domingo, 15 de julho de 2018

O consumismo ameaça tornar a Terra uma enorme pilha de escombros e deserto, adverte Francisco


“Há um perigo real de que deixemos às gerações futuras apenas escombros, desertos e lixo”. O Papa adotou um tom apocalíptico com os participantes na conferência realizada no Vaticano para comemorar o terceiro aniversário da encíclica Laudato Si’.

A reportagem é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 06-07-2018. A tradução é do Cepat.

Em suas palavras, Francisco exortou os governos de todo o mundo a cumprir seus compromissos para frear a mudança climática, pois caso continue “o crescente consumismo”, podemos “tornar a Terra uma enorme pilha de escombros, desertos e lixo”. Frente a isso, é preciso uma “ação coordenada e integral”.

Bergoglio exortou os governantes a honrar os acordos contemplados no pacto de Paris, insistindo em que instituições como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial “têm um papel importante” para animar “reformas efetivas para um desenvolvimento mais inclusivo e sustentável”.

“Necessita-se uma mudança de paradigma financeiro para promover o desenvolvimento humano integral”, destacou o Pontífice, reivindicando que “as [...] finanças voltem a ser um instrumento destinado à melhor produção de riqueza e desenvolvimento”.

“Todos os governos devem se esforçar para cumprir os compromissos assumidos em Paris para evitar as piores consequências da crise climática”, concluiu Francisco, que destacou que “a redução dos gases do efeito estufa requer honestidade, coragem e responsabilidade, especialmente dos países mais poderosos e poluidores. Não podemos nos dar ao luxo de perder o tempo neste processo.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/580657-o-consumismo-ameaca-tornar-a-terra-uma-enorme-pilha-de-escombros-e-deserto-adverte-francisco)

Agrotóxicos - além do limite


Aliança entre Temer e ruralistas pode custar meta climática ao Brasil


A aliança do governo de Michel Temer com os ruralistas no Congresso pode ter salvo o presidente de ser investigado no STF por corrupção, mas deixou um monte de mortos pelo caminho. Um deles pode ser a meta brasileira de redução das emissões de gases que causam o aquecimento global, conforme sugere um estudo publicado nesta segunda-feira (9).

Um grupo de pesquisadores do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Brasília mostrou no periódico Nature Climate Change como as barganhas políticas feitas desde 2016 afetam o controle do desmatamento na Amazônia e no cerrado. No pior caso, isso faria as emissões de gases-estufa por desmatamento retornarem aos patamares do século passado. Dessa forma, o Brasil estouraria em 2030 todos os limites de emissões compatíveis com o cumprimento de sua meta no acordo do clima de Paris.

Só por desmatamento o país emitiria, nesse cenário, 1,8 bilhão de toneladas líquidas de gás carbônico em 2030 – um valor 50% maior do que a meta indicativa da NDC, o compromisso brasileiro em Paris, que é de 1,2 bilhão de toneladas naquele mesmo ano.

No cenário mais provável, a conta da aliança com os ruralistas sobraria para outros setores, como a indústria e os transportes. E seria salgada: para o Brasil se manter na meta em 2030, o restante da economia teria de desembolsar US$ 2 trilhões (mais que valor total do PIB em 2017) para adotar tecnologias ainda imaturas ou não testadas e zerar suas emissões, de forma a compensar o carbono emitido a mais no setor florestal.

Para fazer o estudo, o grupo liderado por Roberto Schaeffer, da COPPE-URRJ, e Britaldo Soares-Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais, usou modelos de computador que fazem simulações de como o uso da terra evolui no território e de como as relações entre uso da terra e energia se desenvolvem em resposta a contextos diversos. Para isso, eles alimentaram o modelo com as taxas de desmatamento e as condições de governança ambiental em três momentos: antes de 2005, quando não havia controle sobre a devastação das florestas; entre 2005 e 2012, quando medidas foram adotadas e a taxa de desmatamento caiu; e entre 2012 e 2017, quando a tendência de queda se rompeu na esteira do enfraquecimento do Código Florestal e da crise política.

Nos últimos dois anos, o quadro de governança pós-2012 se agravou. Para tentar aprovar o impeachment, depois reformas impopulares, depois para salvar a própria pele, Michel Temer fez uma série de concessões à bancada ruralista, que representa cerca de 40% dos votos na Câmara dos Deputados: a grilagem de terras de até 2.500 hectares foi legalizada, a demarcação de terras indígenas foi congelada, unidades de conservação tiveram propostas de redução de limites e o licenciamento ambiental passou a ser ameaçado por vários projetos de lei.

Os ruralistas não ganharam tudo ainda. “Mas, para o desmatamento, a sinalização negativa que o governo dá tem uma importância enorme”, diz Raoni Rajão, da UFMG, coautor do estudo.

Com base nessas informações, os modelos produziram três cenários. Num deles, a governança ambiental é fortalecida, algo que soa pouco factível hoje. Neste caso, o desmatamento do cerrado alcança 3.794 km2 em 2030, comparado aos mais de 9.484 km2 hoje. O da Amazônia cairia dos atuais 7.000 km2 para 3.920 km2.

No cenário intermediário, considerado pelo grupo o mais provável, o desmatamento no cerrado vai a 14.759 km2, e o da Amazônia, a 17.377 km2em 2030. No pior cenário, a governança ambiental é totalmente abandonada e o desmatamento anual retorna aos níveis mais altos: 18.517 km2 no cerrado e 27.772 km2 na Amazônia. O vídeo abaixo mostra a evolução do desmatamento até 2050 no pior cenário.

Video Player

O carbono emitido por perda de florestas e savanas nos três cenários foi comparado com o chamado “orçamento de carbono” do Brasil, ou seja, quanto CO2 o país ainda pode emitir para cumprir sua parte na meta do Acordo de Paris de estabilizar o aquecimento da Terra abaixo de 2oC em relação à era pré-industrial. Dado o tamanho da economia e da população do Brasil, esse orçamento foi calculado em 24 bilhões de toneladas líquidas de CO2 equivalente entre 2010 e 2050. Como já emitimos 4,6 bilhões de 2010 a 2017, o orçamento remanescente é de 19,4 bilhões de toneladas.

No cenário mais provável, o intermediário, as emissões acumuladas apenas por desmatamento entre 2010 e 2030 chegam a 16,3 bilhões de toneladas. O Brasil só consegue se manter dentro do orçamento de carbono se impuser ao setor industrial e energético as tais tecnologias mais caras a custo de US$ 2 trilhões.

