A esquerda crítica não tem motivo algum para negar a insatisfação popular contra o governo – muito menos, para desqualificá-la…
Por
Tadeu Breda |
Em dois meses e meio de segundo mandato, Dilma e PT parecem bastante
encrencados. As manifestações de 15 de março são provas cabais de que as
tentativas de conciliação nacional fracassaram rotundamente.
O desespero deve estar espesso feito neblina nos corredores do
Planalto. Com razão. O governo parece não saber o que fazer diante de
ativistas virtuais que se mostraram surpreendentemente reais. São
pessoas que não se destacam pela formação política, não dispõem de
discursos articulados ou argumentos sólidos, mas que gritam bem alto e
mobilizam com inquestionável eficácia.
Claro que estão sendo ajudados material ou simbolicamente pelos
partidos da oposição. Alguns desses novos líderes dividem seu tempo
entre a militância nas redes e o trabalho no governo paulista, por
exemplo. Também se fala em assistência internacional de atores sociais e
econômicos norte-americanos. Nada disso deveria surpreender nem
alarmar.
Se movimentos de esquerda brasileiros trocam experiências com seus
pares latino-americanos, europeus, africanos, por que os ativistas de
direita não fariam o mesmo? Recursos estrangeiros para financiar a
defesa e intensificação do
status quo jorram desde sempre.
Basta acenar com a mão para recebê-los. A ligação com partidos
tradicionais tampouco deveria escandalizar. Sabe-se (e não se deveria
criminalizar, como se costuma fazer à direita) da ligação entre partidos
de esquerda e organizações populares, estudantis, sindicais.
Temos visto um debate bastante pobre, em que parte da esquerda,
perplexa, reproduz alguns discursos deslegitimadores da mobilização
social que até então ficavam restritos à direita. Governistas e
antigovernistas, com petistas e antipetistas à frente, têm se limitado a
apontar os dedos uns para os outros, numa disputa insana que alimenta a
espiral do ódio e da incompreensão. Mas a esquerda crítica pode se
salvar caso consiga desvencilhar-se do debate rasteiro e tente
compreender – em vez de apenas rechaçar – o que está acontecendo na
sociedade brasileira.
É preciso deixar de ridicularizar instantaneamente os recentes
protestos e panelaços. Os comentários que reinaram nas redes
esquerdistas após as vaias recebidas por Dilma no discurso do Dia
Internacional da Mulher erraram o alvo. Preferiram deslegitimar os
reclames residenciais em vários aspectos: porque chamaram a presidenta
de “vaca” e “vadia”; porque os ruídos teriam emanado das exclusivíssimas
panelas Le Creuset; porque os descontentes jamais haviam pegado na
caçarola para cozinhar o próprio feijão; porque sequer deixaram o
conforto de suas varandas-gourmet para xingar a presidenta; porque os
desagradáveis barulhos foram ouvidos apenas nos bairros mais chiques.
Quando os autores do panelaço desceram pra rua, uma semana depois,
começou-se a dizer que eram apenas brancos loiros da elite; que não
havia negros nem gente da periferia pedindo impeachment; que bonecos do
Lula e da Dilma degolados, cartazes reivindicando intervenção militar e
abraços calorosos na polícia revelavam os motivos inconfessáveis da
massa ignara; que as contagens do Datafolha, até então braço estatístico
da tal “imprensa golpista”, desmentiram a PM e expressaram a verdade
sobre o número de manifestantes reacionários; que vestir-se com a camisa
da Confederação Brasileira de Futebol e reclamar de corrupção era prova
de que essas pessoas não sabem o que estão fazendo.
Mais ou menos verdadeiras, mais ou menos relevantes, o fato é que
nenhuma dessas críticas alcança o nervo. Tampouco rompem com a lógica
que alimenta o confronto PT x Anti-PT que estamos vendo e vivendo com
cada vez mais intensidade. Serve para produzir memes e viralizar entre
os amiguinhos nas redes sociais. Serve também pra arrancar boas risadas –
e os deuses atestam a importância do riso. Mas só. A tentativa de
compreensão passa longe.
