sábado, 17 de março de 2018

Noam Chomsky: "As pessoas já não acreditam nos fatos"



Noam Chomsky (Filadélfia, 1928) superou faz tempo as barreiras da  vaidade. Não fala de sua vida privada, não usa celular e em um tempo onde abunda o líquido e até o gasoso, ele representa o sólido. Foi detido por opor-se à Guerra do Vietnã, figurou na lista negra de Richard Nixon, apoiou a publicação dos Papéis do Pentágono e denunciou a guerra suja de Ronald Reagan. Ao longo de 60 anos, não há luta que ele não tenha travado. Defende tanto a causa curda como o combate à mudança climática. Tanto aparece em uma manifestação do Occupy Movement como apoia os imigrantes sem documentos.

Mergulhado na agitação permanente, o jovem que nos anos cinquenta deslumbrou o mundo com a gramática gerativa e seus universais, longe de descansar sobre as glórias do filósofo, optou pelo movimento contínuo. Não se importou com que o acusassem de antiamericano ou extremista. Sempre seguiu em frente com valentia, enfrentando os demônios do capitalismo − sejam os grandes bancos, os conglomerados militares ou Donald Trump. À prova de fogo, sua última obra volta a confirmar sua tenacidade. Em Réquiem para o sonho americano (editora Bertrand Brasil), ele põe no papel as teses expostas no documentário homônimo e denuncia a obscena concentração de riqueza e poder que exibem as democracias ocidentais. O resultado são 192 páginas de Chomsky em estado puro. Vibrante e claro.

Preparado para o ataque.

— O senhor se considera um radical?

— Todos consideramos a nós mesmos moderados e razoáveis.

— Defina-se ideologicamente.

— Acredito que toda autoridade tem de se justificar. Que toda hierarquia é ilegítima enquanto não demonstrar o contrário. Às vezes pode se justificar, mas na maioria das vezes, não. E isso... isso é anarquismo.

Uma luz seca envolve Chomsky. Depois de 60 anos dando aulas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), o professor veio viver nos confins do deserto de Sonora, no Arizona. Em Tucson, a mais de 4.200 quilômetros de Boston, ele se instalou e estreou um escritório no Departamento de Linguística da Universidade do Arizona. O centro é um dos poucos pontos verdes dessa cidade abrasadora. Freixos, salgueiros, palmeiras e nogueiras crescem em torno de um edifício de tijolos vermelhos de 1904 onde tudo fica pequeno, mas tudo é acolhedor. Pelas paredes há fotos de alunos sorridentes, mapas das populações indígenas, estudos de fonética, cartazes de atos culturais e, no fundo do corredor, à direita, o escritório do maior linguista vivo.

O lugar não tem nada a ver com o espaço inovador do Frank Gehry que o abrigava em Boston. Aqui, mal cabe uma mesa de trabalho e outra para sentar-se com dois ou três alunos. Recém-estreado, o escritório de um dos acadêmicos mais citados do século XX ainda não tem livros próprios, e seu principal ponto de atenção recai em duas janelas que inundam a sala de âmbar. Chomsky, de calças jeans e longos cabelos brancos, gosta dessa atmosfera calorosa. A luz do deserto foi um dos motivos que o levaram a se mudar para Tucson. “É seca e clara”, comenta. Sua voz é grave e ele deixa que se perca nos meandros de cada resposta. Gosta de falar longamente. Pressa não é com ele.

Pergunta. Vivemos uma época de desencanto?

Resposta. Já faz 40 anos que o neoliberalismo, liderado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, assaltou o mundo. E isso teve um efeito. A concentração aguda de riqueza em mãos privadas veio acompanhada de uma perda do poder da população geral. As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária, com trabalhos cada vez piores. O resultado é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismo. Já não se confia nem nos próprios fatos. Há quem chama isso de populismo, mas na verdade é descrédito das instituições.

P. E assim surgem as fake news (os boatos)?

R. A desilusão com as estruturas institucionais levou a um ponto em que as pessoas já não acreditam nos fatos. Se você não confia em ninguém, por que tem de confiar nos fatos? Se ninguém faz nada por mim, por que tenho de acreditar em alguém?

P. Nem mesmo nos veículos de comunicação?

R. A maioria está servindo aos interesses de Trump.

P. Mas há alguns muito críticos, como The New York TimesThe Washington Post, CNN…

R. Olhe a televisão e as primeiras páginas dos jornais. Não há nada mais que Trump, Trump, Trump. A mídia caiu na estratégia traçada por Trump. Todo dia ele lhes dá um estímulo ou uma mentira para se manter sob os holofotes e ser o centro da atenção. Enquanto isso, o flanco selvagem dos republicanos vai desenvolvendo sua política de extrema direita, cortando direitos dos trabalhadores e abandonando a luta contra a mudança climática, que é precisamente aquilo que pode acabar com todos nós.


P. O senhor vê em Trump um risco para a democracia?

R. Representa um perigo grave. Liberou de forma consciente e deliberada ondas de racismo, xenofobia e sexismo que estavam latentes, mas que ninguém tinha legitimado.

P. Ele voltará a ganhar?

R. É possível, se conseguir retardar o efeito letal de suas políticas. É um demagogo e showmanconsumado que sabe como manter ativa sua base de adoradores. Também joga a seu favor o fato de que os democratas estão mergulhados na confusão e podem não ser capazes de apresentar um programa convincente.

