sábado, 3 de dezembro de 2016

Infâmia e vergonha na cara

O ano de 2016 entra, com louvor, para a história universal da infâmia, como na coletânea de vilões e iniquidades escrita por Jorge Luis Borges. Somente esta semana poderíamos acrescentar vários personagens brasileiros ao festival de horrores. Primeiramente, ele, óbvio, o assombroso do Palácio do Planalto.

Acredite: Michel Temer, por causa da fobia social provocada pelo medo de vaias, propôs inverter a corrente de solidariedade às vítimas da tragédia da Chapecoense. Em vez de participar do velório na Arena Condá, os familiares dos mortos iriam encontrá-lo reservadamente no aeroporto da cidade catarinense. Inacreditável. “Ele que tenha vergonha na cara e venha aqui”, reagiu Osmar Machado, pai do zagueiro Filipe, um dos mortos no desastre aéreo.
Pior é que não vai mesmo. Segundo nota da sua assessoria do governo federal, o presidente ficará no aeroporto, distribuirá medalhas de honra ao mérito esportivo aos parentes e adeus. A dignidade pedida por ti, caro Osmar, parece não ser o forte do político peemedebista que chegou ao poder depois de armar uma arapuca institucional para a ex Dilma Rousseff. O senador aliado Romero Jucá, roteirista do golpismo, que o diga.

Relatos selvagens

Na galeria dos infames, caríssimo Borges, poderia figurar também o presidente da CBF, o sr. Marco Polo Del Nero. Diante da insistência dos dirigentes da Chapecoense para que a equipe seja dispensada do último jogo do Brasileirão, o mafioso que comanda o futebol sugeriu fazer “um grande festa” nesta partida. Mais que um palpite infeliz, um gol contra a sensibilidade humana.

O mesmíssimo Marco Polo que, contrariando o próprio batismo, não se arrisca em viagens fora do país. Corre o risco de ser preso pelo FBI, a mesma polícia que engaiolou José Maria Marin, o ex da Casa Bandida do Futebol, para lembrar a forma adotada pelo jornalista Juca Kfouri para a sigla da entidade.

Temer e Del Nero, mirem-se no exemplo daquela brava gente colombiana que mostrou ao mundo como se faz em momentos de tragédia. Uma aula para a humanidade. Mesmo sob a guerra do tráfico durante décadas, os moradores de Medellín demonstraram não ter corações embrutecidos. Ao contrário daqueles que mandam no Brasil. Acaba 2016, chega de relatos selvagens. Diante da falta de sensibilidade de alguns ditos seres humanos, só nos resta um apelo: embrutecer jamais. Meus sentimentos.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor do romance Big Jato (editora Companhia das Letras), entre outros livros. Comentarista dos programas Papo de Segunda (GNT) e Redação Sportv.

(fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/12/02/opinion/1480717034_022900.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Café História

[1] Dicas de Livros:
 Teoria e Historiografia
Em nossa seção de lançamentos e dicas de dezembro, preparamos uma lista de cinco livros no campo da teoria da história e da historiografia. [Confira]
[2] Mural do Historiador: 
Ditadura Militar
O documentário “Eu quero ver”, dirigido pela historiadora Telma Bessa, coloca em diálogo, através de narrativas, as histórias e memórias de professores de História com enfoque na ditadura civilmilitar e os dias atuais.  [Confira]
[3] Notícia em destaque:
 Descoberta no Egito
Arqueólogos egípcios anunciaram a descoberta de partes do que pode ter sido uma verdadeira cidade residencial do Egito antigo, datada de 5.316 antes de Cristo. [Veja]
[4] Acadêmico:
 Estudos Egiptológicos
O Grupo de Estudos Kemet (GEKemet), responsável pela coordenação dos estudos acadêmicos sobre o Egito Antigo na Universidade Federal Fluminense (UFF) desde 2014, convida a todos para o V Encontro Nacional de Estudos Egiptológicos.  [Clique aqui]

