sábado, 6 de agosto de 2016

O dia em que Macri tentou prender Hebe de Bonafini


Líder das “Mães da Praça de Maio”, símbolo da luta contra ditadura, ela resistiu, aos 87 anos. Uma multidão surgiu para apoiá-la. Governo parece recuar. Semelhanças com o Brasil?
Por Nora Vieras, no Pagina12 | Tradução: Antonio Martins

Não fiquemos tristes, aflitos, calados ou quietos. A mobilização dos povos é o que liberta. As Madres seguiremos nesta posição irredutível, para que não continuem avançando sobre nós. Já fizeram demais, em sete meses. Macri, pára!” Eram pouco mais de seis da tarde [de quinta-feira, 4/8] quando Hebe de Bonafini falou pela segunda vez no dia a uma multidão que a abraçava. Nas primeiras horas da manhã, o advogado da Associação Mães da Plaza de Maio havia apresentado em documento diante do juiz Marcelo Martínez de Giorgi, antecipando que Hebe não se apresentaria à segunda convocação para depor, relacionada à organização Sonhos Compartidos (conheça o caso). Um aparato policial, inédito para executar a ordem de detenção de uma mulher de 87 anos, deslocou-se então para a Plaza de Mayo, na mesma hora em que, desde 1999, as Madres saem para sua ronda histórica. Não puderam cumprir a missão e a notícia começou a se difundir pelo mundo, ao ritmo de centenas de pessoas que confluíam à praça e em seguida, em caminhada, de volta à casa das Madres, a duas quadras do Congresso.

Nos cercaram de policiais, atravessaram um carro na frente da van das Madres, mas saímos por cima. Demos um drible”, contou Hebe, um pouco depois, ao jornalista Víctor Hugo Morales.

Fizeram uma jogada de Maradona”, respondeu ele.

Sim, e o povo completou para o gol”, concluiu Hebe.

Estupor”, “desgosto”, “barbaridade” eram as palavras repetidas por todos. Chegaram as mulheres que lutam nas ruas há quarenta anos e o ânimo mudou. “Com Hebe não se mexe”, “Madres de la Plaza / el pueblo las abraza”, começou o coro. As Madres saudavam: “sempre igual, na luta, vivas”.

Um símbolo

As pessoas foram chegando, espontaneamente. “Estava no trabalho, fui alertado por um whatsapp e estou aqui. Isto é um ensaio. Estão testando até onde podem chegar, o nível de reação que temos”, repetia Fabian, 47 anos, assalariado. Alguns passos adiante, Andrés Eraso havia comparecido com sua câmera, para registrar um destes dias que não poderia esquecer. “Onde eu possa levar meu corpinho estou, trato de acompanhar. Esta gente não sabe o que fazer deste país. Em sete meses, geraram uma trapalhada fenomenal, que não sabem como consertar”.

Amanhã, não se esqueçam de ler Clarín e La Nación [jornais da velha mídia argentina, que apoiam o governo Macri], para ver o que ocorreu”, ironizava um fotógrafo, surpreendido por uma multidão que foi se formando por quadras. “Pela Avenida de Mayo, quando as Madres voltavam da Plaza, foram saudadas por chuva de papéis picados”, contava. “É doloroso, mas estar juntos é a forma de recarregar as baterias”, sintetizava outra senhora.

As Madres chegaram, precedidas por uma guarda improvisada de motoqueiros. Desceram da van e abriram caminho como puderam, até chegar à cozinha de sua casa. O lugar em que se encontram diariamente. “Alguns creem que isso é o Kremlin. E a primeira coisa que dizemos todos os dias é que viemos comer. Pedimos alguma coisa e depois morremos de rir, porque não lembramos do que pediu cada uma”, contaria Hebe mais tarde, desdramatizando o dia em que pela primeira vez quase a encarceraram em “democracia”.
Dirigentes de movimentos sociais e apoiadores do kirchnerismo foram chegando. Na última hora, depois de falar por telefone, chegou Máximo Kirchner, [filho dos ex-presidentes Nestor e Cristiina]. “Resgato a dignidade de Hebe e das Madres. Sempre estão dispostas a envolver-se com o próprio corpo. Foi assim na ditadura; em 2001, quando a polícia atacou-as com cavalos e também agora”, disse o deputado.

A única luta que se perde é aquela a que se renuncia. Este ataque não é apenas contra Hebe. Começou com Milagro Sala [líder popular e cooperativista, hoje presa]. Seguiu com a perseguição midiática e judicial a Cristina Kirchner. Hoje é Hebe; amanhã, todos os militantes populares”, disse o advogado Oscar Parrilli. Andrés Larroque, [dirigente da Cámpora, a ala esquerda do kirchnerismo], destacou que “o povo esteve à altura das circunstâncias e inundou as ruas”. O deputado Martín Sabatella destacou: “Hebe é um monumento à dignidade. Se a tocam, e a Cristina, nos tocam a todos”. Daniel Catalano, secretário da associação dos servidores públicos alertou a ministra da Segurança, Patricia Bullrich “para que saiba que há um povo decidido a resistir, por mais que ela queira cumprir as ordens de Washington”. O economista Axel Kicillof destacou “a vergonha internacional que a tentativa de deter Hebe provoca. A notícia hoje é que os lutadores populares são perseguidos, enquanto se procura libertar os repressores. Este projeto só pode ser imposto com a repressão dos que lutam. O ativista Luis d’Elia, principal referência da Federação da Terra, Moradia e Habitat, previu que “o Judiciário e a mídia não poderão frear a luta popular”. Jorge Ferraresi, prefeito do distrito de Avellaneda, adverteu: “vamos combater. As Madres não tiveram medo d[o ditador Jorge] Videla. Vão temer Macri?”

Hebe fechou o ato improvisado na porta da casa das Madres, confessando sua felicidade pela “mobilização do povo”. Todos juntos cantaram o hino argentino. E as Madres voltaram à intimidade de sua cozinha.

