sábado, 23 de janeiro de 2016

“Déficit” da Previdência: a grande fraude

Uma economista disseca os cálculos que fabricam a “crise” e contra-ataca: objetivo do discurso é transferir à aristocracia financeira fundos que garantem direitos sociais 
Denise Gentil, entrevistada por Coryntho Baldez, no Jornal da UFRJ

Aos poucos, à medida em que se aprofunda o “ajuste fiscal” brasileiro, um velho bordão volta à cena: o do suposto “déficit da Previdência. Nos jornais, “especialistas” brandem números sem se preocupar em explicá-los. Benefícios supostamente “exagerados” teriam tornado o sistema previdenciário inviável. Não haveria outra saída exceto reduzir direitos. Em sua primeira entrevista do ano, a presidente Dilma Roussef propôs abertamente elevar a idade mínima para aposentadoria.
Que se esconde por trás destes números e argumentos? Por desconfiar de ambos, a economista Denise Gentil, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, dedicou seu doutorado ao tema. Suas conclusões essenciais merecem amplo debate: 
> Para falar de “déficit” da Previdência é preciso realizar uma conta bizarra. Implica excluir da receita do sistema previdenciário tributos que a Constituição destina expressamente a ele: por exemplo, a Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), a CSLL (Contribuição sobre o Lucro Líquido) e a CPMF (que deverá ser recriada em breve). Basta incluir estes estes tributos para que surja, em vez do déficit, um vistoso superávit (RS 1,2 bilhões em 2006, por exemplo)
> O cálculo artificial esconde um interesse: deixar de ver os benefícios previdenciários (aposentadorias, pensões, assistência aos acidentes de trabalho, seguro-desemprego e tantos outros) como direitos que o Estado deve assegurar, por meio da arrecadação de tributos. Segundo este ponto de vista restritivo, e ao contrário do que diz a própria Constituição, as únicas receitas do sistema previdenciário seriam as contribuições descontadas dos salários da população formalmente empregada.
> Do ponto de vista da, exceto quando se distorcem os cálculos. destroça os mitos oficiais que encobrem a realidade da Previdência Social no Brasil. Em primeiro lugar, uma gigantesca farsa contábil transforma em déficit o superávit do sistema previdenciário, que atingiu a cifra de R$ 1,2 bilhões em 2006, segundo a economista.
> O objetivo último é facilmente previsível. Quem alardeia o “déficit” quer, no fundo, desviar para o pagamento de juros recursos que são claramente previdenciários. Em outras palavras, destinar à aristocracia financeira o dinheiro que a Constituição manda usar para os direitos sociais — inclusive dos mais necessitados.
A entrevista em que Denise Gentil expõe em detalhes suas conclusões vem a seguir. Para detalhes, leia também, na íntegra, sua tese:  “A falsa crise da Seguridade Social no Brasil: uma análise financeira do período 1990 – 2005” (A.M.)

A economista Denise Gentil desmascara o passo-a-passo da manipulação
A ideia de crise do sistema previdenciário faz parte do pensamento econômico hegemônico desde as últimas décadas do século passado. Como essa concepção se difundiu e quais as suas origens?

A idéia de falência dos sistemas previdenciários públicos e os ataques às instituições do welfare state (Estado de Bem- Estar Social) tornaram-se dominantes em meados dos anos 1970 e foram reforçadas com a crise econômica dos anos 1980. O pensamento liberal-conservador ganhou terreno no meio político e no meio acadêmico. A questão central para as sociedades ocidentais deixou de ser o desenvolvimento econômico e a distribuição da renda, proporcionados pela intervenção do Estado, para se converter no combate à inflação e na defesa da ampla soberania dos mercados e dos interesses individuais sobre os interesses coletivos. Um sistema de seguridade social que fosse universal, solidário e baseado em princípios redistributivistas conflitava com essa nova visão de mundo. O principal argumento para modificar a arquitetura dos sistemas estatais de proteção social, construídos num período de crescimento do pós-guerra, foi o dos custos crescentes dos sistemas previdenciários, os quais decorreriam, principalmente, de uma dramática trajetória demográfica de envelhecimento da população. A partir de então, um problema que é puramente de origem sócio-econômica foi reduzido a um mero problema demográfico, diante do qual não há solução possível a não ser o corte de direitos, redução do valor dos benefícios e elevação de impostos. Essas idéias foram amplamente difundidas para a periferia do capitalismo e reformas privatizantes foram implantadas em vários países da América Latina.

No Brasil, a concepção de crise financeira da Previdência vem sendo propagada insistentemente há mais de 15 anos. Os dados que você levantou em suas pesquisas contradizem as estatísticas do governo. Primeiramente, explique o artifício contábil que distorce os cálculos oficiais.

Tenho defendido a idéia de que o cálculo do déficit previdenciário não está correto, porque não se baseia nos preceitos da Constituição Federal de 1988, que estabelece o arcabouço jurídico do sistema de Seguridade Social. O cálculo do resultado previdenciário leva em consideração apenas a receita de contribuição ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) que incide sobre a folha de pagamento, diminuindo dessa receita o valor dos benefícios pagos aos trabalhadores. O resultado dá em déficit. Essa, no entanto, é uma equação simplificadora da questão. Há outras fontes de receita da Previdência que não são computadas nesse cálculo, como a Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), a CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido), a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) e a receita de concursos de prognósticos. Isso está expressamente garantido no artigo 195 da Constituição e acintosamente não é levado em consideração.

