Ocidente e Islã vivem crises simultâneas. Resposta dos
fundamentalistas é ódio ao Outro. Guerras e islamofobia, na Europa e
EUA. Massacres como em Paris e Orlando
Por Roberto Savio | Tradução: Inês Castilho
Quando, em 2006, charges blasfemas anti-Islã publicadas por um jornal dinamarquês deixaram 205 pessoas mortas
[em protestos que se espalharam pelo mundo], o então secretário geral
da Organização de Cooperação Islâmica, Ekmeleddin Mehmet Ihsaoglu, foi
conversar com Javier Solana, responsável pelas relações internacionais
da União Europeia. A posição da UE era de que não havia islamofobia
alguma e aquele era um incidente isolado. Desde então, essa tem sido
mais ou menos a posição das instituições europeias.
Mas agora, tal posição converteu-se numa negação da realidade. Há
três anos, manifestações de massa na Alemanha, especialmente em Dresden
(lideradas por um homem de passado criminoso), ocorrem semanalmente, sob
a bandeira do Pegida (Patriotic Europeans against the islamization of
Europe). A chacina de 77 pessoas
cometida por Anders Breivik em Oslo, em 2011, foi condenada como ato de
um lunático solitário. Hoje é sabido e aceito que, a cada dia,
acontecem mais de vinte atos de islamofobia somente na Alemanha. E o
congresso da AfD (Alternative for Germany), partido xenófobo e
nacionalista que em apenas dois anos alcançou representação em oito
estados da República Federal, conseguiu espaço na mídia.
O encontro foi realizado em 20 de abril, logo depois das eleições
alemãs de março. Viu a AfD tornar-se provavelmente o terceiro maior
partido do país. Semanas antes do congresso, na Áustria, o xenófobo
Freedom Party of Austria (FPO) chegou em primeiro lugar no primeiro
turno das eleições presidenciais. Pouco antes, o partido de direita
Slovak National Party (SNS) conseguira assumir o governo na Eslováquia
e, na Polônia, o grupo direitista Lei e Justiça (PiS) fizera o mesmo. Em
meio à indiferença geral, vem acontecendo nos últimos anos uma sucessão
ininterrupta de avanços da extrema direita na Suécia, Finlândia,
Dinamarca, Holanda, Alemanha, França, Suiça, Áustria, Hungria, Itália e
Grécia.
Os partidipantes do congresso da AfD sabiam que uma maré de
xenofobia, nacionalismo e populismo está invadindo a Europa. E o
discurso que adotaram seria impensável até poucos anos atrás. Uma das
resoluções foi de que o Islã é irreconciliável com a Europa e, portanto,
todos os muçulmanos serão expulsos da Alemanha. Qualquer solução teria
de passar pela mudança da Constituição, dado que 87% deles vivem no país
há mais de 15 anos e portanto estão, claramente integrados à sociedade e
constitucionalmente protegidos em seus direitos. Quando, na entrevista
coletiva, um jornalista perguntou como se faria a expulsão repentina de
milhões de pessoas do mercado de trabalho, a resposta foi: Hitler fez
isso com seis milhões de judeus, muito mais poderosos e integrados, e
nada aconteceu.
Agora, vamos lembrar que Hitler declarou que os judeus eram
incompatíveis com a Europa, arrancou-lhes a cidadania e deportou-os para
campos de concentração (condescendente, o AfD apenas os expulsaria…). O
objetivo do AfD não faz soar um alarme de um dejà vu?
Islamofobia foi o assunto de uma bem sucedida conferência organizada
pelo Centro de Genebra para o Avanço dos Direitos Humanos e Diálogo
Global, juntamente com a Missão Paquistanesa da ONU, apenas um dia antes
do Congresso do AfD. Subiram ao palco oradores de grande importância
como Idriss Jazairy, da Argélia, Ekmeleddin Mehmet Ihsaoglu, da Turquia,
e Tehmina Janjua, do Paquistão. E a conferência, com ampla participação
de diversos países, tratou de fazer o debate usual sobre religião.
Vários fatos foram levantados para mostrar que o Corão não prega
violência, e que o ISIS é apenas um desvio do verdadeiro Islã. A verdade
é que todos os painelistas muçulmanos — alguns sufistas, outros sunitas
— seriam considerados apóstatas e rapidamente executados pelo ISIS. Não
estavam presentes whabistas ou salafistas (a versão puritana do Islã).
É, contudo, bastante evidente que a islamofobia não tem nada a ver
com religião. Na verdade, há vários pontos em comum entre o Corão e os
evangelhos. E as guerras de religião raramente têm sido algo importante
para os cidadãos. Elas foram sempre originadas por reis e xeques. A
Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), que destruiu a Europa muito mais do
que o ISIS jamais poderia conseguir, dizimando 20% de sua população, foi
iniciada pelo Imperador Ferdinando, da Boêmia. Na Espanha, protestantes
e católicos viviam pacificamente lado a lado, assim como judeus,
muçulmanos e cristãos, até que Isabel e Fernando decidiram expulsar os
judeus e os muçulmanos. E quando líderes religiosos como Girolamo
Savonarola, em Florença (um cristão wahabista), acumularam seguidores, o
Papa, neste caso, e reis e príncipes, em outros, interferiram
rapidamente para executá-los.
É mais do que tempo de reconhecermos que o Islã foi pego numa crise
interna do Ocidente. E que o próprio Islã encontra-se também numa crise
interna, não muito bem conhecida aqui fora. Há várias tendências do
Islã, além da divisão principal entre sunitas e xiitas. Mas também neste
caso, as lutas internas foram sempre geradas por reis, imãs e aiatolás,
ao usar a religião como instrumento de poder. Um dos argumentos contra o
Islã é que os cristãos estão deixando o mundo árabe por causa do
fanatismo muçulmano. Mas ninguém pára para pensar a razão por que os
cristãos vêm partindo de lá há gerações… Quem vencerá essa guerra
interna não está claro, mas certamente não será o ISIS, ou mesmo o
wahabismo, a despeito das centenas de milhões de dólares gastos pela
Arábia Saudita para criar mesquitas com imãs radicais ao redor do mundo.
O Islã continuará a ser uma religião com diversas linhas, que
aprenderão a coexistir. Quanto tempo isso levará, não se pode prever.
Mas vamos voltar ao que está acontecendo agora, hoje. O Ocidente vive
uma séria crise interna — da democracia, de ordem econômica e social e
da falta habilidade do sistema político para lidar com ela? Devíamos
reconhecer que, até a crise econômica de 2008, disparada nos EUA com o
estouro da bolha dos derivativos e depois na Europa com a bolha da
dívida soberana, o sistema criado no pós Segunda Guerra mantinha-se em
vigor.
Muitos historiadores defendem que as transformações na história
originaram-se por cobiça e medo. Desde a queda do Muro de Berlim, em
1989, entramos num período de capitalismo descontrolado, em que a cobiça
é considerada combustível positivo para o crescimento. Vinte anos
depois, a ganância resultou em volta da desigualdade social, que
acompanhou o nascimento da revolução industrial. Os números são claros e
bem conhecidos. Lembromos qpenas que 200 pessoas têm riqueza
equivalente à de 2,2 bilhões seres humanas. A classe média está
encolhendo: segundo o Banco Mundial, ela é agora 3% menor na Europa, e
7% nos Estados Unidos. No Brasil, onde 40 milhões de pessoas saíram da
pobreza para a classe média, milhões estão tomando as ruas por medo de
perder suas conquistas.
