domingo, 11 de fevereiro de 2018

Sobre povos predestinados e fábricas equivocadas

Por Jaime Pinsky, historiador e editor, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp.

Difícil encontrar um povo que não se considere especial. Um se acha o mais bonito, outro o mais simpático, ou o mais trabalhador, o mais esperto, o mais genial… Além disso, muitos se consideram eleitos para um destinoespecial. E acreditam ter sido selecionados para essa missão por ninguém menos do que um deus, ou um conjunto de deuses. Restaria fazer jus à confiança divina… A ferro e fogo se for necessário. Portadores da Verdade (é isso, com maiúscula mesmo) os componentes desses grupos têm por objetivo na vida cumprir a missão atribuída pela divindade. Alguns estão determinados a mostrar ao mundo o caminho da retidão e da justiça. Outros acreditam ser racialmente superiores e estabelecem como objetivo submeter os demais povos, supostamente inferiores. Outros ainda se acham portadores de uma cultura superior, que devem impingir aos bárbaros de todas as épocas e latitudes. Mas todos têm em comum o fato de se sentir superiores e de ter uma missão. E é aí que reside o perigo.
Ter a verdade revelada por uma divindade implica em ter uma verdade absoluta, indiscutível. Mais ainda, significa sentir-se na obrigação de impingi-la aos outros. O passo seguinte dos fundamentalistas de todos os quadrantes é saírem a campo para amealhar mais ovelhas para o rebanho; isto que os leva a despejar para quem quiser ouvir (e para quem não quiser) as suas revelações. São uns chatos, mas isto não é o mais grave. O pior é que, quando têm condições, acham razoável – e justificável – impor suas verdades reveladas a todos. E são intolerantes contra os que não as aceitam. Tortura e execuções foram utilizadas pelos cristãos, em nome da fé, na Idade Média e durante a Inquisição. Ainda hoje, esses métodos são utilizados em áreas onde prevalece o fundamentalismo islâmico. Mesmo não empalmando o poder, grupos ultra ortodoxos judaicos em Israel defendem uma política nacionalista e excludente, em nome de sua verdade. Mas quando o fundamentalismo se junta ao poder político temos uma receita perfeita para autoritarismo, intolerância e até racismo.
A História tem registrado, também, outra modalidade de aplicação da “verdade absoluta”, uma mistura de doutrina política e religião do poder. O stalinismo, na União Soviética, com um ditador que “nunca errava” e eliminava os adversários, e mesmo os adversários imaginários; o maoísmo, na China, com um líder que se auto considerava sobre-humano, são ótimos exemplos da manipulação política de “verdades” doutrinárias. Mas o caso mais exemplar é o do líder nazista Hitler, na Alemanha. Como um povo culto como o alemão pôde incorrer em um erro histórico de proporções tão grandes como o de aceitar teorias racistas pregadas por ele e seu partido?  Acredita-se que tenham sido três os fatores principais: 1- a tradição local de governos autoritários; 2- a desastrosa situação econômica do país em função da derrota na Primeira Grande Guerra; e 3- uma convicção generalizada na superioridade do povo alemão. Gostaria de lembrar que a ideia da existência de uma suposta raça ariana, superior a todas as demais, com a função de conduzir o mundo e manter a sua pureza não surgiu com o nazismo, mas foi por ele incorporada e manipulada. Até a História foi manipulada com a invenção do arianismo no passado, implantando-se arianos na Índia, na Pérsia, por todo canto, desde que em papeis de liderança e, mais que isso, com funções de chefiar, dignas de uma raça superior, ao contrário de “raças” inferiores como a negra, os eslavos, latinos, ciganos, judeus, etc.
Passada a guerra, os alemães souberam fazer uma profunda autocrítica. Não apenas fizeram um acordo econômico com uma parte das famílias sobreviventes do holocausto (muitas foram completamente exterminadas, não havia como fazer acordo), como mandaram construir memoriais em várias cidades alemãs, e, ao contrário de austríacos e poloneses, assumiram explicitamente, por meio dos seus dirigentes, sua culpa, como Estado e como Nação.
Por tudo isso é que tem havido uma reação tão grande à notícia de que a Volkswagen (montadora de automóveis predileta de Hitler) havia feito experiências com macacos e seres humanos, submetidos a gás oriundo de canos de escapamento de automóveis. Segundo os jornais New York Times e Folha de S. Paulo, a Volkswagen, após fraudar o público e as autoridades a respeitos da poluição produzida por seus veículos resolveu fazer experiências com animais e gente, colocando sua vida em risco. E, mais grave, utilizando verdadeiras câmaras de gás, que remetem a período da História que todos querem apagar. Não tem como não lembrarmos que a Volks operava, no nazismo, com 90% de mão de obra escrava… Realmente, dá para entender os motivos que levaram Steffen Steibert, porta-voz do governo alemão, afirmar, irritado, que tais experiências são indesculpáveis.

Com as mesmas armas: a epidemia do açúcar em cliques

por Moriti Neto

Projeto de fotógrafo e nutricionista espanhol usa imagens de alta qualidade para contra-atacar as corporações alimentares e combater o maior motivo da obesidade no planeta  

Lista de compras às mãos, ando (ou corro, a depender do dia) pelo supermercado a checar tabelas nutricionais antes de colocar um produto no carrinho. Prateleiras imensas, poluição visual. Letras miúdas. Uma bagunça que quase faz desistir. Tento ler o óbvio. Mas nem o óbvio é acessível quando o outro lado – a indústria alimentar e os órgãos reguladores – não descortina o que há de fato dentro das embalagens. Busco, então, as quantidades de açúcares. O motivo é outra obviedade: doenças. Diabetes tipo 2, cáries, obesidade, da qual derivam hipertensão e problemas cardiovasculares.
“Bola dentro”, penso. Numa fração de tempo, porém, noto que chutei por cima do gol e que o adversário me goleou nos contra-ataques. A escalação do rival não deixa dúvidas: glucose de milho; lactose, xarope de malte, glicose e frutose; dextrose, maltose, xarope de milho e xarope de malte; maltodextrina e sacarose. No banco de reservas, néctares, açúcar invertido, açúcar de confeiteiro, açúcar mascavo, açúcar bruto, mel, açúcar branco/refinado, melaço/melado e caldo de cana engordam o elenco. Nomenclaturas craques em desorganizar o raciocínio de quem vai às compras, num jogo que tem por objetivo esconder que todas são uma só: açúcar.
Guerrear contra as 24 horas do dia cada vez mais curtas e os rótulos da indústria alimentar coloca os consumidores em situação complicada. Menos mal, que há quem use armas para revidar e dar munição ao lado mais fraco. O fotógrafo espanhol Antonio Rodriguez Estrada é um exemplo. De trajetória curiosa, ele é o fundador do site fotográfico SinAzucar (Sem Açúcar), projeto que denuncia a quantidade de açúcares escondida em alimentos, mesmo os vendidos como 0%, pelos quais, geralmente, pagamos mais.

