quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O que a Guerra da Argélia revela sobre os ataques em Paris

por Robert Fisk

Não foi apenas um dos agressores que sumiu depois do massacre de Paris. Três nações cuja história, ação - e inação - ajudam a explicar o abate do EI escapam dos holofotes dessa resposta quase histérica pros crimes contra a humanidade que ocorreram em Paris: Argélia, Arábia Saudita e Síria.
 
A identidade franco-argelina de um dos agressores demonstra o quanto a selvagem guerra da França na Argélia (1956-1962) segue influenciando as atrocidades de hoje. A recusa absoluta de considerar o papel da Arábia Saudita como fornecedora da seita Wahabi-sunita, a mais extremista do Islã, na qual o EI acredita, mostra como nossos líderes ainda se recusam a reconhecer ligações entre o reino e a organização que atingiu Paris. E nossa relutância total em aceitar que a única força militar oficial em constante combate com o EI é o exército sírio - que luta por um regime que a França também deseja destruir - significa que não podemos entrar em contato com os impiedosos soldados que estão em ação contra o EI, ainda mais ferozmente do que os curdos.
 
Sempre que o ocidente é atacado e nossos inocentes são mortos, nosso banco de memória é apagado. Assim, quando os repórteres nos dizem que os 129 mortos em Paris representam a pior atrocidade na França desde a Segunda Guerra Mundial, eles não mencionam o massacre em Paris de até 200 argelinos que participavam de uma marcha ilegal contra selvagem guerra colonial da França na Argélia. A maioria foi assassinada pela polícia francesa, muitos foram torturados no Palais des Sports, tendo seus corpos lançados no rio Sena. Os franceses apenas assumem 40 mortos. O oficial de polícia encarregado era Maurice Papon, que trabalhava para a polícia colaboracionista de Pétain na Segunda Guerra Mundial e deportou mais de mil judeus para a morte.
 
Omar Ismail Mostafai, um dos assassinos suicidas em Paris, tem origem argelina - e também podem ter os demais suspeitos nomeados. Cherif e Said Kouachi, os irmãos que mataram os jornalistas da Charlie Hebdo, eram também de ascendência argelina. Eles vieram da comunidade argelina de cinco milhões de pessoas na França, para muitos dos quais a guerra da Argélia nunca terminou, e que vivem hoje nas favelas de Saint-Denis e outros bairros argelinos de Paris. No entanto, a origem dos 13 assassinos de novembro - e a história da nação de onde seus pais vieram - tem sido largamente suprimida da narrativa em torno dos acontecimentos horríveis de sexta-feira. Um passaporte sírio com um selo grego é mais interessante, por razões óbvias.
 
Uma guerra colonial que ocorreu há 50 anos não é justificativa para assassinatos em massa, mas fornece um contexto sem o qual nenhuma explicação do porquê dos ataques terem ocorrido na França faz qualquer sentido. Assim, também, a seita Wahabi-sunita da Arábia Saudita, que é uma fundação do "califado islâmico" e de seus assassinos. Mohammed ibn Abdel al-Wahab era o clérigo purista e filósofo cujo desejo de expurgar os xiitas e demais infiéis do Oriente Médio levou aos massacres cruéis do século XVIII em que a original dinastia al-Saud estava profundamente envolvida.
 
O atual reino da Arábia, que regularmente decapita supostos criminosos após julgamentos injustos, está construindo um museu Riyadh dedicado aos ensinamentos de al-Wahab, e a raiva do velho prelado contra os idólatras e a imoralidade encontrou expressão na acusação do EI, dizendo que Paris é um centro de "prostituição". Muito do financiamento do EI veio de sauditas - embora, mais uma vez, este fato tenha sido apagado da terrível história do massacre de sexta-feira.
 
