segunda-feira, 20 de junho de 2016

Novo alerta sobre as bactérias “invencíveis”

Mutações genéticas podem tornar ineficazes até mesmo os antibióticos de “último recurso”. Por que o uso irresponsável destes medicamentos – inclusive para alimentação do gado – tem de ser proibido sem demora
Por Martin Khor | Tradução: Cauê Ameni


A resistência aos antibióticos – um processo em que eles perdem o efeito, porque as bactérias tornaram-se resistentes – está ganhando nova importância na agenda global, devido à crescente consciência da imensa ameaça que representam à saúde e à sobrevivência humanas. No entanto, ainda não há ações suficientes para enfrentar tal crise, que foi debatida no encontro dos ministros da Saúde na ONU, entre 23 e 28 de maio.
O encontro foi precedido por uma notícia recente e perturbadora. Cientistas descobriram um gene, o MCR-1, que cria resistência à colistina, um poderoso antibiótico usado como último recurso para tratar de infecções quando outros medicamentos não funcionam.
Ainda mais preocupante: o gene tem a característica de ser capaz de mover-se facilmente de uma cepa de bactérias a outras espécies. Isto produz uma ameça: muitas infecções podem tornar-se intratáveis, o que nos aproximaria do pesadelo de uma era sem antibióticos efetivos. A Malásia foi um dos primeiros países em que os cientistas encontraram o gene MCR-1. Por isso, é preciso tomar providências ainda mais sérias, inclusive a possível proibição do uso de colistina na alimentação animal.
O gene foi descoberto durante um estudo realizado na China. Em novembro de 2015, Yi-Yun Liu e seus colegas publicaram um artigo na revista The Lancet Infectious Diseases, em que revelaram ter encontrado o MCR-1 em 166 de 804 suínos em abate que haviam testado; em 78 de 523 amostras de carne de frango e de porco à venda no varejo; e em 16 de 1.322 pacientes hospitalares.
O estudo indica que há uma cadeia na disseminação da resistência. Ela começa a partir do uso de colistina na alimentação animal e propaga-se para os animais abatidos, os alimentos e os seres humanos.
Um dos autores, o professor Jian-Hua Liu, da Universidade de Agricultura do Sul da China, foi citado em matéria no The Guardian. Afirmou que os resultados eram extremamente preocupantes, por revelarem o surgimento do primeiro gene de resistência à polimixina, que é facilmente transmitida entre bactérias comuns, tais como E. coli e K. pneumonia.
Este resultado sugere que “a progressão da resistência extensiva a drogas — que se dá quando uma bactéria é resistente a diversos fármacos — para a resistência generalizada a drogas [pandrug resistence] é inevitável”, acrescentou Liu.
A colistina pertence a uma categoria de antibióticos conhecida como polimixinas. No passado, não eram utilizados largamente, por terem efeitos tóxicos. Mas, agora, são empregados como um último recurso, quando outros antibióticos não funcionam devido a resistência.
“Todos os principais elementos estão agora reunidos, para que um mundo sem antibióticos efetivos torne-se uma realidade”, disse outro co-autor do estudo, o professor Timonthy Walsh da Universidade de Cardiff, ao site da BBC News. Ele prossegue: “Se o MCR-1 tornar-se global — o que parece mais uma questão de quando que de se — e se o gene se alinhar com outros genes de resistência a antibióticos, o que será inevitável, teremos atingido, provavelmente, o início da era sem antibióticos. Neste ponto, se um paciente estiver gravemente doente — digamos que com E. coli –, não haverá nada que se possa fazer”.
