segunda-feira, 23 de março de 2015

Ajuste fiscal e Comunicação




“Não faço porque gosto”, disse a presidente Dilma, sobre o ajuste fiscal, no evento de que participou hoje com o MST, no Rio Grande do Sul. Nenhum governante deve gostar mesmo de tomar medidas antipáticas sabendo que pagará o custo da impopularidade.  O problema, como reconheceu um documento atribuído ao Planalto, é que o governo não conseguiu até agora explicar as medidas relacionadas com direitos trabalhistas e previdenciários que compõem o ajuste fiscal, que é mais amplo.

As restrições de acesso ao seguro-desemprego e à pensão por morte foram as primeiras a serem anunciadas, foram mal explicadas e afetaram diretamente a base social do governo: sindicatos e centrais sindicais, trabalhadores de baixa renda, a emergente Classe C. Deu no que deu. Parte do andar de baixo marchou com o andar de cima na avenida Paulista.

Comecemos pelas restrições à pensão por morte. Quem não conhece a história de um idoso de 80 anos que se casou com uma jovem de 20 e morreu meses depois, deixando-lhe uma gorda pensão previdenciária? É justo isso para com a maioria dos filiados ao INSS que pagam suas contribuições e têm suas aposentadorias reduzidas pelo Fator Previdenciário?  Pensão é direito, não é patrimônio que se deixa como herança. Recentemente um juiz anulou um casamento depois da morte de uma idosa que deixou para um marido-garoto uma pensão de quase 10 mil reais.  O pacote de Dilma exige apenas que, para haver pensão, o casamento tenha que ter ocorrido pelo menos dois anos antes da morte do cônjuge que deixa a pensão.  Isso nem as centrais sindicais nem os partidos dizem. Nem os aliados nem os da oposição.

A outra grita é contra a redução do acesso ao seguro desemprego. Olhando os números, qualquer um percebe que há algo errado nisso.  Entre 2003 e 2013 o numero de beneficiados saltou de 5,1 milhões de trabalhadores para 8,9 milhões. E os gastos, de 6,6 bilhões de reais para 31,9 bilhões. Numa época em que o Brasil viveu praticamente no pleno emprego, o que explica isso, senão o “jeitinho brasileiro”?

  Trabalhadores e empregados andaram acertando demissões falsas, permitindo que o empregado sacasse o auxílio, continuasse trabalhando sem carteira assinada, aliviando o patrão dos encargos. Para fechar a torneira, o governo exige, no pacote do ajuste, que para ter direito ao benefício o empregado tenha que ter trabalhado 18 meses nos 24 anteriores ao pedido.  Pode até haver aí o tal erro de calibrage. Talvez o prazo (que antes era de apenas seis meses) possa ser reduzido mas o sentido da medida é correto.

Mas estas duas medidas, até agora, o governo não conseguiu explicar direito. Nem Dilma, nem ministros, nem parlamentares aliados.  Enquanto isso,  nas ruas, as pessoas continuam repetindo, sem saber o que estão dizendo, que a malvada Dilma está acabando com o seguro-desemprego e com a pensão das velhinhas do INSS.

