sábado, 8 de outubro de 2016
Sertão do Nordeste: um deserto em 25 anos?
Medições revelam: aumentam os dias de seca, mesmo nos dois meses tradicionalmente úmidos. Temperaturas podem aumentar até 2ºC até 2040, com consequências dramáticas
Por Peter Moon, na Agência FAPESP
A seca atual que aflige o Nordeste iniciou em 2012 e se intensificou desde então. Ela já dura cinco anos e é considerada a mais severa em várias décadas. A intensidade e a persistência da atual estiagem podem ser indícios de que os extremos da variabilidade climática já começaram a cobrar a sua fatura no Nordeste brasileiro. E a conta pode aumentar se esses extremos passarem a ser mais frequentes e intensos em cenários de mudanças climáticas nas próximas décadas.
“As projeções de clima geradas pelos modelos climáticos sugerem que, daqui para a frente, as estiagens mais severas e prolongadas tenderão a ser a regra, não mais a exceção, porém a incerteza de ter este cenário futuro ainda existe”, afirma o hidrologista e meteorologista José Antonio Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) em Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo.
Estas são algumas das conclusões do artigo “Drought in Northeast Brazil – past, present, and future”, publicado em Theoretical and Applied Climatology, assinado por Marengo e pelos meteorologistas Roger Rodrigues Torres, da Universidade Federal de Itajubá, e Lincoln Muniz Alves, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
A pesquisa utilizou a ferramenta PULSE-Brazil (Platform for Understanding Long-term Sustainability of Ecosystems), desenvolvida no âmbito do projeto Impact of climate extremes on ecosystem and human health in Brazil (PULSE-Brazil), apoiado pela FAPESP e pelo Natural Environment Research Council (NERC), do Reino Unido (Leia mais sobre a pesquisa em agencia.fapesp.br/19116/).
Os pesquisadores basearam o estudo em projeções climáticas estimadas a partir da aplicação ao Nordeste dos modelos climáticos globais do 5º Relatório de Avaliação (AR5) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de 2014.
A seca é um fenômeno natural no Nordeste. Há relatos da sua incidência desde o século 16, ou seja, desde o início da colonização do país. O clima hoje é semiárido, mas no futuro poderá não ser mais. Em outras palavras, o sertão pode se tornar uma zona árida e favorecer um processo de desertificação na região, afirma Marengo.
A época das chuvas no Nordeste acontece entre os meses de março e maio. É nesse período que a precipitação fornece a água que irá ser armazenada nos milhares de cisternas espalhadas pela região, água guardada pelos pequenos agricultores para os meses de estiagem.
Atualmente, durante os meses chuvosos não chove todos os dias. Há intervalos sem precipitação que duram de cinco a seis dias. O que as projeções indicam é que, durante o período chuvoso, esses intervalos “secos” tenderão a ser mais numerosos e mais longos. No futuro, os “veranicos” poderão se estender por até 40 dias. Ou seja, a quantidade de precipitação nos meses chuvosos tenderá a ser menor do que a atual.
Isso irá impactar diretamente na quantidade de água que poderá ser armazenada no solo e nas cisternas. Menos dias de chuva se traduzem em menos água nas cisternas e no solo que tende a ressecar, com prejuízo para a vegetação do semi-árido, adaptada a um volume sazonal de chuvas que se torna mais deficiente.
De acordo com as projeções, menos chuva significa também dias mais quentes. Esse é um processo que já vem acontecendo há muito tempo. De acordo com Marengo, as projeções passadas indicam que a temperatura média no Nordeste já aumentou 0,8 grau centígrado entre 1900 e 2000.
Foram feitas projeções para estimar as alterações no índice de chuvas e nas temperaturas médias do Nordeste tanto ao longo do século 20 quanto até o final do século 21. O aquecimento vai aumentar. Na melhor das hipóteses, as projeções apontam para uma elevação nas temperaturas médias de outros 2 graus centígrados até 2040, o que poderia também estar acompanhado de períodos secos mais intensos e longos.
No pior dos cenários, o aumento das temperaturas prosseguirá até pelo menos o fim do século 21. Isso fará com que, em 2100, as temperaturas nordestinas sejam em média até 4,4 graus superiores às atuais. Nestas condições, se medidas governamentais sérias e imediatas não forem tomadas para, por exemplo, conter os desmatamentos, o sertão pode virar um grande deserto, alerta Marengo.