Suspeita-se que a principal razão para o surgimento e a propagação do gene seja o descomedido uso de colistina para alimentar o gado e induzir seu crescimento. De acordo com o artigo de Liu e seus colegas, grande parte do uso mundial anual do antibiótico na alimentação animal — cerca de 12 mil toneladas — está concentrado na China.
O documento menciona que, além da China, o gene MCR-1 também foi encontrado na Malásia e Dinamarca. Cientistas malasianos chegaram ao sequenciamento do DNA da bactéria em dezembro de 2014, utilizando genes que parecem ao MCR-1. A possibilidade de que o E. coli com o gene MCR-1 tenha se espalhado pelo Sudeste Asiático é “profundamente preocupante”, disseram os autores.
Depois que o documento foi publicado, novas informações revelaram que o gene MCR-1 foi encontrado em amostras de bactérias em muitos outros países: Tailândia, Laos, Brasil, Egito, Itália, Espanha, Inglaterra, País de Gales, Holanda, Argélia, Portugal e Canadá.
O aspecto mais assustador sobre o MCR-1 é a facilidade com que pode propagar sua resistência a outras espécies de bactérias por meio de um processo conhecido como transferência horizontal de genes.
Alguns anos atrás, houve um susto semelhante sobre NDM-1, um gene capaz de saltar de uma bactéria para outras espécies, tornando-as altamente resistentes a todas as drogas conhecidas — exceto duas, entre elas colistina.
Se o MCR-1 resistente a colistina se combinasse com a NDM-1, a bactéria com os genes combinados seria resistente a quase todos os fármacos.
Em 2010, foram encontrados apenas dois tipos de bactérias com o gene NDM-1 – E. coli e Klebsiella pneumonia. Após alguns anos, o NDM-1 foi encontrado em mais de vinte espécies diferentes de bactéria.
A descoberta do NDM-1 e agora do MCR-1 acende o alerta vermelho para a tarefa de enfrentar a resistência anti-microbial.
Em 2012, a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde, Margaret Chan, alertou que todos os antibióticos já desenvolvidos estavam em risco de se tornarem inúteis. “Uma era sem antibióticos significa um ponto final na medicina moderna como a conhecemos. Doenças comuns como faringite estreptocócica ou um ferimento profundo no joelho de uma criança poderiam matar novamente”.
Uma ação imediatamente necessária a ser tomada é proibir o uso de colistina na alimentação do gado. A conceituada revista Lancet publicou um comentário em fevereiro de 2016, segundo o qual é preciso exigir das autoridades políticas a restrição ao uso de polimixinas (incluindo a colistina) na pecuária — ou estaremos diante de um número cada vez maior pacientes aos quais será preciso dizer: “Desculpe, mas não há nada que eu possa fazer para curar sua infecção”.
Outros antibióticos que são usados pelos seres humanos também deveriam ser proibidos ou rigidamente restritos para a pecuária, especialmente se são usados como indutores de crescimento.
Um Plano de Ação Global contra o risco do colapso dos antibióticos deve incluir cinco objetivos: usar medicamentos apropriados na saúde humana e animal; reduzir as infecções por meio de medidas de saneamento, higiene e prevenção; reforçar a vigilância e estimular as pesquisas; educar o público tão bem quanto os médicos, veterinários e fazendeiros, sobre o uso adequado de antibióticos; e aumentar o investimento no desenvolvimento da novos remédios, ferramentas de diagnósticos e vacinas.