Madrilenho de nascimento, Antonio tem 45 anos e se dedica à fotografia desde os 15. Aprendeu a lidar com as câmeras em experiências do dia a dia e cursos da área. Profissionalizou-se e passou a viver de clicar produtos diversificados e modelos para “books”. Apesar de a vivência acadêmica do espanhol ter seguido por outros caminhos (formou-se como engenheiro em informática na universidade), ele nunca se afastou das fotos.
Entusiasta da “vida saudável”, Are, como é mais conhecido na Espanha, passou a fazer crossfit há cinco anos, modalidade de exercícios físicos que escolheu por ser praticada de maneira “mais coletiva”. Realizou cursos de nutrição esportiva, nos quais obteve várias titulações. A combinação de duas paixões, a fotografia e a saúde, surgiu em formato de imagem pela primeira vez em 1º de outubro de 2016, quando decidiu publicar nas redes sociais a foto de um creme catalão, acompanhado da equivalência em açúcar, que era de 155 gramas. Não agradou a muitos. “Perdi seguidores”, confessa.

Perder adesões no Facebook, Instagram ou Twitter não foi problema. Ao contrário, o creme catalão era só o começo. E a repercussão da postagem embalou a criação do SinAzucar. “Quando eu comecei a olhar para os rótulos, descobri que muitos produtos que eu considerava saudáveis tinham muito açúcar. E uma das causas da atual epidemia de obesidade é o abuso de produtos industrializados na alimentação diária. Eu queria dar a minha contribuição para informar as pessoas disso, principalmente quando descobri quantas enfermidades estão associadas a eles”, diz Antonio.
Em linhas gerais, a ideia é fotografar o produto usando a mesma linguagem visual que a indústria emprega para vender. “Fotografia limpa, iluminação cuidada, retoque atrativo, impacto visual. O objetivo é chegar ao número máximo de pessoas pelas redes sociais”, explica o fotógrafo.
O trabalho é didático. Auxiliado por nutricionistas e outros profissionais da saúde, Antonio optou por apresentar cubos de açúcar (torrões com peso de 4 gramas cada) como forma de exposição de “açúcares ocultos”, ou seja, os que não despejamos diretamente no cafezinho ou na receita do bolo caseiro. O que o projeto pretende revelar são exatamente as quantidades que vêm embaladas pela indústria com tabelas nutricionais recheadas de estranhezas, aquelas que não conseguimos ler e interpretar corretamente na correria do cotidiano graças ao exagero (proposital?) de nomenclaturas incomuns e confusão visual.
Aspectos fundamentais também considerados são os valores nutricionais informados nas tabelas, já que eles se referem a certas quantidades do produto e não à embalagem toda. Cada rótulo traz uma porção determinada em gramas e, frequentemente, carrega uma referência de quanto de açúcar há ali. Quem come mais do que a porção indicada, deve calcular separadamente a quantidade de nutrientes. O SinAzucar trabalha com o valor total.
Sempre com a escolha de marcas de referência para aumentar a força dos alertas, as informações usadas pelo site saem dos rótulos dos próprios fabricantes dos produtos. Inicialmente, as fotos visavam aos itens com grandes quantidades de açúcar, como os refrigerantes, até que o fotógrafo percebeu que os alimentos mais surpreendentes negativamente eram aqueles em que o ingrediente era inesperado, a exemplo de molhos de tomatemolhos para salada ou iogurtes para bebês.
O imqucto positivo na Internet veio, conta um animado Antonio. Ele recebe, em média, 50 mensagens por dia, desde interações que trazem elogios ou críticas até as que apenas contêm dúvidas sobre o que consumir nas refeições. “A internet se tornou uma maneira de conseguir colaboradores que formam uma rede de compartilhamentos e trocas. Na Espanha, o SinAzucar já é visto por milhões de pessoas e funciona para entrar com o tema nos meios de comunicação tradicionais, jornais, rádio e TV”, enfatiza.
Atualmente, a iniciativa conta com 222 mil seguidores no Facebook, 152 mil no Instagram e 53 mil no Twitter. Apesar disso, não possui patrocínios. “Todos somos voluntários no projeto. Não temos nenhum tipo de apoio financeiro. É uma iniciativa voluntária”, ressalta o idealizador do trabalho.
Do cinema ao sono das crianças: pesadelo
Você vai ver um filme com a família. Para saborear “melhor” a experiência, compra pipoca doce e refrigerante para todos. É o combo “bomba de açúcar”. Segundo as fotos do SinAzucar, uma Coca-Cola tradicional em copo gigante tem, aproximadamente, 20 torrões de açúcar ou 79,5 gramas,  muito mais do que a quantidade máxima indicada por dia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 50 gramas. Esqueceu a pipoca? Ela é 50% açúcar. “Na prática, são 40 torrões e, então, quando sai do filme, você vai ao Burger King comer novamente, porque o nível de açúcar que ingeriu na sala de cinema faz você baixar o nível de açúcar no sangue e vem uma hipoglicemia”, argumenta Are.
Ainda dá para passar na Starbucks e tomar um café. Afinal, as crianças estão pilhadas e você precisa de energia até que durmam. Um cafezinho e quase 20 torrões de açúcar (80g) a mais te acompanharão. E não tem escapatória: se preferir uma lata de bebida energética, como o Red Bull, 13 torrões lhe descerão goela abaixo.
Chegada em casa. O leitinho dos filhos antes de deitar é obrigatório. Eles pedem a adição de chocolate em pó. Você topa e, se o achocolatado for o Nesquik, da Nestlé, a colher vai entrar e sair de uma embalagem que guarda 75,7% de açúcar na composição.
Você ainda não está na cama. O neném, que ficou com os avós durante a ida ao cinema, é o mais agitado e não caiu no sono. “Tem fome”, imagina o papai. Ele abre a geladeira e pega uma embalagem de iogurte “sabor natural” destinado a bebês, da Nestlé. É um copinho plástico. Pouco tamanho, mas açúcar de monte. O suficiente para que seu caçula vá dormir com mais 9 gramas (dois torrões e meio) do ingrediente no corpinho.

Nem as infusões preparadas para “acalmar” o sono infantil se salvam. Um mal exemplo é o Blevit Sueño, fabricado pela companhia Ordesa, da região da Catalunha, megaempresa que vende “complementos nutricionais” para crianças e adultos. Quarenta gramas do produto (dose recomendada para uma criança de 8 anos) possuem 38 gramas de açúcar, equivalente a 9,5 torrões. Quer dizer: só para adormecer, a pequena ou o pequeno devem ingerir quantidade próxima ao recomendado para todo o dia.
Tenha uma boa noite, se conseguir pregar o olho.

