sábado, 20 de janeiro de 2018

Vaza novo relatório do IPCC: apenas redução drástica na emissão de gases pode salvar o Acordo de Paris


Estimativa é que a temperatura ultrapasse 1,5° Celsius antes de 2040, relataram os cientistas, o que significa um aumento da frequência de extremos de frio e calor, de secas e inundações e um risco maior de conflitos.


A reportagem é publicada por Observatório do Clima, 12-01-2018.
aquecimento global deve ultrapassar em duas décadas o limite mais ambicioso estabelecido pelo acordo climático de Paris, a menos que os governos reduzam drasticamente a emissão de gases de efeito estufa, revela um rascunho do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sobre a estabilização do aquecimento global a 1,5ºC. O relatório foi obtido pela agência de notícias Reuters. O IPCC publicou uma nota sobre o vazamento, alertando que modificações substanciais podem ocorrer até a divulgação da versão final do documento, em outubro. Membros do painel confirmaram o conteúdo ao OC.
De acordo com o documento, enviado nesta semana para comentários de revisores, será preciso implementar um nível de transformação sem precedentes na área produtiva caso a humanidade se proponha a evitar as transformações radicais causadas pelas mudanças climáticas. Significa cortar os combustíveis fósseis a níveis nunca antes imaginados, estimular fortemente o uso de energia renovável e substituir boa parte dos processos produtivos da indústria e da agricultura. Segundo o relatório, as temperaturas devem subir 1,5°C até 2040.
Segundo a Reuters, o relatório ainda estimou que a humanidade poderia emitir apenas 580 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa para ter mais de 50% de chance de limitar o aquecimento a 1,5° C. Evitar que a temperatura ultrapasse o limite do Acordo de Paris, afirmam os cientistas, significa limitar os extremos de frio e calor, secas e inundações, migração de pessoas e riscos de conflito. Mesmo assim, com mais 1,5° é provável que boa parte dos recifes de corais não sobrevivam.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/575201-vaza-novo-relatorio-do-ipcc-apenas-reducao-drastica-na-emissao-de-gases-pode-salvar-o-acordo-de-paris)

Agricultores não associam uso inadequado de agrotóxicos ao seu estado de saúde

A pesquisa foi realizada no Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento (PPGAD) da Univates com 130 agricultores de Imigrante - RS.

O texto é de Nicole Morás, da Univates, publicado por Revista Brasileira de Ciências Ambientais, reproduzido por EcoDebate, 15-01-2018. 

Apesar de conhecerem os problemas que os agrotóxicos podem gerar ao meio ambiente e à sua saúde, os agricultores não relacionam o uso inadequado dos agrotóxicos ao seu estado de saúde. Esse foi o resultado de uma pesquisa desenvolvida pela diplomada em Ciências Biológicas Mônia Wahlbrink, sob orientação da doutora Claudete Rempel, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento (PPGAD) e ao PPG em Sistemas Ambientais Sustentáveis(PPGSAS) da Univates, realizada com 130 agricultores do município de Imigrante, no Rio Grande do Sul.

Os dados foram obtidos a partir da resposta dos participantes a um questionário que abordava temáticas como o perfil do trabalhador, a utilização de agrotóxicos, a saúde, a segurança e a higiene do trabalhador. Os dados coletados apontaram que 93,8% dos respondentes eram homens e a maioria dos entrevistados possui Ensino Fundamental incompleto.

A maioria declarou que começou a trabalhar ainda na infância na propriedade, em média aos 12 anos de idade. Grande parte dos agricultores de Imigrante (89,2%) disse ter conhecimento sobre os riscos que o uso de agrotóxicos pode ocasionar e nenhum afirmou comer ou fumar durante a aplicação dos agrotóxicos.

Entre os entrevistados, 73,3% relataram ter sentido ao menos um sintoma de intoxicação por pesticida nos últimos seis meses, sendo o mais citado a dor de cabeça (70,2%), seguido por cansaço (52,1%) e dor no corpo (46,0%). Dos 73,3% que mencionaram ter sentido ao menos um dos sintomas, 17 agricultores (18,1%) acreditam que esses podem ter alguma relação com o uso de agrotóxicos.