A NDC também vai para o vinagre já no cenário intermediário. “O compromisso assumido no Acordo de Paris é de chegar a 2030 com 1,2 bilhão de toneladas de emissões no conjunto da economia. Mas no cenário tendencial somente as emissões por desmatamento já alcançariam esse valor”, afirma Rajão.

O cenário mais grave é um alerta, mas por ora não é o mais provável, já que o Ministério do Meio Ambiente continua agindo para controlar a devastação. No governo Temer, paradoxalmente, o orçamento do Ibama para a fiscalização ambiental foi incrementado em relação ao do segundo mandato de Dilma Rousseff, com dinheiro doado pela Noruega.

Na semana passada, o órgão anunciou que concluirá neste mês a Operação Panopticum, que consiste no envio de 25,2 mil cartas e e-mails a proprietários de terra de 59 municípios com risco de desmatamento. O objetivo é informar os proprietários de que eles estão sendo monitorados por satélite e serão punidos em caso de desmatamento ilegal.

“O Ibama continua melhorando, mas no caso da Amazônia, isso vai diminuir no máximo um terço do desmatamento total, que está em terras privadas que já estão no Cadastro Ambiental Rural”, disse Rajão, que concebeu a Operação Panopticum juntamente com Jair Schmitt, diretor de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente. Segundo ele, é mais difícil fazer esse controle em áreas privadas fora do CAR, em unidades de conservação, terras devolutas, terras indígenas e assentamentos.

“O estudo mostra que o Brasil está praticando hoje um tipo de política do século 19, o que faz com que talvez tenhamos que recorrer a tecnologias do século 21, muitas delas ainda não maduras ou comercialmente disponíveis, para compensar o aumento das emissões de gases de efeito estufa advindas do aumento do desmatamento decorrentes desta política”, disse Roberto Schaeffer.

*Publicado originalmente no Observatório do Clima
(fonte: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Mae-Terra/Alianca-entre-Temer-e-ruralistas-pode-custar-meta-climatica-ao-Brasil/3/40899)

Agromitômetro: verdades e mentiras no discurso dos ruralistas sobre pesticidas


Checamos algumas das principais afirmações feitas pelos deputados que querem mudar a lei de agrotóxicos.
A reportagem é publicada por Observatório do Clima, 11-07-2018.

O detector de agrocascatas está de volta. Desta vez, nós o utilizamos para checar a veracidade de várias afirmações feitas pelos deputados da bancada ruralista durante as discussões da comissão especial que aprovou o substitutivo do deputado Luiz Nishimori (PR-PR) ao PL 6.299, o famoso PL do Veneno, no fim de maio. O projeto visa a afrouxar as regras para a aprovação de pesticidas no Brasil, sob alegação de que a lei atual é “antiga” e impede a “modernização” do campo.
Mas será mesmo? Descubra abaixo onde os ruralistas têm razão e onde não têm.

“A nova lei vai aumentar a segurança para a saúde e o meio ambiente e reduzir o uso de agrotóxicos, pois introduz tecnologias mais modernas.”

NÃO NECESSARIAMENTEPesticidas mais modernos de fato são usados em doses menores, porque são muito mais específicos para as pragas que visam combater. Mas quem diz que a mera adoção da tecnologia vai reduzir o impacto ignora fatos básicos sobre a natureza humana: se um produtor rural tem à sua disposição uma tecnologia mais moderna que vai aumentar sua produtividade, o que ele faz é produzir mais, aumentar sua área de plantio e usar mais dessa tecnologia para ganhar mais dinheiro, e não se contentar estoicamente com manter a produção no mesmo patamar de antes só para poder usar menos insumos.
Quem duvida pode olhar para a história. No fim da década de 1990 e começo da de 2000, antes de os transgênicos serem liberados no Brasil, os defensores da soja transgênica roundup-ready, da Monsanto, alegavam que essa tecnologia reduziria o uso de agrotóxicos, já que ela permite a aplicação do herbicida glifosato (o Roundup, também da Monsanto) com a planta ainda jovem, o que em tese demandaria menos pulverizações. Veja o que dizia Leila Oda, da CTNBio, uma das principais defensoras dos transgênicos no Brasil naquela época:
“Precisamos reconhecer que o modelo agrícola se esgotou no mundo. Temos duas opções: ou continuamos com os desmatamentos ou aprimoramos os métodos agrícolas. A transgenia veio para solucionar esse problema, sem aumentar a área de plantio e com menos uso de agrotóxicos.” (Istoé, 10/3/2004).
E a cartilha da Associação Nacional de Biossegurança, um grupo de lobby bancado pela indústria, em 2003, ano em que a soja transgênica foi liberada:
“As plantas transgênicas tolerantes a herbicidas e as resistentes a insetos já são cultivadas em vários países do mundo e têm contribuído para reduzir significativamente a quantidade de uso de agrotóxicos.” (Em reportagem da EBC de 10/12/2003)
Mas e no mundo real, o que aconteceu? Um estudo de pesquisadores da Embrapa publicado em 2017 no periódico Ciência e Saúde Coletiva avaliou a produção, a produtividade e o consumo de defensivos na soja entre 2000 e 2012, ou seja, antes, durante e depois da entrada dos transgênicos. Os dados mostram que o uso de agrotóxicos na cultura de soja triplicou no período, enquanto no restante da agricultura ele cresceu 1,6 vez. A quantidade de agrotóxicos por hectare de soja cresceu 64%, enquanto a produção de soja por quilo de herbicida caiu 43%. Em toda a agricultura, o uso de agrotóxicos cresceu três vezes mais que a produtividade e dez vezes mais que a população.

A oposição ao PL do veneno “é coisa de petista”, da “esquerdalha”

MENTIRA – Quando deputados como Luís Carlos Heinze (PP-RS) e Nílson Leitão (PSDB-MT) dizem isso, demonstram ter memória curta ou contam com a memória curta dos eleitores. Afinal, ambos já eram deputados quando a mudança do Código Florestal foi implementada, em 2012. Na época, a bancada ruralista e o governo do PT, partido que ela ora critica, estavam juntinhos na aprovação da lei que anistiou desmatamentos ilegais e fragilizou a proteção ambiental. O relator da mudança do código, Aldo Rebelo, era um deputado do PCdoB (um partido “esquerdalha” que votou em massa a favor do novo código). Aldo foi líder, presidente da Câmara e ministro nos governos petistas, mas nada disso o impediu de ser incensado pelos ditos representantes do agronegócio na época. Enquadrar a questão do agrotóxico como polarização partidária é um cambalacho retórico dos deputados que apoiam o PL do Veneno.

