Não bastasse a reiterada omissão em relação às eleições parlamentares,
contribuindo para a miserável qualidade de nosso Legislativo, os
veículos de comunicação têm transformado a cobertura das eleições
presidenciais brasileiras num circo de denúncias deixando de lado a
discussão das propostas para o país.
Tal comportamento seria legítimo caso tais publicações estruturassem um
discurso embasado em provas “robustas”. Entretanto, o que se vê em
diversos momentos é a transformação das palavras de um indivíduo em
material suficiente para expor a vida e a biografia de cidadãos, sejam
eles quem forem. Não estou aqui a fazer juízos de valor, dizendo que os
acusados são inocentes. Entretanto, digo sem pestanejar que isso cria um
risco imenso de transformar inocentes em culpados. Até porque afirmar
que um depoimento basta para concluir que alguém cometeu um crime é o
mesmo que afirmar que “os métodos da Inquisição estavam corretos”, ou
“Tomás de Torquemada estava certo.”
Os veículos de comunicação sabem isso de cor. Até por conta desta
consciência, criaram classificações das fontes, de acordo com sua
confiabilidade. O Manual de Redação da
Folha de S.Paulo, por exemplo, classifica as fontes de
zero a
três,
partindo da mais confiável até a menos confiável. Apesar da citação ser
longa, é interessante observar na íntegra como o jornal as descreve:
“a) Fonte tipo zero - Escrita e com tradição de exatidão, ou gravada
sem deixar margem a dúvida: enciclopédias renomadas, documentos emitidos
por instituição com credibilidade, videoteipes. Em geral, a fonte de
tipo zero prescinde de cruzamento. Para não repetir erros já publicados,
evite ter um periódico do tipo jornal ou revista como única fonte para
uma informação.
b) Fonte tipo um - É a mais confiável nos casos em que a fonte é uma
pessoa. A fonte de tipo um tem histórico de confiabilidade – as
informações que passa sempre se mostram corretas. Fala com conhecimento
de causa, está muito próxima do fato que relata e não tem interesses
imediatos na sua divulgação. Embora o cruzamento de informação seja
sempre recomendável, a Folha admite que informações vindas de uma fonte tipo um sejam publicadas sem checagem com outra fonte.
c) Fonte tipo dois - Tem todos os atributos da fonte tipo um, menos o
histórico de confiabilidade. Toda informação de fonte dois deve ser
cruzada com pelo menos mais uma fonte (do tipo um ou dois), antes de
publicada.
d) Fonte tipo três - A de menor confiabilidade. É bem informada, mas
tem interesses (políticos, econômicos etc.) que tornam suas informações
nitidamente menos confiáveis. Na Folha, há dois caminhos para a
informação de fonte tipo três: funcionar como simples ponto de partida
para o trabalho jornalístico ou, na impossibilidade de cruzamento com
outras fontes, ser publicada em coluna de bastidores, com a indicação
explícita de que ainda se trata de rumor, informação não confirmada.”
Os fins e os meios
Feitos estes esclarecimentos, fica a pergunta: por que a
Folha
está produzindo, dia após dia, manchetes com base nas falas de Paulo
Roberto Costa a respeito de desvios na Petrobras? Não se encaixa ele no
perfil da fonte três – “bem informada, mas [que] tem interesses”? No
caso deste senhor, o interesse é o maior de todos: a liberdade. O
comportamento indicado não seria, portanto, seguir o Manual de Redação
da
Folha de S.Paulo, tratando o depoimento como “ponto de
partida para o trabalho jornalístico”? Ou, no máximo, a matéria “ser
publicada em uma coluna de bastidores, com a indicação explícita de que
ainda se trata de rumor, informação não confirmada”?
Já respondo previamente àqueles que pretendam argumentar que se trata de uma fonte
zero,
já que são gravações. Ora, isso é uma falsa dialética, um “túmulo
caiado”. São gravações de uma pessoa falando, nada mais que isso. É só
um depoimento. Pode conter verdades, ou não, mas por enquanto é só isso.
É antiético e imoral expor as pessoas ao linchamento público só com
base em palavras já que – como costumam dizer os advogados – os
depoimentos são “a prostituta de todas as provas”.
É claro que isto não se restringe a este caso. Nas redes sociais
circulam listas de escândalos que conspurcariam este ou aquele
candidato, este ou aquele partido. Em quantos as pessoas são culpadas de
fato, em quantos elas são inocentes? Difícil responder. Só sei que é
triste imaginar ser bem provável que muitas pessoas honestas tiveram sua
vida profissional e familiar abalada – ou mesmo destruída – por
acusações falsas a que nossa mídia deu eco. Quantas Escolas Base pesam
na conta moral de nossos ilibados meios de comunicação?
Há quem diga que vivemos hoje uma luta do Bem contra o Mal. Pode até
ser. Pode até ser que meu miserável espírito esteja iludido, cego diante
de uma verdade ululante. Mas na minha consciência
berra a
memória de um sujeito que há dois mil anos foi condenado unicamente a
partir das palavras de seus acusadores. Esta vítima da primeira das
inquisições disse: “De que vale o homem ganhar o mundo todo e perder-se a
si mesmo?” Para bom entendedor, isso quer dizer: “Os fins não
justificam os meios.”
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Cristiano Otaviano Verutti é jornalista e professor
(fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed820_noticias_ou_autos_de_inquisicao)