Quando questionados se ao longo da vida já haviam sentido algum mal-estar por ter usado agrotóxicos, 54 agricultores (41,5%) responderam que sim, sendo a dor de cabeça novamente o sintoma de intoxicação mais citado (55,6%), seguido por enjoo (48,1%) e fraqueza (11,1%).

Dentre todos os agricultores participantes da pesquisa em Imigrante, 118 (90,8%) utilizam algum tipo de equipamento de proteção individual (EPI) no momento da aplicação do agrotóxico, enquanto 12 (9,2%) não utilizam nenhum tipo de EPI. Destes que utilizam EPIs, 95,0% usam botas, 93,3% usam roupa longa (calça e camisa de manga longa) e apenas 1,7% utiliza viseira.

De acordo com Mônia, de maneira geral, os resultados obtidos mostram que existe um quadro de exposição humana e ambiental aos agrotóxicos. “Grande parte dos agricultores afirma conhecer os riscos que essa exposição pode ocasionar, porém é notável o uso parcial dos EPIs, bem como a não leitura e a falta de compreensão do rótulo e da bula dos agrotóxicos pela maioria dos agricultores”, analisa ela, acrescentando que foi observado que quase metade dos entrevistados já sentiu algum sintoma de intoxicação.

O descarte inadequado das embalagens também é uma preocupação constante em relação à atividade agrícola, pois contribui para a contaminação das águas superficiais e subterrâneas, podendo expor parte da população aos efeitos desses compostos.

A orientadora da pesquisa, professora Claudete, destaca que os dados mostram que os estudos de percepção de riscos são importantes instrumentos para a gestão ambientale o controle dos riscos associados ao uso de agrotóxicos no trabalho rural. “Percebe-se a importância da implementação de políticas públicas que incentivem a prática agrícola mais sustentável e que reduzam a vulnerabilidade a que os agricultores e o meio ambiente estão expostos”, explica ela. Claudete afirma ainda que é necessário também incentivar o enfoque agroecológico e o desenvolvimento de práticas agrícolas sustentáveis, “o que contribui para a manutenção da capacidade produtiva e a diminuição dos efeitos negativos que os agrotóxicos causam à saúde humana e ao meio ambiente”, finaliza ela.

O estudo foi publicado na Revista Brasileira de Ciências Ambientais(RBCIAMB), disponível aqui.


Dados do gráfico

Perfil dos respondentes
Total de respondentes: 130
Homens 93,8%
Mulheres 6,2%
Escolaridade: Ensino Fundamental incompleto 83,1%
Relação de trabalho: Proprietário 85,4%
Idade média 54,7 anos
Média de idade com a qual começou na atividade rural 12,0 anos
Tempo médio de utilização de agrotóxico (em anos) 18,1 anos

Principais sintomas reportados
73,3% relatam ter sentido ao menos um dos sintomas nos últimos seis meses
Sintomas mais citados foram dor de cabeça (70,2%), seguido por cansaço (52,1%) e dor no corpo (46%)

Mal estar
54 agricultores (41,5%) responderam já ter sentido mal estar após uso de agrotóxicos.
Dor de cabeça foi novamente o sintoma de intoxicação mais citado (55,6%), seguido por enjoo (48,1%) e fraqueza (11,1%).

Uso de Equipamento de Proteção Individual
118 (90,8%) utilizam algum tipo de EPI
12 (9,2%) não utilizam nenhum tipo de EPI

EPI’s mais utilizados
95,0% usam botas;
93,3% usam roupa longa
1,7% utilizam viseira

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/575241-agricultores-nao-associam-uso-inadequado-de-agrotoxicos-ao-seu-estado-de-saude)