A que números você chegou em sua pesquisa?

Fiz um levantamento da situação financeira do período 1990-2006. De acordo com o fluxo de caixa do INSS, há superávit operacional ao longo de vários anos. Em 2006, para citar o ano mais recente, esse superávit foi de R$ 1,2 bilhões.
O superávit da Seguridade Social, que abrange o conjunto da Saúde, da Assistência Social e da Previdência, é muito maior. Em 2006, o excedente de recursos do orçamento da Seguridade alcançou a cifra de R$ 72,2 bilhões.
Uma parte desses recursos, cerca de R$ 38 bilhões, foi desvinculada da Seguridade para além do limite de 20% permitido pela DRU (Desvinculação das Receitas da União).
Há um grande excedente de recursos no orçamento da Seguridade Social que é desviado para outros gastos. Esse tema é polêmico e tem sido muito debatido ultimamente. Há uma vertente, a mais veiculada na mídia, de interpretação desses dados que ignora a existência de um orçamento da Seguridade Social e trata o orçamento público como uma equação que envolve apenas receita, despesa e superávit primário. Não haveria, assim, a menor diferença se os recursos do superávit vêm do orçamento da Seguridade Social ou de outra fonte qualquer do orçamento.
Interessa apenas o resultado fiscal, isto é, o quanto foi economizado para pagar despesas financeiras com juros e amortização da dívida pública.
Por isso o debate torna-se acirrado. De um lado, estão os que advogam a redução dos gastos financeiros, via redução mais acelerada da taxa de juros, para liberar recursos para a realização do investimento público necessário ao crescimento. Do outro, estão os defensores do corte lento e milimétrico da taxa de juros e de reformas para reduzir gastos com benefícios previdenciários e assistenciais. Na verdade, o que está em debate são as diferentes visões de sociedade, de desenvolvimento econômico e de valores sociais.

Há uma confusão entre as noções de Previdência e de Seguridade Social que dificulta a compreensão dessa questão. Isso é proposital?

Há uma grande dose de desconhecimento no debate, mas há também os que propositadamente buscam a interpretação mais conveniente. A Previdência é parte integrante do sistema mais amplo de Seguridade Social.
É parte fundamental do sistema de proteção social erguido pela Constituição de 1988, um dos maiores avanços na conquista da cidadania, ao dar à população acesso a serviços públicos essenciais. Esse conjunto de políticas sociais se transformou no mais importante esforço de construção de uma sociedade menos desigual, associado à política de elevação do salário mínimo. A visão dominante do debate dos dias de hoje, entretanto, freqüentemente isola a Previdência do conjunto das políticas sociais, reduzindo-a a um problema fiscal localizado cujo suposto déficit desestabiliza o orçamento geral. Conforme argumentei antes, esse déficit não existe, contabilmente é uma farsa ou, no mínimo, um erro de interpretação dos dispositivos constitucionais.
Entretanto, ainda que tal déficit existisse, a sociedade, através do Estado, decidiu amparar as pessoas na velhice, no desemprego, na doença, na invalidez por acidente de trabalho, na maternidade, enfim, cabe ao Estado proteger aqueles que estão inviabilizados, definitiva ou temporariamente, para o trabalho e que perdem a possibilidade de obter renda. São direitos conferidos aos cidadãos de uma sociedade mais evoluída, que entendeu que o mercado excluirá a todos nessas circunstâncias.

E são recursos que retornam para a economia?

É da mais alta relevância entender que a Previdência é muito mais que uma transferência de renda a necessitados. Ela é um gasto autônomo, quer dizer, é uma transferência que se converte integralmente em consumo de alimentos, de serviços, de produtos essenciais e que, portanto, retorna das mãos dos beneficiários para o mercado, dinamizando a produção, estimulando o emprego e multiplicando a renda. Os benefícios previdenciários têm um papel importantíssimo para alavancar a economia. O baixo crescimento econômico de menos de 3% do PIB (Produto Interno Bruto), do ano de 2006, seria ainda menor se não fossem as exportações e os gastos do governo, principalmente com Previdência, que isoladamente representa quase 8% do PIB.

De acordo com a Constituição, quais são exatamente as fontes que devem financiar a Seguridade Social?

A seguridade é financiada por contribuições ao INSS de trabalhadores empregados, autônomos e dos empregadores; pela Cofins, que incide sobre o faturamento das empresas; pela CSLL, pela CPMF (que ficouconhecida como o imposto sobre o cheque) e pela receita de loterias. O sistema de seguridade possui uma diversificada fonte de financiamento. É exatamente por isso que se tornou um sistema financeiramente sustentável, inclusive nos momentos de baixo crescimento, porque além da massa salarial, o lucro e o faturamento são também fontes de arrecadação de receitas. Com isso, o sistema se tornou menos vulnerável ao ciclo econômico. Por outro lado, a diversificação de receitas, com a inclusão da taxação do lucro e do faturamento, permitiu maior progressividade na tributação, transferindo renda de pessoas com mais alto poder aquisitivo para as de menor.

Além dessas contribuições, o governo pode lançar mão do orçamento da União para cobrir necessidades da Seguridade Social?