“A lei atual impede a importação emergencial de defensivos e torna a agricultura brasileira vulnerável a superpragas, como a lagarta Helicoverpa, que atingiu a soja e causou prejuízos bilionários.”

MENTIRA – Desde 2013 o Brasil tem uma lei que permite a importação de agrotóxicos sem registro no país para emergências fitossanitárias. É a Lei nº 12.873, conhecida, vejam só, como Lei de Emergência Fitossanitária, regulamentada por decreto naquele mesmo ano. Essa lei foi aprovada justamente por causa de um surto de lagarta Helicoverpa na soja, para o qual o setor produtivo demandou a importação do pesticida benzoato de emamectina (cujo registro fora negado em 2007 pela Anvisa por suspeita de que ele fosse neurotóxico e causasse má-formação fetal). A Anvisa autorizou o produto em 2017.
As superpragas, como a Helicoverpa, são resultado do uso excessivo e descontrolado de agrotóxicos. É a boa e velha seleção natural de Darwin em operação: se você usa muito veneno numa população de uma praga, indivíduos que desenvolvam mutações que os tornem resistentes a esse veneno vão se disseminar. Estudo publicado no periódico Nature em 2013 cita o aumento da resistência das plantas invasoras aos herbicidas devido ao uso indiscriminado destes produtos. Isto tem alimentado um círculo vicioso que onde todos perdem: agrotóxico – pragas e invasoras resistentes; mais agrotóxico – mais impacto, mais custo para o produtor, mais comida contaminada.

 “O Brasil não é o maior consumidor mundial de pesticidas”

VERDADE, MAS – Segundo dados do Ibama, o Brasil comercializou 477 mil toneladas de ingredientes ativos de agrotóxicos em 2012, último ano para o qual há dados comparáveis com outros países (em 2016 foram 551 mil toneladas). O número é um pouco menor que o dos Estados Unidos, onde 498 mil toneladas foram comercializadas no mesmo ano, segundo a EPA (Agência de Proteção Ambiental), e bem menor que o da China, onde, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), 1,8 milhão de toneladas foram comercializadas em 2012. Mas é maior que o da União Europeia, que registrou 396 mil toneladas usadas em seus 28 países naquele ano.
O uso de pesticidas por hectare no Brasil, porém, era de 7 kg de ingrediente ativo/ha em 2012 (segundo o IBGE, calculado com base nos dados do Ibama), menor que o do Japão (12 kg/ha, segundo o governo japonês e a FAO), mas mais do que duas vezes maior que o dos EUA (2,6 kg/ha) e maior que o de todos os países europeus exceto Chipre e Malta (cerca de 9 kg/ha cada um). Não há dados por hectare disponíveis para a China.
Além do mais, enquanto na maioria dos países desenvolvidos o uso total de pesticidas se mantém constante nas últimas décadas, no Brasil ele explodiu: foram impressionantes 606% de aumento entre 1990 e 2012, contra 135% na China, 151% no Canadá, 166% na Colômbia e 105% na Austrália. Esta conta foi feita com base nos dados da FAO, que são bem menos acurados que os dados nacionais usados neste documento, mas permitem comparação entre os países desde 1990.
É útil ter essa comparação, mas a métrica de consumo total não conta toda a história. É preciso considerar que tipo de veneno é usado em que tipo de cultura, como ele reage com que tipo de ambiente e quanto de resíduo fica no alimento, no solo ou na água. No Brasil, segundo dossiê da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), entre os 50 pesticidas mais usados, 22 são proibidos na União Europeia. O que importa é que usamos muito agrotóxico no Brasil e temos evidência de que isso causa impactos ao meio ambiente e à saúde.

“A Lei de Agrotóxicos é velha, de 1989, e o campo avançou nesse período, portanto ela precisa ser modificada para se alinhar com os tempos atuais”

FALÁCIA – Este tipo de argumento usado pelos ruralistas é chamado de “non sequitur”: ele enuncia uma premissa verdadeira e uma conclusão que não segue logicamente a premissa.
Primeiramente, idade de promulgação de uma legislação não é o único critério de sua aplicabilidade. A Constituição dos Estados Unidos tem mais de 200 anos de idade e o país funciona muito bem, obrigado, porque sua aplicação vem se atualizando.
A Lei 7.802, que trata dos agrotóxicos, foi de fato aprovada em 1989. Mas ela teve sua aplicação regulamentada por decreto duas vezes, em 1990 e em 2002. A forma como ela é aplicada hoje, portanto, é de 15 anos atrás, não de 30. Será que 15 anos de idade também tornam a lei caduca? Ora, 2002 é o mesmíssimo ano de proposição do PL 6.299 original. Ou seja, ninguém estava de fato interessado em “modernizar” a lei. E, mesmo que houvesse essa necessidade, como houve em 2002, isso poderia ser feito, como foi, sem necessidade de mexer na legislação. O que se busca é o afrouxamento das regras, não sua atualização.
Outro problema desse argumento é a própria noção de “modernidade” que ele embute. Sistemas agrícolas modernos deveriam ser menos dependentes de agrotóxicos, não mais – veja o caso do Japão, que tem reduzido progressivamente o uso por hectare, e o da União Europeia, que em 25 anos tirou 60% dos agrotóxicos do mercado; ambos mantêm agriculturas altamente modernas e tecnificadas. A agricultura dos “tempos atuais” tem menor impacto ambiental e emite menos carbono.

“A aprovação de novos pesticidas no Brasil é lenta e burocrática demais e nos põe em desvantagem em relação ao resto do mundo”

