terça-feira, 4 de abril de 2017

Desertificação ameaça 94% das terras na Paraíba e é irreversível, diz Insa

Paraíba é o estado mais afetado, proporcionalmente, pela desertificação. Processo de degradação ambiental torna as terras inférteis e improdutivas.

Além da seca, que já vem afligindo os paraibanos há cinco anos, outro problema ameaça o solo e a vegetação do estado. Só que, desta vez, o processo é irreversível. A Paraíba é o estado brasileiro mais afetado, proporcionalmente, pela desertificação - processo de degradação ambiental que torna as terras inférteis e improdutivas - segundo dados do Instituto Nacional do Semiárido (Insa). Ela é uma consequência das ações humanas e não pode ser revertida - nem com chuva -, apenas desacelerada.
A reportagem é de Krystine Carneiro e publicada por G1, 02-04-2017.

O G1 mostra, em uma série de reportagens, uma pequena amostra da realidade vivida na região - e as muitas saídas que encontra para conseguir sobreviver.

Confira aqui as histórias, contadas em cada um dos nove estados do Nordeste brasileiro.

De acordo com a classificação do Programa de Ação Estadual de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca no Estado da Paraíba (PAE-PB), 93,7% do território do estado está em processo de desertificação, sendo que 58% em nível alto de degradação.

“A desertificação é um processo cumulativo de degradação ambiental, que afeta as condições econômicas e sociais de uma região ou país, que ao mesmo tempo em que reduz continuamente a superfície das terras agricultiváveis, faz com que a população desses locais ocupe novos territórios, em busca da sobrevivência”, explica o professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e coordenador do Laboratório de Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), Humberto Barbosa.

O desmatamento da caatinga muitas vezes é feito por pessoas que nem entendem a gravidade da situação. Na casa da agricultora Maria Ana, na zona rural de Santa Cruz, no Sertão paraibano, por exemplo, ainda se usa a madeira da caatinga para o fogão à lenha. Apesar de também ter um fogão à gás, a idosa prefere manter o equipamento mais antigo em casa. "Eu já estou acostumada, eu acho que [o fogão à lenha] é mais rápido. Eu uso os dois, mas mais esse porque já fui criada nisso mesmo”, justificou.

Quem faz o corte da madeira para abastecer o fogão de Maria Ana é o agricultor Bianor Alves Júnior. Ele explica que corta espécies de angico, catingueira e jurema. “[Corta] inteira. Aí depois tira os galhos e leva a madeira”, relata. “Aprendi com meu pai. Já há muitos anos”.

O mestre em engenharia agrícola explica que há uma alternativa para continuar usando o fogão à lenha sem desmatar a caatinga. “O correto seria que aquele produtor ou aquele agricultor que ainda utiliza fogo à lenha que ele coletasse aquelas árvores já mortas na mata e caídas, não que cortasse as árvores”, recomenda.

Os núcleos de desertificação do Semiárido brasileiro compreendem uma área 68.500 km² em cinco estados: Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Piauí. Esse locais já atingiram níveis de degradação tão altos que são comparados aos desertos - ecossistemas naturais característicos de zonas áridas.

Dos 59 municípios que estão nesse perímetro, conforme a classificação do Ministério do Meio Ambiente, 28 são da Paraíba, localizados no núcleo do Seridó. Outra área em situação crítica do estado são os Cariris. Segundo Humberto Barbosa, outros 29 municípios da Paraíba estão em Áreas Susceptíveis à Desertificação (ASD), sendo 12 no Cariri Oriental e 17 no Cariri Ocidental.

Os pesquisadores do Lapis também perceberam que, desde 2010, a seca tem contribuído para a expansão das Áreas Susceptíveis à Desertificação. De acordo com os números levantados por equipes do laboratório, áreas de entorno estão aumentando nos últimos anos. “Com elas, pode-se atingir um salto significativo nas áreas classificadas como degradação muito forte e forte nos próximos anos”, comenta Barbosa.

Saúde de rios e açudes

Além do solo, a desertificação ainda pode afetar a capacidade de rios e açudes, segundo o coordenador do Lapis. Barbosa explica que, com o desmatamento da mata ciliar, a camada infértil do solo é retirada e acaba sendo depositada nas áreas com água.

“Porque as áreas do entorno estão sendo desmatadas, o depósito de areia no Rio São Francisco tem diminuído a vazão dele em alguns pontos. Então a desertificação pode afetar a saúde do rio. Há uma relação direta. Isso leva tempo, não vai ser breve, mas já vem acontecendo. O depósito de areia no açude de Boqueirão também é muito grande e diminui a capacidade volumétrica do açude. ”, diz.

