quarta-feira, 10 de abril de 2013

"Mensalão" - os fatos novos e sua importância

Pois é... quem caluniou o Lewandovski deve estar agora com a pulga atrás da orelha... e não é que ele tinha razão?


Fase de linchamento midiático dos réus terminou. Novidades comprometem tese do ministro Joaquim Barbosa, que tenta restringir ação da defesa
Por Luís Nassif, em seu blog
Não se iludam os Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) com a aparente unanimidade da mídia em relação ao julgamento do mensalão. O enquadramento das redações e colunistas impediu manifestações maiores de dúvida sobre a isenção dos magistrados. Fosse em tempos de maior pluralidade, a mídia teria servido de freio a alguns abusos cometidos.
Além disso, todo tema complexo permite o exercício do arbítrio pelo especialista – pela óbvia dificuldade em se entrar nos meandros da discussão e identificar as vulnerabilidades das conclusões.
Quando os primeiros questionamentos foram feitos – ainda em plena efervescência do julgamento -, não foram levados a sério por indicarem inconsistências tão absurdas, que soavam inverossímeis.
Muitas pessoas com quem conversei, simpáticas a uma condenação exemplar, acreditavam que entre as dezenas de milhares de páginas do inquérito haveria evidências capazes de derrubar as críticas.
A questão é que o tempo passou, houve a oportunidade de trabalhos mais alentados e meticulosos sobre o inquérito.
Cada vez mais é evidente que a análise das acusações tem produzido dúvidas significativas nos colunistas que contam.
Mesmo com a imensa dose de cautela, compreensível nesses tempos bicudos, houve a manifestação de Elio Gaspari, avalizando o trabalho em que Raimundo Pereira desconstrói  as acusações contra João Paulo Cunha. Direto, Jânio de Freitas explicita as enormes dúvidas em relação as acusações contra Henrique Pizzolatto.
Nenhum dos dois pode ser acusado de petista, assim como outros jornalistas de renome que, fora das grandes redações, puderam exercitar livremente sua opinião.
A indignação decorre do abuso de poder. E, como tal, são caracterizadas as ações em que os magistrados colocam sua vontade acima dos fatos analisados.
É bem possível que as agências de publicidade tivessem pago pedágio ao PT, pelas contas conquistadas. Mas não foi isso o que a acusação apurou.
Tratou como desvio a verba de publicidade da Visanet ignorando um relatório detalhado do Banco do Brasil indicando todas as fontes de aplicação dos recursos.
Atribuiu a responsabilidade total da destinação das verbas a Henrique Pizzolatto, ignorando documentos que demonstravam expressamente que as decisões eram colegiadas, com a participação de representantes de outros sócios da empresa.
Salta aos olhos de qualquer jornalista o absurdo de considerar, exclusivamente nas operações da Visanet, os BVs (bônus de veiculação, o dinheiro que as agências recebem dos órgãos de mídia onde anunciam) como indício de corrupção. E não estender esse julgamento a todo o universo de BVs. Ou não exigir a devolução do dinheiro dos beneficiados – grandes órgãos de mídia.
No caso de João Paulo Cunha, tratou como ocultação o fato de não ter ido receber pessoalmente os R$ 50 mil do PT, mas enviado a esposa, que apresentou RG e assinou o recibo. E ignorou totalmente a comprovação do uso dos recursos para pesquisas eleitorais.
A postura de Joaquim Barbosa – impedindo prazo maior para a apreciação da defesa – não se deve ao seu conhecido espírito de torquemada. É mais que isso: é receio de que as inconsistências das acusações sejam expostas agora, não mais em matérias de blogs, mas nos próprios autos do processo.
É paura, medo de uma discussão na qual o clamor da mídia não servirá mais de respaldo para o uso do poder imperial.

terça-feira, 9 de abril de 2013

O que as democracias do Ocidente escondem nos paraísos fiscais

 Os deliquentes financeiros do mundo e suas contas maravilhosas


Paris – A conta suíça que o ex-ministro do Orçamento e Fazenda Jérôme Cahuzac havia ocultado lança uma sombra que começa a envolver todo o governo do socialista francês François Hollande. Quase uma semana depois que o ex-ministro socialista confessou que tinha evadido divisas para uma conta aberta, primeiro no paraíso dos delinquentes financeiros, que é a Suíça, depois em Cingapura, dois novos elementos fazem tremer mais uma vez os cimentos do governo: a televisão suíça Romanda – RTS – revelou que Cahuzac depositou em torno de 15 bilhões de euros num banco de Genebra. A soma é infinitamente superior aos 600 mil euros que Cahuzac tinha reconhecido, em sua confissão.

