domingo, 17 de junho de 2018

Francisco: “A civilização precisa de energia, mas o uso da energia não deve destruir a civilização”

Ele quer conscientizar, buscar aliados, para regenerar o capitalismo, se isso é possível, e que deixe de descartar e matar. E para salvar os pobres, o Papa Francisco é capaz de se aliar aos dirigentes máximos de algumas das mais importantes multinacionais de petróleo e do gás. Para convencê-los da necessidade de realizar a transição energética e exortá-los a fazer com que a “sede” de energia “não anule a civilização”.
A reportagem é publicada por Religión Digital, 09-06-2018. A tradução é de André Langer.
“Convido vocês para serem o núcleo de um grupo de líderes que imagina a transição energética global de maneira que leve em conta todos os povos da terra, bem como as futuras gerações, todas as espécies e os ecossistemas”, disse Francisco perante líderes de companhias como BPExxonMobil ou Eni, que se reuniram ontem e hoje no Vaticano.
Pontífice constatou que há um desafio para garantir a enorme quantidade de energia necessária para todos, mas pediu “modalidades de exploração dos recursos que evitem desequilíbrios ambientais ou que causem um processo de degradação epoluição, a partir do qual toda a Humanidade hoje e amanhã seria gravemente ferida”.
“A civilização requer energia, mas o uso da energia não pode destruir a civilização”, clamou.
Ele ressaltou o falso pressuposto de que “existe uma quantidade ilimitada de energia e que a manipulação da Natureza pode ser facilmente absorvida”, como já tinha escrito em sua encíclica Laudato Si’.
E ele pediu “uma estratégia global de longo prazo, que ofereça segurança energéticaque favoreça a estabilidade econômica, protegendo a saúde do meio ambiente e promova o desenvolvimento humano, estabelecendo compromissos precisos para enfrentar o problema da mudança climática”.
Francisco insistiu para que prossigam “na direção de uma transição que aumente o comprometimento com energias com alta eficiência e baixa poluição” e na direção do “desenvolvimento de energias renováveis”.
Caso contrário, advertiu, “acabaremos em uma espiral cada vez mais grave de mudanças climáticas, com o temível aumento das temperaturas do globo, condições ambientais adversas e aumento dos níveis de pobreza”.
Lamentou o fato de que as intenções assinadas no Tratado de Paris de 2015 não tenham sido respeitadas e disse que estava preocupado “com a contínua exploração para extrair combustíveis fósseis, mesmo que claramente não seja aconselhado”.
Entre os líderes que ouviram o chamamento estavam conselheiros delegados de fundos financeiros, como Larry Fink, da BlackRock, ou Yngve Slyngstad, do Norwegian Investment Bank, e de multinacionais da energia, como a BPBob DudleyEquinorEldar SaetreL1 EnergyJohn BrowneEniClaudio Scalzi ou da ExxonMobilDarren Woods.
A eles, o Pontífice disse que “tanto as decisões políticas como a responsabilidade social das empresas devem evitar oportunismos e cinismos, a fim de obter resultados parciais em um curto período capazes de evitar no futuro altos custos e danos significativos”.
“A contínua necessidade de crescimento econômico comportou sérias consequências ecológicas e sociais, já que o nosso atual sistema econômico sempre se desenvolve com base no aumento das extrações, do consumo e do desperdício”, recordou.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/579789-francisco-a-civilizacao-precisa-de-energia-mas-o-uso-da-energia-nao-deve-destruir-a-civilizacao_

