domingo, 5 de julho de 2015

Momento de humor: A Grécia muda por conta da crise!

Ainda bem que temos humoristas! No meio dessa crise toda, rir sempre é o melhor remédio.
Vejam a triste situação da Grécia devido à crise!


1. Zeus vende o trono para uma multinacional coreana.

2. Aquiles vai tratar o calcanhar na saúde pública.
 

3. Eros e Pan inauguram prostíbulo.
 

4. Hércules suspende os 12 trabalhos por falta de pagamento.
 

5. Narciso vende espelhos para pagar a dívida do cheque especial.
 

6. O Minotauro puxa carroça para ganhar a vida.
 

7. A Acrópole é vendida e aí é inaugurada uma Igreja Universal do Reino de Zeus.
 

8. Eurozona rejeita Medusa como negociadora grega:"Ela tem minhocas na cabeça!".
 

9. Sócrates inaugura Cicuta's Bar para ganhar uns trocados.
 

10. Dionisio vende vinhos à beira da estrada de Marathónas.
 

11. Hermes entrega currículo para trabalhar nos correios. Especialidade: entrega rápida.
 

12. Afrodite aceita posar para a Playboy.
 

13. Sem dinheiro para pagar os salários, Zeus libera as ninfas para trabalharem na Eurozona.
 

14. Ilha de Lesbos abre resort hétero.
 

15. Para economizar energia, Diógenes apaga a lanterna.
 

16. Oráculo de Delfos vaza números do orçamento e provoca pânico nas Bolsas.
 

17. Ári​​es, deus da guerra, é pego em flagrante desviando armamento para a guerrilha síria.
 

18. A caverna de Platão abriga milhares de sem-teto.
 

19. Descoberto o porquê da crise: os economistas estão todos falando grego!!!

(recebido por email. Se alguém souber a autoria, favor informar para que eu possa dar os devidos créditos)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Religião, Justiça e História

por Jaime Pinsky


Justiça e religião buscam estabelecer o que é certo e o que é errado. A primeira trabalha com leis e punições, a segunda com dogmas e punições. Leis, em princípio, decorrem do estado civilizatório de determinada sociedade, possuem historicidade, são revogáveis e assumidamente falíveis. O tempo muda os costumes (como já dizia Cícero), os costumes mudam as leis. A verdade de hoje pode ser obsoleta amanhã (que tal a legislação a respeito de dejetos de cavalos no centro de nossas cidades, por exemplo?). Mais ainda, pode estar superada pelas novas práticas sociais. Não é por outra razão que o Direito é uma ciência social. Não é ciência exata, não é ciência da natureza, diz a respeito de práticas que ocorrem nas sociedades humanas concretas.
Dogmas, por definição, possuem outra natureza. Se um fiel acredita que uma verdade foi revelada pelo seu deus, não há como provar o contrário, uma vez que a verdade que ele ostenta não é relativa (ao tempo histórico, aos costumes), mas absoluta. Basta ter fé para carregar aquela verdade no peito. Quando aquele que tem fé também possui poder para impor sua fé estamos em uma situação explosiva. Como ele crê, acredita que deve fazer com que todos, por bem ou por mal, partilhem de suas verdades. Mais ainda, ele acredita ser sua obrigação espalhar suas verdades (não podemos nos esquecer, para ele suas verdades não são verdades passageiras, transitórias, são verdades divinas, são as verdades). Com o poder em mãos o crente transforma-se em fanático, disposto a matar (ou morrer) para impor suas verdades.


Ao longo da História podemos identificar diferentes situações em que fanatismo acrescido de poder perpetrou barbaridades sem par. Nossa civilização ocidental tentou, muitas vezes, impor suas verdades. As inquisições portuguesa e espanhola, os cruzados, os conquistadores da América não podem ser esquecidas quando pensamos em consequências terríveis da união de fé com poder. Com as ideias da Revolução Francesa o Ocidente foi se tornando mais laico, e a separação entre Estado e religião foi conquistando quase toda a Europa e Américas. As pessoas têm o direito de professar a religião que quiserem, mas não há religiões oficiais, apesar de alguns ranços simbólicos ainda permanecerem em alguns lugares. Praticar uma fé por escolha, não por imposição, praticar sincretismos existentes ou inventados por cada um, ou não praticar fé alguma é uma conquista da cidadania.
Infelizmente isto não aconteceu no mundo muçulmano. Em grande parte dos países onde o islamismo é majoritário, não há liberdade para praticar outras crenças. Em alguns deles é até proibida a construção de templos cristãos. Imagine-se a grita se isto ocorresse em algum país europeu, ou americano, com relação a construção de mesquitas...