O que muita gente de esquerda tentou fazer depois dos panelaços e
protestos foi se agarrar em alguns casos isolados e acreditar – ou fazer
acreditar – que representavam o todo. Nada mais falso, nada mais
direitoso. Parece a
Veja tentando destruir lutas sociais inteiras
porque um integrante do movimento quebrou vidraças ou xingou o repórter
da Globo. Pode ser que alguém tenha batido frigideiras francesas
durante o discurso da Dilma, o pronunciamento de seus ministros e sua
aparição no
Jornal Nacional. Mas é óbvio que nem todos os
paneleiros fizeram o mesmo. Caso contrário, a Le Creuset seria uma das
empresas mais lucrativas no país. O mesmo com as especulações sobre
varandas-gourmet: não há tantas assim em São Paulo, há?
Quanto ao machismo, presidenta ou não, é indiscutível que chamar uma
mulher de “vaca” ou “vadia” é uma atitude detestável. Mas não tem a ver
essencialmente com machismo os palavrões cuspidos contra Dilma. Numa
sociedade como a nossa, que submete, tolera e por vezes incentiva
inúmeras formas de violência contra a mulher, deve indignar, claro, mas
não deveria ser inesperado que uma chefa de Estado padecesse o mesmo mal
que tantas brasileiras todos os dias. Num acesso de raiva, a ofensa
sexista é a primeira que vem à língua. Odioso, mas hemos de convir que
machismo, no caso do panelaço, é apenas um ramo da querela, não seu
caule – e muito menos suas raízes. Não há porque deslegitimar o protesto
por causa disso, mesmo que, com isso, a grita se empobreça ainda mais.
Até porque não implodimos reivindicações de amplos setores da esquerda,
que são justas, apenas porque seus representantes são machistas.
O buraco também é mais profundo do que sugerem as avaliações de que a
rebeldia vem apenas da elite. As pesquisas indicam que a popularidade
do governo está ruim em todos os níveis sociais, mas ninguém pode negar
que os opositores mais ferrenhos de Dilma estão concentrados nas classes
média, média alta e alta. Pode-se considerar que, num país desigual,
como o Brasil, quem está localizado nestes estratos faz parte de uma
certa elite. Sim. Mas a imagem de madames oxigenadas e coxinhas de
camisa polo babando impropérios carece de fundamento. Acontecem, claro,
mas são demonstrações marginais frente a um mar de descontentamento.
A multidão que foi à Avenida Paulista no domingo era essencialmente a
mesma gente comum que caminha pelos centros da cidade, indo e voltando
do trabalho todos os dias. Estão nos shoppings, nas academias, nas
universidades públicas e privadas. Pobres e miseráveis? Talvez alguns
poucos, quase imperceptíveis. Majoritariamente brancos? Sem dúvida.
Podres de rico? Certamente não, quiçá uns quantos aqui e ali. Mas a
esquerda também possui membros cheios da grana – e que não devem ser
menosprezados apenas por isso, como costuma ocorrer.
Do lado de cá, tampouco temos conseguido mobilizar massivamente as
periferias. Nem por isso nos apressamos em dizer que nossas demandas são
injustas. Recentemente, o próprio PT tentou desmoralizar os protestos
contra o aumento das tarifas de transporte público em São Paulo dizendo
que os manifestantes não passavam de riquinhos revoltados sem causa. Um
belo argumento, não? A direita faz o mesmo quando convém – e já passou
da hora de jogar no lixo os argumentos de conveniência. As críticas
sobre ausência de negros ou moradores dos bairros mais pobres nas
manifestações de domingo, por mais que sejam parcialmente verdadeiras,
são inócuas para a causa que está sendo defendida nas ruas.
Ao reclamar do excessivo poderio de alguns aristocráticos empresários
de rádio, jornal e TV, o governo parece esquecer que teve doze anos
para reduzi-lo e distribui-lo, com vistas à construção de uma
comunicação mais justa e condizente com a realidade do país. Sequer
tentou. Reclamar é sempre mais fácil que lutar, mesmo quando se tem
consigo uma parcela significativa da população disposta a vestir
vermelho e tomar as ruas em prol de mudanças reais. Ou tinha.
