sábado, 16 de setembro de 2017

Nem o furacão Irma é capaz de acordar os que negam mudanças climáticas

"As mudanças climáticas dinamitam o arcabouço ideológico sobre o qual se assenta o conservadorismo contemporâneo. Admitir que a crise climática é uma realidade é admitir o fim de um projeto político e econômico, e é por isso que a direita está se rebelando contra o mundo físico", escreve Naomi Klein, escritora e ativista social, em artigo publicado por The Intercept, 12-09-2017. A tradução é de Deborah Leão.

Segundo ela, "há fundamento lógico para que a ciência tenha se tornado um campo de batalha: ela vem demonstrando reiteradamente que a forma corporativa de fazer negócios está levando a uma catástrofe que ameaça a própria espécie humana".
O artigo tem como referência o livro No Is Not Enough: Resisting Trump’s Shock Politics and Winning the World We Need da própria autora que será publicado no Brasil em novembro 2017 pela Bertrand Brasil.

 Foto: National Oceanic and Atmospheric Administration, NOAA

Eis o artigo.
Segundo ela, há um fundamento lógico para que a ciência tenha se tornado um campo de batalha: ela vem demonstrando reiteradamente que a forma corporativa de fazer negócios está levando a uma catástrofe que ameaça a própria espécie humana.
Enquanto uma das tempestades mais fortes já registradas caía sobre os Estados Unidos, com boa parte do estado da Flórida sob ordem de evacuação, o presidente Donald Trump se empenhava em resolver uma questão de grande urgência.
Trump reuniu seu gabinete em Camp David e disse que não havia tempo a perder. Diante do avanço do furacão Irma, que poderia devastar enormes áreas dos estados da Flórida, Geórgia, Carolina do Sul e Carolina do Norte, havia chegado a hora de realizar substanciais… reduções de impostos.
Sim, foi isso mesmo. O presidente não estava preocupado em levar auxílio substancial aos mais atingidos pelo desastre, nem em realizar uma mudança substancial nos sistemas de transporte e energia, buscando reduzir a emissão dos gases do efeito estufa para que tempestades como o Irma parem de acontecer três vezes por ano. Sua prioridade era realizar alterações substanciais ao código tributário. Ele alega a intenção de aliviar a classe média, mas na verdade as mudanças trariam a maior redução de tributos das últimas décadas para as grandes empresas e dariam também uma boa ajuda para os muito ricos.
Muitos imaginaram que a experiência de viver tão de perto as catástrofes desse verão – Houston submersa, Los Angeles consumida pelas chamas, e agora os estados do Sul assolados pelo Irma – pudesse servir de alerta para os republicanos que negam mudanças climáticas.
O que o pronunciamento de Trump a seu gabinete deixa claro, porém, é que o único efeito do Irma será levá-lo a redobrar esforços em sua temerária agenda econômica. Acompanhado pelo Secretário de Estado, Rex Tillerson, e pelo Secretário de Comércio, Wilbur Ross, o presidente explicou que iriam discutir “drásticas reduções de impostos e uma reforma tributária”. Disse ainda: “penso que agora, depois do que aconteceu com o furacão, vou pedir pressa.”
Algumas pessoas observaram que se trata de um perfeito exemplo do que denominei “doutrina do choque” – o uso de desastres como pretexto para impor políticas radicais em prol de grandes corporações. E é mesmo um caso clássico, em especial porque, no momento em que Trump deu tais declarações, o furacão Irma se encontrava no auge de sua ameaça potencial.
O timing do presidente revela ainda mais sobre os verdadeiros motivos que impulsionam a negação das mudanças climáticas por parte da direita americana. Não se trata de uma rejeição à ciência, mas de uma rejeição às consequências da ciência. Para resumir, se a ciência está correta, significa que é preciso jogar fora todo o projeto econômico que dominou as estruturas de poder nos EUA desde a presidência de Ronald Reagan, e os negacionistas sabem disso.
Se as mudanças climáticas estão por trás das catástrofes que estamos vendo agora – e elas, de fato, estão -, isso não significa apenas que Trump precisa pedir desculpas e admitir que estava errado quando chamou o fenômeno de “invenção dos chineses”, mas também que ele precisaria descartar todo o seu plano tributário, porque esse dinheiro de impostos (e um tanto mais) será necessário para custear um rápido abandono dos combustíveis fósseis.
Significa ainda que ele precisaria descartar seu plano de desregulamentação, porque se vamos mudar a forma como usamos energia em nossas vidas, será necessária ampla regulação para gerir e fazer cumprir essa mudança. Obviamente, isso não atinge apenas Trump, mas todos os governadores do Partido Republicano que negam as mudanças climáticas, e cujos estados estão atualmente sofrendo as consequências. Todos teriam que jogar no lixo uma visão de mundo distorcida, que considera que o mercado está sempre certo, que a regulação está sempre errada, que o privado é melhor que o público, e que os tributos que custeiam os serviços públicos são a pior coisa que existe.
O que precisa ser rapidamente compreendido é que, a essa altura, só vamos conseguir lidar com as mudanças climáticas por meio de ações coletivas que restrinjam drasticamente o comportamento de grandes corporações como Exxon Mobil e Goldman Sachs (ambas fartamente representadas na reunião de gabinete de Trump). As ações climáticas exigem investimento na esfera pública – em novas redes de energia, transporte público, trens urbanos e eficiência energética – numa escala só vista antes da Segunda Guerra Mundial. Para que isso aconteça, é preciso aumentar a tributação sobre os muito ricos e sobre as grandes empresas, exatamente quem Trump está determinado a beneficiar com as mais generosas reduções de impostos, isenções e exceções regulatórias.
Em resumo, as mudanças climáticas dinamitam o arcabouço ideológico sobre o qual se assenta o conservadorismo contemporâneo. Admitir que a crise climática é uma realidade é admitir o fim de um projeto político e econômico, e é por isso que a direita está se rebelando contra o mundo físico (o que levou centenas de milhares de cientistas ao redor do mundo a participar da Marcha pela Ciência em abril deste ano, defendendo coletivamente uma ideia que não deveria nem precisar de defesa: é bom entender o máximo possível do mundo em que vivemos). Há, no entanto, fundamento lógico para que a ciência tenha se tornado um campo de batalha: ela vem demonstrando reiteradamente que a forma corporativa de fazer negócios está levando a uma catástrofe que ameaça a própria espécie humana.
A questão não atinge apenas a direita, mas também o centro. O que os liberais tradicionais dizem há décadas sobre as mudanças climáticas é que só precisamos fazer alguns ajustes no sistema atual para ficar tudo certo. Capitalismo estilo Goldman Sachs, mas com painéis solares. No estágio atual, no entanto, o desafio que se apresenta é muito mais profundo.
Para reduzir nossas emissões no ritmo necessário para evitar um aquecimento catastrófico é preciso questionar a centralidade do aumento do consumo na forma como avaliamos o progresso econômico. É preciso reconstruir nossa economia em aspectos fundamentais, que incluem o combate às desigualdades econômicas e raciais sistêmicas que transformam desastres como [os furacões] Harvey e Katrina em catástrofes humanas. Em determinado sentido, portanto, os membros do gabinete de Trump demonstram, com sua desesperada necessidade de negar a realidade do aquecimento global ou minimizar suas implicações, reconhecer uma verdade essencial: para evitar o caos climático, precisamos enfrentar o fundamentalismo do livre mercado que tomou conta do mundo desde a década de 80.
Trump e seus colegas que negam as mudanças climáticas (e também os que as minimizam) enxergam nessa ameaça à sua visão de mundo uma crise tão existencial que é difícil até aceitar que a possibilidade passe por suas mentes. É compreensível, pois o aquecimento global tem implicações radicalmente progressistas. Se ele for real – e evidentemente que é –, as oligarquias não podem continuar a praticar seus desmandos sem regras.
À medida que a realidade do colapso climático mostrar sua face assustadora, cada vez mais pessoas serão capazes de entender suas óbvias implicações políticas e econômicas. Enquanto isso não acontece, precisamos parar de esperar que desastres “acordem” os negacionistas mais arraigados. Eles vivem um sonho muito bom, muito confortável e muito rentável. No entanto, já que o presidente se vale dos desastres simultâneos – os furacões Harvey e Irma, a Coreia do Norte, e qualquer outro inferno que possa explorar – para impor clandestinamente sua cruel agenda econômica, é nosso papel estar bem alertas para a realidade: é uma questão de sobrevivência da humanidade impedir que prevaleçam Trump e a visão de mundo que ele representa.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571616-nem-o-furacao-irma-e-capaz-de-acordar-os-que-negam-mudancas-climaticas)