E depois vem a Síria, cujo regime está na mira do governo francês há muito tempo. Ainda assim, o exército de Assad, ultrapassado em homens e em poder de fogo - embora tenham retomado algum território com auxílio dos ataques aéreos russos - é a única força militar treinada enfrentando o EI. Durante muitos anos, os americanos, os britânicos e os franceses disseram que os sírios não lutavam contra o EI. O que é visivelmente uma mentira; Tropas sírias foram expulsas de Palmyra em maio, depois de tentar impedir que comboios suicídas furassem o bloqueio até a cidade - comboios que poderiam ter sido atingidos por aeronaves francesas ou americanas. Cerca de 60.000 entre as tropas sírias já foram mortos, muitos nas mãos do EI e dos islamitas Nusrah - mas o nosso desejo de destruir o regime de Assad é prioridade sobre a necessidade de esmagar o EI.
 
Os franceses agora se vangloriam de terem atingido Raqqa, a "capital" do EI na Siria, 20 vezes - um ataque de vingança, se é que alguma vez possa ter existido algum. Se este foi um ataque militar sério para liquidar o aparato do EI na Síria, por que os franceses não o fizeram duas semanas atrás? Ou há dois meses? Mais uma vez, infelizmente, o ocidente - e especialmente a França - responde ao EI passionalmente, e não pela razão, sem qualquer contexto histórico, sem reconhecer o papel sombrio que os nossos "moderados" aliados na Arábia representam nessa história de terror. E tem gente que pensa que vamos destruir o EI.
 
Tradução por Allan Brum
(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/O-que-a-Guerra-da-Argelia-revela-sobre-os-ataques-em-Paris/6/34997)

Entre o luto e a saudade: um panorama do maior desastre ambiental do Brasil

por Caio Santos - Jornalistas livres

Quem chega em Gesteira, distrito rural no município de Barra Longa, MG, nunca vai imaginar que antes passava um córrego com água cristalina e havia um campo verde amplo na frente, onde bois e cavalos pastavam. Porque quem chegar hoje em Gesteira não verá um pasto, nem um animal ou um riacho. Verá apenas uma gigantesca lagoa de barro escuro onde antes era um vale. Os moradores descrevem para mim, entre o luto e a saudade, a paisagem onde cresceram e que, provavelmente, nunca mais verão na vida.

Mais de dez dias após a queda das barragens da mineradora Samarco, ainda se desconhece todas as extensões do impacto ecológico liberado na forma de 62 milhões de litros de lama residual da mineração. O barro de rejeitos saiu de Bento Rodrigues, na cidade histórica de Mariana, em Minas, e ainda percorrerá mais de 850 km até chegar ao mar, deixando um rastro de destruição à fauna, à flora e às comunidades que estiverem em seu caminho. Só é preciso observar a área destruída — seja do leito do rio, seja do espaço— para compreender que é um dos maiores desastres ambientais na história do Brasil.

No entanto, ainda há muitas perguntas buscando entender como esta tsunami de lama afetou todo um ecossistema. Aqui está um panorama do que já sabemos.

Lama Tóxica?

Para ter compreensão do impacto é preciso primeiro entender qual é o conteúdo da enxurrada de lama que vêm das minas. Segundo a mineradora Samarco, as barragens apenas continham rejeitos de minério de ferro e manganês, misturados basicamente com água e areia. A empresa insiste que o material é inerte, não causando danos ao ambiente ou à saúde. No entanto, análises do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Baixo Guandu, ES, mostram a presença de diversos metais pesados na água do Rio Doce, como arsênio, mercúrio e chumbo.

Estes elementos são extremamente tóxicos ao ambiente e à saúde humana, sendo absorvidos nos corpos dos diferentes organismos e dificilmente eliminados. Normalmente, eles acumulam nos tecidos de seres vivos e, com o tempo, na própria cadeia alimentar. Ao ingerir a carne ou folhas contaminadas, o metal pesado não é processado, envenenando o bicho ou pessoa que consumiu a comida intoxicada. Com o tempo, os metais pesados podem gerar problemas sérios à saúde, como câncer, úlceras e danos neurológicos.

Na tarde de sábado, 14/11, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, apresentou um laudo da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) negando a existência de metais pesados na água e contrariando os laudos de Baixo Guandu. Nesta quinta-feira, 12/11, uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) também foi coletar amostras da lama e da água no Rio Doce para apurar o grau da devastação e verificar, entre outros aspectos, a presença de metais pesados. Ainda resta esperar os resultados da investigação dos cientistas mineiros, que devem chegar no decorrer da semana.

