Narrativa de uma captura: como Donald Trump abandonou as
promessas de acabar com as guerras inúteis dos EUA — e adotou uma
postura ainda mais agressiva que seus antecessores
Por Serge Halimi, no Le Monde Diplomatique francês | Tradução: Inês Castilho
Bastaram alguns meses para que os Estados Unidos se retirassem do
acordo internacional de Paris sobre as mudanças climáticas, adotassem
novas sanções econômicas contra a Rússia, invertessema dinâmica de
normalização das relações diplomáticas com Cuba, anunciassem sua
intenção de denunciar o acordo nuclear com o Irã, dirigissem uma
advertência ao Paquistão, ameaçassem a Venezuela com uma intervenção
militar e se declarassem preparados para atacar a Coreia do Norte “com
um fogo e uma ira que jamais se viram antes neste mundo”. Desde que a
Casa Branca mudou de inquilino em 20 de junho passado, Washington
somente melhorou suas relações com as Filipinas, o Egito, a Arábia
Saudita e Israel.
A responsabilidade de Donald Trump nessa escalada não é exclusiva. Os
neoconservadores eleitos por seu partido, os democratas e os meios de
comunicação o ovacionaram quando, durante o outono passado, ordenou a
realização de manobras militares na Ásia e mandou lançar 59 mísseis
contra uma base aérea na Síria (1). Pelo contrário, ele foi impedido de
atuar quando explorou as possibilidades de uma aproximação com Moscou – e
inclusive viu-se obrigado a promulgar um novo pacote de sanções
estadonudenses contra a Russia. Definitivamente, o ponto de equilíbrio
da política externa dos Estados Unidos resulta cada dia mais da soma das
fobias republicanas (Irã, Cuba, Venezuela), amiúde compartilhadas pela
maioria dos democratas, e das aversões democratas (Rússia, Síria),
referendadas pela maioria dos republicanos. Se existe um partido de paz
em Washington, não é detectável por enquanto.
Contudo, o debate presidencial do ano passado sugeria que o
eleitorado estadunidense pretendia romper com a tendência imperial dos
Estados Unidos (2). Em primeiro lugar, Trump não fez campanha sobre
temas de política externa. Mas quando abordou esses assuntos, foi para
sugerir uma linha de conduta em grande medida oposta à do establishment
de Washington (militares, especialistas, think tanks, revistas
especializadas) e à que segue atualmente. Ao prometer subordinar as
considerações geopolíticas aos interesses econômicos dos Estados Unidos,
dirigia-se ao mesmo tempo aos partidários de um nacionalismo econômico
(“America First”), numerosos nos estados industrialmente devastados, e
aos que se convenceram dos méritos do realismo, depois de quinze anos
(3) ininterruptos de guerra, com a deterioração progressiva da situação
ou o caos generalizado (no Afeganistão, Iraque e Líbia). “Nossa situação
estaria melhor se não estivéssemos nos ocupando do Oriente Médio há
quinze anos” , concluía Trump em abril de 2016, convencido de que a
“arrogância” dos Estados Unidos havia provocado “um desastre atrás do
outro” e “custado a vida de milhares de cidadãos estadunidenses e
bilhões de dólares”.
Esse diagnóstico, inesperado por parte de um candidato republicano,
coindicia com o sentimento da fração mais progressista do Partido
Democrata. Peggy Noonan, que escreveu os discursos mais destacados de
Ronald Reagan e de seu sucessor imediato, Georges H. Bush, ressaltava
então: “Em matéria de política exterior, [Trump] posicionou-se à
esquerda de Hillary Clinton. Ela é belicista, deseja com demasiado
afinco utilizar a força armada e lhe falta discernimento. Será a
primeira vez na história moderna que um candidato republicano às
eleições presidenciais se posicionará à esquerda de sua rival democrata,
o que fará com que a situação se torne interessante”. (4)
Interessante, a situação ainda é — mas não exatamente como previu
Noonan. Enquanto “a esquerda” postula que a paz deriva não da
intimidação das demais nações, mas de relações mas equitativas entre
elas, Trump, totalmente indiferente ao sentimento da opinião pública
mundial, opera como um embaixador em busca do melhor “negócio” (“deal”)
para ele e seus eleitores. Assim, o problema das alianças militares não é
tanto, de seu ponto de vista, que ameacem ampliar confitos, em vez de
dissuadir as agressões, mas que custem muito dinheiro aos
estadunidenses. E que, forçados a pagar a conta, estes vejam como seu
país se converte em “uma nação do Terceiro Mundo”. “A OTAN (Organização
do Tratado do Atlântico Norte) está obsoleta – repetia Trump em 2 de
abril de 2016, durante um comício. Defendemos o Japão, a Alemanha, e só
nos pagam uma fração do que nos custa. A Arábia Saudita cairia se
saíssemos de lá. É preciso mostrar-se disposto a abandonar a mesa; se
não, nunca se obterá um bom acordo”.
O presidente dos Estados Unidos esperava alcançar esse “bom acordo”
com Moscou. Uma nova postura teria revertido a deterioração das relações
entre as duas potências, favorecendo uma aliança contra o Estado
Islâmico (ISIS) e reconhecendo a importância da Ucrânia para a segurança
russa. A atual paranoia estadunidense relativa a tudo o que se
relacione com o Kremlin leva a esquecer que em 2016, depois da anexação
da Crimeia e a intervenção direta de Moscou na Síria, Barack Obama
também relativizava o perigo representado pela Rússia. Segundo Obama, as
intervenções russas na Ucrânia e no Oriente Médio eram apenas
improvisações, “sinais de debilidade de Estados-clientes a ponto de
escapar dele”. (5)
Ele acrescentava: “O russos não podem nos mudar ou enfraquecer de
maneira significativa. É um país pequeno, um país fraco, e sua economia
não produz nada que outros queiram comprar além de petróleo, gás e
armas”. O que então temia de seu homólogo russo era sobreturdo… a
simpatia que inspirava em Trump e seus partidários: “37% dos eleitores
republicanos aprovam Vladimir Putin, o ex-chefe da KGB. Ronald Reagan
deve estar se revolvendo na tumba!”. (6)
Desde janeiro de 2017, o sono eterno de Reagan recuperou sua
tranquilidade. “Os presidentes chegam e se vão, mas a política não
muda”, concluía Putin (7). Algum dia, os historiadores estudarão essas
semanas durante as quais convergiram os esforços dos serviços de
inteligência norte-americanos, dos dirigentes do setor favorável a
Hillary, no Partido Democrata, da maioria dos representantes eleitos
republicanos e dos meios de comunicação hostis a Trump. Seu projeto
comum? Impedir qualquer aliança entre Moscou e Washington.
Os motivos de cada um eram diferentes. Os serviços de inteligência e
alguns elementos do Pentágono temiam que uma aproximação entre Trump e
Putin os privasse de um inimigo apresentável, uma vez destruído o poder
militar do ISIS. Os dirigentes democratas favoráveis a Hillary estavam
impacientes para transferir sua inesperada derrota a outros : o
“hackeamento” dos dados do Partido Democrata, imputado a Moscou, servia.
