quarta-feira, 20 de maio de 2015
O ovo da serpente fascista e o tiro que pode sair pela culatra
por Kátia Gerab Baggio
Vou arriscar uma aposta.
Que os veículos direitistas da mídia — principalmente através de colunistas raivosos como Reinaldo Azevedo e “jornalistas” quase inacreditáveis como Rachel Sheherazade (ambos merecem aspas na palavra jornalista) —, além de vídeos que circulam na internet de figuras de extrema-direita como Olavo de Carvalho, estão plantando o ovo da serpente fascista, isso já sabemos. A enorme votação, em 2014, do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) é apenas uma das provas desse avanço da extrema-direita truculenta e sem escrúpulos.
Entretanto, arrisco dizer que algumas atitudes desses extremistas de direita e/ou oportunistas podem ser tiros pela culatra.
As agressões mal-educadas aos ex-ministros Guido Mantega, em um hospital, e Alexandre Padilha, em um restaurante; o “bundalelê” de militantes da Força Sindical em plena Câmara dos Deputados; os ratos (ou hamsters, tanto faz) soltos durante a sessão da CPI da Petrobras na qual era ouvido o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto; xingamentos e agressões a ciclistas na cidade de São Paulo (colocando, inclusive, suas vidas em risco), como reação às “ciclovias vermelhas do prefeito petista Fernando Haddad”; as ofensas repetidas de Jair Bolsonaro a mulheres (parlamentares ou não) e homossexuais; as manifestações preconceituosas e agressivas de direitistas contra negros, mulheres (feministas ou não), gays, militantes de movimentos sociais e de direitos humanos, além de nordestinos, podem provocar o aumento da rejeição a essa direita, que, sem dúvida, cresce no país.
É claro que a internet e as redes sociais contribuem imensamente para a exacerbação de truculências e desrespeitos (e aqui incluo alguns setores das esquerdas, ainda que minoritários).
Não tenho dúvida de que essa direita truculenta sempre existiu no Brasil. A história de violência contra os movimentos sociais e de superexploração do trabalho demonstra isso.
Mas a direita e a extrema-direita “saíram do armário”, nos últimos anos, como reação aos mais de 12 anos de governos federais liderados pelo PT, com a conivência, ou mesmo o apoio e estímulo, da mídia liberal-conservadora, explicitamente antipetista.
Entretanto, os exageros dessa direita truculenta, fora e dentro do Congresso Nacional, estão demonstrando o quanto essas pessoas desprezam a democracia e desrespeitam quem pensa diferente delas.
Ou seja, avalio que há dois movimentos em relação às direitas: de um lado, seu avanço inequívoco. De outro, a crescente exposição pública de sua truculência e desrespeito pelas regras básicas do regime democrático e da convivência social respeitosa das diferenças, diversidade e pluralidade.
Os mais de 12 anos de governos liderados pelo PT e os importantes avanços sociais conquistados nesses anos (ainda muito limitados, na verdade, diante da dimensão das desigualdades no Brasil) estão revelando, cada vez mais, um país que estava submerso, caracterizado pelo ódio de classe e rejeição às conquistas sociais e aos direitos humanos.
Ao mesmo tempo, a truculência dessa gente está cada vez mais exposta. E isso pode gerar, possivelmente, uma crescente rejeição ao avanço dessa direita agressiva por parcelas da sociedade brasileira que podem até ser conservadoras, mas não admitem esse circo infame que tem sido protagonizado por alguns parlamentares, setores da mídia e da própria sociedade.
Como escrevi no início, é uma aposta de que nem todos os setores da sociedade brasileira que fazem oposição ou têm restrições ao PT, aos governos liderados por petistas e/ou às esquerdas apoiam agressões, truculência e circo midiático e parlamentar (com minhas desculpas aos artistas circenses, que nada têm a ver com isso).
⃰Professora de História das Américas na UFMG.