Claro que é preconceituoso e muito equivocado culpar todos os muçulmanos por atentados perpetrados por terroristas islâmicos. Seria o mesmo que acusar todos os brancos americanos pela loucura de um racista contra um grupo de negros no sul dos EUA. Mas não se pode negar que racistas americanos não estão no poder e dificilmente chegarão a estabelecer uma politica de estado ou de governo de cunho racista. Já não se pode dizer o equivalente no mundo muçulmano. Estados constituídos, como a Arábia Saudita, ou o Iêmen, assim como grupos altamente organizados (como o Estado Islâmico, com raízes solidamente implantadas na Síria, no Iraque e na África Saariana) assumem enfeixar fé e poder para implantar suas ideias a ferro e a fogo.

Durante parte da Idade Média ocidental, quando a Europa estava mergulhada no atraso decorrente do poder eclesiástico articulado ao feudalismo, as ideias e práticas trazidas pelos conquistadores muçulmanos pareciam uma aragem fresca na pasmaceira econômica, social e cultural. Muitos dos conquistadores tiveram a visão de permitir uma liberdade religiosa bastante grande (considerando a época, é claro). Médicos e filósofos islâmicos, cristãos e judeus trabalhavam juntos; cidades como Córdoba e Granada eram centros culturais acima das religiões. Por circunstâncias históricas, que não podem ser atribuídas simplesmente ao imperialismo ocidental (vilão cômodo de ser acusado), mas têm a ver com a estrutura de poder que não se modernizou em grande fatia do mundo muçulmano, hoje esta parte do planeta ficou para trás, mesmo quando e onde o dinheiro corre fácil.

Ainda são poucos os islâmicos que pregam uma reinvenção da religião e sua adequação ao mundo moderno.

É de se esperar que o coro engrosse. Parece uma boa ideia.  


Jaime Pinsky, historiador, professor titular da Unicamp, diretor da Editora Contexto, autor de Por que gostamos de história, entre outros livros

As máquinas de vender intolerância e preconceito

Para compreender onda de fundamentalismo e crimes de ódio, que se espalha por países como EUA e Brasil, é indispensável examinar papel de certos programas de TV
Por Sandro Ari Andrade de Miranda

O crescimento dos crimes de ódio é um fenômeno global! Sustentada por preconceitos e por valores fundamentalistas, temos observado uma onda de violência desmedida em diversos lugares do planeta, exatamente no momento em que explodem os meios de comunicação, o que, em tese, deveria garantir maior acesso à informação.

O ataque a igrejas das comunidades negras nos Estados Unidos, o espancamento de casais homoafetivos nas metrópoles brasileiras ou, simplesmente, de pessoas que se acredita serem homoafetivos (como num caso recente onde pai e filho foram espancados por simples manifestação de carinho), o incêndio criminoso de mesquitas na França, o massacre diário de palestinos pelo governo de Israel, são apenas alguns exemplos de aberrações que vivenciamos todos os dias.



Pior do que isto, o simples ato de ser levantada opinião contrária à dos ofensores ou dos grandes meios de comunicação também acaba resultando em ameaças, perseguições e agressões. A internet, que deveria ser o caminho da disseminação das informações transformadoras, tem sido canal de propaganda da violência moral, da étnica, da sexual e da simbólica.

Se durante o Iluminismo a luta por liberdade de imprensa e de opinião resultou numa conquista sem precedentes para a humanidade, criando os alicerces para a derrubada de impérios absolutistas, no mundo contemporâneo, na maior parte das vezes, os meios de comunicação não oferecem suporte à democratização da sociedade. Infelizmente, não são raros os exemplos onde a mídia de massa funciona como elemento de fomento a ódios, preconceitos e violência desmedida, como no caso do nazismo, do fascismo, e da islamofobia instaurada depois de 11 de setembro.

Os meios de comunicação, especialmente os canais de televisão, cumprem um papel decisivo no fomento ao preconceito, especialmente através da construção de arquétipos, de personagens onde o oprimido é sempre objeto de piadas. Portanto, os grandes meios de comunicação, dominados por oligopólios e grupos conservadores, também são o ponto de partida para vários crimes de ódio.

Num evento pré-campanha eleitoral em 2014, a novela Meu Pedacinho de Chão da Rede Globo de televisão, direcionada a um público infanto-juvenil, com primoroso trabalho estético e com rara qualidade de direção e interpretação, mesmo com sua projeção atemporal, apresentou todos os personagens negros como empregados, criticou o direito de voto dado aos analfabetos, uma conquista democrática de 1988, sem questionar a origem do problema, transformando trabalhadores analfabetos em pessoas desinteressadas na aprendizagem e converteu o Coronel, vilão da história, em herói redimido, num gritante retrocesso em relação ao roteiro da novela original, que foi construída sobre o alicerce da crítica social.

O que era para ser uma obra de arte, nos momentos citados foi palco para a disseminação de preconceitos de forma subliminar, e reforço para a campanha de ódio contra formas de pensar democráticas que é exercitado no dia a dia pelos telejornais da emissora. Por sinal, as novelas da Rede Globo, com raras exceções, sempre foram instrumentos de construção de arquétipos destinados ao controle dos avanços sociais. Vejam o exemplo “do bom e do mau sem-terra” no péssimo roteiro da reprisada novela O Rei do Gado, uma “obra-prima do preconceito”.

