sábado, 15 de julho de 2017

II Congresso Internacional de Estudos Históricos Latino-americanos


De 13 a 15 de setembro de 2017, o Programa de Pós-Graduação em História da Unisinos promoverá o II Congresso Internacional de Estudos Históricos Latino-americanos - II CI-EHILA, que se insere nas comemorações dos 30 anos do PPGH e dará continuidade ao I CI-EHILA, que ocorreu em 2015. A segunda edição versará sobre o tema Historiografia: temas, desafios e perspectivas, e, em consonância com a Área de Concentração do Programa, contará com conferências, mesas redondas e simpósios temáticos orientados para a reflexão e a discussão dos estudos historiográficos produzidos sobre e na América Latina nestes últimos 30 anos.

Na edição deste ano, estão confirmadas as presenças de Maria Regina Celestino Almeida - Universidade Federal Fluminense, Perla Chinchila Pawling - Universidad Iberoamericana - México, Ronald Raminelli (Universidade Federal Fluminense), Lená Menezes - Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Lucilia de Almeida Neves Delgado - Universidade do Distrito Federal, Ernesto Bohoslavsky - Universidad Nacional de General Sarmiento, Carlos Daniel Paz - Universidad Nacional del Centrode la Provincia de Buenos Aires, Argentina, Artur Barcelos - Universidade Federal do Rio Grande e Fernando Devoto - Universidad Católica de Buenos Aires.

Para mais informações sobre o II CI-EHILA acesse a 1ª Circular sobre o Congresso.

As inscrições estarão abertas até 14 de setembro.

A traição ao trabalhador orquestrada por Temer, Rodrigo Maia e Romero Jucá

Texto escrito por José de Souza Castro:

O líder do governo no Senado, Romero Jucá, foi o último a discursar antes de encerrada a votação da lei que estraçalha a CLT, para voltar a prometer que Michel Temer enviaria logo ao Congresso Nacional medida provisória para retirar do texto os maiores absurdos introduzidos pelos deputados e aprovados sem emendas pelos senadores. Quando discursou, todos já tinham votado, sendo 50 a favor e 26 contra. Promessa de mentirinha, discurso de mentirão.
Horas depois, o presidente da Câmara dos Deputados, o farsante Rodrigo Maia (DEM-RJ) que vai suceder Temer (temporariamente ou não), caso este seja afastado por corrupção, anunciou que vai barrar a medida provisória logo que ela chegue ao Congresso Nacional.
O que era ruim com Temer ficará pior com Maia. Ele declarou à “Folha de S.Paulo” na manhã desta quarta-feira, horas depois da votação vergonhosa no Senado: “Não participamos de nenhum acordo. Queremos reformar o Brasil. Chega de mentiras”. E prosseguiu: “A reforma trabalhista é o primeiro momento de grandes mudanças no nosso país. Ainda vêm a Previdência, a tributária, a segurança e a redução da pobreza. Vamos de verdade mudar o país. A Câmara já liderou e vai continuar liderando”.
Segundo Maia, a reforma trabalhista aprovada agora é uma “revolução” e não haverá retrocesso. “Acordos do atraso não estarão na nossa agenda. Queremos um novo Brasil”, afirmou.
Um dos pontos “revolucionários” da lei é permitir o trabalho de gestantes e lactantes em locais insalubres!
Além do discurso de Romero Jucá, ouvi o da presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), que pode ser ouvido aqui. É um tapa na cara dos senadores e um alento ao trabalhador, para que não se sinta completamente só.
Não há necessidade de tratar aqui de Gleisi. Seu discurso fala por si só.
De Jucá, basta lembrar que é o autor da célebre frase, gravada antes do impeachment de Dilma Rousseff, defendendo um pacto para tirar a presidente da República e estancar a sangria da Lava Jato em outros partidos que não o PT.
Quanto a Rodrigo Maia, não tente aprender muito sobre sua carreira política e seu caráter na imprensa comercial. Há bons artigos, porém, em alguns sites independentes. Uma pesquisa no Google resolve.