(fonte: http://www.viomundo.com.br/politica/katia-gerab-baggio-o-ovo-da-serpente-pode-sair-pela-culatra.html)
As novidades do Café Historia desta semana
[1] Mural:
Ninguém nasce assim
Cristiano
Campos, professor de história do Colégio Pedro II (Campus Humaitá II),
no Rio de Janeiro, produziu um documentário muito bacana chamado
"Ninguém nasce assim?", com apoio do Laboratório de Humanidades do CPII.
O objetivo do documentário (curta-metragem), feito em 2014, a partir de
um fato de discriminação racial, é promover o debate em torno de
questões referentes ao racismo. [Assista]
[2] Fórum:
Racismo em sala de aula
O
racismo - uma das heranças do tempo da escravidão - é um problema que
ainda persiste no Brasil contemporâneo. A sala de aula, neste sentido,
deve ser um lugar de permanente debate sobre o tema. No entanto, como
avançar neste debate para além do conteúdo disciplinar? Como o professor
pode envolver os alunos de forma original e certeira ao propor
discussões sobre o assunto? Participe deste novo fórum do Café
História. [Confira]
[3] Notícia:
Denúncia de racismo chega ao MEC
Mãe
de aluna de escola na Grande São Paulo diz que direção obrigou sua
filha a pedir desculpas a colegas que a teriam ofendido devido à cor de
sua pele e a seus cabelos. [Leia mais]
[4] Acadêmico:
Mestrado e Doutorado
Doutorado e mestrado na Universidade de Passo Fundo: O
Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo
iniciou seus trabalhos em agosto de 1998, sendo no ano seguinte
reconhecido pela Capes através da portaria do CNE n° 1057/99. [Leia mais]
[5] Cinema:
Metanoia
Acaba
de chegar aos cinemas brasileiros o filme "Metanoia", do diretor Miguel
Nagale, trzendo Caique Oliveira, Caio Blat e Lucas Hornos no elenco. [Leia mais]
Visite Cafe Historia em: http://cafehistoria.ning.com/?xg_source=msg_mes_network
terça-feira, 19 de maio de 2015
Um crime sem precedentes
"Os mesmos conservadores que defendem a redução da idade penal continuarão contra a legalização do aborto. Só pra fazer pensar: o menor é obrigado a nascer, pra ser encarcerado, aos 16 anos (vida curta essa, hein?). Essa é uma possibilidade, caso a criança sobreviva até os 16, já que, volta e meia, tem bala perdida (de alguma arma policial) matando menores, pelo País, não só no Rio de Janeiro. Desse jeito, qualquer gravidez é de sério risco…", comenta Nara França, jornalista, em artigo publicado por EcoDebate, 18-05-2015.
Eis o artigo.
Crianças e adolescentes do nosso Brasil varonil estão para sofrer um crime sem precedentes. Senhores e senhoras do Congresso Nacional estão querendo rasgar a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente, para, justificam eles, atender à sociedade conservadora e imediatista, que não quer a solução dos problemas, mas, sim, o fim deles, através do atalho mais curto, sem se importar com as consequências.
Não é à toa que a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) tem o número 171, no Congresso Nacional – se aprovada, a 171 jamais será esquecida mesmo. Nada por acaso – o número 171 remete a outras representações, que, talvez, não sejam outras, mas somente sinônimos.
Por diversas vezes, já postei, neste blog, a minha preocupação com os nossos adolescentes e as nossas crianças. Adulta que sou, começo a me preocupar mais com o que os adultos estão fazendo – esses que dizem representar “a vontade da maioria”. Mas isso realmente não importa – é pouco. A realidade é que tem muita gente levando a cabo o conservadorismo que fazemos questão de destacar que não existe mais, que faz parte de um passado ainda sombrio – isso tudo, só em discurso político, que mais parece setor de frigorífico, onde enchem linguiça.