Pressão leve
Antonio Estrada Rodriguez conta que sofreu pressões da indústria, mas que, na maioria, elas foram “leves”. “Algumas me contataram, mas, de maneira amigável, para me dizer que o produto que eu fotografei não exemplificava todo o portfólio. Até pedem para retirar o produto, mas são presenças sutis, caminham com cuidado”, revela.            
O fotógrafo diz, no entanto, que um dos casos não foi de “pressão leve”. A mão pesada chegou em fevereiro de 2017, com a empresa de sucos Zumosol, que se sentiu atacada quando o projeto estampou uma imagem do Veggies Zumosol (um suco, em teoria, à base de verduras e frutas) ao lado de sete torrões de açúcar, ou seja, 28 gramas.

 “Até pedem (as empresas) para retirar o produto, mas são presenças sutis, caminham com cuidado”

Advogados exigiram que o SinAzucar removesse a foto. Enviaram um documento dando o prazo de três dias para a remoção da imagem e publicação de um texto “ditado por eles e que não poderia mudar em uma única vírgula, basicamente dizendo que os produtos eram super-saudáveis”. Antonio reagiu. Não aceitou que quisessem colocar palavras em sua boca. “Três minutos depois de receber o documento, eu o publiquei nas redes sociais como me havia chegado.”
A foto foi compartilhada muitas vezes e passou a despertar debates sobre o produto. Artigos na mídia abordavam a composição do Veggie Zumosol. “Se a Zumosol não tivesse feito nada, teria sido mais uma foto, mas a atitude fez com que aparecesse em jornais de circulação nacional e as pessoas diziam: ‘Ei, vejam que os sucos não são tão saudáveis’.”
De origem espanhola e vice-líder no segmento de sucos no país ibérico, a Zumosol foi adquirida, em 2013, pelo Toksöz Group, holding nascida na Turquia que atua nas áreas alimentar e farmacêutica. Já a foto do suco Veggie feita por Antonio jamais saiu do lugar.

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Ciência + ultraprocessados, de novo

Antonio R. Estrada é homem de múltiplas experiências. Como fotógrafo e esportista, acumula muitas viagens. Conhece bem cada solo onde pisa. Ele diz, sem titubear, que a Coca-Cola patrocina muitos eventos de nutrição (oh, surpresa!) na Espanha. “Isso, de alguma forma, pode condicionar publicações científicas, claro”, comenta.
Estrada conta que também é habitual encontrar produtos das corporações alimentares com selos de entidades de saúde que garantem “o quão saudável são sem que realmente sejam”. Tais organizações receberiam dinheiro em troca de referendar a qualidade dos itens.
O fotografo revela que, na Catalunha, um órgão de saúde pública chegou a distribuir, recentemente, uma espécie de guia da boa alimentação patrocinado pela Danone. No livro, principalmente direcionado aos pais de crianças, peças publicitárias estavam disfarçadas como textos institucionais. “Nas páginas sobre alimentação saudável dirigidas aos pais, havia produtos com nada de especial para as crianças. A marca e os textos publicitários estavam lá”, lembra.
De acordo com Antonio, tanto a questão dos eventos de nutrição quanto a publicidade de alimentos carecem de regulação na Espanha. Ele sabe do que está falando. Um dos principais itens a figurar no livro catalão era o Actimel, um leite fermentado que, para além dos ingredientes lácteos tradicionais do iogurte, contém um fermento específico, exclusivo da Danone, o probiótico L.Casei Danone, mais as vitaminas D e B6, formando um composto, que, segundo a fabricante, atua na flora intestinal e melhora a imunidade, dentre outros milagres. Mas, se considerarmos que um frasco de 100 g do produto leva 11,5 g de açúcares (11,5% da composição nutricional total, portanto), fica difícil acreditar que esse santo cumpra o que promete.

(fonte: http://outraspalavras.net/ojoioeotrigo/2018/02/com-as-mesmas-armas-epidemia-do-acucar-em-cliques/)

Entre discursos loucos e nobres, para onde devemos olhar para entender as chaves das políticas migratórias dos EUA

por Priscila Villela

A principal marca do governo Trump tem sido os seus apaixonados discursos grosseiros. Sem ‘papas na língua’, o atual presidente norte-americano tem quebrado protocolos atribuídos à sua posição, na medida em que qualifica imigrantes como aqueles que “trazem as drogas, trazem o crime, são estupradores”, contra os quais propôs a construção de um muro. Mais recentemente, ao se referir a países africanos, ao Haiti e a El Salvador, Trump se perguntou: “por que essas pessoas de países de merda vêm para cá?”.
Seus discursos têm chamado a atenção de jornalistas e analistas, que tem atribuído à sua gestão uma postura preconceituosa e intolerante muito diferente daquela adotada pela gestão anterior de Barack Obama. Carismático, despojado e com uma retórica atraente, o último presidente parece ter feito bom uso daquilo que Joseph Nye tem chamado de ‘soft power’.
Donald Trump, por outro lado, tem gerado desconforto entre membros do governo e da comunidade internacional com seus discursos, conforme noticiado nos jornais. Endossando sua visão sobre o tema, o atual presidente anunciou uma nova lei de imigração que suspende o programa Daca (Ação Deferida para Chegadas na Infância), promulgado por Obama em 2012, que concede vistos de estadia e de trabalho, por dois anos, renováveis, aos que chegaram aos Estados Unidos ilegalmente quando crianças. O programa contava, em 2017, com 800 mil beneficiários.
Democratas tem reagido a tais medidas. Ao ouvir o discurso de Trump sobre o tema na ocasião do Estado de União, os democratas acusam o presidente de ferir o ideal americano. “Nós acreditamos que todos são dignos. Essa é a promessa americana”, afirmou o deputado Joe Kennedy, do Partido Democrata. Crime de ódio contra estrangeiros nos Estados Unidos tem sido atribuídos, por Hillary Clinton, às medidas adotadas por Trump.
Ainda assim, cabe a pergunta: em que medida podemos considerar as ações de Trump uma novidade de fato na política migratória norte-americana? Os trechos que destacamos a seguir expressam um pouco o espírito por trás das políticas dos EUA neste campo, que enfatizam políticas de segurança e de fronteira para o controle sobre os imigrantes, bem como o “encargo que os estrangeiros impõem sobre o real cidadão norte-americano”.
“Todos os americanos, não só nos estados mais afetados, mas em todos os lugares do país, são justamente perturbados pelo grande número de estrangeiros ilegais que entram em nosso país. Os empregos que tomam podem estar nas mãos de cidadãos ou imigrantes legais. O serviço público que eles usam impõem encargos aos nossos contribuintes. Por isso, nossa administração se moveu agressivamente para garantir nossas fronteiras através da contratação de um número recorde de novos guardas de fronteira, deportando o dobro de estrangeiros criminosos como nunca antes, reprimindo a contratação ilegal, bloqueando benefícios para o bem-estar a estrangeiros ilegais. No orçamento que eu apresentarei, tentaremos fazer mais para acelerar a deportação de estrangeiros ilegais que são presos por crime. É errado e, em última instância, autodestrutivo para uma nação de imigrantes permitir o tipo de abuso de nossa lei de imigração que vimos nos últimos anos, e devemos fazer mais para detê-la”. (tradução livre, grifos nossos).
“Uma real reforma significa uma segurança de fronteira mais forte e podemos construí-la a partir do progresso que minha administração já alcançou – colocando mais homens na fronteira do Sul do que em qualquer momento da nossa história e reduzindo o cruzamento ilegal para os níveis mais baixos em 40 anos, estabelecendo um caminho responsável para obter a cidadania, um caminho que inclui uma verificação de antecedentes, pagamento de impostos e penalidades significativas, aprendizado de inglês e indo para trás da linha atrás a qual as pessoas tentam cruzar ilegalmente” (tradução livre, grifos nossos)*.
Os discursos proferidos em tais trechos parecem alinhar-se à abordagem de Trump dada ao tema da imigração, mas foram, na verdade, proferidos, respectivamente, por Bill Clinton e Barack Obama.