domingo, 22 de março de 2015

A volta dos que não foram

Texto escrito por José de Souza Castro:
Na véspera do fatídico 15 de março, o líder do PT na Câmara dos Deputados, Sibá Machado, publicou o seguinte: "Suspeita: Que a CIA esteja coordenando a Campanha pelo enfraquecimento dos governos da América do Sul 'não alinhados', tal como fizeram para instalar as Ditaduras Militar nos anos 60. A 'Orquestra é completa'!"
O deputado petista foi ridicularizado – e não só pelo erro de concordância.
Mas não se pode simplesmente descartar a suspeita. Nem só petistas veem fumaças nestes nossos céus, do lado de cá das Américas. Mark Weisbrot, economista dos Estados Unidos que preside a Just Foreign Policy e codirige o Centro de Pesquisa sobre Economia e Política (CEPR, em inglês), é um deles. Seus artigos são publicados nos jornais "New York Times", "The Guardian" e "Folha de S.Paulo" – que, por sinal, até onde sei, não publicou o último, intitulado "Obama prepara o cerco à Venezuela".
O jornal paulista, porém, não ignorou o que Weisbrot escreveu em abril de 2013, alertando sobre as mãos dos EUA sobre a América Latina.
Começava por dizer que "acontecimentos recentes indicam que a administração Obama intensificou sua estratégia de ‘mudança de regime’ contra os governos latino-americanos à esquerda do centro, promovendo conflito de maneiras que não eram vistas desde o golpe militar apoiado pelos EUA na Venezuela em 2002. O exemplo mais destacado é o da própria Venezuela na última semana. No momento em que este artigo está sendo impresso, Washington está mais e mais isolada em seus esforços para desestabilizar o governo recém-eleito de Nicolás Maduro". E concluía:
"É bom ver Lula denunciando os EUA por sua ingerência, e Dilma juntando sua voz ao resto da América do Sul para defender o direito da Venezuela a eleições livres.
Mas não apenas a Venezuela e as democracias mais fracas que estão ameaçadas pelos EUA.
Conforme relatado nas páginas deste jornal, em 2005 os EUA financiaram e organizaram esforços para mudar a legislação brasileira com vistas a enfraquecer o PT. Essa informação foi descoberta em documentos do governo americano obtidos graças à lei americana de liberdade de informação. É provável que Washington tenha feito no Brasil muito mais e siga em segredo.
Está claro que os EUA não viram o levemente reformista Fernando Lugo como um elemento ameaçador ou radical. O problema era apenas sua proximidade excessiva com os outros governos de esquerda.
Como a administração Bush, a administração Obama não aceita que a região mudou. Seu objetivo é afastar os governos de esquerda, em parte porque tendem a ser mais independentes de Washington. Também o Brasil precisa se manter vigilante diante dessa ameaça à região."
No artigo mais recente, divulgado no Brasil, há poucos dias, por sites como Outras Palavras, Mark Weisbrot afirma que no dia 10 de março a Casa Branca deu mais um passo rumo ao teatro do absurdo, ao declarar "emergência nacional com respeito à inusual e extraordinária ameaça à segurança nacional e à política exterior dos EUA que se manifesta na situação na Venezuela" – como o presidente Obama escreveu em carta que enviou ao presidente do Congresso, John Boehner.
Acrescenta o economista norte-americano:
"Falta ver se alguém, do valente corpo de jornalistas que cobre a Casa Branca, terá coragem de perguntar o que, afinal, o chefe do executivo da nação mais poderosa do universo pensou que estivesse dizendo na tal carta. O quê?! Estará a Venezuela financiando iminente ataque de terroristas contra os EUA? Planeja invadir território norte-americano? Está construindo bomba atômica?
A quem essa gente pensa que engana? Alguns alegaram que o linguajar tinha de ser esse, porque é o que a lei dos EUA exige, para impor a mais recente rodada de sanções contra a Venezuela. Mas não melhora coisa alguma alegar, como se fosse defesa, que a lei norte-americana autoriza o presidente a dizer mentiras à vontade, para contornar o que não queira confessar.”
Alguém leu alguma coisa sobre isso na imprensa-empresa em língua inglesa? Provavelmente, também nada se leu sobre a imediata reação do presidente da União de Nações Sul-americanas ao golpe da Casa Branca, em 10/3: "A Unasul rejeita qualquer tentativa externa ou interna de interferência que busque qualquer violência contra o processo democrático na Venezuela."
Washington já esteve envolvida na tentativa de golpe militar, rapidamente derrotada em 2002, na Venezuela; deu "treinamento, construção de instituição e outros apoios a indivíduos e organizações que se sabia estarem ativamente envolvidos no golpe" contra o presidente Hugo Chávez (golpe que durou apenas algumas horas) – segundo o Departamento de Estado dos EUA.
Os EUA não mudaram sua política para a Venezuela depois daquilo e continuaram a financiar grupos de oposição naquele país. Assim sendo, nada mais normal do que todos que conheçam essa história recente e conheçam o conflito entre EUA e América Latina também no golpe militar de 2009 em Honduras, imediatamente concluam que, sim, Washington está novamente envolvida em golpismos para derrubar governo democraticamente eleito.
(...) Praticamente há 15 anos, sem interrupção, veem-se esforços para derrubar o governo democraticamente eleito da Venezuela.  Por que seria diferente agora, quando a economia está em recessão e houve tentativa para derrubar o governo venezuelano ainda no ano passado?
Aliás… alguém alguma vez ouviu falar de tentativa de golpe para derrubar governo democrático, independente e progressista na América Latina, na qual Washington não estivesse metida? Pergunto porque eu, nunca."
E conclui o autor:
"Washington mostra, frente à América Latina, a face do extremismo. Apesar de algumas mudanças em algumas áreas da política exterior (por exemplo, a abertura de Obama em relação ao Irã), a face do extremismo norte-americano não mudou em nada, desde os dias em que Reagan 'alertava' o país de que os sandinistas nicaraguenses estavam 'a apenas dois dias de viagem, de carro, de Harlingen, Texas.' Foi ridicularizado por Garry Trudeau em 'Doonesbury' e por outros chargistas.
A Casa Branca de Obama, Reagan redux, merece o mesmo tratamento."
Tenho motivos, ao ler Mark Weisbrot (e, por que não, Sibá Machado?), de sentir-me perdoado por ter escrito neste blog, no dia 5 de fevereiro, um artigo pouco lisonjeiro, dependendo do ponto de vista, à embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Liliana Ayalde, que continua muito discreta. E me animo, aos que não leram, a indicar onde pode ser encontrado e, se possível, não ser imediatamente descartado como mais uma infundada teoria da conspiração: AQUI.
Muito mais importante, porém, é ler este artigo de Victor Farinelli. O autor mostra que só neste século 21 ocorreram na América Latina seis golpes de Estado. Um a cada dois anos e meio. Todos envolvendo governantes que fizeram alianças com partidos de esquerda ou centro-esquerda. Atualmente, três países vivem situações simultâneas de instabilidade institucional: Venezuela, Argentina e Brasil.
O autor conclui o artigo com otimismo – que compartilho: "Contudo, não estou apostando em que pode acontecer um sétimo golpe, ou em quão breve isso poderia ocorrer, ainda que haja os que não acreditam em bruxas mas sabem que elas existem – e alguns ainda arriscam dizer de que país elas vêm."
(fonte: blog da KikaCastro)