Nestes dois meses e meio de mandato, Dilma se afastou ainda mais dos
eleitores que a elegeram esperando uma fantasiosa guinada à esquerda. A
nomeação de ministros em nada identificados com as lutas sociais e as
políticas de ajuste fiscal que penalizam os penalizados de sempre
enquanto aliviam a barra dos mais beneficiados acabaram por divorciar o
governo da esquerda. Apenas setores mais fanáticos recusam-se a
enxergá-lo. E ainda acreditam que, convocado, o povo vai pra rua
defender seus líderes. É um governo que agrada os dirigentes da
burocracia social, vira as costas para as bases e afaga adversários,
enquanto intensifica injustiças contra camponeses e indígenas com obras
de “desenvolvimento” nos rincões do país. Não há como defendê-lo à
esquerda.
Por isso, não devemos entrar no teatrinho encenado por petistas e
antipetistas. É um jogo de fantoches que serve ao poder e não ao
empoderamento. Se é verdade que toda crise guarda também sua dose de
oportunidade, ei-la. Nós sabemos que a corrupção não é culpa
exclusivamente dos partidos que ora ocupam o Planalto, a Esplanada e as
empresas públicas da União. Nós sabemos que o sistema está corrompido há
décadas. Nós sabemos a quem serve o Estado. Por isso, não devemos
santificar o resultado das eleições como alguns setores progressistas
vêm fazendo de maneira inédita. Se a esquerda sempre defendeu que
política se faz todos os dias, que as urnas são pequenas demais para
comportar nossos sonhos, por que esse fetiche agora com o resultado do
pleito?
Demonstrar insatisfação com um determinado governo e pedir sua saída
pelas vias constitucionais não é mero golpismo. Assim sendo, fomos e
somos golpistas convictos quando pedimos Fora FHC, Fora Collor, Fora
Alckmin, Fora Maluf, fora tantos outros governantes corruptos,
irresponsáveis e assassinos que já ocuparam palácios de norte a sul do
país. Não acredito que os senhores em questão se comparem à figura de
Dilma, que os supera largamente em dignidade, mas compreendo que os
eleitores da direita façam juízo semelhante à presidenta de turno. Por
mais que discorde dos motivos que os fazem gritar pelo impeachment, não
posso desmerecê-los porque sim. Seria tremenda hipocrisia.
Os golpistas convictos existem e também estavam nas ruas no domingo.
Portavam desavergonhadamente cartazes reivindicando intervenção militar.
Aliás, ninguém naquela multidão aparentava constrangimento. Estavam
todos muito à vontade – o que também deve ser sinal de alguma coisa que
não esse nazifascismo monstruoso de que tanto se fala nas redes
esquerdistas. Sabe aquele familiar com quem sempre acabamos discutindo
na ceia de Natal? Aquele pai, aquela mãe, aquele irmão, tio ou primo que
é gente fina, trabalhador, engraçado, mas que não compartilha
absolutamente nada de suas convicções políticas? Ele poderia
perfeitamente haver marchado na Paulista dia 15 de março. Se é que não
marchou. É triste que estivesse ombro a ombro com verdadeiros
tresloucados ideológicos. Mas talvez nem tenha percebido – e isso é
ainda mais triste.
Toda a formação política que temos ou julgamos ter, as horas
intermináveis de leituras, reflexões e discussões, as causas em que nos
metemos e as mobilizações de que participamos não parecem haver
resultado no mesmo poder de convocação e persuasão de que goza, hoje, um
grupinho de rapazes com a ajuda da internet e um corolário de
lugares-comuns que colam bem nos telejornais da noite. Que há algo muito
errado com o PT, já sabemos faz bastante tempo. Mas agora percebemos
que também há algo muito errado com a esquerda em geral. Perder a
lucidez diante da adversidade e deixar-se levar pelo que dizem piadas
engraçadinhas de internet pode nos conduzir a um lugar ainda pior que a
perplexidade.
(fonte: http://outraspalavras.net/brasil/polemica-tapar-o-sol-com-peneiras/)