Os neoconservadores “que haviam promovido a guerra do Iraque, que
detestavam Putin e que consideravam que a segurança de Israel não era
negociável” (8) escandalizaram-se diante das tentações
neo-isolacionistas de Trump.
Finalmente, os meios de comunicação, em particular o New York Times e o Washington Post, sonhavam
com um novo “caso Watergate”. Não ignoravam que seus leitores –
burgueses, urbanos, com formação – detestavam apaixonadamente o
presidente eleito, desprezavam sua vulgaridade, seus tropismos de
extrema direita, sua violência, sua incultura (9). E, como consequência,
buscariam qualquer informação ou rumor que pudesse provocar sua
destituição ou sua demissão forçada. Um pouco como em Assassinado do Expresso Oriente, o romance de Agatha Christie, cada um tinha, definitivamente, suas razões para golpear o mesmo alvo.
[…]
Pouco mais de uma semana antes que Trump assumisse suas funções, o
jornalista e advogado Glenn Greenwald – a quem devemos a publicação das
revelações de Edward Snowden sobre os programas de vigilância massiva da
Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) – alertava
sobre o transcurso dos acontecimentos. Observava que os meios de
comunicação norte-americanos haviam se tornado “a ferramenta mais
valiosa” dos serviços de Inteligência. Ao mesmo tempo,
parecia-lhe que os democratas, “ainda chocados por um fracasso eleitoral
tão inesperado como traumatizante”, “haviam perdido a razão e aderiam a
qualquer avaliação, elogiavam qualquer tática, aliavam-se a qualquer
canalha ” (10).
[…]
Compreende-se por que o “hackeamento” dos dados do Partido Democrata,
atribuído pelos serviços de inteligência norte-americanos à Rússia,
enfeitiça o Partido Democrata e a imprensa. Dois pássaros num só tiro:
ele permite deslegitimar a eleição de Trump e o impede de promover
qualquer tipo de aproximação com Moscou. Mas não é extravagante que os
EUA ofendam-se diante da ingerência de uma potência estrangeira nos
assuntos internos de outro Estado?
E quem se lembra de que não foi o Kremlin quem espionou as conversas
telefônicas de Angela Merkel, mas sim a Casa Branca de Obama? Quando o
ex-diretor da CIA James Clapper formulou algumas perguntas a um
representante – republicano – da Carolina do Norte, Thom Tillis, em
janeiro, este rompeu tal silencio. Recordou que os Estados Unidos
“haviam se envolvido em 81 eleições diferentes, desde a Segunda Guerra
Mundial”. E prosseguiu: “Isso não inclui os golpes de Estado nem as
‘mudanças de regime’, através das quais temos pretendido mudar a
situação a nosso favor. Já a Rússia atuou da mesma maneira em 36
ocasiões”. Melhor não esperar que um ponto de vista semelhante atenue os
ataques do The New York Times contra as desonestidades de Moscou.
[…]
Hoje, o diário novaiorquino está na vanguarda da preparação
psicológica da população para um conflito contra a Rússia. Contra
dinâmica semelhante apenas a resistência se impõe. À direita, o
vice-presidente Mike Pence mencionava na Estônia o “espectro da
agressão” russa e, mais tarde, animava a Geórgia a unir-se à OTAN, para
finalmente louvar Montenegro, que acaba de somar-se à aliança militar.
Longe de preocupar-se com essa avalanche de gestos provocadores, que
provocam um aumento da tensão entre as duas grandes potências (sanções
comerciais contra Moscou, expulsão de diplomatas estadunidenses por
parte da Rússia), o New York Times brinca com fogo. Gabava-se,
em 2 de agosto, da “reafirmação do compromisso norte-americano de
defender as nações democráticas contra os países que as ameaçariam”. Em
seguida lamentava que o sentimento de Pence “não fosse experimentado e
comemorado igualmente pelo homem para o qual trabalhava na Casa Branca”.
Mas a essa altura pouco importa, dizendo a verdade, o que Trump
continue sentindo. O presidente dos Estados Unidos já não está em
condições de imprimir sua vontade nesse assunto.
Em setembro, manobras militares russas sem precedentes desde a queda
do muro de Berlim deviam mobilizar cerca de 100 mil soldados, marines e
aviadores nas imediações da Ucrânia e dos países bálticos. Isso
ofereceeu material ao New York Times para um artigo de capa que
lembra a campanha de pânico que o jornal alimentou em 2002-2003 contra
as supostas “armas de destruição em massa” do Iraque. Não faltava nem o
coronel estadunidense que anunciava de modo sombrio: “A cada manhã,
quando nos despertamos, sabemos quem é a ameaça”, nem o inventário do
arsenal russo, nem a menção de veículos de combate da OTAN que, entre
Alemanha e Bulgária, “detêm-se para deixar que as crianças subam a
bordo”… Mas o mais delicioso neste modelo de jornalismo (no mesmo barco
que o Exército) foi seguramente o momento em que, para localizar os
exercícios de Moscou na Rússia e Bielorrússia, o New York Times recorreu à expressão “na periferia da OTAN” (11)…
De agora em diante, qualquer tentativa de apaziguamento com Moscou
que venha de Paris ou de Berlim será julgado como “favorável aos Acordos
de Munique”, por um establishment neoconservador que retomou o
controle em Washington; e criticado rapidamente pela quase totalidade
dos meios de comunicação norte-americanos.
Saberão os Estados europeus deter a engrenagem militar que se
desenha? Têm vontade de fazê-lo? A crise coreana deveria recordar-lhes
que Washington mostra-se indiferente ante os pratos quebrados longe de
seu território. O senador republicano Lindsey Graham, preocupado em
conferir credibilidade à ameaça nuclear do presidente Trump no Extremo
Oriente , deixou escapar em 1º de agosto que “se milhares de pessoas
morrem, morrerão lá, não aqui”. Acrescentou que o presidente dos
Estados Unidos compartilhava de seu sentimento: ”Ele me disse”.
—
Referências
(1) Ver Michael Klare, “La transformación de Donald Trump en jefe guerrero”, Le Monde diplomatique em espanhol, maio de 2017.
(2) Ver Benoît Bréville, “Estados Unidos está cansado del mundo”, Le Monde diplomatique em espanhol, maio de 2016.
(3) “Today”, NBC, 21 de abril de 2016.
(4) Peggy Noonan, “Simple patriotism trumps ideology”, The Wall Street Journal, Nova York, 28 de abril de 2016.
(5) “The Obama Doctrine”, entrevista com Jeffrey Goldberg, The Atlantic, Boston, abril de 2016.
(6) Coletiva de imprensa de 16 de dezembro de 2016.
(7) Le Figaro, París, 31 de mayo de 2017.
(8) Michael Crowley, “GOP hawks declare war on Trump”, Politico, Arlington, 2 de março de 2016.
(9) Ver “El desconcierto de la ‘intelligentsia’ estadounidense”, Le Monde diplomatique em espanhol, dezembro de 2016.
(10) Fox News, 12 de janeiro de 2017. No dia anterior, Greenwald
havia detalhado suas declarações em “The deep state goes to war with
president-elect, using unverified claims, as Democrats cheer”, The Intercept, 11 de janeiro de 2017.
