domingo, 6 de maio de 2018

Assim é a ‘sopa de plástico’ que asfixia o mundo


Plastiglomerado. Esse é o nome oficial de um novo mineral que não existia antes na natureza, mas agora se tornou frequente. Foi descoberto em 2014, na praia de Kamilo, da ilha do Havaí, e é formado por sedimentos e detritos plásticos. Na era atual, dominada pela ação dos seres humanos, “os perigos decorrentes da produção e uso indiscriminado deste material sintético, derivado da indústria petroquímica, nos perseguirão durante séculos”, diz o cientista político holandês Michiel Roscam Abbing, autor do recém-publicado Atlas da Sopa de Plástico do Mundo, cujo primeiro exemplar foi entregue a Karmenu Vella, comissário (ministro) europeu do Meio Ambiente. A obra diz que só um tratado internacional poderá conter um produto hoje inseparável do nosso cotidiano.
A reportagem é de Isabel Ferrer, publicada por El País, 02-05-2018.
“Os oceanos cobrem 71% da superfície da Terra, e existe a crença errônea de que só há ilhas de plástico flutuando por aí (…), quando o certo é que ele está por toda parte: em terra, mar e ar. Sua acumulação e fragmentação são tamanhas que os danos derivados do plástico superam seus benefícios”, afirma Roscam Abbing. Especialista em meio ambiente e membro da Fundação Sopa de Plástico (Amsterdã), ele cita um exemplo visual para ilustrar uma luta que é de todos – produtores, Governos e consumidores. É a famosa imagem do cavalo-marinho com a cauda enroscada em um cotonete, que delata a responsabilidade mal compartilhada. Foi feita pelo fotógrafo Justin Hoffman, morador do Canadá, enquanto mergulhava na Indonésia, e aparece entre as ilustrações do Atlas. “Poderia ter sido evitado”, diz o escritor. “Os cotonetes plásticos vão para a privada e então diretamente para as águas superficiais e as praias. Sendo que o fabricante poderia fazê-los de cartolina ou madeira. Mas são mais caros.”
No texto, mostra-se que numa praia qualquer do Reino Unido há em média 24 cotonetes a cada 100 metros. Outros dados: nos Estados Unidos, são jogadas no lixo 2,5 milhões de garrafas de plástico por hora; a cada minuto, usa-se no mundo um milhão de sacolas desse material. E, o pior de tudo, na sua opinião: as embalagens pequenas, fabricadas com diversos tipos de plástico, e usadas uma só vez. “Nos países em desenvolvimento a publicidade do xampu costuma ser assim, porque as pessoas têm uma poder aquisitivo diferente. Acumulam-se em grandes quantidades, e poderia ser incentivado outro tipo de fabricação e um consumo mais responsável, por parte da própria empresa, com embalagens reutilizáveis”. Quanto ao pão, “perdeu-se o costume de levar as tradicionais sacolas de tecido, e são colocados em bolsas de plástico, destinadas ao lixo”, acrescenta.
Uma boa ideia para reduzir a fabricação e uso dos plásticos é a tatuagem a laser na casca de frutas e verduras. “É seguro e sustentável, mantém a etiquetagem obrigatória e foi aprovada pela União Europeia. A Espanha é pioneira nessa tecnologia (Laserfood, de Valência) e economiza pacotes porque a informação essencial é impressa na casca.” Com fotos dessa poluição em lavouras, no fundo dos mares, em redes pluviais e qualquer outro meio ou superfície imaginável, o Atlas recorda que todos os plásticos se degradam. Suas partículas, impossíveis de recolher, são ingeridas por humanos e animais. “Um perigo enorme: entram em organismos vivos e ignoramos seus efeitos”. De qualquer forma, embora a produção responsável, o manejo sustentável de terras e águas e a reciclagem e a cooperação entre o setor público e privado sejam essenciais, a sopa de plástico supera as barreiras nacionais. E há uma lacuna jurídica. “Nada menos que a falta de um tratado internacional no âmbito das Nações Unidas dedicado a conter a própria sopa”, é o conselho que fecha o Atlas.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/578568-assim-e-a-sopa-de-plastico-que-asfixia-o-mundo)