Bombas atômicas ''leves'', a nova ameaça de Trump


Pentágono quer banalizar a bomba atômica, construindo uma “pequena”, que tornaria o seu uso menos aterrador. A revelação circula há três dias e ajudou a inspirar o alerta público do Papa Francisco sobre os riscos de conflito atômico.
A reportagem é de Federico Rampini, publicada por La Repubblica, 17-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A primeira versão, publicada no The Huffington Post e citada no jornal La Repubblica, não foi desmentida pelo Pentágono, que se limitou a defini-la como “ainda não decidida”. Agora, uma detalhada antecipação do Wall Street Journalexplica que se trata da “Nuclear Posture Review”, elaborada pelo Departamento de Defesa e que já se encontra sobre a mesa de Donald Trump.
Há um ano, o presidente pedira uma revisão estratégica sobre a adequação do arsenal nuclear, na esperança do seu reforço. Os generais lhe explicam por que e como consideram que devem auxiliá-lo.
As novas armas nucleares “leves” seriam fabricadas em duas versões. Uma poderia ser montada sobre os mísseis Trident fornecidos aos submarinos atômicos. A outra poderia se tornar a cabeça de mísseis Cruise fornecidos à Marinha dos Estados Unidos.
O fato de o novo arsenal estar destinado à Marinha confirma a hipótese de poder usá-lo em cenários de guerras distantes, não para a defesa imediata do território dos Estados Unidos. A natureza das novas armas nucleares é definida como “low-yield”, isto é, de baixo rendimento, apenas porque a comparação é feita com as outras ogivas atômicas (cerca de quatro mil) do arsenal estadunidense: que vão de 100 a 455 kilotons em comparação com os 15 kilotons de Hiroshima.
Mesmo assim, se trataria de bombas atômicas, ou seja, de armas com uma capacidade de destruição enorme em comparação com os explosivos convencionais. A bomba atômica“de bolso”, porém, ofereceria a vantagem de poder justificar o seu uso tático, para um ataque preventivo, sem que isso deva desembocar na Terceira Guerra Mundial. Mais política do que militar, a lógica é a de reduzir as resistências que, depois de Hiroshima e Nagasaki, sempre impediram o conflito nuclear, até nos momentos mais tensos da Guerra Fria. O equilíbrio do terror entre as duas superpotências EUA-URSS mantinha ambas à beira do precipício, por medo da aniquilação mútua.
A hipótese de uma minibomba atômica “tática”, no entanto, não é nova. Ela foi antecipada pelos soviéticos nos “euromísseis”, que anunciavam, nos anos 1970, a possibilidade de um conflito atômico limitado à Europa, portanto, com a possível desvinculação dos Estados Unidos da defesa dos outros países da Otan.
Antes ainda, um uso limitado de bombardeios nucleares foi levantado como hipótese pelo general Douglas MacArthur contra a China de Mao, durante a Guerra da Coreia (1950-1953). Mas o presidente Truman expulsou MacArthur.
Agora, é novamente em Moscou e em Pequim que se deve procurar a justificativa da virada estadunidense. Antes antes de olhar para a ameaça da Coreia do Norte, o documento do Pentágono lança um alerta sobre o rearmamento nuclear das outras duas superpotências.
Rússia e China, defende o documento entregue a Trump, vem se movendo há anos na direção oposta à da desnuclearização. Vladimir Putin quis desenvolver uma nova geração de mísseis de cruzeiro terra-ar de porte intermediário, que seria, a reedição dos euromísseis: um arsenal estudado para o cenário de um conflito nuclear “limitado”.
Ainda de acordo com o documento do Pentágono, esses mísseis de nova geração violariam o tratado assinado em 1987 por Ronald Reagan e Michail Gorbachev. Ao contrário das novas armas russas, as ogivas nucleares “de baixa intensidade” que são propostas pelo Pentágono não violariam os tratados existentes, precisamente por serem instaladas em navios e submarinos. A fabricação dessas novas bombas, se Trump der o sinal verde, demoraria dois anos. A decisão do presidente está prevista para o fim de janeiro.
O anúncio da reviravolta ocorre no pano de fundo de uma crise aberta com a Coreia do Norte. A “hipótese MacArthur” será reproposta? Foi confirmado várias vezes que o Pentágono faz simulações sobre possíveis ataques militares contra Pyongyang, para atacar os seus arsenais nucleares para fins preventivos, já que agora os mísseis norte-coreanos podem alcançar os Estados Unidos.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/575325-bombas-atomicas-leves-a-nova-ameaca-de-trump)

