quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Ainda mais difícil explicar nossas altíssimas taxas de juros

Texto escrito por José de Souza Castro:

A política do Banco Central do Brasil de tentar controlar a inflação com altas taxas de juros fica mais indefensável depois do artigo de André Lara Resende, o principal teórico do Plano Real, publicado no dia 13 deste mês pelo jornal “Valor Econômico”. Segundo ele, “o juro alto não só agrava o desequilíbrio fiscal, como no longo prazo mantém a inflação alta”.
Sem o embasamento teórico desse economista que hoje é “senior research fellow na Columbia University”, critiquei em alguns artigos neste blog, como NESTE, a política equivocada do BC. Antes de tentar interpretar o artigo acadêmico de André Lara Resende, recorro ao experiente Luís Nassif, que faz a seguinte análise:
“Vinte anos de juros elevadíssimos promoveram o mais profundo processo de concentração econômica da história, que praticamente consumiu todos os excedentes orçamentários que poderiam ter sido investidos na infraestrutura, em educação, saúde, na economia real. A diferença entre o Brasil que é e a potência que poderia ter sido está nos trilhões desviados do orçamento para pagamento de juros.
E, agora, o principal formulador das políticas monetária e cambial do plano Real, André, escreve um artigo em tom acadêmico aceitando que todas as críticas contra essa loucura estavam corretas. Em “Juros e conservadorismo intelectual”, dá a mão à palmatória, trata como mero conservadorismo acadêmico erros intencionais que praticamente destruíram o futuro do país. E traz as últimas novidades da teoria econômica:
  • Taxas de juros elevada não combate inflação, pelo contrário: além de não afetar a demanda, sinaliza para o mercado que o Banco Central está apostando em inflação mais elevada.
  • Taxas de juros elevadas pressionam as contas públicas, aumentam o déficit nominal, obrigando o governo a cortar mais ainda as despesas primárias e, desse modo, impactando o nível de atividade; do outro lado atraem dólares apreciando o câmbio e reduzindo preços de importados, à custa de desequilíbrios de monta nas contas externas. Assim, o controle da inflação se faria de forma torta, com enormes sequelas na economia.
  • Taxa de juros mais baixa não é inflacionária. Essa conclusão tardia do André – fundada nas últimas “descobertas” da fronteira do conhecimento econômico – derrubam essa baboseira de que Dilma Rousseff derrubou a taxa de juros sem ter condições e isso provocou mais inflação.”
Concluo transcrevendo o início do artigo de André Lara Resende, na esperança de que o leitor se interesse em ler todo ele:
“Desde a estabilização da inflação crônica, com o Real – e já se vão mais de 20 anos -, a taxa básica de juros no Brasil causa perplexidade entre os analistas. Por que tão alta? Inúmeras explicações foram ensaiadas, como distorções, psicológicas e institucionais associadas ao longo período de inflação crônica com indexação; baixa poupança e alta propensão ao consumo, tanto pública como privada; ineficácia da política monetária, entre outras. Embora todas façam sentido e possam, no seu conjunto, ajudar a entender por que os juros são tão altos, nenhuma delas foi capaz de dar uma resposta convincente e definitiva para a questão.
As altíssimas taxas brasileiras ficaram ainda mais difíceis de serem explicadas diante da profunda recessão dos últimos dois anos. Como é possível que depois de dois anos seguidos de queda do PIB, de aumento do desemprego, que já passa de 12% da força de trabalho, a taxa de juro no Brasil continue tão alta, enquanto no mundo desenvolvido os juros estão excepcionalmente baixos? Há quase uma década, nos Estados Unidos e na Europa, e há três décadas no Japão, os juros estão muito próximos de zero, ou até mesmo negativos, mas no Brasil a taxa nominal é de dois dígitos e a taxa real continua acima de 7% ao ano.”
Difícil mesmo explicar as altíssimas taxas de juros no Brasil.
(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/01/17/altissimas-taxas-juros/#more-13484)

domingo, 15 de janeiro de 2017

De desastres naturais a terrorismo: os 5 grandes riscos globais em 2017, segundo o Fórum Econômico Mundial


Com a chegada de 2017, o Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) divulgou a edição anual do estudo que procura antecipar os principais riscos e desafios globais para os próximos 12 meses.
O documento, intitulado Global Risks Report (Relatório de Riscos Globais, em tradução livre), avalia tendências e serve de bússola para a formulação de políticas e estratégias de governos e empresas.
A informação foi publicada por BBC Brasil, 12-01-2017.
Ele foi divulgado uma semana antes do início da reunião anual do Fórum em Davos, na Suíça, que conta sempre com a presença de acadêmicos e líderes empresariais e políticos do mundo inteiro.
Confira quais são as cinco maiores ameaças para o mundo em 2017, segundo a "bola de cristal" do WEF:

1) Eventos climáticos extremos

O relatório lembra que 2016 foi o ano mais quente da história, com temperatura global 1,14ºC acima da observada antes da Revolução Industrial.
Sugere que as mudanças climáticas trazem consequências sociais graves, como imigração - segundo o estudo, 21,5 milhões de pessoas tiveram que emigrar desde 2008 por eventos relacionados ao clima.
A entidade defende o cumprimento do Acordo de Paris, fechado em 2015 e que pressupõe a participação de todas as nações - não apenas países ricos - no combate ao aquecimento global.
"Muitos riscos causados por não se fazer nada a respeito do clima irão transbordar para ameaças sociais e geopolíticas. Veremos crescente imigração por riscos ambientais", afirmou Margareta Drzeniek-Hanouz, chefe do setor de Competitividade Global e Riscos do WEF.

2) Imigração em larga escala

Motivadas por catástrofes naturais e também por conflitos violentos, as ondas migratórias deverão se exacerbar em 2017, aponta o Fórum de Davos.
O relatório identifica ainda o risco de essa tendência ser explorada por políticos populistas, em busca de votos e aprovação popular.
"A imigração se mostrou ser um assunto político extremamente bem-sucedido entre os populistas anti-establishment, gerando uma ameaça eleitoral em vários países", afirma o texto, que enumera desafios decorrentes do avanço de "tensões culturais".
"A imigração cria tensões culturais: há necessidade de dar espaço para a tolerância religiosa sem abrir a porta para o extremismo. Há a necessidade de encorajar a diversidade que traz inovação sem alimentar ressentimento", aponta.
A organização reconhece que, assim como ocorre com a globalização, há setores da sociedade que não experimentam os benefícios gerais à economia proporcionados pela imigração.
"Os desafios humanitários continuarão a criar ondas de pessoas - e nos países onde há baixos índices de fertilidade e número de aposentados crescendo a imigração será necessária para trazer novos trabalhadores."