(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/novo-alerta-sobre-as-bacterias-invenciveis/)

Massacre de Orlando: o mundo avançou, mas continua maluco

Texto escrito por José de Souza Castro:

O mundo em geral e o Brasil em particular avançaram muito desde 1973 em muitos aspectos, apesar de recuos recentes, como mostramos aqui, ou não tão recentes, como os longos anos da última ditadura militar que alguns malucos ou mal informados gostariam de ter de volta em nosso país.
O avanço que mais se destaca, no momento, foi provocado pela última tragédia norte-americana, na madrugada de domingo passado, quando um atirador matou 49 pessoas em Orlando, na Flórida, dentro uma boate gay, a Pulse.
Em tempo: o avanço não é o massacre, mas a reação do mundo a ele. Tão ágil quanto o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, o presidente brasileiro em exercício, Michel Temer, no próprio domingo, se manifestou deste modo: “Quero lamentar enormemente a tragédia nos Estados Unidos que vitimou dezenas de norte-americanos. Expresso a solidariedade brasileira às famílias das vítimas desse atentado”. Ele não fez qualquer referência à preferência sexual das vítimas.
Bem diferente do que se viu, em 1973, quando o UpStairs Lounge, bar frequentado por gays, foi atacado por um incendiário em New Orleans, e os políticos e as próprias famílias das vítimas preferiram se calar a respeito.
É o que lembra Liam Stack, do “New York Times”, em artigo publicado na terça-feira e republicado no dia seguinte pela “Folha de S.Paulo”, traduzido por Clara Allain.
Nessa tragédia quase esquecida, não morreram tantas pessoas. Mas quando bombeiros extinguiram o incêndio, encontraram uma pilha de corpos carbonizados. Algumas das pessoas estavam abraçadas. Outras, pressionadas contra as janelas, entre elas o pastor Bill Larson, da igreja Metropolitan Community, que apoiava a comunidade LGBT e acompanhava um grupo de fiéis no UpStairs Lounge, depois do serviço religioso.
A mãe do pastor se recusou a buscar as cinzas dele, “porque ficou envergonhada demais por ter um filho gay”, disse Robert L. Camina, o diretor de um documentário sobre o incêndio. Segundo ele, esse foi apenas um exemplo: “Três outras pessoas nunca chegaram a ser identificadas. Por quê? Alguém deve ter dado pela falta delas.” Conforme o documentarista, o pastor foi um dos muitos que morreram no lugar sem nunca terem revelado sua homossexualidade às famílias.
Não se falava, então, em orgulho gay. As vítimas, abandonadas pelas famílias, foram sepultadas dentro de um saco em túmulos não identificados, num cemitério de indigentes. O prefeito de New Orleans, Moon Landrieu, não cancelou suas férias por causa da tragédia. Quarenta anos mais tarde, a situação era outra: um filho dele, Mitch Landrieu, declarou um dia de luto público pelas vítimas do incêndio no aniversário da matança. A reportagem do “The New York Times” pode ser lida AQUI  ou na tradução AQUI.
O prefeito Mitch sabia, em 2013, que tratar com o respeito devido aos gays rende votos. Como sabem os senadores brasileiros que aprovaram na terça-feira um voto de solidariedade ao povo norte-americano e à comunidade LGBT pelo atentado ocorrido na boate gay em Orlando.
A tragédia em Orlando tem consequências. Uma delas, o reforço ao ataque contra o Estado Islâmico (EI) por causa da perseguição aos gays. Diz a BBC Brasil que, “apenas entre janeiro e julho de 2015, o EI diz ter matado 23 gays em áreas controladas pelo grupo na Síria e no Iraque. Mas ativistas dizem que o número pode ser mais alto.”
Ao longo da história, os gays quase sempre foram perseguidos por motivos religiosos e morais. E muitos ainda os tratam como caso de polícia ou médico/psiquiatra. Não por acaso, em abril do ano passado, um deputado federal, o pastor Marco Feliciano, da Assembleia de Deus, que se diz ex-gay, começou uma campanha em favor da chamada “cura gay”.
Felizmente, aos poucos isso vai caindo no ridículo. Se tivesse nascido hoje e não em 1854, o autor de “O Retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde, não seria condenado a dois anos de prisão com trabalho forçado por sua homossexualidade.

Outra possível consequência do massacre de Orlando seria o acirramento do debate, nos Estados Unidos, sobre a venda de armas. A primeira reação, porém, é desanimadora: “O balcão da loja de armas Oak Ridge, em Orlando, na Flórida, estava cheio na manhã desta terça”, constatou o enviado especial da “Folha de S.Paulo”, Marcelo Ninio.
Ou seja, o mundo avançou muito desde 1973, mas continua maluco.
(fonte: https://kikacastro.com.br/2016/06/16/massacre-orlando/#more-12684)

sábado, 18 de junho de 2016

EUA: o ódio que o FBI não enxerga

Estado vigia obsessivamente os muçulmanos. Mas faz vistas grossas a centenas de grupos que pregam ou praticam violência contra minorias. Por isso, Mateen, que matou 49, pôde agir com liberdade

Por Reginaldo Nasser

Dias após a tragédia em Orlando, continuam as investigações policiais na esperança de que possa surgir algum detalhe esclarecedor sobre os motivos que levaram Omar Mateen a cometer massacre na boate LGBT. Sabe-se que Mateen esteve sob vigilância do FBI, em 2013, por ter feito comentários “suspeitos”, após ser “ridicularizado” por sua origem muçulmana. De acordo com as autoridades do FBI, Mateen manifestou simpatia em relação a grupos terroristas, mas a suspeita foi descartada depois que o FBI concluiu que não representava uma ameaça, já que não havia nenhum laço concreto com grupos islâmicos.