Emissões de carbono podem aumentar até 90% na Amazônia em 50 anos

A degradação florestal na Amazônia, por fogo e eventos de secas extremas, tem se tornado frequente nos últimos anos. Para avaliar quais são os próximos cenários, cientistas aprimoraram um modelo que analisa o comportamento do fogo e a dinâmica de carbono, prevendo os padrões futuros da potencial degradação no bioma amazônico.
A informação é publicada por IPAM, 14-09-2017.

Esse modelo permite aos pesquisadores, por exemplo, prever que se uma seca como a de 2010 ocorrer em meados do século, entre 2040 e 2069, cerca de 550.000 km2, uma área maior que a França, estará vulnerável a incêndios florestais intensos.
O estudo, publicado na revista Environmental Research Letters dentro da edição especial Focus on Changing Fire Regimes, considera o aumento da temperatura e a diminuição da precipitação como os principais fatores para a frequente intensidade de fogo no futuro.
Segundo um dos autores, Bruno Lopes, estudante de doutorado da Universidade Federal de Viçosa (UFV), a pesquisa é inédita por desenvolver um modelo que representa a seca e seus efeitos na mortalidade de árvores, bem como as suas interações com os regimes de fogo.
“Esses aumentos previstos na intensidade do fogo podem ser até 90% mais letais para as árvores da floresta amazônica e consequentemente ocasionar um acréscimo nas emissões de carbono florestal na mesma proporção”, afirma Lopes.