É exatamente isso que diz a Constituição. As contribuições sociais não são a única fonte de custeio da Seguridade. Se for necessário, os recursos também virão de dotações orçamentárias da União. Ironicamente tem ocorrido o inverso. O orçamento da Seguridade é que tem custeado o orçamento fiscal.

O governo não executa o orçamento à parte para a Seguridade Social, como prevê a Constituição, incorporando-a ao orçamento geral da União. Essa é uma forma de desviar recursos da área social para pagar outras despesas?

A Constituição determina que sejam elaborados três orçamentos: o orçamento fiscal, o orçamento da Seguridade Social e o orçamento de investimentos das estatais. O que ocorre é que, na prática da execução orçamentária, o governo apresenta não três, mas um único orçamento chamando-o de “Orçamento Fiscal e da Seguridade Social”, no qual consolida todas as receitas e despesas, unificando o resultado. Com isso, fica difícil perceber a transferência de receitas do orçamento da Seguridade Social para financiar gastos do orçamento fiscal. Esse é o mecanismo de geração de superávit primário no orçamento geral da União. E, por fim, para tornar o quadro ainda mais confuso, isola-se o resultado previdenciário do resto do orçamento geral para, com esse artifício contábil, mostrar que é necessário transferir cada vez mais recursos para cobrir o “rombo” da Previdência. Como a sociedade pode entender o que realmente se passa?

Agora, o governo pretende mudar a metodologia imprópria de cálculo que vinha usando. Essa mudança atenderá completamente ao que prevê a Constituição, incluindo um orçamento à parte para a Seguridade Social?

Não atenderá o que diz a Constituição, porque continuará a haver um isolamento da Previdência do resto da Seguridade Social. O governo não pretende fazer um orçamento da Seguridade. Está propondo um novo cálculo para o resultado fiscal da Previdência. Mas aceitar que é preciso mudar o cálculo da Previdência já é um grande avanço. Incluir a CPMF entre as receitas da seguridade é um reconhecimento importante, embora muito modesto. Retirar o efeito dos incentivos fiscais sobre as receitas também ajuda a deixar mais transparente o que se faz com a política previdenciária. O que me parece inadequado, entretanto, é retirar a aposentadoria rural da despesa com previdência porque pode, futuramente, resultar em perdas para o trabalhador do campo, se passar a ser tratada como assistência social, talvez como uma espécie de bolsa. Esse é um campo onde os benefícios têm menor valor e os direitos sociais ainda não estão suficientemente consolidados.

Como você analisa essa mudança de postura do Governo Federal em relação ao cálculo do déficit? Por que isso aconteceu?

Acho que ainda não há uma posição consolidada do governo sobre esse assunto. Há interpretações diferentes sobre o tema do déficit da Previdência e da necessidade de reformas. Em alguns segmentos do governo fala-se apenas em choque de gestão, mas em outras áreas, a reforma da Previdência é tratada como inevitável. Depois que o Fórum da Previdência for instalado, vão começar os debates, as disputas, a atuação dos lobbies e é impossível prever qual o grau de controle que o governo vai conseguir sobre seus rumos. Se os movimentos sociais não estiverem bem organizados para pressionarem na defesa de seus interesses pode haver mais perdas de proteção social, como ocorreu em reformas anteriores.

A previdência pública no Brasil, com seu grau de cobertura e garantia de renda mínima para a população, tem papel importante como instrumento de redução dos desequilíbrios sociais?

Prefiro não superestimar os efeitos da Previdência sobre os desequilíbrios sociais. De certa forma, tem-se que admitir que vários estudos mostram o papel dos gastos previdenciários e assistenciais como mecanismos de redução da miséria e de atenuação das desigualdades sociais nos últimos quatro anos. Os avanços em termos de grau de cobertura e de garantia de renda mínimapara a população são significativos. Pela PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), cerca de 36,4 milhões de pessoas ou 43% da população ocupada são contribuintes do sistema previdenciário. Esse contingente cresceu de forma considerável nos últimos anos, embora muito ainda necessita ser feito para ampliar a cobertura e evita que, no futuro, a pobreza na velhice se torne um problema dos mais graves. O fato, porém, de a população ter assegurado o piso básico de um salário mínimo para os benefícios previdenciários é de fundamental importância porque, muito embora o valor do salário mínimo esteja ainda distante de proporcionar condições dignas de sobrevivência, a política social de correção do salário mínimo acima da inflação tem permitido redução da pobreza e atenuado a desigualdade da renda.
Cerca de dois milhões de idosos e deficientes físicos recebem benefícios assistenciais e 524 mil são beneficiários do programa de renda mensal vitalícia. Essas pessoas têm direito a receber um salário mínimo por mês de forma permanente.
Evidentemente que tudo isso ainda é muito pouco para superar nossa incapacidade histórica de combater as desigualdades sociais. Políticas muito mais profundas e abrangentes teriam que ser colocadas em prática, já que a pobreza deriva de uma estrutura produtiva heterogênea e socialmente fragmentada que precisa ser transformada para que a distância entre ricos e pobres efetivamente diminua. Além disso, o crescimento econômico é condição fundamental para a redução da pobreza e, nesse quesito, temos andado muito mal. Mas a realidade é que a redução das desigualdades sociais recebeu um pouco mais de prioridade nos últimos anos do que em governos anteriores e alguma evolução pode ser captada através de certos indicadores.