Um terço das principais espécies pescadas está ameaçado


Ausência de políticas de conservação de cardumes ameaça espécies de peixes.
A reportagem é de Peter Moon, da Agência FAPESP, publicada por Jornal da UNICAMP, 18-01-2018.
O esgotamento mundial dos cardumes, a redução na diversidade do que é pescado e a diminuição no tamanho dos peixes capturados são grandes desafios para a atividade pesqueira. O enfrentamento dessas questões envolve o desenvolvimento de políticas de conservação de cardumes e de pesca sustentável.
Tais problemas não estão apenas ligados ao aspecto macroeconômico da indústria pesqueira e da aquicultura, responsáveis pelo abastecimento do mercado mundial com proteína animal marinha. Há os aspectos econômico-ecológicos ligados à pesca em pequena escala e que escapam às estatísticas dos organismos de fiscalização governamentais.
Esses aspectos envolvem a pesca artesanal em pequenas comunidades tradicionais, muitas delas espalhadas pelo litoral da Mata Atlântica brasileira, como revela um estudo que vem sendo desenvolvido ao longo dos últimos 20 anos em sete comunidades de pescadores artesanais no litoral sul do Rio de Janeiro e no litoral norte do Estado de São Paulo.
O estudo liderado por Alpina Begossi, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (Nepa) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), registrou que boa parte das espécies de peixes capturadas por pescadores artesanais se encontra em situação de ameaça. Begossi é também professora na Universidade Santa Cecília e diretora do Fisheries and Food Institute (FIFO), ou Instituto para a Pesca, Diversidade e Segurança Alimentar, do qual é uma das fundadoras.
A pesquisadora atua desde os anos 1980 na área de ecologia humana das comunidades de pescadores artesanais na costa da Mata Atlântica e de populações ribeirinhas da região amazônica. Seu método de trabalho consiste em combinar conceitos e modelos de biologia, ecologia e antropologia para entender as relações entre a população e o uso dos recursos naturais.
Begossi e colegas acabam de publicar a primeira radiografia da situação dos pescadores artesanais nos litorais de São Paulo e do Rio de Janeiro e dos pesqueiros dos quais eles dependem. O trabalho foi publicado na revista Ambio e está inserido em um Projeto Temático coordenado por Begossi e financiado pela FAPESP.
“A pesquisa resume uma série de projetos iniciados nos anos 1990, com pesquisadores do Brasil e, atualmente, com outros da França e da Croácia que vêm trabalhando comigo desde então”, disse Begossi.
Ela se refere aos coautores do artigo Natalia Hanazaki, da Universidade Federal de Santa CatarinaPriscila Lopes, da Universidade Federal do Rio Grande do NorteRenato Silvano, da Universidade Federal do Rio Grande do SulGustavo Hallwass, da Universidade Federal do Pará, e Svetlana Salivonchyk, do Institute for Nature Management da Bielorrússia.
“Temos reunidos 20 anos de dados de consumo da pesca artesanal. No período, fizemos o registro das espécies de peixes consumidas e constatamos a sua crescente escassez com o passar dos anos, o que está em concordância com os indícios de que algumas espécies estavam sendo superexploradas, enquanto outras entravam para a lista vermelha das ameaçadas”, disse.
Com o enorme conjunto de dados de que dispunha, o grupo resolveu reuni-lo no trabalho agora publicado. Entre 1986 e 2009, foram realizadas centenas de entrevistas com pescadores artesanais de sete comunidades nas ilhas de BúziosVitóriaJaguanum e Itacuruçá e em três localidades costeiras (Puruba, Picinguaba e Praia Grande/Paraty).
O questionário aplicado nas entrevistas com os pescadores era de respostas abertas e envolvia perguntas do tipo “Você comeu peixe no jantar de ontem?”, “Qual peixe?”, “E no almoço?”.
Entre 70 e 110 espécies de peixes são alvo de captura pela pesca artesanal e comercial na região. As oito espécies mais frequentemente mencionadas pelos entrevistados foram a anchova (Pomatomus saltatrix), pescada (Cynoscion sp.), corvina (Micropogonias furnieri), garoupa (Epinephelus marginatus), peixe-espada (Trichiurus lepturus), xarelete (Caranx sp.), tainha (Mugil curema) e imbetara ou betara (Menticirrhus americanus).
De um total de 65 espécies mencionadas pelos pescadores em 347 entrevistas e mais de 1,5 mil coletas sobre consumo, cerca de 33% tiveram redução de população desde o início do estudo em 1986, enquanto para 54% das espécies capturadas a situação de seus estoques é desconhecida de acordo com dados da União Internacional para a Conservação da Natureza.
Segundo os autores, a crescente escassez de tais espécies impacta a segurança alimentare o sustento dos pescadores artesanais que dependem dos recursos de sua captura tanto para a alimentação de suas famílias quanto para complemento de renda.
A maioria das espécies mencionadas é preterida pela pesca comercial pelo baixo volume dos cardumes. Por isso mesmo, elas têm maior valor individual e são fornecidas a restaurantes especializados no eixo Rio-São Paulo.
“Como resposta à ameaça aos cardumes, o governo brasileiro já estabeleceu diversas proibições à captura das espécies ameaçadas de extinção, sem, entretanto, incluir medidas de manejo da pesca e sem incluir prioridades no estudo dessas espécies”, disse Begossi.
“Se por um lado tal política visa proteger e recuperar os cardumes, por outro ela consiste em uma ameaça à pesca em pequena escala e ao sustento dos pescadores artesanais e suas famílias. A solução não está na proibição pura e simples da pesca destas espécies, mas no seu manejo sustentável”, disse.
Há ainda a questão da diversidade alimentar. “As espécies capturadas pela pesca artesanal são aquelas que garantem nossa diversidade alimentar. Os peixes preferidos, como a garoupa ou o robalo (Centropomus undecimalis), vêm da pesca artesanal. Nenhum deles vêm da pesca industrial”, disse a pesquisadora.
“Há espécies que eram comuns nos anos 1980, como a garoupa, mas que rarearam bastante. Hoje ainda se encontra garoupa, mas de tamanho menor. Já um peixe do mesmo gênero como o cherne (Epinephelus niveatus), este não se vê mais. Não é mais citado pelos pescadores. É um caso crítico”, disse.
O trabalho de Begossi e colegas destaca a necessidade de se reunir mais e melhores dados biológicos e ecológicos das espécies marinhas da costa da Mata Atlânticabrasileira. Segundo ela, esses dados são “urgentemente necessários” para ajudar a promover a conservação e o manejo destas espécies.
“Nossa opção é permitir que esses peixes desapareçam? Nossa escolha é daqui para a frente comer apenas três ou quatro espécies de peixes, aqueles fornecidos pela aquicultura, como a tilápia e o salmão? É esse o futuro que queremos?”, disse.
O artigo Threatened fish and fishers along the Brazilian Atlantic Forest Coast (doi:10.1007/s13280-017-0931-9), de Alpina BegossiSvetlana SalivonchykGustavo HallwassNatalia HanazakiPriscila F. M. Lopes e Renato A. M. Silvano, pode ser lido aqui.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/575355-estudo-constata-que-um-terco-das-principais-especies-pescadas-esta-ameacado-e-poe-em-risco-a-seguranca-alimentar)