Nove pessoas em cada 10 respiram ar poluído, estima a OMS

OMS destaca que cerca de 7 milhões de pessoas morrem todos os anos por respirar poluentes; em algumas cidades europeias, níveis de poluição chegam a reduzir esperança média de vida em dois anos.
A reportagem foi publicada por ONU News, 03-05-2018. 
Nove pessoas em cada 10 respiram ar poluído, anunciou esta quarta-feira a Organização Mundial da SaúdeOMS. A agência da ONU calcula que 7 milhões de pessoas morram todos os anos devido à poluição do ar no ambiente ou dentro das casas.
O diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que “a poluição do ar ameaça toda a gente, mas são os mais pobres e marginalizados que carregam o maior fardo. ” Segundo ele, “se não forem tomadas ações urgentes, nunca será possível alcançar o desenvolvimento sustentável. ”

Mortes

A exposição a partículas poluentes causa vários problemas de saúde, como doenças cardíacas, cancro dos pulmões ou infeções respiratórias.
Em 2016, 4,2 milhões de pessoas morreram devido à poluição do ar ambiental. A poluição dentro de casa causou outras 3,8 milhões de mortes. Mais de 90% destes casos acontecem em países em desenvolvimento, sobretudo na Ásia e África.
Este tipo de poluição causa várias doenças não comunicáveis. Segundo a OMS, é responsável por 24% de todas as mortes por doença cardíaca em adultos, 25% de todos os acidentes cardiovasculares, 43% das vítimas de doença pulmonar obstrutiva crônica e 29% de cancro pulmonar.

Regiões

A nível regional, os piores locais do planeta são o Mediterrâneo oriental e o Sudoeste Asiático, onde os níveis ultrapassam cinco vezes as recomendações da OMS. Seguem-se algumas cidades de África e do Pacífico ocidental.
Em algumas cidades de países europeus desenvolvidos, a poluição do ar baixa a expectativa média de vida entre dois a 24 meses, dependendo dos níveis.

Lares

Cerca de 3 bilhões de pessoas, mais de 40% da população mundial, não têm acesso a formas seguras de cozinhar e aquecer as suas casas.
O diretor da OMS considerou “inaceitável que mais de 3 biliões de pessoas, a maioria mulheres e crianças, ainda respirem fumo mortal todos os dias, devido a usarem fornos e combustíveis poluentes nas suas casas. ”
A recolha de dados sobre qualidade do ar dentro de casas começou há cerca de uma década. Apesar do acesso a tecnologias e combustíveis limpos terem aumentado, a agência da ONU diz que “esse aumento não acompanha o crescimento da populaçãoem muitas partes do mundo. ”

Ação

OMS reúne informação de 4,3 mil cidades, de 108 países. Desde 2016, mais de mil cidades juntaram-se a esta base de dados. Segundo a agência da ONU, isto significa que “mais países estão a medir e a tomar iniciativas para reduzir a poluição do ar do que antes. ”
A diretora do Departamento de Saúde Pública, Ambiental e Determinantes Sociais da Saúde da OMS, Maria Neira, disse que “a maior parte deste aumento aconteceu em países desenvolvidos, mas espera-se um aumento dos esforços de monitorização em todo o mundo. ”

Campanha

Esta quarta-feira, a OMS também lançou uma nova campanha. A iniciativa chamada “BreatheLife”, respire vida em português, é feita em conjunto com a ONU Ambiente.
A campanha inclui uma série de desafios, que serão lançados todos os meses. O primeiro desafio chama-se “Marathon a Month”, e pede que as pessoas deixem o carro em casa e usem transportes alternativos durante 42 Km no período de um mês.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/578580-nove-pessoas-em-cada-10-respiram-ar-poluido-estima-a-organizacao-mundial-da-saude-oms)

