras internacionais, desdenha dele.
Pedro Parente é ágil e não se limita a apoiar o projeto de lei do senador tucano José Serra (hoje ministro das Relações Exteriores) em tramitação no Congresso Nacional. Ele quer vender a Petrobras aos pedaços, aparentemente sem qualquer preocupação com o fato de que não é a melhor hora de vender, tendo em vista o momento atual da economia global.
O presidente da Petrobras parece ter ojeriza às termoelétricas (que também pretende vender), talvez porque tenha algum sentimento de culpa em relação a elas. Vale repetir esse trecho de nota da Federação Única dos Petroleiros (FUP), de maio:
“Um dos maiores escândalos protagonizados por Pedro Parente no governo tucano foram os contratos para compra de energia emergencial e as ‘compensações’ feitas às concessionárias privadas e aos investidores atraídos pelo Programa Prioritário de Termeletricidade, que impôs prejuízos bilionários à Petrobrás. Professores do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP chegaram na época a denunciá-lo ao Ministério Público Federal por improbidade administrativa. Sob a chancela de Pedro Parente, a Petrobrás teve que assinar contratos de parceria com o setor privado para construção de usinas termoelétricas, entre 2000 e 2003, onde se comprometeu a garantir a remuneração dos investidores, mesmo que as empresas não dessem lucro, bem como cobrir os custos dos empreendimentos, caso a venda de energia não fosse suficiente para sustentar os investimentos. A chamada “contribuição de contingência” gerou prejuízos de mais de US$ 1 bilhão à Petrobrás, que se viu obrigada a assumir integralmente as termoelétricas para evitar perdas maiores. O valor das usinas, avaliadas em US$ 800 milhões, equivalia a um terço dos US$ 2,1 bilhões que a estatal teria que desembolsar para honrar as compensações garantidas aos investidores até o final dos contratos, em 2008. Tudo autorizado por Pedro Parente.”
O prejuízo de R$ 1,2 bilhão no primeiro trimestre deste ano era a dica para que Pedro Parente começasse a vender ativos para livrar a estatal de parte do endividamento líquido de R$ 369,5 bilhões registrado no dia 31 de março.
Durante evento promovido em São Paulo, na última sexta-feira, pela revista “Exame”, do Grupo Abril, Parente disse que “existe uma parte de investimentos no pré-sal que traz resultados, mas a maior parte não”. E confirmou que espera levantar mais de US$ 15 bilhões com a venda de ativos até 2018.
Um leitor da “Folha de S.Paulo”, Jaime Aranovich, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, teve seu comentário publicado pelo site do jornal:
“Mesmo sendo um vendilhão da pátria, um crápula, eu julgava Pedro Parente mais competente. Vender um patrimônio por um preço justo, ou até com pequena perda é algo que segundo uma visão neoliberal poderia ser louvável. Agora, declarar que o pré-sal é sobrestimado, isto não é a atitude de alguém que quer vender seu peixe pelo melhor preço. Ao contrário mostra claramente a que veio, aí a incompetência, que é fazer o jogo de quem está lhe pagando para liquidar uma das maiores riquezas brasileiras, pelo menor preço possível. Desnuda os golpistas como antinacionalistas, inescrupulosos, sem compromisso com a nação a qual usurparam o comando legítimo. Governam para seus próprios interesses, não é nem para os 1% mais ricos não, é para si próprios. O que está sendo perpetrado na Petrobras é, sem a menor dúvida, o maior roubo da história deste país. Nenhum brasileiro vai ter qualquer vantagem nesta venda, desta maneira, a não ser os ratos que ai estão governando, na hora da divisão do butim.”
Depois disso, eu não precisaria acrescentar mais nada. A não ser recomendar a leitura DESTE esclarecedor artigo escrito por Paulo Cesar Roberto Lima. Engenheiro, ele trabalhou na Petrobras e depois passou num concurso, tornando-se assessor legislativo da Câmara dos Deputados, tendo auxiliado na redação da lei dos royalties do petróleo que destinou os recursos para a educação e a saúde.
Nesta segunda-feira, dia 3 de outubro, o Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro inicia, às 16 horas, uma vigília de trabalhadores da estatal na Avenida Chile, diante da sede da Petrobras. É um protesto contra a tentativa de desmonte da empresa, criada exatamente no dia 3 de outubro de 1953 pelo presidente Getúlio Vargas.