O direito ao aborto

Por Jaime Pinsky, historiador e editor, professor titular da Unicamp, livre docente da USP, autor de História da Cidadania, entre outros livros.
O fogo. A roda. A agricultura. As cidades. As manifestações artísticas. A criação dos deuses. O monoteísmo ético. A filosofia. A capacidade de resolver conflitos sem recorrer à violência. A atenção às crianças e aos idosos. O respeito às mulheres. Todos eles foram conquistas da civilização.
O processo que ocorre com a humanidade pode também se dar com os indivíduos. Ninguém nasce sabendo produzir ou usar o fogo (lidar com ele, evitar queimaduras, é um item obrigatório no elenco das preocupações dos pais), plantar, ou produzir arte. Usufruir do patrimônio cultural da humanidade é um direito e um privilégio. Também a convivência é um aprendizado social: a percepção do outro é sinal de inteligência social. Formas de culto, organização de categorias de pensamento, conhecimento tecnológico, tudo é fruto de aprendizagem. Como fruto de aprendizagem é tanto a polidez, quanto a capacidade de apreciar música ou artes plásticas. Disse e repito que a grande diferença entre o ser humano e outros animais é nossa capacidade de produzir, armazenar e consumir bens culturais, materiais e imateriais. Outra capacidade que temos é a de sermos, fundamentalmente, racionais. Isso implica em ter opinião sobre as coisas, mas implica também em sermos capazes de alterar nosso olhar sobre as coisas e as pessoas. Por exemplo, as mulheres.
Confesso que, ao contrário da minha casa, na escola e na rua de minha cidade no interior paulista o ambiente era machista e homofóbico. A superioridade do macho e a ideia de que mulheres eram bens de uso (com exceção da mãe de cada um de nós, que era uma santa…) permeava nossa relação com as meninas do bairro, as colegas da escola e até com algumas professoras mais liberais. Graças à minhas escolhas profissionais e pessoais, e à convivência com homens mais evoluídos, com mulheres maravilhosas e com leituras adequadas, fui me encaminhando para posições bem diferentes daquelas que tinha quando garoto. Isto aconteceu com muita gente. Isto aconteceu com muitos povos e culturas. No mundo civilizado não se atira mulheres nos rios da Babilônia para saber se elas são virgens, não se apedreja mais mulheres por terem “prevaricado”, não se queima mais mulheres na Inquisição por conhecerem segredos de ervas que curam. A dupla moral sexual (“minha mulher tem que ser recatada, eu posso ir a orgias sexuais em Brasília”) é coisa de imbecis retrógrados.
O mundo de hoje não valoriza mais o chamado macho alfa, capaz de matar um leão só com as mãos: um “nerd” competente é mais útil como parceiro de uma mulher do que um troglodita agressivo e violento (além de ser muito mais agradável). Mais do que proteção física as mulheres buscam companheirismo, compreensão, cumplicidade. E muitos homens, inclusive quando representam o povo nas casas legislativas, não sabem disso. Ou esquecem. Ou fingem esquecer, preocupados que estão com a “vida humana”. Não querem é perder o controle, perder o poder. Se preocupados estivessem com a vida humana não extrairiam de forma desonesta parte das riquezas produzidas no país para seu usufruto pessoal, com prejuízo da saúde pública, da educação, da criação de empregos e, indiretamente, até da segurança dos cidadãos. A destruição quase completa da maior empresa brasileira (Petrobras) é só a ponta do iceberg, que abaixo da linha d’água mostra falcatruas com a conivência de políticos em quase todas as concorrências públicas que, na realidade, não são concorrências, nem são públicas.
E são esses seres “puros” e “imaculados”, detentores de procuração dos deuses e dos santos, que querem legislar sobre o útero de cada mulher, como conceituou com rara felicidade o ministro do Supremo Luís Roberto Barroso? Com que direito? Com que autoridade?
Países modernos e civilizados são laicos e democráticos. É inaceitável querer transformar problemas de saúde pública em questões de fé. Embora diferentes (o que é ótimo), mulheres não podem mais serem tratadas como inferiores. Da mesma forma como os governos não têm o direito de legislar sobre o pênis dos homens, eles não têm como e por que legislar sobre o útero das mulheres.
Acabou. Já era. Página virada. Não se pode caminhar para trás.

Assustado com Donald Trump? Você não sabe a metade

 "Como de costume, a esquerda e o centro (eu incluso) estão se debatendo sobre onde erraram. Há muitas respostas, mas uma delas é a de que simplesmente não gastamos além da conta. Com alguns bilhões de dólares empregues na persuasão, teríamos conseguido tudo o que desejamos. Ativistas genuínos, trabalhando em seu tempo livre, não têm condições de se igualar a uma rede profissional composta por milhares de pessoas bem remuneradas e sem escrúpulos".

