domingo, 8 de janeiro de 2017

Espantoso não é que haja uma chacina como a do presídio no Amazonas. Espantoso é que seja apenas uma


O mito do brasileiro cordial vem sendo derrubado na porrada. Principalmente nos últimos tempos em que o Brasil fervilha. 
Desde os movimentos em São Paulo em 2013, que não eram só "pelos 20 centavos" como ficou claro com o golpe do impeachment, o Brasil está dividido como um Corinthians e Palmeiras, Flamengo e Vasco, Atlético e Cruzeiro, Inter e Grêmio, Bahia e Vitória e por aí vai...
A turma do bala, porrada e bomba está no comando e não é de estranhar que a violência acabe explodindo, como na chacina de Campinas, onde um assassino covarde matou doze pessoas, inclusive ex-mulher e seu filho de oito anos, e depois deu um tiro na própria cabeça (se tivesse invertido a ordem dos fatores, teria alterado o produto e o resto não teria acontecido), e a outra, horrenda e tenebrosa, ocorrida num presídio em Manaus, que resultou na morte de 56 pessoas, muitas decapitadas e destroçadas barbaramente. E ainda estamos na primeira semana do ano...
Mas, o espantoso, como afirmo no título, mais espantoso é que isso não ocorra diariamente. Se está difícil para o brasileiro comum viver nas ruas, imagina a vida dos encarcerados, em prisões insalubres, superlotadas. 

Em sua coluna da Folha, o jornalista Janio de Freitas lança luz sobre a situação de nossos presídios:

Dos 622 mil encarcerados, mais de 40%, ou cerca de assombrosos 250 mil, estão sob prisão "provisória" há meses, há anos, que deveriam durar 30 dias, se tanto. Ou nem isso, porque esses "provisórios", se e quando afinal chegam ao julgamento, na maioria são absolvidos.

Logo, nem sequer precisariam ou deveriam passar por prisão provisória. No Amazonas, dos 4.400 encarcerados, 2.880, ou 66%, são presos "provisórios". Não menos expressivo da secular e perversa indiferença brasileira: cerca de metade dos sentenciados à cadeia não cometeu crime violento. Ao menos parte, portanto, e o provável é que grande parte, conforme o Direito Penal menos obsoleto, deveria cumprir penas alternativas, sem chegar ao cárcere.
Mais do que um ponto fora da curva, a chacina é um grito desesperado por uma Justiça que só existe para os poderosos e nos salamaleques e contracheques nababescos de juízes e desembargadores e promotores e essa gente toda com seu palavreado rococó ridiculamente trajada.
 
(fonte: http://blogdomello.blogspot.com.br/2017/01/espantoso-nao-e-que-haja-uma-chacina-como-a-do-presidio-amazonas.html)

sábado, 7 de janeiro de 2017

Revista Divulga Escritor




Convidamos você a conhecer a 24ª edição da Divulga Escritor: Revista Literária da Lusofonia. Unindo Você ao Mundo através da Literatura.
Sejam bem-vindos!
Estamos fechando participação para edições da Revista em 2017.
Contato Editorial
smccomunicacao@hotmail.com
Revista com acesso gratuito disponível em:
Eu Gosto de Livros http://www.eugostodelivros.com/revista/

O país dos elegantes


Por Flávio de Castro*
Eu confesso que não sei a verdade: não sei se Lula é ou não dono de um triplex no Guarujá como não sei se FHC é ou não dono de um apartamento na Avenue Foch, em Paris.
Sei apenas que a presunção de ser dono de um triplex no Guarujá é inequivocamente associada à corrupção e a presunção de ser dono de um apartamento em Paris não tem nada a ver, obviamente, com corrupção.
Especialmente se o apê do Guarujá for um tanto novo-rico e o apê de Paris, um tanto elegante.
A questão é estética.
Lula carregando uma caixa de isopor e sendo dono de um barco de lata é uma cômica farofa. Se FHC carregasse uma caixa de isopor e fosse dono de um barco de lata seria uma concessão à humildade.
A questão é classista.
Um Odebrecht sentado à mesa com FHC é um empresário rico. O mesmo Odebrecht sentado à mesa com Lula é um pagador de propina.
Nada disso tem a ver com corrupção. Nada disso revela qualquer preocupação com o país.
A cada dia que passa, é mais evidente que o que está em discussão é quem são os verdadeiros donos do poder.
E os donos legítimos do poder são os elegantes. Aqueles com relação aos quais não interessa saber como amealharam riqueza porque, simplesmente, a riqueza lhes cai bem.
A casa grande tem um perfume que inebria toda a lavoura arcaica e sensibiliza até a senzala. É o que estamos assistindo.
Tudo o mais, tudo o que não é casa grande é Lula e os amigos de Lula!
A questão é preconceito.
Vejam como um fraque cai naturalmente bem em FHC. Um fraque assim em Lula, certamente, deveria ter sido roubado.
O Brasil é o país dos elegantes. De uma elegância classista, racista e preconceituosa deitada eternamente no berço esplêndido do aristocrático século 19.
*Flávio de Castro é professor de arquitetura da Unifemm