domingo, 14 de janeiro de 2018

Para especialista, conceito de alimentos ultraprocessados confronta a indústria, que insiste em negar seus malefícios à saúde

Baixo custo e pouco valor nutricional são receita de ultraprocessados.
A reportagem é publicada por Jornal da USP, 08-01-2018.
Salgadinhos, refrigerantes e biscoitos: alimentos ultraprocessados feitos com ingredientes de baixo custo e pouco valor nutricional – muito açúcar, sódio, aditivos e sal. Produzidos com o intuito de serem “irresistíveis” e consumidos facilmente, esses alimentos oferecem riscos à saúde ao promover a obesidade, diabete e outras doenças crônicas relacionadas à alimentação.
Estudos sobre esses produtos e sua influência na saúde humana foram apresentados na revista científica Public Health Nutrition (volume 21, 2018), editada pela Sociedade Britânica de Nutrição. O número especial é dedicado à classificação criada pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USPsobre o grau de processamento industrial de alimentos.
“É uma proposta metodológica que tem impacto no primeiro mundo”, afirma o professor Carlos Augusto Monteiro da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP e membro do Nupens. Para ele, os artigos confirmam a hipótese sobre os ultraprocessados não serem saudáveis. Mais do que isso, o professor acredita que a classificação possui dimensão política, pois confronta a indústria alimentícia, que insiste em negar os malefícios desses alimentos à saúde. A maioria das embalagens dos ultraprocessadosverificados em um estudo na Austrália, por exemplo, trazia declarações nutricionais enganosas e os apresentava como “saudáveis”, apesar da alta prevalência de adição de açúcares adicionados e do questionável valor nutricional. Para a autora do estudo, o grau de declarações inadequadas ou imprecisas presentes é preocupante, particularmente em embalagens destinadas a atrair crianças.