O equilíbrio climático da Amazônia é perturbado por uma série de fatores, como mudanças de uso da terra, aquecimento global, incêndios florestais, elevadas concentrações de CO2 na atmosfera e aumentos na frequência e intensidade das secas. Desde meados de 1970 ocorre um aquecimento médio de cerca de 0,26°C por década nas regiões de floresta tropical. Os modelos climáticos globais sugerem um aquecimento maior em todas as regiões de florestas tropicais entre 3 e 8°C até ao final do século. Isto aponta que em 2100 as temperaturas tropicais atingirão valores nunca antes alcançados, fora da variabilidade natural dos últimos 2 milhões de anos.
Modelos de fogo e os impactos nos estoques de carbono da vegetação se destacam pela importância na investigação de um limiar crítico de temperatura e intensidade de seca, e consequentes alterações nos regimes de fogo que poderiam levar a um declínio substancial da floresta em um futuro próximo. Compreender e monitorar as respostas da vegetação em relação às mudanças climáticas é essencial para ampliar as opções de políticas de conservação.
“Assim, podemos ter um novo modelo de desenvolvimento agropecuário com uso sustentável do fogo em áreas vulneráveis e a criação de um plano nacional de combate a incêndios para a Amazônia, tendo implicações diretas na biodiversidade e ciclo de carbono”, defende Lopes.
Os dados do modelo tiveram como base experimentos realizados na Fazenda Tanguro, em Querência (MT), onde o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – IPAM desenvolve pesquisas que analisam como conciliar a produção de alimentos, conservação ambiental e mudanças climáticas.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571726-emissoes-de-carbono-podem-aumentar-ate-90-na-amazonia-em-50-anos)

Denúncia de Janot contra cúpula do PMDB dá pra rir e pra chorar

Texto escrito por José de Souza Castro:

Mais um teatrinho no Judiciário. Na última sexta-feira, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, denunciou cinco senadores do PMDB, além do ex-senador José Sarney e do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Todos acusados de receberem propina num total de R$ 864 milhões e de gerarem prejuízo de R$ 5,5 bilhões aos cofres da Petrobras e de R$ 113 milhões aos da Transpetro. Os senadores são estes: Renan Calheiros (AL), Romero Jucá (RR), Edison Lobão (MA), Jader Barbalho (PA) e Valdir Raupp (RO).
Janot termina seu mandato dia 17 de setembro em meio a uma enxurrada de denúncias. Teatrinho. Isso fica claro quando se examina o caso de um dos denunciados, Jáder Barbalho.
Com longa carreira política, ele sempre escapou dos vários processos a que respondeu. Um dos mais célebres foi o Escândalo da Sudam, em pleno governo Fernando Henrique Cardoso. Entre 1994 e 1999, as fraudes na Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia teriam ultrapassado R$ 2 bilhões.
Barbalho foi um dos 25 acusados. Quando o escândalo surgiu, ele era presidente do Senado e renunciou ao mandato. E FHC tomou medida radical: extinguiu a Sudam, para abafar o caso. O PT reagiu, entrando no Supremo Tribunal Federal contra isso. Logo no começo do governo Lula, a Sudam renasceu.
Até hoje, ninguém foi condenado pelos prejuízos à Sudam. Em 2005, o ministro Gilmar Mendes, nomeado por FHC, era relator do caso e votou pelo seu arquivamento, alegando falhas nas peças acusatórias, sendo acompanhado pelo plenário do Supremo. Barbalho e todos os outros se livraram, porque alguns dos acusados tinham foro privilegiado e o processo não poderia ter sido remetido à Justiça de primeiro grau. Desde esse erro, anos já haviam se passado, como veremos ao final deste artigo.
Sudam foi apenas um dos 45 escândalos que marcaram o governo FHC, como se vê neste artigo publicado pela Revista Consciência em julho de 2002.
A Sudam, criada em outubro de 1966 pelo general Castelo Branco, transformou-se num feudo de Jáder Barbalho quando José Sarney presidiu o Brasil e Barbalho governou o Pará. Mais tarde, no governo FHC, Barbalho disputou com Antônio Carlos Magalhães, do PFL baiano, a presidência do Senado. O baiano venceu, mas acabou renunciando ao mandado, acusado de ter violado o painel eletrônico do Senado. Em seguida, Jáder se elegeu com apoio ostensivo de José Serra e do PSDB, mas também renunciou para não ser cassado em razão do escândalo da Sudam.
Em fevereiro de 2012, a “Folha de S.Paulo” publicou reportagem, revelando que erros cometidos por juízes e procuradores contribuíram para que um processo em que o senador Jader Barbalho (PMDB-PA) é réu se arrastasse por uma década e meia sem chegar a uma conclusão. Vale transcrever aqui a reportagem de cinco anos atrás, para mostrar os caminhos e descaminhos da Justiça, confirmando também a nossa desesperança de que agora, com a denúncia de Janot, será diferente:


“Um deslize do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) que foi o primeiro relator do caso causou um atraso de um ano no depoimento das testemunhas apresentadas pela acusação e pela defesa.
Uma discussão sobre o foro competente para julgar o senador na época em que ele era deputado federal parou tudo por dois anos e meio.
A insistência da Procuradoria-Geral da República em ouvir uma testemunha que as autoridades não sabiam onde encontrar provocou mais dois anos e oito meses de atraso no processo.
Os três percalços fizeram o caso se arrastar por mais de seis anos sem que nenhuma outra providência pudesse ser tomada para investigar Jader e levá-lo a julgamento.
O caso teve início há 14 anos e 10 meses, quando foram descobertas fraudes na distribuição dos incentivos fiscais da antiga Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia).
A Sudam era um feudo político de Jader, na época um dos homens-fortes do PMDB. O escândalo criado pelas investigações teve grande repercussão, levando-o a renunciar ao mandato de senador para não ser cassado.
O processo deu tantas voltas nesses anos todos que Jader conseguiu voltar ao Senado, onde agora convive no plenário com o procurador que o denunciou, Pedro Taques (PDT-MT), que se desligou do Ministério Público e se elegeu senador em 2010.
A investigação começou em abril de 1997 e se estendeu por cinco anos. Em média, a Polícia Federal leva pouco mais de um ano para concluir um inquérito.
Jader, que nega ter participado das fraudes na Sudam, foi denunciado pelo Ministério Público à Justiça Federal de Mato Grosso há dez anos, quando estava sem mandato e concorrendo a uma vaga na Câmara dos Deputados.
Mas ele se elegeu deputado logo após o início do processo, recuperando seu direito a foro privilegiado no STF.
Os juízes que analisaram o caso em Cuiabá (MT) e a Procuradoria-Geral da República levaram mais de dois anos para enviar o processo ao STF porque ficaram discutindo se deviam separar a parte referente a Jader em vez de mandar logo tudo de uma vez.
No STF, um erro crucial foi cometido pelo ministro Carlos Velloso, hoje aposentado. Nomeado relator do processo, ele mandou ouvir as testemunhas de acusação ao mesmo tempo que as testemunhas de defesa.
Como o Código de Processo Penal manda ouvir primeiro as testemunhas de acusação, o descuido de Velloso permitiu que os advogados de Jader ganhassem tempo alegando que seu direito a ampla defesa fora prejudicado pelo Supremo.
Velloso recorreu a decisões anteriores do STF para justificar sua decisão e lamentou a estratégia dos advogados, mas seus colegas deram razão a Jader e o tribunal viu-se obrigado a enviar de novo as ordens para tomada dos depoimentos das testemunhas.
O obstáculo seguinte foi criado pela Procuradoria, que fez questão de ouvir um caseiro de Brasília que anos antes dissera à polícia ter testemunhado encontros de Jader com um dos principais beneficiários das fraudes na Sudam. O caseiro sumiu e nunca mais foi encontrado.
O processo foi devolvido pelo Supremo à Justiça Federal de Mato Grosso no ano passado, quando Jader ficou sem mandato e impedido de tomar posse como senador por ter sido barrado pela Lei da Ficha Limpa.
Em dezembro, o STF decidiu que a lei não se aplicava ao seu caso e ele tomou posse no Senado, recuperando o direito ao foro especial. No fim de janeiro, o processo voltou ao Supremo.”

(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/09/11/denuncia-janot-pmdb/#more-14420)