Um fascismo renovado percorre a Europa

Seus seguidores abandonaram as cabeças raspadas e o uso da suástica em público. Adotaram o terno e gravata e mesclam o discurso de Trump com uma retórica anti Europa e anti-imigração
Por Eduardo Febbro, no Página|12 | Tradução: Cepat
O ex-primeiro-ministro esloveno Janez está a um passo de se somar como uma peça a mais da fortaleza populista e xenófoba que, com um êxito imparável, foi se construindo na Europa desde que, em meados dos anos 80 do século XX, a extrema-direita da Frente Nacional francesa começou a acumular êxitos eleitorais. Naqueles anos, seus militantes se reuniam com a cabeça raspada, exibiam sem rodeios as suásticas e entoavam hinos públicos em homenagem ao nazismo. Os de agora andam com gravata, desfizeram as cenografias provocativas e centraram sua ascensão ao poder em torno da rejeição à Europa e de um racismo fervoroso.
Itália, Eslovênia, República Checa, a Grã-Bretanha do Brexit, Holanda, Áustria, Polônia e França são os principais países do Velho Continente onde foi se forjando o cinturão sombrio dos fascismos renovados. A fase atual se iniciou em 2005, quando França e Holanda rejeitaram mediante um referendo o tratado sobre a Constituição Europeia. Desde então, alentado pelas crises financeiras, o desemprego, a diluição do ideal europeu, o surgimento do islamismo radical que o Ocidente facilitou e as reiteradas crises migratórias, o cinturão dos populismos cinzentos não fez mais que se estender.
Janez Jansa, o líder do Partido Democrata Esloveno (SDS), impôs-se no domingo passado nas eleições legislativas eslovenas com 25,03% dos votos. Embora não possa governar sem o apoio de outras formações políticas, a estreita vitória de Jansa se forjou com uma mescla das narrativas do presidente norte-americano Donald Trump e slogans anti Europa e anti-imigração inspirados no modelo da ultradireita francesa e, sobretudo, com o principal ingrediente da retórica de seu mestre, o ultranacionalista primeiro-ministro húngaro Víktor Orban, o propulsor do “iliberalismo”.
Esta doutrina mencionada nos anos 1990 pelo ensaísta norte-americano Fareed Zakarya em um artigo publicado na revista Foreign Affairs é uma espécie de versão decorosa do chamado autoritarismo pós-democrático que suprime direitos democráticos, coloca a justiça a serviço do poder político, retira as liberdades individuais, amordaça a imprensa e articula sua ascensão ao poder a partir de um racismo de Estado. Nem democracia autêntica, nem ditadura real, mistura de ultranacionalismo com estrangulamento dos direitos democráticos, “nas fronteiras da Europa como no seio da Europa se desenha a tentação das democracias iliberais”, disse, alguns meses atrás, o presidente francês Emmanuel Macron. A realidade foi mais veloz do que muitos analistas esperavam e chegou até se incrustar no coração da União Europeia com o exemplo da Itália e o pacto de governo entre o Movimento 5 Estrelas e os racistas da Liga Norte (11 milhões de pessoas votaram no primeiro (32%) e seis milhões (18%) no segundo.
Em sua primeira intervenção pública na Sicília, o novo ministro do Interior italiano e líder da Liga, Matteo Salvini, convidou os imigrantes a se preparar “para fazer suas malas”. Nada muito diferente do que ocorreu na Grã-Bretanha, com o Brexit, na Polônia, com o dirigente Jaroslaw Kaczynski, na Hungria, Áustria, Holanda e França. Os ascendentes líderes destes países constituem a linha fronteiriça que pretende defender a Europa do que todos chamam “a invasão”.
