Achei esta matéria no site do Nassif. Concordo com o que a pessoa que o recomendou, escreveu: imperdível!
Do face do Paulo Moreira Leite. Imperdível !
Crocodilos derrotadosNossos
cronistas que tentam impedir que os condenados da Ação Penal 470 tenham
direito a uma revisão adequada de suas penas e mesmo uma segunda
jurisprudência perderam um argumento depois de ontem.
Numa
postura autoritária, que confundia seus desejos com a realidade, falavam
do monstro, do ronco, do demônio das ruas para justificar a prisão
imediata dos condenados.
Mas tivemos protestos de participação
modesta, que confirmam não só a vergonhosa ignorância da fatia
conservadora da elite de nossos meios de comunicação quanto às
preocupações reais que afligem a maioria da população, mas também sua
total falta de compromisso com a apuração e divulgação de fatos
verdadeiros e informações confiáveis.
Querem fazer propaganda, querem ideologia – e não é difícil entender a razão.
Interessados
num eventual proveito político do julgamento, tentam chantagear as
instituições da democracia, sem importar-se, sequer, com outros
prejuízos de natureza cultural que o estimulo à baderna possa produzir.
Como
observou Janio de Freitas, pela primeira vez na história as pessoas
saíram a rua num 7 de setembro sem “incluir, sequer remotamente, algo da
ideia de nacionalidade, ou de soberania, de independência mesmo.”
Diz
ainda Janio: “pelo visto, não faria diferença se, em vez do Sete de
Setembro, a celebração mais próxima fosse o Natal. Ou Finados.”
Lembrando que somos uma pátria de desiguais, o Grito dos
Excluídos disse a que veio. Mas só.
Os demais não disseram nada, embora fosse sobre eles que se disse tudo – especialmente, que o STF deveria se acovardar.
Há um componente maligno e manipulador nesse esforço para anunciar que um protesto será uma manifestação grandiosa.
Procura-se
estimular o efeito manada naquele conjunto de cidadãos capazes de sair a
rua porque acham que “todo mundo vai estar lá”. Numa sociedade pouco
organizada como a nossa, onde os partidos políticos são o que são e as
demais organizações sociais são aquilo que se conhece, muitas pessoas
sentem-se desenraizadas e sem compromisso social maior. Ficam
impressionadas com demonstrações de força.
Tenta-se contaminar
nestes indivíduos um sentimento de solidão e isolamento caso não
acompanhem os atos daqueles que se quer transformar numa “maioria” que
ninguém ouviu nem diz onde mora nem sabe o que pensa – e muitas vezes
nem pode ver o rosto, o que não é casual.
A leitura de Hanna
Arendt, uma das mais fecundas estudiosas do nascimento de movimentos
totalitários que levaram às piores ditaduras do século passado, permite
interessantes comparações com aquilo que se diz e se faz no Brasil de
hoje. Não tudo, mas boa parte, pelo menos.
Hanna Arendt explicou
que os movimentos contra uma democracia ainda em gestação na Europa
entre as duas Guerras precisaram de “uma grande massa desorganizada e
desestruturada de indivíduos furiosos, que nada tinham em comum exceto a
vaga noção de que as esperanças partidárias eram vãs; que,
consequentemente, os mais respeitados, eloquentes e representativos
membros da comunidade eram uns néscios e que as autoridades constituídas
eram não apenas perniciosas, mas também obscuras e desonestas.”
(“Origens do totalitarismo”, página 444).
É claro que, diante do
fiasco comprovado de ontem, ninguém irá admitir que nunca houve uma
relação direta nem clara entre a ação 470 e os protestos de junho.
Havia,
há dois meses, quem protestasse contra os condenados. Era muita gente,
sem dúvida. Mas havia uma raiva mais ampla e generalizada, que envolvia o
sistema político, a saúde pública e, como causa inicial, não vamos
esquecer, o transporte público.
Reconhecer isso hoje seria
aceitar que se fez uma descrição política interesseira, que pretende dar
ao povo um tratamento de ralé, estimulando, acima de tudo, a busca de
um líder autoritário – para empregar, mais uma vez, a análise de Hanna
Arendt.
Para ela, povo é aquele movimento social articulado a
partir de interesses concretos e definidos, inclusive de classe social,
que reage para defender seus direitos quando são atacados – e por isso
ela identifica povo com a democracia.
Já a ralé, no sentido
político, é formada por uma massa de cidadãos de várias classes,
alimentados por uma “ amargura egocêntrica” que produz uma forma de
“nacional tribal” e também o “niilismo rebelde."
Analisando a
estratégia de um dos mais cruéis líderes de um movimento em si
monstruoso como o nazismo, Arendt fala que Himmler procurava recrutar
integrantes das SS entre cidadãos que não estavam interessados em
“problemas do dia a dia” mas somente em questões ideológicas de quem
acredita trabalhar “numa grande tarefa que só aparece uma vez a cada
dois mil anos.”
Vejam algumas semelhanças entre as coisas.