(11) Eric Schmitt, “US troops train in Eastern Europe to echoes of the cold war”, The New York Times, 6 de agosto de 2017.
(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/partido-da-guerra-controlou-a-casa-branca/)
sábado, 30 de setembro de 2017
domingo, 24 de setembro de 2017
Nível de gelo no Ártico em 2017 é a oitavo menor da história; Há 16 anos a região não atinge nível acima da média
O mês de setembro é a época em que o Ártico atinge sua extensão mínima anual de gelo. Os resultados de 2017, que acabam de ser divulgados e estão bem abaixo da média histórica, são uma oportuna lembrança de que devemos trabalhar com ainda mais empenho para alcançar o objetivo de 1,5º C estabelecido por quase 200 países no Acordo de Paris. Os números do Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo dos EUA (NSIDC) mostram que o gelo marinho atingiu um mínimo de 4,64 milhões de quilômetros quadrados em 13 de setembro, 1,58 milhões de km2 abaixo da média. Há 16 anos, o Ártico não registra uma extensão de gelo acima da média de setembro. A marca é a oitava menor da história.
A reportagem foi publicada por WWF Brasil, 20-09-2017.
Em nenhum lugar, os efeitos de um clima de aquecimento vêm sendo sentidos de forma mais rápida e mais profunda do que no Ártico. Mesmo que o mundo atenda aos termos do Acordo de Paris, o Ártico ainda deverá aquecer 3° a 5°C a mais, afetando a rica biodiversidade da região e a vida daqueles que dependem disso.
O aquecimento adicional é em grande parte devido a um retorno de resultados. À medida que o aquecimento da água e do ar derretem o gelo do Ártico, o oceano recém-descoberto absorve ainda mais energia solar. O oceano exposto também significa mais transporte marítimo no Ártico, acompanhado de emissões de carbono negro que se instalam no gelo e absorvem ainda mais calor – uma reação desenfreada que está derretendo o Ártico como o conhecemos.
O líder do programa Ártico do WWF, Alexander Shestakov, relembrou as declarações feitas em agosto pelo presidente da Finlândia, Sauli Niinistö, de que se perdermos o Ártico, perdemos o globo: “Isto é a realidade. As emissões, tanto de gases de efeito estufa quanto de carbono negro do aumento do transporte marítimo do Ártico, estão criando uma verdadeira tempestade no Ártico. Exortamos os estados do Ártico e outros a priorizarem a redução das emissões de carbono negro e a cooperarem ainda mais na consecução dos objetivos de Paris”.
Para o líder global da prática climática e energética do WWF, Manuel Pulgar-Vidal, “a tendência contínua de perda de gelo do mar no Ártico mostra que a comunidade global tem muito trabalho a fazer para atingir o objetivo de 1,5° C. É fundamental que possamos trabalhar juntos de forma imediata em soluções já disponíveis para ajudar a reduzir as emissões de dióxido de carbono, expandindo a implantação de energia renovável, no Ártico e em todo o mundo”.
Sobre o Acordo de Paris
O Acordo de Paris, aprovado em dezembro de 2015, compromete quase 200 países a empreenderem todos os esforços para limitar o aumento da temperatura global a 1,5° C e, assim, evitar alguns dos piores impactos de um planeta aquecido.O ano de 2016 foi o mais quente registrado. No ano passado, a temperatura média global anual subiu para um recorde de 1° C acima dos níveis pré-industriais. Mesmo que possamos parar as emissões hoje sem prejudicar a economia global, as temperaturas continuarão aumentando em alguns décimos de grau nas próximas décadas.
Limitar o aquecimento a um aumento médio de 1,5º C resultaria em uma redução do aumento do nível do mar, ondas de calor tropicais mais curtas e potencialmente menos eventos climáticos extremos, como as devastadoras chuvas e inundações que afetaram recentemente a Índia, Estados Unidos, Bangladesh e Nepal.
Sobre o mínimo de gelo do mar
O gelo do mar do Ártico geralmente atinge sua menor extensão anual em setembro.A extensão mínima em 2017 é a 8ª mais baixa registrada desde que o monitoramento por satélite começou em 1979.
Após uma série de ondas de calor do Ártico no outono passado, o NSIDC relatou a maior extensão de gelo do mar já registrada em março.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571947-nivel-de-gelo-no-artico-em-2017-e-a-oitavo-menor-da-historia-ha-16-anos-a-regiao-nao-atinge-nivel-acima-da-media)
O futuro do Brasil está na abundância de fontes renováveis e não nos combustíveis fósseis
Com abundância de fontes renováveis no país, governo brasileiro insiste em investir em energias do passado, ofertando blocos para exploração de petróleo e gás, que financiam a crise climática, fomentam a corrupção e enfraquecem as economias mundo afora.
A reportagem é de Nathália Clark e Silvia Calciolari, publicada por EcoDebate, 21-09-2017.
Fato já constatado até por especialistas do setor, a era do “ouro negro” está definitivamente ficando no passado. O mundo tem experimentado um processo de renovação energética sem precedentes, onde as energias renováveis estão desempenhando um papel crucial e essencial, já que as reservas fósseis estão se esgotando. Ambientalmente sustentáveis, socialmente justas e economicamente viáveis, fontes como solar, eólica e de biomassa têm se tornado cada vez mais baratas e populares. Com o planeta em alerta vermelho por conta de eventos cada vez mais severos causados pelas mudanças climáticas, projetos ligados a combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás se tornaram investimentos de alto risco.
Por serem os principais emissores dos gases que causam o efeito estufa, os combustíveis fósseis estão diretamente relacionados ao financiamento da crise climática global. A fim de evitar essa associação e cumprir com o compromisso assumido em Paris em 2015, países no mundo todo têm investido seriamente na transição de suas matrizes energéticas. Ainda assim, governos como o do Brasil, cuja abundância em recursos naturais encontra poucos paralelos, contraditoriamente insistem em priorizar fontes fósseis em detrimento das renováveis. No próximo dia 27, a Agência Nacional do Petróleo e Gás (ANP) vai contra os apelos globais por um novo modelo de desenvolvimento econômico-energético e intensifica a agenda de leilões de blocos para exploração de petróleo e gás no país.
“A cada dia, as pessoas estão cada vez mais ligando os pontos entre empresas que investem em fósseis e o caos climático e as injustiças socioambientais . Mas não é só isso. Essa indústria também está associada a casos de corrupção junto aos governos nacionais em vários países”, alerta Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina e coordenadora nacional da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida.
“No Brasil, a Operação Lava Jato revelou os esquemas de propina mostrando que essas empresas fazem de tudo para controlar o mercado no qual pretendem investir, agindo sem transparência e com truculência. Chega de fertilizar o subsolo brasileiro com corrupção”, enfatiza Nicole.