Não quero tratar, aqui, sobre a questão legal da dita PEC 171 – se atropela a nossa Constituição Federal (ainda temos uma, soberana, para quem já esqueceu), ou se vai mais longe, e faz parte de um processo legal, para chegar à aplicação da pena de morte, no Brasil. O que tenho acompanhado, principalmente, nos canais de televisão e jornais de circulação nacional, é que, de fato, está sendo feita uma campanha massiva, para que a redução da idade penal seja colocada em prática, o quanto antes.
A maioria dos canais de televisão não é sutil, quando vende felicidade, como bônus da redução da idade penal. Em qualquer programa do que costumo chamar picadeiro televisivo, sempre fazem alguma associação com a palavra ‘menor’. Inclusive, dá pra perceber que os ‘famosos’ programas, que jorram sangue pelas salas dos brasileiros, apresentam, diária e prioritariamente, crimes cometidos por menores. A partir da exibição dessas notícias, os comentários dos apresentadores remetem às piores épocas da humanidade – nazismo, ditadura militar, etc e tal. Alguns apresentadores se empolgam tanto, que chegam defender, ao vivo, a aplicação da pena de morte no Brasil. Quando assisto isso, mesmo por distração, me assusto, e penso: Isso também é ser humano. Olho pela janela, enxergo uma criança brincando na calçada, um gato se espreguiçando no gramado, me acalmo – nem tudo está perdido (ainda).
Quando ouço um desses conservadores justificar que “precisamos dar uma resposta à sociedade”, fico pensando: de que sociedade ele está falando?… Onde está a ‘faixa de gaza’ brasileira?… Se realmente existe, preciso me posicionar, urgentemente. Na condição de participante dessa sociedade (sou ser vivente, brasileira, devidamente registrada em cartório), nunca foi essa a resposta que esperei, até mesmo dos ‘poderosos’ conservadores. Acredito em amadurecimento, mas pode ser que haja alguma alteração genética, e o apodrecimento chega antes. Alguém precisa pagar por isso, também?… Não sei. De repente, se, numa só sociedade, existem ‘nós’ e ‘eles’, eu preciso ter atitude, e assumir se sou ‘nós’, ou ‘eles’. Nunca pensei chegar a tal questionamento. Mais uma vez, eu faço minha escolha simples: Não sou – nem ‘nós’, nem ‘eles’, nem…
Resumindo a história, na minha visão estrábica, daqui pra frente, tudo pode ficar diferente. Os mesmos conservadores que defendem a redução da idade penal continuarão contra a legalização do aborto. Só pra fazer pensar: o menor é obrigado a nascer, pra ser encarcerado, aos 16 anos (vida curta essa, hein?). Essa é uma possibilidade, caso a criança sobreviva até os 16, já que, volta e meia, tem bala perdida (de alguma arma policial) matando menores, pelo País, não só no Rio de Janeiro. Desse jeito, qualquer gravidez é de sério risco…
E ainda tem mais possibilidade: os ‘poderosos’ representantes dos eleitores podem ganhar essa de reduzir a idade penal mesmo. De outro lado, os ‘poderosos’ do crime podem, também, reduzir a idade dos menores contratados, os únicos, aliás, nada ‘poderosos’. Nesse “samba do crioulo doido”, pode não demorar muito pra reduzirem a idade penal aos recém-nascidos – pobres e negros, claro, por que os outros, com ‘pedigree’, nascem com oportunidades, e, quase sempre, têm apoio dos ‘poderosos’, com quem aprendem a fazer o mesmo, no futuro cada vez mais próximo. ‘Apartheid’ velado, sem que uma só criatura tenha de assumi-lo, já que diz representar ‘a sociedade’, que não é identificada.