Creio que essa ação do FBI é muito significativa. Colocou alguém na lista de suspeitos de ligação com o terrorismo, por ser um islâmico que se manifestou de “forma radical”, mas concluiu que não era ameaça por não ter relação com grupos terroristas islâmicos no exterior. Provavelmente o FBI nem registrou o caso de Mateen que, como milhares de pessoas, manifestam de alguma forma o ódio contra grupos LGBT, nem muito menos seu histórico de violência contra sua ex-mulher. Para o FBI, isso não se constituiu uma ameaça à sociedade!

Nos últimos anos, o governo dos EUA destinou milhões de dólares para programas de combate ao que considera “extremismo violento”, cujo objetivo é identificar e/ou impedir indivíduos que são propensos a cometer violência. Estes programas têm sido severamente criticados por especialistas, na medida em que enfatizam ideologias e crenças, e não incorporam outros indicadores como o comportamento em relação a parceiros íntimos e familiares (ver artigo do The Intercept Was Orlando shooters domestic violence history a missed warning sign?).

Pesquisa realizada pela organização Everytown for Gun Safety, em 2015, constatou que mais de 25% de todos os massacres ocorridos nos últimos seis anos, foram perpetrados por indivíduos com algum histórico de violência doméstica.

Essas questões obrigam-nos a olhar com mais atenção para o conceito de violência. Para o pensador norueguês Joan Galtung, a violência visível (física) é apenas a ponta do iceberg, pois esta intimamente relacionada a situações de violência estrutural e/ou justificadas pela violência cultural. A violência estrutural se refere àquelas situações em que se produz algum tipo de restrição na satisfação das necessidades humanas básicas (bem estar social e econômico, identidade ou liberdade) como resultado de processos de estratificação social. Ocorre sempre que há conflito entre dois ou mais grupos sociais (gênero, etnia, classe, nacionalidade) em que o acesso ou possibilidade de uso dos recursos resulta favoravelmente a alguma das partes em detrimentos dos demais. Já a violência cultural se expressa por meios simbólicos (religião, ideologia, linguagem, arte, ciência, mídia, educação, etc.), e tem como função legitimar a violência direta e/ou estrutural, e oferece justificativas para que os seres humanos, além de se destruírem mutuamente, ainda sejam recompensados por isso (racismo, sexismo, xenofobia etc).

Vejamos, por exemplo, como tem se manifestado a violência cultural nos EUA. A organização Southern Poverty Law Center (SPLC) monitora, desde 1981, o que considera como grupos de ódio nos EUA — isso é, aqueles que “… têm crenças ou práticas que atacam ou difamam um grupo de pessoas, devido às suas características. Suas atividades incluem marchas, comícios, discursos, reuniões, panfletagem ou publicação”. Ou seja, agem estritamente dentro da lei, pois exercem direitos protegidos pela primeira Emenda da Constituição dos EUA (“o Congresso não fará nenhuma lei a respeito do estabelecimento de uma religião, ou proibindo o livre exercício dela; ou cerceando a liberdade de expressão ou de imprensa; ou o direito do povo se reunir pacificamente e dirigir petições ao governo para a reparação de injustiças”).

De acordo com pesquisa realizada pelo SPLC, em 2015, são 982 os grupos de ódio ativos nos EUA, não incluindo aqueles que estão apenas no ciberespaço. Trata-se de grupos extremamente diversificados como Ku Klux Klan, White Nationalist, Racist Skinhead, Christian Identity, Neo-Confederate, Black Separatist end General Hate. Para além de suas particularidades, todos esses grupos manifestam, de alguma forma, ideologias de ódio, incluindo as subcategorias anti-LGBT, anti-imigrantes, islamofobicos, negação do Holocausto e outros. Trata-se, sem duvida nenhuma, de um ambiente social com níveis exacerbados de violência cultural.