O Fim da Vegetação

No entanto, mesmo sem arsênio e mercúrio e ao contrário do que a mineradora sugere, a lama está longe de ser inofensiva. Apesar da presença do ferro e manganês não significar um perigo à saúde, estes elementos causam consequências profundas à terra.

“O ferro (e o manganês) tem uma facilidade muito grande de reação, sendo um ligante por sua própria natureza. No caso, essa lama vai formar uma capa muito dura devido à presença do ferro. A tendência é fazer uma ligação muito forte e ficar sobre a superfície formando uma crosta” — diz a professora do Instituto de Geociências da UFMG e especialista em geologia ambiental, Leila Menegasse. Segundo ela, esta cobertura poderá impedir a infiltração da água e também cobrirá a própria vegetação, tornando o ambiente estéril.

“As raízes ficam soterradas, desaparece a possibilidade da fotossíntese porque a água fica muito turva e as folhas ficam todas fechadas pela deposição de materiais. As plantas que entrarem em contato com essa lama certamente irão morrer” acrescenta o professor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, Francisco Barbosa.

Rio Doce Morto

Quem se aproximar do Rio Doce, seja em Minas seja no Espírito Santo, verá ele amarronzado, escuro e com diversos detritos boiando. Essa imagem não é apenas feia e desagradável, ela também é extremamente danosa à vida aquática. Esse barro, mesmo diluído, torna a água turva e barra a passagem de raios solares, escurecendo o rio e impedindo que algas façam fotossíntese. O baixo nível de oxigênio na água é insustentável para os animais, fazendo com que, em um ato de desespero, muitos peixes simplesmente pulem fora d’água.

Se em cima cadáveres boiam, embaixo o rio encolhe. “Toda essa área que recebeu uma carga de segmentos irá sofrer um processo de deposição de material no fundo do rio. Isto vai aumentar a altura da calha e, a grosso modo, vai entupir o rio” explica o coordenador do Centro de Pesquisas Hidráulicas, Carlos Barreira Martinez. O processo é intensificado pela destruição da mata auxiliar, ainda existindo a possibilidade de a lama cobrir as nascentes, diminuindo consideravelmente o volume da água. Este perda não significa apenas menos água, mas compromete sua qualidade e a torna imprópria para o uso.

Os mananciais oriundos do Rio Doce são usados para abastecer diversas comunidades rurais, seja para o uso pessoal, seja para irrigação de plantações ou consumo pelo gado. Essas comunidades rurais serão profundamente afetadas e não poderão recorrer ao rio mais. Mesmo considerando apenas a população urbana, a enxurrada de lama passa por, no mínimo, 23 cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo, o que representa meio milhão de pessoas com a torneira seca.

Milhares de pessoas sem água

A cidade mais afetada pelos rejeitos da Samarco é também a maior da bacia do Rio Doce: Governador Valadares, MG, com 280 mil habitantes. Mesmo a 300 km de Mariana, sua SAAE, em laudo preliminar da água, encontrou um nível de turbidez oitenta vezes maior do que o tolerável, além de níveis de ferro que chegaram a superar treze mil vezes o tratável. Esta condição insalubre do rio fez com que o abastecimento de água fosse cortado no domingo, 08/11. Dois dias após a interrupção, a prefeita Elisa Costa declarou estado de calamidade pública.

“Todo o dia esse caos. Todo dia gente transportando água. Todo mundo carregando água como pode”, descreve de Marcos Renato, habitante da cidade. Em longas filas, a população gasta horas em pontos de distribuição de água, sofrendo, além da seca e da sede, das altas temperaturas. “Estamos atendendo normalmente nas unidades de saúde e nos preparando para possíveis doenças que venham a surgir pela falta de água e pelo uso da água contaminada. Enfim, a situação aqui não está nada fácil” comenta Flávia França, médica local e membro da Rede de Médicas e Médicos Populares.