O montante é tão elevado que Dewy Plenel, o diretor do portal Mediapart, que acusou o ministro no ano passado se pergunta se o que está em jogo não é possivelmente “o financiamento do Partido Socialista”. 15 bilhões de euros é demasiado para um só indivíduo. Segundo a televisão suíça, o banco recusou a operação “por temor a que houvesse complicações posteriores, já que Jérôme Cahuzac era uma personalidade politicamente exposta”. A mesma fonte adiantou também que o ex-ministro teria “depositado ou transferido por Genebra somas mais elevadas, e isso antes de 2009”.

A data é importante, porque o ano de 2009 marca uma mudança na política bancária da Confederação Helvética. A partir dessa data a Suíça decidiu cooperar com a União Europeia, em caso de constatação de evasão fiscal. Neste sentido, outra revelação se acrescenta ao escândalo: o diário de Zurique “Tages Anzeiger” assegura que Cahuzac concedeu uma “certificação fiscal falsificada” ao banco suíço Julius Baer, para demonstrar que os fundos que visava a transferir tinham sido declarados ao fisco francês.

Segundo a versão do Mediapart e da televisão suíça RTS, Cahuzac tentou, em 2009, que o banco que administrava seus fundos desde 1993, Reyl et Co, sacasse o dinheiro que tinha no banco UBS e o depositasse em outros estabelecimentos. O banco se negou e Cahuzac terminou transferindo o dinheiro para uma filial do Julius Baer situada em Cingapura. O advogado do ex-ministro socialista, Jean Veil, declarou que “essa tese não é verossímil. Dizer apenas uma parte da verdade carece de sentido”. No entanto, os analistas põem em questão os montantes declarados por Cahuzac, ou seja, 600 mil euros iniciais, e argumentam que esse tipo de transferência custa muito caro e que, por conseguinte, só é efetuada quando as somas superam dois ou três milhões de dólares.

Transtornados pelo escândalo Cahuzac, o presidente e o governo socialista se diluíram em silêncio, esperando que a tormenta passasse, enquanto a imprensa francesa, moralista até o extremo, extasia-se na crítica contra o líder da Frente de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon, a quem acusam de populismo, porque disse que, agora, seria preciso “passar uma vassourada e varrer tudo”. O certo é que a tormenta não passa e neste domingo o governo saiu para a ofensiva. O ministro de Economia e Finanças, Pierre Mosovici, propôs a instauração de um “Facta Europeu”, que permita “um intercâmbio automático de informações”. Trata-se de uma cópia do projeto de lei estadunidense apresentado em 2010, a Foreign Account Tax Compliance Act. Esta lei impõe aos estabelecimentos financeiros estrangeiros a transição ao fisco dos EUA das informações sobre as contas abertas pelos contribuintes dos Estados Unidos, sejam estadunidenses ou não.

Paris não é a única capital atingida pelo mega escândalo Cahuzac e a impecável investigação sobre os paraísos fiscais levada a cabo por mais de 30 jornais internacionais, os já famosos Offshore Leaks. Berlim se somou à contra ofensiva através do ministro de Finanças, Wolfgang Shäuble, que anunciou que a Alemanha iria lançar uma cruzada internacional contra a evasão fiscal. Até o mais obscuro Luxemburgo pôs uma pedra no altar da re-moralização. Reconhecido pela opacidade de seu sistema bancário e pelas facilidades que oferece para reciclar o lixo financeiro do mundo, Luzemburgo anunciou que vai limitar “parcialmente” seu decreto bancário, o que, segundo o ministro da Economia, Luc Frieden, vai “reforçar a cooperação internacional”.