E aqui nem falo de uma recente novela das 18 horas (Buggy Uggy) ambientada na década de setenta, que tinha um militar moralista como “pai de família exemplar”, e não fez qualquer referência aos crimes praticados durante a “ditadura verde oliva” exercitados na mesma época. Também nem falo da reiterada imposição da “ditadura da maternidade” pelas novelas como única forma concreta de realização feminina. Normalmente as personagens que não sonham em ser mães são apresentadas como vilãs ou satirizadas, em síntese: mais uma forma de preconceito propagandeado.

Nesses folhetins televisivos vemos a construção de “bons políticos” que pregam discursos de um moralismo lamentável, enquanto passam o tempo todo convivendo de forma pacífica com seus parceiros e “bons correligionários”: latifundiários, grandes empresários, jornalistas com condutas duvidosas e famílias tradicionais. Ou seja, “nas novelas globais, o bom político é sempre aquele que defende o ideário e os interesses da emissora, mesmo que estes estejam em conflitos com o avanço da Democracia”.

No ano de 2011 os canais da Discovery divulgaram um interessante documentário sobre o “perfilhamento racial” nos Estados Unidos e a forma como a polícia, mesmo em Illinois, reduto eleitoral de Barak Obama, continua prendendo pessoas de forma indiscriminada e sem justificativa com base em elementos étnicos, muitos dos quais terminam na morte dos acusados, sempre negros, pela ação policial.

Em algumas situações observamos a autovitimização do opressor como instrumento de pregação do preconceito e de perpetuação do poder dominante, como nos discursos inflamados de brancos contra as políticas de quotas e de ação afirmativa, ou a patética conduta de alguns parlamentares e religiosos brasileiros defendendo o “orgulho hetero”, num claro ato de homofobia.

Aliás, enquanto o direito civil caminhou durante milhares de anos, desde a sua matriz romano-germânica, para reconhecer que não existe direito “de família”, mas “de famílias”, em suas diversas formas, observamos a lamentável tentativa de retrocesso, com a tramitação no Congresso Nacional brasileiro, do projeto de Lei do Estatuto da Família, mais um arremedo de fundamentalismo, sexismo e homofobia.

O uso de símbolos opressivos ainda é pouco enfrentado na sociedade brasileira, mesmo que a violência simbólica seja criminalizada na “Lei Maria da Penha”. Este tipo de violência ainda é visto por determinados setores da sociedade como não violência, como algo que afeta apenas a subjetividade das vítimas. Assim, a violência simbólica segue servindo como ponte para diversos tipos de preconceitos, ou como porta de passagem para a violência física sem nenhum tipo de controle.

Portanto, se formos buscar a fonte da disseminação inconsequente dos crimes de ódio, não poderemos deixar de questionar o papel dos meios de comunicação de massa, ou da ação de alguns ocupantes de assentos nos Parlamentos. Enquanto aceitarmos de forma acrítica que valores conservadores sejam impostos às nossas casas todos os dias pelo rádio, televisão ou internet, ou que o presidente da Câmara vá ao púlpito do Congresso para ofender minorias, ou negarmos a violência simbólica, ainda continuaremos convivendo com a chaga do preconceito!

(fonte: http://outraspalavras.net/blog/2015/06/30/as-maquinas-de-vender-intolerancia-e-preconceito/)

Uma droga cubana contra câncer de pulmão


Depois do Japão, EUA também testam “Cimavax”, vacina terapêutica promissora desenvolvida em Havana. Como Cuba pôde criá-la? Que ela revela sobre bloqueio de 55 anos?
Por Neel V. Patel, na Wired | Tradução: Inês Castilho

Cuba tem, há vários anos, uma promissora vacina terapêutica contra câncer de pulmão. O embargo de 55 anos imposto pelos EUA garantiu que Cuba ficasse principalmente onde estava. Até – talvez – agora.
O governo Obama tem, é claro, tentado normalizar as relações com a ilha. E no mês passado, durante a visita a Havana do governador de Nova York, Andrew Cuomo, o Instituto do Câncer Roswell Park — um centro de referência em tratamento e pesquisa científica sobre a doença, nos EUA — concluiu um acordo com o Centro Cubano de Imunologia Molecular para desenvolver uma vacina contra câncer de pulmão e iniciar testes clínicos nos EUA. Pesquisadores norte-americanos levarão a vacina Cimavax ao país e encaminharão o assunto para aprovação pela FDA (Food and Drug Administration, ou Agência de Alimentos e Drogas).

“A oportunidade de avaliar uma vacina como essa é muito instigante”, diz Candance Johnson, principal dirigente do Roswell Park. Ela está entusiasmada, principalmente porque a pesquisa sobre a vacina mostra, até aqui, que ela tem baixa toxicidade e é relativamente barata para produzir e estocar. O Centro para Imunologia Molecular dará ao Roswell Park toda a documentação (como é produzida, dados sobre toxicidade, resultados de testes passados) para um pedido de registro junto à FDA; Johnson diz que espera conseguir aprovação para testar a Cimavax em seis a oito meses, e para começar testes clínicos em um ano.