Massacres em presídios, cracolâncias, velhos inativos: tragédias brasileiras anunciadas



Wanderley Parizotto **
O  recente massacre de presos em Manaus, não surpreendeu quase ninguém.  Causou, claro, comoção, mas não surpresa.
Sabemos da falência do sistema carcerário brasileiro.  Sabemos da existência do tal “ crime organizado”. Estamos cansados de ver nos meios de comunicação celas lotadas, desmandos, corrupção sistêmica. Porém, enquanto sociedade, não nos envolvemos. Não discutimos. Passamos ao largo, como se não fosse com a gente.
O judiciário parcial e lento, a atuação policial inadequada, mais o sistema carcerário desumano e precário, formam uma indústria de crimes em escala exponencial que permeia nosso cotidiano.  Claro que esta análise é simplista, contudo, é real. Grande parte dos presos brasileiros  estão, provisoriamente, aguardando o julgamento que nunca chega. Outra poderia estar cumprindo penas alternativas. Mas não estão. E por aí vamos de tragédia em tragédia, até o dia que ela bate à nossa porta.  Todos os dados estatísticos que brotaram na mídia nos últimos dias apontam erros, malefícios e indicam novas tragédias.
Mesmo assim, teimamos em não discutir a questão de forma ampla, sem preconceitos e de forma objetiva. INSISTIMOS em colocar o sistema prisional de um lado e o resto da sociedade em outro, quando, na verdade, trata-se de uma sociedade única.
As grandes tragédias sociais e naturais apresentam sintomas ao longo de muito tempo. São, em boa parte, previsíveis e evitáveis.  Como também têm signatários inequívocos. Não são obras do além, de extraterrestres ou da maldição divina.
Como o sistema prisional brasileiro deu e dá sinais claríssimos de total falência o processo de envelhecimento no Brasil também aponta para, em breve, um enorme caos. O país envelhece rapidamente. Em menos de três décadas, pessoas com mais de 60 anos serão mais de 45 milhões de cidadãos.
Cidadãos que precisarão produzir, estudar, ir e vir. O Brasil será outro. O problema será previdenciário sim, mas não só. Seu espectro terá um contorno muito maior.
A população envelhecida deverá estar preparada para continuar no mercado de trabalho. E com saúde do corpo e do cérebro em ordem. A capacitação pessoal e profissional se não for continuada ao longo de toda a vida, inviabilizará a vida de milhões de velhos.
Assim como as tragédias prisionais, esta outra, a do envelhecimento populacional rápido, começa a apresentar os primeiros sinais.
A sociedade precisa olhar, discutir, criar interlocução com seus representantes em todas as esferas, trazer a questão para as escolas. Colocar o assunto na agenda política.
Se não o fizermos, em breve conviveremos com presídios falidos, cracolândias , velholândias e outros.
** Economista, criador do Portal Plena.

(fonte: https://portalplena.com/vamos-discutir/massacres-em-presidios-cracolancias-velhos-inativos-tragedias-brasileiras-anunciadas/)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Feminicídio: menos da metade dos casos investigados virou processo na Justiça

Mapa da Violência mostra que, de 1980 a 2013, o número de homicídio de mulheres quase triplicou