(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/07/12/traicao-trabalhador/#more-14097)

Quinhentos anos de solidão



Em cada jovem africano que busca o Ocidente, as pegadas do capitalismo: da escravidão negra à lógica que reduz o continente a eterno fornecedor de matérias-primas
Por Ignacio Ramonet | Tradução: Inês Castilho


Com a chegada do verão europeu, voltamos a assistir aos repetidos e às vezes trágicos assaltos contra as muralhas alambradas de Melilla, levados a cabo com sofisticadas técnicas e artimanhas de assédio medieval, por disciplinadas colunas de jovens subsaarianos. Em outras zonas (Canárias, a ilha italiana de Lampedusa, as costas da Sicília, da Grécia, do Chipre, de Malta e a ilha francesa de Mayotte, perto de Madagascar), os “invasores” chegam quase sempre às praias à noite – quando não soçobram –, em silenciosas embarcações, como faziam outrora sem dúvida os vikings, normandos ou sarracenos.
Na Europa e em outras partes do mundo rico, muitos (entre eles o presidente estadunidense Donald Trump) tendem a considerar esses “assaltantes” como agressores, delinquentes e até criminosos. A extrema direita europeia reclama mais linha dura para repelir os intrusos, menos consideração, e a adoção urgente de medidas mais radicais. Mais vigilância, mais polícia, mais exército, mais expulsões… E nem sempre se pergunta: por quais causas essas pessoas estão dispostas a correr tantos riscos para colocar definitivamente, e por um preço vil, sua força de trabalho a serviço de conforto e alto nível de vida dos europeus?
A Africa Subsaariana é uma das regiões mais empobrecidas do planeta.
Sua pobreza extrema explica-se por diversos fatores. Em primeiro lugar, o tráfico de escravos, crime e genocídio que esvaziou durante séculos a região de milhões de seus homens e mulheres mais jovens, sadios e fortes, obrigando comunidades inteiras a viver escondidas e asiladas nas profundidades da selva, sem contato algum com os progressos da técnica e da ciência.
Recorde-se também que a África foi, até há apenas algumas décadas, terra de colonização. De uma colonização imposta pelas potências europeias a sangue e fogo, à base de guerras, extermínios e deportações. Todos os poderes locais que ousaram opor-se e resistir aos conquistadores – portugueses, holandeses, britânicos, franceses, alemães, italianos ou espanhóis – foram esmagados.
No aspecto econômico, as potências coloniais estabeleceram, de modo autoritário, uma economia fundada na exportação de matérias-primas para a “metrópole” e no consumo obrigatório de produtos manufaturados produzidos na Europa. Dessa maneira a África perdeu nos dois lados. Essa dupla exploração, no essencial, não mudou.
Por exemplo, a Costa do Marfim, primeiro produtor mundial de cacau (40% do volume mundial), nunca pôde desenvolver uma indústria de chocolate exportadora. O mesmo se pode afirmar do Mali ou da Nigéria, dois dos principais produtores de algodão, que se viram na impossibilidade de montar uma verdadeira indústria têxtil. E isso porque, em geral, as excessivas tarifasa duaneiras impostas pelos países importadores ricos aos eventuais produtos elaborados no Sul arruínam toda possível competição com os produtos fabricados no Norte.
Os países desenvolvidos querem conservar a exclusividade da transformação das matérias-primas, ou, no marco da globalização liberal, aceitam deslocalizar suas fábricas para a China ou Bangladesh, onde a mão de obra é hábil, dócil e sobretudo barata. Mas não estão absolutamente dispostas a investir na Africa, nem em desenvolver nesse continente um setor industrial importante. A divisão internacional do trabalho, realizada em favor dos interesses dos países do Norte, atribui à Africa um papel subalterno, marginal, que impede esse continente de entrar na espiral virtuosa do desenvolvimento.