E à cobiça, soma-se o medo. Ele é o combustível para a ascensão de
Donald Trump (e de Bernie Sanders) nos EUA. Em toda parte, as pessoas
temem ver desaparecer o mundo que conheceram e no qual sentiam-se em
conforto e segurança. O apelo da direita tem sido por um passado melhor:
vamos voltar a uma Europa pura e ordeira, vamos nos livrar dos
burocratas de Bruxelas que desejam dirigir nossas vidas. Nacionalismo e
populismo estão de volta. Vamos nos livrar do euro; vamos voltar à nossa
soberania monetária e vamos expulsar todos os estrangeiros que estão
destruindo o mundo que se conhecia. O atual sistema político é corrupto e
não responde à necessidade dos cidadãos. Ele tornou-se uma casta
auto-sustentada. Vamos nos livrar dos partidos tradicionais, que são
instrumentos de interesses econômicos e financeiros.
Nesse quadro, é muito conveniente adicionar ao nacionalismo e ao
populismo a xenofobia, que transformou-se em islamofobia. Não por acaso,
isso começou na França, que tem a maior comunidade muçulmana da Europa.
E então dois fenômenos vieram ajudar no uso da islamofobia como
ferramenta política. Um foi a criação do ISIS em 2014, cujos atentados
na Europa vieram somar-se ao medo geral. Ao mesmo tempo, a crise dos
refugiados, que estão chegando como parte de um movimento migratório sem
precedentes na Europa. A islamofobia, juntamente com o nacionalismo e o
populismo, tem ajudado imensamente a maré da direita.
Contudo, responsabilizar inteiramente o ISIS e os refugiados por essa
maré seria uma leitura superficial dos fatos. Não nos esqueçamos de que
o governo antieuropeu da Hungria foi eleito em 2010, quando o ISIS e os
refugiados não existiam. Antes de 2014, o populismo e o nacionalismo, o
medo e a ganância foram os responsáveis pela maré montante. O governo
da Polônia, país onde a União Europeia despejou subsídios como em nenhum
outro, passou em 2015 para as mãos do partido da Lei e da Justiça, sob a
bandeira: vamos nos afastar do que está acontecendo na Europa. E o
Brexit, referendo britânico sobre a Europa, foi promovido pelo Ukip, o
UK Independence Party, que era acima de tudo um partido nacionalista
antieuropeu, com pouca islamofobia. Tanto que o prefeito de Londres é
hoje um islamita.
Agora, é claro, estamos todos fixados no Islã, transformado num fácil
bode expiatório por causa do ISIS e da crise dos refugiados. O fato de
que muitos dos refugiados vêm de guerras iniciadas pelas potências
ocidentais está agora completamente esquecido. Mas tal esquecimento não é
mais possível, politicamente, caso se queira olhar para o futuro e
construir uma política séria de imigração. Após o sucesso esmagador da
FPO na Áustria, a coalisão governamental democrata Socialista-Cristã
declarou que não deixará a bandeira da integridade nacional nas mãos da
direita e está indo longe aponto de cogitar erguer uma fronteira física
com a Itália.
Ainda assim, é fato que a Europa do passado não poderá voltar. O
Velho Continente tinha 24% da população mundial em 1800, e terá 4% no
final do século. Quando a Inglaterra obrigou a China a aceitar sua
exportação de ópio, em 1839, ela tinha uma população de 19 milhões de
pessoas, contra uma população chinesa de 354 milhões. Hoje, o Reino
Unido tem uma população branca de 41,5 milhões de pessoas e a China tem
1,6 bilhões. A Europa perderá 50 milhões de pessoas em três décadas. O
sistema previdenciário sofrerá um colapso. Podemos ter 50 milhões de
imigrantes cristãos? E por que tínhamos 20 milhões de muçulmanos vivendo
na Europa sem que ninguém notasse, até poucos anos atrás? Sem uma
política de imigração, como ignorar que o número total de pessoas
vivendo fora de seu país natal é agora de 240 milhões, o que os tornaria
o quinto maior país do mundo? Como escolher e admitir apenas aqueles
que são “necessários” ou “úteis”?
Estamos esquecendo tudo isso, a ponto de a Europa estar abandonando a
Carta dos Direitos Humanos, e sua proclamada identidade, para lidar com
o pouco palatável presidente Recep Tayyip Erdogan e chegar a um acordo
em que 1 milhão de sírios sejam trocados por 6 bilhões de dólares e
portas abertas para 70 milhões de turcos.
O Ocidente está entrando no jogo do ISIS. O sonho do Estado Islâmico é
criar uma guerra de religiões. Para obrigar os muçulmanos que vivem na
Europa e os Estados Unidos a fazerem uma escolha: ou tornar-se
apóstatas, colocando-se ao lado do Ocidente, a despeito de serem
rejeitados; ou juntar-se à luta para o renascimento do Islã e a guerra
contra os cruzados. Essa é sua estratégia. E a crescente maré de
nacionalismo, populismo e, agora, de islamofobia que paralisou o sistema
político tradicional, significa não apenas o declínio da democracia. É
também um caminho para a insegurança e o retorno aos homens fortes do
passado.
(fonte: http://outraspalavras.net/capa/quem-aposta-no-choque-de-civilizacoes/)
terça-feira, 14 de junho de 2016
Pulverização de agrotóxicos: também nas cidades?
Congresso ameaça aprovar proposta das empresas de aviação
agrícola. Estudos demonstram: método é brutal para populações e
natureza; e ineficaz contra epidemias
Por Vilma Reis, no site da Abrasco
Desde março, os Grupos Temáticos da Abrasco – Saúde e Ambiente, Saúde do Trabalhador, Alimentação e Nutrição e Saúde do Trabalhador, em conjunto com o Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador, discutem como enfrentar uma proposta que transita no Congresso Federal de iniciar a pulverização aérea de inseticidas para o controle de vetores. Como resultado foi escrita a nota contra pulverização aérea de inseticidas para controle de vetores de doenças, confira na íntegra:
Propostas em tramitação no legislativo visando permitir a pulverização aérea de inseticidas para o controle de vetores devem ser reprovadas por conta do elevado potencial de causar graves doenças nos seres humanos, extinção de espécies e perdas econômicas.
A pulverização aérea de agrotóxicos (inseticidas, herbicidas e outros) é uma prática comum na agricultura brasileira que atinge a saúde e o ambiente das regiões diretamente pulverizadas ou daquelas que são atingidas através da deriva técnica. Por conta do elevado percentual de perda durante a pulverização aérea, que pode chegar a mais de 80% e a atingir localidades distantes, o volume necessário para aniquilar os insetos e outras espécies-alvo deve ser muito maior (revisão em Nota Técnica Fiocruz-Ceará). Por consequência, efeitos sobre a saúde e o ambiente, a perda da biodiversidade e das plantações do entorno decorrem com frequência dessa prática.
A autoridade regulatória dos EUA (USEPA) afirma que a pulverização pode atingir residências, escolas, praças, agricultores das redondezas, animais selvagens, plantas e fontes de água causando danos à saúde. Além disso, também ressalta as perdas econômicas, como o gasto para a compra dos agrotóxicos, deriva técnica (perda de volume durante a dispersão), perda de plantações (quando são atingidas pela deriva de agrotóxicos que não estão permitidos para a cultura). A volatização dos agrotóxicos, incluindo os presentes nas formulações dos inseticidas de uso doméstico, também é apontada pela USEPA como um problema, para os trabalhadores da agricultura e para os moradores de áreas próximas.