(fonte: https://kikacastro.com.br/2016/10/03/pre-sal-a-venda/#more-13096)

Francisco: Moral sexual é determinada caso a caso, inclusive com os transexuais


O Papa Francisco disse que os católicos devem discernir caso a caso situações difíceis de moral sexual, mesmo quando for na presença de uma pessoa que está considerando, ou que já fez, a cirurgia de mudança de sexo.
A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 02-10-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em uma coletiva de imprensa a bordo do voo que o trouxe de volta a Roma no dia 2 de outubro, após a visita de um fim de semana que fez à Geórgia e ao Azerbaijão, o papa disse que “devemos tomar as coisas como elas se apresentam” e tirar um tempo para acompanhar e discernir individualmente as várias situações que as pessoas enfrentam.
Francisco lembrou de um encontro que ele teve no Vaticano ano passado com um transexual espanhol que lhe havia escrito para descrever o seu próprio caso, pedindo por um encontro no Vaticano.
“Era uma jovem que sofreu muito porque se sentia como um homem”, explicou o papa. “Ela se sentia como um jovem, mas fisicamente era uma mulher”.
Esta mulher, disse Francisco, se submeteu a uma cirurgia de mudança de sexo e, depois, se casou com uma mulher. “Me escreveu uma carta dizendo que, para ele, seria um consolo vir [me ver] com sua esposa”, disse o papa, esclarecendo: “Ele que era ela mas é ele”.
O pontífice disse que, durante o encontro, o transexual falou de sua experiência paroquial na Espanha, onde um jovem padre havia recentemente substituído o antigo pastor, quem completara 80 anos.
“Quando o novo padre o via, gritava da calçada: ‘Você vai para o Inferno’”, disse Francisco. “Mas quando o velho pastor o encontrava, costumava perguntar: ‘Quanto tempo faz desde a última vez que se confessou? Venha e se confesse. Assim vai poder participar da Comunhão’”.
“Entendem?”, perguntou o papa aos jornalistas a bordo do voo. “A vida é a vida e devemos tomar as coisas como elas se apresentam”.
“Devemos ser atenciosos, não dizer que são todos a mesma coisa”, continuou. “Em cada caso: acolham, acompanhem, estudem, discernindo e integrando”.
“Isso é o que Jesus faria hoje”, disse o papa.
Francisco falou sobre as pessoas transexuais em uma resposta à pergunta de um jornalista sobre as críticas frequentes que ele tece ao que chama de “teoria de gênero”. Num encontro com os católicos na Geórgia sábado de noite, o pontífice considerou a teoria de gênero como uma “grande inimiga” do matrimônio.
Durante a coletiva de imprensa, o jornalista perguntou o que o papa diria a alguém que tivesse lutado durante anos contra sua sexualidade e que sentia que a aparência física tem não corresponde com a sua identidade sexual.
Francisco primeiro respondeu revelando que como padre, bispo e “até mesmo como papa”, ele vem acompanhando pessoas homossexuais na tentativa de ajudá-las a chegarem mais perto de Deus.
“Tenho acompanhado pessoas com tendências homoafetivas e também com práticas homossexuais”, disse o pontífice. “Tenho acompanhado estas pessoas, ajudado elas a se aproximarem do Senhor; algumas não conseguiram, mas eu as acompanhei e junca abandonei ninguém”.
“As pessoas devem ser acompanhadas, como Jesus acompanhou”, continuou. “Quando uma pessoa que está nesta situação vem diante de Jesus, Jesus não vai dizer: ‘Vá embora porque você é homossexual’”.
Ao continuar explicando a sua visão sobre a assim-chamada teoria de gênero, o pontífice traçou uma distinção entre o que chamou de “indoutrinação” dos jovens e o acompanhamento das pessoas em situações pastorais.
Francisco recordou uma conversa que teve com um pai francês cujo filho de dez anos tinha dito que queria ser uma menina quando crescer.
“Nos livros escolares dela estava sendo ensinada a teoria de gênero”, disse o papa. “Isso é contra as coisas naturais”.
“Uma coisa é alguém que tem essa tendência (...) e que também muda de sexo”, continuou. “Outra coisa é ensinar essas coisas na escola. Mudar a mentalidade: eu chamo isso de colonização ideológica”.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/560732-francisco-moral-sexual-e-determinada-caso-a-caso-inclusive-com-os-transexuais)