(fonte: http://outraspalavras.net/mundo/america-latina/o-dia-em-que-macri-tentou-prender-hebe-de-bonafini/)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Sobre a natureza do fanatismo


Por Jaime Pinsky – historiador, professor titular da Unicamp, diretor da Editora Contexto, autor de Faces do fanatismo, entre outros livros.

A verdade do fanático religioso foi determinada por deus, o seu deus, por meio da revelação. Não se trata de uma grande verdade a que se chega após uma longa trajetória racional, nem de uma pequena verdade, fruto de um achado, um palpite, uma opinião. Trata-se da Verdade (assim, com V maiúsculo), e como tal, não é passível de discussão. Afinal, como simples mortais poderiam questionar verdades com origem divina?

O detentor da verdade religiosa não apenas acredita nela com toda intensidade, como acha que deve impô-la aos outros, aos incréus, aos céticos. No limite, impor uma verdade é uma obrigação do crente, já que ele estará salvando aquele que não acreditava e passa a crer. Ou, se o outro não tiver salvação, punindo-o. Obrigar o outro a acreditar em sua verdade não lhe parece uma atitude autoritária, mas uma obrigação moral. Mesmo que o outro não tenha vontade de receber a sua verdade. Mesmo que seja necessário matar o outro para que não peque mais.

Crimes em nome da religião, de religiões, ocupam muito espaço na história. O próprio mundo ocidental e cristão, que hoje é vítima de fanáticos islâmicos,  não tem muitos motivos para se orgulhar das Cruzadas (que sob o pretexto de salvar a Terra Santa dos infiéis matava toda espécie de vida que passava à frente de suas tropas), ou da Inquisição (que em nome da fé mandou para a fogueira um sem número de praticantes de outras crenças, além de dificultar o crescimento das forças produtivas na Espanha e em Portugal).

Alguém poderá argumentar, com aparente razão, que o fanatismo racista de Hitler, ou o fanatismo ideológico de Stalin também provocaram milhões de sacrifícios humanos. Vejo, contudo, muito do fanatismo religioso entre os seguidores desses lideres, que os tinham como verdadeiros deuses. A verdade dos nazistas era dogmática, não racional. Do contrário, como entender que um povo tão evoluído culturalmente como o alemão pudesse ter aceitado nas ideias nazistas que ensinavam que o mais idiota dos loiros de olhos azuis, só por ser ariano (seja lá o que isto possa significar) era de uma “raça” superior a, por exemplo, Albert Einstein, um judeu? O mesmo pode-se dizer dos seguidores de Stalin, que duvidaram durante décadas da imensidão dos seus crimes em nome de um socialismo altamente discutível.

Negar a existência de fanáticos religiosos dentre os autodenominados soldados de Alá é ingênuo. Lá estão eles, matando de forma indiscriminada e contando com uma vida futura plena de alegria para si. Não fosse o seu fanatismo não matariam e morreriam em nome de uma suposta verdade indiscutível: a deles.

Contudo, há um outro tipo social que tem participado dos atentados terroristas perpetrados particularmente na França. Podemos observar que fazem parte da tropa de choque dos agrupamentos de fanáticos de inspiração islâmica grupos ressentidos com o ocidente, não tanto por negarem valores desse mesmo ocidente (apesar de seu discurso nessa direção), mas por não terem tanto acesso quanto gostariam aos produtos e serviços que os cidadãos dos países mais desenvolvidos usufruem. Quando afirmam não serem bem aceitos em sociedades como a francesa não estão clamando pela filosofia de Descartes, poemas de Baudelaire, ou peças de Molière, mas por roupas de grife, automóveis modernos e celulares do ano. “Se não me dão vida boa, também eles não terão vida boa”, parece ser o seu lema. Antigamente a presença de árabes e islâmicos na cultura francesa era importante, mas parece que isto já não ocorre mais e não se pode atribuir apenas à xenofobia essa dificuldade. A tão propalada incorporação dos imigrantes mais recentes à cultura francesa tem se resumido, na maioria dos casos, ao esforço para mudar de patamar de consumo, de preferencia mantendo algumas características do grupo como a discriminação das mulheres. Os que não conseguem se tornar bons consumidores se tornam fortes candidatos a terroristas.

É importante lembrar que desde o começo Hitler foi bastante apoiado pela camada “lumpen” da população alemã, marginalizados, desempregados, desajustados, ressentidos. Gente que saiu batendo em adversários políticos, pichando vitrines de lojas, incendiando templos religiosos, sentindo-se poderosos por fazer parte de um grupo, eles que antes não se sentiam pertencentes a nada.

Fanáticos e ressentidos fazem uma mistura explosiva. Literalmente.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A estupidez da escola sem partido


por Marcelo Gruman

Nesta semana, a escola do Miguel realizou suas Olimpíadas. Na cerimônia de abertura, cada uma das quatro equipes, representadas pelas cores azul, verde, amarelo e vermelho, desfilou com seus “atletas” e porta-bandeiras, observados de perto por quatro jurados responsáveis pela avaliação do desempenho da evolução dos componentes tal qual uma escola de samba. A nota foi somada àquela obtida pelos “atletas” nas respectivas modalidades olímpicas, dentre as quais, o tradicionalíssimo “totó” (ou pebolim, para certas regiões mais provincianas do país), determinando a posição de cada uma das cores no panteão olímpico. Em meio à euforia do acendimento da pira e das palavras da representante do comitê olímpico escolar, os porta-bandeiras, estudantes do ensino médio, puxaram o coro de “Fora Temer” e “Golpistas, fascistas, não passarão”, acompanhados por muitos dos adultos que ali estavam para prestigiar os filhos. Um dos mini-atletas brandia um cartaz em que se lia “escola sem pensamento crítico não é escola”. Na cerimônia de encerramento, entoaram-se os mesmos coros além de “machistas (…) a América Latina será das feministas”.