No Brasil, relatos de populações atingidas pela pulverização aérea são frequentes, já tendo sido notificados em escolas rurais, aldeias indígenas e regiões rurais, como mostrado no Dossiê Abrasco – um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde (2015). Estudos nacionais e internacionais também têm demonstrado o impacto da pulverização de inseticidas não somente sobre as abelhas e outros insetos polinizadores benéficos à prática agrícola, mas também sobre organismos aquáticos, peixes e invertebrados. Nesse cenário, a legislação nacional vigente (Instrução Normativa nº2 de 01/01/2008 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) proíbe a pulverização aérea na agricultura a menos de 500 metros de povoações, cidades, vilas, bairros e mananciais de captação de água para abastecimento e a menos de 250 metros de mananciais de água, moradias isoladas e agrupamentos de animais. Deve-se destacar, no entanto, que essa medida não garante a segurança desse modo de aplicação de agrotóxicos, por conta da possibilidade de deriva técnica, que pode atingir áreas habitadas ou recursos hídricos utilizados para consumo humano e levar ao desequilíbrio ecológico. Desse modo, são necessários esforços voltados à proibição da pulverização aérea de agrotóxicos nas lavouras brasileiras como já foi adotado pela Comunidade Européia.
A proposta de emenda à Medida Provisória 712/2016 do deputado federal Valdir Colatto (PMDB/SC) consiste em permitir a pulverização aérea de inseticidas. A proposta de pulverização aérea de inseticidas em áreas habitadas, elaborada pelo Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (SINDAG), consiste em realizar estudo piloto pulverizando os agrotóxicos malation, fenitrotiona, lambda cialotrina e nalede.
Sobre a proposta de se permitir a pulverização aérea para controle de vetores, cabem alguns esclarecimentos:
1) A pulverização aérea para controle de vetores apresenta potencial ainda maior de causar danos sobre a saúde, o ambiente e a economia local e nacional. Isso porque o volume será pulverizado diretamente sobre regiões habitadas, atingindo residências, escolas, creches, hospitais, clubes de esporte, feiras, comércio de rua e ambientes naturais, meios aquáticos como lagos e lagoas, além de centrais de fornecimento de água para consumo humano. Atingirá ainda, indistintamente, pessoas em trânsito, incluindo aquelas mais vulneráveis como crianças de colo, gestantes, idosos, moradores de rua e imunossuprimidos.
2) Outra suposta vantagem da pulverização aérea de inseticidas apontada pela SINDAG não se justifica, como o fato de poder atingir terrenos baldios e outras áreas pouco acessíveis. Isso porque, na prática, não é possível ter precisão para atingir determinados locais, consequentemente, para se atingir terrenos baldios e áreas abandonadas, as habitações ao redor também seriam contaminadas pelo veneno aplicado por aviões. Mesmo na pulverização aérea agrícola, em que os sobrevôos são mais baixos e, portanto, são mais precisos, o agrotóxico pulverizado é carreado para longas distâncias.
3) A proposta de realização de estudos em área piloto, além de causar a exposição da área estudada e potencialmente causar danos irreversíveis à saúde humana e ao ambiente – e, por isso, envolvendo também aspectos éticos -, não garantiria que os resultados obtidos poderiam ser extrapolados para as demais regiões do Brasil, no que se refere à eficácia ou à segurança da técnica de pulverização aérea. Sobre a “eficácia” contra o mosquito, muitos fatores estão relacionados, como o percentual de deriva técnica do agrotóxico pulverizado (clima, relevo, organização do espaço urbano, revisão em Nota Técnica Fiocruz-CE), mas também a localização do mosquito nas áreas atingidas e a resistência dos insetos aos produtos químicos pulverizados. Quanto à segurança da pulverização, um estudo piloto não permitiria concluir que a segurança seria satisfatória principalmente em função do tempo insuficiente para observar efeitos sobre a saúde das populações, pois muitos inseticidas, como o malation, por exemplo, são reconhecidos pelo seu potencial de causar câncer, que pode se manifestar muitos anos depois da exposição.
4) A proposta de pulverização aérea da SINDAG prevê a aplicação de fenitrotiona, malation, nalede e lambda-cialotrina, que apresentam elevado risco sobre a saúde. A fenitrotiona e o nalede não possuem autorização para uso na Comunidade Europeia. Vale destacar ainda que a lambda cialotrina é um dos componentes da formulação do produto pulverizado por avião sobre uma escola municipal em Rio Verde intoxicando quase 100 pessoas, entre elas crianças e adolescentes; e o malation foi considerado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), da Organização Mundial da Saúde, como provável cancerígeno humano (grupo 2A) (ver Nota informativa contendo esclarecimentos sobre pulverização aérea e o controle de endemias do Ministério da Saúde). A monografia IARC sobre o malation, também aponta outros danos sérios sobre a saúde humana em decorrência da exposição a este produto, entre eles reações na pele, alterações no sistema nervoso e para o processo de desenvolvimento neurológico do individuo.
5) Do mesmo modo, as experiências de pulverização aérea realizadas no Brasil no ano de 1975 citadas pelo SINDAG, não podem servir de parâmetro para determinar a segurança e a eficácia dessa prática. A densidade demográfica, a organização das cidades e dos órgãos de saúde e ambiente eram diferentes sendo, portanto, situações incomparáveis. Além do fato de que à época da ditadura militar, as informações eram sigilosas e os sistemas de vigilância insuficientes. Apesar da garantia constitucional do direito à saúde, a vigilância das populações expostas a substâncias químicas enfrenta dificuldades, em especial para notificar os casos de intoxicação e promover ações de mitigação e, principalmente, de prevenção e promoção dos casos.
6) O controle de vetores com base na aplicação de inseticidas tem se mostrado ineficaz, induz resistência nos mosquitos e pode causar danos à saúde humana (Nota técnica sobre microcefalia e doenças vetoriais relacionadas ao Aedes aegypti: os perigos das abordagens com larvicidas e nebulizações químicas – fumacê). Os produtos utilizados para controlar vetores possuem os mesmos princípios ativos daqueles usados na agricultura e pertencem, principalmente, ao grupo dos piretróides e organofosforados que tem impacto sério sobre a saúde.
O processo de registro dos agrotóxicos apresenta diversas limitações. Uma delas refere-se à avaliação da segurança para a saúde humana ser feita a partir da interpretação de experimentos onde os animais de laboratório são expostos a somente um agrotóxico; e por uma entrada no corpo, como oral (ingestão), inalatória ou dérmica. Outra limitação refere-se ao fato de o produto final que vai para a prateleira de venda não passar por testes importantes, como aqueles voltados a identificar efeitos sobre a reprodução, fertilidade, desregulação hormonal, malformações e câncer (Ver Nota Inter GTs Estudos científicos e conflitos de interesse: por uma ciência a favor da vida).
Reiteramos que algumas medidas urgentes devem ser tomadas, pois são mais eficazes, duradouras e podem prevenir outras doenças e agravos. São elas: melhoria das condições de vida nas cidades, garantia do acesso a água, esgotamento sanitário, saneamento ambiental, adoção de métodos mecânicos de limpeza, coleta de lixo regular, limpeza de terrenos em espaços públicos e particulares, e suspensão do uso de inseticidas e larvicidas, principalmente em água potável.
Para isso é de suma importância (i) o fortalecimento do SUS que tem sob sua competência as ações de monitoramento das espécies de vírus e mosquitos circulantes; e as funções da vigilância sanitária, ambiental, epidemiológica e da saúde do trabalhador; (ii) que todas essas medidas de controle vetorial sejam debatidas com a comunidade e realizadas garantindo a mobilização social.
Diante dos estudos científicos sobre a toxicidade dos inseticidas e da nocividade do processo de pulverização aérea, e em consonância com a Nota Informativa do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador (DSAST) do Ministério da Saúde, a Abrasco, através de Grupos Temáticos, se manifesta contra a adoção da pulverização aérea para o controle de vetores sob qualquer circunstância.