Falamos tanto em ditadura, e torturas e injustiças, mas, pelo visto, ainda tem muita gente que não saiu dos tempos da escravidão, que foram muitos. Naquela época, sim, uma ‘lei do ventre livre’ libertava um nascituro, que acabava por conhecer somente torturas e injustiças sofridas pelo povo pobre e negro (já citei pobre e negro, neste texto, né?). E ainda tem tanta gente se preocupando com “curtidas e compartilhamentos”, em rede social, enquanto um bando de conservadores quer ser aplaudido, pra ‘ficar bem na foto’ – ou selfie, para os que não estão nem aí com o que escrevi… Os ‘poderosos’ parecem não estar muito interessados – nem com a minha, nem com a sua opinião. Sem plebiscito. Depois disso, não vamos dizer que jamais imaginamos chegar a tal ponto (oh!), quando a pena de morte for à votação, no Congresso Nacional.
Quando encontro a ignorância defendendo a pena de morte, sempre digo: Deixemos isso para o primeiro mundo – lá nos Estados Unidos (mero exemplo), esse termo chega ao termo. Não merecemos isso – nem nós, nem os que virão, se virão. E viva o terceiro mundo. Fim de linha.
Se houver mesmo redução da idade penal para 16 anos (ou 15, 14, 13, 12, 11, 10, ou para recém nascidos sem ‘pedigree’ – que diferença faz?), acreditemos nos políticos que estufam o peito, para dizer: “o futuro é agora”. Será mesmo – por que outro futuro não haverá, senão construído por herdeiros do sistema cada vez mais ‘poderoso’, e alguns poucos mutilados, ignorados pela mesma sociedade moralista, conservadora, preconceituosa, irresponsável, discriminadora, imediatista, extremamente cruel e injusta, sem qualquer noção de humanidade.
(Enquanto houver crianças e adolescentes, em condição vulnerável, à mercê de desmandos políticos, e/ou da hipócrita sociedade, escreverei a respeito o que não deixo de pensar – sempre tem mais a ser pensado, e repensado.)
“A esperança tem duas filhas lindas: a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las.” Santo Agostinho
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/542740-um-crime-sem-precedentes)
Que mundo é este em que estamos vivendo???
Inacreditável!!!! simplesmente inacreditável!!!
A pena de um homem que abusou de um garoto de 6 anos na
Argentina foi reduzida, passando de 6 para 3 anos, após juízes de uma
câmara de Buenos Aires argumentarem que o abuso não era tão grave porque
a vítima seria homossexual. As informações são do jornal A Tarde.
O crime ocorreu em 2010, quando o acusado, um vice-presidente de um clube de futebol chamado Club Florida, abusou do garoto, inclusive utilizando um galho de árvore. Na ocasião, o menino contou para a avó o ocorrido, que comprovou as lesões do neto e denunciou o caso à polícia.
Na decisão, os juízes, Horacio Piombo e Benjamín Sal Llargués, afirmaram que o crime não era ultrajante, pois "o menino estava acostumado a ser abusado". A decisão gerou revolta na Argentina. O ativista Esteban Pulon, presidente da Federação Argentina de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trans, se manifestou via Twitter, dizendo que recebeu a notícia da redução da pena com "estupor". [Como é que é, meritíssimos? O garoto de SEIS anos estava acostumado a ser abusado???????????]
Diante da polêmica, uma corte suprema de Buenos Aires começou a revisar este e outros casos em que os juízes atuaram. Dessa forma, a corte passou a revisar outro caso em que Piombio e Llargués trabalharam juntos e decidiram diminuir a pena de um molestador: os juízes teriam abrandado a pena de um pastor que abusou de duas garotas de 14 e 16 anos, alegando que o crime não era tão grave, já que as garotas eram de comunidades pobres, onde, segundo eles, é "comum ter relações sexuais com idades baixas". [Como é que é, meritíssimos??? ser estuprada aos 14 anos não é crime grave????????]
De acordo com reportagem da GloboNews, um conselho de magistratura de Bueno Aires está avaliando a eventual destituição dos juízes.