Apesar do superávit que o governo esconde, o sistema previdenciário vem perdendo capacidade de arrecadação. Isso se deve a fatores demográficos, como dizem alguns, ou tem relação mais direta com a política econômica dos últimos anos?

A questão fundamental para dar sustentabilidade para um sistema previdenciário é o crescimento econômico, porque as variáveis mais importantes de sua equação financeira são emprego formal e salários. Para que não haja risco do sistema previdenciário ter um colapso de financiamento é preciso que o país cresça, aumente o nível de ocupação formal e eleve a renda média no mercado de trabalho para que haja mobilidade social. Portanto, a política econômica é o principal elemento que tem que entrar no debate sobre “crise” da Previdência. Não temos um problema demográfico a enfrentar, mas de política econômica inadequada para promover o crescimento ou a aceleração do crescimento.

(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=261365)

Do PT das Lutas Sociais ao PT do poder

O que aconteceu com o partido que se colocava como guardião da ética e das boas práticas políticas? Como e por que o exercício do poder transformou o PT?
A Editora Contexto apresenta Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder, do sociólogo José de Souza Martins – uma leitura para quem quer de fato entender o que está acontecendo no Brasil.
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  Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder
  José de Souza Martins
 
O PT se apresentava como um partido que lutava nas ruas e nas portas das fábricas, nas igrejas e nas universidades pregando ética e justiça social. No que ele se transformou após mais de uma década de exercício contínuo de poder?
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Câncer: NK, as notáveis células de defesa

Organismo tem recursos conhecidos, para evitar que tumores desenvolvam-se. Quais são. Como atuam. Que atitudes e modos de vida podem estimulá-los ou inibi-los 
Por Sylvia Lopes, co-editora do blog Hoje Tem

Uma vez que um câncer se instala, nosso organismo entra em guerra.  As células cancerígenas se comportam como “foras da lei”, desobedecendo as regras de regulação dos tecidos — como morrer depois de certo número de divisões. Multiplicam-se incessantemente, invadindo o espaço das células vizinhas, intoxicando-as e criando uma inflamação local que estimula ainda mais esta expansão. Para garantir abastecimento de nutriente para as células cancerosas, os vasos sanguíneos são convocados a desviar-se das células saudáveis, vizinhas; esta “alimentação” faz com que aquele amontoado celular torne-se um tumor rapidamente. No entanto, é possível intervir e desorganizar estes bandidos, impedindo que as etapas aqui descritas muito sumariamente aconteçam. Se a estratégia for bem sucedida, haverá três efeitos que contrariam a lógica do câncer:
  1. o sistema se mobilizará para destruir estas células;
  2. os vasos sanguíneos não se desviarão mais para para abastecer o amontoado celular, evitando a formação do tumor.
Esses dois processos podem ser grandes aliados dos tratamentos convencionais e, como descreveremos a seguir,  podem ser desenvolvidos para evitar a progressão da doença.

Sistema Imunológico

Um dos principais objetivos na luta contra o câncer é reforçar a ação do sistema imunológico e em especial das células NK. As células NK (Natural Killers), ao contrário dos outros linfócitos, não precisam estar na presença de um antígeno para se mobilizarem (antígenos são encarregados de alertar o corpo da presença de inimigos). Logo que detectam a célula inimiga, as NKs aglutinam-se à sua volta, buscando contato com a membrana da célula cancerígena, liberando perforina e granzimas que, unidas, são capazes de matar diferentes tipos destas células. Portanto, quanto mais forte estiver o sistema imunológico, maior será sua reação contra as células doentes e maior a chance de cura do paciente.
Um estudo acompanhou 77 mulheres portadoras de câncer de mama por 12 anos — o acompanhamento começou logo na descoberta da doença. O material da biópsia que diagnosticou o câncer foi cultivado na presença das células brancas da própria paciente. Em algumas amostras, os glóbulos brancos não reagiram; em outros casos, ao contrário, houve uma grande reação. Ao término da pesquisa, 12 anos depois, 47% das pacientes cujos glóbulos brancos não haviam reagido em laboratório haviam falecido. Em compensação, 95% das mulheres cujo sistema imunológico havia reagido com força estavam vivas. (1)
Esta e outras diversas pesquisas (2)(3)(4)(5)(6) concluíram que quando o sistema imunológico está enfraquecido as células cancerígenas têm campo livre para proliferar. O câncer só se desenvolve se tiver terreno fértil. As pesquisas indicam que a falta de defesas abre espaço para que as células de câncer adormecidas se tornem tumores agressivos. Nós podemos estimular a vitalidade do sistema imunológico, de maneira que os glóbulos brancos se esforcem ao máximo diante do câncer. Para isso, é importante alimentar o sistema imunológico com bons nutrientes, protegendo-o de toxinas, e ter controle sobre as emoções, reduzindo o nível de estresse do organismo.
Veja no quadro a seguir o que inibe e o que estimula a fortaleza do sistema imunológico.
As diferentes pesquisas sobra a atividade dos glóbulos brancos mostram que eles reagem à alimentação, ao meio ambiente, à atividade física e à vida emocional. Todas as pessoas devem ser encorajadas a um estilo de vida que estimule o fortalecimento de seu sistema imunológico, estando adoentadas ou não.
As diferentes pesquisas sobra a atividade dos glóbulos brancos mostram que eles reagem à alimentação, ao meio ambiente, à atividade física e à vida emocional. Todas as pessoas devem ser encorajadas a um estilo de vida que estimule o fortalecimento de seu sistema imunológico, estando adoentadas ou não.