“As decisões da COP-21 de Paris em relação à redução nas emissões de gases de efeito estufa em todo o mundo poderiam ajudar a reduzir o aquecimentos a níveis inferiores a 2º C nas próximas décadas, e isso poderia amenizar os impactos do aquecimento global, pois com aquecimento projeto de 4.4 C ate 2100 na região podem trazer consequências desastrosas para a população do Nordeste”, diz Marengo.
Com menos chuvas e mais calor ao longo do ano, a vegetação típica da caatinga tenderá a ser gradualmente substituída pelas cactáceas, que são vegetação típica de desertos. O impacto disso para a agricultura, principalmente a familiar e de subsistência, será incomensurável.
O Nordeste ocupa18% do território nacional. Ali vivem 53 milhões de pessoas. Segundo Marengo, o semiárido nordestino já é a região seca mais densamente povoada do planeta, com 34 habitantes por quilômetro quadrado. As mudanças climáticas cobrarão do Nordeste um preço salgado. Sera inevitável? “Hoje só temos uma certeza”, diz o pesquisador. “A de que no futuro os períodos de seca serão mais longos e mais quentes.”
O artigo Drought in Northeast Brazil – past, present, and future, assinado por Marengo, Roger Rodrigues Torres, Lincoln Muniz Alves e publicado em Theoretical and Applied Climatology pode ser lido em http://link.springer.com/article/10.1007/s00704-016-1840-8.
(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=360379)
No São Francisco, triste retrato dos nossos rios
Por Roberto Malvezzi (Gogó)
O fenômeno da Pororoca, mundialmente conhecido, já não existe mais, no rio onde mais atraíam os olhos do mundo. Você sabia disso? As águas do Araguari, no Amapá — onde havia campeonatos de surf — já não têm forças para chegar à foz e sofrer a força reversa das águas, o que gerava as ondas. Construíram barragens em seu leito para gerar energia, que vem para o sul do país, além de pisotear suas margens com manadas de búfalos.
As águas do Araguaia estão cada vez mais escassas. Muitos de seus afluentes, antes perenes, agora também são intermitentes.
O São Francisco agora terá uma vazão de apenas 700 m3/s. Um rio que, segundo o discurso oficial do antigo governo federal, tinha uma vazão “firme” de 1800 m3/s a partir de Sobradinho. E olha que a transposição sequer começou. Onde Domingos Montagner morreu, na verdade, o que existe é um fiapo de água, em comparação com o que era o Cânion do São Francisco.
O mais emblemático, sem dúvida, é o rio Doce. A tragédia da Samarco não tem precedentes em território nacional, mas está sendo tratada como algo secundário e como se fosse apenas um acidente de percurso.
Se falarmos, então, da qualidade de nossas águas, teremos que lembrar do Tietê e do Pinheiros, a cara, a cor e o cheiro do desenvolvimento de São Paulo.
O que acontece não é fruto apenas de como se trata as calhas principais de nossos rios, mas de todo o desmatamento do território dessas bacias. A destruição do Cerrado – reconhecimento rotineiro nos meios científicos e socioambientais – levará consigo os rios que dependem do bioma. Já em 2004 tínhamos a informação que, apenas no Norte de Minas, cerca de 1200 rios menores tinham sido eliminados. Sem o Cerrado, nos dizem os cientistas, não haverá São Francisco, Araguaia e tantos rios que dependem dos aquíferos do Planalto Central. A criação do Matopiba – território do agronegócio no Cerrado – levará às profundezas esse modelo predador do bioma.
A curva de decadência de nossos rios coincide exatamente com a expansão das monoculturas, seja de grãos, de gado, ou outra qualquer. É só comparar os gráficos a partir da década de 1970.
Assim, nesse dia de São Francisco, como os profetas dos tempos antigos, que amaldiçoavam o dia em que tinham nascido, não nos cansamos de trazer más notícias, ainda que sejam em forma de denúncia (Jeremias 20,14-18).
Toda classe política, todo mundo econômico – exceções de sempre – está alguns anos-luz distante de enxergar o país por esse ângulo. Então, prosseguimos em linha reta rumo ao abismo.