Como o lucro do maior banco privado brasileiro cresce em meio à crise


Texto escrito por José de Souza Castro:
O Itaú Unibanco, maior banco privado do Brasil, lucrou no primeiro trimestre deste ano R$ 6,4 bilhões. Em 2017, o banco já registrara lucro recorde de R$ 24,87 bilhões, dos quais R$ 17,6 bilhões (70,6%) foram distribuídos às famílias dos controladores, que se preparam para receber neste ano, pelo andar da carruagem, mais R$ 9 bilhões de dividendos. O Conselho de Administração aprovou em 2017 a distribuição mínima de 35% do lucro aos controladores.
Números que mereceram excelente análise, AQUI e AQUI, feita pelo diretor de redação do "Jornal do Brasil", Gilberto Menezes Côrtes. Não perguntem quanto essas famílias pagaram de Imposto de Renda sobre tais dividendos. Até onde sei, muito pouco – ou nada. Como lembra Côrtes:
“A fusão entre Itaú e Unibanco foi alvo de autuação da Secretaria da Receita Federal em 2012, com cobrança de R$ 11,847 bilhões em Imposto de Renda e R$ 6,867 bilhões em Contribuição sobre o Lucro Líquido (CSLL). Atualizada, a multa iria a R$ 26 bilhões. Mas o banco conseguiu vencer no julgamento do recurso no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), em abril de 2017. Livre do encargo (ainda objeto de recurso da Fazenda Nacional) o Conselho de Administração decidiu pela farta distribuição de dividendos acumulados.”
Bancos e seus donos têm meios e meios de se livrarem da pesada carga tributária que recai sobre os demais brasileiros. E meios e mais meios para evitar que se altere a injusta tributação que se pratica no Brasil desde tempos imemoriais.
Como o Itaú e seus comparsas conseguiram aumentar seus lucros em plena crise brasileira? Como obter 22,2% de lucro sobre o patrimônio, mesmo tendo emprestado menos nos primeiros três meses deste ano? Os lucros aumentaram, mas as aplicações do Itaú encolheram 0,6% em 12 meses...
Côrtes tem algumas explicações. Uma delas: “A queda nas operações às grandes empresas foi de 8,3%. O Itaú aproveitou para limpar a inadimplência do banco de varejo no Brasil  e reduziu em  23,8% as provisões para devedores duvidosos, que caíram de R$ 5,392 bilhões, em março de 2017, a R$ 4,111 bilhões em março deste ano. Só no primeiro trimestre, a queda foi de 8,3%.”
Outra: “Aproveitou a redução de 2,4% no custo da captação centrando operações mais rentáveis em pessoas físicas (+6% de crédito), enquanto as pequenas, micros e pequenas empresas tiveram oferta 5,2% maior. Nas pessoas físicas, que concentraram 42% dos créditos (39,8% em março de 2017), as maiores expansões foram em cartão de crédito (15,6%), crédito pessoal (4,2%) e o crédito imobiliário (4,3%).”... “O avanço sobre os clientes pessoas físicas vem acompanhado do aumento da renda das tarifas de serviços (8,7%, contra inflação de 2,68%), enquanto as rendas de operações financeiras aumentaram 8,9% no mesmo período”.
Sou cliente do Itaú desde 1993, quando passei a trabalhar como repórter na sucursal do Globo, que fazia o pagamento da folha de pessoal na agência Savassi. Continuei lá por inércia. É onde recebo a aposentadoria pelo INSS. Para manter a conta, o banco me cobra mensalmente mais de 70 reais. Multiplicando o valor pelo número de clientes, não é pouco. (Quanto, nem o Leão da Receita Federal deve saber.) Daí que a tarifa vem crescendo bem acima da inflação – como o lucro do Banco. Em janeiro de 2017, por exemplo, paguei 40 reais.
Ou seja, também sou culpado pelo exorbitante lucro dos donos do banco. E não posso nem reclamar com o bispo, pois ele nada pode fazer...
(fonte: blog da Kika Castro)

MST colheu 27 mil toneladas de arroz sem veneno

Em tempos de investigações de fraudes que colocam sob suspeita os produtos e os modos de produção do agronegócio brasileiro, as 27 mil toneladas de arroz orgânico (livre de veneno) da safra 2017 produzidas pelo MST apontam para um outro modelo viável de produção

A reportagem é de Gilson Camargo, publicada por ExtraClasse, 25-04-2018.
Em tempos de investigações de fraudes que colocam sob suspeita os produtos e os modos de produção de alimentos provenientes da indústria que integra o agronegócio brasileiro, as 27 mil toneladas de arroz orgânico (livre de veneno) da safra 2017 produzidas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) apontam para um outro modelo viável de produção. Atualmente, o MST é líder na produção de arroz orgânico na América Latina.
A agricultura orgânica vai além das feiras ecológicas de final de semana – como poderiam argumentar os críticos do movimento. Ela incide sobre os indicadores da agropecuária no país. Em 2015, o Ministério da Agricultura constatou que o total de agricultores certificados para a produção livre de agrotóxicos duplicou no período de 12 meses, ultrapassando 10,5 mil produtores. Até 2019, a certificação orgânica deverá envolver 30 mil produtores. No Rio Grande do Sul, a agricultura familiar vem respondendo por mais da metade das receitas provenientes da atividade agropecuária na última década. Nesse período, as unidades de produção familiares geridas de forma sustentável responderam por 49% dos R$ 14 bilhões de receitas geradas pela atividade agropecuária.
“Até hoje a sociedade tem certa resistência, parece que nós somos uns animaizinhos, mas pode escrever: a agricultura livre de agrotóxicos não tem a ver só com o movimento dos sem-terra, é de interesse de todo mundo, especialmente em um momento de crise da indústria em todos os setores”, resume Nilvo Bosa, presidente da Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita (Coopan) e um dos pioneiros do assentamento Capela, região Metropolitana de Porto Alegre. “Não é uma opção puramente econômica, mas por um modo de vida íntegro, que enxerga a agricultura como uma atividade ecológica para o benefício das famílias que produzem e daquelas que consomem, com respeito ao ambiente e à biodiversidade”, detalha Bosa, que vê com naturalidade a discriminação aos sem-terra, mesmo de quem frequenta feirinhas e consome os alimentos produzidos nos assentamentos. “Ideologicamente a gente não discute com ninguém, mas está comprovado que, aplicando inseticida na lavoura, o que vem pela frente é intoxicação”.
 