MEIA-VERDADE – A liberação de pesticidas no ambiente é um processo demorado em qualquer lugar, e precisa ser. Um mesmo princípio ativo usado em ambientes diferentes tem diferentes impactos, diferentes velocidades de degradação e interage com diferentes espécies. Por isso, as análises de perigo e de risco precisam ser feitas caso a caso. Isso leva tempo. Quanto tempo? De novo, varia imensamente de país para país. Na União Europeia, as análises são feitas pelos governos dos países que pedem o registro de uma nova substância, e levam três anos ou mais. No Japão, o registro e as avaliações envolvem quatro órgãos do governo e levam de dois a três anos. As análises de risco são feitas por uma comissão especial ligada ao gabinete do premiê, a Comissão de Segurança Alimentar.
No Brasil, as análises técnicas, propriamente ditas levam menos tempo: menos de 120 dias para os chamados produtos técnicos equivalentes (que são a base para preparação dos “genéricos” dos pesticidas e que têm o segundo maior número de pedidos de registro) e no máximo um ano e meio (ou seja, metade do tempo da União Europeia) para produtos técnicos novos, incluídas aí as análises do Ibama e da Anvisa. O problema é a fila: até chegar a vez de ser analisado, um produto pode levar quatro anos ou mais na espera. Num caso extremo (mas que é um só), um veneno submetido em 2011 até agora aguarda na fila para ser analisado. Há várias centenas de produtos aguardando para entrar em análise no Ibama e na Anvisa. A imensa maioria é de genéricos e agrotóxicos formulados. Princípios ativos novos são minoria esmagadora: apenas 13 na fila de espera no Ibama.
Diferentemente do que dizem os ruralistas, porém, a fila não tem nada a ver com antiguidade ou a inadequação da Lei de Agrotóxicos, e sim com a estrutura dos órgãos de análise. O Ibama tem uma equipe de 22 pessoas, que consegue processar 300 pedidos por ano. Só que todo ano entram para análise cerca de 500 pedidos, segundo informações do próprio órgão. Com a equipe duplicada, seria possível dar conta da demanda com folga e zerar a fila de espera (spoiler: não precisa mudar a lei para isso, basta contratar gente no Ibama). Para comparação, os EUA, que comercializam anualmente quase a mesma quantidade de agrotóxicos que o Brasil, têm 800 pessoas na equipe de avaliação.

“A lei atual impede que defensivos mais modernos, portanto menos tóxicos e mais seguros cheguem ao Brasil. Ao se oporem à mudança, os ambientalistas e os artistas estão atentando contra o meio ambiente”

MENTIRA – Os pesticidas estão ficando menos tóxicos e mais eficientes à medida que evoluem. Mas isso não é exclusividade deles: os avanços valem para qualquer produto industrial, de chips de computador a lâmpadas, de carros a telefones celulares. Tudo fica melhor e mais eficiente.
Ocorre que não há nada na legislação brasileira que trave a entrada desses produtos mais modernos. Ao contrário: desde 2016, o Mapa (Ministério da Agricultura) vem editando listas de agrotóxicos prioritários, que “furam a fila” da avaliação. Já foram 124 nesse “fast track”. Em 2016, 71 produtos. Em 2017, 53 produtos. Da lista de 2016, só há sete produtos que ainda estão em avaliação, ou seja, a liberação da maioria deles aconteceu em dois anos (lembre-se de que a União Europeia demora até quatro anos apenas para fazer os estudos de risco). Sabe quantos produtos novos – portanto, em tese menos tóxicos – foram incluídos pelo ministério nas listas de prioridades nesse total de 124? 20, ou seja, apenas 16%. O Ministério da Agricultura tem nas mãos o instrumento para acelerar a liberação de novos defensivos e o usa pouco. E aí a gente pergunta: a culpa é da lei?

“O Japão tem a maior expectativa de vida do mundo e eles usam mais agrotóxicos que a gente”

INVERIFICÁVEL – A frase que o deputado Valdir Colatto (MDB-SC) repetiu em todas as reuniões da comissão do veneno é estapafúrdia. A expectativa de vida no Japão de fato é a mais alta do mundo, 84,2 anos segundo a Organização Mundial da Saúde. E os japoneses usavam 12 quilos de defensivos por hectare em suas lavouras em 2012. Ocorre que o Japão usa menos veneno hoje do que usava em 1990 (16,5 quilos), e o uso continua caindo: em 2014 era 11,9 kg/ha, segundo o governo japonês. Mas a expectativa de vida subiu mais de seis anos nestas quase três décadas. Além do mais, se a causa da longevidade fosse o veneno, as Ilhas Maurício, que usam 22 quilos por hectare, teriam alta expectativa de vida, mas não têm: ela é menor que no Brasil (74,8 anos lá contra 75,1 anos aqui). Os suecos, por outro lado, não deveriam viver 82 anos, já que usam menos de 1 kg de pesticida por hectare. O mais provável, para sorte desses países, é que uma coisa não tenha nada a ver com a outra. O deputado comete a clássica confusão entre correlação e causa.

“O Ibama e a Anvisa não perdem poder de aprovar pesticidas com a mudança”

MENTIRA – O Decreto 4.074, que regulamentou em 2002 a Lei de Agrotóxicos, determina que o registro de defensivos cabe a um triunvirato formado pelos ministérios da Agricultura, do Meio Ambiente (através do Ibama) e da Saúde (através da Anvisa). Cabe ao Ibama realizar as avaliações ambientais e à Anvisa as avaliações toxicológicas sobre os produtos cujo registro é pedido, bem como fazer reavaliações sobre o risco de produtos já no mercado, a partir de novos conhecimentos que se apresentem.
O substitutivo ao PL 6.299 aprovado na comissão especial da Câmara atribui a função de registrar, reavaliar e fiscalizar agrotóxicos apenas ao Ministério da Agricultura. Ele transfere ao fabricante do agrotóxico ou requerente do registro a responsabilidade de realizar os estudos de risco ao meio ambiente e à saúde humana – funções que hoje são do Ibama e da Anvisa. Estes órgãos do governo, pela proposta, deverão se limitar a “analisar e, quando couber, homologar” os pareceres técnicos que virão literalmente prontos de fábrica. Ibama e Anvisa já se manifestaram em notas técnicas contrários à manobra.

“Não há prova de que agrotóxicos fazem mal a ninguém. São consumidos há décadas e ninguém morreu”