Inflamação

Todos os organismos são naturalmente capazes de reparar seus tecidos danificados através do mecanismo que conhecemos como inflamação. Toda vez que nosso organismo detecta uma agressão (corte, pancada, infecção, etc), libera uma série de reações químicas celulares conhecidas como inflamação. Ela produz sintomas conhecidos: rubor, edema, calor e dor. Esta reação restaura o que foi destruído e evita que mais danos aconteçam.
Tais mecanismos, tão essenciais para a manutenção do nosso corpo, também servem como um cavalo de Tróia para o câncer. As células cancerígenas servem-se do aumento da vascularização propiciada pela inflamação para se espalhar (a conhecida metástase) e se alimentar. O câncer é capaz de mudar a rota dos vasos sanguíneos que cuidam dos processos inflamatórios direcionando-os para o próprio tumor, garantindo seu desenvolvimento.
Como viver de maneira saudável e lutar contra o câncer, se ele usa exatamente o processo que nos mantêm saudáveis para nos destruir?
Rudolf Wirchow, fundador da patologia moderna, realizou estudos que mostram que muitos pacientes desenvolveram tumores cancerígenos justamente em órgãos traumatizados. A inflamação que regenerou aquele local foi usada para abastecer células cancerígenas ali residentes, mas que sem o trauma jamais tornar-se-iam cânceres. Ele também notou que mulheres com inflamações crônicas por infecção de HPV tiveram alta incidência de câncer de colo de útero; pessoas com inflamações repetidas de intestino igualmente desenvolveram câncer de cólon em larga escala; e pessoas que tiveram seu fígado inflamado por hepatite também desenvolveram câncer hepático em índices muito acima das demais.
O Instituto Nacional do Câncer dos EUA redigiu em 2005 um relatório detalhado apontando o vínculo entre inflamação e desenvolvimento de tumores malignos. Este relatório descreve com grande precisão o mecanismo de invasão, bem como o mecanismo que as células imunológicas utilizam para proteger o corpo. (7)
Desde 1990, o Hospital de Glasgow mede a inflamação nos paciente oncológicos. A conclusão da pesquisa: paciente com menor incidência de inflamações têm o dobro de chance de sobreviver à doença. Esta descoberta e a consciência deste mecanismo ajudam-nos a tomar atitudes práticas na nossa rotina para evitar inflamação e consequentemente não alimentar as células que tanto tememos.
O que provoca inflamação:
  1. dieta ocidental tradicional;
  2. picos glicêmicos (ingestão de açúcares e farinhas refinadas);
  3. carne vermelha, laticínios e ovos de animais criados em escala industrial;
  4. omega-6 (óleo de milho, girassol, cártamo e soja);
  5. sensação persistente de raiva ou desespero;
  6. sedentarismo (menos de 20 minutos de atividade física por dia);
  7. fumaça de cigarro, poluição e poluentes domésticos.
O que evita inflamação:
  1. dieta mediterrânea, indiana ou asiática;
  2. farinhas integrais;
  3. no máximo 50g de carne orgânica por semana;
  4. omega-3 (azeite de oliva, linhaça e óleo de canola);
  5. peixes;
  6. laticínios e ovos orgânicos;
  7. risada, leveza e serenidade;
  8. 30 min de atividade física por dia – lembre-se, as células cancerígenas não se desenvolvem em ambiente rico em oxigênio. Oxigene-se!!!
Todos os resultados das pesquisas mais recentes convergem. O padrão de vida do capitalismo ocidental é um disseminador do câncer. Viver na “contramão”, reforçando os glóbulos brancos é uma conduta que dificulta o desenvolvimento do câncer. Tudo que provoca inflamação estimula seu desenvolvimento. Em resumo, estimular as células imunológicas e combater a inflamações desnecessárias são canais poderosos, e temos poder sobre isso.

1. Head, J.F.,F.Wang, R.L. Elliot, et al.,"Assessment if Immunologic Competence and Host 
Reactivity Against Tumor Antigens in Breast Cancer Patients: Prognostic Value and 
Rationale of Immunotherapy Development", Annals of the New York Academy of Sciences 690 
(1993): 340-42
2.Imai, Matsuyama, Miyake, et. al.,"Natural Cytotoxic Activity of Peripheral-Blood 
Lymphocytes and Cancer Incidence"

3.Herberman, "Immunoterapy"

4.Levy, S.M., R.B. Herberman, A.M. Maluish, et al.,"Prognostic Risk Assessment in Primary 
Breast Cancer by Behavioral and Immunological Parameters", Health Psychology 4, 
no 2 (1985): 99-113

5.Lutgendorf, S.K., A.K. Sood, B. Andeerson, et al., "Social Support, Psychological 
Distress, and Natural Killer Cell Activity in Ovarian Cancer", Jornal od Clinical Oncology 23,
no 28 (2005): 7105-13 