sábado, 21 de março de 2015

Polêmica: tapar o sol com peneiras?




A esquerda crítica não tem motivo algum para negar a insatisfação popular contra o governo – muito menos, para desqualificá-la…
Por Tadeu Breda |

Em dois meses e meio de segundo mandato, Dilma e PT parecem bastante encrencados. As manifestações de 15 de março são provas cabais de que as tentativas de conciliação nacional fracassaram rotundamente.
O desespero deve estar espesso feito neblina nos corredores do Planalto. Com razão. O governo parece não saber o que fazer diante de ativistas virtuais que se mostraram surpreendentemente reais. São pessoas que não se destacam pela formação política, não dispõem de discursos articulados ou argumentos sólidos, mas que gritam bem alto e mobilizam com inquestionável eficácia.
Claro que estão sendo ajudados material ou simbolicamente pelos partidos da oposição. Alguns desses novos líderes dividem seu tempo entre a militância nas redes e o trabalho no governo paulista, por exemplo. Também se fala em assistência internacional de atores sociais e econômicos norte-americanos. Nada disso deveria surpreender nem alarmar.
Se movimentos de esquerda brasileiros trocam experiências com seus pares latino-americanos, europeus, africanos, por que os ativistas de direita não fariam o mesmo? Recursos estrangeiros para financiar a defesa e intensificação do status quo jorram desde sempre. Basta acenar com a mão para recebê-los. A ligação com partidos tradicionais tampouco deveria escandalizar. Sabe-se (e não se deveria criminalizar, como se costuma fazer à direita) da ligação entre partidos de esquerda e organizações populares, estudantis, sindicais.
Temos visto um debate bastante pobre, em que parte da esquerda, perplexa, reproduz alguns discursos deslegitimadores da mobilização social que até então ficavam restritos à direita. Governistas e antigovernistas, com petistas e antipetistas à frente, têm se limitado a apontar os dedos uns para os outros, numa disputa insana que alimenta a espiral do ódio e da incompreensão. Mas a esquerda crítica pode se salvar caso consiga desvencilhar-se do debate rasteiro e tente compreender – em vez de apenas rechaçar – o que está acontecendo na sociedade brasileira.
É preciso deixar de ridicularizar instantaneamente os recentes protestos e panelaços. Os comentários que reinaram nas redes esquerdistas após as vaias recebidas por Dilma no discurso do Dia Internacional da Mulher erraram o alvo. Preferiram deslegitimar os reclames residenciais em vários aspectos: porque chamaram a presidenta de “vaca” e “vadia”; porque os ruídos teriam emanado das exclusivíssimas panelas Le Creuset; porque os descontentes jamais haviam pegado na caçarola para cozinhar o próprio feijão; porque sequer deixaram o conforto de suas varandas-gourmet para xingar a presidenta; porque os desagradáveis barulhos foram ouvidos apenas nos bairros mais chiques.
Quando os autores do panelaço desceram pra rua, uma semana depois, começou-se a dizer que eram apenas brancos loiros da elite; que não havia negros nem gente da periferia pedindo impeachment; que bonecos do Lula e da Dilma degolados, cartazes reivindicando intervenção militar e abraços calorosos na polícia revelavam os motivos inconfessáveis da massa ignara; que as contagens do Datafolha, até então braço estatístico da tal “imprensa golpista”, desmentiram a PM e expressaram a verdade sobre o número de manifestantes reacionários; que vestir-se com a camisa da Confederação Brasileira de Futebol e reclamar de corrupção era prova de que essas pessoas não sabem o que estão fazendo.
Mais ou menos verdadeiras, mais ou menos relevantes, o fato é que nenhuma dessas críticas alcança o nervo. Tampouco rompem com a lógica que alimenta o confronto PT x Anti-PT que estamos vendo e vivendo com cada vez mais intensidade. Serve para produzir memes e viralizar entre os amiguinhos nas redes sociais. Serve também pra arrancar boas risadas – e os deuses atestam a importância do riso. Mas só. A tentativa de compreensão passa longe.