Processo de desertificação

O processo de desertificação é lento e tem início com o desmatamento de uma área, conforme explica o professor Humberto Barbosa. Esse espaço desmatado é abandonado ou ocupado com pastos e pecuária extensiva. Com isso, o solo fica mais exposto ao sol, água e vento devido à extração da floresta e a substituição por uma vegetação rasteira frequentemente manipulada de forma inadequada.

Como consequência, o solo fica mais fragilizado aos agentes erosivos e perde sua capacidade de absorção de água e nutrientes, desencadeando um maior escoamento superficial. Assim, são levadas grandes quantidades de solo, causando assoreamento dos rios e açudes e, finalmente, o solo chega aos oceanos. “De lá fica difícil trazê-lo de volta”, explica Humberto Barbosa.

A última etapa é a perda da fertilidade e da capacidade produtiva do solo. A partir daí, a terra deixa de produzir alimentos, a atmosfera se desidrata e se aquece, dificultando as chuvas, as reservas de água das profundidades do solo diminuem, as fontes se estancam e os rios se tornam intermitentes.

“Em seguida, a renda familiar e disponibilidade de alimentos acabam. Sem renda e alimentos, ocorre uma deterioração das condições sociais dos locais afetados. Há insegurança alimentar e saúde mais vulnerável. Há empobrecimento material e espiritual da família. Logo, o homem foge. Quando isto acontece, há uma degradação social nas áreas afetadas”, descreve o professor.

Combate

Para combater o processo de desertificação, o professor Humberto Barbosa cita duas ações que podem ser úteis: a criação de áreas de conservação da caatinga e a bioprospecção - que a exploração dos recursos genéticos e bioquímicos das espécies, principalmente pela indústria farmacêutica. “A caatinga tem uma biodiversidade que permite a extração de fármacos, para gerar produtos. E isso é um valor agregado à floresta. Políticas públicas de conservação da caatinga podem incentivar o turismo, gerar empresas, atrair pesquisas”, argumenta.

A assessoria de imprensa do Ministério do Meio Ambiente (MMA) informou que a Secretaria de Extrativismo e Desenvolvimento Rural Sustentável, por meio do Departamento de Desenvolvimento Rural Sustentável e Combate à Desertificação (DRSD), vem desenvolvendo uma série de ações no sentido da implementação da Política Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca.
Uma delas é o desenvolvimento do Sistema de Alerta Precoce contra Seca e Desertificação (SAP). A partir deste sistema, vão ser divulgadas informações atualizadas sobre as áreas susceptíveis e afetadas pelo processo de desertificação e, com isso, vai permitir o monitoramento das ações de combate à desertificação no país, identificando lacunas e orientando as ações de combate à desertificação.

O DRSD ainda vem apoiando um conjunto de ações de capacitação e implementação de boas práticas para conservação e recuperação do solo, água e biodiversidade, promovendo o combate aos vetores da desertificação e gerando trabalho e renda. A principal estratégia para o combate à desertificação do MMA, no entanto, é a implantação de Unidades de Recuperação de Áreas Degradadas (URAD). Estas unidades têm com unidade de trabalho as microbacias hidrográficas e conjugam ações ambientais, sociais e produtivas, com o envolvimento direto das comunidades e prefeituras. Para instalar estas unidades a equipe do DRSD está selecionando áreas e captando recursos financeiros de diversas fontes.

Por último, a elaboração do Decreto de Regulamentação da Lei 13.153/15, com o objetivo de criar condições que favoreçam a implementação da Convenção de Combate à Desertificação, criando mecanismos de informação, financiamento, envolvimento da sociedade e monitoramento.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/566385-desertificacao-ameaca-94-das-terras-na-paraiba-e-e-irreversivel-diz-insa)

Revolução 4.0. O mundo está mudando para melhor ou para pior?

Falam dois especialistas que há muito tempo estudam o novo paradigma enfrentado pela sociedade. O primeiro: “Seria presunçoso tentar descrever com precisão a próxima era no mundo digital. Mas é razoável concluir que a internet que conhecemos há quase três décadas está em mutação, e que a próxima vai mudar o mundo mais do que sua irmã mais velha”. Estas são as palavras com as quais o acadêmico canadense Vincent Mosco, autor de obras de referência como To the Cloud, vai começar seu próximo livro.
A reportagem é de Olivia López Bueno e Guillermo Veja, publicada por El País, 03-04-2017.

Mais contundente é o consultor em transformação digital e inovação, o hispano-alemão Alex Preukschat. “A tecnologia blockchain, em combinação com outras tecnologias, como a internet das coisas, a inteligência artificial, o big data, os drones ou a biotecnologia, vai refazer o mundo tal como o conhecemos, muito mais rápido do que tem sido nos últimos anos, como parte da quarta revolução industrial.”