Líderes na América Latina
Os sem-terra são os maiores produtores de arroz agroecológico da América Latina, atividade que envolve 616 famílias em área plantada de 5 mil hectares (cerca de 5% da área total de arroz no estado) nos 22 assentamentos localizados em 16 municípios gaúchos. A safra 2016-2017 é a maior da história dos assentamentos, com a colheita de 27 mil toneladas ou 550 mil sacas, produção 40% superior à colheita do ano passado. As famílias de agricultores envolvidas no cultivo de grãos e sementes estão organizadas no Grupo Gestor do Arroz Agroecológico. “O sistema de produção utilizado pelos sem-terra busca consolidar alternativas à agricultura do agronegócio, estabelecendo uma relação de integração e respeito entre os seres humanos e os recursos naturais. A produção do arroz é feita com técnicas que estimulam a fertilidade do solo e a produção de alimentos saudáveis, com mais qualidade de vida aos produtores e consumidores e renda às famílias assentadas”, ressaltou Emerson Giacomelli, coordenador da iniciativa, durante a abertura da 14ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz Agroecológico, no dia 17 de março.
O evento reuniu centenas de agricultores sem-terra na sede comunitária Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita, localizada no Assentamento Capela, no município de Nova Santa Rita, a 40 quilômetros de Porto Alegre, com a presença de João Pedro Stédile, da coordenação nacional do MST e do frei Leonardo Boff. “A agroecologia é simbólica da resistência do povo brasileiro. Vocês que vêm se dedicando, nestes 15 anos, a produzir arroz orgânico são motivo de orgulho do nosso movimento e representam a prova de que é possível outra agricultura, sem usar veneno e transgênicos. Vocês são vanguarda”, disse Stédile aos sem-terra. “Os agrotóxicos não foram inventados para produzir alimentos para todos, mas para lucrar mais, vender com mais facilidade do que atender as demandas humanas. Não matam só as pragas da lavoura, matam os seres humanos e tudo que dá vitalidade à terra”, acrescentou Boff. (Leia também a entrevista com o frei Leonardo Boff realizada no evento)
O Assentamento Capela é simbólico da luta e da resistência dos trabalhadores sem-terra. A área foi conquistada a partir da mobilização iniciada em setembro de 1989, com a ocupação da Fazenda Bacaraí, em Cruz Alta. “Oriundos de diversos municípios, os sem-terra enfrentaram miséria, morte, opressão das forças policiais e inúmeras falsas promessas de assentamento dos governos”, explica Giacomelli. “A mobilização durou mais de cinco anos, com greve de fome, marchas, ocupações e atos públicos para expor à sociedade a desigualdade existente no campo, além da importância da democratização da terra e de um modelo agrícola que contemplasse a todos”. Em 1993, a área foi ocupada pela terceira vez. “O latifúndio estava penhorado, resultando na desapropriação de 2.170 hectares e na criação do assentamento para cem famílias em 5 de maio de 1994”. Atualmente organizado em núcleos familiares, os assentados produzem arroz orgânico e convencional, gado leiteiro e de corte, hortaliças e suínos para comercialização e cultivo para o próprio.­
Experiência nos assentamentos faz escola fora do país
 