Segundo a prefeitura do município, as companhias Samarco e Vale fizeram poucos esforços para ajudar a população. Na sexta-feira, 13/11, em nota ela comunicou que a mineradora só tinha aceitado pagar os caminhões pipa. Mais tarde do dia, a primeira remessa de água, com 280 mil litros, estava contaminada com querosene, não servindo para consumo. A situação só começou a melhorar no sábado, quando o governador de Minas, Fernando Pimentel, anunciou o uso de um coagulante que permitirá o tratamento da água. A substância facilita a separação da lama e da água, permitindo assim que ela seja filtrada e volte a ser potável. A expectativa é que o abastecimento na cidade retorne nesta segunda-feira, dia 16/11.

Um Oceano Inteiro Afetado

É importante lembrar que o rio não é só água em movimento, mas também funciona como transporte de nutrientes para o mar, que acabam sustentando diversos organismos. Coincidentemente, na foz do Rio Doce, ocorre também o encontro de correntes marinhas do Sul e do Norte, formando um “rodamoinho” de água de cerca de setenta quilômetros de diâmetro. Esta área é rica em nutrientes e também reúne espécies marinhas de todo o mundo. Por isso, segundo o diretor da Estação de Biologia Marinha Augusto Ruschi, o biólogo e ecólogo André Ruschi, a foz do Rio Doce se torna uma dos maiores pontos de desova de peixes marinhos do mundo.

“É o maior criadouro do Oceano Atlântico. Todos os grandes peixes do Oceano, do hemisfério sul e norte, vêm para lá se reproduzir, sendo um fenômeno impar. É uma das regiões marinhas mais importantes do planeta e, da costa brasileira, é a mais sensível de todas”. A chegada de diversos rejeitos da mineração significa um risco para todo o ecossistema do oceano. Como ainda resta a chance da presença de metais pesados na lama, há a possibilidade de contaminação da imensa biodiversidade do local. Todos os seres vivos, desde o minúsculo plâncton ao gigante marlim, podem acabar envenenados por estes elementos.

Recuperação?

Restam ainda muitas dúvidas em relação a como e quanto o ambiente será afetado pela lama da Samarco. Mas uma merece destaque: é possível recuperar o estrago? Ainda é muito cedo para afirmar com certeza, porém se estipula que o volume de água do rio talvez será o primeiro a normalizar.

“A natureza é muito mais forte do que podemos imaginar. Com o passar do tempo e muito lentamente os rios vão se recuperando. A vida dos tributários vai voltar a ocupar o rio e ele, em uma ou duas décadas, vai se recuperar. O que é muito tempo.” afirma o coordenador do Centro de Pesquisas Hidráulicas, Carlos Barreira Martinez. No entanto, para que isto ocorra é necessário que a lama se dilua e escorra para outras áreas, o que só é possível com a ação da chuva. A estiagem que a região sudeste enfrenta é um agravador deste cenário, atrasando muito uma possível revitalização do Rio Doce.

Obviamente, a biodiversidade animal e vegetal da região não pode esperar décadas para ver o rio novamente. “O conjunto de seres vivos vai estar todo ameaçado e vários desses organismos vão desaparecer, ainda que, vamos esperar, seja localmente. Eventualmente alguns desses organismos podem ter a chance de voltarem a colonizar essas áreas. Para que isso aconteça, vai precisar de tempo. No entanto, outros organismos não vão ter a chance de colonizar porque requer um tempo muito mais longo para que as cadeias alimentares se restabeleçam” explica o professor do ICB da UFMG, Francisco Barbosa. Ele estima que o começo dessa recuperação só irá acontecer em um futuro distante, precisando de 20 a 30 anos para a maioria dos diversos processos se sucederem.

Mas, se este prazo já é muito grande no continente, no oceano, ele é ainda maior. O especialista em biologia e ecologia marinha, André Ruschi lembra que a chegada de nutrientes ao oceano depende dos ciclos da maré, definidos pelos movimentos dos astros, como a lua e o sol: “A cada onze anos, com as enchentes, as cheias carregam grandes quantidades do material do rio para o mar”.