É provável que ainda sejam adicionadas novas informações sobre as possíveis motivações do massacre, mas um fato é incontestável e não precisa esperar pelos resultados de uma investigação completa: trata-se do maior massacre na história dos EUA que teve como alvo a comunidade LGBT.

Apesar disso, políticos do Partido Republicano, em sua grande maioria, têm se recusado a mencionar a comunidade LGBT pelo nome. Trata-se de um ensurdecedor silencio de cumplicidade com o ódio que viceja nessa sociedade e que conta com a proteção de uma constituição que é alardeada no mundo inteiro como a mais democrática do mundo. Se é isso então devemos concluir que há algo de podre no reino da democracia.

(fonte: http://www.outraspalavras.net/reginaldonasser/2016/06/16/eua-o-odio-que-o-fbi-nao-enxerga/)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Não se blinda Aécio Neves como antigamente

Texto escrito por José de Souza Castro:

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) está às voltas com delações premiadas há algum tempo. O destaque dado pela imprensa à citação de seu nome pelo ex-senador Delcídio do Amaral (PT-MS), em março deste ano, e agora pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, indicado para o cargo pelo PMDB, não é proporcional à importância do ex-governador e senador de Minas, candidato tucano à presidência da República em 2014 e atual presidente do seu partido.
Por causa desse quase descaso, a imprensa tem sido acusada de blindar Aécio Neves. Se verdadeira a suspeita, está ficando cada vez mais difícil manter a blindagem.
Não era assim em 2010, quando chegou à Procuradoria Geral da República um inquérito contra Aécio Neves, acusado de ter conta no paraíso fiscal de Liechtenstein em nome de uma offshore. Passaram-se cinco anos e, em dezembro último, a denúncia dormia numa gaveta da PGR, sem que tão prolongado sono causasse estranheza a ninguém.
Dinheiro de político em offshore só começou a preocupar o atual Procurador Geral da República quando se viu obrigado a apresentar ao Supremo Tribunal Federal denúncia contra Eduardo Cunha. Nesse momento, Rodrigo Janot já admitia que o uso de offshores visa esconder a verdadeira identidade dos titulares da conta, mantida, possivelmente, por dinheiro de procedência duvidosa.

Não é justo dizer que a imprensa sempre blindou o neto de Tancredo Neves. O caso do aeroporto de Cláudio, construído em terras desapropriadas pelo governo de Minas que pagou generosamente a um tio de Aécio e cuja chave era mantida em mãos de parente, foi divulgado – e não só pelos blogs “sujos”, como são chamados os que não rezam pela mesma cartilha da grande imprensa empresarial brasileira que faz oposição ao PT, a Lula e a Dilma.
Uma imprensa que teve inegável sucesso ao promover o impeachment da presidente Dilma Rousseff, depois de impedir que Luiz Inácio Lula da Silva assumisse o Ministério da Casa Civil, ajudada por um providencial vazamento de telefonema entre os dois, autorizado – o vazamento, não a escuta telefônica da Polícia Federal, no momento em que ela foi realizada – pelo juiz Sérgio Moro, da Lava Jato.
Vazamento recebido com euforia pela imprensa e pelo ministro Gilmar Mendes, do STF, que se apressou a conceder liminar suspendendo a posse de Lula no ministério. Alegava-se que a nomeação era uma tentativa de blindar Lula, retirando-o da alçada de Sérgio Moro.

Estávamos em meados de março deste ano. Aécio foi um dos muitos que se aproveitaram desse vazamento, para reforçar sua oposição à adversária vitoriosa no segundo turno das eleições de 2014. Nessa reportagem de um jornal do Grupo Globo, o que mais se destaca na imprensa como oposição a Dilma, o presidente nacional do PSDB declarou, no dia 15 de março, que a presidente Dilma Rousseff “abdicou” de forma definitiva ao seu mandato, ao nomear o ex-presidente Lula como ministro da Casa Civil. Em nota, Aécio classificou de “absolutamente condenável” a nomeação de Lula e disse que isso, na área econômica, pode levar ao “populismo e à irresponsabilidade fiscal”.
O que nunca deve ter passado pela cabeça de Aécio é que outro vazamento lhe traria tanto constrangimento – e aos seus muitos amigos jornalistas. Refiro-me ao vazamento do depoimento de Sérgio Machado à Lava Jato, em troca de redução da própria pena.
Agora, todos correm a dizer o correto: as declarações de investigados na operação Lava Jato (que ultrapassaram em muito o âmbito das roubalheiras praticadas por petistas) não se constituem em verdade por si só. Elas devem ser investigadas e confirmadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público antes que sejam usadas para a condenação dos suspeitos. Pela Justiça e pela opinião pública.