Paradoxalmente, esse grupo adotou alguns perfis retóricos que antes pertenciam exclusivamente à esquerda. O principal consiste em se apresentar como um “cinturão antissistema”. O exemplo mais importante e mais temido pelos sócios europeus, em razão de sua poderosa carga eurocética, é o da Itália. A aliança entre o Movimento 5 Estrelas e a Liga Norte é a primeira coalizão ultradireitista “antissistema” que chega ao poder em um dos países fundadores da União Europeia. Os dois partidos se caracterizam por seus pactos com outras forças similares no cenário político da Europa.
Os 14 eurodeputados do Movimento 5 Estrelas no Parlamento Europeu se associaram com a formação de ultradireita Europa da Liberdade e da Democracia Direta, cujo líder não poderia deixar de ser o britânico Nigel Farage, o patrono do Brexit na Grã-Bretanha. E no que concerne à Liga Norte, os 5 eurodeputados deste partido formaram uma aliança com o Frente Nacional de Marine Le Pen. O populismo de ultradireita que renasceu na França foi se propagando para o restante da Europa, principalmente para a Europa do Leste, onde começou a prosperar após a queda do Muro de Berlim (1989). Depois, avançou pela Europa do Norte até conquistar o coração da Europa do Sul.
Um trabalho realizado pelo Centro de Pesquisas Internacionais da Universidade de Ciências Políticas de Paris identificou muitos pontos comuns nesse iliberalismo xenófobo: povo virtuoso contra elites corrompidas e globalizadas; sociedade aberta contra sociedade fechada. Em 2017, o húngaro Víktor Orban dizia: “uma nova era está batendo à porta. Uma nova era do pensamento político. As pessoas querem sociedades democráticas e não sociedades abertas”. Querem dirigentes com perfil forte; com uma inclinação pronunciada pela democracia direta, mediante a celebração de todos os tipos de referendos; um poder sólido dentro de um Estado soberano, ou seja, independente da União Europeia; e a defesa da identidade cultural diante da “invasão tóxica” dos estrangeiros.
Paradoxalmente, tanto no seio do Movimento 5 Estrelas, como na Liga Norte, as linhas narrativas excludentes de alguns meses atrás foram limadas: já não se fala como antes de um Italexit, nem do abandono do Euro, menos ainda de sair da Aliança Atlântica, a OTAN. Isso não impede que o que hoje se denomina “a internacional populista” seja uma realidade cada vez mais tangível. O próprio uso do termo “populismo” difere, por outro lado, do que os narradores midiáticos da casta fazem na América Latina. Na América Latina, as direitas liberais chamam de populistas tudo o que vai da socialdemocracia à esquerda. Na Europa não: esse termo está globalmente identificado com as extremas direitas.
O cientista político francês Alain Duhamel escreveu na página do jornal Libération que a “Europa enfrenta a crise mais grave de sua história. A Europa se tornou o campo cerrado de uma batalha entre reformistas e populistas, entre partidários e adversários da União”. Os países do Leste da Europa se libertaram do comunismo para depois cair nos braços de seu inimigo histórico, os do Norte da Europa se deixaram seduzir pelas mesmas sereias e os do Sul negam, agora, toda a história que os constituiu como pilares da construção europeia. Xenofobia e autoritarismo, os demagogos são as estrelas triunfantes no “berço da cultura”.
Como destaca o próprio Alain Duhamel, no Libération, a história deu uma guinada extraordinária: “dos anos 60 a 2000, os europeus reformistas ganharam o primeiro tempo. Dos anos 2000 até agora, os populistas eurofóbicos acumulam as vitórias”. O afundamento da esquerda primeiro, da socialdemocracia depois, e os rumos dos partidos de direita reconfiguraram a Europa. A avalanche não terminou. O cinturão do populismo racista e autoritário seguirá asfixiando as democracias liberais.
(fonte: https://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/um-fascismo-renovado-percorre-a-europa/)