Como a região também é onde ocorre a confluência de espécies e correntes de todo o Oceano Atlântico, sendo uma das áreas de maior biodiversidade no mundo, o impacto, segundo o cientista, representará um atraso de séculos ao ecossistema.
(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/Entre-o-luto-e-a-saudade-um-panorama-do-maior-desastre-ambiental-do-Brasil/3/34996)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A França em estado de choque e de sítio

por Flávio Aguiar, de Berlim

Sábado, 14 de novembro, 11 - 12 horas da manhã (hora local).

A França está (mais uma vez) em estado de choque - e desta vez também de sítio. As fronteiras foram fechadas, o que significa que foi estabelecido um controle de identificação para entradas e saídas do país.

Na sexta-feira, os ataques terroristas começaram às 09h20 da noite, com três explosões suicidas nas proximidades do Stade de France, onde jogavam as seleções francesa e alemã. Estavam presentes o presidente François Hollande e o ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Franz-Walter Steinmeier, que foram imediatamente retirados do local. É possível que os atacantes quisessem entrar no estádio.

As explosões provocaram uma morte a mais. Houve um princípio de pânico no estádio, com uma parte da plateia invadindo o gramado logo depois do fim do jogo.

Enquanto isto, novos ataques aconteciam, em outros cinco lugares, visando bares e cafés. O mais grave deles aconteceu no Café Bataclan, onde havia um concerto de rock. Neste local de dois a quatro terroristas (segundo diferentes testemunhas) atiraram a esmo nos presentes, matando pelo menos 79 pessoas. Também foi o último local a ter a ação encerrada, por volta da uma da manhã, quando agentes de um esquadrão especial anti-terror invadiram o recinto. Nos outros locais, os atacantes disparavam de carros ou a pé, da rua. É possível que alguns destes tenham participado de mais de um destes ataques.

Até o momento a contagem oficial de mortos entre a população atingida é de 128, com 250 feridos, 99 deles em estado considerado muito grave. Por isto a contagem das vítimas pode ainda aumentar.

No total 8 atacantes morreram, sete deles explodindo cintos ou coletes que usavam, ao se verem cercados. Um dos assaltantes foi morto pela polícia.
 
A maioria dos analistas aponta o ISIS (Estado Islâmico) como o provável responsável pelos ataques. Alguns aventaram a hipótese de ser a Al Qaïda, porém muitos comentários afirmam que o estilo corresponde mais ao ISIS do que a esta. Também há referências de alguns sobreviventes afirmando que alguns dos assaltantes falavam que o ataque se devia ao que estava acontecendo “na Síria e no Iraque”, onde o ISIS mantém territórios sob controle. Também há o fato de que imediatamente antes destes ataques o ISIS sofrera dois reveses graves, o primeiro na cidade de Sinjar, no Iraque, que foi retomada pelo Peshmerga, o Exército Curdo, e o segundo em Raqqa, na Síria, num bombardeio por drone norte-americano, em que teria morrido (quase certamente) “Jihadi John”, tido como o carrasco das execuções de prisioneiros filmadas e com vts postados na internet. Ainda antes destes acontecimentos o ISIS assumira a responsabilidade por um duplo ataque suicida no Líbano, que deixara 43 mortos e 239 feridos num subúrbio populoso de Beirute.
 
Não se sabe ainda se os atacantes vieram de fora da França ou se já estavam no país. Ainda não foi divulgada sua identidade. Paris está praticamente bloqueada, com locais públicos fechados, controles nas ruas e nos transportes. É possível que haja ainda outros atacantes ou cúmplices em liberdade. As buscas continuam.
 
Num outro desenvolvimento, a polícia alemã apreendeu um caminhão que se dirigia para a França carregado com armamento pesado e explosivos. O motorista, um montenegrino, está detido.
 