(fonte: http://outraspalavras.net/brasil/no-minguado-s-francisco-triste-retrato-dos-nossos-rios/)
O fenômeno da Pororoca, mundialmente conhecido, já não existe mais, no rio onde mais atraíam os olhos do mundo. Você sabia disso? As águas do Araguari, no Amapá — onde havia campeonatos de surf — já não têm forças para chegar à foz e sofrer a força reversa das águas, o que gerava as ondas. Construíram barragens em seu leito para gerar energia, que vem para o sul do país, além de pisotear suas margens com manadas de búfalos.
As águas do Araguaia estão cada vez mais escassas. Muitos de seus afluentes, antes perenes, agora também são intermitentes.
O São Francisco agora terá uma vazão de apenas 700 m3/s. Um rio que, segundo o discurso oficial do antigo governo federal, tinha uma vazão “firme” de 1800 m3/s a partir de Sobradinho. E olha que a transposição sequer começou. Onde Domingos Montagner morreu, na verdade, o que existe é um fiapo de água, em comparação com o que era o Cânion do São Francisco.
O mais emblemático, sem dúvida, é o rio Doce. A tragédia da Samarco não tem precedentes em território nacional, mas está sendo tratada como algo secundário e como se fosse apenas um acidente de percurso.
Se falarmos, então, da qualidade de nossas águas, teremos que lembrar do Tietê e do Pinheiros, a cara, a cor e o cheiro do desenvolvimento de São Paulo.
O que acontece não é fruto apenas de como se trata as calhas principais de nossos rios, mas de todo o desmatamento do território dessas bacias. A destruição do Cerrado – reconhecimento rotineiro nos meios científicos e socioambientais – levará consigo os rios que dependem do bioma. Já em 2004 tínhamos a informação que, apenas no Norte de Minas, cerca de 1200 rios menores tinham sido eliminados. Sem o Cerrado, nos dizem os cientistas, não haverá São Francisco, Araguaia e tantos rios que dependem dos aquíferos do Planalto Central. A criação do Matopiba – território do agronegócio no Cerrado – levará às profundezas esse modelo predador do bioma.
A curva de decadência de nossos rios coincide exatamente com a expansão das monoculturas, seja de grãos, de gado, ou outra qualquer. É só comparar os gráficos a partir da década de 1970.
Assim, nesse dia de São Francisco, como os profetas dos tempos antigos, que amaldiçoavam o dia em que tinham nascido, não nos cansamos de trazer más notícias, ainda que sejam em forma de denúncia (Jeremias 20,14-18).
Toda classe política, todo mundo econômico – exceções de sempre – está alguns anos-luz distante de enxergar o país por esse ângulo. Então, prosseguimos em linha reta rumo ao abismo.
(fonte: http://outraspalavras.net/brasil/no-minguado-s-francisco-triste-retrato-dos-nossos-rios/)
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
Novo número da Revista Espaço Acadêmico (REA)
Revista Espaço Acadêmico
v. 16, n. 185 (2016): Revista Espaço Acadêmico, n. 185, outubro de 2016
Sumário
http://periodicos.uem.br/ojs/i
ESPECIAL: FEMINISMO NEGRO
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Reflexos do feminismo negro: análise de um evento acadêmico na Universidade Estadual de Maringá (01-11)
Lílian Amorim Carvalho
Os feminismos negros: a reação aos sistemas de opressões (12-25)
Rosalia de Oliveira Lemos
administração
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As principais causas externas de restrição da atuação das organizações públicas ambientais no alcance da sustentabilidade (26-36)
Douglas Fernando dos Santos Godoy
Iluminação pública e eficientização energética (37-49)
Cristiane Kruger, Lucas Feksa Ramos
antropologia
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O choque cultural na produção do sofrimento psíquico: notas de uma apreciação antropológica do livro "A síndrome de Ulisses" (50-59)
Alef de Oliveira Lima
convergências
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Tributo ao professor como educador e suas habilidades formadoras (60-70)
Renato Nunes Bittencourt
direito
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Dependência financeira dos municípios brasileiros: entre o federalismo e a crise econômica (71-82)
Mário Cesar da Silva Andrade
Análise propedêutica da ideologia do direito (83-94)
Kézia Louzada Boa Sorte, José Rubens Mascarenhas Almeida
A crise fiscal frente à transterritorialidade do capital, à concorrência intergovernamental e o consequente custo social (95-105)
João Carlos Santini
Corrupção e políticas públicas: diretrizes para a garantia de direitos sociais fundamentais (106-117)
Ismael Francisco de Souza, Raimar Rodrigues Machado
literatura brasileira
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“Clarícima” Clarice: na busca do indizível (118-128)
Fernanda Ferreira dos Santos, Lígia Rivello Baranda Kimori
sociologia das religiões
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A Renovação Carismática e o GOU: uma análise do Grupo de Oração Universitário da Paróquia São João Evangelista em Goiânia (129-141)
Felipe Mateus de Almeida
sociologia do trabalho
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As transformações do mundo do trabalho e a lógica destrutiva da era neoliberal (142-152)
João Victor Marques da Silva
resenhas & livros
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Uma interface das ciências Psi com a fenomenologia e um resgate (153-156)
Roberto S. Kahlmeyer-Mertens
BEZERRA, José Eudes Baima. Direito à educação e progressão continuada:
para além da aparência. São Paulo: Serpente, 2015, 128p. (157)
REA Editor
CAMPOS, Antonia M.; MEDEIROS, Jonas; RIBEIRO, Márcio M.. Escolas de luta.