(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=321040)
Por Vilma Reis, no site da Abrasco
Desde março, os Grupos Temáticos da Abrasco – Saúde e Ambiente, Saúde do Trabalhador, Alimentação e Nutrição e Saúde do Trabalhador, em conjunto com o Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador, discutem como enfrentar uma proposta que transita no Congresso Federal de iniciar a pulverização aérea de inseticidas para o controle de vetores. Como resultado foi escrita a nota contra pulverização aérea de inseticidas para controle de vetores de doenças, confira na íntegra:
Propostas em tramitação no legislativo visando permitir a pulverização aérea de inseticidas para o controle de vetores devem ser reprovadas por conta do elevado potencial de causar graves doenças nos seres humanos, extinção de espécies e perdas econômicas.
A pulverização aérea de agrotóxicos (inseticidas, herbicidas e outros) é uma prática comum na agricultura brasileira que atinge a saúde e o ambiente das regiões diretamente pulverizadas ou daquelas que são atingidas através da deriva técnica. Por conta do elevado percentual de perda durante a pulverização aérea, que pode chegar a mais de 80% e a atingir localidades distantes, o volume necessário para aniquilar os insetos e outras espécies-alvo deve ser muito maior (revisão em Nota Técnica Fiocruz-Ceará). Por consequência, efeitos sobre a saúde e o ambiente, a perda da biodiversidade e das plantações do entorno decorrem com frequência dessa prática.
A autoridade regulatória dos EUA (USEPA) afirma que a pulverização pode atingir residências, escolas, praças, agricultores das redondezas, animais selvagens, plantas e fontes de água causando danos à saúde. Além disso, também ressalta as perdas econômicas, como o gasto para a compra dos agrotóxicos, deriva técnica (perda de volume durante a dispersão), perda de plantações (quando são atingidas pela deriva de agrotóxicos que não estão permitidos para a cultura). A volatização dos agrotóxicos, incluindo os presentes nas formulações dos inseticidas de uso doméstico, também é apontada pela USEPA como um problema, para os trabalhadores da agricultura e para os moradores de áreas próximas.
No Brasil, relatos de populações atingidas pela pulverização aérea são frequentes, já tendo sido notificados em escolas rurais, aldeias indígenas e regiões rurais, como mostrado no Dossiê Abrasco – um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde (2015). Estudos nacionais e internacionais também têm demonstrado o impacto da pulverização de inseticidas não somente sobre as abelhas e outros insetos polinizadores benéficos à prática agrícola, mas também sobre organismos aquáticos, peixes e invertebrados. Nesse cenário, a legislação nacional vigente (Instrução Normativa nº2 de 01/01/2008 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) proíbe a pulverização aérea na agricultura a menos de 500 metros de povoações, cidades, vilas, bairros e mananciais de captação de água para abastecimento e a menos de 250 metros de mananciais de água, moradias isoladas e agrupamentos de animais. Deve-se destacar, no entanto, que essa medida não garante a segurança desse modo de aplicação de agrotóxicos, por conta da possibilidade de deriva técnica, que pode atingir áreas habitadas ou recursos hídricos utilizados para consumo humano e levar ao desequilíbrio ecológico. Desse modo, são necessários esforços voltados à proibição da pulverização aérea de agrotóxicos nas lavouras brasileiras como já foi adotado pela Comunidade Européia.
A proposta de emenda à Medida Provisória 712/2016 do deputado federal Valdir Colatto (PMDB/SC) consiste em permitir a pulverização aérea de inseticidas. A proposta de pulverização aérea de inseticidas em áreas habitadas, elaborada pelo Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (SINDAG), consiste em realizar estudo piloto pulverizando os agrotóxicos malation, fenitrotiona, lambda cialotrina e nalede.
Sobre a proposta de se permitir a pulverização aérea para controle de vetores, cabem alguns esclarecimentos:
1) A pulverização aérea para controle de vetores apresenta potencial ainda maior de causar danos sobre a saúde, o ambiente e a economia local e nacional. Isso porque o volume será pulverizado diretamente sobre regiões habitadas, atingindo residências, escolas, creches, hospitais, clubes de esporte, feiras, comércio de rua e ambientes naturais, meios aquáticos como lagos e lagoas, além de centrais de fornecimento de água para consumo humano. Atingirá ainda, indistintamente, pessoas em trânsito, incluindo aquelas mais vulneráveis como crianças de colo, gestantes, idosos, moradores de rua e imunossuprimidos.
2) Outra suposta vantagem da pulverização aérea de inseticidas apontada pela SINDAG não se justifica, como o fato de poder atingir terrenos baldios e outras áreas pouco acessíveis. Isso porque, na prática, não é possível ter precisão para atingir determinados locais, consequentemente, para se atingir terrenos baldios e áreas abandonadas, as habitações ao redor também seriam contaminadas pelo veneno aplicado por aviões. Mesmo na pulverização aérea agrícola, em que os sobrevôos são mais baixos e, portanto, são mais precisos, o agrotóxico pulverizado é carreado para longas distâncias.
3) A proposta de realização de estudos em área piloto, além de causar a exposição da área estudada e potencialmente causar danos irreversíveis à saúde humana e ao ambiente – e, por isso, envolvendo também aspectos éticos -, não garantiria que os resultados obtidos poderiam ser extrapolados para as demais regiões do Brasil, no que se refere à eficácia ou à segurança da técnica de pulverização aérea. Sobre a “eficácia” contra o mosquito, muitos fatores estão relacionados, como o percentual de deriva técnica do agrotóxico pulverizado (clima, relevo, organização do espaço urbano, revisão em Nota Técnica Fiocruz-CE), mas também a localização do mosquito nas áreas atingidas e a resistência dos insetos aos produtos químicos pulverizados. Quanto à segurança da pulverização, um estudo piloto não permitiria concluir que a segurança seria satisfatória principalmente em função do tempo insuficiente para observar efeitos sobre a saúde das populações, pois muitos inseticidas, como o malation, por exemplo, são reconhecidos pelo seu potencial de causar câncer, que pode se manifestar muitos anos depois da exposição.
4) A proposta de pulverização aérea da SINDAG prevê a aplicação de fenitrotiona, malation, nalede e lambda-cialotrina, que apresentam elevado risco sobre a saúde. A fenitrotiona e o nalede não possuem autorização para uso na Comunidade Europeia. Vale destacar ainda que a lambda cialotrina é um dos componentes da formulação do produto pulverizado por avião sobre uma escola municipal em Rio Verde intoxicando quase 100 pessoas, entre elas crianças e adolescentes; e o malation foi considerado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), da Organização Mundial da Saúde, como provável cancerígeno humano (grupo 2A) (ver Nota informativa contendo esclarecimentos sobre pulverização aérea e o controle de endemias do Ministério da Saúde). A monografia IARC sobre o malation, também aponta outros danos sérios sobre a saúde humana em decorrência da exposição a este produto, entre eles reações na pele, alterações no sistema nervoso e para o processo de desenvolvimento neurológico do individuo.
5) Do mesmo modo, as experiências de pulverização aérea realizadas no Brasil no ano de 1975 citadas pelo SINDAG, não podem servir de parâmetro para determinar a segurança e a eficácia dessa prática. A densidade demográfica, a organização das cidades e dos órgãos de saúde e ambiente eram diferentes sendo, portanto, situações incomparáveis. Além do fato de que à época da ditadura militar, as informações eram sigilosas e os sistemas de vigilância insuficientes. Apesar da garantia constitucional do direito à saúde, a vigilância das populações expostas a substâncias químicas enfrenta dificuldades, em especial para notificar os casos de intoxicação e promover ações de mitigação e, principalmente, de prevenção e promoção dos casos.