Por que tributar as bebidas açucaradas

Por Nathalie Beghin, do Inesc 
O governo federal publicou, em 30 de maio, decreto que regulamenta a aplicação do Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários para as Empresas Exportadoras (Reintegra). O Decreto nº 9.393/2018 reduz incentivos fiscais para uma parte da cadeia produtiva de refrigerantes. A decisão compõe o conjunto de medidas adotadas para compensar a perda de receitas oriunda do acordo feito com os caminhoneiros para a diminuição do preço do diesel.
A saúde da população brasileira agradece. Ainda que a medida tenha tido como objetivo principal financiar outros rombos orçamentários, ela irá contribuir para desativar a bomba que representam os refrigerantes. Bomba, porque o excesso de açúcar e a falta de nutrientes agridem violentamente nosso organismo, que não é adaptado a processar tanta energia de uma só vez. A referida medida irá desestimular o consumo de bebidas processadas adicionadas de açúcar, que alteram o metabolismo do corpo, afetam os níveis de insulina e contribuem para o aumento de peso, da obesidade, da diabetes e de outras doenças crônicas não transmissíveis.
Experiências em vários países vêm demonstrando que a sobretaxação é uma das mais eficazes medidas para reduzir o consumo de bebidas açucaradas, porque atingem toda a população e pode ser implementada facilmente[1]. No México, por exemplo, uma sobretaxa de 10% sobre bebidas açucaradas, em vigor desde 2014, resultou em queda de 14% na venda dos produtos num período de dois anos, com declínio ainda mais acentuado na população mais pobre.
No Brasil enfrentamos uma epidemia de sobrepeso. Estudos têm evidenciado expressivo aumento da obesidade em todas as idades, faixas de renda e regiões do país. Cerca de 60% dos adultos estão acima do peso e em torno de 20% são obesos. Entre as crianças e adolescentes o problema também é muito grave: uma de cada três crianças tem sobrepeso e, entre os adolescentes, essa relação é de 1 para 4. E mais, a epidemia está se agravando: segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), enquanto na década de 1970 apenas 1% das garotas e 0,9% dos garotos estavam obesos, em 2016 eles representavam 9,4% e 12,7% dessa faixa etária, respectivamente. Esses resultados levam o Brasil a estar acima das médias mundiais. A situação é preocupante porque o excesso de peso e a obesidade estão entre os cinco maiores fatores de risco para mortalidade no mundo.
Uma das principais causas desse mal é o elevado consumo das bebidas açucaradas: 20% dos adultos consomem refrigerante regularmente; entre crianças e adolescentes esse percentual mais do que dobra, chegando a 45%. E aqui no Brasil, apesar desse diagnóstico bastante assustador, o setor é fortemente subsidiado pelo Estado: beneficia-se de isenções fiscais, tanto na produção como na comercialização dos refrigerantes. Segundo estimativas conservadoras, as empresas de bebidas açucaras deixam de recolher aos cofres públicos cerca de 7 bilhões de reais por ano[2] –  o que equivale a cerca de dois Programas de Alimentação Escolar que atende anualmente 40 milhões de estudantes. Em outras palavras, vivenciamos uma situação kafkiana, na qual o poder público financia a doença e a morte.
Urge, pois, não somente diminuir os incentivos fiscais, mas aprovar medidas legais que taxem fortemente o setor de bebidas açucaradas. Urge, ainda, implementar outras ações que promovam hábitos alimentares saudáveis. O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) vem debatendo o tema há um bom tempo. Recentemente, em março de 2018, na realização do Encontro “5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional + 2” alertou, mais uma vez, “para o aumento das doenças ligadas à má alimentação, os números crescentes de casos de obesidade em todas as faixas etárias ― inclusive crianças pequenas ― e das doenças a ela associadas como diabetes, hipertensão arterial, vários tipos de câncer, doenças do coração, entre outras”.[3] E mais recentemente ainda, na sua Plenária de abril de 2018, o Pleno do Conselho recomendou ao presidente da República que não somente eliminasse os incentivos fiscais do setor de bebidas açucaradas, mas que o taxasse fortemente.
É preciso destacar que o Brasil assumiu recentemente o compromisso internacional de reduzir a obesidade. Várias medidas vêm sendo implementadas nessa direção lideradas pela Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (Caisan). A Estratégia Intersetorial de Prevenção e Controle da Obesidade, lançada em 2014, apresenta um conjunto de ações que visam atuar positivamente sobre os determinantes da saúde e da nutrição da população.
Contudo, é preciso ir além, pois a situação é muito grave: faz-se necessário aprofundar de imediato políticas públicas intersetoriais, nos três níveis de governo, que respeitem, promovam e protejam o direito humano à alimentação adequada e saudável. A emergência da agenda da taxação de bebidas açucaradas é uma externalidade positiva da greve dos caminhoneiros.
________________
[1] A esse respeito ver resultado de pesquisas recentes publicadas no The Lancet:
[3] A esse respeito ver a Carta do Encontro: http://www4.planalto.gov.br/consea/eventos/conferencias/conferencias-2/encontro-5a-2/carta-final-papel-timbrado-evento.pdf

(fonte: https://outraspalavras.net/brasil/por-que-tributar-as-bebidas-acucaradas/)

domingo, 10 de junho de 2018

O começo do fim da farra da indústria de refrigerantes. Ou não.