O que muita gente de esquerda tentou fazer depois dos panelaços e protestos foi se agarrar em alguns casos isolados e acreditar – ou fazer acreditar – que representavam o todo. Nada mais falso, nada mais direitoso. Parece a Veja tentando destruir lutas sociais inteiras porque um integrante do movimento quebrou vidraças ou xingou o repórter da Globo. Pode ser que alguém tenha batido frigideiras francesas durante o discurso da Dilma, o pronunciamento de seus ministros e sua aparição no Jornal Nacional. Mas é óbvio que nem todos os paneleiros fizeram o mesmo. Caso contrário, a Le Creuset seria uma das empresas mais lucrativas no país. O mesmo com as especulações sobre varandas-gourmet: não há tantas assim em São Paulo, há?
Quanto ao machismo, presidenta ou não, é indiscutível que chamar uma mulher de “vaca” ou “vadia” é uma atitude detestável. Mas não tem a ver essencialmente com machismo os palavrões cuspidos contra Dilma. Numa sociedade como a nossa, que submete, tolera e por vezes incentiva inúmeras formas de violência contra a mulher, deve indignar, claro, mas não deveria ser inesperado que uma chefa de Estado padecesse o mesmo mal que tantas brasileiras todos os dias. Num acesso de raiva, a ofensa sexista é a primeira que vem à língua. Odioso, mas hemos de convir que machismo, no caso do panelaço, é apenas um ramo da querela, não seu caule – e muito menos suas raízes. Não há porque deslegitimar o protesto por causa disso, mesmo que, com isso, a grita se empobreça ainda mais. Até porque não implodimos reivindicações de amplos setores da esquerda, que são justas, apenas porque seus representantes são machistas.
O buraco também é mais profundo do que sugerem as avaliações de que a rebeldia vem apenas da elite. As pesquisas indicam que a popularidade do governo está ruim em todos os níveis sociais, mas ninguém pode negar que os opositores mais ferrenhos de Dilma estão concentrados nas classes média, média alta e alta. Pode-se considerar que, num país desigual, como o Brasil, quem está localizado nestes estratos faz parte de uma certa elite. Sim. Mas a imagem de madames oxigenadas e coxinhas de camisa polo babando impropérios carece de fundamento. Acontecem, claro, mas são demonstrações marginais frente a um mar de descontentamento.
A multidão que foi à Avenida Paulista no domingo era essencialmente a mesma gente comum que caminha pelos centros da cidade, indo e voltando do trabalho todos os dias. Estão nos shoppings, nas academias, nas universidades públicas e privadas. Pobres e miseráveis? Talvez alguns poucos, quase imperceptíveis. Majoritariamente brancos? Sem dúvida. Podres de rico? Certamente não, quiçá uns quantos aqui e ali. Mas a esquerda também possui membros cheios da grana – e que não devem ser menosprezados apenas por isso, como costuma ocorrer.
Do lado de cá, tampouco temos conseguido mobilizar massivamente as periferias. Nem por isso nos apressamos em dizer que nossas demandas são injustas. Recentemente, o próprio PT tentou desmoralizar os protestos contra o aumento das tarifas de transporte público em São Paulo dizendo que os manifestantes não passavam de riquinhos revoltados sem causa. Um belo argumento, não? A direita faz o mesmo quando convém – e já passou da hora de jogar no lixo os argumentos de conveniência. As críticas sobre ausência de negros ou moradores dos bairros mais pobres nas manifestações de domingo, por mais que sejam parcialmente verdadeiras, são inócuas para a causa que está sendo defendida nas ruas.
Ao reclamar do excessivo poderio de alguns aristocráticos empresários de rádio, jornal e TV, o governo parece esquecer que teve doze anos para reduzi-lo e distribui-lo, com vistas à construção de uma comunicação mais justa e condizente com a realidade do país. Sequer tentou. Reclamar é sempre mais fácil que lutar, mesmo quando se tem consigo uma parcela significativa da população disposta a vestir vermelho e tomar as ruas em prol de mudanças reais. Ou tinha.
