domingo, 11 de junho de 2017

O mito do dinheiro encantado




O planeta é capaz de oferecer a todos uma vida digna — porém frugal. Mas continuamos acreditando que é justo atender, sem limites, os luxos de quem pode pagar por eles
Por George Monbiot | Tradução: Inês Castilho

Imagine projetar uma das nossas grandes cidades a partir do zero. Você logo descobriria que há espaço físico suficiente para magníficas praças, parques infantis, piscinas públicas, parques e reservas naturais urbanas, suficientes para dar conta das necessidades de todos. Por outro lado, você poderia destinar o mesmo espaço a uma pequena parte de sua população – os cidadãos ricos – que pode ter amplos jardins, talvez com sua própria piscina. A única maneira de assegurar espaço para ambos é permitir que as periferias se espalhem até a cidade tornar-se disfuncional – impossível de ser equipada com serviços eficientes, de modo a perder o sentido de coesão cívica e adquirir um rosnar permanente de tráfego: Los Angeles para todos.
Imagine projetar um sistema de transportes de longa distância para um país que não o possui. Você poderia descobrir que há espaço abundante para todos se deslocarem rápida e eficientemente, em trens e ônibus confortáveis (um ônibus intermunicipal pode transportar tantas pessoas quanto uma fila de carros de 1,6 km). Mas oferecer a mesma mobilidade com carros particulares requer um uso imenso de terra, concreto, metal e combustível. Pode ser feito, mas somente às custas de mudanças climáticas, poluição do ar, destruição de belos lugares e um atentado à tranquilidade da vizinhança e à vida em comunidade.
O conflito se repete em termos financeiros. Como os muito ricos podem pagar menos impostos, os parques infantis públicos estão caindo aos pedaços. Os privilegiados podem usar sobras de dinheiro e construir espaços privados para seus filhos brincarem. Os banheiros públicos estão fechados, para que algumas pessoas possam instalar torneiras banhadas a ouro em seus banheiros. Piscinas públicas têm seu funcionamento restrito a algumas horas, para que os muito ricos possam ter suas piscinas aquecidas. Museus de arte públicos precisam cobrar entrada para que bilionários possam ampliar suas próprias coleções. A riqueza que poderia ser compartilhada e usufruída por todos é sequestrada por poucos.
É impossível oferecer uma vida boa para todos garantindo espaço privado através de gastos privados. Tentativas de fazê-lo são altamente ineficientes, produzindo níveis ridículos de redundância e duplicação. Olhe para as estradas, onde indivíduos, cada qual encerrado numa tonelada de metal, cada qual ocupando 90 metros de pista, viaja em paralelo ao mesmo destino. A ampliação da riqueza pública cria mais espaço para todos; a expansão da riqueza privada o reduz, deteriorando mais cedo ou mais tarde a qualidade de vida da maioria das pessoas.
Essa é uma questão global, assim como nacional. De acordo com a Global Footprint Network (Rede Global de Pegada Ecológica), cada habitante do Reino Unido usa o equivalente a 5 hectares de terra e mar com os alimentos que comem, os produtos que usa e o carbono que libera, e que tem de ser absorvido em algum lugar se não quisermos que acelere o aquecimento global. Contudo, a “biocapacidade” do Reino Unido  (sua capacidade de absorver esses impactos) é de pouco mais de 1 hectare por pessoa. Esta extravagância gera um custo com que outros têm de arcar.
Comodidades públicas compartilhadas por todos, ou luxo privado disponível para poucos: essa é a escolha que enfrentamos o tempo todo, mas especialmente nestas eleições. É o conflito entre essas duas visões que define, ou deveria definir, nossas escolhas políticas. Há uma diferença significativa entre Trabalhistas e Conservadores a esse respeito, mas eu gostaria que ela fosse mais profunda.
O Partido Trabalhista, por meio da proposta de um fundo de capital cultural, irá reinvestir em galerias e museus públicos. Irá defender e expandir nossas bibliotecas, centros da juventude, quadras de futebol, ferrovias e serviços de ônibus locais. Ao contrário do Manifesto Conservador, quase silencioso sobre o assunto, sua plataforma oferece uma lista razoável de medidas de proteção à vida.