A 14ª Rodada de Licitações irá ofertar 287 blocos em 11 bacias sedimentares marítimas e terrestres. Das 36 empresas que foram aprovadas para participar do certame, mais 60% são estrangeiras e pelo menos cinco delas estão envolvidas em casos de corrupção. Empresas como a Shell e ExxonMobil, por exemplo, compartilham casos de esquemas ilícitos envolvendo o governo nigeriano. A esta última ainda se soma o histórico agravante de ter omitido conhecimento sobre as mudanças climáticas há mais de meio século. Já a empresa Petronas, da Malásia, teve um de seus executivos preso por suspeita de superfaturar uma operação de exploração de petróleo. A Rosneft, empresa de petróleo comandada pelo governo russo, está sob investigação em um caso que levou o ministro do desenvolvimento econômico a ser preso. Outras empresas, como a indiana Cairn Energy, são acusadas de espionagem por obter informações privilegiadas do governo sobre negociações com empresas estrangeiras interessadas em investir na Índia.
Casos recentes, como os esquemas de propina da Petrobras e da Queiroz Galvão, no Brasil, demonstram como a corrupção da indústria fóssil está em várias parte do mundo. São empresas dispostas a tudo para conseguir controlar o mercado, em aliança com governos corruptos que agem sem qualquer transparência, consulta e diálogo para com as suas populações, e menos ainda com as comunidades diretamente impactadas por esses empreendimentos.
Para o engenheiro Juliano Bueno de Araújo, coordenador de campanhas climáticas da 350.org e fundador da COESUS, “a ANP age de forma irresponsável, sorrateira e criminosa ao não explicitar no edital da 14ª Rodada a autorização para gás não convencional, colocando em risco a vida, a segurança alimentar e hídrica de milhões de brasileiros. Dessa forma eles estão enganando o povo brasileiro, e isso nós não vamos aceitar.”
“O Rio de Janeiro é o exemplo cabal de falência de uma indústria que está com os dias contatos em todo o mundo, aliada à corrupção e reprodutora de um modelo ultrapassado de geração de energia. Isso sem falar que a cidade está vulnerável aos impactos das mudanças climáticas, como aumento do nível do mar, deslizamentos, doenças epidêmicas, entre outras ocorrências que atingem toda a população“, atesta Juliano. Em oposição a essa realidade, um novo horizonte se amplia com o crescimento exponencial das energias limpas. Hoje, o setor de renováveis emprega mais de oito milhões de pessoas, sendo a China a campeã, com 3,5 milhões de empregos, e o Brasil vem em segundo lugar, com quase um milhão de trabalhadores no ramo.
Com grande potencial, o Brasil deve estimular e atrair investimentos para a produção de equipamentos para a geração de energias renováveis – solar, eólica e de biomassa. “Já há estudos que comprovam que a indústria de baixo carbono gera 18 vezes mais empregos que a fóssil e, depois de instalada, proporciona a geração de energia 40% mais barata”, completa o engenheiro.
“Neste momento, o mundo passa por um difícil teste de eventos climáticos catastróficos. As pessoas precisam saber que o presente e o futuro do planeta dependem de uma única decisão: deixar os fósseis no chão de uma vez e olhar para o céu priorizando a energia livre, responsável, com justiça ambiental e climática”, finaliza Juliano.
Fonte: COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida e 350.org Brasil e América Latina
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571923-o-futuro-do-brasil-esta-na-abundancia-de-fontes-renovaveis-e-nao-nos-combustiveis-fosseis)
A reportagem é de Nathália Clark e Silvia Calciolari, publicada por EcoDebate, 21-09-2017.
Fato já constatado até por especialistas do setor, a era do “ouro negro” está definitivamente ficando no passado. O mundo tem experimentado um processo de renovação energética sem precedentes, onde as energias renováveis estão desempenhando um papel crucial e essencial, já que as reservas fósseis estão se esgotando. Ambientalmente sustentáveis, socialmente justas e economicamente viáveis, fontes como solar, eólica e de biomassa têm se tornado cada vez mais baratas e populares. Com o planeta em alerta vermelho por conta de eventos cada vez mais severos causados pelas mudanças climáticas, projetos ligados a combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás se tornaram investimentos de alto risco.
Por serem os principais emissores dos gases que causam o efeito estufa, os combustíveis fósseis estão diretamente relacionados ao financiamento da crise climática global. A fim de evitar essa associação e cumprir com o compromisso assumido em Paris em 2015, países no mundo todo têm investido seriamente na transição de suas matrizes energéticas. Ainda assim, governos como o do Brasil, cuja abundância em recursos naturais encontra poucos paralelos, contraditoriamente insistem em priorizar fontes fósseis em detrimento das renováveis. No próximo dia 27, a Agência Nacional do Petróleo e Gás (ANP) vai contra os apelos globais por um novo modelo de desenvolvimento econômico-energético e intensifica a agenda de leilões de blocos para exploração de petróleo e gás no país.
“A cada dia, as pessoas estão cada vez mais ligando os pontos entre empresas que investem em fósseis e o caos climático e as injustiças socioambientais . Mas não é só isso. Essa indústria também está associada a casos de corrupção junto aos governos nacionais em vários países”, alerta Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina e coordenadora nacional da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida.
“No Brasil, a Operação Lava Jato revelou os esquemas de propina mostrando que essas empresas fazem de tudo para controlar o mercado no qual pretendem investir, agindo sem transparência e com truculência. Chega de fertilizar o subsolo brasileiro com corrupção”, enfatiza Nicole.
Corrupção e caos climático
A 14ª Rodada de Licitações irá ofertar 287 blocos em 11 bacias sedimentares marítimas e terrestres. Das 36 empresas que foram aprovadas para participar do certame, mais 60% são estrangeiras e pelo menos cinco delas estão envolvidas em casos de corrupção. Empresas como a Shell e ExxonMobil, por exemplo, compartilham casos de esquemas ilícitos envolvendo o governo nigeriano. A esta última ainda se soma o histórico agravante de ter omitido conhecimento sobre as mudanças climáticas há mais de meio século. Já a empresa Petronas, da Malásia, teve um de seus executivos preso por suspeita de superfaturar uma operação de exploração de petróleo. A Rosneft, empresa de petróleo comandada pelo governo russo, está sob investigação em um caso que levou o ministro do desenvolvimento econômico a ser preso. Outras empresas, como a indiana Cairn Energy, são acusadas de espionagem por obter informações privilegiadas do governo sobre negociações com empresas estrangeiras interessadas em investir na Índia.
Casos recentes, como os esquemas de propina da Petrobras e da Queiroz Galvão, no Brasil, demonstram como a corrupção da indústria fóssil está em várias parte do mundo. São empresas dispostas a tudo para conseguir controlar o mercado, em aliança com governos corruptos que agem sem qualquer transparência, consulta e diálogo para com as suas populações, e menos ainda com as comunidades diretamente impactadas por esses empreendimentos.
Para o engenheiro Juliano Bueno de Araújo, coordenador de campanhas climáticas da 350.org e fundador da COESUS, “a ANP age de forma irresponsável, sorrateira e criminosa ao não explicitar no edital da 14ª Rodada a autorização para gás não convencional, colocando em risco a vida, a segurança alimentar e hídrica de milhões de brasileiros. Dessa forma eles estão enganando o povo brasileiro, e isso nós não vamos aceitar.”