No
livro “ A Cozinha Venenosa, “ no qual estuda a emergência do nazismo a
partir da história de um jornal socialdemocrata de Munique, a jornalista
Silvia Bittencourt lembra uma frase do hino da SS: “a Alemanha
desperta.”
Descrevendo a “atomização social e a individualização
extrema”, Hanna Arendt fala de massas que, “num primeiro desamparo de
sua existência, tenderam para um nacionalismo especialmente violento.”
Avaliando
o comportamento dos partidos que tinham uma postura de cumplicidade nos
ataques a democracia, diz que agiam assim “por motivos puramente
demagógicos, contra seus próprios instintos e finalidades.”
Na
verdade, a falta de disposição espontânea para transformar o 7 de
setembro numa jornada de confronto político real, como ocorreu em junho,
não era tão difícil assim de ser percebida.
Em 4 de setembro
registrei neste espaço minhas dúvidas sobre o tão falado monstro e seu
“ronco”, como dizem os adoradores de todo movimento capaz de ser usado
para causar prejuízos ao condomínio Lula-Dilma.
Falando dos crocodilos que rondam o Supremo, escrevi:
“Tenho
certeza absoluta de que muitos brasileiros querem a prisão dos
condenados pela ação penal 470. São sinceros e estão convencidos de seus
motivos. Acho que o massacre dos meios de comunicação, tendenciosos,
tem muito a ver com isso.
Não custa lembrar, contudo, que o Brasil
não se resume a essas pessoas. Todos os deputados indiciados na ação
penal 470 e que disputaram cargos eleitos em 2010 tiveram boa votação.
Em 2012 a lei ficha limpa tirou João Paulo Cunha do pleito em Osasco.
Senão, teria sido eleito prefeito. Não pode concorrer e emplacou um
substituto no posto. Dirceu só não foi eleito em 2010 porque perdeu os
direitos políticos no Congresso.
(...)
O “povo”, “a rua”, “o
monstro” compareceu em massa às urnas em 2006, 2010, 2012. Em nenhuma
dessas ocasiões a ação penal 470 derrotou qualquer candidato a
presidente, a governador, a prefeito. Ocorreram derrotas e vitórias
espetaculares. Sei da opinião de quem vai aos protestos. Mas basta andar
pela rua e perguntar a opinião da população sobre Dilma. Ou sobre
Lula.”
Seria ilusório no entanto, esperar por um balanço
politicamente honesto deste 7 de setembro. Ninguém irá aplicar o mesmo
critério e reconhecer que a população não está com tanta pressa assim
–-- e dar uma folga na chantagem sobre o Supremo, deixando que, nos
últimos dias, seja capaz de encarar os fatos e reconhecer que tem o
dever de abrir o debate para a discussão dos embargos infringentes, uma
possibilidade de assegurar a pelo menos uma parcela dos réus o direito
de uma revisão de suas penas.
As “ruas “ e o "monstro" eram
apenas pretextos convenientes para justificar uma postura autoritária
para mobilizar a população, de qualquer maneira, para exigir punições
exemplares. Não deu certo e agora se mudará de assunto para perseguir o
mesmo alvo, que é criminalizar as mudanças ocorridas no país nas últimas
décadas. Como se faz sempre, a retórica consiste em transformar o bom
em regular em ruim, o ruim em péssimo – e dizer que tudo o que há de
ótimo saiu da cartola da oposição, enxotada do Planalto com uma
popularidade negativa de 13 pontos.
A transmissão ao vivo do
julgamento, ainda no ano passado, destinava-se a transformar uma decisão
que deveria ser tomada num ambiente de serenidade e recolhimento num
espetáculo público com várias demonstrações de autoritarismo e
intolerância.
Tivemos um ministro relator que jamais foi um juiz,
mas um aliado da acusação e, em vez de ser questionado a respeito, foi
aplaudido exatamente por isso.
Este comportamento permitiu
várias distorções e abusos. No último exemplo, o ministro Ricardo
Lewandovski demonstrou, com dados irrefutáveis, o agravamento artificial
das penas com a finalidade de impedir que, apesar das denúncias
injustas, da falta de provas, da fraqueza de tantas acusações, os réus
pudessem beneficiar-se de um direito universal – a prescrição de penas
depois de determinado prazo de investigação.
Estimulando
atitudes de quem se coloca acima da lei, improvisa soluções sob
encomenda a seus interesses, o que se quer é outra coisa.
Convencer o
“niilismo rebelde” e o “nacionalismo tribal” que é possível
desrespeitar a democracia pois ninguém será capaz de reagir. Estamos
sendo submetidos a um teste.
Através do ataque aos direitos de 25
condenados, pretende-se atingir os direitos do povo inteiro É um plano
para um prazo mais longo, amplo e profundo.
Se, em outubro de
2014, Dilma Rousseff e Lula confirmarem o dizem as pesquisas eleitorais
de hoje, cravando uma quarta vitória eleitoral consecutiva sobre a “ a
amargura egocêntrica” das elites, nós poderemos saber exatamente o que
estava em jogo no espantalho do monstro de 7 de setembro -- obter, fora
das urnas, fora do respeito devido às instituições democráticas,
vitórias que só a soberania popular pode assegurar.