Além do esforço para ampliar o acesso da população aos orgânicos produzidos nos assentamentos, o MST faz escola na América Latina, levando suas experiências a agricultores de outros países. Em novembro do ano passado, o militante sem-terra Daniel Victor da Silva, de Ronda Alta, e Ricardo Volpi, filho de assentados da reforma agrária em Pontão, no norte do estado, embarcaram para a Venezuela para ajudar camponeses a desenvolver a produção agroecológica a partir do que aprenderam no curso técnico em agropecuária com habilitação em agroecologia. A formação é ofertada desde 2005 pelo Instituto Educar, uma escola construída pelo MST na antiga Fazenda Anoni (Sarandi/RS), em parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS) – campus Sertão.
As primeiras experiências do MST na produção orgânica de arroz foram desenvolvidas em 1999, nos assentamentos da reforma agrária na região Metropolitana de Porto Alegre. Todo o processo de produção, industrialização e comercialização é coordenado pela Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap), por meio da marca comercial Terra Livre. Atualmente, parte da produção é destinada ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), mas o arroz também vai para São Paulo e é exportado para a Venezuela. Em Porto Alegre, arroz agroecológico pode ser adquirido no Mercado Público e em feiras ecológicas da capital e de Canoas. A certificação orgânica é realizada em todas as etapas da produção do arroz, com base em normas nacionais e internacionais, desde o ano de 2004. Ela ocorre por meio de dois procedimentos: certificação participativa (Opac – Coceargs) e auditoria (IMO – Ceres).
A única cooperativa de sementes orgânicas fica no RS
Com sede em Candiota, na região da Campanha, a Rede Bionatur é a única cooperativa de sementes orgânicas do país, certificada pelo Instituto Biodinâmico (IBD) de acordo com normas da agricultura orgânica do Ministério da Agricultura. A produção envolve mais de 160 famílias de agricultores do MST em diversas regiões do estado e abastece as cooperativas do próprio movimento em todo o país e agricultores orgânicos da Venezuela.
As sementes também são acessíveis às escolas, por meio do Programa Sementes Banrisul e à população, com venda direta nas feiras ecológicas e do kit horta urbana – com 20 variedades de hortaliças. A cooperativa produz cerca de cem variedades de sementes crioulas, 33 tipos de grãos, 15 de forrageiras e 12 de flores. Com sede em Candiota, na região da Campanha, a cooperativa tem a meta de passar a produção de 4 para 8 toneladas de hortaliças na safra de verão.
Para forrageiras, a estimativa é aumentar das atuais 40 toneladas para 70. A safra de sementes de milho e feijão crioulos é de 30 toneladas. Fundada em 1997 por agricultores assentados de Hulha Negra, a cooperativa foi o caminho para superar o modelo de produção convencional praticado pelas empresas de sementes de hortaliças que atuavam na região, com base no uso intensivo de agrotóxicos. Os agricultores ficavam submetidos às condições desfavoráveis de negociação e manejo da produção ditados pelas empresas, explica Roberta Coimbra, assentada em Piratini e integrante do grupo produtor de sementes. “A organização da cooperativa se deu em condições precárias, sem estradas, sem eletricidade. Os 25 agricultores envolvidos nessa iniciativa queriam mostrar que é possível preservar o material genético das culturas orgânicas e manter o controle do ciclo de produção”.
(fonte: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Luta-no-Campo/MST-colheu-27-mil-toneladas-de-arroz-sem-veneno/53/40052)

Templos ou escolas?

Por Jaime Pinsky: Historiador, professor titular da Unicamp, coordenador do livro Brasil: o futuro que queremos, diretor editorial da Editora Contexto.

Na Idade Média o mundo ocidental era conduzido a partir de determinações e valores divinos. Em nome de um deus absoluto, onipotente e monocrático, sabia-se o que era certo e o que era errado. Como nem sempre esse deus estava à disposição de toda a população, ele tinha prepostos, os religiosos, que falavam em seu nome, explicando para todos o que podia e o que não podia. Hoje, vendo um blog no youtube, onde uma senhora explica para seu suposto público “o que pode e o que não pode entre quatro paredes”, achamos a coisa toda hilariante. Como uma rotunda madame do interior de Minas, desconhecida, sem especialização acadêmica na área, se permite orientar sobre práticas sexuais que devem ser definidas apenas pelo prazer que podem me proporcionar, por questões de higiene e, é claro, por minha própria consciência? Mas quando a religião era a fonte norteadora das práticas sociais, quem ousasse se rebelar contra as ordens da Igreja corria o risco de ser queimado vivo em fogueiras alimentadas pela “sabedoria” dos doutores que passavam ordens divinas para o povaréu.