As fabulosas riquezas minerais e florestais do continente africano são vendidas a preços de liquidação, para o maior enriquecimento das empresas importadoras e transformadoras do Norte. Desse modo, não se criam empregos nem sequer na agroindústria, setor básico a partir do qual se pode edificar um verdadeiro desenvolvimento agrícola, e mais tarde industrial. Por isso, também, a África é o último continente que ainda conhece, com regularidade, crises alimentares e até fome.
Essa região do mundo, tão frequentemente qualificada pela mídia dominante do Norte como “subdesenvolvida”, “violenta, “caótica” e “infernal”, não teria conhecido tal instabilidade política – golpes de militares, insurreições, massacres, genocídios, guerras civis, terrorismo jihadista – se os países ricos do Norte (começando pelas antigas potências coloniais) lhe tivesse oferecido possibilidades reais de desenvolvimento, ao invés de continuar a explorá-la. A pobreza crescente converteu-se em causa de desordem política, de corrupção, de nepotismo e de instabilidade crônica. E essa mesma instabilidade desestimula os investidores, tanto locais como internacionais. Com isso fecha-se o círculo vicioso do labirinto da pobreza.
Tudo isso explica por que hoje um (ou uma) jovem do sul do Saaara, em plena saúde e frequentemente boa formação educacional, não deseja seguir vivendo no que é o calabouço do mundo. Dezenas de milhares estão, neste momento, dirigindo-se aos botes precários que conduzem à Europa, com a esperança de poder viver, finalmente, uma vida normal. E talvez também com a reivindicação inconsciente de que a Europa lhes deve algo de sua atual riqueza.
Isso é só o começo, e não se sabe que tipo de muros se haverá de construir para desencorajar o fluxo. Porque o Banco Mundial acaba de advertir que já estourou a bomba demográfica, e que já há nos países pobres uns 2,5 bilhões de jovens menores de 22 anos que não encontram trabalho em seus países. E cuja única perspectiva é tomar de assalto os muros da Europa…
Para alguns países africanos do Sahel, região onde encontram-se alguns os Estados mais pobres do mundo, como Mali, Burkina Faso, Níger e Chade, o algodão, “ouro branco”, representa entre 30% e 40% do valor de suas exportações. É, portanto, um produto vital do qual vivem diretamente três milhões de agricultores e indiretamente mais de quinze milhões de pessoas… “O algodão está ligado à história da África e à penosa história da escravidão – diz Aminata Traoré, ex-ministra de Cultura de Mali –, mas hoje queremos que nos ajude a conquistar a liberdade, e não nos escravize novamente.
Esses países pobres, nos últimos decênios, sacrificaram outras infraestruturas e fizeram esforços consideráveis (construção de barragens, canais de irrigação) para aumentar as superfícies dedicadas ao cultivo do algodão. E hoje encontram-se numa situação dramática porque, apesar do baixíssimo custo de uma produção realizada por camponeses pobres, o algodão africano vai mal na exportação e acaba mais caro que produzideo em alguns países ricos como os Estados Unidos — que controlam 30% das exportações mundiais da fibra branca.
Como é possível que o algodão produzido a preço de ouro nos EUA termine mais barato que o que se cultiva a custo infra-humano na África? Simplesmente porque Washington dá a seus produtores de algodão subsídios anuais de uns 3 bilhões de dólares… Por isso o algodão estadunidense pode ser vendido no mercado internacional a um preço inferior ao de seu custo e até mais baixo que o preço do “ouro branco” africano.