Uma eventual surpresa em relação aos autores da mensagem revela muito sobre como temos olhado de maneira simplista para as atuais políticas norte-americanas, assumindo como pressuposto o Trump ser um ‘louco’ ou ‘desequilibrado’ para sua função. Os discursos de Clinton e Obama passam uma mensagem muito parecida, com talvez uma certa diferença no tom; são mais finos, elegantes e recorrem menos a adjetivos e termos agressivos.
Vale ainda ressaltar que ambos foram presidentes democratas. Ou seja, ainda que os temas de controle das fronteiras e das imigrações nos Estados Unidos seja usualmente tido como uma pauta conservadora e, portanto, atribuída aos republicanos, de maneira mais ampla, e a Trump de maneira específica, os democratas gabam-se de recordes de fechamento para imigrantes. Vale destacar que Obama encerrou seu mandato com um memorável recorde de deportações, recorde outrora batido no mandato de Clinton. Obama chegou a deportar 2,5 milhões de pessoas entre 2009 e 2015 e chegou a ser apelidado de “deportador chefe” por líderes da comunidade italiana.
Os discursos apaixonados que Trump dedica a seu eleitorado conservador e raivoso atinge o campo de análise sobre o qual nos debruçamos. Sua falta de modos e pudor tem sobressaído como objeto de análises na área, o que, de certa maneira absolve ações tão conservadoras e preconceituosas patrocinadas por seus antecessores, seja na proteção que Clinton prega contra a autodestruição de uma visão sua da “nação de imigrantes”, seja para a limitação do que Obama considerava a responsável forma de “obter a cidadania”. De uma forma geral, há um consenso sobre quem pode fazer parte do “sonho americano”. Você deve estar se perguntando se “é tudo a mesma coisa?” ao se referir a republicanos e democratas. Podemos dizer que em algumas questões, como essa, por exemplo, as diferenças são mínimas e em outros temas, como seguridade social e questões econômicas, as diferenças entre os partidos se apresentem de maneira mais marcante. O importante é que lancemos um olhar cuidadoso na forma como cada um apresenta suas agendas e não assumamos, a priori, um posicionamento conservador aos republicados e outro, que consideremos liberal, aos democratas.
* Acesse aos discursos pelo link

** Priscila Villela é pesquisadora do GECI, doutoranda do Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP) e professora de relações internacionais na PUC-SP.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Nas mãos de quem nós estamos: 'Médicos são liberados para a vida profissional sem controle de qualidade', diz Drauzio Varella

Havia passado batido pelo artigo do doutor Drauzio publicado na Folha há quase um mês. É devastador. Mostra nas mãos de quem estamos, que tipo de médico está sendo formado anualmente no Brasil e, pior, absolutamente sem controle, exceto pelo Conselho de São Paulo, que aplica uma prova em que mais da metade é reprovada ano a ano ("temas gerais de grau intermediário de dificuldade", doutor Drauzio) , mas sem resultados práticos, porque não é requisito para o exercício da profissão e é facultativa.

Com faculdades particulares cobrando mensalidades que vão de R$ 5 mil a R$ 16 mil, total falta de controle sobre o que produzem, como esperar algo além de (com raras, e cada vez mais raras, exceções) uma fábrica de coxinhas?

Somos vice-campeões mundiais em número de faculdades de medicina. Temos 305. A Índia é a primeira colocada com cerca de 400 faculdades, para uma população seis vezes maior do que a nossa. Na China há 150 faculdades para 1,3 bilhão de habitantes; nos Estados Unidos, 131 para 300 milhões. 

Em 1997, tínhamos 85 escolas médicas. Em 20 anos mais do que triplicamos esse número, graças à explosão das escolas particulares que hoje correspondem a mais de 60% do total, a um custo mensal que varia de R$ 5.000 a R$ 16 mil, por aluno. 

Há 13 anos, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) realiza exame teórico, facultativo, para os doutorandos do Estado. Apesar de a prova abranger temas gerais de grau intermediário de dificuldade, são reprovados mais da metade dos alunos. 

Não é difícil explicar: 
1) No país, não existem professores com formação acadêmica em número suficiente. 
2) As instalações e os laboratórios de boa parte das faculdades são inadequados para o ensino das cadeiras básicas. 
3) A maior parte das faculdades autorizadas pelo MEC não conta com hospitais-escolas dignos desse nome. 
4) A expansão agravou a falta de vagas para a residência médica, que hoje mal atendem metade dos recém-formados. 

Alunos com preparo deficiente são reprovados nos concursos para residência, fase essencial para o aprendizado clínico. Vivemos um paradoxo: enquanto os melhores alunos investem mais cinco anos na formação, uma legião de despreparados vai atender gente doente. 

A OAB enfrenta o problema com o exame da Ordem, sem o qual o advogado não exerce a profissão. Se a OAB considera esse procedimento essencial, com muito mais razão deveria existir uma lei semelhante para os médicos. 

O mercado tem mecanismos para se livrar do advogado incompetente, enquanto os médicos são liberados para a vida profissional sem o menor controle de qualidade. Por acaso, quem vai ao SUS ou sofre um acidente na estrada pode selecionar o médico que vai atendê-lo? 

O argumento de que temos profissionais em número insuficiente e que o aumento de vagas servirá para compensar essa falta é infantil: nossos médicos estão mal distribuídos. Senão, vejamos: 

1) A julgar pela média do país, não estamos tão mal: 2,1 médicos para cada mil habitantes, contra 2,5 nos Estados Unidos, 2,4 no Canadá e 2,2 no Japão; 
2) O problema é que 55% deles trabalham no Sudeste, o triplo da região norte. No Maranhão há apenas 1,3%; 
3) Nas 27 capitais estão concentrados 55% dos profissionais. Os demais ficam responsáveis por 5.543 municípios. 