6) O controle de vetores com base na aplicação de inseticidas tem se mostrado ineficaz, induz resistência nos mosquitos e pode causar danos à saúde humana (Nota técnica sobre microcefalia e doenças vetoriais relacionadas ao Aedes aegypti: os perigos das abordagens com larvicidas e nebulizações químicas – fumacê). Os produtos utilizados para controlar vetores possuem os mesmos princípios ativos daqueles usados na agricultura e pertencem, principalmente, ao grupo dos piretróides e organofosforados que tem impacto sério sobre a saúde.
O processo de registro dos agrotóxicos apresenta diversas limitações. Uma delas refere-se à avaliação da segurança para a saúde humana ser feita a partir da interpretação de experimentos onde os animais de laboratório são expostos a somente um agrotóxico; e por uma entrada no corpo, como oral (ingestão), inalatória ou dérmica. Outra limitação refere-se ao fato de o produto final que vai para a prateleira de venda não passar por testes importantes, como aqueles voltados a identificar efeitos sobre a reprodução, fertilidade, desregulação hormonal, malformações e câncer (Ver Nota Inter GTs Estudos científicos e conflitos de interesse: por uma ciência a favor da vida).
Reiteramos que algumas medidas urgentes devem ser tomadas, pois são mais eficazes, duradouras e podem prevenir outras doenças e agravos. São elas: melhoria das condições de vida nas cidades, garantia do acesso a água, esgotamento sanitário, saneamento ambiental, adoção de métodos mecânicos de limpeza, coleta de lixo regular, limpeza de terrenos em espaços públicos e particulares, e suspensão do uso de inseticidas e larvicidas, principalmente em água potável.
Para isso é de suma importância (i) o fortalecimento do SUS que tem sob sua competência as ações de monitoramento das espécies de vírus e mosquitos circulantes; e as funções da vigilância sanitária, ambiental, epidemiológica e da saúde do trabalhador; (ii) que todas essas medidas de controle vetorial sejam debatidas com a comunidade e realizadas garantindo a mobilização social.
Diante dos estudos científicos sobre a toxicidade dos inseticidas e da nocividade do processo de pulverização aérea, e em consonância com a Nota Informativa do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador (DSAST) do Ministério da Saúde, a Abrasco, através de Grupos Temáticos, se manifesta contra a adoção da pulverização aérea para o controle de vetores sob qualquer circunstância.
(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=321040)
segunda-feira, 13 de junho de 2016
A semana no Café História
[1] Vídeo:
Thomas Skidmore no Roda Viva
Falecido
na última semana, o historiador norte-americano Thomas Skidmore
produziu importantes estudos sobre a História do Brasil. Em 1997,
Skidmore deu uma importante entrevista ao programa Roda Viva. [Confira]
[2] Mural:
Revista Temporalidades
A
Revista Temporalidades está aceitando artigos para o seu novo dossiê
temático: "Para além das fronteiras: histórias transnacionais,
conectadas, cruzadas e comparadas", com prazo para envio dos trabalhos
até o dia 15/07/2016. [Confira]
[3] Notícia:
Thomas Skidmore é leitura obrigatória
O
historiador norte-americano James Green, especializado em História do
Brasil, faz uma bela homenagem a Thomas Skidmore. De acordo com Green,
"Skidmore é leitura obrigatória sobre como os EUA viam o Brasil". [Veja]
[4] Livros:
Hitler, Guerra e Nazismo
Nova
biografia de Hitler e o tumultuado século XX na Europa. Você não pode
deixar de conferir nossa dica de livros. Dois livros que tem tudo para
se tornarem clássicos na historiografia. [Clique aqui]
[5] Fórum:
Contribuições de Thomas Skidmore
Na sua opinião, qual a maior contribuição de Thomas Skidmore a historiografia brasileira? [Participe]
Visite Cafe Historia em: http://cafehistoria.ning.com/?xg_source=msg_mes_network
domingo, 12 de junho de 2016
O Globo pede a cabeça de Cunha em editorial e ameaça Temer
O Globo pede a cabeça de Cunha em editorial e ameaça Temer: 'que não se envolva em tentativas de defender o indefensável'
Começa pelo título: "Cunha ultrapassa todos os limites".
Dilma afastada, O Globo tira o Cunha da reta.
Vai ser briga de cachorro grande. Porque a Globo pode muito, mas Cunha trabalha nos bastidores, fora dos focos e dos refletores.
Temer além de usurpador, como todo covarde é um cagão. Sua imagem afundado no assento traseiro do carro, fugindo com medo da multidão diante de sua casa em São Paulo, é definitiva.
Mas, agora, Temer está numa sinuca de bico. Globo por um lado, Cunha pelo outro. E Cunha sabe muito bem o que Temer fez nos verões passados. (Leia aqui Em mensagem pelo WhatsApp Cunha reclama de 5 milhões para Temer: - Cadê o meu?).
(fonte: http://blogdomello.blogspot.com.br/2016/06/o-globo-pede-cabeca-de-cunha-em-editorial.html)Uma das últimas manipulações de Cunha no Conselho é garantir com o PRB, partido da deputada Tia Eron (BA), o voto dela sobre o relatório do pedido de impeachment, e que pode ser decisivo. O presidente licenciado do partido, Marcos Pereira, ministro de Temer na Indústria e Comércio, seria elo da trama montada para livrar Cunha integralmente ou condená-lo a uma pena leve, como suspensão. Mas a maré não está mesmo favorável ao deputado, e não apenas devido ao avanço da Lava-Jato sobre as contas suíças, pelo flanco dos gastos luxuosos de Cláudia Cruz.Também cresce de importância a atuação de Cunha na CEF, por meio do vice-presidente Fábio Cleto, indicado por ele e demitido por Dilma assim que o deputado aceitou o pedido de impeachment. Pois Cleto aceitou fazer delação premiada, e assim se cravam mais estacadas no peito de Cunha.Só os empresários da Carioca Engenharia, Ricardo Pernambuco e Ricardo Pernambuco Jr., relatam propinas de R$ 52 milhões para Cunha, a fim de liberar recursos para obras no Porto Maravilha, de responsabilidade da Odebrecht e da OAS. É uma aula prática de por que políticos querem nomear diretores de banco públicos. O caso fez Janot, ontem, encaminhar mais uma denúncia contra Cunha. Que o governo Temer não se envolva em tentativas de defender o indefensável. [Trecho do editorial de O Globo]
EUA: assim funciona o sistema de assassinatos
Quase dez mil “inimigos” de Washington já foram mortos por meio de drones. Como são escolhidos os alvos. Qual o papel de Obama. Por que tantos civis são liquidados “por engano”
Por Jeremy Scahill | Tradução: Inês Castilho
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O texto a seguir é um excerto do novo livro The Assassination Complex, de Jeremy Scahill & equipe do The Intercept (Simon & Schuster, 2016), que será publicado no Brasil pela Autonomia Literária, editora parceira de Outras Palavras.
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Desde seus primeiros dias como comandante em chefe, o presidente Barack Obama fez do drone sua arma preferida, usada pelos militares e pela CIA para perseguir e matar as pessoas que seu governo considerou – por meio de processos secretos, sem acusação ou julgamento – merecedores de execução. A opinião pública tem colocado foco na tecnologia do assassinato remoto, mas isso tem servido frequentemente para evitar que se examine em profundidade algo muito mais crucial: o poder do Estado sobre a vida e a morte das pessoas.