Em conclusão: Não apenas estamos em meio a uma reestruturação brutal, como também é a mais rápida da história. A questão que se coloca nesta situação é: esta mudança vai ser para melhor ou para pior?

Como acontecia no romance de Umberto Eco, estamos diante de apocalípticos e integrados, especialistas que preveem um universo distópico, mescla de 1984 e Matrix, governado pelo desemprego em massa, que parecem ser maioria. E outros que preveem uma sociedade mais transparente e descentralizada, na qual a informação flui e onde os robôs farão o trabalho tedioso em nosso lugar.

O historiador israelense Yuval Noah Harari, nascido em 1976, faz parte do primeiro grupo. Não acredita que acabaremos como em Matrix, mas argumenta em livros como Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã que, enquanto a profusão de tecnologia tem conseguido que a humanidade melhore em coisas como a fome e as doenças, as ideias fundamentais das democracias liberais correm perigo de se tornar obsoletas em um mundo de ciborgues e inteligência artificial. Nada de descentralização em sua opinião: as grandes corporações conhecerão os indivíduos nos mínimos detalhes, e algumas pessoas monopolizarão o poder econômico e político, os algoritmos e a tecnologia, para criar classes biológicas.

A eliminação de postos de trabalho é outro mantra dos apocalípticos. Carl Benedikt Frey, pesquisador da Universidade de Oxford, realizou há pouco mais de um ano um estudo que viralizou rapidamente, no qual argumentava que 47% dos postos de trabalho correm risco de desaparecer. Na mesma linha anunciada por nada menos do que o Fórum Econômico Mundial. No ano passado, um relatório apresentado em Davos afirmava que a digitalização da indústria resultará no desaparecimento de 7,1 milhões de empregos e na criação de outros 2,1 milhões em 2020. Um pouco de matemática: serão cinco milhões de empregos líquidos a menos.

O ferrenho integrado Manish Sharma, diretor de operações da Accenture Operations, tem uma visão diferente. Em sua opinião, “as pessoas fazem trabalhos chatos porque esses são os empregos que lhe são oferecidos”, afirma. “A automação dos processos proporcionará uma vida melhor para as pessoas”.

O economista José Moisés Martín Carretero, autor de España 2030: Gobernar el Futuro, compartilha a visão de Sharma: “O progresso tecnológico tem deslocado trabalhadores, mas criado muito mais empregos”, afirma. “No curto prazo, pode haver reduções, mas, no longo prazo, a criação de empregos é inquestionável”.

O dinamarquês Erik Brynjolfsson e o norte-americano Andrew McAffee, cofundadores do departamento de Economia Digital do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), lançaram em 2011 o livro Race Against the Machine (Corrida Contra a Máquina, MIT, 2011). A obra explica como atividades que, até recentemente, eram reservadas para os seres humanos já são território para as máquinas.
E a mudança é vista como algo positivo. “A economia mundial está na cúspide de um período de crescimento espetacular, impulsionada por máquinas inteligentes que aproveitarão ao máximo os avanços no processamento por computadores, pela inteligência artificial, pela comunicação em rede e pela digitalização de quase tudo.”

Isso, claro, sempre que estejamos de acordo de que ter um trabalho é sinônimo de ser feliz.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/566443-revolucao-4-0-o-mundo-esta-mudando-para-melhor-ou-para-pior)

Estresse e depressão na pós-graduação: uma realidade que a academia insiste em não ver


Todas as pesquisas disponíveis sobre o assunto indicam claramente que os índices de depressão e outros distúrbios psíquicos são assustadoramente altos na pós-graduação. O problema se torna ainda mais grave com a insistência da academia em não o enfrentar. Veja nesse artigo uma discussão detalhada sobre os dados disponíveis e uma tentativa de descobrir a origem desse grave problema.

Como este artigo contém gráficos cuja reprodução aqui ficaria prejudicada, tomo a liberdade de indicar o link para que vocês, leitoras e leitores, possam examinar melhor a questão.

http://www.anpg.org.br/estresse-e-depressao-na-pos-graduacao-uma-realidade-que-a-academia-insiste-em-nao-ver/

domingo, 2 de abril de 2017

Total, fique longe dos Corais da Amazônia!

Nossos ativistas surpreenderam hoje a companhia francesa na sua sede em Paris e em uma de suas refinarias na Bélgica com ações para denunciar ao mundo os controversos planos da empresa de explorar petróleo na costa da Amazônia
A reportagem foi publicada por Greenpeace Brasil, 28-03-2017.