Em 2014, a escola do Miguel realizou a “descomemoração” do golpe que implantou a ditadura militar por mais de duas décadas em Pindorama. No folheto distribuído à época, intitulado “Para que nunca mais aconteça”, há explicação para a participação institucional da escola nesta “descomemoração”, qual seja, a de que ela nasceu de um sonho de liberdade e de justiça social, comprometida com a formação humana, “acreditando que o ser humano se faz historicamente, a partir de relações sociais e interpessoais” e apostando “que o presente pode fazer um futuro mais humano quando conhece, compreende o que se passou”. Alunos do ensino fundamental e do ensino médio participaram de diversas atividades, incluindo a coleta de depoimentos de pessoas que resistiram à opressão nos anos de chumbo. Chamava-nos muito a atenção a instalação, produzida pela Anistia Internacional, composta por grandes réplicas de escudos militares com informações sobre crimes cometidos durante a ditadura militar, bem na entrada da escola.

É comum vermos cartazes espalhados pelas paredes da escola com frases questionando a cultura do estupro e o machismo que ainda imperam na sociedade medieval brasileira. No inverno carioca, ainda que não chegue aos pés do de outras regiões do país, pedidos de doação de roupas para quem precisa. Em duas paredes, os alunos puderam intervir do jeito que bem quiseram, ao menos é esta a impressão. Um monte de desenhos e frases, boa parte delas exortando à liberdade de expressão e de criação, uma das minhas preferidas sendo a singela “menos tretas, mais tetas”. Tem de tudo. Bob Marley, Sigmund Freud, o onipresente Che Guevara, Bertolt Brecht, Sheldon Cooper, o personagem autista da sitcom The Big Bang Theory. Diversidade sexual, pois não. Aos mais atentos, observam-se casais homoafetivos circulando pela escola. Miguel teve uma professora lésbica (ou será bissexual? Na verdade, quem se importa?). Até aqui, nenhum trauma visível.

A escolha por colocar nosso filho numa escola que dá importância à discussão de temas que dizem respeito à cidadania e à história recente de nosso país, posicionando-se criticamente e tomando partido de um dos lados, politicamente, não é, obviamente, desprovida de interesse. Sabíamos, de antemão, que a orientação pedagógica primava, sobretudo, à formação do indivíduo dotado de massa crítica, inserido como sujeito ativo e responsável pela realidade que o circunda. Não concordamos, necessariamente, com tudo o que é transmitido a partir do projeto pedagógico nem com o posicionamento político, ainda que velado, do corpo docente e demais funcionários, mas concordamos com este projeto pedagógico de uma forma geral. Se não concordássemos, Miguel estaria estudando em outra escola. Muitos pais tiraram seus filhos porque, embora os pequenos estejam ainda no segundo ano do ensino fundamental, a preocupação com o ENEM é tamanha que a preferência é, desde cedo, acostumá-los à concorrência feroz a uma das vagas das universidades mais prestigiosas do país. Quilos de deveres de casa por semana, provas, pressão por desempenho desde já. É uma escolha, não a nossa.

O que me deixa feliz é a inserção crítica dos alunos em seu meio social. Goste-se ou na Dilma (eu não gosto da Dilma, tampouco gosto do Temer), goste-se ou não de homossexuais (eu não gosto nem desgosto, o mesmo com os heterossexuais, não é uma característica que se deva gostar ou desgostar), eles existem e devem ser compreendidos segundo um arcabouço teórico e valorativo cuja responsabilidade de transmissão é tanto dos pais quanto da escola. Meu filho tem a oportunidade de discutir temas que fazem parte de seu cotidiano, ainda que ele não tenha ainda muita consciência, coisa que eu não tive. Lembro-me perfeitamente do dia em que uma multidão de alunos descia a Rua das Laranjeiras em direção à Candelária para mais uma manifestação pelo impeachment de Fernando Collor, ouvíamos a rapaziada entoando slogans e nós numa aula qualquer, de matemática ou português, totalmente alheios ao que se passava à nossa volta. Importava mais quantos alunos entrariam na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fui o patinho feio da turma, único a seguir ciências sociais, isto e um punhado de alfafa dava na mesma para a coordenação pedagógica da minha escola.

Então nos vemos diante de um troço chamado “Escola sem Partido”, um “movimento” que prega o fim das “ideologias” dentro da sala de aula, especificamente, aquelas mais à esquerda que pregam o socialismo ou o comunismo. O foco, claro, é dirigido ao Partido dos Trabalhadores que, há muito tempo, nada tem de esquerda, sejamos sinceros. No entanto, os representantes deste “movimento” confundem, involuntariamente porque intelectualmente deficientes, “ideologia” com, digamos, “posicionamento político”. Erroneamente estigmatizado, o termo “ideologia” diz respeito à forma como interpretamos a realidade, são as lentes de aumento que usamos como referência valorativa, simbólica daquilo que nos cerca, daquilo que sentimos, daquilo que vivemos, daquilo que fazemos. Ela tem, inexoravelmente, relação com nossas convicções políticas, inclusive sermos seres apolíticos. Todos nós somos ideologicamente motivados.
Colocar o filho numa escola que preza a diversidade sexual, por exemplo, é uma opção ideologicamente orientada no sentido de estar consoante com os valores professados pelos pais (nós, neste caso) e compartilhados com a escola. Também são ideologicamente orientados os pais que colocam o filho numa escola religiosa ou que só quer saber de passar o maior número possível de alunos nas principais universidades do país, sem criar indivíduos que consigam pensar por si próprios, autocríticos, responsáveis e solidários com o outro. O filósofo italiano Nuccio Ordine lembra que “o estudo é, antes de mais nada, aquisição de conhecimentos que, livres de qualquer vínculo utilitarista, nos fazem crescer e nos tornam mais autônomos”. O projeto pedagógico utilitário é ideológico também. É uma escolha como qualquer outra. Escola sem partido, sim; escola sem tomar partido, não.