Quem defende pauta do Escola sem Partido pensa que tem filhos idiotas

Até o domingo passado, eu não tinha dado atenção ao tal movimento Escola sem Partido. A reivindicação é tão rasa e absurda que não me parecia merecer mais que um muxoxo desinteressado. Eu reagiria dessa mesma forma ao artigo de Gustavo Ioschpe, se o começo do segundo parágrafo não me causasse uma sensação curiosa: se o que ele escreve for verdade, eu não estudei no Brasil.
Fiquei tão perplexo que resolvi ver do que se tratava.
Reproduzo o trecho que causou meu espanto: “Que nossas escolas, tanto públicas quanto particulares, foram há muito invadidas por pregação ideológica, quase sempre de viés filossocialista, não deveria ser novidade para ninguém”.
Frequentei o ensino fundamental e o médio em escolas públicas, na maior parte das vezes, mas fui alfabetizado em uma escola privada. Fiz a graduação na Unicamp, onde também defendi uma dissertação de mestrado. Meu título de doutor é da Universidade de São Paulo. Estudei no Brasil e posso dizer com toda segurança que Ioschpe está pintando uma realidade que não existe.
Quando eu estava no primeiro ano da graduação, por exemplo, um professor de latim entrou na sala de aula e, antes de se sentar, viu o cartaz de uma palestra que seria proferida na semana seguinte. “Isso é coisa de petista”, ele comentou rindo, “não percam seu tempo com uma bobagem dessas”. Era um homem elegante, culto e de ideias conservadoras. Muitos alunos o adoravam.
Esse tipo de coisa acontecia o tempo inteiro. Na última eleição, dois dos meus melhores professores da graduação escreveram um artigo defendendo a candidatura de Marina Silva, que não era exatamente de viés marxista. Aliás, nunca tivemos um candidato a presidente com reais chances de vitória que tivesse o socialismo como horizonte.
Outro dia um senhor publicou na internet um texto zombando da manifestante que perdeu uma das vistas em um protesto em São Paulo. Ele acha que foi muito bem feito para ela. É um professor da Unesp. Alguém acha que ele é marxista?
A Faculdade de Direito do Largo de São Francisco abriga a professora Janaína Paschoal, mas também a dignidade jurídica de Rafael Mafei Rabelo Queiroz e Conrado Hübner Mendes, que, neste mesmo jornal, com equilíbrio e segurança, demonstraram a ilegalidade da repressão policial às manifestações que pedem, entre outras coisas, eleições diretas para presidente agora mesmo.
Salvo engano, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, para muitos um antro comunista, forneceu ministros em todos os governos do pós-ditadura, de José Sarney a Dilma Roussef. O privatista Fernando Henrique Cardoso saiu da FFLCH. Pela lógica de Ioschpe, ele é um filossocialista!
O tal centro de doutrinação que essas pessoas querem construir não passa de delírio. A universidade abriga na verdade uma quantidade muito grande de pessoas que pensam de formas muito diferentes. Os defensores do tal Escola sem Partido acham que pensar diferente deles é um erro. Para muitos (não é o caso de Ioschpe) um crime.
Antes de continuar, vale a pena pensar nos ciclos de ensino fundamental e médio. Ioschpe defende que aqui também a única coisa que os alunos recebem na escola é doutrinação de esquerda. Para se embasar, lança mão de uma pesquisa cujas perguntas já são, por si mesmas, equivocadas. É um absurdo pedir para alguém escolher entre liberdade e igualdade. Uma não existe sem a outra.
Podemos nos deter um instante sobre as ocupações que estudantes promoveram em suas escolas públicas no ano passado e chamaram atenção do mundo inteiro. Se formos dar crédito para as ideias do movimento Escola sem Partido, eles estavam reivindicando que o controle dos meios de produção passasse para as mãos dos trabalhadores, que o sistema bancário fosse abolido e que sovietes fossem logo formados para a administração da nova sociedade vermelha.
Os estudantes reivindicavam de fato merenda de melhor qualidade, o fim da proposta que os afastaria de suas escolas de origem e um pouco mais de dignidade no ensino. Simplesmente isso. Mesmo essas propostas não receberam apoio nem sequer de todos os seus professores. Onde está a doutrinação filossocialista, se vários docentes defenderam abertamente a invasão dos prédios pela polícia? O Escola sem Partido acaba de inaugurar uma figura curiosa: o comunista que é a favor de merenda ruim para quem não pode pagar uma escola particular.
Há ainda uma curiosidade no libelo delirante de Ioschpe: o pensamento de esquerda seria ideologizado. O dele, não… É curioso ver como essa gente vai operando sutilezas semânticas para criar a realidade que lhes interessa. A intenção aqui é bastante clara: o pensamento imparcial seria aquele que defende o mercado, o neoliberalismo e seu parque de diversões financeiro. Será que essas pessoas acham que só elas compreendem as nuances da linguagem?
O real objetivo das ideias que Gustavo Ioschpe defende é esconder uma questão que os conservadores detestam. O que impede a escola brasileira, em qualquer grau, de atingir melhores níveis não é o viés ideológico de seus professores. Na verdade, eles ganham muito mal, o governo retira continuamente verbas da educação e, no geral, não existe nenhum tipo de estímulo para a carreira docente. O objetivo desse Escola sem Partido é agravar ainda mais esse quadro.
Posso dizer com toda tranquilidade que não existe doutrinação nenhuma nas escolas. Cada professor pensa de um jeito e há uma enormidade de conservadores dando aula, possivelmente na mesma proporção que nas outras profissões. Achar que uma pessoa possa não ter uma ideologia é uma bobagem, das tantas que tomaram conta do Brasil. Peço desculpas por ter escrito só obviedades.
Eu queria, porém, terminar com outra. Como todo mundo sabe, convicções políticas se formam a partir de múltiplas experiências. A escola é apenas uma delas. A propósito, durante a vida nossas inclinações vão mudando, sendo testadas, aprimoradas e transformadas. As pessoas que defendem a pauta do movimento Escola sem Partido acham que o filho se dobra a qualquer opinião, não sabe pensar sozinho e vai ter sempre a mesma idade. Acreditam portanto que colocaram no mundo idiotas.
Parem de envergonhar seus filhos.