Mas também promete “continuar a melhorar nossas autoestradas” (logo depois da promessa de “encorajar e capacitar as pessoas para deixar de usar os seus carros”) e prover nova capacidade aeroportuária. O progresso no século 21 deveria ser medido menos pela infraestrutura que construímos do que pela infraestrutura prejudicial que dispensamos.
Os trabalhistas também perdem excelente oportunidade, em seus planos para expandir moradias acessíveis, de promover um tipo de acomodação que restabelece a comunidade e faz melhor uso do espaço. No sistema de cohousing (co-lares), as pessoas possuem ou alugam suas próprias casas, mas compartilham o resto do espaço. Em vez de picotar o espaço disponível em jardins do tamanho de um caixão, onde uma criança não consegue fazer uma estrela sem trombar com a cerca, as crianças têm espaço para correr juntas, e os adultos podem cuidar do jardim enquanto conversam. Lavanderias comunitárias liberam espaço para as casas das pessoas. Carros compartilhados reduzem a necessidade de estacionamentos. O isolamento dá lugar à convivialidade.
Mais importante, e menos surpreendente, o manifesto trabalhista não consegue reconhecer o grande dilema da esquerda: o dano ambiental causado pelos esforços para criar empregos por meio de crescimento econômico. Como os conservadores, como quase todos os partidos em todos os lugares (os verdes são uma notável exceção), a visão econômica do Partido Trabalhista é baseada no pressuposto de que não há limites.
Já o partido Conservador e  o Social Democrata veem o mundo como um manjar mágico que nunca será exaurido. Constroem seus programas econômicos com base num conto de fadas. Eles têm em comum uma outra premissa a ser considerada: a de que o dinheiro tem legitimidade para comprar o poder de tirar do mundo o que você quiser. Existe na política uma suposição quase universal de que, se você pode pagar, tem o direito de servir-se à vontade da maior parte dos bens comuns globais (atmosfera, solo, água, peixes), embora isso reduza o que sobra para outras pessoas dividirem. Você tem o direito de ocupar tanto espaço quanto seu dinheiro pode comprar, a despeito das restrições que isso imponha aos outros.
De onde vem essa licença? Ainda que a riqueza privada fosse obtida por meio do exercício da virtude (proposição improvável, na melhor das hipóteses) ou através de um empreendimento e trabalho duro (ainda mais improvável, nesta nova era de herança e renda), seria difícil identificar o princípio que converte esse dinheiro em permissão para adquirir o espaço e os recursos dos quais outras pessoas dependem para uma qualidade de vida decente. Quando e por quem foi garantida essa permissão? Como ela corresponde a nossa noção de direitos iguais, ou nosso conceito de democracia, que é baseado em igual poder de decisão?
Você não verá essas questões serem debatidas nesta eleição, ou em qualquer outra. Eles estão corrompidas pela crença mágica de que há espaço e recursos suficientes para todo mundo fazer o que quer; de que o crescimento infinito garante que ninguém – quando as promessas econômicas do partido são cumpridas – precisará se intrometer nos interesses dos outros. Contudo, neste planeta finito, essas são as questões que irão determinar não apenas a qualidade de nossas vidas mas também nossa segurança e, ao final, nossa sobrevivência. A tarefa primordial de todos os políticos de visão deveria ser decidir, primeiro, o quanto podemos usar, e então qual a melhor maneira desse tanto ser compartilhado.
Quando as questões que importam mais que todas as outras estão além do âmbito da política, quando quase todo o mundo na vida pública é muito cego ou muito medroso para enfrentá-las, quando – mesmo na grande e definidora eleição do Reino Unido, que finalmente oferece às pessoas uma escolha política significativa – nenhum grande partido consegue sequer nomear essas questões, começamos a perceber o tamanho da encrenca em que estamos metidos.