3) Grandes desastres naturais

Desastres naturais de grande escala são uma ameaça real à infraestrutura produtiva global, aponta o Fórum de Davos.
O relatório cita um estudo da Universidade de Oxford (Inglaterra) que simulou o impacto destrutivo de uma enchente na região costeira da China, que concentra produção para exportação.
Mais de 130 milhões de pessoas seriam afetadas em um eventual desastre, comprometendo a cadeia internacional de comércio.
"Interdependência entre diferentes redes de infraestrutura está aumentando o escopo de falhas sistêmicas (...) que podem se acumular e afetar a sociedade de formas imprevisíveis", prevê o relatório.

4) Terrorismo e vigilância

Ataques terroristas têm motivado um reforço na vigilância estatal sobre cidadãos, mas tais ferramentas muitas vezes são usadas com fins políticos, alerta o relatório, que diz ver a tendência com "preocupação".
"Em alguns casos, problemas de segurança e protecionismo (...) têm sido usados como razão para reduzir dissidências. Em outros casos, restrições às liberdades são efeitos colaterais de um pacote de segurança bem intencionado, (mas) essas tendências preocupantes estão aparecendo até mesmo em democracias."
O Fórum de Davos projeta uma "situação potencialmente explosiva" em países que coíbem a liberdade de expressão em nome do combate ao terrorismo.
"Ferramentas tecnológicas estão sendo utilizadas para aumentar a vigilância e o controle sobre cidadãos e erradicar críticas (aos governos). Restringir novas oportunidade a formas democráticas de expressão e mobilização e, por consequência, toda uma gama de direitos, gera uma situação potencialmente explosiva."

5) Fraudes eletrônicas e roubo de dados

Outra ameaça citada pelo Fórum de Davos são as fraudes cibernéticas, que podem avançar diante de legislações frágeis e falta de ações conjuntas entre governos e setor privado.
Em entrevista à BBC Brasil, o presidente da empresa de análise de risco Marsh, John Drzik, que atuou na elaboração do relatório, diz que criminosos estão cada vez mais próximos das vítimas, pois aparelhos eletroeletrônicos domésticos estão sendo conectados à internet.
"A introdução de novas tecnologias deixará isso potencialmente ainda mais perigoso. Será possível invadir aparelhos domésticos como termômetros eletrônicos" exemplificou.
Drzik citou ainda a ameaça de ataques patrocinados por governos e orientados por interesses comerciais. "Precisaremos de coordenação entre países na esfera internacional e entre governo e iniciativa privada para desenvolver respostas de governança", afirmou.

Propostas de ação

O relatório também sugere ações para enfrentar as ameaças à economia global, concentradas em quatro frentes:

Reformas econômicas
Entre 1900 e 1980, a desigualdade social recuou nos países ricos, mas entre 2009 e 2012 a renda dos 1% mais ricos nos Estados Unidos, por exemplo, cresceu mais de 31%, lembra o relatório.
O documento defende a adoção de mecanismos de distribuição de benefícios econômicos, e cita o Bolsa Família, iniciativa federal de transferência de renda no Brasil, como medida eficiente na mitigação da desigualdade social.

Pontes culturais
Décadas de mudanças econômicas e sociais rápidas aumentaram o fosso entre as gerações e amplificaram conflitos de identidade pelo mundo, aponta o WEF.
O desafio diante de um cenário muitas vezes agravado pelo debate desinformado e pautado por emoções, aponta a entidade, é construir pontes que conectem diferenças culturais e preservem direitos individuais.

Gestão de mudanças tecnológicas
A automação da mão de obra respondeu por cerca de 86% dos empregos perdidos na indústria nos EUA entre 1997 e 2007, aponta o documento, que procura isentar a integração dos mercados globais pelo problema.
"Movimentos populistas tendem a focar a culpa pela perda de empregos na globalização (...) embora a evidência aponte a tecnologia como principal fator. As manufaturas nos Estados Unidos não regrediram. O país está produzindo mais do que nunca, apenas emprega menos trabalhadores", afirma o relatório.
Diante de transformações na natureza do trabalho, conclui o documento, novos empregos colaborativos precisam ser criados para minimizar a desocupação humana.

Cooperação global

O Fórum defende a importância de se resgatar a relevância de organismos de governança global, como as Nações Unidas e entidades de promoção do comércio internacional.
A tendência de valorização nacional e desvalorização internacional enfraquece os laços de confiança entre povos e nações, aponta o órgão.
A cooperação internacional também é fundamental, diz o WEF, para manter o aquecimento global dentro do limite de dois graus centígrados, cortando as emissões de carbono em 40-70% até 2050 e eliminando-as completamente em 2100.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/563935-de-desastres-naturais-a-terrorismo-os-5-grandes-riscos-globais-em-2017-segundo-o-forum-economico-mundial)

Imperatriz acerta em cheio umbigo do agronegócio


Enredo é tudo que o agronegócio não quer ouvir
Por Alan Tygel*, no Brasil de Fato