A formação médica completa exige seis anos de curso em período integral e mais cinco anos de residência. Depois de investir tanto tempo e recursos financeiros, quantos se interessarão em mudar para cidades pequenas, sem dispor de uma carreira organizada no serviço público (como a dos juízes, por exemplo), recursos técnicos e instalações mínimas para a prática da profissão? 

De que cartola tiraram a ideia de que filhos de famílias em condições de pagar em média R$ 6.000 a R$ 7.000 por mês estarão dispostos a abandonar as comodidades da vida urbana, para atender ribeirinhos na Amazônia, lavradores no interior do Maranhão ou conviver com a violência das comunidades periféricas das cidades brasileiras? 

O Cremesp propõe que os alunos de medicina sejam submetidos a avaliações a cada dois anos, para que as falhas na formação sejam corrigidas a tempo. Os diplomados fariam um exame nacional obrigatório, por lei. Os reprovados voltariam para cursos de reforço nas faculdades em que estudaram. 

Em pouco tempo, escolas com índices altos de reprovação seriam fechadas pelo MEC. 

Não conheço um médico que não esteja preocupado com a qualidade dos profissionais que essas escolas medíocres despejam no mercado. Não conheço um que não seja a favor da avaliação obrigatória. Duvido que você, leitor, seja contrário. 

Se todos concordam que um exame de suficiência semelhante ao que o Cremesp realiza ajudaria a proteger a sociedade da incompetência de médicos mal formados, quais interesses políticos e financeiros impedem que uma lei com essa exigência seja aprovada? 

Drauzio Varella - Médico cancerologista, dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer. Um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho em prisões.

(fonte: http://blogdomello.blogspot.com.br/2018/02/nas-maos-de-quem-nos-estamos-medicos-sem-controle-de-qualidade-dr-drauzio.html) 

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A hora e a vez dos estudantes na defesa da democracia

Texto escrito por José de Souza Castro:
Ana Rita Trajano, sogra de minha filha Cris, emprestou-me um livro escrito pelo jornalista Américo Antunes: “Nós, que amamos a revolução”. Uma viagem ao passado recente – final dos anos 1970, quando o Brasil começava a ter esperança de vencer a ditadura e retomar o árduo caminho da democracia barrado pelo golpe de 1964. Democracia que vai sendo barrada de novo, repetindo-se a história como uma farsa, com o bufão Temer disputando os holofotes da TV com um punhado de juízes muito bem pagos, sabe-se lá por quem.
Escrito nos anos 80 numa máquina de escrever, o autor perdeu os originais, que só foram recuperados uma década depois. Finalmente, o romance do ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais foi publicado em 2016. Ana Rita foi ao lançamento em novembro daquele ano, no restaurante Casa dos Contos, em Belo Horizonte.
O tempo passado entre a redação do livro e sua chegada às minhas mãos foi nada mais que um átimo nos planos da História…
Quando os fatos históricos narrados por Antunes ocorreram, eu não participava do movimento estudantil, como fazia o autor. Mas me interessava muito pelo que os estudantes movidos a droga, sexo e, sobretudo, pelo ideal revolucionário vinham fazendo, pois eu era repórter do “Jornal do Brasil” (JB) que tudo fazia para furar o bloqueio da censura. Entre as coberturas memoráveis daquele tempo, destacava-se a do III Encontro Nacional dos Estudantes (III ENE), “duramente reprimido em Belo Horizonte, em junho de 1977”, lembra o autor.
Robertão, um dos personagens da ficção, afirma na página 67:
“Apesar da censura à imprensa, a repressão ao III ENE estava sendo tão brutal e escandalosa que não haveria como esconder os acontecimentos desse histórico dia quatro de junho de 1977 da sociedade brasileira. Déramos, enfim, um passo decisivo na luta pelas liberdades democráticas e ele terá profundas repercussões no país, comemorei satisfeito. Mais uma vez o ME (Movimento Estudantil) mostrava o seu papel estratégico de força auxiliar dos trabalhadores, de banda de música do movimento operário…”
No dia 4 de junho, a segunda chamada mais importante da primeira página do JB era esta: “Minas fecha Faculdade para impedir o Encontro”. O III ENE seria realizado naquele dia na Faculdade de Medicina da UFMG. Mesmo com a repressão anunciada, centenas de estudantes conseguiram furar o bloqueio policial, mas tiveram que se retirar, diante da ameaça de que o local seria invadido pelo Batalhão de Choque. Cerca de 800 estudantes foram recolhidos em ônibus na porta da Faculdade e levados para o Parque de Exposições da Gameleira, onde passaram a noite sendo ouvidos e fichados pelas polícias civil e militar.
Lembro-me que o JB deu grande espaço aos episódios daquele dia, mas infelizmente a edição do dia 5 de junho não está disponível na internet e nem em meus arquivos pessoais.
Américo Antunes, porém, fez uma extensa pesquisa, e quem se interessar por aquele momento da história vai encontrar em seu livro uma boa fonte. É uma história romanceada e, como não poderia deixar de ser, o leitor será brindado também com muito sexo e drogas que amenizavam ou intensificavam, dependendo do ponto de vista, as tensões da luta contra a ditadura.
Dois meses antes do III ENE, o general Ernesto Geisel havia baixado o Pacote de Abril, para evitar que a oposição à ditadura repetisse nas eleições de 1978 o êxito da última eleição, que pude descrever numa reportagem de duas páginas no JB com um título maroto (“Votos de 74 talvez não tenham dado eleitores ao MDB”) bolado pelo então editor de política, Elio Gaspari, para tentar sossegar os milicos linha dura. O texto ocupa 10 páginas do livro “O caçador de estrelas e outras histórias”, disponível na biblioteca deste blog, e se baseava num estudo de professores e cientistas políticos de 11 Estados publicado pela “Revista Brasileira de Estudos Políticos da Universidade Federal de Minas Gerais”. A reportagem assinada por mim foi publicada no primeiro caderno do JB no dia 5 de setembro de 1976.
Uma das queixas dos líderes estudantis, em 1977, era sobre a apatia política da classe operária. Marcos, um deles, na ficção de Antunes, diz lá na página 179, analisando os avanços obtidos desde o III ENE:
“Mas a verdade é que vivemos uma nova realidade política mesmo, e 79 será um ano de avanços maiores ainda, pode escrever Andréa! Nesse ano nós vamos reconstruir a UNE no congresso de Salvador. E Lula e os sindicalistas do ABC já viram que não dá pra conquistar melhores salários e condições de trabalho dignas sem derrubar a sociedade de exploração, imposta pelos patrões e pelo governo deles. Após as greves, eles estão defendendo a criação de um Partido dos Trabalhadores! Um puta avanço, e estamos firmes no movimento pró-PT! O AI 5 também caiu de podre e os exilados já começaram a voltar para o Brasil! Você viu os jornais da virada do ano? Um barato! Todos eles deram manchetes enormes sobre o fim do AI 5! Até guardei o JB…”
Bem, chegou o momento de remeter ao último artigo da nora da Ana Rita Trajano, que é mãe do Beto e avó do Luiz pelo lado paterno. Luiz que, aos 2 anos, tem um longo futuro pela frente, se o Brasil conseguir superar o momento desastroso de hoje, sem maiores tumultos sociais e crises econômicas.
Que o movimento estudantil, mais uma vez, seja a banda de música do movimento operário, para o bem da maioria dos brasileiros.
(fonte: https://kikacastro.com.br/2018/01/31/movimento-estudantil/)

E quando vier a próxima crise financeira?