O comentário é de George Monbiot, jornalista britânico, em artigo publicado por The Guardian, 30-11-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Eis o artigo.

Sim, as atividades políticas de Donald Trump são incoerentes. Mas aqueles que o cercam sabem bem o que querem, e a falta de clareza dele aumenta o poder destas pessoas. Para entender o que iremos ter pela frente, precisamos entender quem são estas pessoas. Eu as conheço muito bem, pois passei os últimos 15 anos combatendo cada uma delas.
Durante esse período, observei como as empresas de tabaco, carvão, petróleo, produtos químicos e biotecnologia investiram bilhões de dólares em uma máquina internacional de desinformação composta por “think tanks”, blogueiros e grupos de cidadãos com identidades falsificadas. A finalidade deles é retratar os interesses dos bilionários como sendo os interesses das pessoas comuns, travar guerras contra os sindicatos e derrubar as tentativas de regulamentar os negócios e taxar os muito ricos. Agora as pessoas que ajudaram a moldar esta máquina estão moldando o próprio governo.
A primeira vez que me deparei com esta máquina foi ao escrever sobre as mudanças climáticas. A fúria e o ódio dirigidos aos cientistas do clima e ativistas ambientais pareciam incompreensíveis até que percebi que eram falsos: o ódio havia sido pago. Os blogueiros e institutos que promoviam essa fúria eram financiados por empresas petrolíferas e carvoeiras.
Entre aqueles com quem entrei em conflito está Myron Ebell, do Competitive Enterprise Institute – CEI. Este instituto considera-se um think tank. Para mim, no entanto, ele é um grupo lobista corporativo. Não é nada transparente quanto aos financiamentos que recebe. Mas hoje já sabemos que ele recebeu US$ 2 milhões da ExxonMobil, mais de US$ 4 milhões de um grupo chamado de Donors Trust (que representa várias corporações e bilionários), US$ 800 mil de grupos criados pelos magnatas Charles e David Koch, e somas substanciais de empresas dos ramos carvoeiro, tabagista e farmacêutico.
Durante anos, Ebell e o CEI atacaram as iniciativas que visavam limitar as alterações climáticas por meio de lobby, ações judiciais e campanhas. Um anúncio divulgado pelo Instituto tinha a frase: “Dióxido de carbono: uns chamam de poluição. Nós chamamos de vida”.
O grupo tem procurado eliminar o financiamento para a educação ambiental, fazendo lobby contra o Endangered Species Act (lei contra espécies ameaçadas), atormentando os cientistas climáticos e fazendo campanhas em favor da mineração com remoção dos picos de montanhas por parte de empresas carvoeiras. Em 2004, Ebell enviou um memorando a um dos funcionários de George W. Bush pedindo que o chefe da Agência de Proteção Ambiental fosse demitido. Onde está Ebell neste momento? Ah! Ele está liderando a equipe de transição de Trump na Agência de Proteção Ambiental.
Charles e David Koch – que durante anos financiaram políticas pró-corporativas extremas – podem não ter sido as pessoas mais animadas com a candidatura de Trump, mas os seus homens estiveram presentes em toda a campanha. Até junho, o gerente da campanha de Trump era Corey Lewandowski, que como os outros membros da equipe de Trump veio de um grupo chamado Americans for Prosperity – AFP.
Todos estes movimentos pretendem ser uma campanha de base, mas na verdade são financiados pelos irmãos Koch. O AFP criou a primeira página do Tea Party no Facebook e organizou os seus primeiros eventos. Com um orçamento de centenas de milhões de dólares, fez campanhas ferozes contra temas que coincidem com os interesses comerciais dos irmãos Koch nos setores de petróleo, gás, minerais, madeireiro e de produtos químicos.