Há alguns meses, publicamos neste espaço um artigo sobre a tentativa desesperada do agronegócio em salvar sua imagem perante a sociedade com a novela O Velho Chico.
Na ocasião, afirmamos que o investimento na novela tentava construir a imagem de um agro-pop-tudo em oposição ao velho coronelismo.
A motivação para esse esforço veio de uma percepção do próprio agronegócio de que a sociedade o associa ao desmatamento, aos agrotóxicos e ao trabalho escravo.
Em 2012, o mesmo agronegócio, representado pela Basf, comprou o samba da Vila Isabel.
O (lindo, por sinal!) enredo, que tinha Martinho da Vila como um dos autores, não era sobre os agrotóxicos e transgênicos produzidos pela empresa, mas sim sobre a vida camponesa cumprindo sua missão de alimentar o povo.
Por trás, havia a tentativa subliminar de associar esta linda imagem ao agronegócio.
Neste ano, é da mesma Sapucaí que vem um belo golpe na imagem do agronegócio.
Depois de um ano marcado, entre outros, por ruralistas formando milícias para atacar indígenas, a Imperatriz Leopoldinense acerta com beleza e elegância o ego daqueles que se acham donos do país.
O enredo, chamado “Xingu, o clamor que vem da Floresta”, fala basicamente sobre luta pela terra. E tudo que o agronegócio não quer ouvir.
Um dos trechos diz que “O belo monstro rouba as terras dos seus filhos / Devora as matas e seca os rios / Tanta riqueza que a cobiça destruiu”, e emoldura alas como os “Olhos da cobiça”, “Chegada dos invasores” e “Fazendeiros e seus agrotóxicos”.
Acostumados a olhar apenas para o próprio umbigo, sem enxergar um palmo além da sua soja transgênica, ruralistas irados lançam notas e escrevem matérias a torto e a direito.
Por mais que se procure, sempre batem nos mesmo dois argumentos falaciosos: (1) o agronegócio alimenta o Brasil; (2) o agronegócio sustenta o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
O primeiro argumento é o mais débil de todos; sabemos que a grande massa de produção agrícola se concentra nas commodities de exportação (soja, milho para ração, cana-de-açúcar), e o Censo Agropecuário de 2006 mostrou que 70% dos alimentos que chegam à nossa mesa vêm da agricultura familiar, mesmo tendo ela direito à apenas 24% das terras. Portanto, esse argumento é claramente falacioso.
Em relação ao PIB, a análise é um pouco mais profunda, mas o argumento não é menos falacioso. Em primeiro lugar, precisamos entender que o PIB representa o conjunto de riquezas produzidas pelo país.
Não fala sobre distribuição de renda, nem geração de empregos.
Não se importa no bolso de quem essa riqueza vai parar. Pois bem: em 2015, a produção de soja rendeu ao Brasil R$90 bilhões. Ótimo? Nem tanto.
Como vimos recentemente, a enorme dependência de insumos externos do agronegócio faz com que grande parte deste valor fique nas mãos das empresas transnacionais.
Custos com sementes, agrotóxicos, fertilizantes e máquinas podem chegar a 90% do preço final, num mercado completamente oligopolizado por gigantes transnacionais como Bayer, Monsanto, Cargill, Basf, Syngenta, Bunge, Dreyfus, ADM…
Nem no Brasil o dinheiro fica.
Não custa lembrar que o subsídio do governo no Plano Safra chegou à casa dos R$ 200 bilhões no ano passado, só para o agronegócio.
É transferência direta do governo para as transnacionais, e ainda dizem que isso sustenta o PIB.
Como nota de rodapé, poderíamos incluir ainda que o agronegócio não gera empregos: são apenas 1,7 pessoas por 100 hectare (ha), enquanto a agricultura familiar emprega 9 vezes mais: 15,3 pessoas por 100 ha.
Entre 2004 e 2013, o agronegócio reduziu 4 milhões de empregos, ou 22% do total. No mesmo período, o desemprego no Brasil caiu de 11,7% para 4,3%.
Que chorem os plantadores de soja, criadores de zebu e especuladores da fome: o Carnaval de 2017 já tem vencedor, e somos nós: povos indígenas, quilombolas, camponeses, sem terra, do campo, das florestas e das águas, todas e todos que lutam por seus territórios sadios contra o agronegócio.
Todo nosso respeito à Imperatriz Leopoldinense.
*Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

(fonte: 
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/agronegocio-com-novela-e-basf-comprou-o-samba-da-vila-isabel-mas-este-ano-tem-resposta-na-sapuca.html)

sábado, 14 de janeiro de 2017

Mais algumas razões do Golpe Paraguaio no Brasil

Texto escrito por José de Souza Castro:

Em fevereiro de 2015, alertei aqui que a presidente Dilma Rousseff podia sentir na pele o golpe Paraguaio. Ou seja, que ela poderia ser derrubada pelo parlamento, com as bênçãos dos Estados Unidos.
Agora leio AQUI um artigo do geógrafo norte-americano Brian Mier, editor da “Brasil Wire“, em que aponta fortes indícios dessa ajuda de Tio Sam, e conclui:
“Apesar de que talvez não haja provas concretas suficientes e disponíveis para fazer um argumento totalmente convincente sobre o envolvimento dos Estados Unidos no golpe de 2016 contra Dilma Rousseff, certamente existem provas suficientes para se especular sobre esta possibilidade. Será que os Estados Unidos se beneficiam com as novas políticas deste governo? Com certeza. Ele tem motivos para apoiar o golpe? Sim. Elementos do estado expandido norte-americano, como a imprensa burguesa, solaparam os pilares do governo Brasileiro? Sim. Será que o governo dos Estados Unidos foi diretamente envolvido nesta desestabilização? Neste momento as únicas provas concretas são as correspondências do Departamento de Estado dos EUA implicando Sergio Moro, embora o nível deste envolvimento ainda não seja claro. Entretanto, sob o risco de ser acusado de um teórico de conspiração, eu previno que com a passagem de tempo, como no caso do Golpe de 1964 no Brasil e do golpe de 1973 em Chile, mais e mais provas de envolvimento dos Estados Unidos na mudança de regime de 2016 vão subir até a superfície.”
Um ponto significativo do artigo são os interesses em jogo que poderiam levar a Casa Branca a agir no e contra o Brasil. Transcrevo, também com as devidas correções de erros gramaticais observados na tradução:
1) Petróleo. O Brasil tem enormes depósitos de petróleo na bacia de Santos, o pré-sal, que antes do golpe de 2016 estava nas mãos de uma empresa que, embora seja de capital misto, continuava 100% brasileira, a Petrobras. Depois do golpe, a Petrobras começou a vender acesso aos seus depósitos de pré-sal para empresas estrangeiras por preços abaixo do valor de mercado. O envolvimento do José Serra, ministro de Relações Exteriores pós-golpe, em articulações de longo prazo com a empresa Chevron e o Departamento de Estado dos Estados Unidos, encorajou a privatização e o abandono da lei do pré-sal, tudo documentado aqui.
2) Enfraquecimento dos BRICS. Antes de o Brasil ser desestabilizado e as economias da China e Rússia diminuírem o crescimento, pareceu que os BRICS estavam se transformando em um poderoso contrabalanço ao poder estadunidense no palco mundial. Nesse momento, as economias das nações que compõem os BRICS, somadas, quase igualaram à norte-americana, e o Brasil era seu segundo membro mais rico. Os Estados Unidos tradicionalmente preferem negociações bilaterais às negociações com blocos comerciais. Um argumento similar pode ser feito sobre o desejo de enfraquecer o Mercosul.
3) Os Estados Unidos sempre intervieram em assuntos brasileiros. Em seu novo livro best-seller, O Quarto Poder, Paulo Henrique Amorim documenta os 70 anos de penetração norte-americana nos assuntos políticos e econômicos brasileiros. Em “US Penetration of Brazil”, Jan Black conta em detalhes o apoio e envolvimento estadunidense com a ditadura militar brasileira, incluindo treinamento em técnicas de interrogatório e tortura para milhares de policiais e militares brasileiros, em lugares como a Escola das Américas. Apesar do fato de que a China tenha ultrapassado os Estados Unidos como o maior parceiro comercial do Brasil em anos recentes, ainda serve aos interesses do setor empresarial norte-americano que os preços das commodities brasileiras se mantenham baixos e a produção industrial interna seja limitada para encorajar compras dos produtos norte-americanos.
4. Hegemonia. O governo petista foi caracterizado por uma economia política neodesenvolvimentista. Conquanto Lula mantivesse o tripé macroeconômico neoliberal de FHC e a autonomia para o Banco Central (movimento livre de capital e políticas fiscais rígidas), ele também havia implementado uma série de medidas tradicionalmente desenvolvimentistas que se aprofundaram durante os primeiros 4 anos da presidência de Dilma Rousseff. Estas incluem aumentos anuais do salário mínimo acima do nível de inflação, bilhões de reais de estímulos para produção e consumo industrial interno, estabelecimento de um sistema de bem-estar social e vinculação das pensões do INSS ao salário mínimo. Essas medidas redistributivas criaram uma majoritária população de classe média, pela primeira vez na história do Brasil, além de retirar o país do Mapa Mundial da Fome da ONU. Será que o fato de que o segundo maior país do hemisfério ocidental estava caminhando bem e em um sistema que não era 100% neoliberal foi uma pedra no sapato dos Estados Unidos? E se os norte-americanos começassem a exigir que, como no Brasil, as universidades fossem 100% gratuitas? E se eles demandassem que a comida das merendas escolares seja comprada exclusivamente dos pequenos agricultores, como é no programa brasileiro do PAA? O que aconteceria se eles exigissem que os pagamentos mínimos de pensão precisassem se igualar ao salário mínimo? O fato de que o Brasil estava andando bem e não seguindo ao pé da letra a fórmula do FMI/Banco Mundial era um tapa na cara do Consenso de Washington e seu dogma da TINA – There Is No Alternative (Não há alternativa) a isso.”
O primeiro motivo apontado é, a meu ver, o mais importante para o governo e a economia americana: o petróleo.
Sobre isso, recomendo a leitura desta reportagem de Joaquim de Carvalho, que revela mais coisas do presidente da Petrobras, Pedro Parente, sobre o qual escrevi AQUI e AQUI, no seu esforço para transferir bens da empresa – e dos brasileiros – a estrangeiros.
Bem ao gosto dos Estados Unidos. Os quais, em qualquer governo – e talvez mais no governo do empresário Donald Trump – sabem defender seus próprios interesses. Ao contrário do governo Temer, que dá mostras seguidas de não dar bola aos interesses da maioria dos brasileiros.

(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/01/13/razoes-golpe-paraguaio-brasil/)

O Isolamento dos EUA, por Noam Chomsky




A 23 de dezembro de 2016, o Conselho de Segurança da ONU passou a Resolução 2334 por unanimidade, com a abstenção doa EUA. A Resolução reafirmou "que a política e práticas de Israel em estabelecer colonatos na Palestina e outros territórios Árabes ocupados desde 1967 não tem legitimidade legal e constitui uma séria obstrução para alcançar uma paz justa e compreensiva no médio oriente. Chama novamente Israel, como país ocupante, a cumprir escrupulosamente a Quarta Convenção de Genebra (1949), a rescindir as medidas anteriores e a desistir de tomar qualquer ação que pudesse resultar numa alteração de estatuto legal ou natureza geográfica e afetar materialmente a composição demográfica dos territórios árabes ocupados desde 1967, incluindo Jerusalém, e, em particular, para não transferir parte da população civil para os territórios árabes ocupados."

Reafirmou. Uma palavra com alguma importância.

É importante reconhecer que a Resolução 2334 não tem nada de novo. A citação aqui referida é da Resolução 446, de 12 de março de 1979, reiterada na essência na 2334. A Resolução 446 passou com 12 votos contra zero e abstenção dos EUA, do Reino Unido e da Noruega. A diferença essencial hoje é que os EUA estão sozinhos contra o resto do mundo, e isso é um mundo de diferença. As violações das ordens do Conselho de Segurança da ONU por parte de Israel, e violações da lei internacional, são hoje bastante mais radicais do que em 1979 e estão a levantar maior repúdio em boa parte do mundo. Os conteúdos da Resolução 446-2334 devem por isso ser levados mais seriamente. Daí a reação intensa contra a 2334, tanto a cobertura como o comentário; e em Israel e nos EUA, histeria considerável. Estes são indicadores evidentes do isolamento dos EUA no palco mundial. Sob Obama. Com Trump, o isolamento dos EUA irá provavelmente aumentar ainda mais, e de facto, já o fez, ainda antes de assumir a presidência.