Como Cuba chegou a produzir uma droga de ponta em imuno-oncologia? Embora o país seja com razão famoso pelos charutos, rum e basebol, ele tem também alguns dos melhores e mais criativos centros de pesquisa em biotecnologia e medicina no mundo. Isso é especialmente notável para um país onde o trabalhador médio ganha 20 dólares por mês. Cuba gasta não mais que uma fração do valor que os EUA investem em cuidados de saúde por indivíduo; apesar disso, o cubano médio tem uma expectativa de vida semelhante à do norte-americano médio. “Eles tiveram de fazer mais com menos”, diz Johnson, “então precisaram ser ainda mais inovadores quanto à maneira de abordar as coisas. Há mais de 40 anos, têm uma destacada comunidade de imunologia.”

A despeito de décadas de sanções econômicas, Fidel e Raul Castro deram prioridade à pesquisa em medicina e biotecnologia, particularmente medicina preventiva. Após o surto de febre da dengue que atingiu quase 350 mil cubanos em 1981, o governo estabeleceu a Frente Biológica, um esforço para concentrar em objetivos específicos a pesquisa de várias instituições. Sua primeira grande realização foi a produção bem sucedida (e inesperada) de interferon, proteína que desempenha um papel na resposta imune do ser humano. Desde então, imunologistas cubanos fizeram várias outras descobertas no campo da vacinação, incluindo suas próprias vacinas para meningite B e hepatite B, e anticorpos monoclonais para transplante de rim.

O problema dos grandes charutos é que fumá-los faz realmente muito mal à saúde. Em Cuba, câncer de pulmão é a quarta causa de morte. Os pesquisadores médicos do Centro para Imunologia Molecular trabalharam na vacina Cimavax durante 25 anos antes que o ministério da Saúde a disponibilizasse para a população – gratuitamente –, em 2011. Cada injeção custa ao governo cerca de 1 dólar. A Fase II dos testes, de 2008, mostrou que pacientes com câncer de pulmão que receberam a vacina viveram, em média, de quatro a seis meses mais do que aqueles que não a tomaram. Isso levou o Japão e alguns países europeus a também iniciar testes clínicos com a Cimavax.

Para ser justo, em sua forma atual a Cimavax provavelmente não é uma droga que irá virar o jogo. A vacina não ataca os tumores diretamente, mas vai atrás de proteínas que o tumor produz e, depois, circulam no sangue. Essa ação estimula o corpo a liberar anticorpos contra um hormônio denominado fator de crescimento epidérmico, cuja atividade típica é estimular o crescimento celular mas que pode também, se descontrolado, causar câncer. (Embora normalmente a maioria das pessoas pense em vacina como algo que previne doenças, tecnicamente vacina é uma substância que estimula, de algum modo, o sistema imunológico.) Assim, a função da Cimavax é evitar que os tumores do pulmão cresçam e causem metástase, transformando o último estágio do seu crescimento em algo crônico porém manejável.

Nos EUA e na Europa, as pessoas com câncer de pulmão já têm opções de tratamento com esse mesmo objetivo. Os pesquisadores de Roswell Park, contudo, dizem que planejam explorar o potencial da vacina como uma droga que intervém preventivamente – transformando-a num tipo de vacina mais tradicional. Além disso, o fator de crescimento epidérmico desempenha importante papel em vários outros tipos de câncer, tais como os de próstata, mama, cólon e pâncreas. “Todos eles são alvos potenciais para esta vacina”, diz Kelvin Lee, imunologista do Insituto. Principalmente por razões financeiras, os cubanos nunca testaram a Cimavax nesse sentido.

E essa não é a única droga com potencial na farmacopeia cubana. Thomas Rothstein, biólogo do Instituto Feinstein de Pesquisa Médica, vem há seis anos trabalhando com o Centro para Imunologia Molecular em outra vacina contra o câncer de pulmão denominada Racotumomab, cujo mecanismo é inteiramente diferente. (Ela desorganiza um lipídio específico encontrado nas membranas das células tumorosas.) “Pesquisadores de todo o mundo estão tentando quebrar a noz do câncer”, diz Rothstein. “Os cubanos estão pensando de modos novos e inteligentes.”

Embora o presidente Obama tenha usado seu poder para acabar com algumas restrições a equipamentos médicos e de pesquisa, o Congresso precisa derrubar o embargo a Cuba para que a pesquisa colaborativa possa deslanchar. Johnson espera ver Cuba aderindo mais ao empreendedorismo em ciência, e ver os EUA absorverem abordagens mais criativas em pesquisa médica. Limitados pela política, os pesquisadores cubanos necessitaram inovar de maneiras que os EUA e a Europa não fizeram. Agora talvez possam ensinar seus colegas o que aprenderam.