Consequência: se esses subsídios forem mantidos mantêm, ocorrerá uma catástrofe econômica de grande alcance nos países africanos do Sahel, que já se encontram entre os menos avançados do planeta. Milhões de agricultores continuarão a abandonar o campo para alistar-se nos exércitos jihadistas que controlam grande parte da região; ou irão amontoar-se nas favelas das periferias urbanas, de onde a miséria e a fome empurrarão os mais ousados a emigrar para a Europa. A bordo de canoas até as Canárias, ou atravessando o deserto do Sahara até a Líbia, na tentativa de depois cruzar a Itália.
Do algodão para a canoa é só um passo. E ainda que aparentemente uma coisa nada tenha a ver com a outra, os países da União Europeia, e entre eles os mais expostos à entrada dos imigrantes clandestinos subsaharianos, deveriam insistir para que se suprimam os subsídios às exportações agrícolas, em particular as do algodão, que só beneficiam uns milhares de agricultores norte-americanos, enquanto arruínam milhões de africanos.
Recordemos que a atividade principal, em escala planetária, continua sendo a agricultura. De todos os camponeses do mundo, apenas uns 30 milhões dispõem de um trator, 250 milhões trabalham com instrumentos de tração animal e 1,3 bilhão usam ferramentas manuais. Essa é a dramática realidade da agricultura de hoje.
Em junho de 2005, para tratar da situação da África e como álibi diante da opinião pública mundial, os chefes de Estado do G-8 convidaram os presidentes da África do Sul, Argélia, Etiópia, Gana, Senegal e Tanzânia, além de Kofi Annan, então secretário geral da ONU. A ideia de Tony Blair, primeiro ministro britânico naquele momento e que presidia esse G-8, era reduzir a dívida externa dos países intermediários, depois de haver reduzido a de treze países pobres da África. Blair também propunha aumentar a ajuda pública ao desenvolvimento (APD) em 25 bilhões de dólares ao ano durante cinco anos, até alcançar 0,75% do PIB. O presidente estadunidense George Bush opôs-se, sob o pretexto de que a África não seria capaz de absorver tal quantidade de capital… No entanto, o auxílio proposto por Tony Blair era inferior ao que estava custando, então, a guerra do Iraque. Outros observadores recordaram que os Estados Unidos consentiram em consagrar, após a Segunda Guerra Mundial, não 0,75% do seu PIB, mas 1% ao longo de quatro anos, para ajudar a reconstruir a Europa com o Plano Marshall…
Se quisessem de verdade ajudar a África, os países ricos teriam que tomar cinco singelas medidas:
— Primeira, suprimir definitivamente a divida externa africana (para cada dólar emprestado, a África já devolveu 1,30 dólares só de juros).
— Segunda, suprimir os subsídios às exportações agrícolas que inundam, a preço de banana, os mercados dos países em desenvolvimento e destroem a agricultura local.
— Terceira, abrir os mercados agrícolas da América do Norte, da União Europeia e do Japão aos produtos africanos.
— Quarta, aceitar que os países africanos estabeleçam uma política protecionista em favor de suas produções locais, tanto agrícolas como industriais, sem que o Fundo Monetário Internacional (FMI) ou o Banco Mundial lhes aplique sanções.
— E quinta, reorientar a pesquisa farmacêutica para curar as epidemias endêmicas da África (hoje, 90% da pesquisa farmacêutica está orientada para melhorar a vida do 10% da população rica mundial).
Os recursos abundam e existem soluções para erradicar a pobreza na África e no resto do planeta. Falta vontade política. Quando finalmente se admitirá que, suprimindo a pobreza e as injustiças, suprimem-se as principais causas do terrorismo no mundo?