O gigantismo do calote planetário revelado através dos Offshore Leaks é tal que farão falta medidas simples, ou o intercâmbio de informações, para que se acabe com os paraísos fiscais, tanto mais que, à imagem e semelhança das Ilhas Cayman, estes paraísos são, amiúde, colônias ou ex-colônias com cumplicidade estreitas com as capitais centrais. As Ilhas Cayman são uma colônia da Coroa Britânica e também um dos centros Offshores mais prósperas do mundo. A rede anti-evasão fiscal Tax Justice Network acusa as Ilhas Cayman de ser uma “lavanderia”: multinacionais, enormes fortunas privadas, os fundos hedge fizeram dessas ilhas sua pátria preferida. Ilhas Cook, Ilhas Virgens Britânicas, Samoa, Cingapura, Seychelles, Mônaco ou Suíça são autênticas maquinarias para ocultar dividendos.

Um dado simples dá conta da amplitude dos fundos que esses territórios livres de tributos manejam: Reyl & Cie, a instituição que movimentava o dinheiro de Jérôme Cahuzac, detém no seu portfolio 7,3 bilhões de euros. Intermediários, esquemas jurídicos complexos e leis benignas levam a que os paraísos fiscais contem em seus bancos com o equivalente ao PIB dos Estados Unidos e Japão juntos.

O exemplo britânico é uma piada escandalosa: por um lado, o primeiro ministro David Cameron interpela ao G8 para o grupo utilize o dinheiro dos impostos para fazer grandes investimentos e, por outro, com suas Ilhas Virgens ou Cayman, oferece um refúgio confortável aos sonegadores do planeta. A linguagem é dupla em toda parte. A investigação levada a cabo pelo Consórcio independente de jornalistas investigativos – ICIJ – que deu lugar ao Offshore Leaks, mostra, por exemplo, com os bancos franceses BNP Pariba y Crédit Agricole ajudam os seus clientes a criarem empresas offshore e como fornecem nomes falsos de contas para que escondam seus rendimentos.

Ladrões internacionais, dirigentes de multinacionais, colecionadores de arte, empresas globais, financistas, dirigentes políticos de todos os países, milionários de todo o mundo, investidores, a clientela dos paraísos fiscais abarca todas as atividades onde o dinheiro é rei e esses paraísos, refúgios ideais para esconder coroas de diamantes.

Entre as 13 mil pessoas com contas que figuram no offshore leake estão os filhos do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe. Tomás e Jerônimo Uribe aparecem como acionistas de uma empresa radicada nas Ilhas Virgens Britânicas em 2008, a Asia America Investment Corporation. No que diz respeito ao Brasil, aparecem na lista os empresários Clarice, Leo e Fabio Steinbruch. Os três são membros de um seleto grupo das famílias mais poderosas do Brasil, proprietário do banco Fibra e das empresas siderúrgica CSN e têxtil Grupo Vicunha. Os Steinbruch criaram em 2007 a Peak Management nas Ilhas Virgens Britânicas. Leo Steinbruch respondeu aos autores da investigação dizendo que “Peak Management existe, está em atividade e foi declarada por seus donos no Imposto de Renda e perante o Banco Central do Brasil como investimento no exterior”.

O total dos impostos filtrados pelos paraísos fiscais bem que poderia servir para criar empregos, infraestruturas, para se investir em saúde, em educação, pesquisa ou desenvolvimento. Nada. O egoísmo liberal desenhou um monstro de enormes cabeças, cuja identidade mais paradoxal consiste em que, dos 170 países preocupados com as revelações sobre a evasão tributária, a maioria corresponde às democracias mais adiantadas. As democracias do Ocidente, que dão lições de todo tipo ao resto do planeta, escondem em suas entranhas os ladrões mais astutos e os organismos que organizam a fraude.

Tradução: Katarina Peixoto (Publicado no site da Agência Carta Maior)

Floripa, bela cidade

Esta é, realmente, uma das belas cidades brasileiras que conheci!








sexta-feira, 5 de abril de 2013

Serra/Kassab - 8 anos de desprezo por São Paulo

Quem quer ver os tucanos na presidência não pode deixar de ler isso!
Publicado no site da Agência Carta Maior
E olhem a reportagem da Folha, dando conta do descalabro. E olha que a Folha é tucana até na alma!