Energias responsáveis
Além da falta de transparência, a indústria fóssil também usa e abusa da falsa e ilusória promessa de progresso e desenvolvimento, com geração de renda e empregos, para limpar a sua imagem junto à sociedade. Mas o Rio de Janeiro, sede do leilão e o maior produtor de petróleo e gás do país, é uma prova viva do contrário. Vivenciando uma das mais graves crises econômicas de sua História recente, o estado que mais depende do dinheiro sujo dos fósseis amarga as piores taxas de crescimento econômico do Brasil.“O Rio de Janeiro é o exemplo cabal de falência de uma indústria que está com os dias contatos em todo o mundo, aliada à corrupção e reprodutora de um modelo ultrapassado de geração de energia. Isso sem falar que a cidade está vulnerável aos impactos das mudanças climáticas, como aumento do nível do mar, deslizamentos, doenças epidêmicas, entre outras ocorrências que atingem toda a população“, atesta Juliano. Em oposição a essa realidade, um novo horizonte se amplia com o crescimento exponencial das energias limpas. Hoje, o setor de renováveis emprega mais de oito milhões de pessoas, sendo a China a campeã, com 3,5 milhões de empregos, e o Brasil vem em segundo lugar, com quase um milhão de trabalhadores no ramo.
Com grande potencial, o Brasil deve estimular e atrair investimentos para a produção de equipamentos para a geração de energias renováveis – solar, eólica e de biomassa. “Já há estudos que comprovam que a indústria de baixo carbono gera 18 vezes mais empregos que a fóssil e, depois de instalada, proporciona a geração de energia 40% mais barata”, completa o engenheiro.
“Neste momento, o mundo passa por um difícil teste de eventos climáticos catastróficos. As pessoas precisam saber que o presente e o futuro do planeta dependem de uma única decisão: deixar os fósseis no chão de uma vez e olhar para o céu priorizando a energia livre, responsável, com justiça ambiental e climática”, finaliza Juliano.
Fonte: COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida e 350.org Brasil e América Latina
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571923-o-futuro-do-brasil-esta-na-abundancia-de-fontes-renovaveis-e-nao-nos-combustiveis-fosseis)
sábado, 23 de setembro de 2017
Escravidão atinge 40 milhões de pessoas no mundo, diz ONU
Ao menos 40 milhões de pessoas no mundo ainda são vítimas da
escravidão, enquanto outras 152 milhões de crianças são obrigadas a
trabalhar. Dados divulgados nesta terça-feira, 19, pela Organização das
Nações Unidas (ONU) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) revelam que a escravidão moderna é ainda uma realidade.
A reportagem é de Jamil Chade, publicada por O Estado de S. Paulo, 19-09-2017.
O levantamento aponta que mulheres e meninas são desproporcionalmente afetadas. Elas representam 71% das pessoas em situação de escravidão, quase 29 milhões.
Pelo menos 16 milhões de pessoas trabalham em condições de escravidão como empregadas domésticas, na construção civil ou na agricultura. Na indústria do sexo, são 5 milhões de vítimas pelo mundo. Outras 4 milhões de pessoas são obrigadas a trabalhar pelas próprias autoridades.
No caso das Américas, quase 2 milhões de pessoas ainda seriam vítimas da escravidão moderna, segundo o levantamento. São 24 milhões na Ásia e 9 milhões na África.
O que também chama a atenção das autoridades é que uma a cada quatro vítimas da escravidão é menor de idade, cerca de 10 milhões de crianças. Dessas, 5,7 milhões ainda são obrigadas a se casar. No que se refere ao trabalho infantil, o principal empregador é a agricultura, onde estão 70% dos menores. No setor de serviços, estão 17% das vítimas.
O epicentro do problema do trabalho infantil continua sendo a África, com 72,1 milhões de pessoas. Na Ásia, são 62 milhões, contra 10,7 milhões nas Américas.
Para Guy Ryder, diretor-geral da OIT, o mundo não atingirá suas metas de desenvolvimento sustentável enquanto não aumentar de forma dramática os esforços para lutar contra essa realidade. "O fato de que, como sociedade, ainda temos 40 milhões de pessoas na escravidão moderna é uma vergonha para todos", alertou Andrew Forrest, presidente da fundação Walk Free. "Isso precisa acabar", apelou.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571834-escravidao-atinge-40-milhoes-de-pessoas-no-mundo-diz-onu)
A reportagem é de Jamil Chade, publicada por O Estado de S. Paulo, 19-09-2017.
O levantamento aponta que mulheres e meninas são desproporcionalmente afetadas. Elas representam 71% das pessoas em situação de escravidão, quase 29 milhões.
Pelo menos 16 milhões de pessoas trabalham em condições de escravidão como empregadas domésticas, na construção civil ou na agricultura. Na indústria do sexo, são 5 milhões de vítimas pelo mundo. Outras 4 milhões de pessoas são obrigadas a trabalhar pelas próprias autoridades.
No caso das Américas, quase 2 milhões de pessoas ainda seriam vítimas da escravidão moderna, segundo o levantamento. São 24 milhões na Ásia e 9 milhões na África.
O que também chama a atenção das autoridades é que uma a cada quatro vítimas da escravidão é menor de idade, cerca de 10 milhões de crianças. Dessas, 5,7 milhões ainda são obrigadas a se casar. No que se refere ao trabalho infantil, o principal empregador é a agricultura, onde estão 70% dos menores. No setor de serviços, estão 17% das vítimas.
O epicentro do problema do trabalho infantil continua sendo a África, com 72,1 milhões de pessoas. Na Ásia, são 62 milhões, contra 10,7 milhões nas Américas.
Forçado
Outro fator considerado pela ONU é o número de casamentos forçados, um indicador que também apontaria para uma situação de dependência total. No ano passado, 15,4 milhões de pessoas estariam nessa situação. Nos últimos cinco anos, ocorreram 6,5 milhões desses casamentos.Para Guy Ryder, diretor-geral da OIT, o mundo não atingirá suas metas de desenvolvimento sustentável enquanto não aumentar de forma dramática os esforços para lutar contra essa realidade. "O fato de que, como sociedade, ainda temos 40 milhões de pessoas na escravidão moderna é uma vergonha para todos", alertou Andrew Forrest, presidente da fundação Walk Free. "Isso precisa acabar", apelou.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571834-escravidao-atinge-40-milhoes-de-pessoas-no-mundo-diz-onu)
Globalização, guerras, exploração da criação: pela primeira vez em 10 anos o número de indigentes do planeta mostra um preocupante aumento
A reportagem é de Damiano Serpi, publicada por Il sismografo, 16-09-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.
Segundo as conclusões do relatório “The State of Food Security and Nutrition in the World 2017” elaborado pelas agências das Nações Unidas, FAO, FIDA e PAM, durante o ano de 2016 um adicional de 38 milhões de pessoas encontraram sérias dificuldades na obtenção de alimento suficiente, em comparação com o ano anterior. Em termos percentuais, aproximadamente 11% da população mundial, ou seja, uma vez e meio toda a Europa e duas vezes toda a América do Norte, agora vive em condições de indigências, a ponto de não dispor nem mesmo de itens de primeira necessidade, tais como pão ou água.