P. Continua apoiando o senador democrata Bernie Sanders?

R. É um homem decente. Usa o termo socialista, mas nele significa mais um New Deal democrata. Suas propostas, de fato, não seriam estranhas a Eisenhower [presidente dos EUA pelo Partido Republicano de 1953 a 1961]. Seu sucesso, mais que o de Trump, foi a verdadeira surpresa das eleições de 2016. Pela primeira vez em um século houve alguém que esteve a ponto de ser candidato sem apoio das corporações nem dos veículos de comunicação, só com o apoio popular.

P. Houve um deslizamento para a direita do espectro político?

R. Na elite do espectro político sim, ocorreu esse deslizamento, mas não na população em geral. Desde os anos oitenta se vive uma ruptura entre o que as pessoas desejam e as políticas públicas. É fácil ver isso no caso dos impostos. As pesquisas mostram que a maioria quer impostos mais altos para os ricos. Mas isso nunca se leva a cabo. Frente a isso se promoveu a ideia de que reduzir impostos traz vantagens para todos e que o Estado é o inimigo. Mas quem se beneficia da reduzir [verbas para] estradas,hospitais, água limpa e ar respirável?

P. Então o neoliberalismo triunfou?

R. O neoliberalismo existe, mas só para os pobres. O mercado livre é para eles, não para nós. Essa é a história do capitalismo. As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos. As grandes indústrias de energia recebem subvenções de centenas de milhões de dólares, a economia de alta tecnologia se beneficia das pesquisas públicas de décadas anteriores, as entidades financeiras obtêm ajuda maciça depois de afundar… Todas elas vivem com um seguro: são consideradas muito grandes para cair e são resgatadas se têm problemas. No fim das contas, os impostos servem para subvencionar essas entidades e com elas, os ricos e poderosos. Mas além disso se diz à população que o Estado é o problema e se reduz seu campo de ação. E o que ocorre? Seu espaço é ocupado pelo poder privado, e a tirania das grandes corporações fica cada vez maior.

P. O que o senhor descreve soa a Orwell.

R. Até Orwell estaria assombrado. Vivemos a ficção de que o mercado é maravilhoso porque nos dizem que está composto por consumidores informados que adotam decisões racionais. Mas basta ligar a televisão e ver os anúncios: procuram informar o consumidor para que tome decisões racionais? Ou procuram enganar? Pensemos, por exemplo, nos anúncios de carros. Oferecem dados sobre suas características? Apresentam informes realizados por entidades independentes? Porque isso sim que geraria consumidores informados capazes de tomar decisões racionais. Em vez disso, o que vemos é um carro voando, pilotado por um ator famoso. Tentam prejudicar o mercado. As empresas não querem mercados livres, querem mercados cativos. De outra forma, colapsariam.

P. Diante dessa situação, não é muito fraca a contestação social?

R. Há muitos movimentos populares muito ativos, mas não se presta atenção neles porque as elites não querem que se aceite o fato de que a democracia pode funcionar. Isso é perigoso para elas. Pode ameaçar seu poder. O melhor é impor uma visão que diz a você que o Estado é seu inimigo e que você tem de fazer o que puder sozinho.

P. Trump usa frequentemente o termo antiamericano. Como o senhor entende esse termo?

R. Os Estados Unidos são o único país onde, por criticar o Governo, te chamam de antiamericano. E isso representa um controle ideológico, acendendo fogueiras patrióticas por toda parte.

P. Em alguns lugares da Europa também ocorre isso.

R. Mas nada comparável ao que ocorre aqui, não há outro país onde se vejam tantas bandeiras.

P. O senhor teme o nacionalismo?

R. Depende. Se significa estar interessado em sua cultura local, é bom. Mas se for uma arma contra outros, sabemos aonde pode conduzir, já vimos e experimentamos isso.

P. Acha possível que se repita o que ocorreu nos anos trinta?

R. A situação se deteriorou. Depois da eleição de Barack Obama se desencadeou uma reação racista de enorme virulência, com campanhas que negavam sua cidadania e identificavam o presidente negro com o anticristo. Houve muitas manifestações de ódio. No entanto, os EUA não são a República de Weimar [democracia alemã anterior ao nazismo]. Precisamos estar preocupados, mas as probabilidades de que se repita algo assim não são altas.

P. Seu livro começa lembrando a Grande Depressão, uma época em que “tudo estava pior que agora, mas havia um sentimento de que tudo iria melhorar”.

R. Eu me lembro perfeitamente. Minha família era de classe trabalhadora, estava desempregada e não tinha educação. Objetivamente, era uma época muito pior que agora, mas havia um sentimento de que todos estávamos juntos naquilo. Havia um presidente compreensivo com o sofrimento, os sindicatos estavam organizados, havia movimentos populares… Tinha-se a ideia de que juntos podíamos vencer a crise. E isso se perdeu. Agora vivemos a sensação de que estamos sozinhos, de que não há nada a fazer, de que o Estado está contra nós…

P. Ainda tem esperanças?

R. Claro que há esperança. Ainda há movimentos populares, gente disposta a lutar… As oportunidades estão aí, a questão é se somos capazes de aproveitá-las.

Chomsky termina com um sorriso. Deixa vibrando no ar sua voz grave e se despede com extrema cortesia. Em seguida, sai do escritório e desce as escadas da faculdade. Fora, esperam-lhe Tucson e a luz seca do deserto de Sonora.