Nestes dois meses e meio de mandato, Dilma se afastou ainda mais dos eleitores que a elegeram esperando uma fantasiosa guinada à esquerda. A nomeação de ministros em nada identificados com as lutas sociais e as políticas de ajuste fiscal que penalizam os penalizados de sempre enquanto aliviam a barra dos mais beneficiados acabaram por divorciar o governo da esquerda. Apenas setores mais fanáticos recusam-se a enxergá-lo. E ainda acreditam que, convocado, o povo vai pra rua defender seus líderes. É um governo que agrada os dirigentes da burocracia social, vira as costas para as bases e afaga adversários, enquanto intensifica injustiças contra camponeses e indígenas com obras de “desenvolvimento” nos rincões do país. Não há como defendê-lo à esquerda.
Por isso, não devemos entrar no teatrinho encenado por petistas e antipetistas. É um jogo de fantoches que serve ao poder e não ao empoderamento. Se é verdade que toda crise guarda também sua dose de oportunidade, ei-la. Nós sabemos que a corrupção não é culpa exclusivamente dos partidos que ora ocupam o Planalto, a Esplanada e as empresas públicas da União. Nós sabemos que o sistema está corrompido há décadas. Nós sabemos a quem serve o Estado. Por isso, não devemos santificar o resultado das eleições como alguns setores progressistas vêm fazendo de maneira inédita. Se a esquerda sempre defendeu que política se faz todos os dias, que as urnas são pequenas demais para comportar nossos sonhos, por que esse fetiche agora com o resultado do pleito?
Demonstrar insatisfação com um determinado governo e pedir sua saída pelas vias constitucionais não é mero golpismo. Assim sendo, fomos e somos golpistas convictos quando pedimos Fora FHC, Fora Collor, Fora Alckmin, Fora Maluf, fora tantos outros governantes corruptos, irresponsáveis e assassinos que já ocuparam palácios de norte a sul do país. Não acredito que os senhores em questão se comparem à figura de Dilma, que os supera largamente em dignidade, mas compreendo que os eleitores da direita façam juízo semelhante à presidenta de turno. Por mais que discorde dos motivos que os fazem gritar pelo impeachment, não posso desmerecê-los porque sim. Seria tremenda hipocrisia.
Os golpistas convictos existem e também estavam nas ruas no domingo. Portavam desavergonhadamente cartazes reivindicando intervenção militar. Aliás, ninguém naquela multidão aparentava constrangimento. Estavam todos muito à vontade – o que também deve ser sinal de alguma coisa que não esse nazifascismo monstruoso de que tanto se fala nas redes esquerdistas. Sabe aquele familiar com quem sempre acabamos discutindo na ceia de Natal? Aquele pai, aquela mãe, aquele irmão, tio ou primo que é gente fina, trabalhador, engraçado, mas que não compartilha absolutamente nada de suas convicções políticas? Ele poderia perfeitamente haver marchado na Paulista dia 15 de março. Se é que não marchou. É triste que estivesse ombro a ombro com verdadeiros tresloucados ideológicos. Mas talvez nem tenha percebido – e isso é ainda mais triste.
Toda a formação política que temos ou julgamos ter, as horas intermináveis de leituras, reflexões e discussões, as causas em que nos metemos e as mobilizações de que participamos não parecem haver resultado no mesmo poder de convocação e persuasão de que goza, hoje, um grupinho de rapazes com a ajuda da internet e um corolário de lugares-comuns que colam bem nos telejornais da noite. Que há algo muito errado com o PT, já sabemos faz bastante tempo. Mas agora percebemos que também há algo muito errado com a esquerda em geral. Perder a lucidez diante da adversidade e deixar-se levar pelo que dizem piadas engraçadinhas de internet pode nos conduzir a um lugar ainda pior que a perplexidade.