(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/uma-droga-cubana-contra-cancer-de-pulmao/)

Mia Couto: para enfrentar as novas Guerras Frias

Reflexão poético-política do escritor moçambicano serve de alerta à redução da maioridade penal ao lembrar: vivemos sob uma “Geografia do Medo” que, enquanto não decifrada, exigirá “produzir inimigos e sustentar fantasmas”
 
Por Inês Castilho

“O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.”

As palavras de Mia Couto, nome assumido pelo premiado escritor moçambicano Antônio Emílio Leite Couto em razão de seu amor pelos gatos, soaram alto no silêncio da Conferência Estoril de 2011 – a mesma para a qual Eduardo Cunha foi convidado agora em 2015.

Jornalista militante na guerra de libertação de seu país africano do colonialismo português, biólogo e professor de ecologia na universidade pública de Maputo, seu discurso “Murar o medo” foi lembrado pelo deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) ao se pronunciar, em reunião da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), contra a redução da maioridade penal proposta pelo presidente da Câmara.



“A Guerra Fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo a Oriente e Ocidente”, diz ele, num vislumbre do futuro. “Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas”, diz Mia Couto na fala. E prossegue:

“Vivemos como cidadãos e como espécie em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.”

Restrições que servem pra que não se façam perguntas como estas: “Por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou apenas no ano passado um trilhão e meio de dólares somente em armamento militar?”

Apontando como causa maior da insegurança do nosso tempo a fome, que atinge uma em cada seis pessoas no mundo e poderia ser superada com “uma fração muito pequena do que se gasta em armamento”, Mia Couto lembra outra violência silenciada.


“Em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante seu tempo de vida” – condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres.

“Sem darmos conta fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar, deixamos de fazer perguntas e discutir razões.”

Cita Eduardo Galeano: “Os que trabalham têm medo de perder o trabalho, os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quando não têm medo da fome têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras.”

“Há quem tenha medo que o medo acabe”, conclui.

(fonte: http://outraspalavras.net/blog/2015/06/30/mia-couto-para-enfrentar-as-novas-guerras-frias/)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A verdade ainda que tardia: a descoberta dos arquivos do terror na Guatemala

por Leonardo Wexell Severo

Uma denúncia sobre “explosivos mal armazenados” fez com que no dia 5 de julho de 2005 funcionários da Procuradoria de Direitos Humanos (PDH) entrassem em um velho paiol abandonado, infestado de ratos, no centro da capital guatemalteca. Então, o que era para ser uma investigação de rotina se transformou na maior descoberta sobre a política de terrorismo de Estado praticada pela oligarquia, com apoio da CIA, contra “subversivos”, “esquerdistas” e “comunistas” no continente. A verdadedocumentada em 80 milhões de páginas continha os pormenores de décadas de perseguições, torturas, desaparecimentos e assassinatos de oposicionistas.

A memória do crime estava ali, abandonada para ser decomposta pela umidade e pelo tempo. A recordação depositada em pilhas de mais de três metros de altura, nos cinco edifícios antes pertencentes à Polícia Nacional. A rica trajetória da resistência popular deixada ao léu para ser roída. A lembrança escondida pela principal “seção” das “forças de segurança” durante os 30 anos da guerra suja que deixou mais de 250 mil mortos. “Forças” desmanteladas por exigência do acordo de paz de 1996 firmado pelo governo com a guerrilha. Retrato de um país convertido “numa imensa sepultura sem nome”, nas palavras da analista Kate Doyle, diretora do Projeto de Documentação da Guatemala.

“Quando visitei o lugar no começo de agosto, vi armários inteiros classificados segundo o tema: ‘Assassinatos’, ‘Desaparecidos’ e ‘Homicídios’, assim como expedientes assinalando nomes de pessoas internacionalmente conhecidas, de vítimas de assassinato político”, descreve a arquivista-chefe e conselheira do Arquivo de Segurança Nacional dos EUA, Trudy Huskamp Peterson. Conforme relatou Peterson, nos “Arquivos da Polícia”, “havia fotografias de corpos e presos, listas de informantes da polícia com nome e foto, montes de habilitações de motorista, fitas de vídeos e disquetes de computadores”. E mais, listas com nomes de filhos de guerrilheiros mortos e das famílias que os adotaram como seus ou simplesmente para servi-los.

HERÓIS ANÔNIMOS

Desafiadora, a verdade sobreviveu, em meio à manipulação midiática, ao pó, aos insetos e às fezes de morcegos. Dezenas de milhares daqueles homens e mulheres que posteriormente iriam ser reduzidos à sigla NN (nome nenhum) estão ali muito bem identificados, com sobrenome, endereço, telefone, hábitos, preferências. Também há gente de renome, como o advogado trabalhista Mario López Larrave, assessor do Comitê Nacional de Unidade Sindical (CNUS), metralhado quando saía do seu escritório em 8 de junho de 1977; o ex-prefeito da capital guatemalteca e líder oposicionista Manuel Colom Argueta, assassinado em 22 de março de 1979, uma semana após registrar seu novo partido; e a jovem antropóloga Myrna Mack, que auxiliava os maias sobreviventes de massacres, apunhalada 27 vezes por um esquadrão da morte das Forças Armadas da Guatemala, no centro da capital, no dia 11 de setembro de 1990.