“Saudi first!”: a primeira viagem internacional do presidente Trump



Reflexões sobre os sentidos que a visita do presidente dos EUA a Arábia Saudita representa para a relação entre os países e o combate ao terrorismo 
Por Elcineia Castro

Na semana passada, no dia 20 de Maio, o The New York Times publicou uma matéria sobre a visita do presidente Donald Trump à Arábia Saudita, afirmando logo no título, que as boas-vindas dos sauditas a ele foi uma mensagem de rejeição à visão do ex-presidente Barack Obama sobre o Oriente Médio. Foi a primeira vez que um presidente norte-americano escolheu a Arábia Saudita, Israel e Vaticano como as três primeiras paradas de sua primeira viagem internacional, além de Bélgica e Itália posteriormente. Outros presidentes visitaram o Canadá ou o México em sua primeira viagem ao exterior. O discurso do presidente Donald Trump e o contexto em que o mesmo se deu, exigem um olhar mais atento, que muitas vezes passa despercebido em meio a um conjunto disperso de tantas informações sobre o evento. Existem dois contextos, que precisam ser considerados: dos Estados Unidos com o presidente Donald Trump e o da Arábia Saudita na expectativa sobre como será mantido a relação entre os dois países.
A intenção da administração do presidente Trump, logo em sua primeira viagem internacional, foi reafirmar a influência norte-americana sobre as três maiores religiões do mundo: islamismo, judaísmo e cristianismo e trabalhar com a ideia de unidade entre as religiões sob a liderança norte-americana. A viagem à Arábia Saudita foi algo inédito apenas por ter sido a primeira vez na história dos presidentes, já que a relação especial dos Estados Unidos com a Arábia Saudita é de longa data. A parceria entre os dois países, começou com o presidente norte-americano Franklin Roosevelt e o rei Abdul Aziz (pai do atual rei Salman) a bordo do navio USS Quincy, no dia 14 de fevereiro de 1945. Fato relembrado pelo presidente Donald Trump durante seu discurso, inclusive. De lá para cá, a parceria entre os dois países continuou duradoura. No entanto, ao final da gestão do ex-presidente Barack Obama, a Casa Saud vinha demonstrando descontentamento com algumas ações da política externa norte-americana para o Oriente Médio, a saber: aproximação do então presidente Barack Obama com o Irã (rival regional da Arábia Saudita); redução do envolvimento dos Estados Unidos na região – resistência à intervenção na Síria e, por fim, em setembro do ano passado, o Congresso norte-americano derrubou o veto do Presidente, que impedia os familiares das vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001 processarem o Estado da Arábia Saudita, já que a maioria dos terroristas envolvidos era de nacionalidade saudita. Esses atos davam mostras de que a relação especial poderia estar se desgastando.
Diante desse cenário, favorável para o presidente Trump, seu tom islamofóbico, tão evidente na ordem executiva que ele assinou recentemente, em que bloqueava temporariamente visitantes de países muçulmanos em território norte-americano, parece que foi simplesmente deixado de lado. A intenção agora é criar um frente de cooperação entre os Estados sunitas para conter o Irã e sua intervenção na Síria. A justificativa do governo de Donald Trump para esta ação está na contenção do extremismo através do ISIS (Estado Islâmico) e da Al-Qaeda. E a outro objetivo deste plano de ação é promover e estimular o processo de paz entre Israel e Palestina.
Do outro lado, a monarquia da Arábia Saudita, que permanecia na expectativa sobre como seria seu relacionamento com o novo presidente dos Estados Unidos, já que necessita de seu apoio para enfrentar seu rival regional, o Irã. Assim que a Casa Branca anunciou que a Arábia Saudita seria a parada inicial da primeira viagem internacional do Presidente Donald Trump, os jornais locais publicaram matérias e anúncios sobre a notícia, com a foto do Presidente Donald Trump ao lado do rei Salman os slogans “Saudi first” e “Together we prevail”. No site oficial do Estado saudita, foi feita a contagem regressiva em árabe e em inglês, contando as horas e minutos para a chegada do presidente norte-americano. Foram distribuídos cartazes pelas ruas de Riade com a foto do rei e presidente juntos, sempre com o slogan “Together we prevail”. Os sauditas organizaram 3 reuniões abertas para os dois dias que o Presidente e sua comitiva estariam no país: 1) Reunião com o Rei Salman e os Príncipes Seniors; 2) Reunião com os chefes dos Estados-membros do Conselho de Cooperação do Golfo Pérsico (CCG) e 3) Reunião Árabe Islâmica Americana, organizada pela Arábia Saudita, que reuniu líderes e ministros de 50 países muçulmanos. Além disso, a sociedade civil destes países estava se preparando para o Ramadã, que iniciaria na semana seguinte, no dia 27 de Maio. Este é o 9° mês do calendário islâmico, no qual os fiéis acreditam que o Profeta Maomé recebeu a revelação da parte de Allah dos primeiros versos alcorânicos. O jejum do Ramadã é um dos cinco pilares da fé islâmica e caracteriza-se por ser um período em que o caráter religioso tem grande ou total peso em todas as percepções externas do seguidor do Islã, pois ele irá se concentrar para renovar seus votos e fé. Ou seja, o tema Islã na região neste período é muito notório nos Estados muçulmanos.