* RICARDO LÍSIAS, 41, é escritor, autor de cinco romances e dois volumes de contos, traduzidos para vários idiomas. Ganhou os prêmios Portugal Telecom de Literatura Brasileira (3º lugar, por “Duas Praças”, em 2006) e o de melhor romancista da Associação Paulista de Críticos de Arte (“O Céu dos Suicidas”, 2012). É um dos editores da revista “Peixe-elétrico” e foi selecionado pela revista “Granta” como um dos 20 melhores jovens escritores brasileiros.
Fonte: Folha de S. Paulo, 07.09.2016. Disponível em http://m.folha.uol.com.br/ilustrissima/2016/09/1810775-quem-defende-pauta-do-escola-sem-partido-pensa-que-tem-filhos-idiotas.shtml#

Privatizar Eletrobrás é entregar as águas

Medida transfere ao poder econômico o direito de “vida e morte” sobre rios brasileiros. Preço da energia vai subir e cidadãos dependerão de licenças até para matar a sede
Por Roberto Malvezzi (Gogó)

Há tempos o hidronegócio busca mecanismos de privatização das águas brasileiras. Constitucionalmente tidas como um bem da União, nossas águas não podem ser privatizadas.
A Constituição Federal no artigo 20, inciso III, estabelece que são bens da União os lagos, rios e quaisquer correntes de água em terrenos de seu domínio, ou que banhem mais de um Estado, sirvam de limites com outros países, ou se estendam a território estrangeiro ou dele provenham, bem como os terrenos marginais e as praias fluviais.
Reza a Lei Brasileira de Recursos Hídricos 9.433/97:
Art. 1º A Política Nacional de Recursos Hídricos baseia-se nos seguintes fundamentos:
I – a água é um bem de domínio público;
II – a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico;
III – em situações de escassez, o uso prioritário dos recursos hídricos é o consumo humano e a dessedentação de animais;
IV – a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas;
V – a bacia hidrográfica é a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos;
VI – a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação do Poder Público, dos usuários e das comunidades.
O mecanismo estabelecido em lei para uso privado é o da “concessão de outorga”, pelo qual o Estado Brasileiro entrega a um ente privado a exploração de determinado volume de água por um determinado tempo, sujeito à renovação.
Uma vez na posse da outorga, o uso passa a ser privado. Portanto, se não privatiza a propriedade, privatiza o uso.
Embora seja um mecanismo de aparente controle do Estado, podendo retomar a outorga caso ache necessário, o fato é que, uma vez outorgada certa quantidade de água, ela será utilizada até o fim.
Mas, agora levanta-se um mecanismo muito mais monstruoso e perigoso que uma simples outorga. A privatização da Eletrobrás transfere ao poder privado o direito de “vida e morte” sobre os rios brasileiros. O fato é que – ainda hoje – a energia de origem hídrica representa o filé mignon da energia elétrica, mesmo sob avanço das eólicas, da tímida energia solar e até mesmo das térmicas, acionadas constantemente quando falta água nos rios e reservatórios.
Portanto, quem controlar a geração da energia elétrica, controlará as águas brasileiras. Embora tenhamos hoje um Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, cujo topo é atribuído ao Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH), Agência Nacional de Águas (ANA) e Secretaria de Recursos Hídricos da União (SRHU), vinculada ao MMA, quem está na ponta sabe que o controle efetivo é do setor elétrico. Ele se coloca acima de todos os demais usos e determina como as águas serão utilizadas.
O caso mais exemplar nessa privatização será o das Centrais Elétricas do São Francisco (CHESF). Até hoje ela reina no vale do São Francisco, embora tenha perdido poder quando o controle geral da energia passou para o Operador Nacional do Sistema (ONS). O uso das águas no São Francisco, tanto o consuntivo (quando a água é retirada do corpo d´água, caso da irrigação), como do não-consuntivo (como é o caso da geração de energia elétrica), acaba sendo determinado pelo ONS.
E os usos prioritários estabelecidos em lei, que são o uso humano e a dessedentação dos animais? A lei 9.433/97, em suas filigranas, estabeleceu que “são prioridades em caso de escassez”. Oras, no Nordeste a escassez só é decretada quando os reservatórios atingem menos de 10%, enfim, quando a maioria dos reservatórios vira uma sopa de sal, imprestável para qualquer uso. Essa é a obediência às prioridades.
Enfim, a privatização da Eletrobrás será a maior privatização de rios que já tivemos em nossa história. Os trabalhadores dessas empresas não terão mais garantia de seus empregos, o preço da energia vai subir e os cidadãos dependerão de licenças das empresas privadas até para beber água.