Uma coisa é certa: estes ataques jogam água no moinho da direita ou da extrema-direita não só na França, mas em toda a Europa. Também dificultam a situação dos refugiados, vistos com suspeição por um grande número de pessoas em quase todos os países na União Europeia. Vários países fecharam ou estão fechando suas fronteiras. Na Alemanha os ataques noturnos aos abrigos de refugiados continuam.
 
O clima é de muito medo, insegurança e apreensão, inclusive aqui em Berlim. Muitos analistas apontam que ações como esta, ou o possível atentado contra o avião russo que caiu no Sinai, mostram uma grande escalada das ações do grupo ISIS, em alcance mundial.
 
*Publicado originalmente no Blogue do Velho Mundo, Rede Brasil Atual.
(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/A-Franca-em-estado-de-choque-e-de-sitio/6/34979)

Réquiem para uma terra morta


O Estado brasileiro, subserviente e fraco, vem sendo sequestrado historicamente por esse projeto. E tem arrastado com ele vidas, mortes evitáveis e destruição. Neste momento, no entanto, os gritos mais verdadeiros já foram calados para sempre. É por eles que precisamos levantar nossa voz.
13/11/2015
Por João Paulo Cunha*

Onde havia vida, hoje se procura um sinal, ainda que de confirmação da dor. No lugar em que pessoas viviam, hoje chafurda um grito que não vence a resistência do barro envenenado. Na cidade que viu nascer Minas Gerais, tudo regride a um estado mineral e sem brilho. Nada há de brotar tão cedo daquele solo. A matéria tóxica e plástica envolve todas as possibilidades imediatas de vida. Até a água, elemento primário do mundo, perde seu poder saneador para ser apenas veículo do que escorre como operoso fluxo de rejeitos. Fosse apenas o sofrimento, já seria demasiado. Mas há mais: o descaso.

A degradação do ambiente e do trabalho de homens e mulheres foi apontada sem trégua por movimentos sociais demonizados pelos meios de comunicação. São décadas de uma narrativa que conjuga a denúncia da exploração, a ausência de cuidado com a terra, a submissão sem constrangimento aos interesses do lucro.

Os distritos de Mariana se tornam símbolos de uma forma torpe de entrega. Da troca do futuro possível pela sobrevivência imediata e baça; da capitulação da dignidade pela urgência; do engodo da sustentabilidade que turvou as mentes antes de enlamear a paisagem.

Um jogo desigual, imundo, desonesto. A barganha da vida e de suas possibilidades pela oferta de um horizonte limitado no tempo. A vizinhança imposta da morte em forma de matéria incontível, de lama pútrida, do anúncio fatal.

Quando a morte cumpriu seu desígnio, mais que isso, quando mostrou sua trabalhosa construção do nada, o que se viu foi o jogo da mentira assumir a cena. Não foi a ganância que empilhou milhões de toneladas venenosas sobre as pessoas; não foi a necessidade de conter gastos que impediu o investimento em segurança; não foi a irresponsabilidade que armou a tragédia inevitável.

Foi o terremoto. A fatalidade. O risco incontornável do acaso.

Não foi uma empresa que nunca respeitou a vida, como a Vale, escondida em nome de subsidiárias; não foram pedidos de leniência na legislação ambiental que hoje correm no Legislativo; nem mesmo artifícios fiscais para aumentar o lucro e não deixar para a terra e seus habitantes nada além de crateras e lama química.

Foi a necessidade da economia. Foram as leis de mercado. Os arranjos modernos entre Estado e iniciativa privada.

A cidade, antes de chorar seus mortos com todas as lágrimas devidas, já teme o fechamento da Samarco. Um culto odioso à morte, uma derrocada de todos os valores em nome das conveniências e de um senso equivocado de futuro. Não há a posteridade no nada.

O Estado, ao aceitar a empresa como espaço para manifestar sua leitura do drama humano que testemunhava, trocou a legitimidade pela sombra da conivência.

Minas Gerais, cumprindo um destino funesto, abre seu caminho para o mar. Impulsionada pela dinâmica da economia que, sem metáforas, arranca a riqueza do chão e deixa seu rastro de monturos, opera a química inviável de transformar em lucro imediato o que a natureza demorou milhões de ano para criar. A diferença de tempos – geológico e econômico – está na raiz da tragédia. A ganância trabalha no horizonte de uma geração, já que os acionistas precisam ficar ricos; Gaia segue outra dinâmica e não se apieda de quem não cuida dela.