Leia mais em: http://zip.net/bqrhTM
O crime ocorreu em 2010, quando o acusado, um vice-presidente de um clube de futebol chamado Club Florida, abusou do garoto, inclusive utilizando um galho de árvore. Na ocasião, o menino contou para a avó o ocorrido, que comprovou as lesões do neto e denunciou o caso à polícia.
Na decisão, os juízes, Horacio Piombo e Benjamín Sal Llargués, afirmaram que o crime não era ultrajante, pois "o menino estava acostumado a ser abusado". A decisão gerou revolta na Argentina. O ativista Esteban Pulon, presidente da Federação Argentina de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trans, se manifestou via Twitter, dizendo que recebeu a notícia da redução da pena com "estupor". [Como é que é, meritíssimos? O garoto de SEIS anos estava acostumado a ser abusado???????????]
Diante da polêmica, uma corte suprema de Buenos Aires começou a revisar este e outros casos em que os juízes atuaram. Dessa forma, a corte passou a revisar outro caso em que Piombio e Llargués trabalharam juntos e decidiram diminuir a pena de um molestador: os juízes teriam abrandado a pena de um pastor que abusou de duas garotas de 14 e 16 anos, alegando que o crime não era tão grave, já que as garotas eram de comunidades pobres, onde, segundo eles, é "comum ter relações sexuais com idades baixas". [Como é que é, meritíssimos??? ser estuprada aos 14 anos não é crime grave????????]
De acordo com reportagem da GloboNews, um conselho de magistratura de Bueno Aires está avaliando a eventual destituição dos juízes.
Leia mais em: http://zip.net/bqrhTM
sábado, 16 de maio de 2015
A simpatia do papa pelo ateísmo cristão
Publicado no Unisinos.
Está cada vez mais claro que o Papa Francisco se entende melhor com ateus como José Mujica ou Raúl Castro, do que com alguns católicos tradicionais que não perdoam que ele tenha se despojado de todos os símbolos do poder papal, herdados do Império Romano, quando a Igreja passou de perseguida e escondida nas catacumbas para se tornar a religião do Estado.
Francisco teria simpatia pelo ateísmo cristão? Quando o Vaticano recebe em audiência políticos ateus, dá a impressão de que conversa à vontade com eles.
Ateus e agnósticos se sentem atraídos pela figura do pontífice, o qual alguns membros da Cúria afirmam com certo desdém que “não parece Papa”.
Aqueles que conhecem Francisco de perto confirmam que, quando era cardeal de Buenos Aires, sempre manteve uma relação cordial com não crentes e ateus, assim como com os líderes de outras religiões.
Em seu livro de conversas com o rabino Abraham Skorka, Entre o Céu e a Terra, o então arcebispo argentino contava que quando alguém se aproximava dele para conversar, não perguntava se a pessoa acreditava ou não em Deus. O importante, afirma, era saber se seu interlocutor “fazia algo pelos demais”, que era o mesmo que perguntar se acreditava na humanidade.
Para Francisco, os verdadeiros ateus não são os que negam a Deus, mas o próximo. Deve ter sido essa postura, que lembra o ateísmo cristão ou cristianismo ateu, teorizado por teólogos como Paul von Buren, C.Lyas, Thomas Ogletreeou Altizer, entre muitos outros, o que esteja chamando a atenção dos descrentes.
Para os seguidores do cristianismo ateu, “a palavra Deus, por si só, não tem sentido e é enganosa”, como afirma um de seus teólogos.
Francisco está lembrando sua Igreja que existe outro modo religioso de ver as coisas e a vida e que a fé em Deus não é indispensável para se sacrificar pelo próximo
De acordo com esse ateísmo cristão, “o tradicionalismo eclesiástico deixou de ser cristão” e lembra que Jesus foi um laico, um secular, não um membro da casta sacerdotal.
Alguns católicos tradicionais acusam Francisco justamente disso: de ter esquecido de ser Papa, eclesiástico, e de falar e se preocupar mais com os homens e suas angústias, com sua pobreza e com as injustiças cometidas contra eles, do que com Deus.