Os drones são uma ferramenta, não uma política. A política é de assassínio. Embora todos os presidentes norte-americanos, desde Gerald Ford, mantivessem uma norma executiva que bania assassinatos por funcionários dos EUA, o Congresso evitou legislar sobre esse assunto ou até definir a palavra “assassinato”. Isto permitiu que os proponentes de guerras por meio de drones renomeassem assassinatos [assassinations] com adjetivos mais palatáveis, como o termo da moda, “mortes seletivas” [targeted killings].
Quando discutiu publicamente os ataques por drones, o governo Obama ofereceu garantias de que tais operações seriam uma alternativa mais precisa do que soldados em combate. A autorização para executá-las seria dada apenas quando há uma ameaça “iminente” e “quase certeza” de que se eliminará o alvo planejado. As palavras, contudo, parecem ter sido redefinidas para não guardar quase nenhuma semelhança com seus significados comuns.
O primeiro ataque de drone fora de uma zona declarada de guerra foi realizado em 2002, mas só em maio de 2013 a Casa Branca divulgou padrões e comportamentos para a condução desses ataques. Eram orientações pouco específicas. Afirmavam que os Estados Unidos somente conduziriam um ataque letal fora de uma “área de hostilidades ativas” se um alvo representasse uma “ameaça iminente e contínua para pessoas dos EUA”. Nada informava sobre o processo interno usado para determinar se um suspeito podia ser morto, sem processo ou julgamento. A mensagem implícita do governo Obama sobre ataques de drones tem sido: Confie, mas não verifique.
Em 15 de outubro de 2015, o site The Intercept publicou um conjunto de slides secretos que abriram uma janela para os trabalhos internos das operações militares dos EUA para assassinato/captura durante um período-chave na evolução das guerras por drone: entre 2011 e 2013. Os documentos, que também traçam a visão interna das forças especiais de operação sobre as deficiências e erros do programa de drones, foram fornecidas por uma fonte de dentro da comunidade de inteligência, que trabalhava nos tipos de operação e programas descritos nos slides. Garantimos o anonimato da fonte porque os materiais são sigilosos e porque o governo dos EUA está engajado numa perseguição agressiva contra quem denuncia suas irregularidades — os whistleblowers. Iremos nos referir a essa pessoa simplesmente como “a fonte”.
A fonte disse que decidiu revelar os documentos porque acredita que o público tem direito de entender o processo pelo qual as pessoas são colocadas em listas de condenados à morte e depois assassinadas, por ordem dos mais altos escalões do governo dos EUA. “Essa ultrajante obsessão de criar listas de vigilância, de monitorar as pessoas e relacioná-las, atribuindo-lhes números, cartões com retratos e sentenças de morte sem aviso, num campo de batalha que abrange o mundo inteiro, foi errada desde o primeiro momento”.
“Estamos permitindo que isso aconteça. E por ‘nós’ quero dizer todo cidadão norte-americano que agora tem acesso a essa informação, mas continua a não fazer nada a respeito.”
Estas são as revelações-chave expostas pelo The Intercept.
Como o presidente autoriza os assassinatos
Tem sido amplamente divulgado que o presidente Obama aprova diretamente a inclusão, nas listas de assassinato, de alvos de alta relevância. O estudo secreto ISR oferece uma nova visão da cadeia de assassinato, incluindo um mapa detalhado, que vai da obtenção de dados por meios eletrônicos e humanos até a mesa do presidente. No mesmo mês em que o estudo ISR circulou, maio de 2013, Obama assinou a orientação política sobre o uso de força em operações de contraterrorismo no exterior. Um alto funcionário do governo, que não quis comentar sobre os documentos sigilosos, admite que “aquelas diretrizes permanecem em vigor hoje”.
As equipes de inteligência dos EUA coletam informações sobre alvos potenciais obtidas a partir de “listas de observação” e do trabalho das agências de inteligência, militares e policiais. Na época do estudo do ISR, quando alguém era colocado na lista de mortes, analistas de inteligência criavam um retrato do suspeito e da ameaça que aquela pessoa significava, juntando-os “num formato condensado conhecido como baseball card [semelhante a uma figurinha de um álbum de jogadores de futebol, numa aproximação cultural como o Brasil (Nota da Tradução)]. As informações eram em seguida articuladas, junto com dados operacionais, numa “ficha informativa sobre o alvo” a ser “enviada para escalões mais altos” para ação. Na média, indica um dos slides, demorava cinquenta e oito dias para o presidente assinalar um alvo. A partir daquele momento, as forças norte-americanas tinham sessenta dias para executar o ataque. Os documentos incluem dois estudos de caso que são parcialmente baseados em informação detalhada nos baseball cards.
O sistema para criar baseball cards e pacotes de alvos depende muito, de acordo com a fonte, de interceptação da inteligência e de um sistema de muitas camadas de interpretação humana sujeita a erros. “Não é um método infalível”, diz ele. “Você se baseia no fato de que tem todas essas máquinas muito poderosas, capazes de coletar quantidades extraordinárias de dados e informação”, que podem levar o pessoal envolvido em definir os alvos dos assassinatos a acreditar que tem “poderes tipo divinos”.
Assassinatos baseiam-se em informção não-confiável e coletada de modo fragmentado
Em zonas de guerra não-declarada, os militares dos EUA tornaram-se excessivamente confiantes nos sinais de inteligência, ou SIGINT, para identificar e em seguida caçar e matar as pessoas. O documento confirma que usar metadados de telefones e computadores, assim como interceptações de comunicação, é um método inferior de encontrar e acabar com pessoas marcadas. Eles descrevem a capacidade do SIGINT nesses campos de batalha não convencionais como “ruins” e “limitados”. Apesar disso, tais coletas, boa parte delas fornecidas por parceiros estrangeiros, responderam por mais de metade das informações usadas para rastrear assassinatos potenciais no Iêmen e na Somália.
A fonte descreveu como membros da comunidade de operações especiais veem as pessoas que estão sendo caçadas pelos Estados Unidos para possível morte por ataque de drone: “Eles não têm direitos. Eles não têm dignidade. Eles não têm humanidade. Eles são apenas um ‘seletor’ para um analista. Ao final você chega a um ponto no ciclo de vida dos alvos em que, durante a perseguição, você sequer se refere a eles por seu nome de verdade.” Essa prática, diz ele, contribui para “desumanizar as pessoas antes mesmo de se colocar diante da questão moral sobre se ‘esse assassinato é legítimo ou não?’”
Os ataques frequentemente matam muito mais do que o alvo escolhido
A Casa Branca e o Pentágono alardeiam que o programa para morte de alvos é preciso e o número de vítimas civis é mínimo. Contudo, os documentos que detalham uma campanha de operações especiais no nordeste do Afeganistão, a Operação Haymaker, mostra que, entre janeiro de 2012 e fevereiro de 2013, os ataques aéreos das operações especiais mataram mais de duzentas pessoas. Destas, apenas 35 eram alvos. Durante um período de quatro meses e meio da operação, conforme os documentos, cerca de 90% das pessoas assassinadas em ataques aéreos não eram os alvos pretendidos. No Iêmen e na Somália, onde os Estados Unidos têm capacidade de inteligência muito mais limitada para confirmar que as pessoas mortas são os alvos pretendidos, as proporções podem ser muito piores.