O Estado brasileiro, subserviente e fraco, vem sendo sequestrado historicamente por esse projeto. E tem, dia a dia, arrastado com ele vidas mal vividas, mortes evitáveis e destruição. Algumas vezes a resposta dos elementos se transforma em um som poderoso, ainda que difícil de suportar. Neste momento, no entanto, os gritos mais verdadeiros já foram calados para sempre. É por eles que precisamos levantar nossa voz.

*João Paulo Cunha é jornalista e colunista do Brasil de Fato MG.
(fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/33447)

sábado, 14 de novembro de 2015

Bons programas na Academia Mineira de Letras

Se puder, não deixe de ir!


Sarau na Academia com a poeta Flávia de Queiroz Lima
 
Dia 17 de novembro, terça-feira, às 19h30, acontece mais uma edição do Sarau na Academia. Na ocasião, a poeta carioca Flávia de Queiroz Lima apresenta o livro Arrumar as Gavetas, que vem acompanhado de um CD com os poemas gravados na voz da autora e de outras artistas convidadas.
Terça-feira, 17 de novembro de 2015
Horário: 19h30
Entrada gratuita.
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Ricardo Cravo Albin é o próximo convidado do Autor na Academia
 
Considerado um dos maiores pesquisadores da Música Popular Brasileira, o musicólogo Ricardo Cravo Albin lança no dia 24 de novembro, no O Autor na Academia, o livro Vinícius de Moraes - Embaixador do Brasil. A obra vem  acompanhada por dois Cd's sobre a vida e obra do poeta. Na ocasião, Albin falará sobre a história, poesia e paixão de Vinícius de Moraes pela MPB.
Terça-feira, 24 de novembro de 2015
Horário: 19h
Entrada gratuita.
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Universidade Livre aborda a obra de Clarisse Lispector e Inês Pedrosa
 
O projeto Universidade Livre traz, no dia 26 de novembro, a professora e membro da Academia Barbacenense de Letras, Angela Maria Rodrigues Laguardia, para ministrar a palestra Clarice Lispector e Inês Pedrosa: dois mundos, dois olhares no espaço da crônica.
Quinta-feira, 26 de novembro de 2015
Horário: 17h
Entrada gratuita.
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Próximos Autores na Academia
 
Os próximos convidados do projeto são:  Ivan Ângelo, no dia 26 de novembro, Humberto Werneck, no dia 30 do mesmo mês e Antônio Torres, no dia 09 de dezembro.

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Academia Mineira de Letras
Rua da Bahia, 1466 | Centro
Belo Horizonte | MG
 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

África - introdução geral (oficina)









Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte
24 anos 

Horário de atendimento:
  • De terça a sexta-feira, de 8h30 às 17h30
  • Sábados, de 9h às 13h
Agendamento de visitas monitoradas para escolares e outros grupos poderá ser solicitado por correio eletrônico ou telefone, mediante consulta de disponibilidade de dia/horário.
Rua Carangola, 288 - Térreo  - Santo Antônio 
CEP:30.330-240 - Belo Horizonte - MG
tel.: (31) 3277.8658 - tel fax: (31) 3277.8651

Lama da Samarco: biólogo aponta impacto por 100 anos na vida marinha



André Ruschi denuncia “assassinato da 5ª maior bacia hidrográfica brasileira”, diz que Samarco precisa ser fechada e critica uso do mar para dispersão da poluição