(fonte: http://outraspalavras.net/brasil/privatizar-eletrobras-e-entregar-as-aguas/)

E os pobres sutentam o cassino financeiro global

Em três décadas, países periféricos transferiram, para nações capitalistas centrais, US$ 10,6 trilhões — trezentas vezes o PIB da Nicarágua. Paraísos fiscais são principal sangria. Só China escapou
Um trabalho do Inesc

Qual impacto que a fuga não-registrada de capitais pode ter no desenvolvimento de um país, principalmente nos mais vulneráveis e pobres? Qual o papel dos paraísos fiscais na facilitação desse fluxo financeiro, que drena importantes recursos de regiões inteiras do mundo? Para tentar responder a essas questões, o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), em parceria com o Centro de Pesquisa Aplicada da Escola de Economia da Noruega (SNF), a Global Financial Integrity (GFI), Universidade Jawaharlal Nehru e o Instituto Nigeriano de Pesquisa Social e Econômica, produziu o estudo “Fluxos Financeiros e Paraísos Fiscais: Uma combinação para limitar a vida de bilhões de pessoas“, um extenso relatório em três partes que avalia o fluxo líquido de recursos de entrada e saída de países em desenvolvimento, durante o período de 1980-2012.
Entre as descobertas do estudo, uma impressiona: os países em desenvolvimento, excetuando-se a China (que é um ponto fora da curva), perderam um total de quase US$ 1,1 trilhões em transferências registradas e US$ 10,6 trilhões a partir de fuga não-registradas de capitais — desse último valor, mais de 80% (cerca de US$ 7 trilhões) saíram por meios ilegais.
O relatório (clique aqui para baixá-lo) conclui, entre outros pontos, que a redução dos fluxos financeiros ilícitos e regulação firme dos paraísos fiscais melhoraria a efetividade das políticas macroeconômicas adotadas nos países em desenvolvimento e contribuiria significativamente para reduzir a desigualdade socioeconômica.
A grande fuga de capitais dos países em desenvolvimento diminui sua capacidade de crescimento, porque boa parte desses recursos poderia ser usada em atividades econômicas destinadas à melhoria do padrão de vida e à redução de desigualdades.
Uma das principais descobertas do estudo é que na década de 1990 os países em desenvolvimento acabaram financiando mais os países desenvolvidos do que o contrário — e isso justamente por conta dos fluxos financeiros ilícitos e paraísos fiscais. “O fluxo de recursos dos países mais vulneráveis para países ricos claramente confronta a eficiência alocativa, que demanda fluxos em direção oposta. Em escala global, essas alocações de recursos incorretas constituem custos sociais consideráveis que seriam, neste caso, incorridos aos cidadãos de países em desenvolvimento.”

Um estudo recente do Fundo Monetário Internacional (FMI) descobriu que o fluxo de entrada de capitais impacta positivamente o investimento doméstico em maior grau que fatores como a qualidade institucional e o crédito doméstico. E como a fuga de capitais drena recursos, é razoável pensar que tais fluxos de saída reduziriam o efeito benéfico de fluxos de entrada sobre os investimentos domésticos. Nossas descobertas, baseadas em dados limitados do FMI são consistentes com as descobertas do Fundo em que mostramos que os fluxos de entrada de capital têm impacto positivo no consumo, e que fluxos de saída ilícitos reduziriam os impactos benéficos sobre o consumo e sobre o padrão de vida em países em desenvolvimento pobres.
(fonte:  http://outraspalavras.net/destaques/e-os-pobres-sutentam-o-cassino-financeiro-global/)

Você come transgênicos sem nem saber que estão na carne e derivados

Indústria omite presença de transgênicos em carnes e derivados
Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina encontrou soja e milho em metade dos produtos analisados. Contrariando a lei, nenhum deles indicava presença de componentes geneticamente modificados
por Cida de Oliveira, Rede Brasil Atual

Brasília – Metade das carnes e derivados contém em sua composição ingredientes transgênicos e o consumidor nem desconfia.
É o que sugere uma pesquisa do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) divulgada durante o Agroecologia 2017 – 6º Congresso Latino-Americano de Agroecologia, 10º Congresso Brasileiro de Agroecologia e 5º Seminário de Agroecologia do Distrito Federal e Entorno.
Dos 496 produtos analisados, 49,2% continham pelo menos um ingrediente derivado de soja ou milho. A maior concentração foi encontrada nos subgrupos de peito de peru e patês. A proteína de soja, detectado em 217 alimentos do grupo (43,7%), foi o ingrediente mais usado. (43,7%), seguido do amido de milho, que estava em 27 itens (5,4%).
Do total, 209 alimentos continham ingredientes derivados de soja, 18 deles continham derivados de milho e outros 21, derivados de ambos.
Os ingredientes derivados de milho e soja identificados na tabela dos rótulos destes alimentos são a proteína de soja, o amido de milho, lecitina de soja, óleo de milho, farinha de soja, farinha de milho, óleo de soja, xarope de milho, molho de soja e dextrose de milho.
As lavouras brasileiras de soja e milho são, em sua maioria, geneticamente modificadas. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), os organismos geneticamente modificados (OGM) estão cada vez mais presentes na alimentação da população mundial, seja como alimento ou como ingrediente de alimentos industrializados.
O Brasil é o segundo país que mais planta transgênicos no mundo e desde 2003 têm aprovado para cultivo e consumo soja, milho, algodão e, mais recentemente, um feijão transgênico, que ainda não está disponível para consumo. Atualmente, 94% da soja, 85% do milho e 73% do algodão cultivados no Brasil são transgênicos.
“Tais cultivos dão origem a subprodutos que são utilizados pela indústria alimentícia como constituintes de muitos alimentos. Considerando a crescente produção de alimentos transgênicos no Brasil, presume-se uma grande possibilidade de que os ingredientes derivados de milho e soja, presentes nesses produtos, também sejam transgênicos”, afirmou a professora da UFSC e líder da pesquisa, Suzi Barletto Cavalli.