Depois de explorar brevemente os principais contextos dos Estados Unidos e Arábia Saudita, compreende-se a acentuada mudança nas percepções e, consequentemente, no discurso do presidente Trump. Ele agradeceu ao Rei Salman pelos investimentos em solo norte-americano e pelo seu empenho em trazer desenvolvimento para Arábia Saudita e região. Afirmou que o país tem todos os ingredientes para alcançar um sucesso extraordinário. Em momento algum usou a palavra petróleo ou qualquer termo relacionado ao abastecimento energético, considerando que a matéria-prima saudita ainda é a melhor para exploração e utilização, ou seja, a capacidade produtiva saudita é a mais elevada do mundo. Contudo, usou repetidamente as palavras segurança, armas, contratos bilionários (o acordo de armas firmado entre os dois países tem o valor de 350 bilhões de dólares), extremismo, unidade e Deus. Todas as vezes que falou sobre terrorismo e terroristas, fez questão de evidenciar que eles pertencem a um grupo separado dos muçulmanos, que estão à margem da sociedade árabe. Acusou o Irã de ser responsável pela instabilidade na região, por financiar e recrutar terroristas.
O acordo de armas no valor total de US$350 bilhões que o presidente Donald Trump firmou com a Arábia Saudita, cobrirá um período de 10 anos. Sendo que, aproximadamente US$110 bilhões já serão utilizados durante este ano. Isso porque, de acordo com declaração do Departamento de Estado dos Estados Unidos no dia 20 de Maio, o pacote de defesa, que compreende armas, equipamentos, serviços de treinamento e apoio à segurança interna e externa saudita servirá de apoio diante das ameaças que o Irã tem trazido à região do Golfo. Além disso, afirmam que com este Acordo, o reino Saudita irá aumentar sua capacidade e garantir mais segurança interna e ao mesmo tempo, continuará contribuindo com as operações de combate ao terrorismo, diminuindo a responsabilidade das forças militares norte-americana na região. Na realidade, este acordo está sendo apenas renovado, mesmo que em maiores proporções, mas sempre existiu. A diferença é que desta vez, ambas as partes estão em plena sintonia de interesses, se comparado ao governo do ex-presidente Barack Obama. Aliás, no dia 14 de março, o maior porta-voz da Arábia Saudita em Washington, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman se encontrou com o Presidente Donald Trump para um almoço na Casa Branca, inicialmente era pra ser um rápido e formal encontro. No entanto, combate ao terrorismo, Irã, conflito no Iêmen, ISIS (Estado Islâmico) e outros temas acabaram se convertendo em horas de uma longa conversa. Além do grande Acordo de Armas firmado entre os países, houve um grande Fórum fechado ao público no dia 20, que reuniu executivos e empresários norte-americanos e sauditas e que, também foi finalizado com diversos acordos bilionários. Vale destacar a carta de intenção assinada pela maior fábrica de produtos militares do mundo, a Lockheed Martin no valor de US$6 bilhões referentes aos 150 helicópteros Black Hawk que serão entregues em território saudita. E a General Electric, outra empresa gigante de serviços e tecnologia, que anunciou projetos com a Arábia Saudita avaliados em US$15 bilhões.
O presidente Donald Trump quer formar uma nova coalizão no Oriente Médio, vislumbrando apresentar-se como líder dos países sunitas. A reunião entre os Estados-membros do Conselho de Cooperação do Golfo Pérsico é um sinal claro da intenção do Presidente Donald Trump, que quer distanciar-se ao máximo das políticas do ex-presidente Barack Obama. E o Estado da Arábia Saudita pode ser um parceiro estratégico de grande relevância neste cenário, em função do que representa politicamente e ideologicamente na região, através da religião principalmente. E para que essa nova postura tão conciliadora adotada pelo presidente frente ao Islã e seus seguidores, possa convencer e conquistar adeptos, ele mudou seu discurso da água para o vinho e foi proferi-lo no local mais sagrado para os muçulmanos e no período do Ramadã, quando todos estão mais voltados ao viés religioso. Essa mudança tão radical no discurso até então, xenófobo e islamofóbico, do presidente Donald Trump, demonstra claramente que as questões pragmáticas são capazes de prevalecer até sobre as convicções e percepções mais enraizadas.