A iniciativa de Trump que mais contribuiu para aprofundar o isolamento dos EUA aconteceu a 8 de novembro, quando ele ganhou duas vitórias. A vitória menor fois nos EUA, onde ganhou o colégio eleitoral. A vitória maior foi no Marraquexe - Marrocos, onde cerca de 200 nações estavam reunidas para tentar introduzir algum conteúdo nos acordos de Paris de dezembro de 2015 sobre alterações climáticas, acordos que foram deixados como intenções e não compromissos firmes devido à recusa do Congresso dominado pelo Partido Republicano.

Enquanto os votos eleitorais eram contados a 8 de novembro, a conferência em Marraquexe afastou-se do seu programa substantivo para a questão de saber se era sequer relevante lidar com uma severa ameaça de catástrofe ambiental agora que o país mais poderoso na história se demitiu das suas responsabilidades. Isso, seguramente, foi a maior vitória de Trump a 8 de novembro, um momento realmente pivotal. O mundo coloca as suas esperanças na liderança da China agora que o Líder do Mundo Livre declarou que não só irá se irá retirar dos acordos como, com a eleição de Trump, irá acelerar dramaticamente a corrida para o desastre.

Um espetáculo alucinante, que aconteceu quase sem qualquer comentário.
O facto de que os EUA estão sozinhos em rejeitar o consenso internacional reafirmado pela Resolução 2334, perdendo o Reino Unido sob a liderança de Theresa May, é outro sinal de crescente isolamento dos EUA.

Exatamente porque razão Obama escolheu a abstenção em vez do veto é uma questão em aberto: não temos provas diretas. Mas temos algumas explicações plausíveis. Tinha havido algumas reações de surpresa (e ridículo) após o veto de Obama em fevereiro de 2011 à Resolução da ONU que definia a implementação de política oficial dos EUA, e ele pode ter sentido que seria demasiado repetir um momento semelhante se quer salvar alguma parte do seu legado entre setores da população com alguma preocupação por direito internacional e direitos humanos. É útil relembrar que entre os Democratas liberais, por oposição ao Congresso, e particularmente entre os jovens, opinião sobre Israel e Palestina tem evoluído nos últimos anos para a crítica às políticas de Israel, de tal forma que o núcleo de apoio a Israel nos EUA transferiu-se para a extrema-direita, incluindo a base eleitoral evangélica do Partido Republicano. Talvez estes tenham sido os fatores que alteraram a posição de Obama.

A abstenção de 2016 suscitou furour em Israel e no Congresso dos EUA também, incluindo Republicanos e Democratas, com propostas para retirar o financiamento à ONU em retaliação pelo "crime". O primeiro-ministro israelita Netanyahu denunciou Obama pelas suas ações "anti-Israel". O seu gabinete acusou Obama de "manobrar" nos bastidores esta "emboscada" no Conselho de Segurança, produzindo "provas" que dificilmente poderão ser consideradas sequer humorísticas. O oficial israelita de topo acrescentou que a abstenção "revelou a verdadeira face da administração Obama", e que "agora podemos compreender com o que estivemos a lidar nos últimos oito anos".

A realidade é um pouco diferente. De facto, Obama ultrapassou todos os recordes no apoio a Israel, tanto diplomaticamente como financeiramente. A realidade é descrita com precisão pelo especialista do Financial Times no médio oriente, David Gardner: "As relações pessoais entre Obama e Netanyahu podem ter sido venenosas, mas ele foi o mais pró-Israel de todos os Presidentes dos EUA: o mais pródigo com ajuda militar e consistentemente utilizando o veto dos EUA no Conselho de Segurança... A eleição de Donald Trump até agora trouxe pouco mais do que tuítes virulentos sobre alguns assuntos geopolíticos. Mas os augúrios são ominosos. Um governo irredentista em Israel e inclinado para a extrema-direita é agora apoiado por uma administração populista e islamofóbica em Washington."

Num comentário interessante e revelador, Netanyahu denunciou a "emboscada" do mundo como prova de "preconceito do velho mundo contra Israel", uma frase reminiscente dos comentários de Donald Rumsfeld sobre a distinção entre a "Velha Europa - Nova Europa", em 2003.

Devemos relembrar que os estados da Velha Europa era os maus, os principais estados europeus, que se derão à arrogância de respeitarem a esmagadora maioria da opinião das suas populações recusando juntar-se aos EUA no crime do século, a invasão do Iraque. Os estados da Nova Europa eram os bons, que ignoraram uma maioria de opinião ainda maior e obedeceram ao seu dono [os EUA]. O mais digno dos "bons" foi José Maria Aznar, primeiro-ministro de Espanha, que ignorou oposição popular unânime contra a guerra e foi recompensado com a honra de participar no anúncio da invasão em conjunto com Blair e Bush.

Esta demonstração transparente de total desprezo pela democracia passou virtualmente sem cobertura noticiosa, compreensivelmente. A tarefa na altura era glorificar Washington pela sua apaixonada dedicação pela democracia, como ilustrado pela "promoção da democracia" no Iraque, que subitamente se tornou na linha correta após a "única questão relevante" (vai ou não Saddam entregar as armas de destruição maciça?) ter sido respondida no sentido inverso ao desejado.

Netanyahu está a adotar muito da mesma posição. O velho mundo que tem um preconceito contra Israel corresponde a todo o Conselho de Segurança da ONU; mais especificamente, corresponde a qualquer pessoa no mundo com o menor respeito por lei internacional e direitos humanos. Para sorte da extrema-direita israelita, isso exclui o Congresso dos EUA e - publicamente - o Presidente-eleito e os seus associados.

O governo israelita está, obviamente, consciente destes desenvolvimentos. Por isso, está ativamente a procurar transferir a sua base de apoio para estados autoritários como Singapura, China ou a Índia da direita nacionalista Hindu, que se torna agora um aliado natural com a sua deriva para o ultranacionalismo, políticas internas reacionárias, e ódio ao Islão.

As razões pelas quais Israel procura apoio são explicitadas por Mark Heller, principal analista associado em Tel Aviv no Instituto de Estudos de Segurança Nacional. "No longo prazo," explica, "haverá problemas em Israel nas suas relações com a Europa ocidental e os EUA", enquanto que em contraste, os países asiáticos importantes "não apresentam grande interesse na forma como Israel se relaciona com os Palestinianos, Árabes, ou quem quer que seja." De forma breve, a China, Índia, Singapura e outros aliados favoritos são menos influenciados pelos tipos de liberalismo e preocupações humanas que representam uma ameaça crescente para Israel.