Origem

A classificação denominada “Nova” foi proposta pela primeira vez em um artigo publicado em 2009 pela mesma revista. Desde então, vem sendo utilizada em estudos sobre sistema alimentar, dieta e saúde, em documentos técnicos de organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e a Organização Pan-Americana de Saúde, na orientação de políticas públicas em alimentação e nutrição e na construção de guias nacionais para a promoção da alimentação saudável e sustentável.
O conceito é fruto do projeto temático Consumo de alimentos ultraprocessados, perfil nutricional da dieta e obesidade em sete países e se divide em quatro classificações. A primeira categoria é composta de alimentos in natura, que devem ser a base da alimentação, como frutas e hortaliças. O segundo grupo é formado por ingredientes relativos à preparação culinária, o óleo, sal e açúcar, por exemplo. Já o terceiro são os alimentos preparados com adição de sal, açúcar ou outras substâncias do grupo dois, são eles: queijo, pães, legumes em conserva, entre outros. A última categoria se refere aos ultraprocessados.
A publicação traz 26 artigos assinados por pesquisadores de universidades e centros acadêmicos de vários países, incluindo ArgentinaAustráliaBrasilCanadáChileColômbiaEstados UnidosFrançaInglaterraMéxico, Nova ZelândiaLíbano Uruguai.
Os artigos publicados na revista Public Health Nutrition podem ser conferidos no site Cambridge Core.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/575067-para-especialista-conceito-de-alimentos-ultraprocessados-confronta-a-industria-que-insiste-em-negar-seus-maleficios-a-saude)

Nós, a História e as redes sociais

Por Jaime Pinsky, historiador e editor, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp.