Oito anos de consórcio Serra/Kassab na cidade de São Paulo e, só agora, com a administração Haddad, vem à luz o resultado dramático de um abandono apenas intuído.

Ele não explica sozinho a deriva em que se encontram os serviços e espaços públicos da cidade. Obra meticulosa e secular de elites predadoras.

Mas ajuda a entender por que motivo a Prefeitura se consolidou aos olhos da população como uma ferramenta irrelevante, incapaz de se contrapor à tragédia estrutural e ao desastre cotidiano.

O artigo do secretário de educação, Cesar Callegari, publicado na Folha, nesta 5ª feira, faz o balanço das causas profundas desse estado de espírito na área da educação.

É arrasador.

Acerta a administração Haddad se fizer disso um compromisso: expor em assembleias da cidadania, organizadas pelas administrações regionais, a radiografia objetiva do que significou, em cada serviço, e em cada bairro, a aplicação da ‘excelência administrativa' daqueles que, de forma recorrente, avocam-se a missão de submeter o país a um ‘choque de gestão'.

Somente a compreensão de suas causas pode desfazer a tragédia que se completa com o descrédito da população em relação ao seu próprio peso na ordenação pública da cidade.

A missão mais difícil do prefeito Fernando Haddad é sacudir esse olhar entorpecido de uma cidadania há muito alijada das decisões referentes ao seu destino e ao destino do seu lugar.

Expor o custo desse alijamento, meticulosamente construído, é um primeiro passo.

É o que o secretário Callegari faz ao mostrar que:

a)São Paulo ocupa o 35º lugar entre os 39 municípios da região metropolitana em qualidade da educação, medida pelo Ideb;

b) 28% das crianças paulistanas concluem o 1º ciclo do ensino fundamental, aos 10 ou 11 anos de idade, sem estar alfabetizados;

c) em 2012, a rede municipal contabilizou 903 mil faltas de professores desmotivados e doentes;

d) há 97 mil crianças na fila, sem creche ;

e) a construção de 88 escolas foi contratada ‘criativamente', sem terrenos;

f) 50 mil alunos ficaram sem livros didáticos este ano, porque não foram solicitados ao MEC, ‘por um lapso' da administração anterior.

Engana-se, porém, quem atribuir esse saldo à força de uma inépcia especializada na área educacional.

Troque-se a escola pela a saúde.

Reafirma-se o mesmo padrão.

A seguir, alguns números pinçados também de uma reportagem da Folha, desta 5ª feira, que, por misterioso critério da Secretaria de Redação, deixou de figurar na manchete da 1ª página:

a) a Prefeitura de SP pagou, em 2012, R$ 2,1 bilhões a entidades privadas de saúde, ‘sem fins lucrativos' -- fórmula de terceirização de serviços públicos elogiadíssima por Serra na disputa eleitoral contra Haddad;

b) 530.151 consultas deveriam ter sido realizadas por esse valor; mas apenas 347.454 foram de fato executadas;

c) não foi um ponto fora da curva: em 2011, as mesmas entidades deixariam de realizar 41% dos atendimentos previstos. Repita-se 41% do atendimento terceirizado não foi feito;

d) apesar disso, receberam integralmente os repasses estipulados nos dois anos. Sem ônus, sem fiscalização, sem inquérito, sem arguição pelo descalabro.

Qual é o nome disso?

O nome disso é desprezo pela sorte da população.

O nome disso é uma esférica certeza na impunidade ancorada no torpor das vítimas, desprovidas dos meios democráticos para reagir.

Mas também é o reflexo de um conluio inoxidável com a mídia de São Paulo, que, agora denuncia, mas nunca lhes sonegou o acobertamento na hora decisiva da urna.