(fonte: http://outraspalavras.net/terraemtranse/2017/06/01/saudi-first-primeira-viagem-internacional-do-presidente-trump/)

sábado, 3 de junho de 2017

Boletim 15 do Café História

acesse: http://www.cafehistoria.com.br/newsletter/boletim-cafe-historia-edicao-15/
O ensino de História Regional nas escolas
Em tempos de reformas educacionais profundas e apressadas no Brasil, como o Novo Ensino Médio e a Base Nacional Comum Curricular, a História Regional mantém o seu vigor. Clique aqui para ler. 

 


 

Pesquisa investiga relação entre lideranças angolanas e os portugueses no comércio atlântico de escravos

Professora do Departamento de História da UFAL coordena a pesquisa.

Inscrições abertas para o 1º Simpósio Eletrônico de História Oriental


Evento, que é gratuito e online, acontece entre 9 e 13 de outubro de 2017.
 

Um guia para compreender a quarta Revolução Industrial


 
Eis a resenha.
 

A 4ª Revolução Industrial já está entre nós

O livro A quarta revolução industrial é apresentado por seu autor como “porta de entrada” e “guia” para a compreensão das implicações econômicas, política e social da quarta Revolução Industrial. O autor assim define o seu objetivo com a obra: “Minha intenção é oferecer uma cartilha sobre a quarta revolução industrial: O que é? O que gerará? Que impactos causará a nós?”
Na opinião de Schawb já está em curso a quarta Revolução Industrial. Segundo ele, alguns acadêmicos e profissionais consideram que a inovações tecnológicas em curso - inteligência artificial, robótica, internet das coisas, veículos autônomos, impressão em 3D, nanotecnologia, biotecnologia, armazenamento de energia e computação quântica – são somente mais um aspecto da terceira Revolução Industrial. Três razões, no entanto, sustentam para o autor a convicção da ocorrência de uma quarta e distinta revolução: a velocidade, profundidade e impacto sistêmico que a conduz.
Revoluções produtivas desencadeiam alterações profundas no modo de produzir e por extensão nas estruturas sociais e econômicas. Mudam radicalmente as sociedades. Deixaram para trás um modelo – uma forma e uma visão – de vida e de mundo que não retorna mais. Para Schwab é isso que está acontecendo.
Ele cita as revoluções anteriores para dar força ao seu argumento. A Revolução Agrícola (10 mil anos atrás) se fez possível pelas inovações tecnológicas que permitiram domesticar a terra; a 1ª Revolução Industrial (1760 e 1840) foi possível graças à máquina a vapor e ferrovias; a 2ª Revolução Industrial (final do séc. XIX) pelo advento da eletricidade e da linha de montagem; a  (década de 60) em função da revolução digital, do computador.
Agora, nessa virada de século, iniciamos a 4ª Revolução Industrial e como nas revoluções anteriores, inovações tecnológicas a impulsionam: inteligência artificial, robótica, internet das coisas, veículos autônomos, impressão em 3D, nanotecnologia, biotecnologia, armazenamento de energia. “O que torna a quarta revolução industrial fundamentalmente diferente das anteriores é a fusão de tecnologias e a interação entre os domínios físicos, digitais e biológicos”, afirma o autor.
A premissa é de que a quarta revolução irá mudar tudo. Segundo o autor, a velocidade das inovações e seus impactos são gigantescos. Para dar números de sua grandiosidade cita o fato de que na década de 1990, pouco tempo atrás, as três grandes de Detroit valiam no mercado US$ 36 bilhões e empregavam 1,2 milhões de trabalhadores. Hoje, as três maiores do Vale do Silício valem US$ 247 bilhões e empregam apenas 137 mil trabalhadores.