MENTIRA – Há provas abundantes do risco dos pesticidas para a saúde e para o meio ambiente. Nada mais natural, já que a função dessas substâncias, como o nome indica, é matar. Desde 1962, quando a química americana Rachel Carson lançou o primeiro alerta sobre o impacto devastador do DDT e outros pesticidas nos EUA sobre a vida selvagem, a saúde humana e sua possível ligação com o câncer (alerta este que levou ao banimento do DDT no fim daquela década), os agrotóxicos vêm sendo objeto de muitos estudos e controle estrito. Em 2001, uma convenção da ONU baniu uma série de pesticidas considerados poluentes orgânicos persistentes, capazes de se acumular em organismos da água e do solo durante muitos anos e em concentrações muito superiores às da pulverização. Entre eles estão organoclorados como o aldrin, o dieldrin, o clordano, o heptachlor e o endrin. Diferentemente do que dizem os deputados, esses venenos mataram muita gente no século passado, muitas vezes por consumo de comida ou água contaminada. O aldrin, apesar de banido no mundo, foi encontrado em amostras de leite materno em Lucas do Rio Verde (MT) em 2010, segundo dossiê da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva).
Segundo um relatório das Nações Unidas publicado em 2017, os pesticidas causam 200 mil mortes por ano por intoxicação aguda no mundo todo, quase todas nos países em desenvolvimento. O fato de parte dessas mortes serem suicídios, como um vídeo produzido pelos defensores do PL do veneno busca atenuar, não autoriza leniência com esses produtos – da mesma forma como armas de fogo não deixam de precisar de controle porque muita gente se mata com elas.
No mundo todo, ainda segundo a ONU, a exposição a pesticidas vem sendo ligada por vários estudos a doenças crônicas, como os males de Parkinson e Alzheimer, vários tipos de câncer, malformações fetais, disrupção do sistema hormonal, perda de memória e de visão e problemas no desenvolvimento cognitivo.
No entanto, os agrotóxicos representam um desafio à epidemiologia, já que várias doenças são multifatoriais, que os problemas de saúde decorrentes de pesticidas podem se desenvolver muitos anos após a exposição e que as pessoas são expostas a vários produtos químicos e outros fatores de risco ambiental em suas vidas. Estabelecer uma relação direta entre exposição a pesticidas ou consumo de alimentos com resíduos a câncer e outras doenças é difícil – e é nessa brecha de conhecimento que alguns deputados se apoiam para dizer que “ninguém morreu”.
Mesmo assim, há vários casos bem estabelecidos no documento da ONU de mortes e doenças graves relacionadas diretamente ao consumo de alimentos contendo pesticidas: 23 crianças na Índia em 2013 (por consumo de comida com monocrotofós), 39 crianças na China em 2014 (por resíduos de TETs) e 11 crianças em Bangladesh no ano seguinte (por consumo de frutas com pesticidas). Nos EUA, a contaminação de aquíferos pelo pesticida atrazina – banido na União Europeia em 2004 – foi parar nos tribunais, por associação com o aumento do risco de malformações em bebês.
É justamente por causa desses riscos que todos os países do mundo estabelecem limites máximos de resíduos nos alimentos, assim como na água e nos solos (os últimos ainda não existem no Brasil). Por aqui, uma análise da Anvisa de 2010 mostrou que 63% dos alimentos em 26 Estados apresentavam contaminação por agrotóxicos. Desse total, 28% possuía substâncias não autorizadas para aquele cultivo ou acima dos limites máximos legais. Dezenas de municípios avaliados pelo IBGE em 2011 no Atlas de Saneamento e Saúde apresentavam contaminação da água por agrotóxicos.
Bem mais fáceis de estabelecer e de acompanhar são os danos à saúde das pessoas expostas constantemente a agrotóxicos – os trabalhadores rurais e as comunidades próximas a áreas agrícolas. Em 2006, a cidade de Lucas do Rio Verde registrou uma chuva de paraquate, um veneno usado para dessecar soja, que evaporara das áreas de cultivo. Na mesma cidade, em 2010, vários resíduos de agrotóxicos foram detectados no leite materno – inclusive de produtos banidos como o aldrin e o DDT.
Uma avaliação de 370 trabalhadores rurais da região de Campinas mostrou que 79,2% deles tinham exposição de longo prazo a agrotóxicos e 20,8% demonstravam “prováveis efeitos à saúde”. “Se avaliarmos essa porcentagem em relação ao total de trabalhadores rurais brasileiros que fazem uso de agrotóxicos, a constatação se torna preocupante, visto que milhares deles estão apresentando alterações laboratoriais e/ou clínicas que nos fazem pensar em algum tipo de efeito à saúde decorrente do uso do agrotóxico, apresentando um problema de saúde pública”, conclui o estudo, de 2011. Curiosamente, um de seus autores é o médico Ângelo Zanaga Trapé, da Unicamp, especialista alistado pela bancada ruralista para defender a mudança na lei de agrotóxicos.
Segundo a Abrasco, entre 2007 e 2014 foram notificados 34.147 casos de intoxicação por agrotóxicos no Brasil.
Como alguns efeitos só são descobertos vários anos depois que uma substância é aprovada para uso, revisões periódicas dos pesticidas são feitas pelas autoridades e vários deles são retirados do mercado. Um exemplo é o endossulfam, proibido no Brasil em 2013 após estudos demonstrarem sua propriedade de bagunçar o sistema hormonal humano e sua toxicidade reprodutiva. Outro é o dessecante paraquate, que recentemente teve mudanças em suas regras de uso determinadas pela Anvisa por suspeita de causar Alzheimer.
Na UE, um produto novo tem uma licença de dez anos, e uma renovação acontece por 15 anos. Nos últimos 25 anos, as autoridades europeias começaram a revisar os registros de pesticidas. Como resultado, mais de metade dos registros foram cancelados: hoje o número de substâncias ativas no mercado caiu de 1.000 para 400 – e 25% destas são produtos naturais, como microrganismos, extratos vegetais e feromônios de insetos.

“Não dá para alimentar o mundo sem agrotóxicos”

VERDADE, MAS – A agricultura brasileira é de fato dependente de agrotóxicos hoje. Mas temos experiências de produção em pequena e grande escala, na agricultura familiar e empresarial de produção de alimentos, commodities e de biocombustíveis em sistemas de produção orgânica ou com baixo uso de agrotóxicos no Brasil e no mundo. Dos assentamentos à marca Native e a produção de cana orgânica em larga escala em monocultivos em Sertãozinho, interior paulista, está provada a viabilidade da produção com alta produtividade e lucratividade sem agrotóxico. Profissionais de assistência técnica rural também poderiam ajudar a disseminar conhecimento sobre as vantagens de práticas de cultivo mais saudáveis. No Vietnã, onde isso foi feito, produtores de arroz que passaram a ganhar dinheiro do governo para usar menos agrotóxicos viram sua produtividade crescer.
Portanto, não há uma barreira técnica ou científica para uma agricultura orgânica ou ao menos com muito menor uso ou dependência de agrotóxico. A transição para esta realidade não é trivial e exigiria uma guinada na pesquisa e nas políticas que orientam o que, como e quem produz no Brasil. Mexeria no interesse de empresas de insumos e associações de classe, por exemplo. Mas interessaria ao bem público e às empresas de alimentos, além de gerar economia ao sistema de saúde e vantagens ambientais e comerciais ao Brasil, dado que mercados como o europeu e o norte-americano exigem cada vez mais alimentos orgânicos. A transição poderia gerar muita inovação e negócios, assim como uma economia de baixo carbono. Trata-se de uma questão de poder e querer, mas uma ambição totalmente possível.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/580767-agromitometro-verdades-e-mentiras-no-discurso-dos-ruralistas-sobre-pesticidas)

Nos agrotóxicos, quem pede e precisa de cautela?