Leia, a seguir, a íntegra dos dois artigos mencionados:


Heranças e desafios da educação paulistana
04/04/2013 - Folha de S.Paulo

Inútil a tentativa do ex-secretário Alexandre Schneider de, em artigo recente ("Sobre parcerias e lealdades", em 29/3), fabricar uma "vacina" tardia contra avaliações negativas dos problemas deixados por seus sete anos de gestão à frente da Educação no município de São Paulo.

A eleição já passou, a população já fez a sua avaliação e já elegeu o programa de metas educacionais do prefeito Fernando Haddad. São elas que nos animam e mobilizam. Já dedicamos muito tempo e energia para solucionar os problemas que encontramos. São imensos os desafios à nossa frente.

É inaceitável que São Paulo ocupe o 35º lugar entre os 39 municípios da região metropolitana em qualidade da educação medida pelo Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). As crianças paulistanas não merecem e precisamos avançar.

Ano após ano, os alunos foram automaticamente aprovados. Mas 28% deles terminaram o primeiro ciclo do ensino fundamental, aos 10 ou 11 anos de idade, sem estar alfabetizados. Isso não é normal. Daí o nosso esforço para a Alfabetização na Idade Certa: todos lendo e escrevendo até os oito anos.

Educação com qualidade, sabemos, depende das condições em que se realiza o trabalho dos professores. Encontramos muitos deles adoecidos e desmotivados. Em 2012, houve 903 mil faltas por motivo de saúde -uma média de 15 dias por professor.

Foi necessário criar uma força-tarefa entre as secretarias de Educação, Saúde e Gestão, ouvir os sindicatos e passar a tratar desse problema com urgência. Estamos determinados a valorizar todos os educadores, apoiar o seu trabalho e investir na sua formação com a criação de 32 polos da Universidade Aberta do Brasil, em parceria com 22 das melhores universidades do país.

Herdamos, no dia 1º de janeiro de 2013, uma fila com 97 mil crianças à espera de vagas em creche. Fora as 1.600 que foram matriculadas em unidades que não estavam prontas. Um problemão. Nossa meta é zerar o deficit herdado e abrir ainda mais vagas, com a construção de 240 novas escolas, ampliação de convênios e estímulos para que as empresas atendam às necessidades educacionais dos filhos de seus empregados.

Estamos trabalhando muito para conseguir os terrenos para construir as 88 escolas que foram criativamente contratadas (sem terrenos) pela gestão anterior. Da mesma forma, estamos reduzindo os atrasos na entrega de material e uniforme causados por problemas havidos no ano passado.

É verdade que educação com qualidade se faz com cooperação e parcerias. Não continuaremos desprezando os apoios dos governos federal e estadual como vinha acontecendo. Eles são necessários.

Não "esqueceremos" de pedir livros didáticos ao MEC (Ministério da Educação) -lapso que prejudicou 50 mil alunos neste ano. Em dois meses, 312 de nossas escolas já se cadastraram nos programas de educação integral do MEC contra apenas 33 dos últimos quatro anos. Logo no primeiro mês, já obtivemos a liberação de R$ 20 milhões do governo estadual para a construção de novas creches.

A educação não pode ficar à mercê de diferenças político-partidárias. Portanto, tudo que foi produzido de bom nos últimos anos é tratado com o devido zelo à causa pública.

E tudo que mereça ser auditado, avaliado, mudado e melhorado será feito em respeito ao compromisso maior assumido com a população de São Paulo: fazer dela uma cidade educadora.

Cesar Callegari, 60, sociólogo, é secretário de Educação do município de São Paulo


* * *

Prefeitura paga entidades da saúde por consultas não feitas
04/04/2013 - Folha de S.Paulo

Entidades privadas contratadas pela prefeitura para agilizar o atendimento médico na cidade de São Paulo deixaram de fazer três em cada dez consultas com especialistas pelas quais foram pagas pelo poder público.

O dado consta de levantamento da Folha sobre prestações de contas feitas à prefeitura pelas OSs (Organizações Sociais), instituições sem fins lucrativos pagas para cuidar de unidades e complementar serviços de saúde.

As entidades deveriam ter realizado 530.151 consultas nos Ambulatórios Especialidade e nas AMAs (Assistências Médicas Ambulatoriais) Especialidade em 2012. Mas apenas 347.454 foram feitas.