6. Schantz, Brown, Lira, et al., "Evidence for the Role of Natural Immunity in the Control 
of Metastatic Spread of Head and Neck Cancer"

7. Peek, R. M., Jr., S. Mohla, and R.N. DuBois, "Inflammation in the Genesis and Perpetuation 
of Cancer: Summary and Recommendations from a National Cancer Instittute-Sponsored Meeting", 
Cancer Research 65, no. 19 (2005):8583-86
(fonte: http://outraspalavras.net/blog/2016/01/21/cancer-nk-as-notaveis-celulas-de-defesa/)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Crise hídrica: a natureza da Conexão Amazônica

Estudo pioneiro explica: estiagem recorde está relacionada a formação de “bolha gigante de ar quente” no Sudeste. Em SP, aumento do consumo d’água e má gestão das represas completaram desastre
Por Claudio Angelo, no Observatório da Clima

Uma radiografia completa da estiagem que secou o Sistema Cantareira e levou a maior cidade da América do Sul ao racionamento de água foi publicada no fim do mês passado por um grupo de cientistas de duas instituições de pesquisa federais.No trabalho, o grupo liderado por José Marengo, do Cemaden (Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) mostra que a seca paulista de 2014, em seu conjunto, é um fenômeno sem precedentes. E está diretamente relacionada a outro desastre natural que atingiu o país naquele ano: as enchentes em Rondônia e no Acre, que isolaram a região e causaram prejuízos na casa dos R$ 200 milhões aos acreanos ao cortarem a única ligação terrestre do Estado com o resto do Brasil, a BR-364.Segundo Marengo e colegas do Cemaden e do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a bolha gigante de ar quente que ficou um mês e meio estacionada sobre o Sudeste do Brasil teve um efeito colateral: ela bloqueou as correntes de ar úmido que vêm da Amazônia para o Sudeste, os chamados jatos de baixos níveis.Essas massas de ar, que ganharam o nome popular de “rios voadores”, ajudam a trazer chuva para São Paulo, Minas Gerais e parte do Centro-Oeste. Porém, em 2014, elas foram barradas pela região de alta pressão (ou seja, uma massa de ar mais próxima da superfície) formada no Sudeste e Centro-Oeste, o que desviou as chuvas para Rondônia. Outra parte do jato bloqueado foi bater no Rio Grande do Sul, que também teve chuva acima da média naquele ano.
 A observação não chega a ser um endosso da hipótese de que o desmatamento na Amazônia é um dos fatores por trás da falta d’água em São Paulo, que ganhou popularidade na época. Segundo o grupo, com os dados disponíveis não é possível fazer relação direta entre o desmatamento da Amazônia e a falta d’água em São Paulo. “São necessários estudos com modelos climáticos globais complexos, nos quais se simule o clima com vários níveis de concentração de gases-estufa e de mudanças no uso da terra, por exemplo, urbanização ou desmatamento da Amazônia, para detectar impactos no transporte de umidade fora da bacia amazônica e nas chuvas nas bacias no Sul e Sudeste do Brasil”, escreveram os cientistas.

No entanto, eles também dizem que, mesmo diante da incerteza, reduzir o desmatamento e recuperar florestas são provavelmente uma boa ideia para aumentar a resiliência do país à seca: “Considerando a complexidade das relações entre floresta e chuva nas regiões a leste dos Andes, uma possível solução para não alterar o ciclo hidrológico da Amazônia seria reduzir o desmatamento e reflorestar áreas em várias regiões do Brasil”.

Bloqueio: Da mesma forma, o artigo do grupo, publicado num dossiê sobre a crise hídrica da Revista USP, evita atribuir o problema à mudança climática. Para Marengo e colegas, o que deixou São Paulo a seco foi uma combinação entre uma estiagem anormal, o crescimento da demanda e o mau gerenciamento dos recursos hídricos.

O estudo enumera, porém, uma série de anomalias climáticas enormes entre as causas da estiagem. A estação chuvosa de 2013/2014 foi a mais seca na região do Cantareira desde 1962, quando começou a série histórica. A temperatura na região em janeiro de 2014 também foi recorde – 2,5oC acima da média histórica, ou mais do que duas vezes e meia o aquecimento médio do planeta no último século.

O bloqueio atmosférico, a tal zona de alta pressão que barrou a entrada de frentes frias, de pancadas de chuva e da umidade da Amazônia, também foi para lá de anormal: esses fenômenos geralmente duram de 7 a 15 dias, nos piores casos. O bloqueio de janeiro e fevereiro de 2014 durou 45. Ele foi reforçado por temperaturas também anormalmente altas da superfície do mar no Atlântico Sul naquela época.

O resultado dessa combinação incomum de fatores atmosféricos e oceânicos, mais o despreparo do governo paulista para lidar com a situação, é algo que os paulistanos estão vendo em suas torneiras até agora, mesmo depois que os reservatórios do Sistema Cantareira finalmente saíram do volume morto, dois anos após o início da estiagem. O evento foi considerado o quinto desastre natural mais caro de 2014 no mundo, com um prejuízo estimado em US$ 5 bilhões (R$ 20 bilhões em valores de hoje). A falta de chuva em 2014 secou o solo, impediu a umidade que alimentaria os reservatórios em 2015 e fez a situação se arrastar durante todo o ano passado.