(fonte: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Noam-Chomsky-As-pessoas-ja-nao-acreditam-nos-fatos-/4/39564)

Preservação da Amazônia é fundamental para a manutenção do seu ciclo hidrológico


Quando o biólogo norte-americano Thomas Lovejoy iniciou suas pesquisas na Amazônia brasileira, em 1965, “havia somente 3% de desmatamento e uma população de três milhões, incluindo os indígenas”. Hoje, mais de 50 anos depois, “o desmatamento oficial está em 17%, mas, além disso, a floresta está degradada (próxima ao ponto de inflexão) em mais de 50% somente na Amazônia brasileira”, relata Lovejoy à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

Thomas Lovejoy tem estudado os impactos combinados de três fatores que estão contribuindo para a degradação da floresta e afetando o seu ciclo hidrológico: o desmatamento, as mudanças climáticas e o uso excessivo de fogo. A preservação da floresta é fundamental para manter a integridade do ciclo hidrológico do qual depende. “O que se precisa é um passo drástico na direção de uma abordagem integrada à Amazônia, envolvendo todos os países da região. É fundamental manter a integridade do ciclo hidrológico que também beneficia áreas para além da bacia e que é importante para o futuro da agricultura brasileira”, afirma.

Na entrevista a seguir, o biólogo também defende os programas de crédito de carbono e de Redução de Emissões Decorrentes do Desmatamento e da Degradação de Florestas – REDD como formas de proteger a Amazônia, que têm sido contestados por alguns movimentos sociais. “O REDD e os créditos de carbono são um modo de ajudar a proteger as florestas das forças de destruição. Uns acham esta ideia ofensiva, como se estivéssemos pondo um preço na natureza. Mas não é isso. Pelo contrário, é reconhecer (apenas) parte do valor. Sem este, a floresta tem valor zero e coisas ruins acontecem”, explica.

Lovejoy também comenta a temática de seu novo livro, intitulado “Biodiversity and Climate Change: Transforming the Biosphere” [Biodiversidade e mudanças climáticas: como transformar a biosfera], no qual defende “a limitação das mudanças climáticas para não mais de 1,5 grau a fim de evitar grandes impactos biológicos” e propõe a restauração do ecossistema mundial. “Essa restauração pode trazer de volta CO2 da atmosfera em dezenas de partes por milhões, tornando viável o objetivo de 1,5 grau e também trazer uma cornucópia de benefícios auxiliares (por exemplo, o aumento de carbono nos solos de terras anteriormente degradadas aumenta a fertilidade deles)”, diz.



Thomas Lovejoy é doutor em Biologia pela Universidade de Yale. Entre 1973 e 1987 dirigiu o World Wildlife Fund. Também foi presidente do Heinz Center for Science, Economics, and the Environment, foi conselheiro dos presidentes Reagan, Bush e Clinton, do Instituto Smithsonian, dos jardins botânicos de Nova Iorque e de Londres, conselheiro-chefe do Banco Mundial para biodiversidade e seu principal especialista sobre o ambiente latino-americano e presidiu a Society for Conservation Biology. É conselheiro do Yale Institute for Biospheric Studies e desde 2010 leciona na Universidade George Mason. No Brasil atua junto ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, onde pesquisa o funcionamento de fragmentos florestais e os efeitos do desmatamento sobre a ecologia regional.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que comparações o senhor faz entre o estado de conservação da Amazônia nos anos 1960, quando iniciou suas visitas na floresta, e hoje, mais de 50 anos depois?

Thomas Lovejoy - Em 1965, havia somente 3% de desmatamento e uma população de três milhões na Amazônia, incluindo os indígenas. Havia também uma área indígena demarcada (Xingu) e somente um parque nacional (Canaima, na Venezuela).

Hoje, é claro, o desmatamento oficial está em 17%, mas, além disso, a floresta está degradada (próxima ao ponto de inflexão) em mais de 50% somente na Amazônia brasileira.

IHU On-Line - O senhor estuda o efeito da fragmentação florestal sobre o ecossistema amazônico há algumas décadas. O que tem evidenciado e concluído ao longo desses anos de pesquisa? Quais são as causas e os efeitos da fragmentação florestal?

Thomas Lovejoy - A fragmentação é o subproduto da destruição (desmatamento) do habitat e, na maior parte, é causada por atividades não indígenas. Ela possui impactos complexos e grandes, incluindo uma perda enorme de biodiversidade e uma redução na capacidade de sustentar o ciclo hidrológicoAnexo um resumo dos resultados de 38 anos.

IHU On-Line - Que tipo de mudanças a combinação dos impactos combinados de desmatamento, mudança climática e incêndios florestais tem gerado na Amazônia? Quais as consequências dessa combinação?

Thomas Lovejoy - Os impactos sinergéticos combinados de desmatamentomudanças climáticas e o uso excessivo de fogo estão apagando o ciclo hidrológicopor meio do qual a Amazônia produz a metade de sua própria precipitação.

IHU On-Line - Algum tipo de ação ou medida poderia reverter o prognóstico de que a Amazônia poderá se transformar numa savana em 2050?

Thomas Lovejoy - Pode-se evitar isto com um controle rígido do desmatamentojunto com a reflorestação (que deverá incluir a conexão de fragmentos isolados) para construir uma margem de segurança à integridade do ciclo hidrológico.

IHU On-Line - Qual o senhor diria que é a situação geral da Amazônia do ponto de vista ambiental em comparação com outras florestas tropicais no mundo?

Thomas Lovejoy - A maioria das florestas tropicais no mundo estão desmatadas em uma extensão maior (especialmente a Mata Atlântica), mas a Amazônia se destaca como a que precisa ser gerida como um sistema para manter a integridade do ciclo hidrológico do qual depende.

IHU On-Line - Quais são suas preocupações acerca do futuro da Amazônia?

Thomas Lovejoy - O que se precisa é um passo drástico na direção de uma abordagem integrada à Amazônia, envolvendo todos os países da região. É fundamental manter a integridade do ciclo hidrológico que também beneficia áreas para além da bacia e que é importante para o futuro da agricultura brasileira.