O cenário repete o que aconteceu em 2011, quando as entidades deixaram de realizar 41% dos atendimentos previstos. Nesses dois anos, elas receberam todos os repasses do município normalmente.

As instituições também não cumpriram os contratos dos Caps (Centros de Atenção Psicossocial), onde são atendidos, por exemplo, dependentes de drogas que não conseguem ser internados.

Em 2012, só 35% desses atendimentos intensivos (com acompanhamento diário de pacientes) foram feitos.

Entidades privadas de saúde receberam no ano passado R$ 2,1 bilhões da prefeitura. Cerca de 72% das consultas da rede hoje são feitas por elas (ao menos 34% por OSs).

A falta de realização de consultas tem reflexo na fila de espera da saúde. Em dezembro passado, 800.224 pedidos médicos aguardavam na fila na rede inteira (não só nas unidades administradas por OSs). Desses, 311.627 eram com especialistas.

PACIENTES
São casos como o do pedreiro José Cândido da Silva, 54, que só conseguiu uma consulta com um cardiologista ontem, após dois meses de espera, e da doméstica Maria de Assis, 59, que aguarda há sete meses para ser atendida por um reumatologista.

"Tenho osteoporose, estou com dor. Fazia um acompanhamento com uma médica, que deixou de trabalhar aqui em setembro do ano passado e até hoje não foi substituída. Sem a consulta, não consigo o remédio", dizia Maria, ontem, na porta da AMA Especialidade Isolina Mazzei, na Vila Guilherme (zona norte).

Uma das justificativas das OSs para o não cumprimento dos contratos é a dificuldade em contratar especialistas.

O principal argumento da prefeitura para adotar o modelo era justamente a facilidade que elas teriam para isso, já que têm liberdade para pagar melhores salários.

A não realização de consultas não implica em desconto dos repasses feitos às OSs.

Mesmo deixando de fazer o atendimento, elas continuam a receber a mesma verba.

"Elas são remuneradas pela capacidade operacional que disponibilizam. É um sistema ineficiente", diz Mauricio Faria, conselheiro da área de saúde do TCM (Tribunal de Contas do Município).


Postado por Saul Leblon às 20:20

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Petrobrás em crise? Faz-me rir!

Mais um bom artigo do nosso colaborador, e publicado no Blog da Kika Castro:

Petrobrás em crise?