Seguir ordens divinas sempre implicava em alguns problemas práticos. O principal era: que ordens seguir? Como a Bíblia, na verdade, não foi escrita por deus algum (por favor, não fiquem escandalizados, não estou revelando segredo algum, qualquer estudioso sabe disso), mas por diferentes pessoas, em línguas diferentes, ao longo de muitos séculos, há ordens diferentes, divergentes e até conflitantes para quem se dispõe a segui-la literalmente. No catolicismo esse problema foi resolvido ao não se recomendar a leitura da Bíblia, mas seguir pia e cegamente o Papa, que na sua infalibilidade (e acreditar nela é condição sine qua para ser aceito nas hostes da Santa Madre Igreja) orientava e orienta os fieis sobre “o que pode e o que não pode”. Lutero, ao se rebelar contra o que considerou corrupção na Igreja (padres, bispos e cardeais vendiam um lugarzinho no céu em troca de uma grana na conta da corporação, ou em sua própria conta) orientou seus seguidores a lerem os textos por si próprios, sem intermediários. Sua atitude foi ótima para o desenvolvimento do capitalismo (pessoas mais letradas, com mais espírito crítico e iniciativa), mas logo foi torpedeada pelo calvinismo fundamentalista que trocou, em muitos casos, os milagres da Igreja pelo carisma de um novo tipo de pastor, “tradutor” das palavras divinas, fundamentalista e repressor. Não por acaso o desenvolvimento da Europa é a história da libertação dos grilhões da Verdade (com maiúscula) revelada e a busca da verdade racional. É nesse processo que homens e mulheres se afastam da palavra divina e descobrem o conhecimento que traria, como de fato trouxe, o controle das guerras, das pestes e da fome, como lembra bem o historiador Yuval Harari.

Crer e seguir uma religião são coisas distintas e, incrivelmente tem muita gente que não se dá conta disso. Crer é uma decisão íntima que algumas pessoas tomam. Por iluminação? Por fraqueza? Por necessidade de transcendência? Já pertencer a uma religião é uma decisão de caráter social. Não é um acaso o fato de a maior parte das pessoas nascidas no interior de Portugal pertencer à religião católica, enquanto que nascidos na Egito são predominantemente muçulmanos. Não é questão de crença, é questão de adesão grupal, de noção de pertencimento. Práticas sociais como “ir à igreja” (ou ao templo, à mesquita, à sinagoga) são apenas isso: práticas sociais, não atitudes reveladoras de crença.

Então, como se crê cada vez menos no mundo ocidental, corre-se atrás de verdades que a investigação, a pesquisa, o método científico permitem e recomendam. Foi o avanço do conhecimento científico e tecnológico que fez com que o mundo superasse problemas como a mortalidade infantil, a baixa produção de cereais, a morte em massa por conta de epidemias. Foi graças aos avanços promovidos pelo conhecimento racional que aprendemos a drenar pântanos e a levantar enormes edifícios sem o sacrifício de dezenas de milhares de operários, como ocorria no Egito Antigo, ou na Mesopotâmia. Não foi com rezas, e sim com conhecimento científico que inventamos o stent e o marca-passo, que permitem que tanta gente estenda sua vida útil em até dezenas de anos.

Não tem saída. Se quisermos, mesmo, um país mais democrático, mais justo, mais rico, com mais oportunidades para todos, a saída está em escolas públicas laicas de qualidade e em uma política de ciência e tecnologia coerente e consequente.