“Qualquer pessoa que se encontre nas proximidades é culpada por associação”, disse a fonte. “[Quando] um ataque de drone mata mais do que uma pessoa, não há garantia de que aquelas pessoas mereciam esse destino… é um risco enorme”
Militares rotulam as pessoas desconhecidas que assassinam de “inimigos mortos em ação”
Os documentos mostram que os militares designam as pessoas que matam em ataques com alvos como EKIA, “inimigo morto em ação” (“enemy killed in action”), mesmo que elas não sejam os alvos pretendidos no ataque. A menos que surjam evidências póstumas para provar que homens mortos não são terroristas ou “combatentes inimigos fora da lei”, sua designação permanece como EKIA, conforme a fonte. Esse processo, diz ele, “é insano. Mas nós demos um jeito de nos sentir confortáveis com ele. A comunidade de inteligência, JSOC, a CIA e todos que ajudam a apoiar e sustentar esses programas estão confortáveis com essa ideia.” A fonte descreve afirmações de funcionários do governo dos EUA minimizando o número de perdas infringidas por ataques de drone como “no mínimo exageradas, se não completas mentiras”.
(fonte: http://outraspalavras.net/uncategorized/eua-assim-funciona-o-sistema-de-assassinatos/)
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Vandana Shiva e a Batalha das Sementes
Como a imensa diversidade alimentar do planeta, mantida pelos agricultores por milênios, é ameaçada por empresas como a Monsanto. Quais as possíveis resistências
Por Vandana Shiva | Tradução: Inês Castilho
O 22 de maio foi declarado Dia Internacional da Biodiversidade pela ONU. Isso oferece oportunidade de tomar consciência da rica biodiversidade desenvolvida por nossos agricultores, como cocriadores junto à natureza. Também permite tomar conhecimento das ameaças que as monoculturas e os monopólios de Direitos de Propriedade representam para nossa biodiversidade e nossos direitos
Assim como nossos Vedas e Upanishads [os textos sagrados do hinduísmo] não possuem autores individuais, nossa rica biodiversidade, que inclui as sementes, desenvolveu-se cumulativamente. Tais sementes são a herança comum das comunidades agrícolas que as lavraram coletivamente. Estive recentemente com tribos da Índia Central, que desenvolveram milhares de variedades de arroz para o seu festival de “Akti”. Akti é uma celebração do convívio entre a semente e o solo, e do compartilhamento da semente como dever sagrado para com a Terra e a comunidade.
Além de aprender sobre as sementes com as mulheres e os camponeses, tive a honra de participar e contribuir com leis nacionais e internacionais sobre biodiversidade. Trabalhei junto ao governo indiano nos preparativos para a Cúpula da Terra Rio-92, quando a Convenção sobre Biodivesidade da ONU (CBD) foi adotada pela comunidade internacional. Os três compromissos-chave da CBD são a proteção dos direitos soberanos dos países sobre sua biodiversidade, do conhecimento tradicional das comunidades, e da biossegurança, no contexto de alimentos geneticamente modificados.
A ONU indicou-me para integrar o painel de especialistas encarregado de pensar o protocolo de biossegurança, adotado como Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança. Fui indicada como membro do grupo de especialistas que desenhou a Lei Nacional sobre Biodiversidade, assim como a Lei sobre Variedade de Plantas e Direitos dos Agricultores, na Índia. Em nossas leis, garantimos o reconhecimento dos direitos dos agricultores. “Um agricultor deve ser considerado capaz de conservar, usar, semear, ressemear, trocar, compartilhar ou vender seus produtos agrícolas, incluindo as sementes de variedades protegidas por esta lei, do mesmo modo que estava autorizado antes da vigência dela”, diz o texto.
Trabalhamos nas últimas três décadas para proteger a diversidade e a integridade de nossas sementes, os direitos dos agricultores, e resistir e desafiar os monopólios de propriedade intelectual ilegítimos de empresas como a Monsanto, que faz engenharia genética para exigir patentes e royalties.
Patentes de sementes são injustas e injustificáveis. Uma patente ou qualquer direito de propriedade intelectual é um monopólio garantido pela sociedade em troca de benefícios. Mas a sociedade não se beneficia de sementes tóxicas e não renováveis. Estamos perdendo biodiversidade e diversidade cultural, estamos perdendo nutrição, sabor e qualidade em nossos alimentos. Sobretudo, estamos perdendo nossa liberdade fundamental de decidir quais sementes plantaremos, como iremos cultivar nosso alimento e o que iremos comer.
De bem comum, as sementes transformaram-se em commodities de empresas privadas de biotecnologia. Se elas não forem protegidas e colocadas novamente nas mãos de nossos agricultores, corremos o risco de perdê-las para sempre.
Em todo o mundo, as comunidades estão armazenando e trocando sementes de diversas maneiras, conforme cada contexto. Estão criando e recriando liberdade – para a semente, para os protetores das sementes, para a vida e para todas as pessoas. Quando conservamos uma semente, também renovamos e restauramos o conhecimento – o conhecimento da reprodução e da conservação, o conhecimento do alimento e da agricultura. A uniformidade tem sido usada como medida pseudocientífica para criar monopólios de propriedade intelectual sobre sementes. Uma vez que uma empresa tem patente sobre sementes, ela empurra para os agricultores suas produções patenteadas para receber royalties.
A humanidade tem se alimentado de milhares (8.500) de espécies de plantas. Hoje estamos condenados a comer milho e soja geneticamente modificados de diferentes formas. Quatro culturas principais – milho, soja, canola e algodão – têm sido todas cultivadas às custas de outros cultivos, porque geram royalties por cada hectare plantado. A Índia, por exemplo, cultivava 1.500 tipos diferentes de algodão, e agora 95% são Algodão Bt, geneticamente modificado, pelo qual a Monsanto recebe royalties. Mais de 11 milhões de hectares de terra são empregados no cultivo de algodão. Destes, 9,5 milhões são usados para cultivar a variedade Bt da Monsanto.
Uma pergunta comum é: por que razão os agricultores adotam o algodão Bt, já que os prejudica? Mas os agricultores não escolhem o algodão Bt. Eles são obrigados a comprá-lo, uma vez que todas as outras alternativas estão destruídas. O monopólio de sementes é imposto pela Monsanto através de três mecanismos:
> Fazer com que os agricultores desistam das velhas sementes, o que no jargão da indústria é chamado de “substituição de semente”.
> Influir junto às instituições públicas para deter a reprodução das sementes tradicionais. O Instituto Central de Pesquisa do Algodão (CCIR, na sigla em inglês) da Índia não liberou variedades de algodão para a região de Vidharba, depois que a Monsanto entrou com suas sementes de algodão Bt.
> Manter as empresas indianas presas a acordos de licenciamento.
Esses mecanismos coercitivos, corruptos estão agora caindo por terra. A Rede Navdanya criou bancos de sementes comunitários aos quais os agricultores têm acesso para obter sementes nativas orgânicas e polinizadas. O CCIR, sob a liderança do Dr. Keshav Kranti, está desenvolvendo variedades nativas de algodão. Finalmente, o governo também interveio para regular o monopólio da Monsanto. Em 8 de março, baixou uma ordem de controle do preço da semente sob a Lei de Commodities Essenciais.
A Monsanto e a indústria de biotecnologia desafiaram a ordem do governo. Entramos com uma ação na corte superior do estado de Karnataka. Em 3 de maio, a Justiça de Bopanna baixou uma ordem reafirmando que o governo tem o dever de regular os preços das sementes e a Monsanto não tem o direito ao seu monopólio. A biodiversidade e os pequenos agricultores são a base da segurança alimentar, e não corporações como a Monsanto, que estão destruindo a biodiversidade e levando os agricultores ao suicídio. Esses crimes contra a humanidade precisam parar. Essa é a razão pela qual em 16 de outubro, Dia Internacional do Alimento, vamos organizar em Haia um Tribunal da Monsanto para “julgar” a corporação por seus vários crimes.