Por João Peres

Em meio a cortes provocados pela greve dos caminhoneiros, governo reduz créditos de Coca
 e Ambev. Basta saber se resistirá a pressões
No meio de uma extensa lista de cortes de programas sociais, ao menos uma notícia favorável ao
 interesse público. O governo federal começou a retirar os subsídios dados à indústria de
refrigerantes. A redução de 20% para 4% na alíquota de Imposto sobre Produtos Industrializados
(IPI) dos concentrados produzidos na Zona Franca de Manaus é um dos resultados da greve
dos caminhoneiros.
Pode parecer estranho que uma redução da carga tributária resulte em aumento de arrecadação.
Porém, o Decreto 9.393, assinado por Michel Temer e publicado no último dia 30 no Diário Oficial
da União, representa uma forte perda para as fabricantes de bebidas adoçadas, em especial para
Coca-Cola e Ambev. Isso porque o crédito a que terão direito por comprar o concentrado produzido
na Zona Franca será bem menor.
A política de incentivos para empresas que compram da Zona Franca faz com que o setor de
refrigerantes chegue a dar prejuízo para o governo, conforme revelamos aqui no Joio. Nosso
cálculo (conservador) é de que ao menos R$ 7 bilhões são dados anualmente ao setor, entre
impostos federais e estaduais. O subsídio gira em torno de R$ 0,15-0,20 por lata, e chega a
R$ 0,50 nas garrafas de dois litros.
A Receita Federal tenta há anos dar fim ao esquema, mantido graças a muitas articulações 
políticas. O artigo 153 da Constituição prevê direito a um crédito sobre o IPI pago entre uma
etapa e outra da industrialização. Isso serve para evitar que o tributo se acumule sobre o preço
final. As engarrafadoras que compram concentrados da Zona Franca cobram esse crédito mesmo
sem o pagamento de impostos na etapa anterior.
“Vimos que eram incentivos que geravam efetivamente distorção no sistema, eram benefícios que
não geravam, vamos chamar assim, impacto para toda a sociedade, mas sim muito específico”,
disse o secretário-geral da Receita, Jorge Rachid, durante entrevista coletiva na última semana.
No ano passado, durante audiência pública, o órgão havia manifestado clara contrariedade
com a manutenção da situação.
A expectativa agora é de arrecadar mais R$ 740 milhões até o fim de 2018, valor condizente com
os cálculos apresentados por nós, de R$ 2 bilhões ao longo de um ano. Ainda assim, as empresas
continuarão a contar com incentivos de ICMS, PIS-Cofins e Imposto de Renda – esse último
também  tende a ser afetado com a mudança de tributação, já que a arrecadação geral deve cair.
Como mostramos, quanto maior o valor da nota fiscal emitida, maior o crédito a que se tem direito
na etapa seguinte. Isso funciona como um incentivo ao superfaturamento. Notas fiscais que
obtivemos expõem essa situação. O concentrado da Coca-Cola, quando vendido ao mercado
externo, custa em torno de R$ 70. Quando repassado a empresas no Brasil, chega a valer
até R$ 470.
A Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas (Abir) se
 disse surpresa com o decreto. “Nos últimos 30 anos o setor se converteu em um dos maiores
 exportadores da ZFM. Nesse período, a indústria brasileira de refrigerantes e de bebidas não
alcoólicas tornou-se responsável por um recolhimento de R$ 10 bilhões em impostos federais,
estaduais e municipais, e emprega direta e indiretamente mais de 1,6 milhão de brasileiros.”
Em outras ocasiões, a Abir conseguiu reverter a medida. Documentos que obtivemos mostram
como o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), um dos maiores engarrafadores de Coca-Cola
do Brasil, interviu junto ao então ministro da Fazenda, Guido Mantega, e conseguiu a edição
de um novo decreto em 2008, quando a Receita tentou frear o esquema.
A diferença é que agora a economia não cresce e o orçamento público está cada vez mais
apertado.
Além disso, a Receita ganhou força na argumentação de que é preciso dar fim ao esquema.
E há muito mais evidências de que as bebidas adoçadas causam mal à saúde. Em todo o
mundo, quase 40 países ou estados já adotaram tributação especial sobre esses produtos
na tentativa de enfrentar os problemas causados pela obesidade.
Desde a década passada, a Associação dos Fabricantes de Refrigerantes do Brasil (Afrebras),
que representa algumas empresas menores, trabalha junto ao governo na tentativa de mudar
a situação.
A entidade alega que os créditos provocam um desequilíbrio, já que as empresas que
compram os  concentrados em Manaus acabam por ganhar subsídios bilionários.
A leitura é de que a falência de pequenos e médios fabricantes está atrelada a esse cenário.
“São absurdos os valores em créditos tributários. Essas empresas compensam esses créditos
gerados  na fabricação de concentrados para abater tributos de bebidas alcoólicas, por exemplo.
Uma atitude simples, que promove justiça ao setor de bebidas brasileiro, e que traz enormes
benefícios aos cofres públicos, merece a atenção de Vossa Excelência”, afirmou Fernando 
Rodrigues de Bairros, presidente da Afrebras.
(fonte: http://outraspalavras.net/ojoioeotrigo/2018/06/o-comeco-do-fim-da-farra-da-industria-de-
refrigerantes-ou-nao/)