Há a necessidade urgente de se repensar os planos de infraestrutura para a Amazônia, substituindo-os por uma infraestrutura sustentável, modernizando os planejamentos energéticos para respeitar o fluxo de sedimentos e a migração de peixes. Um acordo de pesca amazônico faria muito sentido. E cidades sustentáveis que não ponham pressão à floresta seriam um elemento-chave.

IHU On-Line - Muitas ONGs e movimentos sociais têm se manifestado contra mecanismos como o REDD ou créditos de carbono como alternativa para proteger as florestas, alegando que esses mecanismos vinculam as comunidades locais a um contrato financeiro em que elas ficam impedidas de manejar a área por muitos anos, enquanto a outra parte do contrato continua produzindo e emitindo poluição do outro lado do mundo. Apesar dessa crítica, por que, na sua avaliação, o REDD e os créditos de carbono são boas alternativas para preservar as florestas? De que modo esses mecanismos podem proteger as florestas, a exemplo da Amazônia?

Thomas Lovejoy - O REDD e os créditos de carbono são um modo de ajudar a proteger as florestas das forças de destruição. Uns acham esta ideia ofensiva, como se estivéssemos pondo um preço na natureza. Mas não é isso. Pelo contrário, é reconhecer (apenas) parte do valor. Sem este, a floresta tem valor zero e coisas ruins acontecem.

Dito isso, valorizar uma floresta por carbono é, de certo modo, o seu valor mais baixo. Poderíamos também imaginar um sistema de pagamento construído em torno do ciclo hidrológico para o qual cada metro quadrado de floresta contribui.

IHU On-Line - Uma das suas áreas de atuação é a biologia da mudança climática. A partir das suas pesquisas, como diria que as mudanças climáticas vêm afetando a natureza? De outro lado, como a natureza pode contribuir para resolver o problema das mudanças climáticas?

Thomas Lovejoy - Lee Hannah e eu temos um livro novo sobre “Biodiversity and Climate Change: Transforming the Biosphere” [Biodiversidade e mudanças climáticas: como transformar a biosfera], que será publicado pela Universidade de Yale. Nele, defendemos a limitação das mudanças climáticas para não mais de 1,5 grau a fim de evitar grandes impactos biológicos. Também incluímos uma solução importante, a saber: a restauração do ecossistema (no mundo todo, não só na Amazônia).

Essa restauração pode trazer de volta CO2 da atmosfera em dezenas de partes por milhões, tornando viável o objetivo de 1,5 grau e também trazer uma cornucópia de benefícios auxiliares (por exemplo, o aumento de carbono nos solos de terras anteriormente degradadas aumenta a fertilidade deles).

IHU On-Line - Muitos ambientalistas dizem que as Conferências do Clima têm sido frustrantes em encontrar alternativas para solucionar o problema das mudanças climáticas. Que avaliação geral o senhor faz dessas conferências?

Thomas Lovejoy - A Conferência das Partes da Convenção Climática teve um progresso lento, mas alcançou, em 2015, um primeiro acordo global. Espero que estejamos no começo de uma curva de mudança exponencial que, em seus primeiros estágios, não distinguimos desta mudança.

IHU On-Line - Como avalia o processo de saída dos EUA do Acordo de Paris? Essa saída deve ter implicações nas futuras negociações das Conferências do Clima?

Thomas Lovejoy - Contrariamente à compreensão da maioria, os EUA não deixaram o Acordo de Paris; eles começaram o processo para assim fazer – e isto leva quatro anos. Portanto, é possível que o governo do meu país perceba o que está fazendo e pare com este processo. Mesmo se isso não acontecer, as iniciativas em curso nas cidades e nos estados americanos são suficientemente significativas a ponto de, coletivamente, significarem que o país irá, na verdade, alcançar o objetivo.

(fonte: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Mae-Terra/Preservacao-da-Amazonia-e-fundamental-para-a-manutencao-do-seu-ciclo-hidrologico/3/39586)

Que tal agrotóxicos com “risco aceitável” de câncer?