Há dez anos, bancos inundaram os parlamentos de dinheiro para “azeitar” decisões a seu favor e culpar sociedades e Estados pelo desastre. Mas há um segundo round em curso
Por Walden Bello, na Telesur  | Tradução: Eduardo Sukys, do Círculo de Tradutores Voluntários
Quando o chão se abriu sob Wall Street em setembro de 2008, muito se falou sobre dar aos bancos o que eles mereciam, prender os “banksters”, banqueiros gângster, e impor uma regulação draconiana. O então recém-eleito Barack Obama chegou ao poder prometendo uma reforma bancária e mandando um aviso a Wall Street: “Meu governo é a única coisa que separa vocês da ira popular”.
Porém, quase dez anos após a erupção da crise financeira global, é evidente que os responsáveis por ela conseguiram sair completamente impunes. E não foi só isso, eles conseguiram convencer os governos a mandar a conta da crise, e o fardo da recuperação, para as vítimas.
Como Wall Street venceu
Como eles tiveram êxito? A primeira linha de defesa dos bancos foi fazer os Estados resgatarem os bancos do desastre financeiro que eles haviam criado. Nos EUA, os bancos recusaram categoricamente a pressão do governo para montar uma salvaguardas coletivas com seus próprios recursos. Manipulando o colapso dos preços de ações, causado pela falência do banco Lehman Brothers, os representantes do capital financeiro conseguiram chantagear tanto os liberais quanto a extrema direita no Congresso para aprovar o programa TARP (Troubled Asset Relief Program) de US$ 700 bilhões. A nacionalização bancária foi descartada como sendo algo inconsistente com os “valores americanos”.
TEXTO-MEIO
Depois conseguiram, em 2009 e 2010, estripar da lei Dodd-Frank os três itens principais vistos como necessários para uma reforma genuína: reduzir o tamanho dos bancos separando institucionalmente as instituições comerciais das de investimento; banir a maioria dos produtos financeiros derivativos e regular eficazmente o chamado “sistema bancário paralelo”, que havia provocado a crise.
Eles fizeram isso usando o que Cornelia Woll chamou de “poder estrutural” do capital financeiro. Uma dimensão desse poder foram os US$ 344 milhões gastos pela indústria com pressões sobre o Congresso norte-americano nos primeiros nove meses de 2009, quando os parlamentares estavam se dedicando à reforma financeira. Só o senador Chris Dodd, presidente do Comitê Bancário do Senado, recebeu US$ 2,8 milhões em contribuições de Wall Street em 2007 e 2008. Porém, talvez tão poderosa quanto a pressão de Wall Street entrincheirada no Congresso foram as vozes potentes da então novo governo Obama, que simpatizavam com os banqueiros. Destacaram-se principalmente o secretário do Tesouro, Tim Geithner, e o chefe do Conselho de Assessores Econômicos, Larry Summers, ambos ex-colaboradores próximos de Robert Rubin, que possuía sucessivas encarnações como copresidente da Goldman Sachs, chefe do Tesouro de Bill Clinton e presidente e conselheiro sênior do Citigroup.
Finalmente, o setor financeiro teve sucesso exercendo seu poder ideológico, ou talvez a descrição mais precisa seja atrelando sua defesa à ideologia neoliberal dominante. Wall Street foi capaz de mudar a narrativa sobre as causas da crise financeira, jogando a culpa totalmente no Estado.
Isso fica bem claro no caso da Europa. Assim como nos EUA, a crise financeira na Europa foi uma crise centrada na oferta de produtos financeiros. Os grandes bancos europeus procuraram substituir os lucros baixos, obtidos nos empréstimos à indústria e agricultura, por operações de alto lucro e retorno rápido, como crédito imobiliário e especulação em derivativos financeiros. Ou então, aplicaram seus fundos excedentes em títulos de alto rendimento vendidos pelos governos. Realmente, na busca por lucros cada vez maiores, provenientes do crédito imobiliário a governos, bancos locais e construtoras, os bancos europeus despejaram US$ 2,5 trilhões na Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha.
O resultado foi o aumento da relação dívida/PIB da Grécia para 148% em 2010, levando o país à beira de uma crise da dívida pública. Pensando em proteger os bancos, a abordagem das autoridades europeias para estabilizar as finanças da Grécia não foi penalizar os credores pelo crédito irresponsável, mas colocar nos ombros dos cidadãos todo custo dos ajustes.
A narrativa construída, que via como causa da crise o “Estado gastador”, e não em um setor financeiro privado desregulado, chegou rapidamente aos EUA. Aí foi usada não só para descarrilhar a verdadeira reforma bancária, mas igualmente para impedir a sanção de um programa de estímulo efetivo à economia, em 2010. Christina Romer, chefe do Conselho de Assessores Econômicos de Barack Obama, avaliou que seriam necessários US$ 1,8 trilhões para reverter a recessão. Obama aprovou menos da metade, ou US$ 787 bilhões, acalmando a oposição republicana, mas impedindo uma recuperação rápida. Assim, o custo da insensatez de Wall Street recaiu não sobre os bancos, mas sobre os norte-americanos comuns. O desemprego atingiu quase 10% da mão de obra em 2011, e o desemprego entre os jovens superou os 20%.
Vitória do grande capital nos EUA e na Europa
O triunfo de Wall Street em inverter a revolta popular contra si, após a erupção da crise financeira, ficou evidente na disputa para as eleições presidenciais de 2016. As estatísticas norte-americanas eram claras: 95% dos rendimentos econômicos de 2009 a 2012 foram para as mãos do 1% mais rico; o rendimento médio anual das pessoas havia caído 4 mil dólares em comparação com 2000; a concentração de ativos financeiros aumentou após 2009, com os quatro maiores bancos detendo quase 50% do PIB. Regular Wall Street não havia sido uma questão debatida nas eleições primárias republicanas, enquanto nos debates dos democratas era uma questão secundária, apesar dos esforços do candidato Bernie Sanders de torná-la o ponto central.
As instituições políticas de uma das democracias liberais mais avançadas do mundo não foram páreo para o poder estrutural e recursos ideológicos do establishment financeiro. De acordo com Cornelia Woll: “Para o governo e para o Congresso, a principal lição da crise financeira em 2008 e 2009 foi que eles tinham uma influência muito limitada sobre o comportamento do setor financeiro em casos de necessidade urgente pela sobrevivência de todo o setor e da economia em geral”.
Na Grécia, as políticas de “austeridade” provocaram uma revolta popular, expressa no referendo de junho de 2015, em que mais de 60% do povo grego rejeitou o acordo com os credores. Porém, no final das contas, a vontade deles foi esmagada enquanto o governo alemão forçava o primeiro-ministro Alexis Tsipras a uma rendição humilhante. Está claro que o principal motivo era salvar a elite financeira europeia das consequências de suas políticas irresponsáveis, impondo o princípio de ferro de pagamento total da dívida e crucificando a Grécia a fim de dissuadir os outros, como os espanhóis, irlandeses e portugueses, de se revoltarem contra a servidão por dívida. Conforme admitiu há algum tempo Karl Otto Pöhl, um ex-chefe do Banco Federal Alemão, o exercício draconiano na Grécia se resumia a “proteger os bancos alemães, mas principalmente os bancos franceses, das anulações da dívida”.
Vitória de Pirro
Porém, é provável que a vitória dos bancos seja de Pirro. A combinação de uma profunda recessão induzida pela austeridade, ou de uma estagnação que engole grande parte da Europa e dos EUA, e a ausência da reforma financeira é fatal. A estagnação prolongada resultante e a perspectiva da deflação desencorajaram o investimento na economia real para expansão de bens e serviços.
Enquanto isso, durante a paralisação da ação para regular novamente as finanças, as instituições financeiras têm ainda mais motivos para fazer exatamente o que fizeram antes de 2008 e que disparou a crise atual: envolver-se em operações de muita especulação, criadas para gerar superlucros , antes que a lei da gravidade cause a quebra inevitável.
Atualmente, o mercado de derivativos não transparentes está estimado em um total de US$ 707 trilhões — consideravelmente superior aos US$ 548 bilhões em 2008, de acordo com o analista Jenny Walsh. “O mercado tornou-se tão incrivelmente vasto que a economia global está correndo o risco de prejuízos imensos, caso uma pequena porcentagem dos contratos não seja honrada. Seu tamanho e possível influência são difíceis de compreender, que dirá avaliar.” O ex-presidente da Comissão de Títulos e Câmbio dos EUA Arthur Levitt concordou, dizendo a um escritor que nenhuma das reformas pós-2008 “diminuíram consideravelmente a probabilidade de crise financeira”.
Por isso, a pergunta não é se outra bolha vai estourar, mas quando.
Vencendo o próximo round
A próxima pergunta é: será que a próxima crise bastará para conseguir o que a reação à crise financeira de 2008 não conseguiu — ou seja, limitar a ação do capital financeiro? Em seu livro clássico A Grande Transformação (Editora Campus, Rio, 2ª ed, 2000) Karl Polanyi falou sobre o “duplo movimento”, segundo o qual o excesso de capital cria um movimento contrário entre as pessoas, o que força o Estado a restringi-lo e regulá-lo.
Com relação a isso, podemos aprender com a experiência inédita na Islândia. Em outubro de 2015, o sistema judiciário islandês mandou para a cadeia os diretores dos maiores bancos do país, junto com 23 de seus principais assessores. A sentença foi a conclusão de um processo no qual a Islândia pegou um caminho diferente com relação aos EUA e ao resto da Europa. Ela deixou os bancos afundarem, em vez de resgatá-los com a desculpa de serem “grandes demais para quebrar”. Ela realizou operações de resgate sim, mas dos cidadãos comuns em vez de banqueiros, perdoando dívidas de hipoteca que ultrapassavam 110% do valor real da residência vinculada ao empréstimo.
A economia da Islândia não desmoronou quando permitiu que seus maiores bancos fracassassem. Conforme indicado por um artigo,
A Islândia retomou o crescimento econômico muito mais rápido do que os céticos esperavam depois de romper com a abordagem conciliatória para com os atores do setor financeiro usada pela maioria dos países após o colapso global. A taxa de crescimento da pequena economia ultrapassou a média dos países europeus em 2012. Ela congelou sua taxa de desemprego desde o pico da crise.
O país foi capaz de domar o setor financeiro graças a vários fatores. Um foi o tamanho relativamente pequeno de sua democracia. Com uma população de apenas 329 mil pessoas, a maioria delas na capital, Reykjavik, os políticos da Islândia estavam suscetíveis a uma pressão muito direta do eleitorado, que em grande parte havia sofrido perdas terríveis. Outro fator: não fazia tempo que o setor financeiro havia emergido como o principal condutor da economia, e a elite financeira não havia alcançado o imenso poder estrutural e ideológico que o capital financeiro alcançou nos EUA, no Reino Unido e no restante da Europa.
A Islândia pode ter sido a exceção à regra, mas demonstra que o controle democrático sobre os bancos é possível.
Para evitar outras crises com custos sociais trágicos, temos a tarefa urgente de trazer novamente o setor financeiro sob o controle democrático, para redesenhar a relação da sociedade com o capital financeiro — aliás, com o próprio Capital.
(fonte: https://outraspalavras.net/destaques/e-quando-vier-a-proxima-crise-financeira/)