(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/quinhentos-anos-de-solidao/)

Brasil Império - lançamento de livro




Miriam Dolhnikoff é professora do departamento de História da FFLCH-USP e pesquisadora do Cebrap. É mestre e doutora em História Econômica pela USP. Ensina e pesquisa o Brasil Império. Atualmente, estuda o governo representativo, sob a forma de monarquia constitucional, no Brasil, com foco no debate político em torno das eleições.


No século XIX deixamos de ser colônia de Portugal, mas seguimos sendo governados por monarcas. E o que aconteceu durante o Brasil Império? A professora da Universidade de São Paulo Miriam Dolhnikoff mostra como o Brasil forjou, naquele período, muito de sua identidade que ainda hoje permanece. Pois o país foi uma construção que resultou de disputas entre projetos e interesses diversos que se deram ao longo do século XIX. Proclamada em 1822, a independência marca o início de um longo processo: o da transformação da América portuguesa em uma nação, a construção política e social do Brasil. Continuidades, rupturas, mudanças parciais e outras mais profundas marcam a história da nação que começou a ser construída no início do século XIX.

À venda no site da Editora Contexto.

Não em meu nome: filhos de torturadores argentinos repudiam seus pais

Familiares de repressores se reúnem em grupos que rejeitam os crimes e exigem cumprimento de pena


Suas reuniões são duras. Uma espécie de terapia coletiva. A maioria está há anos sem compartilhar seu segredo e tem muita vontade de falar. Precisam desabafar. “No começo foi uma catarse. Acabamos chorando quase todos. Arrastamos uma cultura muito arraigada que nos diz ‘Honrarás o teu pai’. É muito difícil romper com isso”, conta María Laura Delgadillo, uma das fundadoras do Histórias Desobedientes, um grupo que vem comovendo a Argentina – um país já bastante habituado a relatos terríveis sobre a última ditadura militar (1976-83). Mas este é diferente, porque vem de dentro para fora. São os filhos dos repressores que se rebelam contra seus pais e se reúnem para exigir que eles não saiam da cadeia, que cumpram suas penas de prisão perpétua.

Durante anos, o mundo da repressão numa das piores ditaduras do planeta se dividia em dois, como os espaços dentro dos julgamentos de crime contra a humanidade: de um lado, os repressores e suas famílias; de outro, as vítimas e seus parentes. Mas isso acabou no dia em que este pequeno grupo, formado sobretudo por mulheres – no começo meia dúzia, hoje mais de 50 –, foi a uma manifestação com um cartaz que dizia: “Filhos e filhas de genocidas pela memória, verdade e justiça”.

Lá estava Analia Kalinec, filha de Eduardo Kalinec, o Doutor K., um conhecido repressor que cumpre pena de prisão perpétua. Também Erika Lederer, filha de Ricardo Lederer, um obstetra que ajudou a parir boa parte dos filhos de desaparecidas e que se suicidou em 2012 ao ver que seria condenado. Erika teve a coragem não só de criar este grupo como também de se encontrar com o neto 106 das Avós de Praça de Maio, a quem o pai dela havia ajudado a entregar a uma família leal à ditadura. A assinatura de Lederer na falsa certidão de nascimento foi a sua condenação. Erika, também vítima do seu pai, que a maltratava, queria saber como podia ajudar Pablo, o neto cuja vida Lederer havia arruinado.

Todos arrastam histórias assim, por isso suas reuniões são difíceis. “Alguns de nós só recebemos carícias de uma mão contaminada pela tortura”, contou um deles na última reunião. Muitos sofrem consequências físicas de tanta tensão, adoecem. Eles têm apoio de psicólogos para que consigam contar suas histórias. Todos já passaram dos 40 anos, alguns chegam a 60, e seus pais estão morrendo. O que mais os angústia é que se aproximam do fim da vida sem contar nada, sem dizer onde estão os desaparecidos.

Porque o grande sonho de muitos destes filhos é convencer os seus pais a se arrependerem e a ajudarem a encontrar os corpos dos desaparecidos, ou os netos vivos e ainda sem recuperar. “Queremos romper o pacto de silêncio que há entre eles. Nas famílias às vezes há dados que podem reconstruir a história. Se conseguirmos reuni-los, podemos ajudar outras vítimas”, diz María Eugenia Vergera, outra integrante do grupo, que tem uma dupla condição: é sobrinha de um repressor e esposa de um desaparecido

O sonho seria que os filhos conseguissem convencer os pais. Mas eles não se iludem, e isso atualmente parece impossível. O pacto de silêncio dos repressores resistiu. Ninguém se arrependeu nem deu uma só informação sobre uma vala comum. Nem sequer perante seus filhos. Liliana Furió, filha de um conhecido repressor de Mendoza, condenado a prisão perpétua em 2013, tentou muitas vezes. Até que ele lhe gritou: “Não se fale mais nisso, se eu tivesse que voltar a colocar o capuz, voltava”. Agora ele está senil, e ela o visita em sua prisão domiciliar. Alguns têm relação com seus pais, outros não. Muitos já morreram.

