Artigo um pouco longo, mas que precisa ser lido por todos que utilizam a internet, principalmente os pais que adoram colocar fotos dos filhos e falar das traquinagens deles para o mundo inteiro ficar sabendo e não apenas os "amigos virtuais". O artigo foi retirado do site da Agência Carta Maior. (os grifos, em vermelho, são meus)
Nós somos a alta tecnologia da espionagem global
Todas as fantasias dos adeptos das teorias conspiratórias
que imaginavam os EUA espionando cada canto do planeta com satélites e
dispositivos ultra tecnológicos viraram fumaça em um par de dias. A alta
tecnologia da espionagem global somos nós mesmos, não satélites
espiões, nem raios invisíveis. Nós entregamos nossos correios, nossos
segredos, as fotos e os nomes de nossos filhos e irmãos, de nossos
amigos, envoltos em um papel de presente transparente. Especialistas em
tecnologias da informação concordam: é imperativo mudar nossa cultura na
rede. Por Eduardo Febbro, de Paris
Eduardo Febbro
Paris – Só nos resta o espelho do
nosso próprio desencanto. E certa tristeza humana e “geopolítica” ao
constatar que, frente ao grande espião universal norte-americano vestido
com a roupagem da democracia, os europeus não só deram mostras de uma
espantosa covardia frente aos Estados Unidos, como também que, toda sua
potência econômica, todo seu espaço comunitário, todo seu Banco Central e
seu euro, não serviram sequer para criar um contrapeso numérico ao lado
do alucinante poderio norte-americano.
O jornalista investigativo e especialista em internet e em novas tecnologias da informação,
Jaques Henno, autor de dois livros sobre espionagem (“Todos fichados” e
“Sillicon Valley, o Vale dos Predadores”),
comenta: “Nós, enquanto europeus, estamos na periferia do império
norte-americano. Enviamos informações a ele porque não fomos capazes de
criar o equivalente do Google, Apple ou Facebook para conservar na
Europa essas informações”. Kavé Salamantian, professor de informática e
telecomunicações na Universidade de Lancaster, expressa certa amargura
quando diz: “A NSA nos enganou. Era previsível que nos espionasse.
Fomos
enganados pelas empresas privadas, Google, Facebook, Apple, Microsoft.
Elas nos espionam de uma forma muito simples: utilizam as informações
que nós proporcionamos e a confiança que tivemos nas empresas que
oferecem serviços informáticos. Esses atores se tornaram parte tão
cotidiana de nossa vida que nos esquecemos das informações essenciais
que disponibilizamos”.A espionagem organizada a partir do
dispositivo Prisma revelado pelo ex-membro da NSA norte-americana,
Edward Snowden, é de uma simplicidade infantil. Stéphane Bortzmeyer,
especialista em segurança informática e arquiteto de sistemas e redes,
explica que Prisma “é só uma parte da espionagem norte-americana. A
ideia consiste em se conectar com os grandes serviços de intercâmbio,
as grandes redes sociais que estão nos Estados Unidos, ou seja, entre
outros, Google e Facebook. O grande interesse de atuar neste nível
consiste em ter acesso a uma informação que já está estruturada e
tratada”.
Todas as fantasias dos adeptos das teorias
conspiratórias que imaginavam os EUA espionando cada canto do planeta
com satélites e dispositivos ultra tecnológicos viraram fumaça em um par
de dias: “Prisma”, acrescenta Bortzmeyer, “é uma tecnologia simples,
que já existia e que, além disso, é a mesma que utilizamos”. Em resumo, a
alta tecnologia somos nós mesmos, não satélites espiões, nem raios
invisíveis. Não.
Nós entregamos nossos correios, nossos segredos, as
fotos e os nomes de nossos filhos e irmãos, de nossos amigos, envoltos
em um papel de presente transparente. Nicolas Arpagian, especialista em
cyber-segurança, professor no Instituto de Altos Estudos de Segurança e
Justiça, ressalta justamente que “o problema com os dados reside em que
se toma uma informação de um servidor informático que está aí
permanentemente. Não há roubo. Pode-se operar sem que a vítima se dê
conta. A força desse tipo de espionagem radica no fato de que a vítima
ignora seu estatuto de vítima”.Os brinquedos conhecidos que a
NSA emprega para acessar nossas intimidades são três: o olho é Prisma,
seus aliados são Boundless Informant e X-Keyscorey. Prisma se conecta
aos servidores das redes sociais, Google, Microsoft, Apple, Twitter,
Skype, Facebook e outros. Boundless Informant é um software dirigido em
grande parte ao ataque extraterritorial. O dispositivo mede o nível de
segurança que cada país aplica a seus sistemas ao mesmo tempo em que
consolida os meta-dados das conversações telefônicas (quem fala com
quem) e das comunicações informáticas, as IP. X-Keyscorey é, nesta
montagem, o cérebro do chamado Big Data, ou seja, o conjunto dos dados
armazenados e analisáveis. X-Keyscorey é uma espécie de “Google” interno
da NSA, ou seja, um analisador de conteúdos que abre as portas de tudo:
histórico de navegações de uma pessoa, buscas realizadas na internet,
conteúdos dos e-mails, conversações privadas no Facebook, cruzamento de
informações segundo o idioma, o país de origem e de destino dos dados e
dos intercâmbios.