O líder cubano, cujo regime comunista perseguiu e submeteu ao ostracismo milhares de fiéis cristãos, disse ao sair de uma audiência de uma hora com o Papa: “Se continuar assim, voltarei a rezar e volto à Igreja”.
Certamente, Francisco não falou sobre Deus com Raúl Castro, mas da necessidade de que os cubanos possam realizar seus desejos de felicidade e liberdade.
Francisco teve o mesmo tipo de conversa com o então presidente do Uruguai, José Mujica, que, ao sair da audiência, confessou que, embora sendo ateu, havia se entendido bem com o Papa sobre a luta pela defesa dos mais pobres e humilhados na Terra.
Não há dúvida que Francisco, em seus discursos e em seus atos, segue mais o cristianismo das origens do que o das teologias medievais. Sua crença é a daquele profeta judeu, que ia em busca da caravana de deserdados que a sociedade de seu tempo perseguia ou desprezava.
Há uma passagem dos evangelhos emblemática: quando Jesus diz que curava os doentes e expulsava os demônios porque “não suportava ver as pessoas sofrerem”. Era fazer o bem pelo bem, não em busca de uma recompensa, nem sequer divina.
O ateísmo cristão afirma, justamente, que “não há necessidade de ameaçar com o inferno nem seduzir com o paraíso para fazer o bem”. Um conceito que Franciscoreforça todos os dias em seus discursos e conversas com os jornalistas.
Há quem não veja com bons olhos, dentro do catolicismo de Roma, que o Papa, apesar de levar uma via austera e simples, sem as tradicionais pompas pontifícias, não desdenhe os pequenos prazeres da vida. Os prazeres de todos os mortais, desde um bom café ou o entusiasmo por seu time de futebol, até o de preparar ele mesmo um frango. É um Papa que não tem medo do tato, que beija, que abraça e cultiva com paixão suas amizades.
E é o ateísmo cristão, para o qual não há outra divindade do que a própria humanidade, o que deixou de lado o chamado “ódio paulino ao corpo”, aquele medo que o apóstolo Paulo demonstrava diante da sexualidade e que o levou a rebaixar as mulheres na hierarquia da Igreja, apesar delas terem promovido as primeiras comunidades cristãs.
O Papa Francisco se entende melhor com os ateus do que muitos de seus antecessores. Ele sempre rejeitou a ideia de que ser ateu implicasse ser imoral, já que sem fé não existiria ética. É a ideia tão cultivada pelos católicos tradicionais de que “Se Deus não existe, tudo é permitido”.
Francisco está lembrando sua Igreja que existe outro modo religioso de ver as coisas e a vida e que a fé em Deus não é indispensável para se sacrificar pelo próximo. Sabe muito bem que a Igreja que ele representa, e que sempre temeu tanto os ateus, foi capaz de matar em nome de Deus. Por outro lado, o cristianismo ateu reconhece que o mandamento “não matarás” continua sendo válido e razoável, sem necessidade de deuses que o proíbam.
Alguns católicos tradicionais acusam Francisco de se preocupar mais com os homens e suas angústias, com sua pobreza e com as injustiças cometidas contra eles, do que com Deus
O Papa Francisco está repetindo insistentemente para bispos e cardeais que a fé deve arrancá-los de seus palácios, para que possam ir às periferias das cidades, onde o poder criou os novos guetos dos condenados à miséria. Pede que não tenham medo de “tocar” os pobres. Não pede para que rezem a Deus por eles, mas que sejam um deus bom para eles.
Não será essa ênfase mais nos homens do que em Deus o que atrai para Francisco a curiosidade e simpatia de ateus e agnósticos, assim como certa distância dos católicos tradicionais?
Francisco está, de algum modo, endossando a filosofia dos teólogos do ateísmo cristão, que defende não ser possível acreditar em um deus sem antes acreditar e abraçar a humanidade mais marginalizada e desamparada.