Assistimos, diz ele, a disruptores que evidenciam o caráter vertiginoso das mudanças: Airbnb, Uber, Alibaba, Google (carro autônomo), WhatsApp são manifestações de algo recentíssimo. O capitalismo está mudando: “O Uber, a maior empresa de táxis do mundo, não possui sequer um veículo. O Facebook, o proprietário de mídia mais popular do mundo, não cria nenhum conteúdo. Alibaba, o varejista mais valioso, não possui estoques. E o Airbnb, o maior provedor de hospedagem do mundo, não possui sequer um imóvel”, destaca Tom Goodwin citado por pelo autor.
Schwab faz um alerta: “A questão para todas as indústrias e empresas, sem exceção, não é mais ‘haverá ruptura em minha empresa?’, mas ‘quando ocorrerá a ruptura, quanto irá demorar e como ela afetará a mim e a minha organização?’”.

As megatendências da 4ª Revolução Industrial

Quais são as tecnologias que irão impulsionar a quarta Revolução Industrial? Segundo o autor, situam-se em três categorias: física, digital e biológica e todas as três estão inter-relacionadas.
Na categoria física, as quatro principais manifestações são: veículos autônomos, impressão em 3D, robótica avançada e novos materiais.
Veículos autônomos diz respeito a carros, caminhões, aviões, barcos e drones que sem condutor serão capazes de executar várias tarefas. Impressão 3D: Consiste na fabricação de um objeto por impressão, camada sobre camada, de um modelo ou desenho digital em 3D. O processo é o oposto da fabricação substrativa, isto é, a forma como os objetos foram construídos até agora: as camadas são removidas de um bloco de material até que a forma desejada seja obtida. Por contraste, a impressão em 3D começa com um material desarticulado e, em seguida, cria um objeto em três dimensões por meio de modelo digital. Robótica avançada: Superação de tarefas rígidas e interação. Avanço de sensores que capacitam os robôs a compreenderem melhor o seu ambiente e empenharem-se em tarefas variadas. Novos materiais: Mais leves, mais fortes, recicláveis e adaptáveis. Destacam-se aqui os nanomateriais como o grafeno (200 vezes mais forte que o aço, milhões de vezes mais fino que um cabelo humano e eficiente condutor de calor e eletricidade).
A categoria digital, diz respeito a Internet das coisas – IdC - relação entre as coisas serviços e pessoas através de plataformas digitais – aplicativos, a possibilidade de rastreamento, monitoramento de produtos e também de pessoas.
Na categoria biológica, o autor destaca as inovações no campo da biologia, particularmente na genética. Cita os avanços gigantescos no seqüenciamento genético. Destaca que o projeto genoma levou dez anos para ser concluído a um custo de US$ 2,7 bilhões. Hoje, um sequenciamento de genoma é feito em poucas horas e custa menos de US$ 1 mil. O próximo passo, diz ele, é a biologia sintética capaz de modificar organismos já existentes, alterando seus códigos genéticos possibilitando a criação de organismos personalizados. Os cientistas esperam criar micróbios que possam combater o câncer e outras doenças para as quais ainda não temos cura (medicina de precisão). Outra área é a da engenharia genética, a capacidade de interferir e modificar seres vivos (animais, plantas) e adaptá-los a condições adversas. Situa-se aqui a possibilidade do xenotransplantes, a recriação de órgãos.