A impressão que tenho ao ouvir os defensores do fim das ideologias na escola é que querem, na realidade, a formação de autômatos idiotizados, incapazes de questionar o que quer que seja. A ignorância é método eficientíssimo de controle. Olha a ideologia de novo aí: a alienação intelectual como forma de controlar corações e mentes. Por isso minha emoção em ver o comportamento espontâneo dos alunos, tanto do ensino fundamental quanto do ensino médio, nas cerimônias de abertura e encerramento das olimpíadas escolares. Tive a certeza de que Miguel está no lugar certo.
Detalhe não menos importante: É CAMPEÃO!
* MARCELO GRUMAN é Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ). Atualmente é administrador cultural da Fundação Nacional de Arte (Funarte). Blog: https://desconstruindomarcelo.blogspot.com.br/

(fonte: https://espacoacademico.wordpress.com/2016/08/03/a-estupidez-da-escola-sem-partido/)

Terror islâmico: por uma resposta não-violenta


Às vésperas dos Jogos Olímpicos, um convite a refletir sobre o contexto que produz os jihadistas e os caminhos para desconstruí-lo. Uma pista: a História
Por Praveen Swami, no The Indian Express | Tradução: Antonio Martins

Para compreender os jihadistas do Estado Islâmico, volte no tempo, até a Europa da Idade Média
“No Templo de Salomão e no pórtico”, escreveu o cronista Raymond d’Aguilers, que testemunhou a captura da cidade em 1099, “os cruzados cavalgaram com sangue até os joelhos e arreios de seus cavalos”. Ele lembrou-se de “trabalhos maravilhosos”: “Alguns dos pagãos foram decapitados em misericórdia”, outros perfurados por setas atiradas das torres e ainda outros, torturados durante longo período, foram queimados vivos em chamas lancinantes”. “Jerusalém estava agora entupida de corpos e tingida de sangue – D’Aguilers prossegue com aprovação – o sangue dos pagãos que blasfemaram Deus por tanto tempo.

A mente de Mohamed Lahouaiej Bouhlel, que dirigiu seu caminhão contra uma multidão que celebrava o Dia da Bastilha em Nice, matando 84 pessoas, está fechada para nós para sempre. Os fragmentos a que temos acesso são muito esparsos, às vezes paradoxais. Um homem fascinado pelos vídeos de decapitação do Estado Islâmico, mas também por excessos sexuais impulsionados por drogas; um homem que destroçava os ursinhos de suas crianças e inclinado a pequenos crimes; um homem com diagnóstico de doença mental, mas capaz de planejar meticulosamente seu ataque.

Dos relatos de d’Aguilers, no entanto, aprendemos algo essencial. A violência islâmica, a despeito da estética que algumas vezes adota, é um produto de nossos tempos modernos, não da era medieval. No entanto, é muito simplório enxergar esta ultra-violência como um fenômeno de nosso tempo. Há importantes lições a aprender do passado sobre as circunstâncias em que cultos milenaristas com o do Estado Islâmico florescem e crescem.

A Europa medieval oferece um ângulo importante para examinar o jihadismo e compreender seu funcionamento. Os contornos daquele período são estranhamente familiares, caracterizados por enorme deslocamento social. O crescimento de grandes cidades, construídas para produção de bens e o comércio organizado, tinha dado origem a novas classes sociais, que buscavam desmantelar a ordem feudal. Havia uma onda crescente de imigrantes inundando as cidades a partir do campo empobrecido, mas encontrando, com frequência, apenas miséria.

A atividade intelectual intensa também caracterizou aqueles tempos. Em 1417, Poggio Bracciolini, um secretário papal desempregado, descobriu, num monastério alemão, uma cópia de De rerum natura, obra do poeta romano Titus Lucretius Carus por muito tempo perdida. Com isso, reintroduziu no mundo a ideia filosófica radical de que o mundo foi criado não pela vontade de Deus, mas pela colisão aleatória de partículas.

Sobre as revoluções das esferas celestes, de Nicolau Copérnico, publicada pouco antes de sua morte, em 1543, estabeleceria as fundações científicas para uma revolução em nosso conceito sobre o universo.

Em meio a este novo mundo, porém, fermentava um grande número de cultos milenaristas da morte, um contraponto à construção do mundo das Luzes. Estes movimentos, notou o acadêmico Norman Cohn em sua obra principal, In Pursuit of the Millenium [“Em busca do Milênio”], assemelhavam-se muito ao jihadismo moderno, ao se apresentarem como distintos de “todas as outras lutas conhecidas na História, um cataclismo, do qual o mundo emergirá totalmente transformado e reorientado”.

O caso dos Adamitas, assim chamados a partir do camponês que os liderava – e que se proclamava tanto Adão quanto Moiséis – é instrutivo. Os relatos da época contam que, de sua ilha fortificada no rio Nezarka, próxima a Neuhaus [no sul da Boêmia, hoje República Tcheca], os adamitas lutaram uma guerra sagrada contra as cidades próximas. Todos os homens, mulheres e crianças inimigos eram retalhados ou queimados vivos. Era preciso, acreditavam os adamitas, que o sangue subisse até a altura de uma cabeça de cavalo.
Em outubro de 1421, os adamitas foram exterminados – lutando até o fim, sua resistência fanática impulsionada pela profecia de seu líder, segundo a qual Deus cegaria os soldados do exército formado para combatê-los.

Já Jan Bockelson fundou o regime anabatista de Münster nos anos 1520, preparando-se para a iminente chegada de Cristo com poligamia, entretenimentos bizarros e a execução de todos os dissidentes. Quando o exército imperial sitiou Münster, garantiu-se aos seguidores que Deus havia-os dotado com a força de cem inimigos; eles não sofreriam nem fome, nem sede, nem cansaço.
Embora a fome consumisse a população – muitos pediam aos mercenários de Bockelson para aplicar-lhes e em suas crianças o golpe de misericórdia – todos recusaram as ofertas do exército imperial de uma rendição honrosa.
Este milenarismo, notou Cohn, tirava forças de uma população obrigada a viver à margem da sociedade”.

Após a desintegração das redes e sociedades de parentesco, nos novos tempos, estes grupos criaram seus próprios profestas carismáticos.
Farhad Khosrokhavar, um sociólogo francês que entrevistou muitos terroristas encarcerados, descreveu o jihadismo em termos similares – “individualismo por meio da morte”. Seu trabalho sugere que matadores como o tunisiano Bouhlel são apartados de seus laços culturais tradicionais, sem ter feito a transição para a modernidade cultural. Na violência niilista, encontram a libertação.