A cada dois dias e meio uma pessoa morre, no Brasil, intoxicada por esses produtos.
O artigo é de Washington Novaes, jornalista, publicado por O Estado de S. Paulo, 13-07-2018.

Eis o artigo.

Mais um incêndio em Brasília: a discussão sobre possíveis modificações na legislação que rege a questão dos agrotóxicos, em meio ao avanço, na Câmara dos Deputados, do debate sobre o projeto que flexibiliza o registro desse tipo de produto. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quer aprovação e entrada rápida em vigor de disposições que apressem o exame toxicológico; por outro lado, estão na mesa propostas de novos critérios para análise desses riscos toxicológicos. Sugere-se a adoção de padrões internacionais ou de outros países para avaliações de tais riscos - com forte oposição do lado contrário. Da mesma forma, a adoção de uma “lista positiva” na avaliação de riscos para a saúde.
Na Câmara dos Deputados transita projeto de lei que “flexibiliza” a atuação da Anvisa e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) nessa área. Apelidado de Projeto de Lei do Veneno, a iniciativa, da bancada ruralista, começa por mudar a nomenclatura dos produtos para “pesticidas” e estabelecer prazo de um ano para o registro. Além disso, fortalece a atuação do Ministério da Agricultura na área. Mas retira da lei atual dispositivo para que não se registrem novos produtos se não forem menos tóxicos do que os existentes no mercado. “É um retrocesso”, dizem os críticos. Em meio a tudo isso, é feita a fusão das empresas Bayer e Monsanto, expoentes do mercado, com ativos de R$ 15 bilhões.
Em meio a essas discussões, num evento sobre utilização sustentável do fósforo na agricultura nos últimos 50 anos, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e outros órgãos concordaram que quase metade do produto assim aplicado (22 milhões de toneladas) foi subutilizada.
E um balanço em eventos nessa área mostrou que dentro de uma década as importações mundiais de soja em grão (com uso de fertilizantes) aumentarão em 56,4 milhões de toneladas (de 147,7 milhões de toneladas para 204,1 milhões, a US$ 400 a tonelada); o farelo de soja aumentará em 2027-2028 as exportações em 29,8 milhões de toneladas (de 53,1 milhões de toneladas para 82,9 milhões); a carne bovina terá alta nas vendas ao exterior de 2,1 milhões de toneladas em 2027-2028; a suína, 1,3 milhão de toneladas (de 7,6 milhões para 8,9 milhões de toneladas, no valor de US$ 2.250 a tonelada; no Brasil, o aumento será de 0,2 milhão).
A Sociedade Rural Brasileira acha que se deve aprovar o projeto 3.200/2015 (Lei dos Defensivos), debatido com a Câmara dos Deputados. Mas defende a deia de que não se devem flexibilizar nem amenizar regras para fiscalização e utilização de defensivos no País. Na controvertida questão de novos produtos na agricultura, o pesquisador Fernando Carneiro, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), defende a tese de que o registro de novos produtos deve ficar com o Ministério da Agricultura, já que pode envolver riscos para a população (embora a Câmara dos Deputados tenha aprovado projeto nesse âmbito e esteja discutindo a questão).
A cada 2,5 dias uma pessoa morre intoxicada no Brasil por esses produtos; foram 25 mil intoxicadas entre 2007 e 2014 - embora um caso em cada 50 não seja notificado ao poder público; e as causas só sejam explicitadas em casos agudos (embora não comunicadas ao SUS). O Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos. Nos Estados, o uso costuma ficar entre 1 kg e 18 kg por hectare.
No Congresso brasileiro, grandes proprietários lutam - segundo o Instituto Humanitas Unisinos (IHU), 10/7 - para fazer passar os projetos que “desestruturam a agricultura familiar e orgânica brasileiras”. E nessa luta há duas vertentes na área de produção de alimentos no País. A primeira, estimulada pelos grandes produtores (IHU, 10/7) que utilizam nos processos produtivos agrotóxicos sintéticos, fertilizantes químicos, irrigação intensiva e manejo inadequado do solo, trabalha pela aprovação daquele projeto. A segunda, majoritariamente formada por agricultores familiares e assentados da reforma agrária, utiliza em seu processo produtivo os princípios da agroecologia e pretende, ao produzir produtos orgânicos, conviver “de forma sustentável” com o meio ambiente, sem usar agrotóxicos e fertilizantes sintéticos.
Dizendo representar os interesses do grande negócio, a bancada ruralista trabalha (IHU) por dois projetos de lei, de forma a “evitar que os produtos orgânicos sejam apresentados como alternativa saudável para a população”. São o Projeto de Lei 4.576/2016, segundo o qual os produtos orgânicos só poderão ser vendidos diretamente ao consumidor em feiras livres ou propriedades particulares (altera a Lei 10.831/2003, que dispõe sobre a agricultura orgânica); e o Projeto de Lei 6.299/2002, que tem como objetivo flexibilizar o uso de agrotóxicos.
Esses dois projetos já foram aprovados em comissões da Câmara dos Deputados. Uma das modificações propostas prevê a alteração da denominação “agrotóxico” para “pesticida”. E o objetivo maior é que eles possam ser liberados pelo Ministério da Agricultura sem a concordância de órgãos reguladores. Vários desses órgãos reguladores já se manifestaram contra os dois projetos: Fiocruz, Instituto Nacional do Câncer, Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Ibama, Anvisa e a Organização das Nações Unidas (ONU).
Seria decisivo que a população - a maior beneficiária ou vítima das inovações - se manifestasse. Mas quem a mobilizará em escala mais ampla? Não basta saber se algumas instituições tomam posição contra ou a favor, embora o seu parecer seja importante. Tema tão relevante na cidade (onde está a maioria esmagadora dos consumidores) e no campo (produtores rurais) precisa ser conhecido de todos, nacionalmente.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/580833-nos-agrotoxicos-quem-pede-e-precisa-de-cautela)