Nas cidades, lembra Kate Doyle, a repressão havia buscado desmembrar a oposição sem deixar rastros oficiais. “Esquadrões da morte atuavam sem uniformes, em veículos sem identificação. Os jornais faziam o seu jogo noticiando cada novo cadáver como ‘homens sem identificação com roupas de civil’. Assassinos anônimos retiravam a identidade de suas vítimas, deformando completamente rostos e cortando as mãos, ou os sequestravam e jogavam seus corpos no esquecimento de barrancos, lagos e fossas comuns”.

COMISSÃO DA VERDADE

Se chegaram tarde para contribuir com a “Comissão da Verdade” - patrocinada pela ONU, em 1997 – os “Arquivos da Polícia” auxiliam no restabelecimento da verdade histórica, fundamental para a vitória da Justiça e a derrota da impunidade. A Comissão foi inviabilizada pelos militares, serviços de Inteligência e Segurança, que alegavam que tais documentos tinham sido destruídos ou simplesmente nunca haviam existido. E foi deliberadamente sabotada pelo governo dos Estados Unidos – que liberou apenas 1.400 das cerca de 100 mil páginas de documentos sobre a atuação da CIA no país centro-americano. Sem ter acesso ao conjunto das informações, a avaliação apresentada pela Comissão no final de 1999 ficou extremamente limitada.

Concluído em 2011, o informe “Do silêncio à memória: revelações do Arquivo Histórico da Polícia Nacional” contou com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e pôde avançar, explicitando alguns pormenores da participação estadunidense. Entre eles, a atuação do governo dos EUA para assegurar a coordenação entre as diversas - e dispersas – forças da repressão guatemaltecas: as polícias Nacional, Judicial, Militar e o Exército. “Tal coordenação surgiu com a assessoria da Oficina para a Segurança Pública (OPS) da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento), estabelecida pelo governo norte-americano como mecanismo para supervisionar o treinamento das forças policiais a nível internacional”, assinala o documento. Como revelou a jornalista e escritora argentina Stella Caloni, “a USAID foi utilizada durante o governo Reagan para dar uma fachada de legalidade às ações encobertas da CIA, que transformou a Guatemala em laboratório do terrorismo direitista”.

O informe mensal de Segurança Pública de março de 1966, desclassificado (um documento secreto, tornado público) pelo Departamento de Estado dos EUA, mostra que a parceria policial-militar foi iniciada muito antes e descreve os “vários tipos de formação policial dada pela OPS para o controle de multidões, uso de gás lacrimogêneo e emprego de armas antimotins”.

Outro documento desclassificado na mesma data, confirma o envolvimento da CIA na “Operação Limpeza” contra expoentes da oposição ao regime. Entre outros, revela o texto, “os seguintes comunistas e terroristas guatemaltecos foram executados secretamente pelas autoridades guatemaltecas na noite de 6 de março de 1966: Víctor Manuel Gutiérrez Garbin, líder do grupo PGT que vivia no exílio no México; Francisco ‘Paco’ Amado Granados, líder do Movimento Revolucionário 13 de Novembro (MR-13) e Carlos Barillas Sosa, meio-irmão de Yon Sosa, dirigente do MR-13”.

MEMÓRIA, ESPAÇO DE LUTA POLÍTICA

Frisando que “a memória é um espaço de luta política”, o advogado e intelectual paraguaio Martín Almada recorda que as ditaduras da região agiram como “gestoras da instalação das multinacionais, que criaram as condições para a entrada do modelo neoliberal”. Por isso, avalia, “foram capatazes dos Estados Unidos, mordomos dos terroristas”. Com o mesmo intuito das atrocidades na América Central, esclarece Almada, “tivemos no Cone Sul a Operação Condor, por meio da qual as ditaduras estabeleceram um sistema de controle, espionagem e prisões ilegais que levou à tortura e ao assassinato de centenas de milhares de civis”. Foi ele quem descobriu os “Arquivos do Terror” paraguaios, no dia 22 de dezembro de 1992, em um departamento da Polícia nas imediações de Assunção. Mais de 700 mil documentos comprovando o “pacto criminoso”. “Encontramos documentação da CIA desde seu primeiro dia em 1956 até 1992”, relatou. Prêmio Nobel Alternativo da Paz, Almada acredita que o momento é de ação para “superar um modelo que gera riqueza e distribui pobreza, e é isso o que eles temem”. “Nossos sonhos de liberdade seguem sendo seu maior pesadelo”, enfatiza.

No caso da Operação Condor, recorda o advogado, os EUA colocaram seus especialistas em “serviços técnicos” da CIA para subministrar “equipamentos de tortura elétrica, com assessoramento até mesmo sobre o grau de choques que o corpo humano poderia resistir”. Afinal, conforme advertiam os professores dos torturadores, “o ser vivo pode dar informação e um cadáver não”.