Texto escrito por José de Souza Castro:
Interessante a defesa que o ex-presidente da Petrobras e atual secretário do Planejamento da Bahia, José Sérgio Gabrielli de Azevedo, fez nesta quarta-feira (3 de abril) na seção Tendências/Debates da "Folha de S.Paulo". Sob o título “Pré-sal, Petrobras e o futuro do Brasil”, o jornal publicou este destaque extraído do texto: “Dizem que a Petrobras não terá condições de ser operadora única no pré-sal. É um claro sinal de miopia e defesa do interesse de poucos”.
Outros destaques poderiam ser os seguintes:
  • Sete anos após a descoberta, já são extraídos mais de 300 mil barris/dia e ela terá sete novas unidades de produção ainda em 2013.
  • Até 2020, apenas nas áreas já concedidas e da cessão onerosa, serão 2,1 milhões de barris/dia – marca que já supera toda a produção nacional atual.
  • Só para comparar, para alcançar a marca dos 300 mil barris/dia, foram necessários 17 anos na porção americana do golfo do México e nove anos no mar do Norte.
  • A empresa está pronta e atuando na plenitude do que uma petrolífera pode fazer, sempre priorizando o Brasil: 98% dos investimentos e 95% da produção da companhia estão no país.
  • Somente a Petrobras pode apresentar um plano com a instalação de 38 plataformas de 2013 a 2020 e US$ 107 bilhões em desenvolvimento da produção. Só ela tem 69 sondas flutuantes de perfuração em operação para a construção e manutenção de seus poços.
  • A empresa construiu nos últimos dez anos parcerias com mais de 120 universidades e centros de pesquisa no Brasil. Sem alta tecnologia – e uma rede com milhares de especialistas espalhada por todo o país –, não seria possível produzir com tamanha eficiência.
  • O valor de mercado da companhia, mesmo depois da crise global de 2008 e a queda do preço internacional do barril de petróleo, é hoje mais de dez vezes maior se comparado com 2003.
  • As novas regras foram aprovadas pelo Congresso depois de um amplo debate na sociedade. Foi objeto de grande resistência por parte daqueles que se beneficiavam do modelo das concessões. Agora esses interesses se reaglutinam e formam a base do ataque atual à empresa.
  • Além de negar a realidade, em uma falsa transmutação de uma empresa pujante em uma empresa em crise, colocam em segundo plano o potencial que os 30 bilhões de barris descobertos até aqui representam para nossa sociedade: a capacidade de ajudar na melhoria da vida do brasileiro, o que tanto incomoda a oposição e a coloca em alerta com a proximidade das eleições de 2014.
José Sérgio Gabrielli não citou nomes, nem precisava. No dia 12 de março, num seminário promovido pelo PSDB, deu-se destaque à perda de 41,2% do valor de mercado da Petrobras, que foi ultrapassada pela Ambev, fabricante de cervejas. Em março de 2010, a Petrobras só perdia para a Exxon Mobil e a PetroChina, em valor de mercado, hoje está em sétimo lugar.
O valor de mercado é calculado pela cotação das ações de uma empresa nas bolsas de valores. A imprensa vem falando de crise na Petrobras desde o começo do ano e quem acreditou nisso – em geral, aqueles que confiam na grande imprensa e no PSDB – procurou vender suas ações. A ação ON estava cotada em R$ 23,62 em 3 de abril do ano passado, caiu para R$ 20,58 no primeiro pregão deste ano na Bovespa e, com as más notícias, continuou em baixa, chegando a R$ 14,23 três meses depois. Foi o fundo do poço. No dia do seminário do PSDB, já valia R$ 16,94 e fechou ontem em R$ 16,60.
A cotação continua patinando, mas se chegar logo aos R$ 23,62 de um ano atrás, quem vendeu na baixa pode se arrepender. E vai pôr a culpa em quem?
A Petrobras informou nesta semana, em seu blog, que no dia 30 de março suas refinarias no Brasil processaram 2,137 milhões de barris, um novo recorde. O anterior foi no dia 3 de março, com a marca de 2,125 milhões de barris de petróleo refinados. Não parece serem números de uma empresa em crise.
***
Leitor da Folha pode ler a íntegra do artigo de Gabrielli AQUI. Ele está disponível também no site do Senado.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Photo-poema - o mar




Solidão  

Estás todo em ti, mar, e, todavia,
como sem ti estás, que solitário,
que distante, sempre, de ti mesmo!

Aberto em mil feridas, cada instante,
qual minha fronte,
tuas ondas, como os meus pensamentos,
vão e vêm, vão e vêm,
beijando-se, afastando-se,
num eterno conhecer-se,
mar, e desconhecer-se.

És tu e não o sabes,
pulsa-te o coração e não o sente...
Que plenitude de solidão, mar solitário! 


 




Juan Ramón Jiménez, in "Diario de Un Poeta Reciencasado"
Tradução de José Bento

http://www.citador.pt/poemas/solidao-juan-ramon-jimenez  

Juan Ramón Jiménez - poeta espanhol (1881-1958), prêmio Nobel de Literatura em 1956. 
Opositor do regime franquista, exilou-se nos EUA.

terça-feira, 2 de abril de 2013

O diabo na política

Muito bom este artigo publicado pelo Observatório da Imprensa. Aborda de modo sério a questão envolvendo essas duas personagens da politica brasileira. O Zé Simão, no seu programa digital, saiu-se com uma pérola dia desses: Todo pit bull é, no fundo, uma Lassie reprimida. Nem Freud falaria tão claro!