Mais agrotóxicos

Essa notícia é ruim porque plantas transgênicas recebem muito mais agrotóxicos durante seu cultivo. Sem contar outros riscos à saúde e ao meio ambiente que sequer foram dimensionados.
No Brasil, o Decreto no 4.680/2003 estabelece que todos os alimentos e ingredientes alimentares que contenham ou sejam produzidos a partir de transgênicos, com presença acima de 1% do produto, devem ser rotulados.
Contudo, estudos brasileiros revelaram a presença destes ingredientes em alimentos com quantidade superior a 1% sem, no entanto, informar a presença destes componentes no rótulo, apesar da legislação de rotulagem.
Para chegar a essas conclusões, as pesquisadoras Rayza Dal Molin Cortese, Suellen Secchi Martinelli, Rafaela Karen Fabri e Rossana Pacheco Proença, do Núcleo de Nutrição em Produção de Refeições (NUPPRE/UFSC), analisaram os rótulos das embalagens de carnes e preparações à base de carnes comercializados em um grande supermercado do Brasil pertencente a uma das dez maiores redes brasileiras, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras).
Foram registradas informações como denominação, nome comercial, marca, fabricante e país de origem. Todos os rótulos foram fotografados para posterior identificação, transcrição e análise da lista de ingredientes e a presença do símbolo “T” referente à identificação de transgênicos na rotulagem. As carnes foram classificadas em subgrupos e analisadas por meio de um software específico.

Origem

Foram considerados subprodutos de soja e milho aqueles ingredientes que continham a determinação da origem, como óleo de milho, proteína de soja. Ingredientes como óleo vegetal ou amido não foram considerados, se não contivessem essa especificação. Também foi analisada a frequência dos ingredientes, com o intuito de verificar quais ingredientes derivados de soja e/ou milho estavam entre os mais frequentes nos alimentos analisados.
Do total de carnes e preparações à base de carnes analisadas, 49,2% traziam em sua composição pelo menos um ingrediente derivado de soja ou milho, sendo que a maioria dos subgrupos apresentava mais da metade dos alimentos com esses componentes.
Em apenas dois subgrupos (caviar e charque) não havia nenhum alimento contendo ingredientes derivados de soja e/ou milho. Os subgrupos que continham mais alimentos com ingredientes passíveis de serem transgênicos foram os subgrupos 13 – peito de peru; 14 – patês; 11 – preparações de carnes com farinhas ou empanadas e 1 – almôndegas a base de carnes.
Os achados são semelhantes aos de estudos internacionais e nacionais, que demonstraram a utilização de proteína de soja pela indústria alimentícia como um ingrediente em produtos processados à base de carne.
Estudos apontaram a presença de soja transgênica em carnes como presunto, mortadela de frango e steak de frango; outra, em 12 de 50 amostras de alimentos derivados de mortadela, salsichas, salame, patê, linguiça, frios e rocambole de carne, e em 11 de 30 amostras de salsichas contendo soja.
No caso de carnes e preparações à base de carnes, as proteínas de soja são amplamente utilizadas por suas propriedades de ligação de água, ligação de gordura, textura e capacidade emulsionante, além das características organolépticas como aparência, firmeza e corte.
No estudo catarinense, nenhum dos alimentos analisados continha identificação da presença de transgênicos no rótulo. Contudo, estudos brasileiros identificaram a presença de soja e milho em diversos alimentos, incluindo carne processada e produtos à base de soja em quantidade superior a 1% sem, no entanto, declarar a presença de transgênicos no rótulo, conforme a legislação de rotulagem.
“Assim, considerando que 94% da soja e 85% do milho cultivados no país são transgênicos, é provável que os ingredientes derivados de soja e milho identificados no presente estudo também o sejam”, disse Suzi Cavalli.
Segundo ela, esses resultados são preocupantes porque, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009, 24,5% da quantidade per capita média diária de consumo da população brasileira são provenientes de produtos de origem animal, incluindo carnes, leite e derivados e ovos.
Além da grande quantidade de ingredientes possivelmente transgênicos adicionados pela indústria alimentícia em carnes e preparações a base de carnes, animais alimentados com ração produzida com milho e/ou soja transgênicas também podem constituir fonte de transgênicos na alimentação humana.

(fonte: http://www.viomundo.com.br/denuncias/voce-come-transgenicos-sem-nem-saber-que-estao-na-carne-e-derivados.html)