Ruralistas e governo querem tirar da Anvisa e Ibama palavra final na aprovação de venenos agrícolas. Uma comissão com nomes indicados por eles passaria a dar as cartas
Por Eduardo Militão, no The Intercept Brasil
O governo federal  e o Congresso podem acelerar uma fila silenciosa que afeta diretamente a saúde: o processo de liberação de agrotóxicos. A bancada ruralista tem como prioridade a votação de um projeto de lei que acaba com o poder de veto de órgãos técnicos como a Anvisa e o Ibama na aprovação dos componentes químicos. Uma comissão com nomes indicados politicamente passaria a dar as cartas. Em paralelo, o Ministério da Agricultura já implementa um projeto de informatização da análise dos produtos. Ele pode reduzir o tempo de tramitação dos atuais quatro a cinco anos para dois.
Essa pode ser uma combinação explosiva, levando-se em conta o que está nessa fila. Uma pesquisa realizada pelo Observatório da Indústria de Agrotóxicos da Universidade Federal do Paraná identificou que, em 2014, cerca de 20% dos produtos que esperavam por autorização tinham substâncias cancerígenas ou com potencial de para serem banidas em outros países. Segundo o professor Victor Pelaez, titular do levantamento, apressar a análise é uma medida necessária, mas é preciso garantias de que a saúde pública esteja em primeiro lugar, e não os interesses comerciais das empresas. O sistema informatizado está no primeiro objetivo, o que não é o caso da perda de poder de órgãos científicos.
A pesquisa analisou 1.486 produtos que estavam à espera de liberação pelo governo em junho de 2014. Desses, cerca de 300 tinham substâncias que “constam das listas com potencial de banimento no mercado da União Europeia” por serem consideradas como potencialmente cancerígenas ou causadoras de más formações congênitas e outros danos à saúde. Atualmente, a fila continua do mesmo tamanho: hoje são cerca de 1.500 produtos à espera de liberação. Outros 1.600 foram autorizados desde 2005.
O professor Pelaez cita o caso do Paraquat como um dos herbicídas danosos à saúde usado quase que exclusivamente no Brasil. De 2005 para cá, dezenas de defensivos que têm essa substância na base foram liberados, de acordo com documentos obtidos por The Intercept Brasil.
Tabela mostra quantidade de agrotóxicos liberados desde 2005 no país
No Ministério da Agricultura, além de melhorias no sistema de informática, técnicos da Embrapa foram convocados para apressar o registro dos venenos usados para matar pragas. As mudanças são um “projeto prioritário” para o ministro Blairo Maggi. No entanto, essa medida isolada tem impacto limitado. No Brasil, atualmente, um agrotóxico só é liberado depois da análise do próprio ministério, da Anvisa e do Ibama. Se um deles rejeitar a proposta, o veneno não é autorizado.
Riscos “aceitáveis”
E é aí que entra o Congresso. Desde 1999, um conjunto de 18 projetos de lei está em análise para mudar a forma como são aprovados os defensivos agrícolas. Hoje, eles estão em uma comissão especial na Câmara à espera de audiências públicas e de um parecer do deputado Luiz Nishimori (PR-PR). Uma das principais mudanças é tirar a autorização de agrotóxicos do trio Anvisa-Ibama-Ministério da Agricultura. Nessa nova formação, a Anvisa e o Ibama não teriam mais poder de veto.
O projeto proíbe ainda a liberação de um veneno com “riscos inaceitáveis” de causar câncer, má formação fetal, distúrbios hormonais e danos ao meio ambiente. Ou seja, estaria aberta a possibilidade de estarem autorizados os defensivos com riscos “aceitáveis”, avalia documento da Campanha Nacional contra os Agrotóxicos, um conglomerado de ONGs e instituições de ensino nas áreas ambiental e de saúde pública.
Pelo texto que tramita na Casa, seria criada uma estrutura que, para três especialistas ouvidos pela reportagem, reduz o peso das questões de saúde na autorização dos produtos. A Comissão Técnica Nacional de Fitossanitários seria escolhida pelo ministro da Agricultura – atualmente o ruralista Blairo Maggi – e funcionaria dentro da pasta, justamente para tornar o processo mais rápido.
Ao todo seriam 23 especialistas. Desses, um grupo de 15 deve incluir pelo menos “três da área de controle ambiental e três de saúde humana e toxicologia”, segundo o texto. Eles deverão ser indicados por instituições e associações científicas, mas a decisão será do ministro.
Também deverá haver cinco representantes de ministérios. Além de Agricultura, Saúde e Meio Ambiente, haveria também Ciência e Tecnologia e de Indústria e Comércio, que hoje não participam do processo. O grupo ainda deverá ter um representante de órgão ligado à saúde do trabalhador, um dos produtores rurais e um dos fabricantes de agrotóxicos.
A professora da Fiocruz Karen Fredrich critica a mudança:
O órgão da Agricultura tem muita competência para avaliar a questão econômica e a Anvisa já acumula uma expertise para a avaliar os impactos à saúde, de diversos produtos, incluindo os agrotóxicos.
O secretário de defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, Luís Eduardo Pacifici Rangel, afirma que a pasta vê a comissão com bons olhos. Para ele, isso apressaria a análise das propostas sem ferir as garantias de proteção à saúde e ao meio ambiente. No entanto, até o ministério tem certas reservas em relação ao formato da composição da comissão:
“Diminuir a participação dos órgãos de saúde e meio ambiente no processo de avaliação é polêmico, porque houve nos últimos 20 anos uma distribuição de agendas aqui dentro que trouxeram um certo equilíbrio para a percepção de risco da sociedade com relação a esses defensivos”, afirmou ele. “Desequilibrar isso pode criar um risco.”
O Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Vegetal (Sindiveg), que representa 36 fabricantes de agrotóxicos no país defende apressar o tempo de análise dos defensivos, mas também é contra a comissão.
“O sindicato apoia a manutenção da estrutura atual, em que o Ministério da Agricultura, Anvisa e Ibama registram defensivos agrícolas analisando eficiência agronômica, toxicologia e meio ambiente, respectivamente”, explicou a entidade, por meio de sua assessoria de imprensa.
A bancada ruralista quer a aprovação da proposta. O deputado Luiz Nishimori deve apresentar seu relatório depois que forem realizadas audiências públicas solicitadas por deputados ruralistas e da oposição na comissão. O parlamentar não se manifestou até o fechamento da reportagem.
Nishimori foi eleito em 2014 com ajuda de uma doação eleitoral de R$ 245  mil da Construtora Andrade Gutierrez, alvo da Operação Lava Jato, e que foi multada pelo Ibama, de acordo com o site Ruralômetro, que acompanha a bancada do agronegócio no Congresso. O valor representou 10% dos recursos obtidos pelo parlamentar naquela disputa. Ele votou favoravelmente à Medida Provisória da Grilagem, que “facilitou a regularização de terras ocupadas”. Uma emenda aprovada por Nishimori ampliou o desconto para produtores endividados no crédito rural.
Paralelamente, uma proposta reduzir o consumo de defensivos agrícolas está parada no Congresso. O projeto foi apresentado em 2016 e incentiva técnicas de manejo alternativas, como a agroecologia e a produção orgânica, e a redução do uso dos agrotóxicos.
(fonte: https://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/que-tal-agrotoxicos-com-riscos-aceitaveis-de-cancer/)