Representante do Ministério Público da Guatemala na acusação movida contra Ríos Montt, o promotor Orlando López teve a responsabilidade de apresentar as provas que condenaram o fiel aliado de Washington.

Superando os traumas e enfrentando as ameaças de morte, mulheres indígenas sobreviventes foram até o júri dar o seu testemunho dos massacres ocorridos contra a população maia. Inúmeros fuzilamentos ocorridos nas suas aldeias, documentados pelo próprio Exército, que os mantinha como troféus de guerra, já comprovavam. “Abriram fogo contra os adultos e jogaram bebês no rio para que se afogassem, acusando a todos de guerrilheiros”, relatou uma. “Fui estuprada por cerca de 20 soldados, até que perdi a consciência”, declarou outra. E outra mais acrescentou que num destacamento militar em Visan, Nebaj, presenciou “os soldados tirarem a cabeça de uma anciã e brincarem com ela”. “Isso jamais poderei tirar da minha mente”, sublinhou.

Sobre a responsabilidade de Ríos Montt nos crimes, lembra o promotor,  “além de ser presidente da República e comandante geral do Exército, ele conservou o cargo de ministro da Defesa”.

Para López, embora o cumprimento da sentença esteja sendo postergado devido às articulações mantidas pela extrema direita na Corte de Constitucionalidade, o impacto na sociedade guatemalteca foi “muito positivo”. “Tanto a impunidade como a corrupção são dois flagelos que estão enraizados e que caminham de mãos dadas”. Mas agora, a partir deste julgamento, acredita o promotor, “se envia uma mensagem de não à impunidade, de que se podemos julgar fatos que ocorreram há trinta anos, também se deveriam julgar ou esclarecer acontecimentos ocorridos recentemente”.

Diante do risco de que a Justiça, enfim, prevaleça, a mídia guatemalteca ligou sua metralhadora giratória, fazendo abundar factóides contra o promotor e a Promotoria, na tentativa de que a sua massificação possa desqualificar o julgamento e fazer o processo retroceder.

Diferente dos “equipamentos” utilizados para dobrar com sangue e dor a resistência dos povos, assinala Stella Caloni, o bombardeio midiático tem se revelado mais  sofisticado e sistemático, pois se multiplica via jornais e revistas, emissoras de rádio e televisão e portais de internet que elevam à enésima potência a propaganda do inimigo como verdade absoluta.

Mas, felizmente, Goebbels e os nazistas estavam completamente errados e uma mentira, apesar de contada mil vezes, jamais se tornará verdade.

O fato, frisa a jornalista argentina, “é que os grandes conglomerados de comunicação são hoje instrumentos do governo de Washington para apagar a memória, desvirtuar a cultura e estimular a submissão à lógica neoliberal, de privatização e desmonte do Estado”. Daí a importância de ampliarmos a denúncia da ação dos monopólios midiáticos e de fortalecermos a mobilização pela regulação e democratização dos meios de comunicação. Porque, mais do que nunca, enfatiza Caloni, “a desinformação é uma arma de guerra do Pentágono”.
(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/A-verdade-ainda-que-tardia-a-descoberta-dos-arquivos-do-terror-na-Guatemala/6/33888)

Os juros altos e a encíclica do papa


Até que enfim vejo alguém com autoridade para confirmar o que eu pensava: aumentar juros, não! aumentar compulsório dos bancos, sim! É assim que sairemos da crise, mas haverá Banco Central sem medo de cutucar os bancos?