Em Michigan, o grupo ajudou aprovar a “lei de direito ao trabalho”, buscando aquilo que o diretor local da AFP chama de “tirar os sindicatos da vida boa e pô-los a trabalhar”. O grupo fez campanha em nível nacional contra as mudanças climáticas. Injetou centenas de milhões de dólares para derrubar políticos que não compram suas ideias e substituí-los por outros mais dispostos.
Eu poderia ocupar todo este artigo com os nomes de funcionários de Donald Trump que vêm de grupos semelhantes: por exemplo, Doug Domenech (da Fundação de Política Pública do Texas, financiado pelos irmãos Koch, pela Exxon e pelo Donors Trust, entre outros); Barry Bennett (cuja “Aliança para o Futuro da América”, hoje chamada “One Nation”, se recusou a revelar quem são os seus doadores); e Thomas Pyle (presidente da Aliança Americana de Energia, financiado pela Exxon e outros). Tudo isso é para não precisar falarmos dos próprios interesses conflitivos de Trump. Trump prometeu “drenar o pântano” dos lobistas e das bancadas corporativas que atuam em Washington. Mas parece que os únicos pântanos que ele irá drenar são os pântanos reais, já que sua equipe se lança em guerra contra o mundo natural.
De modo compreensível, tem havido muita cobertura em torno dos racistas e supremacistas brancos empoderados com a vitória do republicano. Mas, horríveis como são, eles encontram-se na periferia das políticas que a equipe de governo irá desenvolver. É quase reconfortante, porém, concentrar-se neles, pois, pelo menos, sabemos quem são e o que representam. Por outro lado, penetrar na máquina de desinformação corporativa é adentrar um mundo de espelhos. Passe um tempo suficiente tentando compreender este mundo, e o vórtice de hiporrealidade infligirá um dano grave em seu estado de espírito.
Não devemos pensar que outras partes do mundo estão imunes. Os think tanks corporativos e grupos de base falsos, como os citados aqui, estão hoje em toda parte. A notícia falsa sobre a qual devemos nos preocupar não são aquelas inventadas por adolescentes envolvendo o nome de Hillary Clinton, de que ela estaria vendendo armas ao Estado Islâmico. Devemos nos preocupar, isto sim, com a prática constante de informar números negativos em torno dos sindicatos, impostos e regulamentações aventados por grupos que não vão revelar os seus próprios interesses.
Quanto menos transparentes são, mais tempo eles dispõem no horário nobre. A organização Transparify realiza um levantamento anual sobre os think tanks. A pesquisa deste ano revela que, na Inglaterra, apenas quatro think tanks (Adam Smith Institute, Centre for Policy Studies, Institute of Economic Affairs e Policy Exchange) “ainda consideram aceitável pegar dinheiro de mãos ocultas atrás de portas fechadas”. E estes são os que estão em toda a imprensa.
Quando o Institute of Economic Affairs (Instituto de Assuntos Econômicos) aparece na BBC para falar contra a regulamentação do tabaco, o que acontece frequentemente, eu pergunto: Não deveríamos ser informados de que o grupo é financiado por empresas do ramo desde 1963? Há um padrão semelhante nos EUA: os grupos que mais se impõem tendem a ser os mais opacos.
Como de costume, a esquerda e o centro (eu incluso) estão se debatendo sobre onde erraram. Há muitas respostas, mas uma delas é a de que simplesmente não gastamos além da conta. Com alguns bilhões de dólares empregues na persuasão, teríamos conseguido tudo o que desejamos. Ativistas genuínos, trabalhando em seu tempo livre, não têm condições de se igualar a uma rede profissional composta por milhares de pessoas bem remuneradas e sem escrúpulos.
Só podemos confrontar o poder a partir do momento em que sabemos o que ele é. A nossa primeira tarefa nessa luta é entender o que temos pela frente. Somente assim poderemos descobrir o que fazer.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/562995-em-edicao-assustado-com-donald-trump-voce-nao-sabe-a-metade)