sábado, 27 de janeiro de 2018

A indústria alimentar engrossa a fila da saúde

por Moriti Neto

Você já viu ou escutou falar do propagandista médico dos grandes laboratórios farmacêuticos? Saiba que as corporações de alimentos também têm um verdadeiro exército de propaganda, disfarçada ou não, na área da saúde

Você está lá, aguardando o atendimento do profissional de saúde com quem marcou consulta há tempos. Sala de espera. Quarenta, cinquenta, sessenta minutos de atraso. Impaciência. Várias olhadas no celular. Talvez, a leitura de um livro. Café. Qualquer coisa para fazer o tempo passar. O paciente que o antecedia na numeração da senha sai do consultório. Alívio: “É a minha vez”. Porém, o seu nome não é chamado. Tudo porque o médico acena ao portador de uma grande maleta cheia de caixas de remédios. É o propagandista da indústria farmacêutica, a pessoa que vai oferecer amostras grátis de medicamentos a quem já deveria ter lhe atendido bem antes. Respire fundo, vem mais chá de cadeira e não é improvável que o “doutor”, quando finalmente lhe abrir a porta, receite uma das marcas que acaba de receber como sugestão. Não faltam casos assim mundo afora. O que poucos de nós sabemos é que a indústria da alimentação adota prática semelhante. “À medida que os laboratórios farmacêuticos visitam os consultórios médicos para apresentar remédios, a indústria alimentar tem também uma agenda de apresentação de produtos”, ressalta o espanhol Juan Revenga, consultor em nutrição, que coloca a Danone como destaque entre as corporações que assim agem. “Essa empresa tem visitas no portfólio de atividades e isso está acontecendo até na saúde pública da Espanha”, afirma.