As tendências dos países em desenvolvimento merecem alguma atenção. Como notado, os EUA estão a tornar-se cada vez mais isolados nos últimos anos, quando sondagens dirigidas pelos EUA - não noticiadas nos EUA mas seguramente conhecidas em Washington - revelaram que a opinião mundial olhava para os EUA como a maior ameaça mundial à paz, ninguém sequer se aproximava. Sob Obama, os EUA estão agora sozinhos na abstenção sobre os colonatos israelitas, contra a unanimidade do Conselho de Segurança da ONU.

Com Trump e os seus apoiantes de ambos os partidos no Congresso, os EUA ficarão ainda mais isolados no mundo no apoio aos crimes israelitas. Desde 8 de novembro, os EUA isolaram-se no assunto ainda mais importante de aquecimento global. Se Trump cumpre a sua promessa de quebrar o acordo com o Irão, é provável que os outros participantes persistam, deixando os EUA ainda mais isolados em relação à Europa.

Os EUA estão igualmente mais isolados do seu "quintal" da América do Sul do que no passado, e estarão mais isolados se Trump recuar nos passos de normalização das relações com Cuba lançado por Obama, passos tomados para evitar a provável exclusão de todas as organizações do hemisfério por causa do seu assalto continuado a Cuba, em total isolamento internacional.

O mesmo se passa na Ásia, onde mesmo aliados próximos dos EUA (exceto o Japão), mesmo o reino Unido, se juntam ao Banco de Desenvolvimento Asiático de Infraestruturas, com sede na China, e à Parceria Económica Regional liderada pela China e, neste caso, incluindo o Japão. A Organização de Cooperação de Shanghai (OCS) (chinesa igualmente) incorpora os estados centro-asiáticos, a Sibéria com os seus recursos, a Índia, o Paquistão e, mais tarde ou mais cedo, o Irão e mesmo a Turquia. A OCS tem rejeitado os pedidos dos EUA para obter estatuto de observador e exigiu que os EUA removam todas as suas bases militares da região.

Imediatamente após a eleição de Trump, testemunhámos o espetáculo curioso da Chanceler Angela Merkel a tomar a liderança numa lição a Washington sobre valores liberais e direitos humanos. Entretanto, desde 8 de novembro, o mundo olha para a China para liderança em salvar o mundo da catástrofe mundial, enquanto os EUA, em esplêndido isolamento novamente, se prepara para minar estes esforços.

O isolamento do EUA não está completo, obviamente. Como foi deixado claro na reação de Trump à vitória eleitoral, os EUA apoiam entusiasticamente a extrema-direita na Europa, incluindo elementos neo-fascistas. O retorno da extrema-direita em partes da América do Sul oferece oportunidades de aliança também. E, claro, os EUA mantêm uma aliança sólida com as ditaduras do Golfo e com Israel, que também se separa dos setores mais liberais e democráticos na Europa e se aproxima de regimes autoritários que não estão preocupados com as violações de Israel sobre lei internacional ou ataques ferozes a elementares direitos humanos.

Os últimos desenvolvimentos sugerem a emergência de uma Nova Ordem Mundial, totalmente diferente dos retratos usuais dentro das doutrinas em vigor.

Artigo publicado em ZNet(link is external), tradução do Esquerda.net

(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/O-Isolamento-dos-EUA-por-Noam-Chomsky/6/37562)

Regulamentação da publicidade infantil continua a espera da lei

Laurindo Lalo Leal Filho - Publicado na edição dez/16-janeiro/17 da Revista do Brasil

Um projeto de lei que regula a propaganda dirigida às crianças completou neste final de ano 15 anos na fila de espera para ser votado na Câmara dos Deputados.

A demora reflete o poder que as indústrias de brinquedos e de alimentos, as agências de publicidade e os veículos de comunicação têm para barrar qualquer iniciativa visando proteger a infância desse tipo de propaganda.

Além dos intrincados trâmites legislativos.

Tornou-se conhecido o caso do menino, na periferia de São Paulo, que ao ser detido pelo segurança de um supermercado tomando um danoninho, disse estar apenas querendo saber que gosto tinha esse produto tão anunciado na televisão.


Situações dramáticas como essa são os aspectos mais visíveis de um cotidiano marcado pelo martelar constante de apelos indiscriminados ao consumo infantil.

Eles estão, todos os dias e todas as horas, nos anúncios impressos, nos comerciais de rádio e TV, em banners na internet, nas embalagens de alimentos e brinquedos, na disposição de produtos nos pontos de venda entre tantas outras formas de sedução para o consumo.

Do lado oposto ao dos defensores da propaganda dirigida às crianças está o Instituto Alana que há dez anos mantém o projeto Criança e Consumo, voltado à defesa do público infantil.

O Instituto lançou o Caderno Legislativo: Publicidade Infantil, uma minuciosa análise do funcionamento do processo legislativo apresentada de forma didática junto com um apanhado atualizado do debate em torno da regulação da publicidade infantil no Brasil e no mundo.

Um dos aspectos centrais desse debate é o da vulnerabilidade das crianças diante dos apelos ao consumo. “A publicidade tem maior possibilidade de induzir ao erro as crianças até os 12 anos, quando não possuem todas as ferramentas necessárias para compreender o real”, diz um parecer do Conselho Federal de Psicologia,

Muitas delas, principalmente as mais novas, não conseguem diferenciar o entretenimento da propaganda.

Disso se vale a publicidade ao misturar nas embalagens de alimentos e brinquedos ídolos e heróis infantis, combinando produtos desses dois tipos na mesma mercadoria oferecida às crianças, realizando a chamada “venda casada”.

Os mais velhos, já entrando na adolescência, são atingidos por outras estratégias publicitárias.

Pesquisa da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) realizada em 23 países, entre eles o Brasil, com 5 mil jovens de 12 anos, mostra a importância dos heróis televisivos e pop stars na imaginação infanto-juvenil.

Muitos deles transformam-se em garotos-propaganda, usando para vender mercadorias a aura conquistada em programas de entretenimento.

Além de estabelecer o consumo como ideal de vida, há outras conseqüências negativas produzidas por essa propaganda.