A Europa pobre está de volta — inclusive nos filmes

“Ciganos de Ciambra”, de Jonas Carpignano, denuncia miséria da vida infantil na Calábria, onde as migalhas da riqueza capitalista são disputadas por italianos, ciganos e imigrantes ilegais africanos
Por José Geraldo Couto
Crianças e adolescentes indomáveis, crescendo num ambiente hostil, são um tema recorrente nos dramas sociais, e diante de Ciganos da Ciambra muita gente inevitavelmente se lembrou de clássicos como Os esquecidos, de Buñuel, Os incompreendidos, de Truffaut, e Pixote, de Babenco.
Mas o filme de Jonas Carpignano se passa na Itália, berço do neorrealismo, que fecundou praticamente todas as cinematografias do mundo, e talvez fosse mais pertinente lembrar que a infância desamparada e rebelde esteve no centro de grandes marcos neorrealistas, de Vítimas da Tormenta (Vittorio De Sica, 1946) a Alemanha ano zero (Roberto Rossellini, 1948), passando pelo episódio napolitano de Paisà (Rossellini, 1946).
De certo modo trata-se, portanto, de uma volta às origens, a mostrar que o cinema italiano não se diluiu no sentimentalismo de um Tornatore nem na afetação de um Sorrentino.
Escombros de ontem e de hoje
Se os meninos de Rossellini e De Sica se moviam entre os escombros de uma Europa devastada pela guerra, o pequeno cigano Pio (Pio Amato), de catorze anos, é obrigado a se virar num ambiente marcado por outro tipo de conflagração, a criminalidade de um lugarejo da Calábria em que as migalhas da riqueza capitalista são disputadas por italianos, ciganos e imigrantes ilegais africanos.
A numerosa família de Pio (avô, pai, mãe, tios e uma infinidade de irmãos e sobrinhos) sobrevive de pequenos delitos, como o roubo de carros e acessórios. E aqui entra outro procedimento herdado do neorrealismo, a utilização de não-atores: os parentes do protagonista são todos membros da verdadeira família Amato.
O que primeiro chama a atenção, logo no início, é a condição desregrada das crianças, que fumam, bebem, dirigem carros e motos. Um menino de não mais de cinco anos fuma com a maior desenvoltura entre irmãos e primos, na frente da sua casa. Quando sua jovem mãe ou tia esboça intervir, ele diz: “Vou mijar na sua boca”. Ela ri. É desse tipo de violência que trata o filme, mais do que de tiros ou pancadas.
O que impede Ciganos da Ciambra de ser apenas um vívido registro naturalista de uma comunidade pobre, à maneira do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo, ou do filme Feios, sujos e malvados, de Ettore Scola, é a dimensão moral, trágica, que adquire a trajetória de Pio. É, em essência, um romance de formação, ou antes de deformação.
Aprendizado tenso
Quando o pai e o irmão de Pio são presos por roubo, o garoto se sente chamado a ocupar o lugar deles no sustento da família, e passa a praticar delitos cada vez maiores. Até sua amizade aparentemente desinteressada com um imigrante de Burkina Fasso (Koudous Seihon) é contaminada no processo.
O aprendizado de vida de Pio (que aliás é analfabeto), suas interações sociais, sua iniciação sexual, tudo isso se dá num quadro de crescente tensão, premido pela necessidade material, pelo ímpeto juvenil e pela vigilância da polícia.
Diferentemente dos clássicos neorrealistas, compostos em grande parte de planos longos de conjunto, com uma profundidade de campo que permitia a formação de um quadro geral das relações entre personagens e destes com o ambiente, em Ciganos da Ciambra quase tudo é captado com uma nervosa câmera na mão, em planos curtos filmados muito perto dos personagens. Corpos e espaços fragmentados, ações truncadas.
A impressão geral é de despedaçamento, instabilidade, incompletude. Assim como a aprendizagem torta de Pio, a vida naquele pedaço pobre do planeta, enclave de Terceiro Mundo no velho e rico continente, segue aos tropeços – e ninguém sabe aonde vai dar.
Em tempo: o filme tem Martin Scorsese como produtor-executivo e o brasileiro Rodrigo Teixeira como coprodutor.
(fonte: https://outraspalavras.net/destaques/a-europa-pobre-esta-de-volta-inclusive-nos-filmes/)

