domingo, 22 de outubro de 2017

Por que denunciar privatizações na Petrobras e Eletrobrás

Texto escrito por José de Souza Castro:

Está sendo discutido na comissão especial da medida provisória 795, que era presidida pelo senador tucano José Serra, se o Brasil quer mesmo impedir que empresas brasileiras continuem participando, como fornecedoras de equipamentos, nos projetos de exploração do petróleo no próprio país. O governo, autor da MP, gostaria de deixar tudo a fornecedores estrangeiros.
O Partido dos Trabalhadores vai combater essa MP, garante o líder do partido na Câmara dos Deputados, Carlos Zarattini, como se vê aqui. Ele afirma que o objetivo da MP é dar aos equipamentos importados o mesmo tratamento tributário dado aos equipamentos produzidos no Brasil, o que enterraria “a indústria naval, a indústria de equipamentos, a tecnologia desenvolvida pela Petrobras e pelas empresas que fornecem à Petrobras”.

E a Fiesp, tão barulhenta com seus patos, no passado, se mantém silenciosa. Não se ouve ali um único quá quá quá “em defesa da indústria nacional de petróleo e gás”.
No discurso feito no dia 10 deste mês na Câmara dos Deputados, ao revelar que José Serra deixara a presidência da comissão, Zarattini buscou uma explicação: “Do jeito como estão as coisas criminalizadas nesse país, provavelmente ele seria considerado um criminoso por estar beneficiando a indústria estrangeira de produção de equipamentos de exploração de petróleo e gás”.

É difícil esquecer, passados sete anos, o que teria dito José Serra à diretora de desenvolvimento de negócios e relações com o governo da petroleira Chevron, Patrícia Padral. Conversa revelada pelos papéis secretos do Departamento de Estado vazados pelo Wikileaks, mostrando que, quando Serra se preparava para disputar as eleições presidenciais, o governo dos Estados Unidos já estava focado em conseguir bons acordos no Brasil para as petroleiras Chevron e Exxon, mesmo que tivesse que espionar a Petrobras.

O Brasil tem muito a perder. O assunto ficou esquecido no discurso de Zarattini, mas muita gente já tomou conhecimento de um estudo feito pela Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados sobre a MP 795. Nele se diz que, se aprovada, a MP pode resultar na não arrecadação de R$ 1 trilhão com o óleo do pré-sal, considerando toda a extração das reservas, caso o preço do barril de petróleo Brent fique em US$ 60. O preço vem subindo e hoje está na casa dos US$ 56.

Pelas regras da medida provisória, lê-se aqui, a participação do Brasil em cada barril — na prática, a porcentagem que o país recebe de cada um deles — passará de 59,7% para 40%, uma das mais baixas do mundo. O estudo mostra que, por exemplo, a China possui uma participação de 74% sobre o petróleo extraído em seu território, os Estados Unidos de 67%, a Rússia de 66%, e o Reino Unido fica com 63%.

O restante fica com as multinacionais do petróleo, entre as quais se destacam as dos Estados Unidos.
O governo dos Estados Unidos, ainda sob Barack Obama, tinha bons motivos para apoiar o golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff e pôs em seu lugar Michel Temer. Derrubar este não será nada fácil. Donald Trump, ainda mais que Obama, tem bons motivos para não deixar. Logo depois de ser eleito, Trump escolheu como secretário de Estado o engenheiro Rex Tillerson, que, para assumir, renunciou à presidência da Exxon Mobil, cargo ocupado por ele desde 2006.

Já se vê por aqui os bons serviços de Rex Tillerson, com participação ou não de José Serra, não por acaso o primeiro ministro de Relações Exteriores do governo Temer. No último leilão de áreas petrolíferas promovido por Temer, a Petrobras se uniu à Exxon para explorar os principais campos de petróleo ainda em águas rasas. A Chevron, por sua vez, não perde por esperar pelos próximos leilões das áreas do pré-sal…

Um dos objetivos do golpe, ficou mais do que evidente, era acabar com a participação exclusiva da Petrobras nos campos do pré-sal, vinda do governo Lula. E não para aí. A entrega da Eletrobrás vem a seguir – ou simultaneamente.