“Meu pai morreu discutindo comigo”, conta Walter Docters. O pai era um repressor, e o filho passou vários anos presos por lutar contra a ditadura. Mas não o mataram justamente por seu sobrenome, porque Echecolatz, que dirigia a repressão na província de Buenos Aires, prometeu ao pai dele que o salvaria. “Era de ideologia nazista, era arquiteto e trabalhou com Echecolatz no projeto dos lugares onde mantinham os presos. Eu militava no ERP, mas ele conseguiu que não me matassem.” Também lhe pediu muitas vezes que confessasse, sem sucesso. “Ele me dizia: ‘Você tem os seus companheiros, eu tenho os meus. Eles te mantiveram com vida, cumpriram, não irei contra os rapazes.”

Foi justamente o comovedor depoimento da filha de Echecolatz, publicado na revista Anfíbia, que impulsionou muitos destes filhos a se unirem. Alguns já tinham aparecido com suas histórias no livro Hijos de los 70(“filhos dos anos setenta”), de Carolina Arenes e Astrid Pikielny, um texto tocante. Mas Mariana, que já não usa o sobrenome Echecolatz, porque o alterou, remexeu muitas coisas ao contar o horror de ser filha desse monstro, que o era também dentro de casa, como muitos deles – mas nem todos, pois alguns se comportavam como pais muito carinhosos.

Querem justiça. Exigem que seus familiares não recebam um benefício, o chamado dois por um (dois dias de pena computada a cada dia passado em prisão preventiva) que colocaria muitos na rua. Alguns têm horror à ideia de que seus pais fiquem em liberdade.

Outros, como Delgadillo, cujo pai morreu sem condenação, agem motivados pela necessidade de fazer algo que repare um dano que nem sequer conhecem plenamente. “Meu pai era delegado de polícia. Um dia encontrei um capuz entre suas coisas. Algumas vezes ele trouxe roupas, sapatos, um relógio e um microscópio de suas operações. Minha mãe sempre nos proibiu de tocar essas coisas. Queimou tudo, menos o microscópio. Era muito violento, nos batia com um cano. Minha mãe tentou se suicidar entrando num quartel à noite, para que meu velho visse como eram seus colegas, mas não atiraram nela.”

Outros conhecem em detalhes os crimes de seus pais, já os leram nas sentenças judiciais, ouviram os depoimentos das vítimas. E acham difícil viver com esse peso. Por isso se reúnem. Estão recebendo mensagens de todo o mundo, e no Chile alguns filhos de repressores querem organizar algo semelhante. Todos querem gritar o mesmo: não em meu nome.

(fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Nao-em-meu-nome-filhos-de-torturadores-argentinos-repudiam-seus-pais/6/38409)

Boletim Café Historia 20

acesse aqui: http://www.cafehistoria.com.br/newsletter/boletim-cafe-historia-edicao-20/
 
Por que acadêmicos (e estudantes) deveriam levar o uso de mídias sociais a sério
Duncan Green, professor da London School of Economics, em Londres, possui alguns bons argumentos. Confira nosso novo artigo, publicado originalmente, em inglês, no blog LSE Impact, e traduzido para o português pelos editores do Café História, Ana Paula Tavares e Bruno Leal. Confira aqui!
 


 

Instituto de Estudos Medievais anuncia novo número de revista

Periódico da Universidade Nova de Lisboa é referência em estudos medievais em Portugal. Confira!