Agência Brasil,
Desde que foi tipificado como crime hediondo em março de 2015, até 30 de novembro de 2016,  o feminicídio teve 3.213 inquéritos de investigação registrados no país. Desse total, 1.540 tiveram a denúncia oferecida à Justiça (47,93%), 192 foram arquivados, 86 foram desclassificados como feminicídio e 1.395 estão com a investigação em curso.
Os dados foram divulgados na reunião deste mês do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que ocorreu no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). O tema voltou a ser debatido esta semana no Senado, durante o seminário Mulheres no Poder: Diálogos sobre Empoderamento Político, Econômico e Social e Enfrentamento à Violência.
Dados da Estratégia Nacional de Justiça e Segurança Pública (Enasp), do CNMP, de 2013 mostram que as denúncias de homicídios em geral no país ficam muito abaixo desse percentual. Dos 136,8 mil inquéritos abertos até 2007, em 2012 apenas 10.168 viraram denúncias, o que corresponde a 7,32%. Outros 39.794 foram arquivados.
A coordenadora do Grupo Especial de Combate a Homicídios de Mulheres (Gecohm), promotora de Justiça Lúcia Iloizio, explica que o objetivo da reunião foi discutir a meta do Ministério Público de combate ao feminicídio, instituída quando a tipificação do crime foi criada. O objetivo é oferecer a denúncia de todos os inquéritos à Justiça, para reduzir o número desse tipo de crime, meta da Enasp para 2016.
“A meta [de combate] do feminicídio previa concluir o oferecimento de denúncias pelo Ministério Público dos inquéritos policiais que apurassem a conduta, lembrando que a Lei do Feminicídio entrou em vigor no dia 10 de março de 2015. Então, a meta era, no primeiro ano de vigência da lei, concluir o máximo possível de inquéritos”.
Até o momento, 47,93% dos casos viraram processos na Justiça. De acordo com a promotora, para 2017 a meta de 100% continua a ser perseguida, já que muitos inquéritos ainda estão em andamento. “Pode acontecer de não ter uma linha de investigação definida, podem faltar os elementos ou provas para oferecer a denúncias e o laudo demorar a chegar. A gente só pode oferecer a denúncia se houver elementos suficientes para isso. Muitos casos ainda podem ter oferecida a denúncia, não foram arquivados. Vamos perseguir essa meta para zerar as investigações”.
Lúcia Iloizio acrescenta que outro objetivo é dar visibilidade ao problema do feminicídio no país e gerar dados estatísticos sobre a violência doméstica e as mortes de mulheres. “É efetivamente em situações de violência doméstica? É em situação de menosprezo? Qual é esse índice, qual esse percentual, qual esse montante? Ela chama a atenção para a questão da violência contra a mulher. O feminicídio é uma das formas extremamente graves da violência doméstica e familiar”.
O feminicídio é o assassinato da mulher pelo fato de ela ser mulher. É caracterizado quanto houver uma das situações de violência doméstica previstas na Lei Maria da Penha ou se for em decorrência de menosprezo à condição da mulher.

Diagnóstico

Dados divulgados em outubro pela Enasp mostram que, na ocasião, eram 3.673 casos registrados em todo o país. Minas Gerais aparece com o maior número, 576, seguido de Rio de Janeiro, com 553, e da Bahia, com 395. Na outra ponta, o Rio Grande do Norte registrou 12 casos de feminicídio desde que a lei foi criada, Roraima, 16, e o Maranhão e Sergipe tiveram 20 casos cada. Alagoas e o Piauí não haviam enviado dados para o balanço.
Uma das coordenadoras da iniciativa Dossiê Feminicídio, Marisa Sanematsu considera positivo o engajamento do Ministério Público na questão e destaca que o órgão é um dos parceiros da campanha Compromisso e Atitude pela Lei Maria da Penha. Mas, para ela, é preciso avançar muito a partir do diagnóstico apresentado.
“Acho importante, porque nós precisamos de dados. Mas a meta é muito mais do que contar número de inquéritos. A meta de redução quer dizer que o Ministério Público está comprometido em apurar os crimes de homicídio, acompanhar as investigações, olhar os assassinatos para ver se são feminicídios, o que quer dizer ter visão de gênero para fazer o trabalho. A meta é implementar estratégias para que de fato se investigue e puna os culpados”.
O Mapa da Violência 2015 – Homicídio de Mulheres no Brasil, lançado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) Brasil, mostra que entre 1980 e 2013 o homicídio de mulheres cresceu, passando de 1.353 em 1980 para 4.762 em 2013, com aumento de 252%. Em 1980, a taxa era de 2,3 vítimas por 100 mil mulheres e passou para 4,8 em 2013, um aumento de 111,1%.
Antes da Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, o crescimento da taxa de assassinato de mulheres foi de 2,5% ao ano. Depois da lei, caiu para 1,7% ao ano. O levantamento revela que o Brasil está em quinto lugar no ranking de países que mais matam mulheres, atrás apenas de El Salvador, da Colômbia, Guatemala e Rússia.
Marisa, que é diretora de conteúdo do Instituto Patrícia Galvão, instituição que trabalha com informação e direitos das mulheres, ressalta que boa parte desses assassinatos de mulheres ocorre dentro de casa (27,1%) e é cometida por pessoa conhecida da vítima, o que indica o problema da violência doméstica como fator importante no desfecho trágico. Para ela, é importante que sejam feitas campanhas de esclarecimento sobre o tema e de capacitação dos investigadores para lidar com a questão. A diretora lembra que nem todo assassinato de mulher é caracterizado como feminicídio.
“A gente precisa ver que em todo o processo, desde a investigação até o julgamento, é preciso ter uma visão de gênero. Tentar identificar o que o fato de a vítima ser mulher alterou no sentido dos acontecimentos. No feminicídio íntimo, que ocorre dentro de casa, não é apenas olhar para uma cena de crime e falar que matou por ciúmes. Ninguém está olhando o contexto de violência que precedeu aquele desfecho. Se os investigadores começarem a olhar para as denúncias de violência doméstica com mais atenção, com mais sensibilidade, podemos conseguir evitar muitas mortes, muitos desfechos trágicos”.
De acordo com ela, o coordenador da Enasp, conselheiro Valter Schuenquener, informou no seminário em Brasília que o Cadastro Nacional do CMNP deve ser lançado em março, para fazer o registro dos casos de violência doméstica por estado.