Sobre isso, enquanto a Fiesp, a Fiemg e que tais se calam, outros falam. O líder do PT destaca um deles, José Luiz Alquéres, que adverte: “a privatização não pode ser feita para arrumar trocados para o tesouro e, sim, para montar um sistema elétrico adequado para o século 21, para uma economia de baixo carbono. Preste atenção: só vemos em alguns momentos um mar de ignorante e lobistas, sem contar especuladores dando as cartas e fazendo proposições.”

O que se quer com a privatização da Eletrobrás, diz Alquéres, é descontratar a energia barata produzida nas antigas usinas hidrelétricas para que ela seja fornecida ao chamado mercado livre, com preço aumentado substancialmente. Além de pagar mais caro, o consumidor brasileiro vai perder o controle sobre as águas, sobre a energia limpa das hidrelétricas, particularmente as de Minas Gerais, de Furnas e as da CHESF do Rio São Francisco.

“Nós temos que denunciar isso”, discursa Zarattini. “É óbvio que não está em conta nesse modelo a chamada modicidade tarifária, porque o que interessa é a maximização dos lucros. É óbvio que o modelo de tarifa vai subir. E é importante a gente notar que quem está à frente desse modelo, desenvolvendo esse modelo, não é outro senão o secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, senhor Paulo Pedrosa, ex-presidente da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia e da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia Elétrica. Exatamente os que mais vão ganhar com esse novo modelo, onde os comercializadores do mercado livre, sem bater um prego na madeira, vão ganhar uma importante fatia de milhões, de bilhões de reais que estão envolvidos no mercado de energia”.

Completa o deputado petista: “Nós temos que denunciar isso porque, como diz o senhor José Luiz Alquéres, quem está operando essa transformação, essa manipulação, são lobistas que nada entendem do mercado de energia, ou aqueles que entendem e entendem tão bem que querem desviar bilhões de reais para interesses privados, tirando do consumidor, que é o povo brasileiro.”
É isso: DENUNCIEMOS!

(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/10/16/privatizacoes-petrobras-eletrobras/#more-14593)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Peixes diminuem de tamanho à medida que a temperatura do oceano aumenta

Um dos peixes economicamente mais importantes está diminuindo em peso corporal, comprimento e tamanho físico total à medida que a temperatura do oceano aumenta, de acordo com uma nova pesquisa do professor R. Eugene Turner, da LSU Boyd, publicada na Geo: Geography and Environment. O tamanho médio do corpo do Brevoortia patronus (Gulf Menhaden) um pequeno peixe pescado nos EUA, das costas do Maine ao Texas – diminuiu cerca de 15% nos últimos 65 anos.
A reportagem é de Alison Satake, publicada por Lousiana State University, editada e traduzida por Henrique Cortez e reproduzida por EcoDebate, 09-10-2017.

Menhaden constituiu cerca de metade da pesca de peixe do Atlântico e do Golfo do México, num valor estimado em, aproximadamente, US$ 129 milhões em 2013. São espécies costeiras que se reproduzem no oceano e se mudam para estuários onde os peixes jovens crescem de um até dois anos de idade. A temperatura da superfície do ar e do mar na costa atlântica e no Golfo do México aumentou constantemente, especialmente nos estuários, onde a troca de calor ocorre de forma eficiente entre o ar e o mar. Os menhaden adultos retornam para o oceano onde são pescados com redes de cerco.
Menhaden é uma importante fonte de alimento para aves, focas, baleias e outros animais. Portanto, as consequências do encolhimento de Menhaden, no tamanho do corpo, se estendem por toda a cadeia alimentar.
Turner calculou as mudanças de peso e comprimento desses peixes usando dados coletados pelo National Marine Fisheries Service. De 1955 a 2008, cerca de 495,000 menhaden do Atlântico foram coletados pela agência. De 1964 a 2010, foram coletados cerca de 510 mil menhaden do Golfo do México. Os dados mostram um declínio no peso e comprimento anual entre os peixes de 3, 4 e 5 anos de idade. Por exemplo, um peixe de 4 anos capturado em 2010 pesou 11 por cento menos do que um peixe de 4 anos capturado em 1987.