No início de 2017, nosso navio Esperanza realizou uma expedição a 100 quilômetros da costa norte do Brasil para registrar as primeiras imagens dos Corais da Amazônia. À bordo estava a equipe de cientistas brasileiros que confirmou a existência do recife em 2010. As imagens superaram nossas expectativas. Conseguimos observar um bioma único, composto por diferentes espécies de corais, esponjas e rodolitos, lar de um número imensurável de animais marinhos – e três possíveis novas espécies de peixes.
Mas uma grande ameaça está se aproximando desse tesouro. Companhias petrolíferas, incluindo a empresa francesa Total e a britânica BP, querem perfurar a região em busca de petróleo. Mas isso significa trazer o risco iminente e constante de um derramamento, ameaçando todo o ecossistema da Bacia da Foz do Amazonas. O bloco mais próximo dos Corais da Amazônia fica a apenas 8 km de distância. E é de propriedade da Total.

Quem é a Total?

A gigante do petróleo que afirma ser “verde” foi fundada pela França em 1924. Cinco anos depois, começou a expandir suas operações internacionalmente, a ponto de operar hoje em 130 países.
A primeira vez que a Total perfurou o fundo do mar foi em 1961, no mar do Gabão, bem longe do seu próprio país. Já a primeira operação de perfuração em águas profundas foi realizada vinte anos depois no Mediterrâneo.
Em 2014, a Total revelou seu novo slogan e lema: “Comprometidos com a melhoria da energia”. É uma mensagem bastante destoante para um gigante da indústria do petróleo. No entanto, essas belas palavras serão vazias se a Total insistir no plano absurdo de explorar petróleo na região dos Corais da Amazônia. Juntamente com outras companhias, incluindo a BP, a Total gastou US$ 300 milhões para adquirir cinco blocos de exploração e deverá investir mais US$ 300 milhões na primeira fase de perfuração exploratória.
O tempo está passando e a empresa quer começar a explorar já neste ano. Mas não podemos deixar a ganância de uma gigante da indústria petrolífera colocar em risco esse novo bioma.

Ainda temos chance de parar isso

Até este 27 de março, a Total não mostrou que está disposta a abandonar seus planos de explorar petróleo próximo aos Corais da Amazônia. Este é o momento de você se posicionar. Junte-se mais de 800 mil pessoas pessoas ao redor do mundo que já estão defendendo esse tesouro natural.
Assine nossa petição, compartilhe as notícias em suas redes sociais. Defenda os Corais da Amazônia!

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/566262-total-fique-longe-dos-corais-da-amazonia)