O uso do cachimbo, porém, faz a boca torta. E a divulgação do depoimento de Sérgio Machado, mesmo sem a tal investigação e confirmação, provocou ontem mais uma baixa no governo Temer: a do ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, acusado pelo ex-presidente da Transpetro, em delação premiada divulgada nesta quarta-feira, dia 15. Sérgio Machado afirmou que repassou ao ministro R$ 1,55 milhão em propina, entre 2008 e 2014.
Encerro transcrevendo trecho de um artigo de Glenn Greenwald, jornalista respeitado internacionalmente, em seu blog (Intercept):
“Mas os efeitos da notícia bombástica de ontem foram muito além de Temer, envolvendo inúmeros outros políticos que estiveram liderando a luta pelo impeachment contra Dilma. Talvez o mais significante seja Aécio Neves, o candidato de centro-direita do PSDB derrotado por Dilma em 2014 e quem, como Senador, é um dos líderes entre os defensores do impeachment. Machado alegou que Aécio – que também já havia estado envolvido em escândalos de corrupção – recebeu e controlou R$ 1 milhão em doações ilegais de campanha. Descrever Aécio como figura central para a visão política dos manifestantes é subestimar sua importância. Por cerca de um ano, eles popularizaram a frase “Não é minha culpa: eu votei no Aécio”; chegaram a fazer camisetas e adesivos que orgulhosamente proclamavam isso:

Evidências de corrupção generalizada entre a classe política brasileira – não só no PT mas muito além dele – continuam a surgir, agora envolvendo aqueles que antidemocraticamente tomaram o poder em nome do combate a ela. Mas desde o impeachment de Dilma, o movimento de protestos desapareceu. Por alguma razão, o pessoal do “Vem Pra Rua” não está mais nas ruas exigindo o impeachment de Temer, ou a remoção de Aécio, ou a prisão de Jucá. Porque será? Para onde eles foram?”
Pois é, para onde foram? Não sou só eu que me pergunto isso:
Charge do Duke
Charge do Duke

(fonte: https://kikacastro.com.br/2016/06/17/nao-se-blinda-aecio-neves/#more-12690)

Momento humor... sim, ainda é possivel!

fonte: http://www.viomundo.com.br/humor/benett-espera-so.html


 fonte: http://altamiroborges.blogspot.com.br/2016/06/republica-de-temer-e-guerra-mundial.html

fonte: http://altamiroborges.blogspot.com.br/2016/06/quem-nao-cabe-no-orcamento-do-brasil.html

Saída ou beco constitucional?

Palavras de quem entende!