domingo, 8 de julho de 2018

Barbárie Social e Cultural



Antônio de Paiva Moura

            Barbárie é o mesmo que selvageria, crueldade, desumanidade e grosseria. É ação de extrema violência e contrária à civilização. Os gregos consideravam-se civilizados e os outros povos não gregos eram chamados de bárbaros. Os turcos e os persas eram considerados bárbaros. Os romanos empregaram o termo para se referir aos povos germânicos, celtas e iberos. A invasão ao Império Romano culminou com sua queda em 478 dC. O maior interesse dos invasores era o enriquecimento e daí lutas cruentas e impiedosas travadas durante toda a Idade Média. Tanto assim, que os euro-asiáticos que invadiram o ocidente europeu, os chamados Avaros eram temidos pela ganância e pela violência contra outros povos e pelo medo que eles tinham de perder suas posses. Essa qualidade dos Avaros ficou conhecida como avareza e tornou-se um dos sete pecados capitais. Portanto, barbarismo e avareza vêm da mesma situação e momento histórico.
            Nas guerras contra outros povos os europeus fizeram o mesmo e muito mais que os bárbaros, matando, saqueando com o apelido de guerra santa. Estando Francisco de Assis (futuro São Francisco) em missão religiosa no Norte do Egito, deparou-se com uma difícil situação: o rei de Jerusalém, João de Briene, havia ocupado a cidade de Damieta no Egito, em 1218. Francisco, juntamente com outros irmãos, foi ao encontro do Cardeal-Legado do papa, o ibérico Pélago Galvão, que queria expulsar do Egito o sultão mulçumano Melek-el-Kamil e aniquilar o poder maometano. Francisco tentou evitar o conflito, mas foi ameaçado pelo Cardeal Galvão. Dos 80.000 habitantes da cidade poucos ficaram vivos. Sua mesquita foi transformada em basílica de Nossa Senhora, onde o cardeal Galvão se dirigiu para distribuir os troféus da guerra. Para Francisco não havia guerra mais repugnante do que uma guerra santa. Todo o ideal religioso ficava asfixiado no meio de sangue e saque. Diz ele: É difícil imaginar como o povo cristão pode entoar um “Te Deum” e, logo depois, correr para fora da basílica, como uma tropa e saquear os mortos e os vencidos.
            A história mostra como as civilizações criaram meios de coibir os impulsos instintivos; colocar limites nas competições entre indivíduos e aplacar o desejo de morte entre os humanos. Mas isso redundou em cerceamento da liberdade; fez prevalecer a tirania e a opressão. É na própria civilização que surge o ideal democrático que evolui desde a Antiguidade até nossos dias. Basta dizer que na Antiguidade clássica a democracia era seletiva e só os senhores possuidores de bens patrimoniais tinham direito a votar, de ser votado e de representar o povo nos poderes constituídos. Na Idade Média Ocidental, os preceitos morais sustentaram os privilégios da nobreza feudal e do clero católico. Somente a partir da Revolução Francesa (1792) é que a democracia é interpretada em sentido lato incluindo a busca do bem estar de toda a população, liberdade, igualdade e fraternidade, levando a consolidar o Estado Democrático de Direito. Essa aspiração é que caracteriza o moderno ideal de civilização.
            A democracia é oriunda de mobilizações populares e nada deve ao liberalismo econômico. As grandes conquistas democráticas e sociais foram com lutas pacíficas e cruentas. Redução de jornada de trabalho custou inúmeras vidas de homens e mulheres; direito a férias anuais; descanso semanal remunerado; emancipação progressiva da mulher; proteção às crianças e outros benefícios. Nada disso foi uma concessão humanitária da classe proprietária dos meios de produção, mas fruto de lutas, com a força das massas trabalhadoras. O direito de greve não é uma dádiva do capitalismo, mas a força do trabalhador assalariado que o fez ser exarado em leis e constituições.            
             Após a segunda guerra mundial, na segunda metade do século XX, as conquistas democráticas andaram juntas com o progresso social. A ONU e a UNESCO combateram os preconceitos étnicos e de classes; machismo e violência contra a mulher e procuram defender as culturas nacionais contra os interesses imperialistas. A par dos organismos internacionais notabilizaram-se lideres e pensadores mundiais a exemplo de Mahatma Gandhi que inspirou gerações de ativistas democráticos e anti-racistas, entre os quais Martin Luther King; Nelson Mandela e o Bispo Desmond Tutu na África do Sul; o papa João XXIII; o artista Charles Chaplin, e o dramaturgo alemão, Bertholt Brecht; os filósofos franceses, Jean-Paul Sartre e Simone Beauvoir.  Houve alteração na regulamentação do trabalho assalariado e acentuado progresso social. No mundo inteiro foram criados organismo e campanhas em defesa do meio ambiente. Merece lembrança a figura de Chico Mendes (1944-1988) na Amazônia, em sua luta contra a voracidade dos fazendeiros destruidores da natureza. A mando destes foi assassinado em 1988, mas tornou-se conhecido e reverenciado universalmente.
            Segundo o filósofo e historiador italiano Gianbattista Vico (1668-1744) a quebra do padrão cultural ou da racionalidade, em uma determinada sociedade redunda em prejuízo à civilização e uma volta à barbárie. Para ele, a Idade Média e a forma como foi colonizada a América Latina, foram voltas à barbárie. Isso se aplica no exame da forma como as potencias econômicas atuam em países como menor poder, mas dotados de enormes reservas naturais, como os países da América Latina, a partir do final do século XX.
            Recentemente um grupo de pesquisadores do Fundo Monetário Internacional FMI, composto pelos cientistas Jonathan Osttry, Prakash Lougani e David Furceri, faz racional e oportuna crítica ao Neoliberalismo. Para esse grupo, a desregulamentação excessiva vem causando crises no sistema econômico mundial, permitindo a invasão dos mercados regionais por investidores externos. Nas grandes cidades as redes de supermercado, serviços bancários, telecomunicações e grandes empreendimentos industriais são regidos por investidores externos. As remessas de lucros ao exterior são sangrias que deixam as economias regionais anêmicas. (ROSSI, 2016) As imposições do Neoliberalismo geraram a recessão que teve início em 2008.
As privatizações acabaram por provocar uma desorganização no quadro de trabalho, com perdas na quantidade de empregos e queda no valor das remunerações. Pequenos investidores foram substituídos por poucos e grandes acionistas. Aumento exorbitante da concentração de riquezas. A flexibilização das relações trabalhistas fez diminuir a renda das famílias e aumentar o tempo de trabalho. A migração de empresas para as regiões onde prevalecem relações mais favoráveis na produtividade, mão de obra e matéria prima de baixo custo; desqualificação e eliminação de trabalhadores impostas pelo avanço das tecnologias da informação na indústria e serviços provocam aumento na taxa de desemprego e diminuição da circulação monetária.
A luta pela posse de bens materiais e de valores monetários sempre foi muito violenta. A pirataria de assalto a navios foi praticada desde os gregos contra os fenícios até o século XVIII em que os piratas ingleses assaltavam navios espanhóis no Mar do Caribe, levando tesouros extraídos na América latina. Na atualidade, com a dificuldade de adquirir dinheiros por meios lícitos, associada à ganância dos grandes possuidores em aumentar infinitamente seus patrimônios, as ações violentas pela obtenção do dinheiro superam as leis e o ideal de civilização. As organizações clandestinas ligadas ao tráfico de droga e a bandidagem, de um modo geral, é o que se pode chamar de barbárie.
O que mais caracteriza uma barbárie é a manutenção de privilégios da classe dominante enquanto empobrece o restante da população. Recentemente foi divulgado um estudo do Instituto de Economia da Fundação Getúlio Vargas, revelando que em 2017, o Brasil promoveu à condição de milionários cerca de 7000 pessoas físicas. Os mais afortunados tiveram um crescimento na ordem de 11%, enquanto a população ativa, assalariada e autônoma teve uma queda em rendimento em 5%, o que redunda em 16% de diferença em um ano. Uma das primeiras consequências dessa disparidade foi a evasão escolar do ensino particular, por falta de condição de pagamento. Com o aumento dos preços dos planos de saúde, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar ANS, cerca de um milhão e trezentos mil brasileiros deixaram de ter plano de saúde em 2017.  
            A degradação é também na área cultural. Na análise do ensaísta norueguês Robert Kurz (1943-2012) na pós-modernidade a política perdeu o sentido e foi rebaixada a uma esfera secundária, subordinada à economia. A crítica social se refugia na cultura porque a produção cultural passou a ser essencialmente objeto de mercado. Os produtores de cultura submeteram-se ao capital na condição de servidores. Os mega eventos em logradouros públicos e estádio esportivo tornaram-se cada vez mais o lugar dos eventos em salas porque eles oportunizam permanentes consumos de produtos não artísticos, a exemplo da passagem de ano no Rio de Janeiro, carnaval na Bahia, Rock in Rio e outros grandes eventos. Tudo tem que dar lucro, aos promotores de evento, aos hoteleiros, aos serviços de transportes, produtores de alimentos, bebidas e drogas. Os artistas ficam com a menor parte. O resultado tem sido a destruição do conteúdo qualitativo da cultura. A arte tornou-se um produto efêmero que se perde ao ser usado. Tudo que é durável perdeu valor. A historiografia, o passado, os Museus, institutos históricos e geográficos, academias de letras, institutos de defesa do patrimônio histórico e entidades de estudos e defesa da cultura popular tradicional. O que não produz para o mercado morre. Até as religiões já usam a arte como marketing, a exemplo da música gospel e shows sertanejos nas festas religiosas. A subjetividade da arte cedeu lugar à objetividade do lucro.