Duas delas são facilmente perceptíveis: a erotização precoce e a obesidade infantil.

A primeira é resultado da “entrada precoce e artificial no mundo adulto, desrespeitando assim a peculiar fase do desenvolvimento infantil”, diz a publicação do Instituto Alana.

“Conheço meninas de 4 ou 5 anos que só querem comer alface ou rejeitam certos modelos de roupa. Tudo para não parecerem gordas ou distantes das imagens propagadas pela TV e copiadas pelas amiguinhas”, diz a professora Jane Felipe da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, citada na publicação.

Por outro lado cresce a obesidade.

Segundo o Caderno Legislativo “observa-se um cenário assustador de epidemia de obesidade entre as crianças, chegando ao índice alarmante de 30% com sobrepeso e 15% obesas. As causas apontadas vão desde o aumento do consumo de produtos ricos em açucares simples e gorduras à intensa presença de televisão e computador nas residências”.

Embora a promulgação de uma lei que ponha fim a essa situação continue sendo protelada pelo Parlamento brasileiro, parte da sociedade já se deu conta dos malefícios impostos aos seus jovens pela comunicação mercadológica. São várias as entidades da sociedade civil engajadas nesse processo.

A proteção da criança e do adolescente diante da publicidade infantil já está garantida pela Constituição Federal, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, pelo Código de Defesa do Consumidor e por uma resolução de 2014 do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente).  

Falta, no entanto, uma lei específica capaz de esclarecer melhor o debate e garantir a eficácia no seu cumprimento.

É o que se espera do Congresso Nacional. 

(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/Regulamentacao-da-publicidade-infantil-continua-a-espera-da-lei/5/37555)

“Hackers russos”, nova invenção da velha mídia


A história se repete: como no Iraque, em 2003, agências de espionagem dos EUA acusam sem prova alguma – e jornais publicam sem nada investigar
Por Matt Taibbi, na Rolling Stone | Tradução: Inês Castilho

Num passo extraordinário, o governo  Obama anunciou na quinta-feira, 29 de dezembro,uma série de sanções contra a Rússia. Trinta e cinco cidadãos russos foram expulsos do país. O presidente emitiu uma declaração concisa em que parece culpar a Rússia por invadir os emails do Comitê Nacional do Partido Democrata.
“Essa ação de roubar e divulgar dados só poderia ter sido obra dos mais altos níveis do governo russo”, escreveu ele. Primeiro a Rússia prometeu retaliar severamente, e então voltou atrás. Hoje a imprensa russa está informando que Vladimir Putin está até convidando “os filhos dos diplomatas americanos” para visitar a árvore de Natal do Kremlin”, não importa quão repulsiva, ameaçadora ou sarcástica cada um considere a resposta de Putin.
Essa história dramática coloca a mídia diante de uma grande aposta. Como não se faz investigação independente, para contar essa história os repórteres terão de basear-se inteiramente na avaliação das agências de inteligência. Vários repórteres que conheço estão enlouquecidos — embora calados — por ter de passar por isso novamente. Ninguém esqueceu o fiasco das supostas armas de destruição em massa (WMD, na sigla em inglês).