Marengo afirma que não há estudos conclusivos sobre o comportamento dos bloqueios atmosféricos num cenário de aquecimento global. Além disso, nota uma situação aparentemente paradoxal: nas últimas décadas há uma aparente diminuição das chuvas na região do Cantareira, mas uma elevação da precipitação na cidade de São Paulo. Isso pode estar relacionado a um fenômeno totalmente dissociado da mudança climática – a ilha de calor urbana.

“A seca é consequência da variabilidade natural do clima, não da mudança climática. O que teria a ver com a mudança do clima seria a [crise] hídrica, onde as altas temperaturas, a falta de chuva e o aumento da população determinaram um maior consumo de água”, disse o cientista ao OC.

No entanto, ele alerta que a previsão dos modelos climáticos para o Sudeste é de períodos secos mais longos e mais calor nas próximas décadas, intercalados com períodos de chuva intensa. “Ou seja, a seca pode voltar e, se nada for feito para nos adaptarmos, a crise hídrica voltará também, e será mais intensa e longa no futuro mais quente”, diz o climatologista peruano radicado no Brasil.

“Escapamos do apagão em 2001, parece que vamos a escapar também agora em 2016, se continuar chovendo neste verão. Mas parece que não aprendemos nada da crise de 2001, e só espero que os tomadores de decisões tenha aprendido a lição desta seca em 2014-15, para não sermos pegos de surpresa por uma nova seca e uma nova crise hídrica no futuro.”

(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=258366)

Novo número da Revista Espaço Acadêmico

Revista Espaço Acadêmico
v. 15, n. 176 (2016): Revista Espaço Acadêmico, n. 176, janeiro de 2016
Sumário
http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/issue/view/1045

agroecologia
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Produção agroecológica: uma relação entre as características do Brasil
e da América Latina (01-14)
        Maycon Jorge Ulisses Saraiva Farinha,   Luciana Virginia Mario Bernardo

ciências sociais
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Plano Diretor Municipal e a questão da participação popular na
construção do projeto de remodelação urbana na Baixada Fluminense
(15-26)
        Rosane Cristina Oliveira,       Jacqueline de Cassia Pinheiro Lima

convergências
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A práxis transformadora da Filosofia e sua ação subversiva nas
organizações (27-40)
        Renato Nunes Bittencourt

direito
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O ordenamento como instituição: revisitando Kelsen e Romano (41-52)
        Vinicius Fernandes Ormelesi
Responsabilidade Civil decorrente do Abandono Afetivo (53-63)
        Welington Oliveira de Souza Costa
O Tribunal de Nuremberg: um julgamento singular para o direito internacional
(1945-1946) (64-75)
        Fernanda Linhares Pereira

direitos humanos
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Breves comentários sobre a questão da tortura enquanto prática
imprescritível e violadora dos direitos humanos (76-88)
        William Eufrásio Nunes Pereira

educação
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Educação Popular, ontem e hoje: perspectivas e desafios (89-98)
        Ivonaldo Leite
Educação Profissional integrada ao Ensino Médio na modalidade de
Educação de Jovens e Adultos: caminhos e contradições (99-111)
        Fernando Bilhalva Vitória,      Vanessa dos Santos Nogueira

políticas públicas
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O Pacto Nacional pelo fortalecimento do Ensino Médio: o desafio de inserir
o campo temático da educação inclusiva na formação de professores.
(112-122)
        Karlane Holanda Araújo, Adriano Ferreiro de Paulo

psicologia
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Relacionamentos amorosos: fatores evolutivos, românticos e contemporâneos
(123-131)
        Paula Carolina Cardoso Brenneisen,      Eliane Cardoso Lopes

resenhas & livros
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Gadamer: a hermenêutica filosófica a serviço da educação (132-134)
        Roberto S. Kahlmeyer-Mertens
PAULA, Guilherme Tadeu de. Terrorismo: um conceito político. Curitiba:
Editora CRV, 2015 (164 p.) (135)
        REA Editor

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Agora eu não sou mais Charlie Hebdo

Flavio Aguiar reprodução
Agora eu não sou mais Charlie Hebdo. Eu sou um refugiado sírio, eu sou um muçulmano perseguido, eu sou um norte-africano afogado no Mediterrâneo, um judeu em Auschwitz, um africano escravizado, um índio desaparecido em nome da Conquista europeia, uma criança vietnamita bombardeada com napalm nos anos 60 ou setenta, etc… Um menino morto na praia onde ele deveria brincar.
 
Mas Charlie Hebdo eu não sou mais.
 
Quando houve o atentado contra a redação do Charlie Hebdo, perpetrado por uma quadrilha de fanáticos que agiam em nome de uma visão completamente destorcida do Islã, eu e minha esposa saímos aqui nas ruas de Berlim, portando na lapela, com luto e orgulho, a divisa, “Ich bin Charlie Hebdo”, “Eu sou Charlie Hebdo”.
 
A loja vizinha, de amáveis quinquilharias, de propriedade de um sírio, pusera na porta, em destaque, uma bandeira francesa. Não sou amigo de bandeiradas nacionalistas, mas aquilo era muito diferente, muito mais do que isto, era uma homenagem ao luto diante da estupidez do ato perpetrado, que incluía um ataque covarde a um supermercado de produtos judaicos.
Mas Charlie Hebdo eu não sou mais.
 