domingo, 29 de abril de 2018

A prisão do jornalista Márcio Fagundes


texto escrito por José de Souza Castro:
O jornalista Carlos Cândido, que iniciou a carreira na Sucursal do Jornal do Brasil em Belo Horizonte há bem uns 40 anos, deu-me elementos, em seu blog, para escrever sobre a prisão do jornalista Márcio Fagundes, com quem trabalhei no jornal Hoje em Dia, onde ele tinha coluna muito lida de política. Ultimamente, era coordenador de Comunicação da Câmara Municipal de Belo Horizonte. Muitos anos antes, fora chefe da assessoria de imprensa do governador Hélio Garcia.
Cândido relata testemunho dado pelo jornalista Carlos Barroso, aflito pela prisão do colega, ao advogado de Márcio Fagundes. Barroso tem um programa de entrevistas no canal de televisão por assinatura BH News, no qual o agora preso participou algumas vezes, antes de aceitar o convite do vereador Wellington Magalhães para sua assessoria. Essa participação no programa tirou-o do ostracismo em que se encontrava desde que foi demitido do Hoje em Dia, sob nova direção.
Carlos Barroso precisava de patrocínio para seu programa na TV e procurou Fagundes, ouvindo dele o seguinte: “Barroso, eu te devo um favor e gostaria de te ajudar, mas não decido sobre publicidade, esse assunto fica nas mãos do presidente Wellington Magalhães. Se você quiser falar com ele...”. Não quis, e seu programa nunca teve publicidade da Câmara Municipal de Belo Horizonte.
O testemunho, escreve Carlos Cândido, corrobora a versão de Fagundes de que assinava as ordens de publicidade da Câmara, atribuição do cargo que exercia, acrescentando a observação: “Ordem do presidente”.
Também ouvi de Márcio Fagundes, quando eu era repórter de O Globo e ele assessor de Hélio Garcia, um episódio que, a mim, confirmou o conceito que eu tinha dele.
Ele me ligou dizendo que queria trocar ideias comigo (saiu no prejuízo, claro) e me convidou para conversarmos no seu apartamento. Um trecho do artigo de Carlos Cândido (“Ele não ostenta sinais de enriquecimento ilícito – e foi preso num apartamento modesto no qual mora, na zona sul de Belo Horizonte”) deu-me a impressão de que é o mesmo apartamento onde me encontrei com Márcio Fagundes lá pelos idos de 90.
Não me lembro mais sobre o que conversamos (lá se vão uns 28 anos), mas me recordo de um episódio que me contou quase no fim de nossa conversa. Chegando ao prédio, depois da caminhada matinal, viu estacionado em frente um Fiat novinho (ou seria um Fusca zero quilômetro?) e, mal entrando no apartamento, o telefone tocou. Era o dono da agência de publicidade que atendia ao governo de Minas.
– Márcio, você viu aí na porta o seu carro?
– Que carro?
– O que a agência te deu de presente...
Bem, não vou querer transcrever o diálogo, depois de tantos anos. Mas posso resumir o que Márcio me contou. Depois do espanto inicial, ele ordenou ao dono da agência de publicidade que mandasse levar dali imediatamente o carro, “senão vou chamar a polícia!” Foi a hora de o bom homem se espantar. Isso nunca acontecera antes! O presente sempre fora recebido agradavelmente pelos antecessores de Márcio, ao longo de muitos anos atendendo a conta de vários governos.
E o carro foi levado embora o mais depressa possível.
Não sei para quem mais Márcio contou a história. Talvez ele só quisesse desabafar e por acaso eu estava ali. Se ele nunca mais relatou o caso, é hora de fazê-lo, depois do espalhafato com que sua prisão foi divulgada pela imprensa. Como diz Carlos Cândido:
“Como bem observaram os parlamentares da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa que visitaram Fagundes na prisão, além do seu advogado, não existiam as condições exigidas para a prisão preventiva do jornalista: ameaças a testemunhas, risco de fuga, destruição de provas etc. No entanto, ele foi preso com estardalhaço.
Notícia do dia seguinte à prisão informa que Márcio Fagundes teria dito aos parlamentares: “Vou provar minha inocência”. Ora, o próprio jornalista se confunde diante da situação terrível em que foi jogado: ele não tem de provar nada, a polícia é que tem de provar sua culpa!
A prisão preventiva virou ao avesso a justiça brasileira: agora é o acusado que tem que provar ser inocente, não é mais o Estado – representado pela polícia e pela promotoria – que tem de apresentar provas! Depois que um procurador da República afirmou em coletiva de imprensa – sempre para a imprensa! – que ele não tinha provas contra o ex-presidente Lula, mas tinha convicção, tudo se tornou possível.
A ditadura militar, com seu aparato de torturas, certamente foi pior do que o estado de exceção atual, mas foi mais cruel? Ser preso político tem uma auréola heroica, já ser preso por corrupção desmoraliza irremediavelmente o sujeito.”
No que depender de mim, Márcio Fagundes não ficará desmoralizado. Mas, quem sou eu? Recorro novamente a Carlos Cândido: “No caso específico de Márcio Fagundes, ele recebeu mais uma condenação: foi exonerado do seu emprego no Tribunal de Contas do Estado. E no entanto, leiam-se as notícias: ele é suspeito! Não foi condenado, não foi julgado, não foi sequer acusado. Trata-se por enquanto apenas de um inquérito policial”.
Mas o TCE é implacável! Como bem sabem Aécio Neves e Antonio Anastasia! Que falta nos faz um sinal de ironia, onde abundam sinais de exclamação.
(fonte: blog da Kika Castro)