por Wanderley Guilherme dos Santos, em seu blog, 
13 de junho de 2016

À impossibilidade de Dilma Rousseff retomar relações com uma Câmara cuja demencial maioria só faltou chamá-la de rameira, porque de ladra o foi, juntou-se o desastre de Michel Temer e seus larápios confederados, de Roraima ao Rio Grande Sul, sob a coordenação de um escroque do Rio de Janeiro.
O precário ajuntamento de Michel Temer não obterá apoio ativo da sociedade, só repulsa; Dilma Rousseff, se reinstalada, sequer cumprimentará as 367 vossas excelências sem compostura da Câmara dos Deputados, que continuarão a sabotar seu governo.
O nó produzido pela ambição e irresponsabilidade da coalizão do mal, PMDB&PSDB, não é solúvel nos artigos constitucionais vigentes.
Salvo engano, a crise de usurpação só terá fim quando inventarem uma interpretação jeitosa que, embora nua, cubra a ilegalidade do acordo.
Quem conseguirá e como o fará são interrogações que ultrapassam minha imaginação. Só estou seguro de que não há solução constitucionalmente imaculada para tamanho desarranjo político.
Desconheço a extensão da ferida aberta no envelope protetor de nossa democracia e da overdose de insegurança inoculada na população.
Certo é que, contestando futura vitória eleitoral do mais humilde prefeito, há de surgir um Aécio qualquer reivindicando seu impedimento, com a cumplicidade de conivente maioria de vereadores, do judiciário local, e a colaboração do pasquim da cidade.
O acerto de agora não apressará a cicatrização da ferida. Só a continuidade das eleições apagará a suspeita de que o compromisso democrático é um logro.
A ideia em circulação de que Dilma Rousseff convoque plebiscito tem endereço errado. Artigo 49 da Constituição: “é da competência exclusiva do Congresso Nacional, inciso XV: autorizar referendo e convocar plebiscito”.
A esta altura, beira a ingenuidade imaginar esta Câmara e este Senado revogando o que aprovaram ontem.
Espreita as duas Casas a confirmação de que os legisladores não desmoralizaram a presidenta, mas o próprio mandato.
E quanto tempo do governo reinstalado tomará o debate entre os a favor e os contra a convocação?
Sim, embora pouco provável, não é impossível que movimentos de rua alterem a disposição do Congresso.
Mas é ainda obscura a alternativa a ser proposta, além do rumor: convocar ou não nova eleição presidencial?
Se milagrosamente vitoriosa a tese da convocação, o governo trabalharia pela tese de novas eleições, mas, não sendo ”já”, quando seriam?
Não antes de 2017, certamente.
Está aí o Tribunal Superior Eleitoral, presidido por Gilmar Mendes, para procrastinar a eleição, enquanto se esgoelam as campanhas de três candidaturas, no mínimo, além da de Mariana Silva.
Sendo tolo o governo gastar capital na convocação de novas eleições para perdê-las, ninguém reclame quando administrar a coisa pública, que é bom, ficar para as horas vagas.
Estão abusando da disposição democrática da população.
Longe de exercer advocacia do diabo, pergunto se realmente acreditam que este caminho domará a exasperação direitista, satisfará os inconformados e normalizará a rotina da administração pública. Tenho dúvidas.

(fonte: http://www.viomundo.com.br/politica/wanderley-guilherme-o-desarranjo-politico-produzido-peloa-pmdbpsdb-nao-tem-saida-constitucional-limpa.html)

quarta-feira, 15 de junho de 2016

A República de Weimar, Trump e o desencanto com as democracias



Nós alemães nunca poderemos nos liberar do trauma de nossa história recente. E isso não poderia ser mais atual, tomando em conta o estado do nosso continente e o que acontece do outro lado do Atlântico. Há muitas diferenças entre o que sucedeu aqui nos Anos 30 do século passado e o que sucede agora.

Está claro que presidenciável estadunidense Donald Trump e o líder extremista austríaco Norbert Hofer não são Adolf Hitler.

Apesar disso, a forma na qual a Alemanha enveredou, naqueles anos entre guerras, rumo a um estilo peculiar de autoritarismo, mostra como as democracias liberais podem girar, de repente, na direção de posições totalmente contrárias ao liberalismo.

Deixando de lado o já conhecido debate sobre a ascensão do nazismo como um fenômeno que os alemães já levavam marcado em sua idiossincrasia, é possível identificar quatro fatores que fizeram o país a rechaçar a República de Weimar, a democracia parlamentarista e constitucional posterior ao Tratado de Versalhes e à I Guerra Mundial: crise econômica, perda de confiança nas instituições, uma sensação de humilhação na sociedade e uma série de erros políticos.

De certo modo, tudo isso está presente nas atuais democracias ocidentais.

O colapso da bolsa em 1929, conhecido como Black Friday, produziu uma depressão econômica global. As coisas iam mal nos Estados Unidos, mas na Alemanha estavam pior. A produção industrial caiu pela metade em três anos, a bolsa perdeu dois terços do seu valor, a inflação e o desemprego subiram até as nuvens e o governo de Weimar, que já não contava com a aprovação dos alemães, parecia não oferecer uma alternativa.