As explicações para essa mudança de rumo nos números globais de quem está em condições de penúria, devem ser procuradas principalmente na proliferação dos conflitos armados em algumas áreas geográficas do mundo e nas súbitas mudanças de clima. Mudanças climáticas, em grande parte devidas ao aumento da temperatura média do planeta, que estão provocando choques contínuos, com chuvas torrenciais, secas improvisas e prolongadas, tempestades e inundações. Esses eventos climáticos que têm violento impacto nas economias locais estão causando fome, êxodos e migrações em massa.
Esses últimos dados, embora importantes por si só porque nos dão o quadro de uma alteração negativa da condição geral do homem no planeta, também nos contam algo a mais. A teoria, apregoada até o exagero ao longo das últimas três décadas, de que, apesar de eventuais desvios ou anomalias, o saldo da globalização da economia e dos mercados seria de qualquer forma positivo, porque o sistema sempre geraria uma diminuição constante do número de pessoas aflitas pela fome e carência de itens primários, não é mais tão indefectível como nos levaram a crer.
Até recentemente, na verdade, qualquer tentativa de explicar ao mundo econômico e político que a globalização não pode ser desvinculada de uma ideia de equidade e justiça em defesa do valor "homem" foi rechaçada pelos seus defensores mais intransigentes precisamente com justificativas baseadas em estatísticas numéricas mundiais, que evidenciavam uma constante diminuição das pessoas em condições de extrema pobreza.
No longínquo 2002, até mesmo São João Paulo II tentou sacudir as consciências do mundo falando de uma globalização por si só neutra e, portanto, possível de ser moldada de acordo com as necessidades reais do homem e dos seus valores inalienáveis. Mas ninguém, então, entendeu a abrangência de suas palavras, e nos limitamos a defender que justamente a globalização traria uma melhoria geral da vida dos homens em todo o planeta.
Até sexta-feira, dizia-se que a globalização desenfreada e sem qualquer tipo de correção teria sempre permitido a um maior número de pessoas sair do estado de indigência e, portanto, dispor das ferramentas necessárias para garantir para si, pelo menos, os itens básicos necessários para a vida. Por um longo tempo foi praticamente assim, pelo menos na lógica impessoal e fria dos números. Ninguém poderia opor-se a essa convicção, considerando que hoje a sociedade raciocina apenas com base nos percentuais e estes pareciam estar do lado dos defensores dessa ideia universal da globalização sem freios ou limites.
Para todos nós, mesmo em face das incongruências de um sistema que tornava ainda mais evidente a diferença entre aqueles que são muito ricos e quem é cada vez mais pobre, inclusive era propalada a ideia de que a globalização fosse, afinal, o único verdadeiro antídoto para o problema da fome no mundo. Ou seja, precisávamos nos contentar com um sistema claramente desequilibrado e que criava um monte de "desperdícios", mas que ainda assim tinha entre seus méritos o de ser capaz, de alguma forma, de reduzir constantemente o número dos chamados "muito pobres". Talvez aquele resultado fosse limitado e representasse apenas uma migalha, mas, alegava-se, era melhor pouco do que nada.
Agora o sonho de uma globalização benéfica, apesar de todo o desperdício que carregava consigo, parece desvanecer como neve ao sol. Os dados que nos foram fornecidos na sexta-feira indicam que está ocorrendo uma inversão de tendência e que as causas não podem ser negligenciadas ou silenciadas. De fato, ou a globalização, como a vivenciamos até agora, terminou o seu ciclo perfeito, ou estamos começando a pagar a conta por não querer colocar regras para um sistema que se baseou por mais de 20 anos apenas no lucro e na livre circulação dos capitais. Provavelmente a mais verdadeira das duas teorias seja a segunda.
Por tempo demais, permitimos qualquer coisa em nome de uma agressiva globalização que devia tornar a todos nós mais ricos e desenvolvidos. Em nome dessa desenfreada corrida para uma produção ao menor custo, ao máximo lucro, às compras na internet, á facilidade de movimentação dos capitais, bens e pessoas, culpada ou egoisticamente permitimos que, muitas vezes, se iniciassem ferozes conflitos armados regionais e, efeito menos evidente no curto prazo, mas exponencialmente mais perigoso no longo prazo, que houvesse uma extremo abuso da natureza e dos seus recursos como se fossem ilimitados. Ao fazer tudo isso não percebemos, ou melhor, não quisemos perceber, que parte daquele lucro obtido nada mais era que a antecipação conspícua de um crédito cujo reembolso estávamos transferindo por completo às gerações futuras ou a quem já vivia situações de semi-pobreza ou pobreza absoluta.
O medo, agora, não é tanto que a globalização não esteja mais na moda e deva ser substituída por uma nova ordem econômica mundial a ser inventada, mas sim que não seja mais possível garantir os extraordinários resultados prometidos, justamente porque chegou à hora de pagar o pesado tributo pelas nossas escolhas de sacrificar tudo, até mesmo a Criação, a uma teoria que nos prometia desenvolvimento e riqueza infinitos. A tudo isso, devemos ligar as palavras de simples bom senso que o Papa Francisco nos endereçou durante a conferência de imprensa no avião que o levava de volta a Roma depois da viagem apostólica à Colômbia.
Ao responder a uma pergunta sobre como os furacões Irma e Harvey pudessem estar ligados de alguma forma à mudança climática causada pelas atividades humanas e sobre essa nova corrida das nações às armas de destruição em massa, o Papa usou as palavras da Bíblia para lembrar a todos que "o homem é um tolo, um teimoso que não vê", antes de acrescentar que por trás de certas opções existe sempre e somente o "deus bolso". Muitos torceram seus narizes ao ouvir palavras tão diretas, outros as julgaram fortes, talvez até demais. Na verdade, são apenas palavras de bom senso que fotografam a situação atual que cada um de nós pode perceber diretamente na vida cotidiana e para as quais precisamos nos apressar a por remédio. O homem trocou cada valor importante, da dignidade humana ao respeito pela natureza, para obter rapidamente um alto lucro considerado, erroneamente, a baixo custo. O homem não soube olhar para além do seu nariz e seguiu apenas o cheiro da moeda, do dinheiro, dos capitais a receber e reinvestir. Nesse jogo perverso, muitos homens tornaram-se um instrumento nas mãos de poucos outros homens para gerar lucro, explorando ao mesmo tempo o que a criação oferece-nos de graça como o ar, a água, o calor, o vento e assim por diante.
As guerras e os conflitos se multiplicaram também porque as armas tornaram-se uma maneira fácil e segura de fazer negócios desenfreados aparentemente sem riscos para o produtor. Para muitos parecia um negócio polpudo e livre de contraindicações vender armas para aqueles que queriam usá-las em territórios distantes. O lema era "que façam todas as guerras que quiserem e até se matem, desde que façam isso entre si e longe da gente". No entanto, não foi bem assim e as guerras, embora de forma indireta e desigual, contribuíram para gerar o atual problema da imigração que vem atemorizando toda a Europa. O ambiente, a natureza e a Criação cada vez mais se tornaram uma rica prateleira de supermercado onde se podia pegar tudo que nos servisse sem ter que pagar nem mesmo o preço da compra. Preço que conscientemente repassamos para as costas dos povos que já sofriam um estado de subdesenvolvimento prolongado ou para a conta em aberto das gerações futuras, que mais do que nós terão que lidar com um planeta Terra devastado, depauperado e em péssimo estado de saúde.