Texto escrito por José de Souza Castro:
Não posso dizer que entendo de economia, embora tenha sido editor dessa área no jornal “Estado de Minas” e tenha feito muitas reportagens no “Jornal do Brasil” e no “Globo” sobre assuntos econômicos. No curso de jornalismo da UFMG, tive quatro semestres de economia, com ênfase no estudo dos “Fundamentos de Análise Econômica”, de Paul A. Samuelsen, publicado em 1947. Por isso, sempre que escrevo contra os juros altos praticados no Brasil, desde quando Delfim Neto era ministro da Economia, fico com uma pulga atrás da orelha: será que estou errado? E já escrevi muito sobre isso.
Foi com alívio, portanto, que li o artigo de Paulo Kliass, doutor em economia pela Université de Paris 10 (Nanterre/França) e integrante da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, do governo federal. Ver AQUI. Ele pensa como eu, salvo engano.
“As pressões inflacionárias não serão resolvidas apenas pelo aumento da Selic, cuja alta compromete a própria tentativa de conter gastos públicos. Uma alternativa curiosamente pouco lembrada nos meios do sistema financeiro e na imprensa, mas que poderia ser mais eficaz, é o aumento da alíquota do depósito compulsório”, diz Kliass.
Não vou tentar resumir o artigo, escrito em linguagem clara, entendida por quem não é economista. “Apesar de todas as dificuldades para cumprir com os objetivos de redução de despesas do Orçamento da União, permanece a intenção oficial de atingir os 1,1% do PIB como valores assegurados para o pagamento dos juros da dívida pública”, diz ele.
O raciocínio atrás dessa decisão é retirar recursos do mercado para reequilibrar os preços de uma forma geral e evitar a inflação. Além disso, a elevação dos juros orientaria recursos que não iriam para o consumo, sendo direcionados à poupança, em busca da maior rentabilidade oferecida pelos títulos no mercado financeiro. Mas não é o que acontece no mundo real. E, defende Kliass, alguns aumentos de preços não devem ser combatidos por juros altos.
A alternativa à elevação da taxa de juros para obter o mesmo resultado de redução da pressão da demanda sobre a oferta é o aumento da alíquota do depósito compulsório sobre os depósitos à vista, atualmente de 44%. No primeiro semestre de 2003, primeiro ano do governo Lula, estava em 60%. Em 1999, no governo Fernando Henrique Cardoso, oscilou entre 65% e 75%. Ninguém no governo ou na imprensa pensa nisso, mas se o governo Dilma Rousseff pretende endurecer a política monetária, ele pode aumentar o compulsório, ao invés de elevar a Selic. O efeito sobre a redução da demanda agregada será no mesmo sentido. O impacto sobre o nível de preços será da mesma magnitude. Quem diz é Kliass.
Resta ao governo explicar por que optou pela elevação das taxas de juros, sendo que os atuais 13,75% comprometem a tentativa de conter gastos públicos, pois cada ponto percentual de aumento da taxa de juros corresponde a uma elevação de despesas com serviços da dívida de R$ 25 bilhões anuais. Ou seja, apenas com os aumentos praticados ao longo de 2015, os gastos federais já teriam subido por volta de R$ 38 bilhões.
Não é pouca coisa. E explica por que os bancos no Brasil que emprestam preferencialmente ao governo lucram tanto.
Pensando bem, explica também por que há tanta desigualdade no mundo, apesar de todas as promessas de governos. Para examinar isso, recorro a Leonardo Boff e à análise dele a encíclica do papa Francisco. É certo, diz Boff – e o papa – que o sistema mundial é insustentável sob vários pontos de vista porque deixamos de pensar os fins do agir humano e nos perdemos na construção de meios destinados à acumulação ilimitada à custa da injustiça ecológica (degração dos ecossistemas) e da injustiça social (empobrecimento das populações). A humanidade simplesmente “defraudou a esperança divina”, conclui.
Não vou me estender, porque li há pouco que Boff é um idiota. E o papa, certamente. Porque só um idiota – e talvez Jesus – poderia ter escrito isso, na tradução portuguesa da encíclica:
“Nalguns lugares, rurais e urbanos, a privatização dos espaços tornou difícil o acesso dos cidadãos a áreas de especial beleza; noutros, criaram-se áreas residenciais ‘ecológicas’ postas à disposição só de poucos, procurando-se evitar que outros entrem a perturbar uma tranquilidade artificial. Muitas vezes encontra-se uma cidade bela e cheia de espaços verdes e bem cuidados nalgumas áreas ‘seguras’, mas não em áreas menos visíveis, onde vivem os descartados da sociedade.”
Ou isso:
“A desigualdade não afecta apenas os indivíduos mas países inteiros, e obriga a pensar numa ética das relações internacionais. Com efeito, há uma verdadeira ‘dívida ecológica’, particularmente entre o Norte e o Sul, ligada a desequilíbrios comerciais com consequências no âmbito ecológico e com o uso desproporcionado dos recursos naturais efectuado historicamente por alguns países. As exportações de algumas matérias-primas para satisfazer os mercados no Norte industrializado produziram danos locais, como, por exemplo, a contaminação com mercúrio na extracção minerária do ouro ou com o dióxido de enxofre na do cobre. De modo especial é preciso calcular o espaço ambiental de todo o planeta usado para depositar resíduos gasosos que se foram acumulando ao longo de dois séculos e criaram uma situação que agora afecta todos os países do mundo. O aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da terra, especialmente na África, onde o aumento da temperatura, juntamente com a seca, tem efeitos desastrosos no rendimento das cultivações. A isto acrescentam-se os danos causados pela exportação de resíduos sólidos e líquidos tóxicos para os países em vias de desenvolvimento e pela actividade poluente de empresas que fazem nos países menos desenvolvidos aquilo que não podem fazer nos países que lhes dão o capital: ‘Constatamos frequentemente que as empresas que assim procedem são multinacionais, que fazem aqui o que não lhes é permitido em países desenvolvidos ou do chamado primeiro mundo. Geralmente, quando cessam as suas actividades e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o desemprego, aldeias sem vida, esgotamento dalgumas reservas naturais, desflorestamento, empobrecimento da agricultura e pecuária local, crateras, colinas devastadas, rios poluídos e qualquer obra social que já não se pode sustentar.”
O bom de ler a encíclica, para quem não acha que o papa é um tolo, é que nosso problema com os juros altos se torna quase irrelevante. E podemos assim, tolos que somos e descartado esse problema menor, dormir o sono dos justos.
(fonte: blog da KikaCastro)