Tudo isso sucedeu enquanto os valores e tradições mudavam, fruto da modernização produzida nos Anos 20. As mulheres começaram a trabalhar, a estudar, a votar e a dormir com quem quisessem.

Isso aumentou a brecha cultural entre os trabalhadores e a classe média mais conservadora, e despertou uma vanguarda cosmopolita na política, economia e nas artes, que chegou ao seu ponto máximo no momento do desastre econômico. A população culpou as elites pelo caos provocado, e as massas clamaram por uma mão de ferro que pudesse voltar a impor a ordem.

Há quem acredite que Hitler foi somente um oportunista, que quase ninguém compreendia a ameaça que ele significava. Aliás, muitos políticos de partidos tradicionais reconheceram que era um perigo, mas supostamente não souberam como detê-lo.

Alguns não queriam fazê-lo: os conservadores e a nobreza pensaram que podia ser seu inocente útil e que, como chanceler, estaria limitado pelos ministros mais sensatos. Franz von Papen, um nobre que se ofereceu para ser seu assistente mais direto, chegou a dizer, em tom de deboche: “nós já o contratamos”.

Ao mesmo tempo, nem mesmo o risco iminente de uma ditadura fascista foi capaz de convencer a esquerda da necessidade de unidade. Em vez de buscar a conciliação para defender o interesse nacional, Ernst Thälmann, líder do partido comunista da Alemanha naquela época, chamou os social-democratas de “a ala moderada do fascismo”. Fica claro porque não foi difícil para Hitler unir os amplos setores da sociedade alemã em torno ao seu projeto.

Estamos num momento similar ao da República de Weimar?

A crise econômica de 2008 e a recessão global que ela produziu não foram, nem de perto, tão dolorosas como a depressão daquela época. Porém, suas consequências são sim similares.

O crescimento econômico, no começo deste século, permitiu que estadunidenses e europeus acreditassem de tal forma na fortaleza de suas economias que levou também a uma gigantesca desilusão: a crise dos bancos, a bolha do mercado imobiliário e a ação dos governos deixara milhões de pessoas furiosas, pensavam que as instituições, e sobretudo os políticos que manejaram a situação, os traíram.

Os eleitores se perguntaram porque os governos permitiram que os banqueiros se comportassem como criminosos. Também se perguntaram porque salvaram os bancos em vez de resgatar as fábricas de automóveis. Questionaram o que levou os governantes a aceitar a chegada de milhões de imigrantes. A grande pergunta é se existe uma legislação diferente para a elite, regida por uma cosmovisão hipermoderna e liberal, e que olha para a classe trabalhadora com desdém, desprezando seus valores e qualificando-a como um conglomerado de pessoas sem capacidades.

Nos Estados Unidos e na Europa, a ascensão de movimentos políticos de ruptura é um sintoma de mudança cultural que se enfrenta com a pós-modernidade globalizada – assim como, no período entre guerras, houve um sentimento de rechaço à modernidade.

A acusação mais comum das massas é que a democracia liberal foi longe demais, que se tornou uma ideologia, que só serve para a elite, e os demais pagam o pato. Marine Le Pen, líder da Frente Nacional (a extrema-direita da França), usa o termo les invisibles et les oubliés (os invisíveis e os esquecidos) para se referir ao cidadão comum de classe média ou baixa.

Claro que não estamos em 1933. Agora, as instituições democráticas são muito mais sólidas e estáveis. Mas o poder da nostalgia não depende da época. Por isso, e apesar das diferenças, vivemos um momento similar nas democracias ocidentais.

É fácil dizer que as pessoas devem aceitar a realidade e se esforçar para conseguir reformas práticas, mas os partidos tradicionais não fizeram nem mesmo isso – ao menos não de uma forma convincente. Preferem o enfrentamento entre si, e isso permite que a ascensão de líderes demagogos seja vista como uma solução e não como um problema.

Trump não é Hitler, mas isso não é o que importa. Hoje, assim como no período entre guerras, vemos que o liberalismo não é capaz de dar respostas aos problemas que a sociedade aponta.

Nem sequer aos que questionam sua própria existência.

* Jochen Bittner é editor do semanário alemão Die Zeit.

Tradução: Victor Farinelli