(fonte: http://outraspalavras.net/brasil/polemica-tapar-o-sol-com-peneiras/)

quarta-feira, 18 de março de 2015

E, de repente, te descobri meu inimigo: revendo Concorrência desleal


MARCELO GRUMAN*

concorrencia
Outro dia, revi Concorrência desleal, comédia dramática italiana dirigida por Ettore Scola no ano de 2001. A história, que se passa no início do ano de 1938, às vésperas da visita de Adolf Hitler à capital italiana, é narrada por Pietro, filho de Umberto, proprietário de uma tradicional alfaiataria. Na mesma calçada, na loja contígua, o senhor Leone toca em frente seu pequeno armarinho. Pietro e Lele, filho do senhor Leone, são muito amigos. Têm talvez seus sete ou oito anos, trocam figurinhas, gostam dos mesmos personagens das histórias em quadrinhos, realizam pequenas sabotagens aos bondes que passam na rua instalando bombinhas nos trilhos, são cúmplices na observação secreta da bonita vendedora de perfumes. O filho mais velho de Umberto, Paolo, e a filha mais velha de Leone, Susana, estão apaixonados e trocam cartas de amor; ele estuda Arquitetura, ela freqüenta o conservatório onde aprende piano.
As relações entre as famílias, que já não eram lá muito boas, azedam por completo quando Leone resolve vender roupas prontas, portanto mais baratas que as feitas sob medida, e “rouba” parte da clientela da alfaiataria de Umberto. “Traiçoeiros” e agindo como uma “quadrilha”, Leone, sua mulher e seu pai estão sempre um passo à frente de Umberto, aproveitando-se de suas idéias (por exemplo, quando o alfaiate resolve fazer um festival de roupas de marinheiro, usando o bordão “todos ao mar!”), expandindo-as. Tudo tem um limite, pensa Umberto.
Quando seu cunhado desempregado compra um terno no armarinho para uma entrevista de emprego, o alfaiate perde as estribeiras. Vai ao encontre de Leone para devolver-lhe o terno e tomar de volta o dinheiro gasto com o concorrente. Depois de breve discussão, os dois começam a trocar insultos, saem para a rua e, sob os olhares de familiares e transeuntes, Umberto vomita a frase fatídica: “Uma vez judeu, sempre judeu”. Imediatamente, sente que não deveria ter dito o que disse e que o constrangimento ficou tão denso que poderia ser cortado com uma faca. O senhor Leone foi pego de surpresa, Pietro e Lele trocam olhares. Até este momento, a identidade judaica do senhor Leone e de seus familiares não havia aparecido na narração de Pietro.

A partir de então, o espectador é inserido de forma mais clara no cotidiano italiano pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial. Enquanto Pietro se diverte lendo as novas aventuras de seu herói em quadrinhos, Lele lê as manchetes do jornal, tratando de discussões acerca das novas leis raciais que passaram a vigorar no país neste ano de 1938. Num dos jornais pode-se ler o título “grande raça ariana, pequena raça judia”. Enquanto isso, o delegado responsável pela investigação do incidente envolvendo a devolução do terno do cunhado pergunta se Umberto teria alguma coisa a acrescentar além do desentendimento comercial, fruto da concorrência, especialmente à questão da sua “italianidade” em oposição à “estrangeirice” (apesar de ter nascido em solo italiano) do senhor Leone. Umberto não leva adiante o entrevero.

As más notícias para a família judia vêm num crescente, preparando o espectador para o final previsível. Entre inúmeros desfiles dos camisas negras fascistas, Paolo e Susana brigam porque Paolo não a defendeu quando seus amigos, numa mesa de bar, contaram piadas ofensivas aos judeus. Para Paolo, Susana é como outra mulher qualquer, querendo dizer com isso que sua identidade religiosa/étnica/racial pouco lhe importa. Susana não fica contente com a resposta, e responde que Paolo é como outro qualquer, ou seja, antissemita. Leone e amigos lêem que as leis raciais passariam a impedir que judeus exercessem determinadas profissões como jornalista, médico, advogado, tabelião, engenheiro, arquiteto, professor de escolas, institutos e universidades. A empregada doméstica deve ser mandada embora, porque famílias judias não podem empregar católicos/arianos. O rádio da família é confiscado. Lele não pode mais freqüentar a escola, bem como sua irmã, Susana, que é obrigada a abandonar o conservatório. Finalmente, a família judia deve sair de casa e seguir para um gueto nos arredores, onde já vive uma avó de Lele, escala antes de seu destino final, o extermínio.