domingo, 11 de março de 2018

É assim que a tecnologia em casa ameaça a nossa privacidade


"A privacidade, na verdade, não está morta: simplesmente há alguém que gostaria muito que assim fosse. Cabe a nós cuidar de sua saúde. E uma maneira de fazer isso é ter em mente que há sempre mais do que uma maneira de disponibilizar uma determinada tecnologia. Cabe a nós, coletivamente pedir que sejam escolhidas maneiras que maximizam o bem-estar geral, e não o interesse econômico de poucos".
A opinião é de Juan Carlos de Martin, engenheiro, escritor e professor de Ciências da Computação e Cultura Digital no Instituto Politécnico de Turim, em artigo publicado por La Repubblica, 28-02-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A compra da Ring - empresa que produz campainhas para a casa e câmeras domésticas – por parte da Amazon deve nos fazer refletir sobre o caminho que fizeram os computadores desde o nascimento dos primeiros PCs, agora há mais de 40 anos. Desde aquele caixotão colocado sob a mesa, o computador se transformou em portátil, e assim chegou mais perto do nosso corpo. Com o advento do smartphone, o computador ficou ainda mais próximo, enquanto que com os "relógios smart" está sendo dado mais um passo: agora é o computador constantemente em contato com o nosso corpo e, portanto, capaz de medir em tempo real os parâmetros corporais, como os batimentos cardíacos. Essa crescente intimidade física com os nossos computadores, além de possibilitar futuros desenvolvimentos úteis, desde já apresenta preocupações significativas de privacidade. Os dados recolhidos, na verdade, não só são dizem respeito a aspectos muito sensíveis de nossas vidas, mas também são sistematicamente transmitidos para os computadores de empresas que fabricam os dispositivos e os "app".
Isso não é tudo, porém. Junto com a progressiva aproximação com o nosso corpo do computador, está se somando a tendência de instalação de mais PCs, mas dessa vez na privacidade das nossas casas. Eles podem ser campainhas "smart" como as da Ring(eventualmente destinadas a abrir a porta para o entregador da Amazon), mas são principalmente produtos como o Alexa, da Amazon, objetos de design agradável, que são computadores conectados à Internet e equipados com "voz", "olhos", "ouvidos" e outros sensores. O objetivo é estar constantemente presente na intimidade da vida doméstica, oferecendo alguns serviços de maneira mais intuitiva do que seria possível com os smartphones. Esses novos dispositivos, de fato, podem aceitar comandos de voz e, portanto, enquanto você circula pela casa, pode-se pedir, por exemplo, para ouvir uma determinada música ou comprar um produto online. Além disso, podem controlar a temperatura ambiente ou abrir a porta da frente para receber um pacote.
Com o avanço da tecnologia, esses dispositivos têm o potencial de tornar a nossa vida doméstica um pouco mais confortável. Mas devemos nos perguntar, antes da sua adoção em massa, sobre as implicações de ter dispositivos na intimidade das nossas casas que podem controlar aspectos físicos, como as portas ou gravar tudo o que acontece ao redor deles e o enviar para computadores remotos de propriedade da empresa que produziu o dispositivo. Em troca de um pouco mais de conforto, estamos prontos para permitir a gravação em grande escala da nossa vida doméstica? Já paramos para pensar sobre as implicações de ter gravações íntimas acessíveis não só pelas autoridades, mas também para mal-intencionados caso furassem as defesas cibernéticas das empresas? Se forem serviços que nos interessam, porque não sugerir uma abordagem alternativa? Uma abordagem que minimiza tanto os recolhimentos de dados, como sua transferência para fora do dispositivo. Seria tecnicamente viável.
privacidade, na verdade, não está morta: simplesmente há alguém que gostaria muito que assim fosse. Cabe a nós cuidar de sua saúde. E uma maneira de fazer isso é ter em mente que há sempre mais do que uma maneira de disponibilizar uma determinada tecnologia. Cabe a nós, coletivamente pedir que sejam escolhidas maneiras que maximizam o bem-estar geral, e não o interesse econômico de poucos.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/576587-e-assim-que-a-tecnologia-em-casa-ameaca-a-nossa-privacidade)

A receita da felicidade


Por Jaime Pinsky, historiador e editor, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp.