(fonte: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-simpatia-do-papa-pelo-ateismo-cristao/)
Zelotes não sensibiliza Justiça e mídia
Por André Barrocal, na revista CartaCapital:
Para procuradores de Justiça e policiais federais da Operação Zelotes, Leite tomou uma série de decisões que atrapalharam as investigações. Entre outras coisas, ele negou a prisão temporária de 26 suspeitos de integrar o esquema, rejeitou o pedido de bloqueio de bens de certos investigados e recusa-se a quebrar o sigilo do processo. As prisões solicitadas, segundo os investigadores, eram necessárias para tomar depoimentos sem que houvesse a oportunidade de os suspeitos combinarem suas versões entre si, algo que agora já não se pode mais impedir.
O principal procurador da República na Operação Zelotes, Frederico Paiva, acredita que o caso até agora não entusiasmou nem o Poder Judiciário nem a mídia – ao contrário do que aconteceu com a Operação Lava Jato. Isso dificultaria as investigações, já que estão na mira grandes e poderosas empresas. “É preciso que a corrupção seja combatida por todos. Os valores [da Zelotes] são estratosféricos”. Suspeita-se de um desvio de até 19 bilhões de reais dos cofres públicos.
Para o procurador, os escândalos de corrupção no Brasil só despertam interesse quando há políticos no meio. “Quando atingem o poder econômico, não há a mesma sensibilidade.” Em entrevista recente à TV Gazeta de São Paulo, o ex-governador paulista Claudio Lembo disse que “o que aconteceu no Carf [o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais] é gravíssimo, mas a imprensa não fala”. “Lá está o núcleo da minoria branca fazendo corrupção efetiva”, disse. “Há um conluio nacional de preservação de quem está dentro do Carf.”
Ricardo Leite deverá ser acionado também no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O deputado Paulo Pimenta (PT-RS) prepara uma representação de teor parecido com a do Ministério Público. Segundo ele, Leite é responsável por processos antigos contra personagens da Zelotes que jamais foram sequer chamados a depor. “Este juiz atrapalha o combate à corrupção e ao crime do colarinho branco no Brasil”, afirmou Pimenta.
Apesar das dificuldades, Frederico Paiva disse que o Ministério Público apresentará à Justiça, entre junho e julho, denúncias por corrupção e lavagem de dinheiro contra investigados na Zelotes.
Deflagrada em março, a Operação desbaratou um esquema de fraude que desfalcava os cofres públicos no Carf. O conselho é um órgão do Ministério da Fazenda em que, sem passar pela Justiça, os contribuintes podem contestar tributos cobrados pela Receita Federal. É formado por 216 conselheiros, metade indicada pela Fazenda e metade pelos contribuintes. As indicações privadas partiam basicamente das três confederações nacionais patronais: CNI (indústria), CNC (comércio) e CNA (agricultura).
O esquema era “sofisticado”, segundo explicou Paiva durante audiência pública na Câmara dos Deputados nesta quarta-feira 13. Havia conselheiros dispostos a manipular julgamentos e empresas de fachada a fazer a intermediação deles com contribuintes interessados em fugir da taxação da Receita. Os contatos entre os integrantes do esquema raramente eram feitos por telefone, uma forma de evitar deixar rastros. O pagamento da propina pelas grandes empresas aos conselheiros e intermediários ocorria por meio de um emaranhado de contas bancárias, outra forma de tentar não deixar pistas.
Entre as empresas suspeitas de integrarem o esquema de desfalque do Erário estão Santander, Bradesco, Opportunity, RBS (afiliada da Rede Globo), Camargo Correa, Safra, Gerdau, entre outros.
Atualmente, os investigadores estão passando um pente-fino em 74 processos do Carf. São casos de 2005 a 2013. Juntos, somam 19 bilhões que podem ter sido sonegados. Segundo Paiva, há indícios mais veementes de irregularidades em processos a somar 5 bilhões de reais e envolver de 15 a 20 empresas. De acordo com ele, todos os processos suspeitos envolvem grandes empresas.