Na época do lançamento do filme, Ettore Scola emitiu a seguinte nota:

“Viver na mesma cidade, na mesma rua, fazer o mesmo tipo de trabalho, pertencendo ao mesmo meio social, tendo o mesmo tipo de família – uma esposa, duas crianças, tias, tios, avós – e ainda não ser igual, não ter os mesmos direitos, não poder freqüentar as mesmas escolas nem exercer sua profissão ou abrir seu próprio negócio por sofrer intolerância e exclusão. Descobrir que você é considerado “diferente”, por nascimento ou devido à raça. Isto foi o que aconteceu no passado, com os judeus e os negros. Hoje, isto está acontecendo na Europa com os imigrantes e trabalhadores que vêm do outro lado da União Europeia”

Uma década e meia após o lançamento de Concorrência desleal, vivemos num mundo, na melhor das hipóteses, igual. A intolerância e a indiferença com o “outro” crescem a olhos vistos. No brilhante relato do jornalista norte-americano Philip Gourevitch, Gostaríamos de informá-lo que amanhã seremos mortos com nossas famílias, membros pertencentes às etnias tutsi e hutu, de Ruanda, antes de serem submetidos pelo império belga à velha tática do “dividir para conquistar”, estabeleciam relações de camaradagem, eram amigos, tomavam sua cervejinha, conversavam sobre futebol. Em questão de meses a afinidade transformou-se em estranhamento, do estranhamento veio a indiferença, último estágio para que o ódio permita a instalação de um regime genocida que matou, proporcionalmente (em quantidade e em tempo), mais gente do que o holocausto judeu da Segunda Guerra Mundial. Isto ocorreu em meados dos anos 1990.

Em Concorrência desleal descobre-se uma italianidade, ou falta dela, cinco décadas depois do nascimento, e que uma condecoração militar recebida por bravura na Primeira Guerra Mundial foi um engano. Até recentemente, na África do Sul, a polícia media a temperatura da cama onde, a partir de denúncia anônima ou não, um casal formado por branco (a) e negra (o) supostamente praticava o ato sexual. Se a temperatura estivesse acima do normal, confirmando a denúncia, sanções eram aplicadas aos transgressores da legislação racista do Apartheid.

Hoje, a extrema-direita se alastra por diversos países europeus pregando a intolerância e a expatriação de “indesejados”, apesar de cidadãos. Vizinhos de longa descobrem-se incompatíveis porque de religiões diferentes, apesar de compartilharem inúmeras outras formas de identificação. O próximo transforma-se em distante, mais do que isso, uma ameaça à integridade simbólica daquilo que os fundamentalistas chamam de “nação”. As fobias nunca estiveram tão em voga, de tudo e de todos. O multiculturalismo está perdendo a guerra. Até por aqui as coisas não andam lá tão tranqüilas. Amizades morreram ou foram gravemente feridas durante as últimas eleições presidenciais, quando petistas e peessedebistas se entrincheiraram e de suas trincheiras nunca mais saíram.

No documentário Promessas de um novo mundo, a esperança de uma resolução para o conflito israelense-palestino reside nos olhos dos recém-nascidos, filhos de judeus ultra-ortodoxos e de palestinos que vivem na mesma região, olhos ainda puros que vêem o mundo sem preconceito, intolerância, rancor, desprezo pelo “outro”, pelo “diferente”. Em Concorrência desleal, a esperança é resumida na frase de Pietro, enquanto observa o caminhão levando embora seu amigo Lele junto com sua família para fora da rua, “higienizando-a”. Diz ele que “Não há o que fazer. Os que tomam óleo de fígado de bacalhau juntos ficam amigos por toda a vida”.

O filme de Scola é mais atual do que nunca, infelizmente.
 (fonte: https://espacoacademico.wordpress.com/2015/03/18/e-de-repente-te-descobri-meu-inimigo-revendo-concorrencia-desleal/)

terça-feira, 17 de março de 2015

A besta está solta, e foi solta por mãos hábeis e praticamente invisíveis

Todo e qualquer movimento que o Governo Federal tomar daqui por diante será tachado de demagogia, ações para esconder os fatos e outras coisas do gênero, pois atualmente a lógica não é mais ditada por atos nacionais..