(fonte: https://www.brasildefato.com.br/2017/01/03/feminicidio-menos-da-metade-dos-casos-investigados-virou-processo-na-justica/)

Assassino de Campinas atirou sozinho, mas não inventou assassinato de mulheres sozinho, diz filósofa


Os primeiros minutos de 2017 ficaram marcados por um massacre que chocou o país. Em Campinas (SP), um homem invadiu a casa onde sua ex-mulher celebrava o Ano Novo com a família e começou a atirar. Ela e mais onze pessoas morreram, incluindo outras oito mulheres e o filho de ambos, de 8 anos. Em seguida, ele se matou.

Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, deixou algumas cartas e áudios para "explicar" sua atitude. Neles, chamou a ex-mulher de "vadia" por ter conseguido a guarda do filho em um processo que incluiu acusações de que ele teria abusado sexualmente da criança, condenou a Lei Maria da Penha - a qual chamou de "lei vadia da penha" -, e disse que queria "pegar o máximo de vadias da família juntas".

A mulher teria registrado seis queixas contra ele entre 2005 e 2015 por agressão e ameaça.
"Não posso dizer que todas as mulheres são vadias! Más (sic) todas as mulheres sabem do que as vadias são capazes de fazer! (...) A vadia foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos, agora os pais quem irão se inspirar e acabar com as famílias das vadias. As mulheres sim tem medo de morrer com pouca idade. (...) Morto tbm já estou, pq não posso ficar contigo, ver vc crescer, desfrutar a vida contigo por causa de um sistema feminista e umas loucas (sic)."

A entrevista é publicada por BBC Brasil, 05-01-2017.
Diante da atitude e da "justificativa" do assassino, muitos passaram a tratá-lo como psicopata e enxergaram o caso como algo "bizarro", desconectado da realidade. Mas, para a filósofa Márcia Tiburi, ele não cometeu o crime sozinho.
Especialista na questão de gênero e autora de livros como As Mulheres e a Filosofia e Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero, ela alerta para o papel da sociedade na barbárie. "Ele não inventou esse assassinato das mulheres sozinho. Ele pode ter atirado sozinho, mas o que ele fez é simbolicamente muito mais grave", afirmou ela à BBC Brasil.
"A culpa é de um sistema, de um imaginário de ódio às mulheres que deixa os indivíduos descompensados."

Eis a entrevista.