Logo após a Operação Zelotes, o governo resolveu remodelar o Carf, um trabalho ainda em andamento. Uma das mudanças já definidas foi a instituição de gratificação para os conselheiros. Eles trabalhavam de graça, circunstância que poderia deixá-los mais inclinados a se corromper.
A gratificação foi instituída por um decreto de Dilma Rousseff. O deputado Bruno Covas (PSDB-SP) apresentou um decreto legislativo na Câmara a propor a anulação do decreto de Dilma, sob a justificativa de que o governo está em tempos de ajuste fiscal e não deveria criar gastos novos. “O modelo atual do Carf é propício à corrupção e ao tráfico de influência”, afirmou Paiva.
(fonte: http://altamiroborges.blogspot.com.br/2015/05/zelotes-nao-sensibiliza-justica-e-midia.html)
O circo de horrores de Eduardo Cunha
Por Ricardo Kotscho, no blog Balaio do Kotscho:
Peço até desculpas aos nobres profissionais do picadeiro, por chamar de circo este espetáculo deprimente montado em Brasília, que está atingindo um nível inédito de degradação dos nossos costumes políticos.
As votações de ontem mostraram que não temos mais partidos políticos, situação e oposição, esquerda e direita, virou tudo uma mixórdia só. De um lado, importantes líderes do PT, como o deputado Vicentinho, votaram contra o governo; de outro, o PSDB votou em bloco a favor de mudanças no fator previdenciário das aposentadorias, criado no governo de Fernando Henrique Cardoso. Pairando acima de tudo, pontifica a bancada suprapartidária do baixo clero comandado por Eduardo Cunha.
Nada tem de engraçado este circo, apesar das cenas de pastelão protagonizadas por parlamentares e a tropa de choque da Força Sindical, cada vez mais ousada e inimputável na sua tarefa de desmoralizar de vez o Congresso Nacional, diante da atitude passiva de quem deveria zelar pelo respeito às instituições.
O pacote do ajuste fiscal amarrado pelo ministro Joaquim Levy está sendo retalhado a cada nova sessão de votação, diante da total ausência de articulação política do governo, agora entregue ao vice Michel Temer. A esta altura do campeonato, já nem sei o que está valendo ou não, mas é certo que o que sobrar do pacote não será suficiente para tirar o país do buraco das contas públicas.
O pior, no entanto, ainda está por vir. Sempre dá para piorar, como demonstram as últimas iniciativas de Eduardo Cunha, a começar pelo monstrengo de projeto de reforma política cevada por uma comissão especial montada à sua imagem e semelhança, que obedece unicamente ao seu comando.
Trata-se de uma reforma de fancaria para deixar tudo como está, mantendo o que o sistema político brasileiro tem de pior, como o financiamento privado de campanhas, e introduzindo algumas jabuticabas novas apenas para eternizar o poder dos grupos de interesse que já mandam na Câmara. Vai tudo ser aprovado, claro, sem emendas.
Só isso não basta. Aliado ao presidente do Senado, Renan Calheiros, também ele investigado pela Operação Lava Jato, Cunha quer aprovar emendas que permitam a reeleição da dupla na presidência das duas Casas do Congresso, na mesma legislatura, o que atualmente é vedado e, ao mesmo tempo, impedir a recondução ao cargo do procurador geral da República, Rodrigo Janot, já decidida pela presidente Dilma Rousseff.
Pensando bem, meu caro colega José Simão, isto está ficando mais para casa dos horrores do que circo de cavalinhos, com engolidores de fogo ameaçando queimar a lona da democracia.
E vamos que vamos. Para onde?
(Fonte: http://altamiroborges.blogspot.com.br/2015/05/o-circo-de-horrores-de-eduardo-cunha.html)
Assinar:
Postagens (Atom)