Referências
KURZ, Robert.  Cultura degradada. Tradução de José Marcos Macedo. Folha de São Paulo, Suplemento “Mais”, São Paulo, 15 de março de 1998.

ROSSI, Clovis. Neoliberalismo em xeque. Folha de São Paulo, São Paulo, 02 jun. 2016.

Novo Atlas Mundial da Desertificação mostra pressão sem precedentes sobre os recursos naturais do planeta

O Atlas fornece a primeira avaliação abrangente e baseada em evidências sobre a degradação da terra em nível global e destaca a urgência de adotar medidas corretivas.
O texto foi publicado por Comissão Europeia e reproduzido por EcoDebate, 29-06-2018.

O Atlas fornece exemplos de como a atividade humana leva as espécies à extinção, ameaça a segurança alimentar, intensifica as mudanças climáticas e leva as pessoas a serem deslocadas de suas casas.
As principais conclusões mostram que o crescimento populacional e as mudanças nos nossos padrões de consumo exercem uma pressão sem precedentes sobre os recursos naturais do planeta:
* Mais de 75% da área terrestre do planeta já está degradada e mais de 90% pode ser degradada até 2050.
* Globalmente, uma área total de metade do tamanho da União Europeia (4,18 milhões de km²) é degradada anualmente, sendo a África e a Ásia as mais afetadas.
* Estima-se que o custo econômico da degradação do solo na UE seja da ordem de dezenas de bilhões de euros por ano.
* Estima-se que a degradação da terra e a mudança climática levarão a uma redução do rendimento global das culturas em cerca de 10% até 2050. A maior parte disso ocorrerá na Índia, na China e na África subsaariana, onde a degradação da terra poderia reduzir pela metade a produção agrícola.
* Como conseqüência do desmatamento acelerado, será mais difícil mitigar os efeitos da mudança climática.
* Até 2050, calcula-se que até 700 milhões de pessoas tenham sido deslocadas devido a questões ligadas a recursos terrestres escassos. O número pode chegar a 10 bilhões até o final deste século.
Embora a degradação da terra seja um problema global, ela ocorre localmente e requer soluções locais. Maior compromisso e cooperação mais efetiva em nível local são necessários para deter a degradação da terra e a perda de biodiversidade.
Outras expansões agrícolas, uma das principais causas da degradação da terra, poderiam ser limitadas pelo aumento da produtividade nas terras agrícolas existentes, passando-se para dietas baseadas em vegetais, consumindo proteínas animais de fontes sustentáveis e reduzindo a perda e o desperdício de alimentos.
O Atlas oferece uma visão clara das causas subjacentes da degradação em todo o mundo. Ele também contém um grande número de fatos, previsões e conjuntos de dados globais que podem ser usados para identificar processos biofísicos e socioeconômicos importantes que, sozinhos ou combinados, podem levar a um uso insustentável da terra e à degradação da terra.
Na UE, a desertificação afeta 8% do território, particularmente na Europa do Sul, Oriental e Central. Essas regiões – representando cerca de 14 milhões de hectares – mostram alta sensibilidade à desertificação. Treze Estados-Membros declararam-se afetados pela desertificação no âmbito da CNUCD: Bulgária, Croácia, Chipre, Grécia, Hungria, Itália, Letônia, Malta, Portugal, Romênia, Eslováquia, Eslovênia e Espanha. A UE está totalmente empenhada em proteger o solo e promover o uso sustentável do solo e tem em conta estes compromissos ao elaborar propostas sobre energia, agricultura, silvicultura, alterações climáticas, investigação e outras áreas.
Para mais informações acesse o Novo Atlas Mundial da Desertificação.
World Atlas of  Desertification

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/580423-novo-atlas-mundial-da-desertificacao-mostra-pressao-sem-precedentes-sobre-os-recursos-naturais-do-planeta)