Uma família como muitas outras

Por Jaime Pinsky, historiador e editor, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp.
Há 90 anos, no dia 28 de março de 1927, aportava no Rio de Janeiro o navio Mosella, de bandeira francesa, pertencente à Companhia Sud Atlantique. Além de 141 tripulantes, transportava mercadoria e passageiros e, entre estes, na terceira classe, o meu avô, a avó e cinco de seus 6 filhos. Partindo de Bordeaux o navio cumpriu sua rota habitual, desde que foi colocado em serviço 5 ou 6 anos antes: Vigo, na Espanha, Lisboa, Dakar, Recife, Salvador e então Rio de Janeiro. O jornal pernambucano A Província, de 9 de fevereiro de 1927 comunicava, em anúncio da empresa marítima, que o vapor Mosella estava sendo aguardado para o dia 20 de março, zarpando “após a necessária demora” em direção à Bahia, Rio de Janeiro, Santos, Montevidéu e Buenos Aires. Faz sentido, portanto, a família ter passado pela imigração no dia 28 de março de 1927. Há 90 anos, portanto.
O documento que está na minha frente, oriundo da “Directoria Geral do Serviço de Povoamento do Ministério de Agricultura, Indústria e Comércio” lista um pai, Mowsza Pinski, uma mãe, Pesza Pinski e cinco filhos, com idades entre 11 e 23 anos de idade. Entre eles estava um tal de Abram Pinski, então com 15 anos, meu pai. Seus irmãos eram Chana, Szejna, Ioko e Sara, a caçula.
Depois de sete séculos vivendo na Polônia e adjacências (em regiões que hoje fazem parte da Ucrânia, Belarus, Lituânia e da Rússia) os judeus foram perdendo sua condição de existência e passaram a sofrer perseguições que culminariam com o holocausto promovido pelos nazistas. Quem saiu na época do meu avô, saiu-se bem. Embora com muita tristeza, ele tinha conseguido vender sua propriedade, inclusive um moinho de trigo, responsável pela batata com manteiga de cada dia e do arenque com creme de leite azedo das sextas à noite.
Os judeus davam os nomes em ídiche, língua que se originou de um dialeto alemão que eles haviam levado da Alemanha para a Polônia no século XIII e enriquecido com palavras eruditas e religiosas do hebraico e palavras cotidianas e chulas do polonês. O Mowsza do meu avô não é senão uma tradução de Moiche (Moises, em português, às vezes Maurício), assim como Pesza é Pecha (geralmente Paulina) e o Szejna é apenas o Sheina (Bela, literal e merecidamente); Ioko é Itzhak (Isaac), Chana é Chane (Ana). Sara e Abram não mudam, a não ser pelo sotaque e pelo nosso ão criado para que nenhum estrangeiro consiga pronunciar.
Mas, como dizia, esse povo todo desceu do navio vindo de Bordeaux em 1927, e foi para uma quarentena obrigatória na então Ilha das Flores. Quantos dias ficaram nessa ilha que já não é mais ilha (um aterro incorporou-a ao continente) é um mistério, já que os livros de registro de 1927 desapareceram da hospedaria, como me informou o historiador Luiz Reznik. Ao final de prováveis 4 ou 5 dias devem ter tomado o trem para São Paulo e daí viajaram até o norte do Rio Grande do Sul, região de Passo Fundo, em terras que haviam sido adquiridas pelo Barão Hirch em 1911 para acolher judeus perseguidos na Europa Oriental. A região não era paradisíaca, nem ao menos pacífica. Em 1923 foi cena de sangrenta batalha entre chimangos e maragatos, no ano seguinte foi ocupada pela Coluna Prestes. Mas a família nada tinha a ver com isso. Lá se instalou e lá começou a plantar. O que? Amendoim e alfafa, entre outras coisas. Pelo menos é o que assegura um documento que ostento com orgulho no meu escritório na Editora Contexto, um diploma datado de 1931 (ou seja, quatro anos após a chegada daquele grupo a terras tupiniquins), assinado pelo interventor Flores da Cunha. O texto garante que o colono M. Pinsky (meu avô, agora já ostentando o y no sobrenome) ganhou o terceiro lugar em amendoim e menção honrosa em alfafa na “Grande Exposição Agrícola, Pastoral e Industrial” realizada no Rio Grande do Sul. Sim, o danado desse Moises/Maurício/Moiche colocou a filharada para trabalhar com afinco e colaborou com o aprimoramento da agricultura brasileira, mesmo não falando um português perfeito e desconhecendo muitas práticas culturais da região de Passo Fundo.
Mas a saga dos Pinsky continua. Os cinco filhos que para cá chegaram tiveram 13 netos, que, por sua vez, fizeram a sua parte para garantir a continuação da família. Quase todos continuam no Brasil, nas mais diferentes atividades.
Pacíficos e produtivos, como o patriarca. E como tantos imigrantes que para cá vieram.

Assim começam as guerras pela água


Bloqueio do Eufrates e Tigre, pela Turquia acirrou tensões que levaram à guerra o Iraque e a Síria. Mas outros conflitos hídricos já atiçam a Índia, Paquistão, Egito, Etiópia…
No Aliança RECOs* | Tradução: Vila Vudu

A revista Foreign Affairs traz artigo cuja leitura recomendo sobre as guerras pela água entre Turquia, Síria e Iraque: “Rivers of Babylon”. A Turquia construiu muitas barragens por todo o país, para produzir eletricidade, mas também para irrigação.

Quando viajei pelo leste da Turquia nos anos 1990 muitos novos projetos, partes do Southeastern Anatólia Project (GAP, em turco0, eram visíveis; e água recentemente retida em barragens era fornecida às regiões secas do sudeste mediante canais abertos. Muita daquela água era perdida por causa da evaporação, mas também porque as novas plantações usavam espécies que exigem água intensiva, numa região quente e em muitos pontos desértica. A água agora oferecida a fazendeiros turcos antes corria pelo Eufrates e Tigre, para a Síria e Iraque. Três anos secos na Síria, 2006-2009 induziram muitos aricultores a deixar as terras secas e mudar-se para as cidades, onde só poucos deles encontravam trabalho:

À altura de 2011, fracasso de colheitas por causa da seca empurrara cerca de 1,5 milhão de ex-agricultores a emigrar das próprias terras; essa legião de desenraizados virou fonte de recrutas para o Exército Sírio Livre e outros grupos como o Estado Islâmico (também chamado ISIS) e para al-Qaeda. Testemunhos recolhidos por repórteres e ativistas nas zonas de conflito sugerem que a falta de qualquer ajuda do governo durante a seca foi o fator central de motivação para a rebelião antigoverno. Além disso, estudo de 2011 mostram que as hoje fortalezas dos rebeldes em Aleppo, Deir al-Zour, e Raqqa estavam entre as áreas mais duramente atingidas pelo fracasso das colheitas.

A situação no Iraque é similar, se não pior. Grandes regiões perderam a base de sua agricultura e os agricultores pedem soluções e mais apoio.