Porém, nem tudo está perdido. O homem ainda pode mudar a sorte que parece estar marcada e limitar os danos que serão deixados para aqueles que virão depois de nós. Nenhum processo em funcionamento é tão irreversível a ponto de impedir que o homem se empenhe para salvar o próximo e a criação. Contudo, precisamos começar imediatamente e, em primeiro lugar, devemos deixar de ser tão tolos ou, melhor dizendo, falsamente ingênuos diante das decisões que devem ser tomadas. Não há muito tempo para recolocar o planeta no caminho certo, e são necessários homens de boa vontade e não mais encantadores de serpentes.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571772-globalizacao-guerras-exploracao-da-criacao-pela-primeira-vez-em-10-anos-o-numero-de-indigentes-do-planeta-mostra-um-preocupante-aumento)
Contra a territorização evangélica de qualquer lugar
FÁBIO PY*
As cenas de traficantes da Região da Ilha do Governador, do Morro do Dendê, que gravaram um vídeo mandando o povo de terreiro destruir seus próprios símbolos são para amedrontar. Contém imagens e sons de uma apologética de medo patrocinada pela arma na mão. Sobre isso não se pode relativizar. Mesmo mediante as muitas imagens de violências que chegam pelos noticiários, pelas mídias, a ação dos traficantes armados mandando os próprios povos de terreiros a destruir seus templos e seus ícones são simbólicas. Também mostram uma perspectiva de higienização territorial dessa nova onda de evangélicos. Pois, não basta destruir os espaços religiosos. Devem obrigar, com os fuzis em riste, os próprios membros das religiões afro destruam seus símbolos, de seu centro do mundo. No ato filmado se tem uma violência dobrada, quiçá triplicada: Ele está repleto de muitas expressões do sadismo territorial-religioso que os fundamentalismos trajados na linguagem da batalha espiritual atualizam para os dolorosos nervos expostos nas favelas.
Mesmo com a confusão da quantidade de imagens e noticias, penso que deve-se dizer que como cristão, de corte protestante evangélico, um ato como esse de violência extrema pouco tem a ver com o cristianismo. Para isso, lembro um pouco das Escrituras Sagradas: Jesus não era cristão. Ele era judeu! Logo, assim, para época, não construía uma religião “pura”, “sem-mancha”. Seu segmento SEMPRE dialogou com os demais ritos e culturas ao redor. Ele SEMPRE foi permeado e utilizou elementos de outras tradições religiosas, como, por exemplo: o rito inicial nas águas, orações soltarias, a escolha de pessoas para seguir sem moradias,… Tudo isso. E, até, a própria noção de ressurreição não é originalmente do ambiente cristão. Portanto, a ideia de pureza religiosa impregna essa territorização evangélica das favelas do Rio, é uma expressão racista do cristianismo. Ela que é uma noção que data do inicio do século XX no ambiente americano chamado de fundamentalismo religioso. Assim, ao inverso desse seguimento, assumindo a diversidade que forma o cristianismo e ajuda a desenvolver até os dias de hoje, reconhecemos que é vergonhoso assistir as cenas da destruição do local de culto afro pelos chamados “traficantes de Jesus”. Pois, a aceitação do outro é uma pratica que perpassa importantes textos das Escrituras cristãs, e que se faz presente em toda história do cristianismo.
Além disso, uma ação como essa vai contra a própria ação política dos protestantes evangélicos desde a formação do Brasil. Eles, que apoiaram a diversidade religiosa e de culto. Apoiaram a diversidade porque no passado eram ainda mais uma minoria no país. Portanto, a garantia desse dispositivo legal seria uma estratégica para a continuação e até uma propagação das celebrações evangélicas. Nesse sentido, é ainda mais alarmante a percepção de que existem pastores que incentivam tal territorização da violência contra os povos de terreiro. Sim! Existem religiosos que vêm auxiliando os traficantes contra qualquer grupo ou ser humano de confissão diferente da dele, principalmente, dos ritos afro. Só para dizer. Esse cristianismo virulento, intolerante não representa a postura histórica dos protestantes evangélicos. Muito menos eles dão tônica de todo setor. Dão essa impressão porque suas violências chamam atenção dos canais e mídias. O que não é por menos, claro.
Assim, marcando posição se diz que se é contra qualquer territorização evangélica levada pelos “traficantes de Jesus” nas comunidades da Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Sua perspectiva de pureza religiosa violenta, racista só mancham mais de sangue das favelas do Rio. E, o que é menos importante (do que o ambiente de violências nas favelas) mancham ainda mais o desenho feito sobre o setor evangélico no país. O que respinga no rosto do setor mais dialogal e aberto cristão que está mais preocupado com teorias e leituras, sem se interessar em se sujar a mão na construção pedagógica de alternativas no dia-a-dia desse setor tão largo que cresce exponencialmente nas últimas décadas.
(fonte: https://espacoacademico.wordpress.com/2017/09/18/contra-a-territorizacao-evangelica-de-qualquer-lugar/)
As cenas de traficantes da Região da Ilha do Governador, do Morro do Dendê, que gravaram um vídeo mandando o povo de terreiro destruir seus próprios símbolos são para amedrontar. Contém imagens e sons de uma apologética de medo patrocinada pela arma na mão. Sobre isso não se pode relativizar. Mesmo mediante as muitas imagens de violências que chegam pelos noticiários, pelas mídias, a ação dos traficantes armados mandando os próprios povos de terreiros a destruir seus templos e seus ícones são simbólicas. Também mostram uma perspectiva de higienização territorial dessa nova onda de evangélicos. Pois, não basta destruir os espaços religiosos. Devem obrigar, com os fuzis em riste, os próprios membros das religiões afro destruam seus símbolos, de seu centro do mundo. No ato filmado se tem uma violência dobrada, quiçá triplicada: Ele está repleto de muitas expressões do sadismo territorial-religioso que os fundamentalismos trajados na linguagem da batalha espiritual atualizam para os dolorosos nervos expostos nas favelas.
Mesmo com a confusão da quantidade de imagens e noticias, penso que deve-se dizer que como cristão, de corte protestante evangélico, um ato como esse de violência extrema pouco tem a ver com o cristianismo. Para isso, lembro um pouco das Escrituras Sagradas: Jesus não era cristão. Ele era judeu! Logo, assim, para época, não construía uma religião “pura”, “sem-mancha”. Seu segmento SEMPRE dialogou com os demais ritos e culturas ao redor. Ele SEMPRE foi permeado e utilizou elementos de outras tradições religiosas, como, por exemplo: o rito inicial nas águas, orações soltarias, a escolha de pessoas para seguir sem moradias,… Tudo isso. E, até, a própria noção de ressurreição não é originalmente do ambiente cristão. Portanto, a ideia de pureza religiosa impregna essa territorização evangélica das favelas do Rio, é uma expressão racista do cristianismo. Ela que é uma noção que data do inicio do século XX no ambiente americano chamado de fundamentalismo religioso. Assim, ao inverso desse seguimento, assumindo a diversidade que forma o cristianismo e ajuda a desenvolver até os dias de hoje, reconhecemos que é vergonhoso assistir as cenas da destruição do local de culto afro pelos chamados “traficantes de Jesus”. Pois, a aceitação do outro é uma pratica que perpassa importantes textos das Escrituras cristãs, e que se faz presente em toda história do cristianismo.