Referência:

Turner R Eugene. Smaller size-at-age menhaden with coastal warming and fishing intensity. Geo: Geography and Environment. 2017, 4(2): e00044. DOI: 10.1002/geo2.44

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/572496-peixes-diminuem-de-tamanho-a-medida-que-a-temperatura-do-oceano-aumenta)

'Novo analfabetismo': por que tantos alunos latino-americanos terminam ensino fundamental sem ler ou fazer contas

A conclusão do ensino fundamental é uma etapa essencial da vida estudantil, mas para grande parte dos alunos latinos-americanos ela é concluída sem que sejam aprendidas habilidades mínimas.
Segundo um informe recente do Instituto de Estatísticas da Unesco, braço da ONU para a educação, grande parte dos jovens da América Latina e do Caribe não alcançam os níveis exigidos de proficiência em capacidade leitora ao concluírem o que no Brasil equivale à segunda etapa do ensino fundamental, em geral, aos 14 anos.
A reportagem é de Ángel Bermúdez, publicada por BBC Brasil, 11-10-2017.

O estudo diz que, em média, 36% das crianças latino-americanas no ensino fundamental não estão atingindo as habilidades mínimas de leitura. Em matemática, esse índice sobe para 52%.
Em números absolutos, 19 milhões de adolescentes do continente concluem o fundamental "sem conseguir níveis mínimos" de compreensão nessas áreas.
Especificamente no Brasil, dados compilados pela plataforma QEdu com base no Prova Brasil 2015 dão a dimensão do problema nessa etapa do ensino: apenas 30% dos alunos da rede pública saem do 9º ano com aprendizado adequado em leitura e interpretação.
Em matemática, apenas 14% dos alunos do 9º ano aprenderam o adequado em resolução de problemas.

'Novo analfabetismo'

Silvia Montoya, diretora do Instituto de Estatísticas da Unesco, considera "dramática" a ausência de compreensão de leitura em tantos estudantes do continente.
"O fato de haver crianças sem competências básicas, no que se refere a ler parágrafos simples e extrair informações deles, é o que eu consideraria uma nova definição de analfabetismo", diz ela à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC.
"No mundo de hoje, ter um nível mínimo de alfabetização já não é (apenas) saber ler o próprio nome e escrever algum fato da vida cotidiana. Carecer de compreensão leitora é uma espécie de incapacidade de se inserir na sociedade, poder votar e entender as propostas dos candidatos, entender seus próprios direitos e deveres como cidadão. Afeta todas as dimensões."
E, prossegue Montoya, a leitura é uma habilidade básica, sobre a qual se constroem as demais capacidades estudantis.
"Sem essa competência, estamos gerando crianças e adolescentes que vão (vivenciar) diretamente muitas frustrações pessoais e de integração social e profissional. Sem entender textos, é muito difícil avançar em qualquer área."
A situação se agrava quando se leva em consideração o grau de exigências do mundo atual, em que a informação disponível é complexa e tem diferentes graus de qualidade e confiabilidade - o que exige leitores com senso crítico e habilidade de interpretação.

Uma escola que não funciona

E se antes o desafio da América Latina era o da inclusão dos alunos ao sistema de ensino, hoje a questão é mais qualitativa do que quantitativa.