O mantra da moda é "ser feliz". E ser feliz, para muitos, é curtir a vida: festas, bebida, sexo, drogas, música, objetos de grife, viagens. É ter dinheiro, se possível muito. É ter acesso a produtos e serviços. Não ter um celular novo, não conseguir viajar no Carnaval, ficar em casa em um feriado, é ser infeliz... Ora, o mantra da felicidade ajuda as pessoas a serem exatamente infelizes. Elas não aceitam nenhuma pedra no caminho da suposta felicidade. Uma doença qualquer que as acometa as deixa infelizes. A morte de algum conhecido, mesmo já tendo cumprido seu papel neste planeta, é algo inaceitável. Tais pessoas não conseguem refletir sobre a vida. São tão superficiais, tão sem conteúdo, que não dão conta de ler um texto de 10 linhas e refletir sobre ele. Não conseguem ter opinião pessoal sobre as coisas: pensam que têm, escrevem posts raivosos sobre política e moral, mas apenas repetem a opinião dos outros, seja de gurus da internet, seja de pastores que falam com Deus, seja de namorados autoritários.
Fiquei interessado em saber o que estava acontecendo com os mais jovens. Eles têm fama de inconformados. Alguns, até de revoltados. Como estariam vendo os jovens a questão da felicidade? Com certeza de forma diferente do que os mais velhos, já assimilados pela sociedade de consumo.  Não procure saber dos jovens em livros, ou em jornais, jovens só se manifestam nas chamadas mídias sociais, me disseram. Não lido muito com esses instrumentos. Pedi para ver o facebook de uma garota conhecida, muito jovem. Estávamos em dezembro, várias amigas virtuais dela colocavam seus desejos para o novo ano que logo se iniciaria. Carros, casas, casamento? Não. Um príncipe encantado, um burguês rico sem encantos, um amor eterno? Também não. Elas queriam “apenas ser felizes”.
No começo eu me encantei. Nenhum pedido material, elas não cediam ao fascínio de uma sociedade consumista, desejavam apenas satisfazer um anseio íntimo, um desejo espiritual, queriam ter a sensação de plenitude que poucos alcançam, essa coisa quase indefinível chamada felicidade. Porém, examinando um pouco mais os relatos dos momentos que essas mesmas garotas definiam como felizes, comecei a perceber que seus anseios não eram tão espirituais assim. Felicidade não tinha cara de estado de espírito, mas de prática social. Havia fórmulas prontas para se determinar quem era feliz: quem não se enquadra nelas, simplesmente não era feliz. Não tinha como ser feliz. Ou, melhor, não era visto como sendo uma pessoa feliz. Pois, como ser feliz sem ingerir muito álcool, ou puxar um fuminho, ou ainda cheirar coca? A felicidade, suposto estado de alma, tinha representações materiais estabelecidas socialmente. Feliz é quem se diverte, e só se diverte quem bebe, se droga e ouve música (ou ruídos ritmados que acabam recebendo esse nome) em volume altíssimo. Nesse particular a felicidade não tem a ver com Mozart, ou Beethoven, coisa de velhos, nem mesmo com Chico e Caetano, mas tem a ver com a cantorazinha com o sucesso de plantão que, como alguém disse, canta mais com a bunda do que com a garganta. Para ser feliz de verdade é necessário ouvir o som, fazer movimentos ritmados, ser possuído pela sonoridade, mostrar desapego. O bafo azedo de álcool expelido, o olhar mortiço, o ar imbecil, a fala desconexa, muitas bocas beijadas. O sexo ocasional com o parceiro eventual, sem amor, sem paixão e quase sem desejo. Mas o mais importante não é viver, é registrar, é colocar na internet, é curtir a felicidade virtual, fingindo que ela foi real.
A felicidade, essa felicidade, começa com sair. Não importa com quem. O importante é sair e registrar. As pernas não podem estar paralelas, melhor ficarem cruzadas. O sorriso precisa ser de hiena, escancarado, para transmitir alegria. Selfiese tira sempre de cima para baixo, a gente sai melhor. Sair e registrar, mostrar a todos que não se ficou em casa. Pois é onde a infelicidade começa. Mesmo que se fique com quem se gosta, mesmo tomando um bom vinho em vez do drink de origem duvidosa, mesmo vendo um bom filme na TV, mesmo lendo aquele livro que estamos loucos de vontade de ler. Ficar em casa? Coisa de perdedor. Loser. Infeliz.
A felicidade impõe que se saia. E que todos saibam que eu saí. Afinal, eu quero ser feliz. Ou não?

ONU alerta para a redução da biodiversidade e para o rápido desaparecimento dos grandes felinos


Biodiversidade desaparece a velocidade mil vezes mais rápida por causa do homem, alerta ONU.
A reportagem foi publicada por ONU Brasil, 05-03-2018. 
O alerta foi dado pela vice-secretária-geral da ONU, Amina Mohammed, que fez um pronunciamento nesta sexta-feira para lembrar o Dia Mundial da Vida Selvagem, observado no sábado (3). Organismo internacional chama atenção para os perigos enfrentados pelos grandes felinos. Há apenas um século, havia 100 mil tigres selvagens vivendo na Ásia. Hoje, existem pouco mais de 4 mil.
Intervenções do homem na natureza fazem com que a biodiversidade do planetadesapareça a uma taxa mil vezes mais rápida do que a estimada para um cenário sem a ameaça de atividades humanas. O alerta é da vice-secretária-geral da ONU, Amina Mohammed, que fez um pronunciamento nesta sexta-feira para lembrar o Dia Mundial da Vida Selvagem, observado amanhã (3).
Entre os problemas por trás da extinção de espécies, estão a destruição e degradação de habitats, as mudanças climáticas, o tráfico ilícito de animais e plantas silvestres e conflitos entre o homem e o meio ambiente. “Essas causas também estão associadas aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 e não podem ser vistas isoladas deles”, afirmou Amina. Como exemplo, a dirigente lembrou o Objetivo de nº 1, que prevê a eliminação da miséria.
“A pobreza pode ser a causa da perda de biodiversidade, como vemos com a caça ilegal e o uso insustentável da terra, incluindo a derrubada e queimada de florestas, o comércio ilegal de madeira e o sobrepastoreio”, disse a dirigente. “A perda da biodiversidade, por sua vez, aumenta a pobreza, uma vez que os ecossistemas se esgotam e se tornam incapazes de sustentar vidas e prover meios de subsistência.”
Amina defendeu que a comunidade internacional “tem de trabalhar obstinadamente para aprimorar a conservação da biodiversidade e para eliminar a ingerência, o comércio ilícito, a corrupção e o tráfico”. “É por isso que temos o ODS de nº 15, para proteger, restaurar e promover o uso sustentável de ecossistemas terrestres, administrar sustentavelmente as florestas, combater a desertificação e reverter a degradação da terra”, acrescentou.