São Paulo: Veneta, 2016 (Coleção Baderna), 352p. (158-159)
REA Editor
GOZZI, Ricardo. Educação sob ataque: resistência e luta dos educadores no
Paraná. São Paulo: Campos, 2016, 192 p (160-161)
REA Editor
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
Oitenta e oito mil litros de calda tóxica são utilizados todas as noites no cultivo de fruticultura no Ceará.
“É muito difícil vermos a gravidade dos impactos à saúde desse modelo de desenvolvimento”. O desabafo é da pesquisadora Raquel Rigotto, que há dez anos, junto ao Núcleo Trabalho, Meio Ambiente e Saúde - Tramas, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, tem estudado as implicações do uso de agrotóxicos no cultivo de fruticultura irrigada para a exportação na região do baixo Vale do Rio Jaguaribe, localizada na fronteira do Ceará com o Rio Grande do Norte. Segundo ela, depois de uma série de evidências de que o uso de agrotóxicos tem causado problemas ambientais e à saúde dos trabalhadores e da população local, “tem sido muito difícil constatarmos que o Estado tem sido muito eficiente para atrair os empreendimentos, para produzir material de divulgação, mas incapaz de produzir um material de informação para os agentes comunitários de saúde, para os profissionais das Unidades Básicas e para os profissionais da vigilância”.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por Skype, Raquel informa que o programa governamental de fruticultura desenvolvido na região desde os anos 2000, desapropriou “mais de 13 mil hectares de terra do Jaguaribe/Apodi e uma área semelhante também em Tabuleiro de Russas, com a promessa de que os agricultores familiares seriam depois inseridos no perímetro irrigado”, mas “apenas 19% dos desapropriados conseguiram se instalar no perímetro e tiveram muitas dificuldades de sobreviver ali em função das taxas que tinham que ser pagas, da manutenção da estrutura do perímetro etc.”
Entre os dados da pesquisa desenvolvida por Raquel Rigotto, destacam-se ainda a contaminação da água do aquífero Jandaíra, casos de má-formação congênita em pessoas da comunidade, mortalidade por câncer associada à contaminação por agrotóxicos. “Nós estamos em fase de investigação, neste momento, de cinco casos de crianças com má-formação congênita, que nasceram em uma das comunidades do entorno dessas empresas na Chapada do Apodi no ano de 2015. As más-formações congênitas são agravos de prevalência muito baixa, e ter cinco casos, em um único ano, em uma comunidade que tem em torno de 2.600 pessoas, é um número que chama muito atenção”. Outros estudos, relata a pesquisadora, têm demonstrado “alterações citogenômicas no DNA das células sanguíneas na medula óssea de trabalhadores que atuavam no cultivo da banana expostos a agrotóxicos organofosforados. Dos 50 trabalhadores analisados, 25% já apresentaram alterações no DNA das células sanguíneas, o que nos alerta para a possibilidade do desenvolvimento de neoplasias nesses trabalhadores”.
Confira a entrevista.
http://www.ihu.unisinos.br/560860-quatro-milhoes-de-litros-de-calda-toxica-foram-utilizados-em-uma-decada-de-cultivo-de-fruticultura-no-ceara-entrevista-especial-com-raquel-rigotto
Precisamos falar sobre as calçadas de Belo Horizonte
Se eu for ser ativista de alguma coisa algum dia, será na luta pelo direito de os pedestres
circularem com segurança pelas vias públicas. E não estou nem só
falando de travessia de ruas e avenidas, mas também do direito sagrado
de andar tranquilamente em cima de uma calçada.