Num sentido mais amplo, Khosorokhavar argumenta que isso se repete em muitas sociedades do Oeste da Ásia. A região, ele lembra, assistiu “ao desmantelamento das comunidades tradicionais por meio de ações do Estado e à construção de uma nova economia de mercado sem os possíveis efeitos positivos desta última”. O islamismo oferece a ilusão de uma alternativa justa, baseada na vontade de Deus, ao invés do capricho dos homens.

No início do século XVI, o Livro de Cem Capitulos, um texto apocalíptio escrito por um publicista anônimo que vivia no alto Reno, demonstrou a durabilidade destas fantasias. Ele profetizou a chegada de um Irmão da Cruz Amarela, que iria “controlar o mundo todo, de Oeste a Leste, pela força das armas”. Cunhou um mote, para esta era de terror: “Breve, beberemos sangue por vinho”!

É fascinante contemplar como esta linguagem é próxima à dos textos jihadistas modernos. “A História só escreve suas linhas com sangue”, escreveu Abdullah Azzam, patriarca fundador dos jihadistas árabes no Afganistão, reverenciado tanto pela Al-Qaeda quanto pelo Estado Islâmico. “A glória só constrói seus edifícios elevados com caveiras; a honra e o respeito só podem ser estabelecidos num alicerce de aleijões e cadáveres”. Como Azzam, os cruzados fetichizavam o martírio. Uma crônica lembra a história de Jakelin de Mailly, um cavaleiro da ordem dos templários, morto ao combater muçulmanos, em 1º de maio de 1187. Seus genitais foram cortados e preservados para que pudessem, se a divina providência permitisse, gerar um herdeiro com valentia similar.

A história dos movimentos milenares ensina, porém, a ler o jihadismo como parte de uma paisagem marcada pela emergência de uma nova direita violenta – assim o demonstram as obscenidades de Joseph Kony em Uganda, os narco-evangelistas assassinos do México o Hindutva indiano e a Nova Direita europeia. Estas crises surgem de choques culturais, desdobramento das maiores transformações demográficas e econômicas da história. Abandonados pelos Estados, nestes tempos de crises, os povos voltaram-se aos deuses.

Lutar contra os movimentos jihadistas exige serviços de inteligência e polícias. Requer recursos militares e respostas geo-estratégicas. Porém, o imprescindível é uma nova política.
praveen.swami@expressindia.com

(fonte: http://outraspalavras.net/capa/405619/)

sábado, 30 de julho de 2016

Pokemon, os espiões agora em sua casa



Como o jogo dos inocentes monstrinhos devassa novo território da intimidade e mapeia os ambientes em que você vive e trabalha. Por que o Google, proprietário, transmite os dados a “anunciantes e agências do governo”
Por Sergey Kolyasnikov, no Diário Liberdade |


Pode falar-me do “Pokemon Go”?
Já dei três entrevistas sobre isso, de modo que agora tenho de me aprofundar nas fontes primárias.
Programador do jogo: Niantic Labs. É uma start-up da Google. Os laços da Google com o Big Brother são bem conhecidos, mas irei um pouco mais fundo.
A Niantic foi fundada por John Hanke, o qual fundou a Keyhole, Inc. – um projecto de mapeamento de superfícies cujos direitos foram comprados pela mesma Google e utilizados para criar o Google-Maps, o Google-Earth e o Google Streets.
E agora, atenção, observe as mãos! A Keyhole, Inc. foi patrocinada por uma empresa de capital de risco chamada In-Q-Tel , que é uma fundação oficialmente da CIA estabelecida em 1999.
As aplicações mencionadas acima resolvem desafios importantes:
Atualização do mapeamento da superfície do planeta, incluindo estradas, bases [militares] e assim por diante. Outrora tais mapas eram considerados estratégicos e confidenciais. Os mapas civis continham erros propositais.
Robôs nos veículos da Google Streets olhavam tudo por toda a parte, mapeando nossas cidades, carros, caras…
Mas havia um problema. Como espiar dentro dos nossos lares, porões, avenidas com árvores, quartéis, gabinetes do governo e assim por diante?
Como resolver isso? O mesmo estabelecimento, Niantic Labs, divulgou um brinquedo genial que se propagou como um vírus, com a mais recente tecnologia da realidade virtual.
Uma vez descarregada a aplicação, e dadas as permissões adequadas (para acessar a câmara, microfone, giroscópio, GPS, dispositivos conectados, incluindo USB, etc), o seu telefone vibra de imediato, informando acerca da presença dos três primeiros pokemons! (Os três primeiros aparecem sempre de imediato e nas proximidades).
O jogo exige que você dispare para todos os lados, atribuindo-lhe prmios pelo êxito e ao mesmo tempo obtendo uma foto da sala onde está localizado, incluindo as coordenadas e o ângulo do telefone.
Parabéns! Acaba de registar imagens do seu apartamento! Preciso explicar mais?
A propósito: ao instalar o jogo você concorda com os termos do mesmo. E não é coisa pouca. A Niantic adverte-o oficialmente: “Nós cooperamos com agências do governo e companhias privadas. Podemos revelar qualquer informação a seu respeito ou dos seus filhos…”. Mas quem é que lê isso?
E há o parágrafo 6: “Nosso programa não permite a opção “Do not track (Não me espie) do seu navegador”. Por outras palavras – eles o espiam e o espiarão.
Assim, além do mapeamento alegre e voluntário de tudo, outras oportunidades divertidas se apresentam.
Por exemplo: se alguém quiser saber o que está sendo feito no edifício, digamos, do Parlamento? Telefones de dúzias de deputados, pessoal da limpeza, jornalistas vibram: “Pikachu está próximo!!!” E cidadãos felizes agarrarão seus smartphones, ativarão câmeras, microfones, GPSs, giroscópios… circulando no lugar, olhando a tela e enviando o vídeo através de ondas online…
Bingo! O mundo mudou outra vez, o mundo está diferente.
Bem vindo a uma nova era.
(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=337143)