Olhar para trás é humano. Com a laicização do mundo ocidental e o fim das certezas reveladas, antes garantidas pelas religiões, fomos ficando cada vez mais inquietos sobre o sentido de nossas vidas neste planeta. Com relação ao futuro, restou apenas o medo, no máximo uma esperança difusa. Restava fuçar nossas origens: levantamos histórias de aldeias perdidas nos Apeninos ou nas alagadas planícies da Europa Oriental e alimentamos a esperança de que memórias da família ou apenas recordações esparsas que coletamos com o auxílio dos mais velhos seriam capazes de nos tranquilizar em relação às nossas raízes. Líamos, estudávamos. Queríamos confirmar que éramos alguém.
Raízes sonhadas, raízes temidas. Poucos temos o despojamento de um famoso historiador brasileiro, oriundo de família supostamente aristocrática, que, perguntado sobre como seus ancestrais haviam amealhado fortuna, revelou que, ao contrário dos mitos de origem em voga, tratava-se de ladrões de cavalos e muares na Feira de Sorocaba, ainda na primeira metade do século XIX. Isso nunca teria acontecido com os nossos, é claro. Nossos avós eram intelectuais que não conseguiram estudar por terem que trabalhar para sustentar os irmãos mais novos, ou nobres que, por motivos políticos abandonaram uma situação privilegiada na Europa para se transformarem em camponeses de café no Brasil. Na pior das hipóteses era gente comum, mas séria, trabalhadora, tipos agregadores, daí as famílias tão bem estruturadas…
Nas festas o pessoal se juntava para compartilhar o peru, ou o leitão, o arroz de forno com legumes e carne moída (que comida é esta, meu Deus, de onde veio?) ou a massa quase afogada em molho de tomate ralo. Em famílias oriundas do Vêneto costumava-se preparar uma polenta para guarnecer o ossobuco. Aos poucos, as mulheres foram cedendo aos homens o direito – e a obrigação – da comida nas comemorações e o churrasco substituiu quase tudo. A linguiça barata para “encher a pança” dos mais famintos, a costela pingando gordura, a asinha ressecada de frango e, para os pacientes, a picanha, essa glória dos churrasqueiros tupiniquins, assada lentamente, deixada para o final, para os entendidos. Sempre havia reclamações. A Michelle, que virou vegetariana, não se conformava em se alimentar apenas de saladas em datas especiais e  lembrava saudosa da maionese da vó. O Marcos, primeiro da família a entrar na universidade – e logo em Medicina, um talento –, que pedia o retorno da família às origens italianas, afinal, um vinhozinho não faria mal a ninguém e era melhor do que a cervejinha “aguada”. E tinha também o tio Ricardo que, para não perder a fama de espírito de porco, reclamava de tudo e ainda levava de volta pra casa um fundinho de sorvete de creme barato que ele trazia em pote de dois litros. Mas, no geral, o ambiente era muito gostoso, família. Começava e acabava com abraços e beijos, reservados no começo, calorosos no final. Ninguém se importava com o cheiro de carne que perseguia os diferentes ramos familiares na volta para casa: ele só se fazia notar em um ou outro adolescente avesso ao banho, sporcaccione nato.
De pouco tempo pra cá as histórias de família não têm mais tido o mesmo sucesso. Não só a garotada dá um rosnado de insatisfação ao ter sua atenção chamada para ouvir o tio com suas velhas histórias “que não têm nada a ver”, mas mesmo a Cotinha, de solteirona cordata e generosa (ajudou a montar o enxoval de várias sobrinhas, e tudo com cretone de qualidade), transformou-se em uma militante do Facebook. A partir de suas próprias fontes de informação formula opiniões sobre tudo, de buracos da cidade (cavoucados durante a noite por inimigos do prefeito atual) à guerra civil na Síria (o Fuad da Kibelândia me disse que foi provocada por Trump junto com o primeiro-ministro de Israel), não esquecendo de problemas sociais (aborto é coisa do demo), esportivos (Brasil não ganha mais a Copa enquanto não acabarem com os terreiros de umbanda por aqui) e culturais (não é uma pouca vergonha uma mãe mandar a filha botar a mão em homem pelado, inda mais em público?).
Tia Cotinha lidera um grupo que rachou a família: ela se recusa a confraternizar com alguns “devassos” que, segundo ela, nem parecem ser da mesma família. Para não se encontrarem, uns e outros não vão mais aos churrascos. Mesmo porque, dizem, tem gente de lá que fez algumas escolhas esquisitas, do tipo viver com gente do mesmo sexo. E, pior que tudo, tiveram o descaramento de colocar fotos no Face.

A solução para a Terra não cai do céu


“A era ezóica representa uma restauração do planeta mediante uma relação de cuidado, respeito e reverência face a esse dom maravilhoso da Terra viva. A economia não é da acumulação mas do suficiente para todos de modo que a Terra refaça seus nutrientes”, escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.

Eis o artigo.