Biólogos acusam coca cola de secar nascentes em Minas Gerais


"Secou tudo, olha só. Que tristeza", lamenta Sebastião Gomes de Laia enquanto caminha pelo lamaçal coberto de capim às margens da rodovia BR-040, em Minas Gerais. "Tudo o que você está vendo aqui era água, onde o pessoal pescava traíra", recorda o pintor de 65 anos, um dos primeiros a ocupar os terrenos do bairro Água Limpa, perto de Itabirito, na região metropolitana de Belo Horizonte.
A reportagem é publicada por Deutsche Welle, 04-06-2018.
Laia chegou ali, na encosta da Serra da Moeda, em 2008. Sete anos depois, em 2015, foi inaugurado o projeto de um novo empreendimento em Itabirito: a Fábrica da Coca-Cola FEMSA, aclamada pelo então governador, Antonio Anastasia (PSDB), como unidade geradora de renda e empregos para a região.
No entanto, com a inauguração da fábrica, a água da região parece ter começado a sumir. Os moradores, que antes a carregavam em vasilhames dos mananciais, começaram a improvisar bombas d'água – já que, ainda à espera de regularização, o bairro não conta com sistema de esgotoabastecimento de água nem fornecimento de energia formalizados.
A Associação Mineira de Defesa do Ambiente (AMDA) afirma que os poços artesanais implantados pela concessionária de abastecimento de Itabirito para a unidade da Coca-Cola (apelidada de "Fábrica da Felicidade") estão secando nascentes dos rios Paraopeba e das Velhas – responsáveis por quase toda a água de Belo Horizonte. Os poços também estariam colocando em xeque o rico ecossistema do monumento natural da Serra da Moeda.
"Há uma redução significativa na vazão das nascentes em toda a região", explica Francisco Mourão, biólogo da AMDA. Ele diz que, desde que a fábrica começou as atividades, várias comunidades, principalmente do lado de Brumadinho e de Moeda, tiveram seus lençóis freáticos rebaixados. Há locais que inclusive são abastecidos por caminhões-pipa, e "alguns [dos caminhões] são enviados pela própria Coca-Cola", dizMourão.

"Estudos inconclusivos"

De acordo com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), a outorga para o uso da água na região foi concedida antes da instalação da Coca-Cola FEMSA. O empreendimento foi liberado desde que fosse feita uma pesquisa pela empresa, de duração de dois anos, com acompanhamento do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), da Semad e da Universidade de São Paulo (USP). As análises deverão ser entregues em agosto.
Segundo a secretaria, se esses estudos constatarem que o sistema de água está rebaixando os lençóis freáticos, é a concessionária quem terá que providenciar outra forma de abastecimento.
MPMG, que instaurou um inquérito civil para apurar os danos ambientais, considera os estudos realizados até agora "inconclusivos" e incapazes de responder à questão fundamental, ou seja, se o bombeamento está realmente acabando com a água da região.
Coca-Cola FEMSA, que chama a unidade em Itabirito de "a maior fábrica verdedo sistema Coca-Cola do mundo", afirma que possui todas as licenças para funcionamento.
Em dias de maior consumo, o total utilizado pela fábrica é de 125 m³/h, pouco mais da metade dos 274 m³/h de bombeamento demandados pela região. Segundo a empresa, os caminhões-pipa são enviados pela concessionária de Brumadinho. A companhia diz que "há evidências técnicas" de que os poços artesanais não estão interferindo nas nascentes.

Ecossistema em risco

Além das nascentes e dos lençóis freáticosMourão também se preocupa com os danos causados pela fábrica e pelas ocupações urbanas ao redor dela noecossistema conhecido como campos sobre substrato ferruginoso. Com uma riqueza em fauna e flora, o ecossistema é encontrado apenas na região do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais e na Serra dos Carajás, no Pará. Em Minas, está presente numa área restrita, de cerca de 30 mil hectares.
Por existirem em ambientes ricos em minério de ferro, os campos são presa fácil da mineração na região. Nos entornos da Coca-Cola, a AMDA apontou aterramento desses ecossistemas.
Somam-se a isso as ocupações urbanas nos arredores da fábrica. No último dia 21 de maio, a reportagem da DW Brasil acompanhou Mourão nos arredores da Coca-Colae flagrou acúmulo de lixo, aterros, nascentes com detritos, loteamentos e criação de porcos.