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Traumatismo social




Antônio de Paiva Moura

            A palavra trauma vem do grego e significa ferida, lesão corporal. Freud empregou o termo com outro sentido semântico, isto é, ferida na mentalidade, na alma humana. Choque, divergências, confrontos, crimes, terrorismo, guerras, opressão, catástrofes naturais são fatores que provocam traumas na sociedade.
Lacan conceitua trauma como resposta a um evento, ou eventos violentos inesperados ou arrebatadores, que não são inteiramente compreendidos quando acontecem, mas retornam mais tarde, repetidamente em flashback, pesadelos e outros fenômenos de repetição. Freud e Breuer escreveram sobre a histeria traumática, referindo-se a pacientes que teriam vivido experiências de medo, vergonha ou dor psíquica, as quais teriam ocorrido de modo muito particular. As lembranças de tais episódios são uma espécie de corpo estranho na mente do traumatizado, provocando sofrimento.
            Começou recentemente um esforço epistemológico para tratar o trauma além das áreas e conceitos psicanalíticos, iniciados com Freud no começo do século XX. O trauma é social quando, de forma específica, atinge toda uma parte da sociedade, uma espécie de “arrastão global”. Um medo generalizado, um choque de proporção nacional ou mundial. O trauma, como uma forma de inconsciente coletivo, faz parte da cultura, sendo um traço marcante de nossa época. Para Freud, os traumas são transfigurados ao longo da história sobre a forma de mitos e de outras narrativas.  Conforme Selingmann-Silva (2015), pensar o trauma como marca do indivíduo moderno significa pensá-lo como um sobrevivente que resiste tanto aos ataques de um mundo externo, como de seu próprio mundo interior, que tem o seu eu constantemente fragmentado, posto em questão e à prova por esses ataques. Essa visão traumática do indivíduo moderno é correlata com uma visão do que seria verdade. O momento contemporâneo é de destruição, genocídios, violência neocolonial, ditaduras sanguinárias, espoliação dos recursos naturais, que fizeram revirar o conceito positivista de verdade. A ordem virou revolta e o progresso virou barbárie.
          Na sociedade do espetáculo, a confusão entre consumir, ser visto e existir faz com que quem não tem dinheiro não é posto na mídia e não obtenha reconhecimento social seja excluído. A exclusão hoje não é apenas econômica, mas acirrada por uma distribuição da economia narcísica, tão injusta quanto a financeira. As instituições culturais voltadas para o humanismo estão sendo ridicularizadas e as que promovem o individualismo como o Big Brother, que de um dia para o outro cria celebridades vazias, que nada contribuem com a formação humanística, são idolatradas. Quem não consegue tornar-se celebridade artificial, torna-se vítima do sentimento de frustração e de fracasso. O desejo de ser celebridade se transforma em ódio mortal. A frustração que vem à tona tem origem naqueles que sofrem preconceito racial; que levaram bofetadas e buscas humilhantes de policiais; que não receberam escolaridade decente. É a manifestação súbita por parte de sujeitos que sofrem um processo gradual de barbárie por longos anos. A passagem do crime pragmático para o crime excessivo é uma explosão de vingança e uma forma de reagir ao circuito social. (BOSCO, 2010). Tanto os criminosos quanto suas vítimas fazem parte da população traumatizada.
             O homem ultrapassou o limite sustentável de presença na terra. Com maior perspectiva de vida e menor mortalidade infantil, em 50 anos a população da Terra pulou de 3,5 bilhões para 7 bilhões de habitantes. Corre-se o risco de virar um problema para todos os seres vivos que habitam os mesmos espaços. Daqui a 30 anos o planeta poderá chegar a oito bilhões de humanos. Esse número tornar-se-á insuportável, porque exigirá crescimento econômico mais acelerado do que o atual, com um enorme sacrifico da natureza. A acumulação de riquezas e a desigualdade social têm aumentado, sustentadas pelo vigor da ideologia neoliberal.
             Sabe-se que a renda pessoal está distribuída de maneira tão desigual no mundo, que os 2% mais ricos da população adulta detém mais da metade das riquezas do planeta. A outra metade das riquezas é dividida com 98% da população adulta, cerca de 5 bilhões de habitantes. Para se incluir entre o 1% de mais ricos do mundo o indivíduo terá que ter em média, um patrimônio de U$ 500 mil dólares, cerca de um milhão e quinhentos reais. Dos 5 bilhões de adultos do mundo, apenas 34 milhões de pessoas têm um patrimônio superior a 1 milhão de reais. A América do Norte que tem apenas 6% da população mundial detêm um terço de toda a riqueza do mundo. Segundo a revista Exame (2012) existiam no Brasil somente 130 mil multimilionários e 65% desse total, (84.500) residiam em São Paulo e Rio de Janeiro.
            A concentração de riquezas em mãos de poucos, em uma região, é um verdadeiro desastre. Começa com o fato consumado do aumento da violência e da degradação do modo de viver a marginalidade. Os mais pobres são os mais atingidos pelas catástrofes naturais provocadas pela ação dos mais ricos sobre a natureza. Pode-se imaginar o quanto serão dolorosas, trágicas e traumáticas as lutas por espaços e por melhores condições de vida.