Em Karbala, Iraque, agricultores estão em desespero e já consideram abandonar suas terras. Em Bagdá, as periferias mais pobres dependem da Cruz Vermelha até para a água de beber. Em algumas ocasiões, a Cruz Vermelha teve de fornecer 150 mil litros por dia. Mais para o sul, as áreas centrais do Irã, as maiores áreas alagadas de todo o Oriente Médio, estão desaparecendo, depois de terem sido reinundadas após a deposição de Saddam Hussein. Em Chibayish, cidade nas áreas alagadas que um dos autores desse artigo visitou recentemente, os búfalos e os peixes estão morrendo. Atualmente, a agricultura ali sustenta no mínimo 60 mil pessoas. Esses e mais centenas de milhares de outros enfrentarão dificuldades muito maiores, se os recursos d’água continuarem a definhar.

A falta de água não é a única razão para as guerras na Síria e Iraque. Mas torna esses países mais propensos a conflitos internos e mais vulneráveis à intromissão de atores externos. Os governos de Síria e Iraque podem fazer pouco para ajudar seus agricultores. Embora haja acordos sobre um fluxo mínimo de água a ser preservado entre Turquia, Síria e Iraque, não há meios pelos quais Síria e Iraque possam realmente pressionar a Turquia para que desimpeça o fluxo de água e preserve o fluxo fixado nos acordos.

Embora acordos vigentes entre Síria e Turquia devam garantir fluxo de 500 metros cúbicos por segundo, 46% dos quais vão para o Iraque, durante o verão os fluxos podem ser muito menores. Segundo Jasim al Asadi, hidrologista da Nature Iraque, quando o Eufrates alcança Nasiriyah no sul do país, é necessário um fluxo mínimo de 90 metros cúbicos por segundo, para uso municipal, industrial e agrícola. Às vezes, o fluxo cai para 18 metros cúbicos por segundo – razão pela qual não surpreende que as áreas alagadas estejam diminuindo rapidamente. Antes da construção da maior barragem nos anos 1970s, o fluxo médio no Eufrates era de 720 metros cúbicos por segundo. Agora, é de cerca de 260 m³/s quando entra no Iraque.

Quase dois terços do fluxo que o Iraque recebia já não chegam. Não há meio para substituí-lo. Além disso, a pouca água que está fluindo agora pode acabar rapidamente:

As barragens na Turquia, que já ultrapassam 140, têm muito maior capacidade de armazenamento que as que ficam a jusante. E quando as novas barragens turcas estiverem completadas em poucos anos, cerca de 1,2 milhão a mais de hectares serão irrigados dentro da Turquia – aumento de oito vezes, em relação ao que há hoje.[1]?…??Dada a relativamente melhor saúde hídrica da Turquia, seria razoável supor que o país pararia de construir barragens que tanto dificultam a sobrevivência dos países vizinhos à jusante dos rios. Mas o país fez exatamente o oposto, e planeja concluir 1.700 novas barragens e açudes dentro de suas fronteiras.

A matéria da Foreign Affairs nada diz sobre outro projeto turco que desvia ainda mais água para longe de seus vizinhos do sul. Em 1974 a Turquia invadiu e desde então ocupou o norte de Chipre. Os moradores gregos nativos daquelas áreas ocupadas foram dizimados em processo de “limpeza” étnica, e 150 mil turcos foram transferidos da Turquia e implantados naquela terra grega. E a Turquia construiu agora aquedutos para fornecer água do território turco às áreas ocupadas da ilha:

Um aqueduto recentemente concluído, que cruza o fundo do Mediterrâneo, levará 75 milhões de metros cúbicos de água fresca anualmente, da Turquia para o norte, isto é, para a parte turca da dividida ilha de Chipre. A água que chegará pelo aqueduto tornará os turcos cipriotas, que já recebem subsídios de Ancara para sua sobrevivência econômica, ainda mais dependentes da Turquia. Um cenário é, assim, que por estarem mais intimamente ligados ao continente, os cipriotas turcos terão menos liberdade quando negociarem a reunificação com os compatriotas cipriotas gregos, o que tornará difícil alcançar alguma solução.

Outro projeto turco, que vai e vem ao longo dos anos, é construir aquedutos e gasodutos até Israel, numa troca de gás israelense por água turca. Água que, além de outras utilidades, faria terrível falta na Síria e no Iraque. Precisamos de um processo de solução global, com instrumentos para fazer valer os acordos, para regular os fluxos naturais de água através de fronteiras. Do contrário, haverá grave ampliação das guerras entre países que usam água extensivamente em seus próprios territórios, enquanto países localizados à jusante dos rios morrem de sede.