Nas cartas que o autor da chacina deixou, há um discurso repleto de ódio contra as mulheres, chamando todas elas de "vadias". Dos 12 mortos, 9 eram mulheres. O que isso representa?
Esse elemento no discurso do assassino faz parte de um contexto mais geral, a meu ver. A gente chama isso de misoginia. Esse discurso não é novo: ele só nos choca no fato de ser tão declarado e de aparecer numa maneira tão tosca.
O caráter brusco desse discurso, que tem autorização para dizer tudo isso sem preocupação, isso é o que o torna mais chocante. Mas se você for ler discursos mais rebuscados na mídia tradicional, na Bíblia, nos textos clássicos da História, você encontra o mesmo tipo de conteúdo, a mesma estrutura simbólica de ódio às mulheres. Como há um ódio histórico aos judeus, aos negros.
O ódio no contexto do machismo é estrutural. Não tem machismo sem ódio. Todo machismo carrega em si um afeto odiento. Seja como repulsa, como inveja, como necessidade de fazer calar.

Muitos estão tratando o assassino como psicopata. O que acha disso?

Ele poderia ser, de fato, a partir de um ponto de vista psiquiátrico, medido como um psicopata. Mas não temos esse registro comprovado. A gente tem que tomar muito cuidado com isso, com esse diagnóstico que surge no senso comum.
O importante aqui é que do ponto de vista sociológico, filosófico, a gente não vive sozinho, a gente tem influência do meio em que vivemos. Eu diria que esse cidadão seria, no nível do senso comum, apenas um pobre coitado que realiza algo que é da ordem do desejo coletivo. É um desejo forjado por uma estrutura social machista e que nesse momento perde seu freio.
Um dos exemplos que perde o freio social, a noção da lei. Ele confronta a lei de uma maneira jocosa, interpreta a lei à luz da sua própria ignorância e usa essa ignorância como um aval, uma justificativa.
Mas ele não inventou essa matança sozinho. Ele pode ter maquinado essa chacina sozinho, mas não inventou esse assassinato das mulheres sozinho. Ele pode ter atirado sozinho, mas o que ele fez é simbolicamente muito mais grave.
Podemos analisar esse lugar do encontro entre a atitude particular e um contexto percebendo a semelhança entre o discurso que ele profere e o discurso que a gente vê no senso comum. Esse indivíduo pensa a partir do senso comum. É importante perceber que as ideias não são nossas, eu tenho ideias com relação ao mundo, eu absorvo os conceitos do mundo, as ideias do mundo, e nós vivemos em um mundo machista, misógino.
Ele, em que pese sua culpa, é mais um cidadão que foi destruído pelo machismo. Não é mais vítima do que as vítimas que ele causou, mas ele é também vítima de um sistema dos quais todos nós somos vítimas. A gente não deve colocar a culpa no indivíduo, a culpa é de um sistema de um imaginário de ódio às mulheres que deixa os indivíduos descompensados.
Esse cidadão rompeu com o bom senso, com a racionalidade, mas ele estava buscando a compensação.
Eu, como professora de Filosofia, acho que as pessoas não devem nesse momento achar que elas não têm nada a ver com isso. Elas têm algo a ver com isso, nós todos temos, porque todos nós participamos de uma cultura assim. Onde nós como cidadãos estamos errando? Esse cidadão pode fazer o que fez? Ele achou que estava acima da lei.

Muitas pessoas comentaram que o autor da chacina seria uma personificação dos comentários que se lê nas redes sociais - o discurso dele traz esses elementos de ódio que encontramos nas redes. Qual é o perigo de tornar "naturais" esses discursos?
A naturalização faz parte da história da cultura. O feminismo irrita porque ele é um questionamento do machismo naturalizado, estrutural. Então todo o questionamento relativo àquilo que foi naturalizado incomoda.
As naturalizações servem pra acobertar alguma coisa. Nesse caso, um sistema de privilégios dos homens. Nesse sistema de privilégios, os homens não querem olhar para uma mulher como alguém de igual para igual. Então esse indivíduo assassino olhava para mãe do seu filho como uma pessoa que não tinha direito nenhum, a reduzia a uma vadia. Ele se colocava como cidadão de bem, correto, de tão correto acima da lei.
A grande questão pra se colocar hoje é: como nós chegamos a essa ideia de que nós podemos fazer tudo o que a gente achar certo. Ele rebaixa a cidadã, mas rebaixa (também) a lei.
Mas ele não inventou isso sozinho. Ele é uma evidenciação, uma metonímia da sociedade nesse momento. É a parte que fala pelo todo.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/563669-assassino-de-campinas-atirou-sozinho-mas-nao-inventou-assassinato-de-mulheres-sozinho-diz-filosofa)