Download gratuito de livro sobre Pierre Bourdieu

Editora libera download gratuito de livro que examina conceitos e métodos de Pierre Bourdieu.

domingo, 9 de julho de 2017

O alerta nuclear de Chomsky


Noam Chomsky confessou seu medo de que uma guerra nuclear ecloda durante o mandato do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de acordo com o que revelou em uma entrevista concedida ao jornal The New York Times publicada nesta quarta-feira. O intelectual estadunidense fez referência às advertências de um dos estrategistas nucleares mais destacados do momento, William Perry, que disse, recentemente, que estava aterrorizado com as repetidas e extremas ameaças de um conflito nuclear e a falta de preocupação com essa questão. “Perry tem razão ao estar aterrorizado. E todos deveríamos estar, sobretudo por causa da pessoa que tem o dedo sobre o botão (nuclear) e seus sócios surrealistas”, disse Chomsky, referindo-se à liderança do milionário do setor imobiliário.

A reportagem é publicada por Página/12, 06-07-2017. A tradução é de André Langer.

O intelectual estadunidense também expôs as razões pelas quais assinala que o mundo está agora mais perto de um conflito nuclear do que durante a Guerra Fria, época em que os Estados Unidos e a União Soviética protagonizaram sérias ameaças e vários momentos de alta tensão. O filósofo, de 88 anos, aponta para o programa de modernização das forças nucleares durante a Administração Barack Obama e que Trump manteve, que, afirma, representa riscos extraordinários devido ao seu potencial de destruição em massa, segundo revelou um artigo publicado em março passado pelo Boletim de Cientistas Atômicos.

De acordo com estes especialistas, esta modernização fez com que a capacidade de matança dos Estados Unidos se multiplicasse por três, o que forçaria um primeiro ataque surpresa de um dos seus rivais como única forma para desarmar e vencer as forças estadunidenses. “Significa que em um momento de crise, dos quais há muitos, os estrategistas militares russos podem concluir que, sem uma razão dissuasiva, sua única esperança de sobrevivência é um primeiro ataque, o que significaria o final de todos nós”, sentenciou. Chomsky qualificou as ações na Síria e na fronteira russa como “ameaças de confronto muito sérias que poderiam desencadear uma guerra”. Assinalou também que o conhecido como “Relógio do Apocalipse”, um relógio simbólico criado pelo Boletim de Cientistas Atômicos e que mede a proximidade da destruição da humanidade desde 1947, não esteve tão perto do limite conhecido como “meia-noite”.

“Em 1953, moveu-se para dois minutos antes da meia-noite depois que os Estados Unidos e a União Soviética detonaram duas bombas de hidrogênio. Em janeiro passado, logo depois da posse de Trump, os ponteiros se moveram para dois minutos e meio antes da meia-noite, o mais próximo que estiveram desde 1953”, explicou. Por outro lado, Chomsky opinou sobre as políticas climáticas de Trump, que, recentemente, anunciou a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris. Ele afirma que a liderança do Partido Republicano está quase exclusivamente ocupada em destruir as oportunidades de uma sobrevivência decente.

Diante destes problemas, o intelectual destacou que a ação cidadã pode provocar uma reversão em programas altamente perigosos. “Também pode pressionar Washington para que explore opções diplomáticas – que estão disponíveis –, ao invés das reações reflexas de força e extorsão em outros casos, como os da Coreia do Norte e do Irã”, disse.

Chomsky, um dos grandes intelectuais da esquerda dos Estados Unidos, já tinha considerado que Trump era o resultado de uma sociedade quebrada pelo neoliberalismo. “As pessoas se sentem isoladas, desamparadas e vítimas de forças mais poderosas que não entendem e sobre as quais não têm poder de influência”, assinalou em uma entrevista concedida ao sítio de notícias estadunidense Alternet.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/569443-o-alerta-nuclear-de-chomsky)