A situação de Turquia, Síria, Iraque não é a única guerra pela água que há hoje no mundo. Paquistão e Índia lutam pela Caxemira ocupada pela Índia, onde estão as nascentes do sistema do rio Indo. O Indo é a água que mantém vivo o Paquistão, e a Índia tem usado o controle que tem sobre a Caxemira para pressionar o Paquistão. A próxima guerra entre Índia e Paquistão pode estar a uma seca de distância; e pode ser guerra nuclear.

Outra guerra pela água está fermentando entre Uzbequistão e Tadjiquistão. A Etiópia está construindo uma megabarragem no Nilo, que ameaça o principal suprimento de água do Egito. Nada garante que o Egito permita que a construção chegue ao fim. Todos esses casos já levaram ou levarão a guerras entre países ou a guerras civis por causa da água (da falta dela). O fluxo de água entre países é uma das questões que carecem de governança global. Um livro de regras e um corpo judicial global que determine que todos os povos ao longo de um curso de água devem beneficiar-se dele. Megaprojetos como o GAP na Turquia teriam de ser julgados por aquele corpo judicial e suas regras teriam de ser apoiadas em poderes coercitivos significativos. É isso ou, se não for isso, haverá muitas guerras, muito intensas, de disputa pelo acesso à água.

[1] “Uma das principais razões para os projetos insanos dessas barragens turcas jamais concluídas, por falar delas, é inundar os vales e privar os curdos turcos de terreno onde se possam esconder e abrigar-se (…). Os curdos turcos sempre se opuseram firmemente àquelas barragens” (Bart, 27/8/2015, 2:05:00 PM | 3, nos Comentários a esse postado) [NTs].
*Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras

(fonte:  http://outraspalavras.net/destaques/assim-comecam-as-guerras-pela-agua/)

Ultraprocessados e a vontade inconsciente de comer


por Juliana Dias e Mónica Chiffoleau, editoras do blog Conhecer para Comer


No departamento de novos produtos das empresas de consumo de massa é de grande importância calcular o ponto exato em que o sal, o açúcar e a gordura vão poder induzir ao ponto de êxtase os consumidores. Este ponto é conhecido como o “bliss point”, ou o ponto de extrema felicidade, o qual, na linguagem dos marqueteiros, vai levar os consumidores à lua. Dessa forma, a engenharia de alimentos tem como trabalho encontrar a equação matemática perfeita de sabor e conveniência para vender mais produtos (MOSS, 2013, p.XXV).

Não é de estranhar que a maioria de nós prefira comida doce e gordurosa, que é “mais densa” energeticamente, com altas doses de sal, açúcar e gordura (NESTLE, 2013, p.17). Biologicamente estamos “programados”, ou condicionados, desta maneira. Trata-se de neurotransmissores no cérebro, muito úteis para nossos ancestrais caçadores-coletores, que precisavam reconhecer comida energética para a sobrevivência. As empresas sabem disso, o que é evidente quando olhamos para as prateleiras dos supermercados e encontramos uma variedade de ultraprocessados, formulações industriais com aparência de produto comestível à base de sal, açúcar e gordura. O interessante para a indústria é vender mais.
De acordo com o livro de Moss, as maiores empresas têm levado a cabo pesquisas sobre os efeitos da gordura no cérebro. A Unilever investiu 30 milhões de dólares em uma equipe de 20 pessoas, empregando as mais avançadas tecnologias de estudo neurológico para determinar o poder sensorial dos alimentos, inclusive da gordura. O cientista que liderou o estudo foi Francis McGlone, que ficou um pouco envergonhado de provar o que o diretor de insights da empresa pedia: determinar se o sorvete deixava os consumidores felizes, o que foi cientificamente comprovado.

Por sua vez, o centro de pesquisa e desenvolvimento da Nestlé, perto de Genebra, na Suíça, tem um grupo de cientistas, dentre eles Johannes Le Coutre, que utilizam o mesmo tipo de mapas cerebrais usados nos centros de pesquisa acadêmicos. Suas ferramentas incluem eletroencefalógrafos (EEG), cuja rede de eletrodos é fixada na cabeça do paciente a fim de explorar como o cérebro responde a vários estímulos. Os resultados demostraram que o cérebro detecta a gordura com incrível rapidez. Um compêndio sobre todos os fatos relacionados com a gordura foi escrito por Le Coutre e outros 50 colegas da indústria e da academia. O livro de 609 páginas foi publicado em 2010, servindo de guia para as empresas que querem utilizar o poder da gordura em seus produtos (MOSS, 2013, pp.149-156).