“Isso é déjà vu, vamos ver tudo de novo” – considera um amigo.
Pode-se perceber o constrangimento refletido nas manchetes que passaram pela Internet logo após o anúncio das sanções de Obama. Algumas agências de notícias pareciam divididas entre declarar inequivocamente que houve hackeamento da Rússia e cobrir as apostas colocando essas declarações na boca do governo, com a fórmula “diz Obama”.
O New York Times foi o mais agressivo, escrevendo direto: “Obama Contra-Ataca a Rússia por Hackear a Eleição”. O jornal sustentou sua história com o link de um relatório conjunto FBI/Segurança Interna que detalha como civis russos e serviços militares de inteligência (grafados como “RIS”, Russian Intelligence Services no relatório) violaram por duas vezes as defesas de “um partido político dos EUA”, presumivelmente o Democrata.
Esse relatório é extenso em jargões, mas curto em detalhes. Mais da metade dele é apenas uma lista com sugestões de medidas preventivas. A certa altura, vemos que o nome em código que a comunidade de inteligência norte-americana deu às supostas cibertravessuras russas é urso da estepe, um detalhe suficientemente sexy.
Mas nada ficamos sabendo sobre o que levou a Casa Branca a determinar: a) que esses ataques foram dirigidos pelo governo russo; ou b) que eles foram feitos com o objetivo de influenciar o pleito, e em particular ajudar na eleição de Donald Trump.
O problema com essa história é que, como no caso do Iraque e das falsas “armas de destruição em massa”, ela acontece num ambiente altamente partidarizado, no qual os motivos de todos os atores relevantes são duvidosos. Nada junta-se com nada.
Se as agências de segurança norte-americanas apresentassem uma evidência inequívoca de que os russos organizaram uma campanha para mudar os rumos da eleição presidencial dos EUA e entregar a Casa Branca a Trump, então expulsar umas poucas dúzias de diplomatas depois da eleição parece uma resposta estranhamente fraca e inoportuna. Nos dois partidos há vozes dizendo isso, agora. Os senadores republicanos John McCain e Lindsey Graham observaram que a Rússia pagou um “preço barato” por seu “ataque descarado”. Enquanto isso, o Comitê Nacional Democrata disse na quinta-feira que, tomada isoladamente, a resposta de Obama é “insuficiente” como resposta a “ataques aos Estados Unidos por um poder estrangeiro”.
O “preço barato” levanta dúvidas. Como na história das “armas de destruição em massa”, há um tipo de marketing sendo usado pela Casa Branca para vender uma narrativa da hackeamento que poderia deixar os repórteres nervosos. Por exemplo, esse trecho da fala de Obama sobre os maus tratos sofridos por diplomatas americanos em Moscou: “Além do mais, nossos diplomatas em Moscou experimentaram, no último ano, um nível inaceitável de provocação pela polícia e serviços de segurança russos.”
Isso parece referir-se a um incidente, durante o verão, em que um diplomata americano foi espancado em Moscou, fora do contexto diplomático. Foi depois de um caso, em 2013, em que um diplomata dos EUA chamado Ryan Fogle foi preso de maneira semelhante.
Fogle foi descrito como um agente da CIA, de forma inequívoca, em vários relatórios russos. Fotos do kit espião de Fogle – que incluía perucas e um mapa da cidade – tornaram-se fonte de muitas piadas na imprensa russa e nas mídias sociais. De maneira semelhante a essa história de hackers aqui nos EUA, os cidadãos russos comuns pareciam divididos sobre se deviam ou não acreditar.
Se os russos atrapalharam uma eleição, isso por si só seria suficiente para garantir uma resposta maciça – muito pior do que respostas pesadas para episódios de espionagem comuns. O fato de Obama mencionar essas pelejas monótonas dá a impressão de que ele está jogando alguma coisa para reforçar um caso que, em outras condições, seria fraco.
Acrescente-se ao problema que, nos últimos meses de campanha, e também no período pós-eleição, assistimos a uma epidemia de informações sobre a Rússia factualmente fracas e com motivação claramente política. Democratas com vocação de guru têm sido irritantemente rápidos ao usar frases como “a Rússia hackeou a eleição”.
Isso levou a uma confusão generalizada, entre as pessoas que ouvem notícias. Teriam os russos hackeado os emails do Comitê Nacional Democrata? (uma história que foi sustentada por ao menos alguma evidência, embora limitada) Ou hackearam a contagem de votos em estados essenciais? (uma lenda muito mais estranha, sem nenhuma evidência merecedora de crédito).
Como notaram The Intercept e outras mídias, uma pesquisa do Economist/YouGov realizada este mês mostra que 50% dos eleitores de Hillary acreditam que os russos hackearam a contagem de votos. Esse número é quase tão perturbador quanto os 62% de eleitores de Trump que acreditam na contenda estapafúrdia e sem fontes de Trump e Alex Jones, de que “milhões” de imigrantes sem documentos votaram na eleição.
E ainda houve o episódio em que o Washington Post publicou aquela história de tirar o fôlego sobre russos ajudando a espalhar “notícias falsas”. Uma história irresponsável que, revelou-se, baseava-se numa fonte altamente dúbia denominada “PropOrNot”. Ela classificou 200 organizações diferentes de mídia alternativa norte-americana como “inocentes úteis” do Estado russo.
Mais tarde o Washington Post afastou-se dessa história, dizendo que “não atesta a validade do que diz o PropOrNot”. Foi muito estranho dizer isso numa declaração que não era uma clara retratação. A ideia de que não está tudo bem publicar uma alegação, quando você mesmo não confia no que diz sua fonte, é um grande desvio daquilo que era antes entendido como norma em um jornal como o Post.
Houve outros excessos. Uma entrevista de um jornal italiano com Julian Assange foi alterada ao ser reescrita em outras publicações do Ocidente, com The Guardian atribuindo a Assange elogios a Trump e comentários aparentemente elogiosos sobre a Rússia, sem fundamento no texto original. (The Guardian agora “corrigiu” várias passagens do texto em questão).
Informes de repórteres amistosos ao Partido Democrata – como Kurt Eichenwald, que gerou alguns absurdos no período, inclusive “informações” (que ele admitiu não terem fundamento) de que Trump esteve por algum tempo numa instituição psiquiátrica, em 1990 — tentaram argumentar que representantes de Trump podem ter colaborado com os russos, ou porque visitaram a Rússia ou porque apareceram na rede RT. Reportagens semelhantes sobre o “esquema russo” foram inteiramente baseadas em fontes de segurança anônimas.
Temos agora essa história das sanções, que coloca uma nova charada. Parece que grande parte da imprensa está engolindo com força o cerne das alegações de interferência eleitoral que emanam do governo Obama. Teriam os russos cometido o delito? É possível, mas nesse caso o fato deveria ter máxima divulgação. Mas a imprensa, neste momento, ensaia um voo cego. Continuar com relatos crédulos é problemático, porque estão em jogo vários cenários diferentes possíveis.
Numa hipótese extrema, os Estados Unidos poderiam ter sido vítimas de um golpe de Estado virtual arquitetado por uma combinação de Donald Trump e Vladimir Putin, o que estaria entre as coisas mais graves jamais ocorridas contra o sistema político. Mas poderia ser também apenas uma campanha cínica do Partido Democrata, numa tentativa de desviar a atenção do seu próprio fracasso eleitoral.
Os democratas, que estão deixando o poder, poderiam estar apenas usando uma “avaliação” da inteligência exageradamente interpretada para deslegitimizar o governo Trump e empurrá-lo a uma situação política embaraçosa: ou ele fala manso com a Rússia e parece um tonto, ou leva ainda mais longe a escalada contra uma potência dotada de armas nucleares.
Poderia também ser algo entre os dois. Talvez o Serviço Federal de Segurança russo [FSB, em inglês] não tenha cometido a invasão, mas simplesmente permitido que, de alguma forma, acontecesse. Ou ainda, talvez os russos tivessem hackeado o Comitê Democrata, mas o material do WikiLeaks veio de outra pessoa. Há até mesmo um relatório sobre isso, tendo um ex-embaixador britânico como fonte, embora não mereça nenhum crédito a mais do que qualquer outra coisa aqui exposta.
Nós simplesmente não sabemos, e esse é o problema.
Deveríamos ter aprendido com o episódio Judith Miller. Não apenas os governos mentem, mas eles também não hesitarão em comprometer agências de notícias. Num momento de desespero, usarão qualquer otário que possam encontrar para impor seu ponto de vista.
Não tenho problema algum para acreditar que Vladimir Putin possa ter tentado influenciar a eleição americana. Ele é um gangster-espião-escória do mais baixo nível e capaz de qualquer coisa. E Donald Trump também foi porco o suficiente, durante a campanha, para expressar, publicamente, o desejo de que os russos revelassem os emails de Hillary Clinton. De modo que muita coisa, sobre isso, é bastante plausível.
Mas os norte-americanos já nos queimamos com histórias como essa, de efeitos desastrosos. O que torna surpreendente que não estejamos tentando, mais seriamente, evitar ser enganados de novo.

(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/alguma-coisa-cheira-mal-nessa-historia-da-russia/)