Referências
BOSCO, Francisco. Celebridade e barbárie. CULT. São Paulo, n. 147, jun. 2010.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. A era do Trauma. Revista CULT, São Paulo, n. 205, set. 2015.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Surpresa: indústria alimentícia com pinta de “saudável”

O que Jamie Olivier e Alex Atala, conhecidos por valorizar diversidade alimentar, fazem nos comerciais da Sadia e Seara? As corporações da comida ultraprocessada estarão em busca de novo “nicho”?
Por Juliana Dias e Mónica Chiffoleau

A parceria entre o conhecido chef inglês Jamie Oliver e a marca Sadia gerou questionamentos por todos que defendem a alimentação saudável. Este movimento tem sido considerado uma das grandes tendências alimentares nas últimas décadas, adotado por cozinheiros, pesquisadores, agricultores e comedores em geral que compreendem ter suas escolhas certa influência política, ou seja, a consciência de que, ao escolher um alimento, estão decidindo qual sistema alimentar querem alimentar.
Jamie Olivier é uma das personalidades que lideram o movimento para uma alimentação saudável, convidando a todos a entrar na cozinha. Além dos cardápios, incentiva o consumo de alimentos naturais e orgânicos. Já a Sadia é uma das marcas da Brasil Foods (BRF), uma das maiores companhias de alimentos do planeta e líder global na exportação de proteína animal.
A concorrência entre as empresas por absorver os movimentos do campo alimentar é acirrada. Na mesma semana que a Sadia anuncia a parceria com o Olivier, a Seara lança a campanha com o chef brasileiro Alex Atala, reconhecido internacionalmente como defensor da biodiversidade brasileira. A figura do chef de prestígio traz segurança quanto ao uso e qualidade dos produtos, que vêm sendo fortemente questionados por diferentes grupos da sociedade.
De acordo com Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado em 2014 pelo Ministério de Saúde, um dos dez passos para a alimentação saudável é desenvolver, exercitar e partilhar habilidades culinárias, “O enfraquecimento da transmissão de habilidades culinárias entre gerações favorece o consumo de alimentos ultraprocessados”.
O Guia esclarece que alimentos in natura ou minimamente processados, em grande variedade e predominantemente de origem vegetal, devem ser a base da alimentação. Alimentos in natura são aqueles obtidos diretamente de plantas ou de animais (como folhas e frutos ou ovos e leite) e adquiridos para consumo sem que tenham sofrido qualquer alteração após deixarem a natureza.
Os alimentos minimamente processados são alimentos in natura que, antes de sua aquisição, foram submetidos a alterações mínimas. Exemplos incluem grãos secos, polidos e empacotados ou moídos na forma de farinhas, raízes e tubérculos lavados, cortes de carne resfriados ou congelados e leite pasteurizado.
Alimentos ultraprocessados são produtos fabricados com pouco ou nenhum alimento in natura, mas que levam muitos ingredientes industriais, de nomes pouco familiares. Biscoitos recheados, salgadinhos de pacote, refrigerantes e macarrão instantâneo são exemplos desse tipo de alimento.
São considerados “produtos de conveniência”, que vêm em uma caixa, podem permanecer meses numa prateleira, podem ser comidos no caminho e ser servidos sem a necessidade de ligar o fogão, conforme definição de Charles Mortimer, antigo presidente da General Foods. Para que o atributo da conveniência ganhasse cada vez mais adeptos, Mortimer criou um exército de professores de economia doméstica em 1950, pagos pela empresa, e lançou a personagem Betty Crocker com o objetivo de levar ao mercado as virtudes da conveniência. A personagem fictícia foi convidada para os melhores shows de TV, ajudando a construir um novo imaginário da mulher na sociedade americana.
Neste novo ideário, a liberação da cozinha era um elemento fundamental. A justificativa proporcionada pela publicidade afirmava que usar alimentos preparados ou congelados permitia à mulher economizar o tempo necessário para realizar outras tarefas importantes como a de “mãe”, “esposa moderna” e trabalhadora.
Desde os anos 60, algumas mulheres se sentiam culpadas com os produtos de conveniência por já virem prontos. Essa informação foi transmitida para a indústria. A partir desse momento existem versões nas quais quem “prepara” a refeição pode participar incluindo leite, ovos ou algum outro ingrediente. Será esse o convite do chef, nessa campanha de expectativa?
Frente às múltiplas críticas recebidas pela parceria de Jamie Oliver no perfil da Sadia, a empresa tem uma resposta padronizada que diz o seguinte:
“Queremos trazer uma alimentação melhor para o povo brasileiro! E com o mesmo objetivo, o Jamie Oliver se juntou a nós. Iniciamos a nossa parceria há mais de um ano e, desde então, revimos todos os nossos processos, produtos, fábricas e granjas. Fizemos uma linha de alimentos congelados que, graças a uma tecnologia de ultracongelamento, não levam conservantes. A linha de produtos que estamos preparando com o Jamie contará com ingredientes naturais. Também vamos aplicar o projeto #SaberAlimenta para as crianças do nosso país e queremos incentivar o brasileiro a voltar para a cozinha.”
Para quem, como nós, considera que um dos passos para a alimentação saudável tem a ver com o ato de cozinhar, as frases da Sadia “fizemos uma linha de alimentos congelados…” e “… queremos incentivar o brasileiro a voltar para a cozinha” são totalmente contraditórias. Voltar para a cozinha com uma refeição pronta? Isto é o que oferece um produto de conveniência. Infelizmente, muitos consumidores estão prontos para se relacionar com a cozinha desta forma superficial, mediada prioritariamente pela indústria alimentícia.
Justificando sua parceria, Jamie Olivier respondeu:
“Estou errado? Talvez. Mas, para mim, estar dentro dessa máquina, uma empresa que é responsável por 18% do frango no mundo, é algo positivo. E digo que, certamente, eu poderia estar ganhando mais dinheiro fazendo outra coisa. É claro, estou entrando num ambiente estranho, até incestuoso, complicado. Mas em um ano vamos conversar e eu vou te mostrar o resultado do que fiz.”
Essa resposta nos remete às palavras de Marion Nestle, nutricionista especializada em políticas públicas, no seu livro Food Politics (2003, ainda sem tradução em português): “as empresas devem competir com agressividade por cada dólar gasto em comida. A primeira missão das empresas é vender produtos. As empresas não são agências de saúde ou serviços sociais. A nutrição se converte em um fator que para as empresas só é considerado se puder ajudar a vender. As opções éticas são muito pouco consideradas”.
Quando uma tendência surge, as empresas definem suas estratégias de nicho, considerando que as necessidades desse grupo de consumidores ainda não estão sendo atendidas. Assim, o ato de cozinhar como revolucionário está no limiar, na zona fronteiriça, trazendo afeto, compartilhamentos, novas composições. É justamente esse fluxo, essa fronteira que se pretende capturar, associando o prestigiado chef e a atividade culinária. Se a tendência é dedicar mais tempo ao preparo das refeições, então a indústria busca capturar o que está fora de seu alcance, lançando mão do marketing e da publicidade, trazendo o aval de nomes de prestígio.
Para quem tem clareza da importância do ato de cozinhar como revolucionário, Jamie se transformou num garoto propaganda da Sadia. Muitos de seus embaixadores abandonaram o movimento Food Revolution Day, criado pelo chef, que por sua vez é patrocinado pela Fundação Bill e Melinda Gates, uma das principais investidoras no mercado de transgênicos e biofortificados.
A captura, o nicho que interessa a Sadia, é justamente o dos consumidores que ainda não compreendem a importância do que defende o Ministério de Saúde através do Guia Alimentar Brasileiro, quando diz “procure desenvolver suas habilidades culinárias” e adverte que deve-se “ser crítico quanto a informações, orientações e mensagens sobre alimentação veiculadas em propagandas comerciais”
A defesa da cozinha como território de uma práxis, em que se busca refletir sobre nossa alimentação diária, é feita enfaticamente pelo jornalista e ativista norte-americano Michael Pollan em seus livros, entre os quais, o mais recente intitulado Cozinhar: uma história natural da transformação (Ed. Intrínseca, 2014). Pollan se propõe a investigar os processos culinários do fogo, água, ar e terra para demonstrar a necessidade biológica e cultural que temos de cozinhar nossos alimentos. Em sua visão, as sociedades modernas terceirizaram uma atividade essencial para a indústria alimentícia, gerando uma desestruturação nos hábitos alimentares, provocando uma sucessão de prejuízos ao meio ambiente.
No entanto, o autor aponta para o Paradoxo do Cozinhar: a “escolha diária do que colocar no prato não se reduz à comida caseira versus comida industrializada. Podemos estar em algum lugar entre esses dois polos distintos, que muda constantemente em função do dia da semana, da ocasião e da disposição.”
O que chamamos de cozinhar, explica Pollan, pode se realizar dentro de uma multiplicidade, como de fato vem acontecendo há pelo menos um século, quando alimentos processados entraram pela primeira vez na cozinha e a definição do que seria “cozinha do zero” começou a mudar. “No decorrer da semana, a maioria de nós passeia por toda essa multiplicidade (come fora, usa o pacote de brócolis congelado, a lata de atum na despensa, a caixa de ravióli comprada na esquina”, justifica o autor.
A novidade, contudo, está no grande número de indivíduos que agora passam muitas de suas noites num dos seus extremos, valendo-se em quase todas as refeições de uma indústria disposta a fazer por eles tudo que não seja esquentar e comer. E se há a demanda para que o consumidor participe mais do processo de preparação das refeições prontas, incluindo um ingrediente de seu gosto para finalizá-la, a disposição para atender esse desejo é a mesma.
Capitalismo cognitivo