Mas o sorvete não tem só gordura, tem também açúcar. Considerado uma das principais causas da obesidade, o açúcar é fundamental para o paladar dos consumidores. Moss relata que, durante os últimos quarenta anos, centenas de fisiologistas, químicos, neurocientistas, biólogos e geneticistas do Centro de Sentidos Químicos Monell, na Filadélfia (EUA), buscam decifrar os mecanismos do gosto e do olfato. Dentre as descobertas, observa-se que os receptores na língua são estimulados pelos endocanabinóides – substâncias que são produzidas no cérebro para incrementar o apetite e que são irmãs do THC, a substância ativa da maconha (2013, p.7). Outras pesquisas sinalizadas pelo jornalista, como a de Moskowitz, permitiram encontrar, a partir de modelos matemáticos, o ponto ideal de açúcar a ser utilizado no produto, de modo a não desperdiçar e não causar repulsa. O cientista descobriu que não é a fome que gera a ânsia de comer. Raramente chegamos a uma situação em que o nosso corpo ou cérebro esteja com falta de nutrientes. O que precisamos é de reconforto, satisfazendo as necessidades emocionais, que são os pilares da comida processada: gosto, aroma, aparência e textura (MOSKOVITZ, 2013, pp. 34-39).
O interesse das grandes corporações alimentares é a venda de produtos e o lucro, nas palavras de Marion Nestle: “as empresas devem competir com agressividade por cada dólar gasto em comida, a primeira missão das empresas é vender produtos. As empresas não são agências de saúde ou serviços sociais, a nutrição se converte em um fator que, para as empresas, só é considerado se puder ajudar a vender. As opções éticas são muito pouco consideradas (NESTLE, 2013, p. 2).”

Podemos pensar assim, que os benefícios do lucro têm sido, para as empresas, contrários às expectativas dos consumidores, cujo paladar tem sido modificado e, em alguns casos, viciado. Igualmente, existe uma facilidade maior de acesso aos produtos alimentares baratos, altamente calóricos, de baixa qualidade nutricional e alto conteúdo publicitário. Lembremos que, para os marqueteiros, existem produtos que devem ser vendidos sem pensar em suas implicações para a saúde ou outro tipo de consequência. Parte da gestão é justamente o desenvolvimento do “produto” que deve ser consumido. Assim, o sal, o açúcar e a gordura se convertem em grandes aliados.

E a General Mills sabe bem disso. Não é fácil ser uma das dez empresas que controlam o que compramos nos supermercados. As primeiras marcas desta empresa eram as de cereais matinais. Em 1949 ela lançou no mercado o cereal com maior conteúdo de açúcar da época, o Sugar Crisp, que foi um hit, levando os concorrentes a lançar produtos com grande teor de açúcar. (MOSS, 2013, pp.68-74).
Falar do leite renderia mais de um texto, só vamos mencionar um fato. Se Häagen Dasz é uma marca norte-americana, e o sorvete não é orgânico, provavelmente a vaca tenha sido submetida ao hormônio transgênico de crescimento bovino (rbBGH ou rbST, nas siglas mais usadas em inglês).

O hormônio foi desenvolvido pela Monsanto e é injetado em vacas para aumentar a produção de leite. Está proibido na maioria dos países, mas é livremente utilizado nos EUA, sem que o leite e os derivados tragam a informação nos rótulos. No Brasil, esse hormônio foi liberado em 2006.

Diante desse cenário de especialistas e marqueteiros ávidos em captar o ponto de êxtase do consumidor com fórmulas à base de sal, açúcar e gordura, a marca norte-americana Häagen Dasz permanece há 56 anos com a mesma imagem na mente do consumidor: uma paisagem bucólica dinamarquesa, sugerindo a origem dos sorvetes, fabricados com leite sem hormônios e sustentável. As ambiguidades e contradições da indústria alimentícia devem ser desveladas e complexificadas com a intenção de trazer informação e esclarecimento sobre esse modelo hegemônico de produzir e consumir produtos comestíveis.

Em 2016, a Häagen Dasz anunciou a redução progressiva de ingredientes transgênicos na fabricação dos seus sorvetes, indicando, ao que parece, uma aproximação com o amplo debate sobre o assunto e a pressão de organizações de consumidores em todo o mundo. Em paralelo, a produção de leite de vacas no país escandinavo vem aumentando desde a década de 1980 em mais de 50%, enquanto as emissões de carbono foram reduzidas neste intervalo. Produtores dinamarqueses estão agora entre os produtores de leite mais eficientes do mundo em termos de emissões de gases com efeito de estufa.

Ao final, a magia do marketing permite trazer imagens idílicas para a mente do consumidor mesmo que não sejam reais, antenadas com o discurso ecológico; e o marketing político alcança a aceitação da mente pública para criar e instaurar políticas favoráveis para os grupos no poder que controlam o sistema agroalimentar global.

(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/ultraprocessados-e-a-vontade-inconsciente-de-comer/)