(fonte: http://outraspalavras.net/capa/vandana-shiva-e-a-batalha-das-sementes/)
EUA, a eleição como sintoma do declínio
Wallerstein analisa: crescimento de candidatos anti-establishment marca o fim de um período. Além de influência global, país perde coesão interna. E a “era de ouro” não voltará…
Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Inês Castilho
Estamos acostumados a pensar em instabilidade de Estados localizados principalmente no Sul global. É sobre essas regiões que eruditos e políticos do Norte global falam de “Estados falidos” nos quais há “guerras civis”. A vida é muito insegura para os habitantes dessas regiões. Há deslocamentos massivos das populações e esforços para escapar dessas regiões para partes “mais seguras” do mundo. Nelas há, supostamente, mais empregos e padrões de vida mais altos.
Os Estados Unidos, em particular, têm sido vistos como o destino de migração de grande percentual da população mundial. Isso foi amplamente verdadeiro durante certo tempo. No período que se estendeu aproximadamente entre 1945 e 1970, os Estados Unidos eram o poder hegemônico do sistema-mundo. A vida era de fato melhor para seus habitantes, economica e socialmente.
E embora as fronteiras não estivessem exatamente abertas para os imigrantes, aqueles que conseguiam chegar de um modo ou de outro ficavam amplamente satisfeitos com o que consideravam sua boa sorte. E mais gente, nos países de origem dos imigrantes bem sucedidos, tentava seguir seus passos. Nesse período, havia muito pouca emigração dos Estados Unidos, a não ser em bases temporárias, para assumir empregos bem pagos em postos econômicos, políticos ou de mercenários militares.
Esta era de dominação dos EUA sobre o sistema-mundo começou a se desfazer por volta de 1970 e vem sendo desmantelada desde então, de forma crescente. Quais os sinais disso? Há muitos: alguns, dentro dos próprios Estados Unidos; outros, nas atitudes mutantes do resto do mundo em relação aos EUA.
Estamos agora vivendo uma campanha presidencial considerada por quase todo mundo como pouco usual e transformadora. Há um grande número de eleitores que foram mobilizados contra o “establishment”, muitos dos quais estão entrando no sistema eleitoral pela primeira vez. Nas primárias do Partido Republicano, Donald J. Trump buscou a indicação surfando precisamente a onda desse descontentamento — na verdade, insuflando-o. Ele parece ter tido sucesso, a despeito de todos os esforços dos que podem ser vistos como republicanos “tradicionais”.
No Partido Democrata, a história é semelhante mas não idêntica. Um senador antes obscuro, Bernie Sanders, foi capaz de pegar carona num descontentamento verbalizado numa retórica mais à esquerda e vem conduzindo uma campanha muito impressionante contra a candidatura de Hillary Clinton, antes supostamente inabalável. Embora não pareça que conseguirá a indicação, ele forçou Hillary (e o Partido Democrata) muito mais à esquerda do que parecia possível poucos meses atrás. E Sanders fez isso sem jamais ter concorrido a uma eleição antes como democrata.
Porém, pode-se pensar, tudo isso passará, assim que a eleição presidencial estiver decidida, e as visões políticas “normais” de centro prevaleçam novamente. Muitos preveem isso. Mas qual será, então, a reação daqueles que apoiaram muito ferozmente seus candidatos precisamente por que eles não defendendem políticas de centro “normais”? E se eles se desiludirem com seus líderes atuais?
Precisamos observar outras mudanças dos Estados Unidos. O New York Times publicou um longo artigo de primeira página, em 23 de maio, sobre violência armada, que o jornal denominou “interminável mas invisível”. O artigo não era sobre os ataques armados, muito bem documentados, que chamamos de massacres e consideramos chocantes. Investigava, ao contrário, tiroteios que a polícia tende a considerar “incidentes” e nunca vão parar nos jornais. Descreve um desses incidentes em detalhes, e o chama de “uma foto instantânea de uma fonte diferente de violência em massa – aquela que irrompe com regularidade anestésica, de tal forma que torna-se quase invisível, a não ser para as vítimas, negras em sua maioria, os sobreviventes e os agressores.” E os números estão crescendo.
À medida em que aumentam essas “intermináveis porém invisíveis” mortes por violência, a possibilidade de que elas se espalhem dos guetos negros para zonas não negras, nas quais muitos dos desiludidos estão localizados, não é muito exagerada. Afinal, os desiludidos estão certos sobre uma coisa. A vida nos Estados Unidos não é tão boa como foi. Trump usou como slogan “torne a América grande novamente”. O “novamente” refere-se à era de ouro. E Sanders também parece referir-se a uma era de ouro prévia, na qual os empregos não eram exportados para o Sul global. Até mesmo Hillary parece agora olhar para alguma coisa perdida no passado.
E tudo isso não permite esquecer uma espécie de violência ainda mais feroz – aquela propagada por uma faixa ainda muito pequena de milícias anti-Estado, que se autodenominam Cidadãos pela Liberdade Constitucional (CCF, na sigla em inglês). Eles são aqueles que vêm desafiando o impedimento, pelo governo, de algumas áreas para criação de gado. Os integrantes do CCF dizem que o governo não tem direito e está agindo inconstitucionalmente.
O problema é que tanto o governo federal como os locais não estão certos do que fazer. Eles “negociam”, temendo que afirmar sua autoridade não seja um ato popular. Mas quando as negociações falham, o governo finalmente usa a força. Essa versão mais extrema de ação pode logo espalhar-se. Não é uma questão de mover-se para a direita, mas de mover-se em direção a protestos mais violentos, a uma guerra civil.
Há décadas, os Estados Unidos estão perdendo sua autoridade diante do resto do mundo. Eles não são mais hegemônicos. Aqueles que protestam, e seus candidatos, percebem isso, mas consideram que é um processo reversível. Não é verdade. Os Estados Unidos são agora considerados um parceiro global fraco e inseguro.
Essa não é a visão apenas dos Estados que se opõem fortemente, desde o passado, às políticas norte-americanas, tais como Rússia, China e Irã. Isso é agora verdade para aliados presumivelmente próximos, tais como Israel, Arábia Saudita, Grã Bretanha e Canadá. Numa escala mundial, o sentimento sobre a “confiabilidade” dos EUA na arena geopolítica mudou de próximo de 100%, na “era de ouro”, para alguma coisa muito, muitíssimo inferior. E a queda acentua-se a cada dia.
À medida em que se torna menos “seguro” viver nos Estados Unidos, há um aumento constante na emigração. Não que outras partes do mundo sejam seguras – são apenas mais seguras. Não que o padrão de vida em outros lugares seja tão alto, mas tornou-se agora mais alto em várias partes do Norte global.
Claro que nem todo mundo pode emigrar. Há problemas de custo e de acessibilidade a outros países. O primeiro grupo que pode engrossar a emigração são os mais privilegiados. Mas, quando isso for percebido, as raivas dos “desiludidos”, mais classe média, irão crescer. E crescendo, sua reação pode tornar-se mais violenta. Esse rumo mais violento irá retroalimentar-se, intensificando as raivas.
Nada poderá alterar as atitudes quanto à transformação dos Estados Unidos? Se os norte-americanos abandonassem a ideia de “tornar a América grande outra vez”, e começassem a tentar fazer do mundo um lugar melhor para, poderiam ser parte do movimento por “um outro mundo”. Mudar o mundo inteiro transformaria verdadeiramente os próprios Estados Unidos. Mas para isso seria preciso parar de desejar a volta à “era de ouro” — que, aliás, não era tão dourada para a maior parte do mundo.
(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/eua-a-eleicao-como-sintoma-do-declinio/)
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