Cabe a nós decidir

Por Jaime Pinsky, historiador, professor titular da Unicamp, diretor da Editora Contexto, autor de Por que gostamos de história, entre outros livros.
Quando professor, na Faculdade de Filosofia de Assis, na USP, ou na Unicamp, gostava de perguntar aos alunos o que os levara a se matricular no curso de História. Os motivos eram variados, mas sempre havia alguém que escolhera a área por sua paixão pelo passado, particularmente pela Idade Média. Havia até quem sonhasse em ser princesa, dessas que moravam em castelos no alto de montanhas… Na função de destruidor de fantasias eu recordava que a chance delas nascerem princesas medievais seria muito remota: havia poucas princesas. Havia mais camponesas, de vida dura e curta, que trabalhavam no campo, em suas casas e ainda eram, com frequência, vítimas de violência sexual. Lembrava que, com todos os defeitos, as sociedades estavam evoluindo, os direitos se universalizando e que, com todos os defeitos, a maioria das pessoas tinha, hoje, vida melhor do que naquela época.
O fato é que temos dificuldade em avaliar adequadamente o próprio tempo em que vivemos. O encurtamento das distâncias, proporcionado pela evolução dos transportes e, principalmente, a anulação do tempo para as notícias percorrerem os espaços faz com que tragédias ocorridas em qualquer lugar do planeta sejam divulgadas de imediato em todas as latitudes. Uma bomba que explodiu na Síria, um maluco armado que atacou colegiais nos EUA, imigrantes somalianos que morreram afogados no Mediterrâneo, uma mulher que foi violentada no Paquistão (ou no Piauí), tudo ouvimos e vemos via TV ou redes sociais. Muitas vezes ao vivo. Com cenas chocantes, que se repetem a ponto de deixarem de ser chocantes.
Temos a impressão de que o mundo nunca foi tão ruim. Tão cruel. E esquecemos (ou não nos damos conta) das conquistas. Por pior que o mundo esteja, ele já foi pior. Em outras palavras, o mundo está bem melhor do que já foi, por mais espantoso que isso possa parecer. Vamos aos fatos.
É bem verdade que há muita fome e miséria no mundo de hoje. Mas, algumas décadas atrás, já foi bem pior. Segundo dados do Banco Mundial (cito o jornalista Nicolas Kristof em artigo recentemente publicado pelo New York Times), no início da década de 1980 (ou seja, há meros trinta e poucos anos) 44% da população mundial viviam na extrema pobreza, enquanto que agora essa proporção não passa de 10%. Claro que um em cada 10 habitantes desse planeta passar fome constante não é exatamente motivo de orgulho para os outros 9. Porém, em comparação com o que acontecia algumas décadas atrás (para não falar da Antiguidade, ou da Idade Média) vemos que estamos avançando. Mas não é só: ao longo de toda a História a esmagadora maioria dos habitantes era analfabeta, não tinha possibilidade de acessar sequer o patrimônio cultural produzido pela humanidade. Hoje, o número de alfabetizados adultos chega a 85%. Pode-se alegar, uma vez mais, que 15% de analfabetos no mundo ainda é um número muito alto. Concordo. Temos muito trabalho à frente. Mas que é um avanço, não há dúvida. Há ainda um terceiro dado interessante. Embora em alguns países tenha havido concentração de renda, a tendência global é de mais igualdade no usufruto dos bens e serviços produzidos pela sociedade.
Olhando para além das últimas décadas fica ainda mais fácil constatar uma evolução significativa em várias áreas, como a da saúde. A mortalidade infantil, que ainda há pouco exigia que os casais tentassem muitos filhos, já que poucos “vingavam”, caiu dramaticamente, este fator contribuiu para que a média de pimpolhos por casal tenha diminuído não só nos países mais industrializados, mas também em sociedades como o indiana ou a indonésia, a mexicana e a brasileira. Vacinas eficazes, medidas higiênicas, gravidez monitorada provocaram um milagre em algumas décadas. Isto não é um mundo melhor?
Um amigo médico chamava minha atenção para as pernas arqueadas das crianças, tão comuns há poucos anos, e agora quase inexistentes. Para a cegueira, que hoje já não existe na mesma proporção de antigamente, por conta da vitamina A, dos antibióticos que combatem o tracoma e da cirurgia de catarata que provoca milagres e tem um custo baixíssimo.
O mundo está melhorando. Mas, atenção: ele não melhora por geração espontânea. Não existe processo histórico sem seres humanos organizados em sociedades. São eles e elas, ou seja, nós, que decidimos fazer com que haja um avanço, ou um retorno à barbárie (como ocorreu com uma das sociedades mais evoluídas do planeta, a alemã, com a adoção do nazismo).
Cabe a nós decidir.

sábado, 1 de outubro de 2016

O café história da semana

[1] Mural:
 História Medieval
A Revista Brasileira de História - editada pela Associação Nacional de História (ANPUH) - acaba de lançar uma nova edição, de número 72. Com o tema “Perspectivas recentes da História Medieval no Brasil”, a RBH traz quatro artigos sobre o período Medieval, além de artigos sobre variadas temáticas e três resenhas.  [Confira]
[2] Notícias: 
Professor trabalha mais no Brasil
Acaba de ser publicada uma pesquisa internacional mostrando que o professor no Brasil ganha muito menos e trabalha mais do que em outros países. [Confira]
[3] Livros:
 História & Narrativa
Neste semana, destacamos "História & Narrativa – A ciência e a arte da escrita histórica", organizado por Jurandir Malerba, e "A guerra não tem rosto de mulher", de Svetlana Aleksiévitch. [Veja]
[4] Mestrado e Doutorado:
 UNESP
Já estão abertas as inscrições para co mestrado e doutorado em história do Programa de Pós-Graduação em História da UNESP.  [Clique aqui]

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