Coca

'Há uma redução significativa na vazão das nascentes em toda a região', afirma o biólogo Francisco Mourão.
Mourão diz que, só entre 2009 e 2014, a quantidade de casas na região aumentou de 200 para 2 mil. De lá para cá, o biólogo acredita esse número deve ter duplicado.
"Essas áreas eram praticamente todas naturais", diz ele, que espera que a AMDA possa interferir no novo processo de licenciamento ambiental, que termina neste ano.
"No início, fizemos uma proposta de implantação de um cinturão verde, que seria vedado à expansão urbana. Mas a empresa [Coca-Cola] não concordou e jogou a responsabilidade para cima da prefeitura de Itabirito", declara Mourão. Segundo ele, a prefeitura de Itabirito, que não respondeu à DW Brasil, também se esquivou.

Empregos na região

Laia afirma que a comunidade vizinha até hoje não colheu os frutos da fábrica da Coca-Cola. "Só tem quatro pessoas do Água Limpa trabalhando lá", diz o ex-presidente da associação de moradores, que afirma que só o posto de saúde local conta com 4 mil inscritos.
"Eles não ajudam em nada. O máximo que fizeram foi dar apoio ao campeonato de futebol da região, mas só distribuindo refrigerante", critica.
Sem confirmar os números de Laia, Milton da Cruz, atual presidente da Associação dos Moradores do Água Limpa (AMALI), diz que o número de funcionários da fábrica na região "está melhorando". Ele também destaca que a fábrica abre sua as portas para visitas de crianças e adolescentes, que incluem palestras justamente sobre uso de água.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/579629-biologos-acusam-coca-cola-de-secar-nascentes-em-minas-gerais)

Nada de indígenas e quilombolas virando doutores!



por Cristina Moreno de Castro

Há cinco anos, fiz a seguinte pergunta aqui neste mesmo blog: "Quais as chances de um índio, nascido e criado numa aldeia dentro de uma reserva no sertão pernambucano, distante 12 km da única escola disponível, se graduar em medicina por uma das melhores universidades do país, a UnB?"
E ali contei a história incrível de Josinaldo da Silva, da tribo Atikum, que virou "doutor" e, depois de formado, optou por ir trabalhar num local distante, para levar seu atendimento aos mais necessitados.
Ele conseguiu a formação, os valiosos conhecimentos que se tornaram úteis para a sociedade, e o título final de médico, graças a um sistema de cotas.
Para relembrar aquela história, basta clicar AQUI.
Em maio de 2013, Dilma Rousseff era a presidente do Brasil e seu governo, assim como o do antecessor, Lula, tinha como uma das bases a implementação de políticas sociais.
Hoje, junho de 2018, no governo de Michel Temer, recebi mais uma notícia de corte de programa social, mais um de vários que Temer implementou em apenas dois anos de governo, retrocedendo o Brasil em mais de 20 anos. A notícia de hoje é da lavra do super Rubens Valente, e saiu na "Folha de S.Paulo": "Governo Temer corta bolsa para estudantes indígenas e quilombolas".
Informa Valente que 5.000 estudantes devem ser prejudicados até o final do ano por conta desse corte do governo Temer.
Trecho:
"Criado em maio de 2013 pelo MEC (Ministério da Educação), o PBP já permitiu acesso mais de 18 mil estudantes que deixaram suas aldeias e quilombos, às vezes localizados a centenas de quilômetros, para fazer cursos superiores em instituições federais, além de jovens "em situação de vulnerabilidade socioeconômica".
Para ter acesso ao valor, os novos alunos devem se cadastrar no sistema do PBP no MEC. Contudo, o sistema está bloqueado, segundo diversas denúncias dos representantes dos alunos, que procuram o MEC desde abril na tentativa de resolver o problema. Em uma audiência no dia 29 com o novo ministro da Educação, Rossieli Soares, os representantes ouviram que a proposta do ministério é de apenas 800 novas bolsas neste ano. O mesmo número foi confirmado por email, à Folha, nesta terça-feira (5).
"Esse número é totalmente abaixo das necessidades (...)", disse Kâhu Pataxó, 27, aluno de direito da Ufba (Universidade Federal da Bahia), onde há 155 novos alunos aguardando a bolsa. (...)
De forma emergencial, a Ufba conseguiu para os alunos uma verba de R$ 400 mensais, com recursos do orçamento da instituição. A pró-reitora de ações afirmativas e assistência estudantil da Ufba, Cassia Virginia Bastos Maciel, afirmou que acompanha com grande apreensão o assunto porque uma concessão de apenas 800 bolsas para mais de 68 instituições federais "configura na prática o fechamento do programa".
"Os alunos estão vindo de várias regiões, atendemos 417 municípios na Bahia. Estão longe de suas famílias, de suas aldeias e de suas comunidades. A não concessão dessas bolsas significa de fato a expulsão dos alunos da universidade", disse a professora."
Para ler na íntegra, CLIQUE AQUI.
Repito o que eu tinha escrito em 2013, neste mesmo blog:
"As pessoas, quando conseguem oportunidades iguais, são capazes de se empenhar e correr atrás de seus sonhos e serem tão qualificadas quanto as que nasceram em berço de ouro e sempre tiveram acesso às melhores informações.
Não entendo quem é contrário à política de cotas. Argumentam que é um sistema que destrói a meritocracia. Ora, como falar em mérito entre grupos de pessoas sem as mesmas oportunidades? Num mundo ideal, em que todos tiveram oportunidades iguais, é legal beneficiar e privilegiar aqueles que são melhores e se empenham mais. Mas no Brasil atual, há milhares de Josinaldos que são inteligentes, esforçados, repetem a quarta série quatro vezes só por terem vontade de estudar e não ter escola por perto oferecendo as séries seguintes, vão virar ótimos médicos, mas que não conseguem passar pelo filtro, pela barreira social e geográfica intransponível que existe entre eles e o futuro que merecem.
Josinaldo teve direito ao mérito, depois de obter a oportunidade."
O governo Temer está acabando com a oportunidade para quem sempre foi excluído da sociedade. Está dizendo: indígenas e quilombolas: desistam! Vocês não têm vez.
Infelizmente, no Brasil atual, que vive em plena guerra civil, eles não têm vez mesmo. Nem muitos outros.
(fonte: blog da Kika Castro)