O relatório da Unesco afirma que "o desperdício de potencial humano evidenciado pelos dados confirma que levar as crianças à sala de aula é apenas metade da batalha. Agora, temos de garantir que todas as crianças naquela sala de aula estejam aprendendo as habilidades básicas de que precisam em leitura e matemática, no mínimo".
"Agora, a realidade é que as crianças estão dentro do sistema educativo, mas há uma inabilidade da escola em dotá-los do nível de aprendizado razoável e mínimo para as circunstâncias que demanda o mundo hoje e no futuro", afirma Montoya.
E isso é resultado de uma série de problemas, como formação deficiente que não prepara os docentes para lidar com os desafios de sala de aula, problemas de infraestrutura, numerosas perdas de dias letivos por conta de greves e outras questões - além, também, da própria situação socioeconômica dos estudantes, que "podem vir de lares de baixa renda e contar com menor apoio familiar".
"Há uma combinação de fatores que podem variar em cada lugar, mas evidentemente há uma ausência de políticas específicas para enfrentar o problema", afirma Montoya.
Ela agrega que é preciso analisar os currículos, a formação de docentes - para garantir que sejam capazes de ensinar crianças vindas de contextos sociais difíceis -, contar com um ambiente e uma infraestrutura adequados e ter uma rede de políticas sociais de apoio.
No Brasil, uma nova base nacional curricular, documento do Ministério da Educação que vai definir diretrizes de ensino, está atualmente em fase de consulta pública.
"Não há como resolver (o problema da educação) sem uma visão integral do sistema educacional", opina Montoya.
O problema não se restringe à América Latina - é um drama global.
O relatório da Unesco calcula que, no mundo, haja 617 milhões de crianças e adolescentes - o equivalente a três vezes a população total do Brasil - incapazes de entender minimamente um texto ou resolver problemas matemáticos básicos, o que seria esperado em sua idade escolar.
Na África Subsaariana, 88% dos alunos concluem os estudos equivalentes ao fundamental com problemas de compreensão em leitura. Para efeitos comparativos, esse índice cai para 14% na América do Norte e na Europa.

(fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/572562-novo-analfabetismo-por-que-tantos-alunos-latino-americanos-terminam-ensino-fundamental-sem-ler-ou-fazer-contas)

Número de crianças obesas se multiplica por dez em quatro décadas

O mundo enfrenta uma crise global de má nutrição causada tanto pela falta de comida como pelo consumo de alimentos processados pouco saudáveis. Os dois problemas estão relacionados com a pobreza e a desigualdade social e ameaçam cada vez mais os países em desenvolvimento, alerta um estudo publicado nesta quarta-feira pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em colaboração com instituições acadêmicas do Reino Unido.
A reportagem é de Nuño Domínguez, publicada por El País, 11-10-2017.