Frota, Barbosa, Bicudo e a depressão pós pato da direita coxa.

por Kiko Nogueira

Alguém definiu à perfeição, no Twitter, o atual momento coxinha: depressão pós pato.

Ao DCM, a ex-líder de milícias anti Dilma Daniela Schwery, ligada ao PSDB, contou que os movimentos eram organizados e financiados por Aécio Neves e Ronaldo Caiado e que ela se sentia “uma idiota, uma iludida”.

Para Hélio Bicudo, “o impeachment de Temer já deveria ter ocorrido”. Janaína Paschoal ameaça encarnar a pomba gira novamente.

Deltan Dallagnol, em sua coletiva chantagista contra uma votação da Câmara que não lhe agradou, lembrou que “até o governo Dilma avançou propostas contra a corrupção muito melhores que as que foram aprovadas”.

Alexandre Frota escreveu um desabafo. “A direita é frouxa e a esquerda sabe agir”, segundo ele. Por isso ia se “JUNTAR AOS VÂNDALOS DE BRASÍLIA” (em caixa alta no original).

O exército coxa está diante da obra que ajudou a construir e não gosta do que vê. Um dos ídolos dessa cambada, Joaquim Barbosa, aka Batman, deu entrevista à Folha em que acusou a nossa “rebananização”.

Sobre o golpe, Barbosa considera que “o que houve foi que um grupo de políticos que supostamente davam apoio ao governo num determinado momento decidiu que iriam destituir a presidente. O resto foi pura encenação. Os argumentos da defesa não eram levados em consideração, nada era pesado e examinado sob uma ótica dialética.”

O atual governo “corre o risco” de não chegar ao fim. Na opinião dele, “a partir do momento em que se aceitou como natural o torpedeamento do pilar central do sistema presidencialista, abriu-se caminho para o enfraquecimento de outras instituições”.

Barbosa, como todos os supracitados, contribuiu decisivamente para o atual estado de coisas.

Seu papel no mensalão de juiz vingador, o status de popstar, a criminalização de um partido apenas, conceitos estapafúrdios como a “teoria do domínio do fato” — tudo isso antecipou Moro, a Lava Jato, o moralismo seletivo e o ódio que tomariam as ruas.

Sem eles, o fascismo com que passamos a conviver não teria tanta força.

Agora as panelas voltam a soar. O Vem Pra Rua e o MBL convocam para uma manifestação no domingo dia 4, em defesa das 10 medidas contra a corrupção. Renan, amigo deles até ontem, é o demônio.

O antigo patrocinador Aécio não presta. “Diante de tudo isso que está acontecendo em Brasília, você vai ficar em casa no sofá?”, apela o VPR.

Os sinais estavam em todos os lugares, mas eles preferiram ignorar. Alguns por inocência, outros por ignorância, uns por desonestidade, muitos por oportunismo.

Deram-se mal. A corja que auxiliou a derrubada de Dilma se dá conta do que fez. Somos um país dividido. Na formulação do filósofo Vladimir Safatle para o DCM, descobrimos nos últimos anos que nunca fomos um país, apenas ocupamos o mesmo território que essa gente.

Que se virem com seus monstros.

(fonte: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/frota-barbosa-bicudo-e-a-depressao-pos-pato-da-direita-coxa-por-kiko-nogueira/)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Desmatamento na Amazônia sobe 29%, o maior em 8 anos

O desmatamento na Amazônia subiu pelo segundo ano consecutivo em 2016. E que subida: a taxa de devastação foi de 7.989 quilômetros quadrados, 29% superior à de 2015 – que, por sua vez, já havia sido 24% maior que no ano anterior.
A reportagem é de Claudio Angelo e publicada por Observatório do Clima, 29-11-2016.
É o maior aumento na velocidade do desmatamento desde 2008, ano em que um pico de devastação fez o governo endurecer a vigilância e cortar crédito de fazendeiros nos municípios mais críticos. É também o maior aumento percentual desde 2001, empatado com 2013. A área perdida equivale a 5,3 vezes a cidade de São Paulo. No acumulado, somente nesta década a Amazônia perdeu o equivalente a meio Panamá.
A estimativa anual do Prodes, o sistema de monitoramento por satélite que calcula a taxa oficial, foi postada no site do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) no fim da tarde desta terça-feira (29). Diferentemente dos anos anteriores, não houve anúncio formal em entrevista coletiva. Pela manhã, o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho (PV-MA) chegou a anunciar que divulgaria o número, mas recuou na sequência, limitando-se depois a dizer a jornalistas que aguardassem a publicação das informações pelo Inpe.