Você sabia que estima-se que 11 a cada 1.000 pessoas se acidentam nas calçadas, por ano, sem terem sido atropeladas por nenhum tipo de veículo? Ou seja, apenas caindo por causa do péssimo estado da calçada. Numa cidade como Belo Horizonte, isso significa 27 mil acidentes nas calçadas por ano. Esses acidentes não são computados como acidentes de trânsito – embora devessem, porque cada acidentado gera um custo médio hospitalar, de atendimento e de resgate de R$ 2.656. Ou R$ 73,4 milhões por ano gastos no município.
E por que estou falando disso tudo? Porque, como pedestre assídua, eu já sentia as péssimas condições das calçadas de Belo Horizonte. E agora, como mãe – ou manobrista de carrinho de bebê –, sinto ainda mais. Nossos passeios são estreitos, esburacados, escorregadios, cheios de degraus errados: perigosos, enfim. E quem sofre mais com isso são as pessoas mais vulneráveis na hora das quedas, como os idosos, as crianças pequenas, os cegos e as pessoas com deficiências físicas em geral.
Ah, mas que absurdo! A prefeitura não faz nada? Bora cobrar do novo prefeito!
Mas tem um detalhe: a conservação das calçadas é de responsabilidade exclusiva dos donos dos imóveis ao qual elas pertencem! Sim: nós, os moradores, é quem temos obrigação de construir calçadas que seguem o padrão de largura e acessibilidade definido por lei. Essa é uma determinação do código de posturas do município, que vigora desde 2003 e foi regulamentado em decreto de 2010. O piso tátil para orientação de pessoas com deficiência visual é determinado por leis federais desde o ano 2000.
E aí? Estamos fazendo nossa parte? Como vai a calçada do seu prédio, da sua casa?
Se você quiser tomar uma atitude em relação a isso, pode começar acessando esta CARTILHA, que traz as normas para construção de uma calçada correta. Se está sem dinheiro para reformar seu passeio, pode pelo menos desobstruí-lo, tirando tudo o que impede a passagem de cadeiras de rodas e carrinhos de bebê, como sacos gigantes de lixo, entulho ou equipamentos urbanos fora de lugar. Se não quiser fazer nada a respeito, porque a multa nunca chega e nem é tão cara assim, é uma opção sua. Mas com que carão você vai ficar para cobrar o Executivo, se nem o seu próprio papel você está sabendo cumprir, hein?
Pelo menos, até a próxima queda.
(fonte: https://kikacastro.com.br/2016/10/06/calcadas-belo-horizonte/)
Você sabia que estima-se que 11 a cada 1.000 pessoas se acidentam nas calçadas, por ano, sem terem sido atropeladas por nenhum tipo de veículo? Ou seja, apenas caindo por causa do péssimo estado da calçada. Numa cidade como Belo Horizonte, isso significa 27 mil acidentes nas calçadas por ano. Esses acidentes não são computados como acidentes de trânsito – embora devessem, porque cada acidentado gera um custo médio hospitalar, de atendimento e de resgate de R$ 2.656. Ou R$ 73,4 milhões por ano gastos no município.
E por que estou falando disso tudo? Porque, como pedestre assídua, eu já sentia as péssimas condições das calçadas de Belo Horizonte. E agora, como mãe – ou manobrista de carrinho de bebê –, sinto ainda mais. Nossos passeios são estreitos, esburacados, escorregadios, cheios de degraus errados: perigosos, enfim. E quem sofre mais com isso são as pessoas mais vulneráveis na hora das quedas, como os idosos, as crianças pequenas, os cegos e as pessoas com deficiências físicas em geral.
Ah, mas que absurdo! A prefeitura não faz nada? Bora cobrar do novo prefeito!
Mas tem um detalhe: a conservação das calçadas é de responsabilidade exclusiva dos donos dos imóveis ao qual elas pertencem! Sim: nós, os moradores, é quem temos obrigação de construir calçadas que seguem o padrão de largura e acessibilidade definido por lei. Essa é uma determinação do código de posturas do município, que vigora desde 2003 e foi regulamentado em decreto de 2010. O piso tátil para orientação de pessoas com deficiência visual é determinado por leis federais desde o ano 2000.
E aí? Estamos fazendo nossa parte? Como vai a calçada do seu prédio, da sua casa?