Grandes felinos em risco

A vice-chefe das Nações Unidas também chamou atenção para os riscos de extinção enfrentados pelos grandes felinos, como os leopardos, onças, jaguares, guepardos, leões e tigres. “Há apenas um século, havia 100 mil tigres selvagens vivendo na Ásia. Hoje, existem pouco mais de 4 mil”, lembrou Amina, que cobrou mais compromisso de países e comunidades pela proteção dessas espécies.
“Os grandes felinos são espécies centrais. Protegê-los também significa proteger os vastos habitats em que eles vivem e a ampla variedade de vida que abrigam”, defendeu a dirigente. “A solução para salvá-los, bem como todas as outras espécies ameaçadas ou em perigo, é a conservação baseada na ciência e no Estado de Direito.”
Na avaliação da subsecretária, é necessário um novo paradigma de desenvolvimento, que não considere a conservação da natureza como elemento antagônico ao crescimento econômico.
“As soluções vão além da adoção de leis rigorosas e do estabelecimento de áreas protegidas nacionais. Precisamos de novas formas de parceria entre governos, conservacionistas e comunidades locais para lidar com a conservação da vida silvestre como uma fonte de oportunidades e estabilidade econômica.”
Amina concluiu sua declaração enfatizando que a conservação da vida selvagem é uma “responsabilidade compartilhada” e que todos — consumidores, legisladores e gestores políticos e o setor privado — têm um papel a cumprir na proteção do patrimônio natural do planeta.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/576639-onu-alerta-para-a-reducao-da-biodiversidade-e-para-o-rapido-desaparecimento-dos-grandes-felinos)

Passa de mil o número de ações do MPF contra desmatamento ilegal na Amazônia

Primeira etapa da ação coordenada ainda soma mais de R$ 2 bilhões em multas requeridas.
A reportagem é publicada por Procuradoria-Geral da República, 06-03-2018.
Em apenas três meses do projeto Amazônia Protege, o Ministério Público Federal(MPF) já ajuizou 1.088 ações civis públicas contra o desmatamento ilegal na floresta. Lançado em novembro do ano passado, o programa utiliza imagens de satélite para cobrar na Justiça a reparação ambiental e a responsabilização civil de envolvidos nos desmatamentos de áreas iguais ou superiores a 60 hectares na Amazônia. Ao todo, mil pessoas ou empresas se tornaram réus, e as multas cobradas nas ações já somam R$ 2 bilhões.
As ações apresentadas até o momento foram baseadas em laudos periciais elaborados a partir da análise de imagens de satélite do ciclo de monitoramento 2015/2016 e integram a primeira etapa do projeto. Já na segunda etapa, que está em desenvolvimento, os procuradores irão propor ações com base nas imagens captadas entre 2016 e 2017. O Amazônia Protege tem como propósito efetivar uma mudança de paradigma no combate ao desmatamento ilegal na região. Por meio da análise de imagens de satélite e do cruzamento de dados disponíveis em bancos públicos, a metodologia do projeto permitiu ao MPF identificar os verdadeiros responsáveis pelo desmatamento e/ou seus beneficiários.
“A expectativa é que, a cada novo ciclo de monitoramento por satélite divulgado, novas ações sejam instauradas, para áreas cada vez menores, para ampliar a proteção ambiental na região”, projeta o procurador da República Daniel Azeredo, coordenador nacional do projeto. Participam da ação coordenada 24 unidades do MPF situadas em oito estados da Amazônia Legal (AcreAmazonasMaranhãoMato GrossoParáRondôniaRoraima e Tocantins).
O programa foi desenvolvido pela Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do MPF (4CCR) em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). “Nosso objetivo é reduzir a sensação de impunidade que historicamente impera sobre os crimes contra o meio ambiente no Brasil”, adverte o coordenador da 4CCR, subprocurador-geral da República Nívio de Freitas.
Nas ações já instauradas, o MPF pede indenizações relativas aos danos materiais e morais difusos derivados da remoção da cobertura vegetal; recomposição da área degradada, mediante a sua não utilização para permitir a regeneração natural da floresta; reversão dos valores da condenação para Ibama e ICMBio, para fortalecer a fiscalização; autorização judicial para apreensão, retirada e/ou destruição, pelos órgãos de fiscalização competentes, de bens móveis ou imóveis presentes na área que estejam impedindo a regeneração da floresta.
As informações sobre as áreas identificadas como desmatamento ilegal e sobre as ações já instauradas pelo MPF estão disponíveis no site. A ferramenta sistematiza e facilita a consulta de dados públicos das ações disponíveis no portal da Justiça Federal, permitindo a pesquisa por coordenada geográfica do local, por CPF ou CNPJdos responsáveis ou pelo número da ACP.
O objetivo é evitar a regularização fundiária de áreas com remoção ilegal de vegetação e estimular que compradores de terras e de produtos oriundos da Amazônia (carne e grãos, por exemplo) deixem de alimentar cadeias produtivas predatórias. Além disso, ao identificar as áreas pelas coordenadas geográficas, o projeto contorna um problema comum do combate ao desmatamento atual: o uso de “laranjas” para evitar a responsabilização civil dos reais infratores e beneficiários do desmatamento.
Saiba mais clicando  aqui

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/576690-passa-de-mil-o-numero-de-acoes-do-mpf-contra-desmatamento-ilegal-na-amazonia)