A captura de fluxos é possível graças ao capitalismo cognitivo que, a partir de informação, obtém conhecimento sobre os consumidores. No caso do mercado de produtos de massa, podemos exemplificar com um dos softwares, largamente utilizado pelas empresas líderes no mercado. O Target Group Index, criado na Inglaterra em 1968, é um minucioso retrato do comportamento e dos hábitos de consumo da população, em seus vários segmentos. Presente no Brasil desde 1999, o estudo é resultado da parceria exclusiva entre Ibope Media e Kantar Media. Atualmente, essa pesquisa é realizada em mais de 60 países, totalizando mais de 750 mil participantes por ano. Na América Latina está presente em nove países: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru e Venezuela, incluindo também Porto Rico.
Se a tendência é a comida de verdade, é para lá que as empresas vão apontar. Como já citamos, o termo já vem sendo apropriado pelas empresas que produzem ultraprocessados na tentativa de apresentar uma substância comestível, como diria Pollan, como comida de verdade, ou um produto saudável.
É claro que para melhorar a saúde a porta certa é a política, como é bem explorado no livro Food Politics, de Marion Nestle. Se o chef tivesse procurado uma parceria com a Pepsi e a Coca Cola, o resultado seria a criação de um outro tipo de refrigerante “pseudosaudável”, versão aliás que acaba chegar ao mercado com o nome de Coca-cola verde.
Fechando sua resposta às críticas, Olivier declara:
“para ser bem honesto, seria a coisa mais fácil do mundo para mim ter minha hortinha orgânica e biodinâmica, ficar falando sobre o bem que ela faz – e eu acredito mesmo que ela faça muito bem. Mas orgânicos e biodinâmicos são acessíveis ao britânico ou brasileiro médio? Não. Então é uma questão estratégica e tática: para promover mudança em larga escala preciso atuar em larga escala”.
Contudo, as hortas estão desafiando o fenômeno do sistema alimentar global. Se tem horta, tem alimento orgânico e não precisa ser comprado. Na localidade de Les Avanchets, em Genebra, na Suíça, praticamente todas as casas possuem uma horta urbana, segundo o fotógrafo e ambientalista francês Yann Arthus-Bertrand. Cada morador cultiva e tem a cultura de trocar alimentos orgânicos com os vizinhos, ampliando as possibilidades de alimentação saudável. E para quem não tem quintal, existem também as hortas comunitárias, trazendo assim a dimensão política da comida.
A publicidade de alimentos ultraprocessados, assinada por chefs como Jaime Oliver e de Alex Atala, deve servir para ativar o que Paulo Freire chama de curiosidade epistemológica, ou seja, um alerta para refletir na prática alimentar cotidiana, que, ao ser delegada a terceiros, pode comprometer a existência de sistemas alimentares plurais e múltiplos.

(fonte: http://outraspalavras.net/brasil/surpresa-industria-alimenticia-pretende-se-saudavel/)