Se você quiser tomar uma atitude em relação a isso, pode começar acessando esta CARTILHA, que traz as normas para construção de uma calçada correta. Se está sem dinheiro para reformar seu passeio, pode pelo menos desobstruí-lo, tirando tudo o que impede a passagem de cadeiras de rodas e carrinhos de bebê, como sacos gigantes de lixo, entulho ou equipamentos urbanos fora de lugar. Se não quiser fazer nada a respeito, porque a multa nunca chega e nem é tão cara assim, é uma opção sua. Mas com que carão você vai ficar para cobrar o Executivo, se nem o seu próprio papel você está sabendo cumprir, hein?
Pelo menos, até a próxima queda.
(fonte: https://kikacastro.com.br/2016/10/06/calcadas-belo-horizonte/)
terça-feira, 4 de outubro de 2016
Afeganistão invadido, a capital do ópio
Como os Estados Unidos, a pretexto de lutar contra o Talibã, fortaleceram os “senhores da guerra” tribais e os estimularam a multiplicar por trinta a área de cultivo de papoula
Por Paulo Meirelle
A primeira etapa da guerra ao terror conduzida pelos Estados Unidos, na sequência dos atentados de 11 de setembro de 2001, foi a invasão do Afeganistão, cujo objetivo de longo-prazo era a sua transformação em um Estado democrático. Um dos imperativos dessa missão era colocar fim à capacidade de produção e exportação de drogas daquele país, atividade percebida como corrosiva da economia e das instituições democráticas.
Apesar dessa diretriz, os anos que se seguiram à invasão norte-americana foram aqueles que registraram os maiores índices de produção de ópio da história afegã. Essa contradição é resultado da estratégia adotada pelos Estados Unidos para alcançar outros dois imperativos na busca pela democracia: a derrubada do governo Talibã e a destruição da Al Qaeda.
Desde o início, os Estados Unidos apostaram no seu poderio aéreo para destruir a infraestrutura talibã e, paralelamente, no financiamento de diferentes milícias contrárias ao regime para conduzir a ofensiva terrestre. Essa estratégia culminou na rápida derrota do Talibã e na dispersão da Al Qaeda, mas também teve o efeito de fortalecer os senhores da guerra aliados, que desde a década de 1980 possuíam fortes laços com a produção e tráfico de narcóticos no Afeganistão.
Os narcóticos no Afeganistão de 1980 a 2001
Na guerra do Afeganistão contra a União Soviética, de 1979 a 1989, os Estados Unidos, que durante toda a Guerra Fria evitaram o confronto direto com os soviéticos, optaram pelo financiamento de facções armadas locais – os mujahidin – para combater a URSS. Parte dos recursos financeiros foi desviada e investida na produção e processamento de drogas e na consolidação de uma rede transnacional de tráfico, sobretudo, de ópio.
Com o encerramento do conflito, e o consequente fim do financiamento externo a esses grupos, o tráfico de drogas passou a ser a principal fonte de recursos para osmujahidin, que de 1992 a 1996 travaram uma guerra civil entre si, da qual o Talibã emergiu como vencedor.
O regime do Talibã, ao contrário do que poderia se esperar, não baniu a produção de narcóticos. Em vez disso, passou ele mesmo a dominar o mercado da droga afegão e fazer dele a sua principal fonte de financiamento. Somente em 2001 a produção teve uma queda acentuada, resultante da proibição ao cultivo da papoula – planta a partir da qual se produz o ópio – imposto pelo Talibã no ano 2000, como tentativa de melhorar a sua imagem internacional.
O gráfico a seguir mostra a evolução da produção de ópio no Afeganistão desde os anos 1980 até 2001.

Fonte: Afghanistan Opium Survey 2005, UNODC.
Os Estados Unidos ao recorrerem mais uma vez aos senhores da guerra no Afeganistão, dessa vez para derrubar o Talibã, investiram milhões de dólares nesses grupos através da CIA. Dinheiro que, a exemplo do ocorrido na década de 1980, serviu para reativar as redes de produção e exportação de narcóticos que permaneceram intactas durante o período do Talibã.
Além disso, os senhores da guerra alcançaram papel de destaque dentro da estrutura política do Afeganistão. Quando o Talibã debandou, os vácuos de poder criados foram ocupados por diferentes facções que passaram a controlar inúmeros territórios nas zonas afastadas da capital, Cabul.