Série histórica dos dados de desmatamento, com os últimos dois anos de subida

Segundo o OC apurou, o número estava na mesa do ministro Gilberto Kassab (Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações) desde pelo menos a conferência do clima de Marrakesh. Embora o aumento viesse sendo antecipado há meses pelos técnicos do governo, a estimativa final da taxa levantou sobrancelhas em Brasília – as apostas giravam em torno de 7.000 km2, e o dado final chegou a quase 8.000 km2.
O Pará respondeu sozinho por quase 40% da área de floresta perdida no bioma Amazônia entre agosto de 2015 e julho de 2016 (o “ano fiscal” do desmatamento é medido nos 12 meses de agosto a julho seguinte): foram 3.015 quilômetros quadrados, ou duas cidades de São Paulo. Mato Grosso ficou em segundo, como de praxe, com 1.508 quilômetros quadrados – uma queda de 6% em relação ao ano anterior. O maior salto na devastação ocorreu no Estado do Amazonas: 54% de aumento, deixando o Estado em quarto lugar entre os campeões da motosserra em 2016.
O novo pico no corte raso na Amazônia terá implicações diretas sobre as metas brasileiras contra as mudanças climáticas. Segundo Tasso Azevedo, coordenador do SEEG (Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima), o desmatamento deste ano acrescenta 130 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente às emissões do Brasil. “É o mesmo que o Estado de São Paulo, o mais populoso do país, emitiu em todo o ano de 2015, ou duas vezes a emissão anual de Portugal”, compara Azevedo.
Em 2009, o Brasil lançou o compromisso internacional de reduzir o desmatamento na Amazônia em 80% até 2020. As duas altas consecutivas desviam o país da trajetória. “O número deste ano é duas vezes maior que a meta assumida para 2020, que é de 3.925 quilômetros quadrados”, prossegue o coordenador do SEEG.
“O número é a colheita do que se plantou nas políticas nos últimos anos: anistia a desmatadores no Código Florestal, abandono da criação de áreas protegidas e demarcação de terras indígenas e o passa-vergonha da meta para florestas do Brasil na ONU”, disse Marcio Astrini, coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace. A meta à qual ele se refere é a NDC, de 2015, que prevê eliminar apenas o desmatamento ilegal – e apenas até 2030.
Segundo Sarney Filho, “uma série de elementos” colaborou para a elevação: “Tivemos problemas de gestão, uma transição de governo e a repercussão de três anos de mudança no Código Florestal”, afirmou. É a primeira vez que um ministro reputa ao código, enfraquecido por pressão da bancada ruralista durante o governo Dilma, a elevação na velocidade de destruição da maior floresta tropical do mundo.
Para tentar conter a sangria, o Ministério do Meio Ambiente anunciou nesta terça-feira uma medida que deve aumentar ainda mais a fúria dos ruralistas contra Sarney: a interface pública do CAR (Cadastro Ambiental Rural), instrumento criado justamente pelo Código Florestal para permitir o monitoramento das áreas de vegetação nativa em propriedades particulares (leia mais aqui).
O cadastro é pré-requisito para a anistia de multas para quem desmatou de forma irregular antes de 2008. Também só com ele é possível aderir aos PRA (programas de regularização ambiental), por meio dos quais a multa é convertida em recuperação das áreas devastadas ilegalmente.
Pela plataforma do CAR anunciada nesta terça, qualquer cidadão com acesso à internet em casa poderá saber como o desmatamento evolui em mais de 3 milhões de propriedades rurais do país inteiro. No caso do Pará, hoje já é possível saber até mesmo o CPF do proprietário. “Além de um instrumento de desenvolvimento, o CAR é um instrumento de monitoramento. Vai servir muito bem para o controle social do desmatamento”, disse o ministro.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/562954-desmatamento-na-amazonia-sobe-29-o-maior-em-8-anos)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Fidel Castro, a revolução cubana e a América Latina

por Luiz Alberto Moniz Bandeira

Quando o ditador Fulgencio Batista, sem mais condições de manter-se no poder, renunciou durante o réveillon de 1959 e, secretamente, fugiu de Cuba para a República Dominicana, não foi só o seu governo que caiu. Todo o Estado cubano se havia desintegrado e 1959 tornou-se um ano realmente novo. Dias depois, centenas de guerrilheiros barbudos, grande parte de guajiros (trabalhadores do campo), sujos, uniformes rasgados, entraram em Havana, sob o comando de Fidel Castro, Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos.  Era o clímax de uma jornada, iniciada por apenas 16 sobreviventes, dos 82 revolucionários que desembarcaram do iate Granma, no litoral Cuba, em 2 de dezembro de 1956.  Fidel Castro tinha então 30 anos e, durante dois anos, comandou a guerra de guerrilhas, juntamente com seu irmão Raul Castro, Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos, organizando o Exército Rebelde, que destruiu a ditadura do sargento Fulgencio Batista, respaldada pelos Estados Unidos.