No mundo já há 124 milhões de crianças e jovens — entre cinco e 19 anos — que sofrem de obesidade, um número dez vezes maior do que o registrado há quatro décadas. Enquanto o problema segue crescendo entre os mais jovens, o avanço da desnutrição está diminuindo a nível global. Se estas tendências continuarem nos próximos anos, em 2022 haverá no mundo mais crianças e jovens obesos do que desnutridos, acrescenta o trabalho, que também ressalta que há outros 213 milhões de garotos e garotas com sobrepeso. À este problema é preciso somar o dos 192 milhões de crianças e jovens com desnutrição moderada e aguda, um problema que afeta especialmente países asiáticos, como a Índia.
“A obesidade também é uma consequência da má nutrição”, explica Chiara di Cesare, especialista em saúde pública da Universidade de Middlesex e coautora do estudo, publicado nesta quarta na revista médica The Lancet, e cujos dados por países podem ser observados aqui. O estudo analisou mais de 2.000 estudos sobre o índice de massa corporal de adultos, crianças e adolescentes que inclui dados de 128 milhões de pessoas para estimar as taxas de sobrepeso, obesidade e desnutrição em 200 países.
“A obesidade também é uma consequência da má nutrição A região com mais crianças obesas é a Polinésia, onde mais de 30% das crianças e jovens estão obesos. Em seguida estão outras regiões de países em desenvolvimento com taxas próximas a 20% na Ásia e no Norte da África, como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait e Egito. América Latina também é uma das regiões onde mais cresceu a obesidade entre as crianças, explica Di Cesare. A nível global, 5,6% das garotas e 7,8% dos garotos estão obesos. Em 1975, o primeiro ano analisado, as cifras eram de 0,7% e de 0,9%, respetivamente. Quando analisados os dados apenas do Brasil, os números são ainda mais altos: entre os meninos, a prevalência é de 12,7% e, entre as meninas, de 9,4% —em 1975, era de 0,9% para ambos e, em 2000, quando houve um estirão de crescimento, de 5,7% entre eles e de 5% entre elas.
“Ainda não está clara qual é a explicação para que se tenha tanta obesidade nestes países, embora uma das razões possa ser as mudanças bruscas no mercado de alimentação e a chegada das comidas processadas com baixo valor nutritivo”, ressalta a especialista. Enquanto a obesidade entre jovens avança nos países em desenvolvimento, o crescimento está estancando na Europa e nos EUA, mas só após décadas de avanço e com uma prevalência que continua sendo muito alta, alertam os autores do trabalho.
Se o impacto da desnutrição é visível e de curto prazo — certa de três milhões de crianças morrem por estas causas a cada ano —, o da obesidade é crônico, pois fomenta doenças como a diabetes, os problemas cardiovasculares ou o câncer, que aparecem após décadas. Com esta tendência, se não se tomarem medidas “sérias” contra a obesidade, “se colocará em risco desnecessário a saúde de milhões de pessoas, o que elevará os custos humanos e econômicos”, alertou Leanne Riley, especialista da OMS e coautora do estudo.
Majid Ezzati, pesquisador do Imperial College e um dos coordenadores do trabalho, ressalta que “a maioria de países ricos resistiram a estabelecer impostos e regulação para mudar os hábitos alimentares das crianças e, assim, evitar a obesidade infantil”. “Mais importante é que existem muito poucas políticas e programas dedicados a facilitar o acesso a comidas saudáveis como os grãos integrais, frutas e vegetais para famílias pobres. A impossibilidade de comprar comida saudável pode levar à desigualdade social e à obesidade”, acrescenta.
A transição entre a desnutrição e o sobrepeso e a obesidade pode acontecer de forma rápida em países em desenvolvimento que passam de ter falta de comida a um acesso facilitado a alimentos e bebidas processadas com alto teor de gorduras, sal e açúcares e poucos nutrientes essenciais, alertam os autores. Ao mesmo tempo, “os países desenvolvidos mostram um estancamento do avanço da obesidade, mas é possível que o que esteja acontecendo é uma redução só entre os mais ricos e um avanço entre os setores mais desfavorecidos”, adverte Di Cesare.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/572560-numero-de-criancas-obesas-se-multiplica-por-dez-em-quatro-decadas)

Café História da semana

Projeto inovador de quadrinhos digitais estreia com ficção sobre Segunda Guerra Mundial
“Protanopia” é um quadrinho multiação, animado e que o próprio leitor controla a partir de tablets e celulares. Aplicativo é gratuito. Clique aqui para ler a notícia. 
 


 

Historiador comenta novo “Call of Duty”, famoso game que está que volta à II Guerra Mundial

Game multiplataforma que será lançado em novembro já foi objeto de estudo de dissertação de mestrado em História defendida no Brasil.

Historiadora cria blog para registrar o dia a dia de sua pesquisa no Egito

“Diário de campo de uma egiptóloga portuguesa no Egito” foi lançado nesta terça-feira e também tem a função de difundir o debate sobre o Egito Antigo.
 