Revenga é professor da Universidade de San Jorge, na província de Saragoça, blogueiro, e autor dos livros Con las manos en la mesa (Com as mãos sobre a mesa, ainda sem edição em português) e Adelgázame, miénteme (Emagreça-me, minta-me, também sem edição em português), no qual relatou casos de médicos que recomendam o uso de certos produtos lácteos fermentados, como o Actimel, que leva um “fermento específico, exclusivo da Danone” e que serviria para regular a flora intestinal, além de “melhorar a imunidade a doenças”. Segundo ele, as recomendações não são embasadas cientificamente na maioria das vezes e a motivação não é a saúde do paciente, mas a manutenção das relações nebulosas entre  profissionais e grandes corporações de alimentos.

“Esses tipos de práticas são desagradáveis para mim e fazem parte de todas as sociedades médicas e científicas que não declaram conflito de interesse”, diz o nutricionista. Ele acredita que as megaempresas do setor buscam se apresentar como saudáveis para obter o endosso de médicos e sociedades de saúde. Em troca, além de amostras de remédios, as transnacionais oferecem viagens, patrocínios a eventos científicos e financiamento de pesquisas.

Não são poucos os casos em território espanhol de congressos ou fóruns nutricionais patrocinados por grandes marcas de alimentos. Um dos mais emblemáticos dos últimos tempos ocorreu no 36º C0ngresso da Sociedad Española de Medicina Familiar y Comunitaria (Semfyc), realizado na cidade de Corunha, em maio de 2016. Nele, um dos destaques foi o “IV Fórum de Educação em Saúde sobre Nutrição, Alimentação e Exercício Físico em Atenção Primária”, patrocinado por empresas como Danone e Herbalife Nutrition.

Médico de família em Madri e ex-vice-presidente da Sociedad Madrileña de Medicina de Familia y Comunitaria (Somamfyc), Vicente Baos concorda com muitos aspectos apresentados por Revenga. “Esses patrocínios são uma publicidade secreta, que as marcas patrocinadoras usam para apresentar opiniões a toda a comunidade profissional. São meras plataformas de propaganda. Não há nada para discutir cientificamente com uma empresa de salsicha, por exemplo”, argumenta.

Enquanto Baos e Revenga denunciam os conflitos de interesses existentes – mas não declarados – quando as entidades aceitam dinheiro das corporações e se comprometem a endossar determinados produtos financiadas por marcas de alimentos, há quem vá na contramão dessa linha crítica. Carmen Gómez Candela, médica com 25 anos de atuação como chefe da Unidade de Nutrição e Dietética Clínica do Hospital Universitário de La Paz, em Madri, justifica o apoio da indústria. “O fato é que as convenções científicas não são organizadas por empresas de alimentos; eles só contribuem com o capital para que possam ser realizadas, como acontece com as empresas farmacêuticas. Não há diferença em termos de conceito “, assegura.

A médica afirma que esse tipo de “parceria” permitiu que conhecesse de perto a evolução da indústria e serviu para esclarecê-la de que o açúcar pode ser defendido cientificamente, “na medida apropriada”. Também membro do comitê científico do Instituto de Estudos de Açúcar e Beterraba da Espanha, Carmen enfatiza: “Em quantidades moderadas, o açúcar faz parte de uma dieta saudável. Não pode ser demonizado.”

Ela deixa claro não apreciar “mensagens alarmistas” que “são lançadas por nutricionistas recém-chegados que adotam posições desse estilo”. Carmen Gómez refere-se aos profissionais que criticam a entrada da indústria alimentar no financiamento de congressos científicos, como já acontecia com a indústria farmacêutica. “Está muito na moda demonizar a comida. Todo mundo tem algo bom ou algo negativo. A chave é consumir em uma proporção correta”, destaca, claramente falando em favor da tese do balanço energético, que permite “comer de tudo na medida certa” desde que as calorias absorvidas sejam “queimadas” com o gasto calórico (atividade física) e é objeto de muitos debates, inclusive considerada “ultrapassada” e até um“mito de marketing” por pesquisadores que a veem apenas como uma maneira de a indústria alimentar, com o auxílio de alguns grupos científicos patrocinados, culpar exclusivamente o cidadão pela obesidade.

Os argumentos de Carmen não convencem Juan Revenga. Para ele, é evidente, o comprometimento de associações e profissionais de saúde com a indústria, que “aplica o dinheiro” para que pessoas criteriosamente escolhidas estejam presentes para discutir os produtos, que trazem retorno financeiro ao “investimento”, e não à saúde.

Uma prática que, na avaliação de Vicente Baos, se espalha porque as transnacionais farmacêuticas já não investem tanto dinheiro nos evento, o que motiva a procura de outros patrocinadores que tenham interesses comerciais na área da saúde. “Em outras palavras, misturar nutrição e saúde, para essas empresas, é uma pechincha”, ressalta.

Questionado sobre a viabilidade de modelos para a realização eventos de sociedades científicas livres de patrocínios da indústria, Baos não vacila. “Sim, existem. O pagamento de taxas proporcional aos rendimentos de cada inscrito e proporcional aos objetivos. Isso é educação fundamentalmente continuada. Não precisa ser cara (a inscrição) ou fazer megaeventos com milhares de pessoas, grandes mesas de café da manhã, almoço, jantar de gala, etc. Esse modelo está desatualizado. Com uma taxa razoável, você poderia fazer mais webinários , mais mini-eventos, mais reuniões locais e menos festas com decorações, danças e bandas”, conclui.

Para olhar com atenção

Fotos de objetos inanimados chamam a atenção nas redes sociais espanholas, porque a mensagem é clara. O sinAzucar.org, criado e liderado pelo fotógrafo Antonio Rodrigues Estrada, formado também em Nutrição Esportiva, busca revelar o “açúcar oculto” nos alimentos ultraprocessados. A escolha dos itens registrados pelas câmeras é fundamentada por um conselho de profissionais de saúde. Somente depois disso é que os produtos são fotografados, juntamente com a quantidade de açúcar contida em camadas, exibida na forma de torrões. “Usamos a mesma linguagem visual que a indústria usa para vender os produtos. Fotografia limpa, iluminação cuidadosa, retoque atraente, impacto visual, etc”, explica Estrada.

O resultado disso, além do site, é a grande participação em eventos sobre nutrição e principalmente a mobilização que o sinAzucar tem conseguido, tanto física – em encontros, debates e palestras – como virtualmente. Acompanhando a considerável audiência do site vêm os 214 mil seguidores no Facebook e os 131 mil no Instagram.

Em 28 de dezembro passado, a iniciativa divulgou uma tabela que inclui centenas de entidades de saúde e nutrição da Espanha que receberam apoio financeiro da Coca-Cola entre 2010 e 2017, num total de 14 milhões de euros repassados pela transnacional às organizações. 

As fotos do sinAzucar estão disponíveis para serem utilizadas e divulgadas desde que recebam os créditos e não sejam alteradas. Para fins comerciais, Antonio Estrada pede que haja contato prévio.

(fonte: http://outraspalavras.net/ojoioeotrigo/2018/01/industria-alimentar-engrossa-fila-da-saude/)