Nosso planeta está se afogando em plásticos

É preciso repensar o uso do plástico e reduzir seu consumo em virtude da poluição danosa ao planeta; na próxima década a previsão é que a produção global de plástico ultrapassará 700 milhões de toneladas. 
A reportagem é publicada por UNEP, 06-06-2018.

Fatos Importantes:

• Somente este ano, os fabricantes globais produzirão aproximadamente 360 milhões de toneladas.
• Nos próximos 10 a 15 anos, a produção global de plástico deverá quase duplicar.
• A produção está prevista para atingir 500 milhões de toneladas até 2025 e um escalonamento de 619 milhões de toneladas até 2030.
• Evitar o pior desses resultados requer um repensar completo da maneira como produzimos, usamos e gerenciamos o plástico.
• Os plásticos de uso único mais comuns encontrados no ambiente são, em ordem de grandeza, pontas de cigarro, garrafas plásticas de bebidas, tampinhas plásticas, embalagens de alimentos, sacolas de plástico, tampas plásticas, palhetas e agitadores, garrafas de bebida de vidro, outros sacos plásticos. e recipientes de espuma para viagem. .
• A Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico (Apec) estima em 1,3 bilhão de dólares o impacto econômico dos plásticos marinhos para as indústrias de turismo, pesca e transporte naquela região.
• Somente na Europa, os custos estimados para limpeza de praias e praias chegam a 630 milhões de euros por ano (Comissão Europeia, 2015), e estudos sugerem que o prejuízo econômico anual do plástico ao ecossistema marinho mundial é de pelo menos 13 bilhões de dólares (UNEP, 2014 )
• Dos 24 países africanos que introduziram proibições nacionais de sacolas plásticas, mais da metade (58%) foi implementada entre 2014-2017

Números:

• Até 5 trilhões de sacos de plástico são usados a cada ano
• 13 milhões de toneladas de vazamento de plástico no oceano a cada ano
• 17 milhões de barris de óleo usados na produção de plástico a cada ano
• 1 milhão de garrafas plásticas compradas a cada minuto
• 100.000 animais marinhos mortos por plásticos a cada ano
• 100 anos para plástico se degradar no meio ambiente
• 90% de água engarrafada contendo partículas de plástico
• 83% da água da torneira contém partículas de plástico
• 50% dos plásticos de consumo são de uso único
• 10% de todos os resíduos gerados por seres humanos são de plástico
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/579675-nosso-planeta-esta-se-afogando-em-plasticos)