FELICIANO & BOLSONARO

O diabo na política

Por Luciano Martins Costa em 02/04/2013 na edição 740
Interessante observar como a irracionalidade, posta à vista no espaço público pela mídia, é capaz de causar espanto, assombrar e até mesmo seduzir um grande número de indivíduos. Muitos protagonistas da cena social e do campo político se valem de incursões por temas bizarros para assegurar seu espaço, ainda que breve e circunstancialmente, como recurso para marcar sua existência no mundo mediado. Os deputados Jair Bolsonaro e Marco Feliciano são dois desses atores, que eventualmente se valem do microfone que lhes deram os eleitores para lembrar que o ovo da serpente sobrevive no limbo da civilização.
Tais personagens se valem das aparentemente ilimitadas liberdades que lhes concedem a democracia e a civilidade para atacar a democracia e a civilidade, que desprezam. No fundo, agem contra seus próprios interesses de preservação, como todos os indivíduos antissociais, pois ao extrapolar os limites de tolerância do senso comum correm o risco de colocar contra si mesmos todo o corpus social – inclusive aquela fração que os apoia. E não são poucos.
Mas esse tipo de raciocínio pode parecer elaborado demais para quem escolheu viver em estado permanente de alienação.Pode-se abordar de muitas formas esse fenômeno, que parece crescer quanto mais se expandem as mídias digitais, mas é preciso definir um ponto de partida para essa observação.
Para não nos distanciarmos muito do tipo de raciocínio que tais atores propõem, pode-se dizer que eles representam, no contexto social, a voz das amídalas cerebelosas – aquele grupo de neurônios que, no sistema límbico do cérebro, regulam o comportamento sexual e a agressividade.
Especialistas em neurociências poderiam ir além, mas para observar a cena no campo da comunicação basta esse pequeno marco epistemológico.
O ex-militar Bolsonaro, assim como seu parceiro de trevas, o pastor Marco Feliciano, age agressivamente, por assim dizer, movido por impulsos sexuais. Da análise de seus discursos pode-se inferir, com extrema facilidade, que o que eles manifestam é o sequestro neural típico da mente ameaçada.
E o que tanto temem Feliciano, Bolsonaro e seus correligionários, e que os leva a se manifestar com tanta agressividade contra aquilo que a modernidade transformou em senso comum, como o livre arbítrio?
Epístolas e pistolas
O cientista Daniel Coleman, que se celebrizou com o livro Inteligência emocional mas tem um cabedal de pesquisas que vai muito além dessa obra polêmica, lembra que “a memória emocional pode ser um repositório de impressões emocionais e lembranças que jamais conhecemos em plena consciência”. Portanto, nossos personagens, que se atiram de mãos dadas contra os direitos da mulher e de minorias étnicas e sexuais, possivelmente consideram uma ameaça à sua segurança pessoal tais reivindicações.
Antes que alguém afirme que eles podem ter tido na infância experiências que hoje repudiam, é preciso pontuar que, deste ângulo de observação, o das teorias da comunicação, isso seria apenas uma conjectura. O que, sim, se pode dizer a partir da análise do discurso comum a Bolsonaro e Feliciano é que ambos sentem muito medo.
O apelo a forças sobrenaturais ou a uma suposta superioridade de raça ou de gênero, que marca todas as manifestações desses dois personagens, revela neles o caminho neural de sentimentos primitivos e grosseiros, que pegam um atalho do limbo até as áreas cerebrais responsáveis pela linguagem.
Bolsonaro se declara “um soldado de Feliciano” e Feliciano afirma que a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados era “dominada por Satanás” antes de sua posse. Seus subtextos declaram um pavor das escolhas íntimas, e suas armas podem ser epístolas ou pistolas.
E o que tem a imprensa com isso?
Aparentemente, a mídia tradicional reflete o que parece mais sensato nas correntes que percorrem as mídias sociais digitais. Afinal, o jornalismo não pode abdicar de se posicionar como representante da racionalidade, sob pena de perder o posto de intérprete do mundo real. No entanto, em termos do discurso, pode-se observar também que a imprensa não desgosta totalmente de Bolsonaro e Feliciano. Pelo menos não se vê, lê ou ouve contra o soldado e o pastor metade do que se disse de outros personagens da política execrados recentemente pela imprensa.
Talvez eles estejam verbalizando aquilo que muitos editores e editorialistas gostariam de dizer.