A revolução cubana foi o fato político mais poderoso e o que maior impacto causou na América Latina, ao longo da segunda metade do século XX, não por causa do seu caráter heróico e romântico ou porque o regime implantado por Fidel Castro evoluiu posteriormente para o comunismo, mas porque ela exprimiu dramaticamente as contradições não resolvidas entre os Estados Unidos e os demais países da região. Não foram os comunistas que promoveram a revolução cubana, no contexto da na Guerra Fria. Conquanto alguns de seus líderes, como Ernesto Che Guevara e o próprio Fidel Castro, em pequena medida, acolhessem ideias marxistas, eles não pertenciam a nenhum partido comunista e não era inevitável que a revolução cubana se desenvolvesse a tal ponto de identificar-se com a doutrina comunista e instituísse a sua forma de governo. Com razão, o historiador Thomas Skidmore, da Brown University, apontou Cuba como “um estudo clássico do fenômeno nacionalista”, acrescentando que o povo podia ver o caráter autoritário do regime, mas “o real apelo do regime de Castro era o nacionalismo”. Com efeito, a revolução cubana foi autóctone, teve um caráter nacional e democrático, e a  implantação de um regime segundo o modelo dos países do Leste Europeu resultou de uma contingência histórica, não de uma política empreendida pela União Soviética, mas, sim, empreendida pelos Estados Unidos que, sem respeitar os princípios da soberania nacional e autodeterminação dos povos, não aceitaram os atos da revolução, como a reforma agrária, e transformaram contradições de interesses nacionais em um problema do conflito Leste-Oeste.

Em abril de 1959, quatro meses após a tomada do poder em Havana, Fidel Castro esteve em Buenos Aires, a fim de participar conferência do Comitê dos 21, organismo encarregado de estruturar a Operação Pan-Americana, e seu discurso, segundo o então presidente Juscelino Kubitschek, refletiu “melhor do que os demais a tragédia da América Latina”, dada a crueza que ressaltava de suas palavras. Causou “verdadeiro impacto” ao reclamar dos Estados Unidos uma ajuda financeira à América Latina, no valor de US$ 30 milhões. Kubitschek, após conversar com Fidel Castro em Brasília e ter “a oportunidade de conhecer, em profundidade, seu pensamento”,  concluiu que ele era  “um idealista amargurado, que sofrera na carne as conseqüências do apoio dado pelos Estados Unidos às ditaduras na América Latina”, uma vez que  Cuba fora marcada por “longa tradição de tirania” e seu  povo, havendo suportado “o garrote do regime de Batista, não conseguia separar a trágica realidade da situação interna do apoio irrestrito de Washington ao opressor do país”.

Ao regressar de Buenos Aires, Fidel Castro passou pelo Rio de Janeiro e fez um discurso na Praça Barão Rio Branco, organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e no qual repetiu basicamente o que dissera em Buenos Aires: “Ni pan sin liberdad ni libertad sin pan”.  Lembro-me bem destas suas palavras, pois estava ao seu lado no palanque, na Esplanada do Castelo. E, em Havana, Fidel Castro voltou a reiterar que “la ideología de nuestra revolución es bien clara; no solo ofrecemos a los hombres libertades sino que le ofrecemos pan. No solo le ofrecemos a los hombres pan, sino que le ofrecemos también libertades”. Ao longo do discurso, durante o qual tratou de definir a ideologia da revolução, Castro, após salientar que no mundo se discutiam duas concepções, a que oferecia aos povos democracia e matava-os de fome e a que oferecia pão, mas lhes suprimia as liberdades, afirmou:

Nosotros  nos vamos poner a la derecha, no nos vamos poner a la izquierda, ni nos vamos poner en el centro, que nuestra Revolución no es centrista. Nosotros no vamos poner un poco más adelante que la derecha y que la izquierda. Ni a la derecha  ni a la izquierda, un paso más allá de la derecha y de la izquierda”.

Em abril de 1960, quando estive em Havana, acompanhando Jânio Quadros, então candidato à presidência do Brasil, vi Fidel Castro mostrar-lhe um crucifixo que trazia pendurado no pescoço, indicando que não era comunista e que respeitava a Igreja. Mas, um ano depois, em 16 de abril de 1961, após o bombardeio dos aeroportos de San Antonio de los Baños, Santiago e Havana pelos aviões da CIA, Fidel Castro, após compará-lo, com justo motivo, ao ataque pérfido e traiçoeiro do Japão a Pearl Harbor, em 1941, declarou que os Estados Unidos não perdoavam Cuba porque “esta es la revolución socialista y democrática de los humildes, con los humildes y para los humildes”.