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O biólogo André Ruschi, diretor da escola Estação Biologia Marinha Augusto Ruschi, em Aracruz (ES), defende o fechamento da Samarco, mineradora responsável pelo rompimento da barragem de resíduos em Mariana (MG). Ele usou uma rede social para falar do impacto em três Unidades de Conservação, em particular o Refúgio de Vida Silvestre de Santa Cruz, um dos mais importantes criadouros marinhos do Oceano Atlântico.
“O fluxo de nutrientes de toda a cadeia alimentar de 1/3 da região sudeste e o eixo de ½ do Oceano Atlântico Sul está comprometido e pouco funcional por no mínimo 100 anos”, afirma. Ele aponta “assassinato da quinta maior bacia hidrográfica brasileira”, diz que a empresa é reincidente e debochou da prevenção.
Ele também critica o licenciamento para o projeto: “Barragens e lagoas de contenção de dejetos necessitam ter barragens de emergência e plano de contingência. Como licenciar o projeto sem estes quesitos cumpridos?”
Em outra publicação ele fala sobre o “mar de lama” que se tornou a enxurrada de resíduos da Samarco: “Não seria melhor evitar que a lama chegasse ao mar?
Quem teve a brilhante ideia de abrir as comportas das barragens rio abaixo em vez de fechá-las para conter a lama e depois retirar a lama da calha do rio? Quem ainda pensa que o mar tem o poder de diluição da poluição? Isto é um retrocesso da ciência de mais de um século!”
Vejam o depoimento inicial dele, conforme publicado em sua página no Facebook:
“Esta sopa de lama tóxica que desce no rio Doce e descerá por alguns anos toda vez que houver chuvas fortes e irá para a região litorânea do ES, espalhando-se por uns 3.000 km2 no litoral norte e uns 7.000 km2 no litoral ao sul, atingindo três Unidades de Conservação marinhas – Comboios, APA Costa das Algas e RVS de Santa Cruz, que juntos somam uns 200.000 km no mar.
Os minerais mais tóxicos e que estão em pequenas quantidades na massa total da lama, aparecerão concentrados na cadeia alimentar por muitos anos, talvez uns 100 anos.
RVS de Santa Cruz é um dos mais importantes criadouros marinhos do Oceano Atlântico.
Um hectare de criadouro marinho equivale a 100 quilômetros de floresta tropical primária. Isto significa que o impacto no mar equivale a uma descarga tóxica que contaminaria uma área terrestre de de 20 milhões de hectares ou 200 mil km2 de floresta tropical primária. E a mata ciliar também tem valor em dobro.
Considerando as duas margens, são 1.500 km lineares x 2 = 3.000 km2 ou 300 mil hectares de floresta tropical primária.
Vocês não fazem ideia.
O fluxo de nutrientes de toda a cadeia alimentar de 1/3 da região sudeste e o eixo de ½ do Oceano Atlântico Sul está comprometido e pouco funcional por no mínimo 100 anos!
Conclusão: esta empresa tem que fechar.
Além de pagar pelo assassinato da 5ª maior bacia hidrográfica brasileira. Eles debocharam da prevenção e são reincidentes em diversos casos. Demonstram incapacidade de operação crassa e com consequências trágicas e incomensuráveis. Como não fechar? Representam perigo para a segurança da nação!
O que restava de biodiversidade castigada pela seca agora terminou de ir. Quem sobreviverá? Quais espécies de peixes, anfíbios, moluscos, anelídeos, insetos aquáticos jamais serão vistas novamente? A lista de espécies desaparecidas foram quantas? Se alguém tiver informações, ajudariam a pensar.
Barragens e lagoas de contenção de dejetos necessitam ter barragens de emergência e plano de contingência. Como licenciar o projeto sem estes quesitos cumpridos? Qual a legalidade da licença para operação sem a garantia de segurança para a sociedade e o meio ambiente?
Sendo Rio Federal a jurisdição é do governo federal, portanto os encaminhamentos devem serem feitos ao Ministério Público Federal”.
André Ruschi
Estação Biologia Marinha Augusto Ruschi
Aracruz, Santa Cruz, ES
LEIA MAIS:
A lama da Samarco e o jornalismo que não dá nome aos bois
Minas Gerais: onde estão Ana Clara, Mateus, Yuri e Thiago?

(fonte: http://outraspalavras.net/alceucastilho/2015/11/11/lama-da-samarco-biologo-aponta-impacto-por-100-anos-na-vida-marinha/)