Além disso, uma ação como essa vai contra a própria ação política dos protestantes evangélicos desde a formação do Brasil. Eles, que apoiaram a diversidade religiosa e de culto. Apoiaram a diversidade porque no passado eram ainda mais uma minoria no país. Portanto, a garantia desse dispositivo legal seria uma estratégica para a continuação e até uma propagação das celebrações evangélicas. Nesse sentido, é ainda mais alarmante a percepção de que existem pastores que incentivam tal territorização da violência contra os povos de terreiro. Sim! Existem religiosos que vêm auxiliando os traficantes contra qualquer grupo ou ser humano de confissão diferente da dele, principalmente, dos ritos afro. Só para dizer. Esse cristianismo virulento, intolerante não representa a postura histórica dos protestantes evangélicos. Muito menos eles dão tônica de todo setor. Dão essa impressão porque suas violências chamam atenção dos canais e mídias. O que não é por menos, claro.
Assim, marcando posição se diz que se é contra qualquer territorização evangélica levada pelos “traficantes de Jesus” nas comunidades da Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Sua perspectiva de pureza religiosa violenta, racista só mancham mais de sangue das favelas do Rio. E, o que é menos importante (do que o ambiente de violências nas favelas) mancham ainda mais o desenho feito sobre o setor evangélico no país. O que respinga no rosto do setor mais dialogal e aberto cristão que está mais preocupado com teorias e leituras, sem se interessar em se sujar a mão na construção pedagógica de alternativas no dia-a-dia desse setor tão largo que cresce exponencialmente nas últimas décadas.
* FÁBIO PY é professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF, Doutor em Teologia pela PUC-RIO.
(fonte: https://espacoacademico.wordpress.com/2017/09/18/contra-a-territorizacao-evangelica-de-qualquer-lugar/)
sábado, 16 de setembro de 2017
Por que nos esquecemos das vítimas de catástrofes ambientais da Índia e do continente africano?
As cidades indianas de Mumbai, Bangalore e Chennai; a cidade mais populosa do Paquistão, Karachi; e a capital de Bangladesh, Dakha, somam mais de 1.400 vítimas desde junho e milhões de afetados após as piores chuvas de monção que atingiram o Sudeste Asiático em anos. No Nepal, as chuvas torrenciais deixaram 150 mortos e 90.000 casas devastadas.
Na província de Guizhou, na China, os deslizamentos de terra por chuvas torrenciais causaram a morte de mais de 50 pessoas, e em cidades como Donguan, Shenzhen, Zhongshan e Zhuhai, foi declarado alerta vermelho pelas chuvas e 70.000 pessoas foram evacuadas. No total, 41 milhões de pessoas na região sofrerão muito para conseguir alimentos e enfrentarão um aumento de doenças como a malária e o tifo durante os próximos meses.
A reportagem é publicada por El País, 11-09-2017.
No continente africano, a capital de Serra Leoa, Freetown, teve um número não oficial de 1.000 mortos, muitos dos quais menores de idade, além de centenas de milhares de afetados por uma das piores inundações da história e um mortífero deslizamento de terras.
Em Niamey, capital do Níger, milhares de pessoas precisaram ser evacuadas em poucos dias, pelo medo de que se repetisse uma tragédia humana como a de junho, com a morte de 44 pessoas durante as já frequentes chuvas torrenciais.
Nos Estados Unidos, o furacão Harvey deixou 60 vítimas em Houston, Texas. E ainda que a maioria dos leitores e leitoras saiba mais sobre a gestão do desastre em Houston do que em Freetown ou qualquer outra cidade localizada no hemisfério sul, os números de mortos indicam que as inundações do mês de agosto mataram 25 vezes mais pessoas na África do que o furacão Harvey nos Estados Unidos.
O apartheid climático se torna evidente na arena midiática, ainda que tenha sido o presidente Donald Trump a se retirar do acordo climático de Paris, e não, por exemplo, o mandatário de Serra Leoa, Ernest Bai Koroma, que reconhece a urgência de se reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde, os desastres naturais exacerbados pela mudança climática provocam 60.000 mortes por ano, com uma incidência maior nos países com índices mais baixos de desenvolvimento. Segundo um índice anual elaborado pela universidade norte-americana Notre Dame, os países mais vulneráveis à mudança climática são a República Centro-africana, Chade, Eritreia, Burundi e Sudão, seguidos pelo Iêmen, Afeganistão e a República Democrática do Congo. E tal como alerta a Iniciativa de Crescimento da África, da Brookings Institution, o continente tem sete dos 10 países mais vulneráveis à mudança climática.
Já falamos do risco que correm as cidades costeiras da África pela mudança climática. Nas capas dos jornais com maior tiragem, entretanto, as vítimas de Houston adquiriram maior importância do que as de Freetown, Karachi, Mumbai e Donguan juntas. Não deveríamos começar a dar mais visibilidade e apoio às castigadas Houston do Sul global, que acumulam muito mais vítimas e afetados, problemas e desafios, do que a cidade texana? Alguém escutou palavras de apoio de Leonardo DiCaprio, ativista contra a mudança climática e protagonista do filme Diamantes de Sangue, sobre o caso dessas pedras em Serra Leoa? Mas DiCaprio fez uma doação de 1 milhão de dólares (3 milhões de reais) aos afetados texanos. Uma referência, por menor que seja, às tragédias climáticas do Sudeste Asiático por parte de Sandra Bullock, Chris Brown, JLo, as Kardashian e Beyoncé, que fizeram doações milionárias a Houston? Alguns acordes em memória das vítimas africanas por parte do Coldplay, que fez uma música em tributo a Houston?
Os que até o momento demonstraram sua solidariedade com Freetown, por exemplo, foram as próprias nações africanas. O presidente togolês, Faure Gnassingbe, e o presidente da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), Marcel Alain De Souza, doaram 500.000 dólares (1,5 milhão de reais) em agosto para alimentos e assistência médica. Senegal, por sua vez, doou 100.000 dólares (308.000 reais), e Costa do Marfim contribuiu com uma tonelada e meia de produtos médicos. E apesar do presidente Ernest Bai Koroma ter pedido ajuda urgente à comunidade internacional para enfrentar a tragédia de Freetown, a União Europeia se comprometeu a mandar somente 300.000 euros (1,10 milhão de reais) a Serra Leoa. Quantidade que comparada à doada pelo Governo da China, que fez uma contribuição de 1 milhão de dólares (3 milhões de reais) ao país...
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571593-por-que-nos-esquecemos-das-vitimas-de-catastrofes-ambientais-da-india-e-do-continente-africano)
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