O Papa e os vereadores

Por Jaime Pinsky, historiador e editor, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp.
É significativo um Presidente da República cortar da lista de compras feita para abastecer o avião presidencial um sorvete importado e substitui-lo por um gelado nacional, mais barato? Tem algum sentido um prefeito iniciar o seu mandato antes da seis da manhã vestindo uniforme de gari, a bordo de uma vassoura, acompanhado por todo o seu secretariado? Muita gente escreveu tratar-se de atos, no mínimo inconsequentes, provavelmente demagógicos. Pode ser. Fica difícil acreditar que a limpeza realizada por garis destreinados remova muito lixo, ou que a simples troca de marca de sorvete do avião presidencial acabe com os problemas da economia brasileira.
Talvez seja ceticismo de minha parte, mas também não acredito que o uso de bicicleta pelo rei da Dinamarca acabe com o problema do aquecimento global. Na verdade, tenho até minhas dúvidas sobre a eficiência da cerimônia de lava pés que o Papa realiza anualmente como demonstração de humildade do líder do catolicismo romano se sobreponha à pompa que caracteriza outras suas aparições ao longo do ano. Contudo…
Contudo, temos ao lado de fatos históricos relevantes, outros que têm valor simbólico e que não são menos relevantes. Representações podem ter um efeito devastador. Não por acaso muitos governos (geralmente autoritários, mas não só eles) promovem desfiles em que exibem armas modernas e tropas marchando com precisão, com o objetivo de demonstrar poder e disciplina. Não por acaso políticos aparecem com roupas “do povo”, uniformes militares, vestimentas folclóricas, portando ou não gravatas e paletós, tudo em função de mensagens que desejam passar. Roupas, veículos, falas, gestos, referências, atitudes transmitem mensagens que, devidamente avaliadas por marqueteiros (e sociólogos, e linguistas), carregam objetivos políticos.
Não se pode subestimar o papel das representações. Seria um erro avaliá-las apenas como atos demagógicos. É evidente que o Papa quer passar a noção de que, mesmo em meio à opulência dos cerimoniais da Igreja romana, um bom católico não pode se esquecer de ser humilde, uma vez que, diante da divindade, todos são iguais. Muitos que vão pela primeira vez a um enterro judaico ficam surpresos ao ver a pobreza do caixão mortuário, de madeira fina, ou mesmo de papelão. Talvez ficassem escandalizados ao saber que todos os cadáveres, independente do sexo e dos bens que possuíam em vida,  são despojados de todas as suas roupas (e calçados), têm o corpo lavado e envolvido apenas em um lençol branco. A ideia, também, aqui, é mostrar humildade e igualdade diante da morte, mesmo para aqueles que viveram na opulência e esmagavam os mais pobres com a exibição exagerada de seu poder econômico. Isso resolve a vida de alguém? Não sei, mas é uma forma de passar valores, uma das principais funções das representações.
Prova de que representações tem enorme papel nas relações sociais está ocorrendo neste mesmo instante em São Paulo. A Câmara Municipal, no apagar das luzes do antigo mandato, votou um aumento salarial de 26,3%, para os vereadores da casa, de 15 mil para 19 mil reais, em números redondos. Foi um escândalo. Em um período de vacas magras, de desemprego, com todo mundo cortando onde pode e onde não pode o reajuste provocou revolta generalizada. Contudo…
Contudo, a bem da verdade, a proporção de elevação de um salário estável há quatro anos está abaixo da inflação registrada no quadriênio.  Um vereador que se dedique em tempo integral à sua atividade vai ter muito trabalho pela frente e 19 mil reais brutos não é um valor absurdo, considerando os considerandos. Por outro lado, é claro que não é no salário dos vereadores que as pessoas deveriam se apegar, mas no custo total dos prezados edis. Segundo a revista Exame, cada vereador gasta, mensalmente, mais de 130 mil reais do dinheiro público para pagar seus assessores que, frequentemente, não passam de cabos eleitorais trabalhando pela reeleição do seu chefinho.
Então, porque o bafafá todo? Mais uma vez, por conta da imagem que os vereadores acabam projetando. De sua representação. Nós, o povo, pensamos que se os homens públicos não estão se preocupando nem com sua imagem, está tudo perdido. Então, que os pés continuem sendo lavados pelo Papa e as calçadas varridas pelo novo prefeito de São Paulo.
Mas que não se fique só nisso…