O que vou escrever aqui será de difícil aceitação pela maioria dos leitores e leitoras. Embora o que diga seja fundado nas melhores cabeças científicas, que há quase um século, vêm pensando o universo, a situação do planeta Terra e seu eventual colapso ou um salto quântico para outro nível de realização, não penetrou, no entanto, na consciência coletiva nem nos grandes centros acadêmicos. Continua imperando o velho paradigma, surgido no século XVI com NewtonFrancis Bacon e Kepler, atomístico, mecanicista e determinístico como se não tivesse existido um Einstein, um Hubble, um Planck, um Heisenberg, um Reeves, um Hawking, um Prigogine, um Wilson, um Swimme, um Lovelock, um Capra e tantos outros que nos elaboraram a nova visão do universo e da Terra.
Para iniciar cito as palavras do prêmio Nobel de biologia (1974) Christian de Duve que escreveu um dos melhores livros sobre a história da vida: ”Poeira vital: a vida como imperativo cósmico” (Campus 1997): ”A evolução biológica marcha em ritmo acelerado para uma grave instabilidade. O nosso tempo lembra uma daquelas importantes rupturas na evolução, assinaladas por grandes extinções em massa” (p.355). Desta vez ela não vem de algum meteoro rasante como em eras passadas que quase eliminou toda vida, mas do próprio ser humano que pode ser não só suicida e homicida, mas também ecocida, biocida e por fim geocida. Ele pode pôr fim à vida no nosso planeta, deixando apenas os microorganismos do solo que se contam em quatrilhões de quatrilhões de bactérias, fungos e vírus.
Em razão desta ameaçada montada pela máquina de morte fabricada pela irracionalidade da modernidade, se introduziu a expressão antropoceno, uma espécie de nova era geológica na qual a grande ameaça de devastação se deriva do próprio ser humano (antropos). Ele interveio e continua intervindo de forma tão profunda nos ritmos da natureza e da Terra que está afetando as bases ecológicas que os sustenta. Segundo os biólogos Wilson e Ehrlich desaparecem entre 70 a 100 mil espécies de seres vivos por ano devido a relação hostil que o ser humano mantem com a natureza. A consequência é clara: a Terra perdeu seu equilíbrio e os eventos extremos o mostram irrefutavelmente. Só ignorantes como R.Trump negam as evidências empíricas.
Em contrapartida, o conhecido cosmólogo Brian Swimme que na Califórniacoordena uma dezena de cientistas que estudam a história do universo se esforçam para apresentar uma saída salvadora. En passant se diga que B. Swimme, cosmólogo e o antropólogo das culturas Thomas Berry, publicaram, com os dados mais seguros da ciência, um história do universo, do big-bang até os dias atuais (The Universe Story, San Francisco, Harpert 1992) conhecido como o mais brilhante trabalho até hoje realizado. A tradução foi feita mas a tolice dos editores brasileiros predominou e até hoje não foi lançado. Criaram a expressão a era ecozóica ou o ecoceno, uma quarta era biológica que sucede ao paleozóico, ao mesozóico e ao nosso neozóico. A era ecozóicaparte de uma visão do universo em cosmogênse. Sua característica não é a permanência mas a evolução, a expansão e a auto-criação de emergencias cada vez mais complexas que permitem o surgimento de novas galaxias, estrelas e formas de vida na Terra, até a nossa vida consciente e espiritual. Não temem a palavra espiritual porque entendem que o espírito é parte do próprio universo, sempre presente mas que num estágio avançado da evolução se tornou em nós autoconsciente, percebendo-nos como parte do Todo.
Esta era ezóica representa uma restauração do planeta mediante uma relação de cuidado, respeito e reverência face a esse dom maravilhoso da Terra viva. A economia não é da acumulação mas do suficiente para todos de modo que a Terra refaça seus nutrientes.
O futuro da Terra não cai do céu mas das decisões que tomarmos no sentido de estarmos em consonância com os ritmos da natureza e do universo. Cito Swimme: ”O futuro será determinado entre aqueles comprometidos com o Tecnozóico, um futuro de exploração crescente da Terra como recurso, tudo para o benefício dos humanos e aqueles comprometidos com o Ecozóico, um novo modo de relação para coma Terra em que o bem-estar de toda a comunidade terrestre é o principal interesse”(p.502).
Se esse não predominar conheceremos possivelmente uma catástrofe, desta vez efetuada pela própria Terra, para se livrar de uma de suas criaturas que ocupou todos os espaços de forma violenta e ameaçadora das demais espécies, que, por terem a mesma origem e o mesmo código genético, são seus irmãos e irmãs, não reconhecidos mas maltratados e até assassinados. Temos que merecer subsistir nesse planeta. Mas isso depende de uma relação amigável para com a natureza e a vida e uma profunda transformação nas formas de viver. Swimme ainda acrescenta: ”Não poderemos viver sem aquele insight especial que as mulheres têm em todas as fases da existência humana”(p.501).
Essa é a encruzilhada de nosso tempo: ou mudar ou desaparecer. Mas quem crê nisso? Nos gritamos.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/575047-a-solucao-para-a-terra-nao-cai-do-ceu)