Saem milhares de pessoas as ruas dentro da maior desordem doutrinária possível, uns pedem simplesmente o combate à corrupção, outros a retirada constitucional da presidência, terceiros pedem não só a retirada da presidência como a colocação do PT na ilegalidade, os mais exaltados pedem um golpe militar e no extremo temos aqueles que pedem a intervenção de países estrangeiros..

Toda esta confusão doutrinária parece algo que ocorre ao azar, porém se formos comparar com revoltas em outras partes do mundo, o cenário brasileiro se encaixa como uma luva..

As revoluções coloridas, rosa, laranja, das tulipas, nos países da ex-união soviética ou as primaveras ou outonos todos tem exatamente esta característica, uma falta de um programa concreto para a substituição dos governantes, apoio de movimentos de extrema direita composta de militantes lúmpens sem aparente origem, mas com características sinistras e obscuras, apoio secundário de oposições tradicionais que são suprimidas fisicamente ao longo do tempo, e o pior de tudo, tendo como resultado simplesmente a desorganização econômica, política e social dos países em que estas revoluções partidas das redes sociais têm êxito.

Os movimentos atuais não têm interlocutores, simplesmente porque é este o objetivo, vejam políticos tradicionais de oposição como o ex-presidente FHC se mantém afastados destes movimentos mostrando eventuais simpatias a eles. O próprio Aécio Neves, que poderia tentar capitalizar todo este descontentamento mantém-se com um olhar discreto e bucólico por uma janela às manifestações que ocorriam..

Quem tem mais de sessenta anos e um bom conhecimento da nossa história recente, se for um pouco perspicaz verá que os rumos destas manifestações não seguem a padrões que vimos, por exemplo, em 1964.

Naquela época, a “mão invisível” pensava em retirar a esquerda do poder de todos os países e substituí-las por governos militares fortes e aliados a um programa de internacionalização da economia. O governo de Castelo Branco, o general preferido por forças externas, seguiu exatamente este padrão. Entretanto nos dias atuais devido à complexidade da economia internacional e nacional, a mesma “mão invisível” dos movimentos nacional e internacionais, não se interessa mais por isto, pois um governo militar forte, podem, por razões que ocorrem muitas vezes ao azar, cair nas mãos de setores nacionalistas com um projeto definido perdendo o objetivo central da “mão invisível”..

Falei em objetivo central, mas não deixei claro o que é este objetivo, não deixei claro, pois este se esgota exatamente no desarranjo de toda e qualquer possibilidade de um grupo político, de direita ou de esquerda, de tomar o poder e reconstituir o Estado em torno de uma plataforma qualquer porém unitária..

Pode parecer algo surreal, mas o objetivo que está por trás de tudo está simplesmente na desestruturação do Estado, na secessão e implosão do território nacional. Um objetivo estúpido que não serve a nenhuma força ou tendência política nacional, nem a direita e muito menos a esquerda..

Poderia tentar demonstrar claramente o porquê deste objetivo de desestruturação do Estado, mas no lugar de cair em longas digressões posso simplesmente dizer. A quem interessa estados nacionais fracos? Quem sai lucrando com estes Estados envolvidos em lutas internas de fracções difusas e sinistras?.

Quem responder corretamente estas perguntas conseguirá entender perfeitamente tudo que se desenrolou em outros países e que parece ser o nosso futuro. Também a resposta a estas perguntas, mostra quem está por trás destes aparentes movimentos sem lideres e sem programa, e talvez, numa possibilidade remota quem entender isto talvez não vista com tanta facilidade camisetas coloridas, para protagonizar mais uma revolução, a verde, que com o passar do tempo verão quão manipulados foram pela “mão invisível” (não do mercado) e para onde esta “mão” nos levará..

Há um livro que seu conteúdo não é lá muito legível e compreensível, e não recomendo a perda de tempo na sua leitura, porém o seu título é verdadeiramente forte e fantástico, e o título é:.

NINGUÉM VIVE IMPUNIMENTE A DELÍCIA DOS EXTREMOS.



fonte: http://jornalggn.com.br/blog/rdmaestri/a-besta-esta-solta-e-foi-solta-por-maos-habeis-e-praticamente-invisiveis