Hidrocídio brasileiro: a matança das águas

São Francisco, Araguari, Paracatu, Tocantins, Javaés. Os rios brasileiros agonizam. “Não sabemos o que será e nem como será, só sabemos que estamos preparando o inferno para as gerações futuras.”
Por Roberto Malvezzi (Gogó)

A cada dia chega a notícia da morte de um rio, ou de que um rio famoso agoniza. Afluentes dos grandes rios brasileiro estão sendo mortos às centenas, aos milhares, num verdadeiro hidrocídio, isto é, a matança das águas.

Esses dias nos chegou a visão do leito seco do Paracatu, um dos maiores afluentes do São Francisco. No ano passado, em Macapá, me contaram que a pororoca do rio Araguari estava extinta. Esse ano, no Acre, me informaram que o prognóstico científico é de que o rio do Acre seque em dez anos.
Em Miracema, quando estive lá no ano passado, quase atravessamos o rio Tocantins a pé, com a água alcançando no máximo a cintura. Ali mesmo nos contaram que o rio Javaés, que faz a Ilha do Bananal, considerada a maior ilha fluvial do mundo, também tinha secado.

O Velho Chico agoniza a olho nu, com pouco mais de 500 m³/s, e na sua foz o mar avança São Francisco adentro, já salinizando as águas antigamente doces das comunidades ribeirinhas.
Nosso ciclo das águas, que se origina na Amazônia e depois se espalha por todo território brasileiro, chegando até Buenos Aires, Assunção e Montevideo, está sendo estrangulado pelas atividades predadoras que precisam destruir a vegetação para se impor. Ao destruir a Amazônia matamos a bomba biótica que injeta água na atmosfera; ao destruir o Cerrado matamos nossos maiores reservatórios naturais, aquíferos como o Bambuí, Urucuia e Guarani. A riqueza derivada da rapinagem não tem fôlego e também entrará em colapso com o colapso de nossas águas.

Não sabemos exatamente o que será e nem como será, só sabemos que estamos preparando o inferno para as gerações futuras.

Mesmo assim não nos conformamos. Como diz uma frase atribuída a Martin Luther King, “se eu soubesse que o mundo acabaria amanhã, mesmo assim hoje eu plantaria uma árvore”.

(fonte: http://outraspalavras.net/blog/2017/10/13/hidrocidio-brasileiro-a-matanca-das-aguas/)

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Wallerstein: tempos de incerteza caótica

Cresce a instabilidade global. Atores políticos antes previsíveis alteram seu comportamento bruscamente. Antecipar o futuro torna-se quase impossível. A crise estrutural aprofunda-se

Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Inês Castilho

Você está confuso com o que acontece no mundo? Eu também estou. Todo mundo está. Essa é a realidade subjacente e contínua de um sistema-mundo caótico.
Numa situação caótica, há mudanças constantes e dramáticas nas prioridades de todos os atores. Num dia, as coisas parecem correr de modo favorável, do ponto de vista de certo ator. No dia seguinte, a perspectiva parece muito desfavorável.
Além disso, parece não haver possibilidade de predizer que posição os atores assumirão no momento seguinte. Comportam-se de maneiras que pensávamos impossíveis, ou no mínimo improváveis, surpreendendo-nos repetidamente. Mas estão simplesmente tentando maximizar sua vantagem, ao mudar de postura sobre uma questão importante, mudando também as alianças que farão para conseguir aquela vantagem.
Nem sempre o sistema-mundo esteve mergulhado no caos. Muito pelo contrário! O sistema-mundo moderno, como qualquer sistema, tem suas regras de funcionamento. Essas regras possibilitam que tanto os de fora quanto os participantes avaliem o comportamento provável de diferentes atores. A aderência às regras de comportamento expressa o funcionamento “normal” do sistema.
Somente quando o sistema atinge um ponto em que não é possível retornar a um equilíbrio (móvel) que renova suas operações normais é que ele entra numa crise estrutural. A incerteza caótica é uma característica central dessa crise estrutural.
No começo de setembro de 2017 houve três dessas mudanças dramáticas em prioridades e alianças. A que atraiu maior atenção foi o anúncio, pelo presidente dos EUA Donald Trump, de que havia chegado a um acordo com os líderes democratas do Congresso – senador Chuck Schumer e deputada Nancy Pelosi – para promulgar uma medida de (1) ajuda emergencial para o furacão no Texas e estados vizinhos, sem impor quaisquer condições, combinada com (2) aumento do teto do endividamento, por três anos.
Esse acordo foi significativo por duas razões. Primeiro, porque Trump havia se comprometido a não negociar com os democratas. E mais, essa negociação foi aparentemente nos termos estabelecidos pelos democratas. Mais importante ainda, Trump fez esse acordo sem informar, até o último minuto, a liderança republicana no Congresso – o deputado Paul Ryan e o senador Mitch McConnell, que se sentiram compreensivelmente atacados por essa ação. Segundo, e ainda mais surpreendente, ele adiou por seis meses o fim do programa DACA, celebrado pelo ex-presidente Barack Obama. O DACA foi projetado por Obama para permitir a permanência, nos EUA aos chamados dreamers, imigrantes “ilegais” que chegaram ao país na infância. Trump prometera cancelar o programa no primeiro dia do seu mandato.
Por quanto tempo esse acordo irá durar, ainda não se sabe. Mas seu simples anúncio perturbou, provavelmente por um longo tempo, a relação de confiança entre Trump e os congressistas republicanos. Foi por certo uma virada dramática.
Menos notada, mas muito importante, foi o anúncio, pelo governo da Indonésia, da mudança, para Mar de Natuna Norte, do nome das águas imediatamente ao norte do país. Esse ato aparentemente inócuo pode ser entendido em termos de história das reivindicações marítimas nas águas do leste e sudeste da Ásia. Há algum tempo, a China tem reivindicado a maior parte desses mares e construído bases em ilhas ou mesmo rochas neles localizadas.
As reivindicações chinesas foram contestadas pelas Filipinas, Taiwan e Vietnã, e também pelos Estados Unidos. Até agora, a Indonésia tentou manter-se neutra nessas disputas e até se ofereceu como mediadora. O ato de renomear as águas ao norte do país é, contudo, uma proclamação dos direitos indonésios a águas reclamadas pela China. Anunciar publicamente essa disputa é não apenas um ato contra a China como também uma atitude muito “dura” da Indonésia. A China imediatamente sinalizou seu desagrado com a renomeação. A Indonésia não está recuando.
A terceira virada em alianças é menos dramática porque já acontece há algum tempo. Todavia, agora assumiu uma forma dramática. A Turquia parece ter renunciado a suas obrigações como membro da OTAN, ao decidir pela compra de um sistema militar russo de mísseis terra-ar, que não é “interoperável” pelos aliados da OTAN.
Esse ato é considerado um grande giro nas antigas relações turcas com a Europa Ocidental e os Estados Unidos. Da perspectiva turca, é simplesmente uma resposta a atos hostis de membros da OTAN contra ela. Tem ainda implicações para alianças geopolíticas e grandes arranjos econômicos. É uma maneira de relegar ao passado disputas entre a Turquia e a Rússia sobre a Síria e o Irã. Também aqui é preciso averiguar o quanto durará.
Viradas dramáticas são o arroz com feijão cotidiano de uma crise estrutural. Isso significa que viveremos em incerteza caótica até que a crise estrutural seja resolvida em favor de uma das duas pontas da bifurcação. Precisamos concentrar nossas análises e nossas ações naquilo que torna mais provável o lado progressista da bifurcação ultrapassar, no médio prazo, o lado reacionário, para a resolução dessa luta.

(fonte: http://outraspalavras.net/capa/wallerstein-tempos-de-incerteza-caotica/)