Os pontos de inflexão. As coisas já estão acontecendo

Klaus Schwab destaca 21 pontos de inflexão já em curso na sociedade mundial que manifestam o caráter disruptivo da 4ª Revolução Industrial. Esses pontos estão ancorados numa pesquisa realizada com 800 executivos de todo o mundo para avaliar as expectativas com as mudanças. Os resultados se encontram no relatório ‘Mudança Profunda – Pontos de Inflexão Tecnológicos e Impactos Sociais’ publicado em setembro de 2015 e apresentado no livro.
Destacamos aqui alguns pontos:
Tecnologias implantáveis
O ponto de inflexão: o primeiro telefone celular implantável e disponível comercialmente;
Até 2025: 82% dos entrevistados esperam que este ponto de inflexão ocorra
Do que se trata: dispositivos implantados no corpo permitindo a comunicação, localização, monitoramento (saúde);
A visão como uma nova interface
O ponto de inflexão: 10% de óculos de leitura conectados à internet.
Até 2025: 86% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.
Do que se trata: Óculos, lentes/fones de ouvido e dispositivo de rastreamento podem se tornar ‘inteligentes’ e levar os olhos e a visão a se tornarem a conexão com a internet e os dispositivos conectados.
Tecnologia vestível
O ponto de inflexão: 10% das pessoas com roupas conectadas à internet.
Até 2025: 91% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.
Do que se trata: As tecnologias que se encontram nos celulares estar integrada em roupas e acessórios (ex. baba eletrônica vestível – pais sendo substituído pelos sensores).

Armazenamento de dados para todos
O ponto de inflexão: 90% das pessoas com armazenamento de dados ilimitados e gratuito.
Até 2025: 91% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.
Do que se trata: usuários terão acesso a plataformas (nuvens) para armazenar os seus dados gratuitamente sem se preocupar em ‘apagar’ para liberar mais espaço.
A internet das coisas e para as coisas
O ponto de inflexão: 1 trilhão de sensores conectados à internet.
Até 2025: 89% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.
Do que se trata: Sensores inteligentes para monitorar ‘tudo’ conectado à internet – percepção do ambiente de forma integral.

A casa conectada
O ponto de inflexão: 50% do tráfego da internet consumida nas casas e aparelhos dispositivos.
Até 2025: 71% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.
Do que se trata: Controle da energia, ventilação, ar-condicionado, áudio e vídeo, eletrodomésticos, sistema de segurança, robôs para serviços.
Cidades inteligentes
O ponto de inflexão: A primeira cidade com mais de 50 mil pessoas e sem semáforos.
Até 2025: 64% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra
Do que se trata: cidades conectarão serviços, redes públicas e estradas à internet.
Big data e as decisões
O ponto de inflexão: O primeiro governo a substituir o censo por fontes de big data.
Até 2025: 83% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.
Do que se trata: coleta e automatização de dados para servir cidadãos e clientes.
Carro sem motorista
O ponto de inflexão: Carros sem motoristas chegarão a 10% de todos os automóveis em uso nos EUA.
Até 2025: 79% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.
Do que se trata: carros que dispensam o motorista, mais eficientes e seguros.