A coalizão internacional – instaurada em 2002 e liderada pela OTAN – viu-se duplamente dependente dos senhores da guerra. Primeiro pela incapacidade de se projetar para além dos arredores de Cabul e prover a segurança contra a insurgência do Talibã, que se reorganizava a partir do Paquistão. Em segundo lugar, a inteligência para as forças dos Estados Unidos perseguirem a Al Qaeda através do país, provinha dessas facções.
Essa dupla dependência levou a uma conduta permissiva da coalizão internacional em relação aos narcóticos. Afinal, perseguir uma forte agenda de repressão às drogas significaria atacar os negócios dos senhores da guerra dos quais dependia a frágil estabilidade política do recém-criado governo do Afeganistão.
Esse cenário permitiu o rápido crescimento da produção de ópio no país. Como aponta o Escritório das Nações Unidas para Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês) o plantio de papoula saltou de 8 mil hectares, em 2001, para 74 mil hectares, já em 2002.
As regiões de maior influência dos senhores da guerra, ou seja, no sul e norte do país, foram as áreas que apresentaram maior crescimento no cultivo de papoula nos anos que se seguiram a invasão. A província de Kandahar teve aumento de produção de 162%; Farah, 348%; e Nimroz, impressionantes 1370%, como mostra o gráfico.

Fonte: Afghanistan Opium Survey 2005, UNODC.
Não foi apenas o empreendedorismo dos senhores da guerra que impulsionou o aumento expressivo. A população rural – que é maioria no país – também se beneficiou da produção de ópio. Em 2003, enquanto o algodão, segunda principal cultura do país, rendia em média 540 dólares por hectare, o cultivo da papoula gerava até 12.700 dólares. Os agricultores, empobrecidos, até hoje financiam as plantações através dos adiantamentos dos senhores da guerra que, assim, a um só tempo garantem a produção e conquistam a lealdade dos camponeses.
O forte apoio aos senhores da guerra, seu enriquecimento e fortalecimento político e militar são elementos que causam tensão e corrompem as estruturas de governança afegãs. Ao priorizar a contra-insurgência e a guerra ao terror, os Estados Unidos, contraditoriamente, propiciaram não apenas o aumento recorde da produção de narcóticos naquele país, mas, as próprias condições para a consolidação de atores que a qualquer momento podem desafiar a autoridade do governo central, colocando em risco a frágil e recém-nascida democracia do Afeganistão.
Fontes:
BUSH, George W., 15 de novembro de 2001, Crawford, Texas. Disponível em: <http://www.washingtonpost.com/wp-srv/onpolitics/transcripts/bushtext_111501.html> Acesso em: 12 jun.2016.
CHANDRA, V. (Jan de 2006). Warlords, Drugs and the ‘War on Terror’ in Afghanistan: The Paradoxes. Strategic Analyses. 30(1), pp. 64-92. Disponível em: <http://www.idsa.in/system/files/strategicanalysis_vhandra_0306.pdf> Acesso em: 09mai.2016.
Congressional Research Service. (2004). Afghanistan: Narcotics and U.S. Policy. Washington, D.C.: Library of Congress. Disponível em: <http://fpc.state.gov/documents/organization/39906.pdf>. Acesso em: 09 jun.2016.
GOODHAND, J. (Junho de 2008). Corrupting or Consolidating the Peace? The Drugs Economy and Post-conflict Peacebuilding in Afghanistan. International Peacekeeping, 15(3), pp. 405-423.
UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME. Afghanistan Opium Survey 2005. Disponível em: <https://www.unodc.org/documents/crop-monitoring/Afghanistan/afg_survey_2005.pdf>. Acesso em: 08 jun.2016.
UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME. Afghanistan Opium Survey 2015:Socio-economic Analysis. Disponível em: <https://www.unodc.org/documents/crop-monitoring/Afghanistan/Afghanistan_opium_survey_2015_socioeconomic.pdf>. Acesso em: 08 jun.2016.
UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME. Afghanistan Opium Survey 2015: Cultivation and Production. Disponível em: <https://www.unodc.org/documents/crop-monitoring/Afghanistan/_Afghan_opium_survey_2015_web.pdf> Acesso em: 08jun.2016.
(fonte: http://www.outraspalavras.net/reginaldonasser/2016/09/30/afeganistao-invadido-a-capital-do-opio/)
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