Se a NSA quiser, com o X-Keyscorey nossa vida
digital é um livro aberto. Comprar um congelador de grande capacidade
(podem ser usados para armazenar explosivos), viajar de primeira classe
aos Estados Unidos (os assentos ficam próximos da cabine dos pilotos),
ou comprar uma panela de pressão pode levantar suspeitas na NSA. Prisma e
seus programas associados realizam perfis matemáticos para detectar
eventuais suspeitos segundo as navegações na rede ou os dados. “Tudo é
analisado em massa”, diz Stéphane Bortzmeyer. Como destaca Kavé
Salamantian, o problema está em que “isso não é a realidade, mas sim
pura virtualidade construída a partir de uma aparência de racionalidade
matemática”.
“Google e as ferramentas que oferece pode nos seguir
em escala planetária e de forma permanente”, explica Nicolas Arpagian.
Somos, de fato, filhos da “rastreabilidade”. Jacques Henno fala de uma
“rastreabilidade política, sexual, ideológica e religiosa”.
Os números
falam por si próprios: Google e Facebook têm mais de um bilhão de
usuários em todo o mundo; 80% das comunicações através da internet
passam pelos Estados Unidos; no Facebook são publicadas 350 milhões de
fotos por dia, o que dá 3,5 bilhões de fotos em dez dias e 35 bilhões em
cem dias. A mágica ocorre quando nos inscrevemos no Google ou Facebook.
Poucas pessoas leem as condições de utilização, mas estas explicitam
claramente que o usuário “autoriza” o armazenamento das informações no
território norte-americano. Os dados, por conseguinte, dependem do
direito dos EUA, tanto mais que a lei Patriot Act, aprovada logo depois
dos atentados de 11 de setembro, permite aos governos estadunidenses
requerer o conteúdo dos arquivos das pessoas suspeitas.
Mais
ainda. Como explica Nicolas Arpagian, “a lei norte-americana se aplica
às empresas quando 51% do capital das mesmas está em mãos de capitais
norte-americanos, seja qual for sua localização”. Isso inaugura uma
espécie de extensão do direito doméstico dos Estados Unidos para o resto
do planeta. Arpagian analisa este dado e observa que “a particularidade
deste emprego ofensivo das tecnologias da informação está em que já não
se estabelece mais a diferença entre o mundo civil e o militar”.
Houve
vários sistemas globais de espionagem. O mais conhecido e que precedeu o
Prisma foi o Echelon. Este dispositivo de espionagem instalado no
Canadá, Estados Unidos, Grã Bretanha, Nova Zelândia e Austrália se
limitava a coletar comunicações telefônicas. Prisma, por sua vez, tem
acesso a tudo e com uma distinção maior: “a diferença entre Echelon e
Prisma passa pelo fato de que o Echelon era uma estrutura unicamente do
Estado, enquanto que Prisma exige a colaboração das empresas privadas”.
No
meio disso tudo, estão os britânicos e seu quartel general de
espionagem, onde filtram quase exclusivamente tudo o que passa pela
fibra ótica. Os teóricos do ocaso do império se equivocaram por muito.
“Não resta dúvida alguma que, por meio do controle das tecnologias da
informação, os Estados Unidos contam com um elemento de considerável
potência. E esse poder norte-americano corresponde ao que nós deixamos
nas mãos desta sociedade de informação”.
Os europeus têm muita
literatura diplomática, mas carecem de contrapeso tecnológico. Por uma
razão misteriosa, não quiseram jogar o xadrez digital. Seus cidadãos e
suas empresas – e até os serviços públicos – são clientes de Google e
Microsoft como qualquer habitante deste planeta. Seus dados estão na
nuvem e seus e-mails nos operadores estadunidenses.
Incrédulos,
inocentes ou passivos, o certo é que terminamos fazendo parte de uma
gigantesca armazenagem de dados para onde foram parar nossos pecados e
nossas virtudes. Um horror absoluto.A hora da mudança chegou.
Todos os especialistas consultados confluem na mesma análise: é
imperativo mudar nossa cultura na rede, precisamos ser mais responsáveis
e, da mesma maneira que ocorre com o ambiente físico, tomar consciência
do perigo virtual que nos cerca e nos proteger dele. A era do sonho
virtual coletivo e da inocência ante o computador chegou ao fim.
Snowden, que era parte do sistema, desgarrou a imensidade da verdade
intuída. Agora sabemos.
Tradução : Katarina Peixoto