Tenho visto e já escrevi sobre a paranoia histérica que vem tomando conta da Europa depois desta série de atrocidades - não vamos brincar com isto - cometidas, tomando o nome de Alá em vão. Se os terroristas perpetradores destes crimes lesa-humanidade pensam que serão recebidos no Paraíso, espero que se dêem conta do que na realidade fizeram ao arderem no mármore do inferno pela eternidade.
 
Mas Charlie Hebdo eu não sou mais.
 
A histeria paranoica piorou muito desde o “arrastão sexual” perpetrado por um milhar de energúmenos embriagados no Hauptbahnhof de Colônia, na Alemanha, atacando covardemente mulheres indefesas com todo o tipo de ofensa, que foram do roubo de celulares ao estupro. Agiam em nome de Alá? Foram descritos como “de aparência árabe ou norte-africana”. Não duvido. Mas a raiz deste comportamento não é islâmica, não é o Corão. A raiz é o descaso com que a juventude é tratada nas nossas metrópoles ocidentais. Isto justifica a barbárie que cometeram? De jeito nenhum. Existem milhões de jovens que são tratados com o mesmo descaso e que reagem de modo inteiramente diferente, construindo vidas próprias distantes destes ensurdecimentos ou fanatismos, entregando-se a militâncias generosas em nome da tolerância, da igualdade, da fraternidade, humanidade, da solidariedade, é bom não esquecer este conjunto de palavras, ou simplesmente em busca de uma vida decente e digna.
 
Mas Charlie Hebdo eu não sou mais.
 
O cruel massacre dos jornalistas do Charlie Hebdo deixou cicatrizes. Mas a gente sabe que uma cicatriz pode ser tanto a lembrança da superação de uma ferida, como também a permanência da Marca da Maldade, assim com maiúscula, como no imortal filme de Orson Welles. Agora a equipe do Charlie Hebdo cedeu diante da Marca da Maldade. Covardemente, atacaram uma criança. Mais covardemente, atacaram uma criança morta. Quem não se lembra das fotos do Pequeno Aylan, de bruços, tendo como leito de morte uma praia onde ele deveria brincar? E aí o desenhista do CH, embriagado por um sentimento aparente de ironia, mas na verdade de profunda xenofobia, faz uma “piadinha”, perguntando, o que seria dele, se tivesse sobrevivido. E completa com a pseudocharge, onde o adulto resultante tem, inclusive, um nariz de porco na imagem, que ele teria se transformado num “beliscador de bundas na Alemanha”.
 
Decididamente, não sou mais Charlie Hebdo.
 
Isto faz o serviço para as Marine Le Pen, as Front Nationale, as Pegidas alemãs, os neonazis de todo lado, os fascistas da Ucrânia, os reacionários da Polônia, os governantes idiotas que dizem estupidamente que seus países só receberão “refugiados cristãos” (dá vontade de perguntar: quer dizer que os judeus também não têm vez?), os antissemitas da Hungria, os canalhas no mundo inteiro que se valem das histerias estimuladas pelo sensacionalismo curto e grosso de mídias semeadores da idiotice.
 
Charlie Hebdo, adeus. Adeus, Charlie Hebdo.
 
Como já disse, eu agora me chamo Aylan, me chamo refugiado, me chamo muçulmano, me chamo tudo, menos esta profanação da memória de um inocente.
 
Liberdade de expressão é uma coisa. Desfaçatez, desrespeito, grossura, idiotice, covardia, canalhice para vender mais um exemplar a mais, é outra. Isto se chama jornalismo selvagem. Aliás, capitalismo selvagem.
 
Adeus, Charlie Hebdo. CH, adeus. O resto é silêncio.
(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Agora-eu-nao-sou-mais-Charlie-Hebdo/6/35326)

Os Libaneses

A Editora Contexto apresenta mais um lançamento da coleção Povos e Civilizações, este escrito por Murilo Meihy – professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O livro já está disponível, aproveite!
  Os Libaneses
  Murilo Meihy
 
Um país pequeno e distante abriga um povo longe de ser desconhecido pelos brasileiros: os libaneses imigraram em peso para cá e trouxeram seus costumes e sua cultura. Este livro, escrito pelo historiador descendente de libaneses Murilo Meihy, mostra características, discute estereótipos e traz esse povo alegre e sofrido ainda mais perto dos brasileiros.
Quem são e como vivem os libaneses? Um simples passeio pelas ruas das suas grandes cidades revela que o Líbano é uma encruzilhada cultural onde os clichês mais clássicos sobre a relação entre Oriente e Ocidente se dissolvem. As camisas de marcas famosas do Ocidente, os penteados ousados que mais parecem esculturas modernistas e as maquiagens pesadas são vistos lado a lado com véus islâmicos e correntes de ouro com pingentes em formato de cruz.
Recheado de bom humor, relatos cotidianos e um panorama histórico, além de mapas e fotos, o texto mostra as raízes milenares do país, os anos de paz e de guerras, a geografia e a economia, a luta das mulheres e a diáspora. Esta obra é um convite para os brasileiros descobrirem as verdadeiras riquezas desse povo multifacetado e tão importante para a formação do Brasil.