Ao fazer essa declaração, Fidel Castro buscou comprometer a União Soviética na defesa de Cuba. Ele jogou com o conflito político e ideológico que então eclodira entre Moscou e Pequim e dividira o Bloco Socialista, pois temia que Nikita Kruchov, na linha coexistência pacífica e em entendimento com John Kennedy, trocasse Cuba por Berlim Ocidental, em prol de melhores relações com os Estados Unidos. A proclamação do caráter socialista da revolução cubana, porém, representou igualmente duro golpe nos dogmas cristalizados por Joseph Stalin e outros líderes comunistas, sob o rótulo de marxismo-leninismo, uma vez que ela fora realizada não por um partido supostamente operário, constituído sob as normas do chamado centralismo-democrático e rotulado de comunista, mas pelo Movimento 26 de Julho, uma organização composta, sobretudo, por elementos das classes médias, que, no curso da guerra de guerrilhas, passaram a incorporar camponeses e trabalhadores rurais, os guajiros, ao Exército Rebelde, em benefício dos quais realizaram a  reforma agrária.

De conformidade com a ortodoxia stalinista, Cuba não tinha condições materiais senão para realizar uma revolução agrária e democrática, mediante a instalação de um “governo patriótico”, de união com a burguesia progressista, que se propusesse a impulsionar o processo de industrialização e, libertando o país do domínio imperialista, promover o desenvolvimento econômico e a emancipação nacional. Os dirigentes comunistas, que visitavam Havana, consideravam a revolução em Cuba estranha ao modelo, por eles reconhecido, dado lá não existir um operariado industrial, e julgavam Fidel Castro e seus companheiros um “grupo inexperiente, com formações ideológicas diversas e pouco definidas”, orientados pelo que qualificaram como “marxismo amador, ou melhor ainda, como cubanismo”. Ouvi quando Luiz Carlos Prestes, então secretário-geral do PCB, qualificou Fidel Castro como “aventureiro”, em entrevista à imprensa do Rio de Janeiro, em 1959.

Mas o nacionalismo representou, ao longo da história de Cuba, importante fator de coesão e permitiu que o governo revolucionário pudesse manter suficiente apoio popular, em meio a todas as vicissitudes. E a presença de Fidel Castro continuasse a projetar sua influência, antes mesmo de delegar, provisoriamente, o poder ao seu irmão Raul, em 31 de julho de 2006 a fim de submeter-se a uma intervenção cirúrgica no colo intestinal, ele já não era imprescindível ao funcionamento do governo e do regime. A sucessão já havia acontecido e pouca gente percebera. O poder havia passado para uma nova geração de dirigentes, com Raul Castro no comando das Forças Armadas; Ricardo Alarcón, hábil negociador e perito em relações com os Estados Unidos, na Assembleia Nacional; Carlos Lage, como primeiro-ministro, controlando a economia do país; e Felipe Pérez Roque, na condução da política e das relações exteriores, mantendo extraordinário apoio internacional a Cuba. Era somente o herói nacional, ao lado de José Martí. E não apenas o herói nacional.

Sua renúncia à presidência de Cuba, após longo período de convalescença, não surpreende. Era esperada.   Mas o fato de que permaneceu quase meio século no poder, a enfrentar e resistir ao embargo e a todas as agressões do Império – invasão, sabotagens e, inclusive, dezenas de tentativas de assassinato pela CIA – constituiu a maior derrota política que os Estados Unidos sofreram, não obstante seu imenso poderio econômico e militar, o maior de todos os tempos. Fidel Castro, o mais importante líder da América Latina, no século XX, tornou-se o símbolo de uma era. E o fato de que o presidente Barack Obama reatou as relações diplomática com Cuba, após 53 anos desde que o presidente Dwight Eisenhower as rompeu (janeiro de 1961) constitui mais uma de suas vitórias. A Revolução Cubana triunfou. O Império Americano tudo tentou. Porém jamais conseguiu destrui-la. E Fidel Castro, ainda que morrendo, continua vivo como herói e símbolo da maior epopeia da América Latina no século XX.
* LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA é cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de mais de 20 obras, entre as quais De Marti a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina, Formação do Império Americano e A Segunda Guerra Fria.

(fonte: https://espacoacademico.wordpress.com/2016/11/29/fidel-castro-a-revolucao-cubana-e-a-america-latina/)