A inteligência artificial (IA) e a tomada de decisões
O ponto de inflexão: A primeira máquina de IA a fazer parte de um conselho de administração.
Até 2025: 45% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.
Do que se trata: armazenamento de dados e informações que auxiliam nas decisões complexas (algoritmos).
Robótica e serviços
O ponto de inflexão: O primeiro farmacêutico robótico dos EUA.
Até 2025: 86% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.
Do que se trata: robôs agilizando as cadeias de fornecimento.
Bitcoins e blockchain
O ponto de inflexão: 10% do PIB armazenado pela tecnologia de blockchain.
Até 2025: 58% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.
Do que se trata: moedas e transações digitais.
Economia compartilhada
O ponto de inflexão: globalmente, mais viagens/trajetos por meio de compartilhamento do em carros particulares.
Até 2025: 67% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.
Do que se trata: compartilhamento e uso de um bem/ativo físico
Ex – uso do carro em comum, da casa... etc
Impressão em 3D e fabricação
O ponto de inflexão: a produção do primeiro carro em 3D.
Até 2025: 84% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra
Do que se trata: Produtos complexos sem equipamentos complexos.
A impressora 3D utilizando plástico, alumínio, aço inoxidável, ligas de cerâmica simultaneamente em processo de fabricação aditiva.
Impressão em 3D e saúde humana
O ponto de inflexão: o primeiro transplante de um fígado impresso em 3D.
Até 2025: 76% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.
Do que se trata: utilização de material específicos para produzir órgãos a partir de um modelo digital.
Impressão em 3D e produtos de consumo
O ponto de inflexão: 5% dos produtos aos consumidores impressos em 3D.
Até 2025: 81% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.
Do que se trata: impressão de eletrodomésticos, por exemplo, feitos por qualquer um que tenha uma impressora.
Seres projetados
O ponto de inflexão: nascimento do primeiro ser humanos cujo genoma foi direta e deliberadamente editado.
Do que se trata: o barateamento do seqüenciamento do genoma humano possibilita e a expansão de experimentos.
Neurotecnologias
O ponto de inflexão: O primeiro humano com memória totalmente artificial implantada no cérebro.
Do que se trata: monitorar e comandar a atividade do cérebro.

Impactos da quarta Revolução Industrial

Mercado de trabalho
Na escala e amplitude, a atual revolução tecnológica irá desdobrar-se em mudanças econômicas, sociais e culturais de proporções tão fenomenais que chega ser quase impossível prevê-las, alerta Klaus Schwab.
Particularmente, no mundo do trabalho, a 4ª Revolução Industrial será devastadora. O autor comenta que há duas posições em debate: Aqueles que acreditam num final feliz (trabalhadores deslocados pela tecnologia encontrarão novos empregos desencadeados pelas novas tecnologias) e aqueles que vêem um processo crescente de destruição de empregos. O que está claro é que a onda de inovações irá alterar profundamente a estrutura ocupacional.
Um estudo da Oxfam Martin School afirma que os efeitos das inovações tecnológicas afetará 702 profissões. O estudo aponta ainda que 47% do emprego total nos EUA está em risco, ou seja, sofrerá profunda transformação. Haverá alteração também da remuneração: cargos criativos e cognitivos de altos salários e ocupações manuais de baixos salários. Muitas relações de trabalho serão alteradas (no sentido de mudança do padrão do emprego tradicional). Cada vez um número maior de empregadores utilizará a ‘nuvem humana’ – trabalhadores que podem ser localizados em qualquer parte do mundo para resolução de problemas e projetos. As vantagens são a flexibilidade no trabalho, tempo e local. As desvantagens, porém, é de que se trata de trabalho não regulamentado.
Uma coisa é certa, ainda não é possível prever o que exatamente acontecerá, mas o talento, mais que o capital, representará o fator crucial de produção, diz Schwab. Teremos um mercado de trabalho cada vez mais segregado em segmentos de baixa competência/baixo salário e alta competência/alto salário. A quarta revolução industrial exigirá e enfatizará a capacidade dos trabalhadores em se adaptar continuamente e aprender novas habilidades.
Negócios
Teremos um grande impacto sobre como as empresas deverão ser lideradas, organizadas e administradas. Segundo Schwab, a capacidade do líder de continuamente aprender, adaptar-se e desafiar os seus próprios modelos conceituais e operacionais de sucesso é o que irá distinguir a próxima geração de lideres comercial bem sucedido.
A quarta Revolução Industrial obrigará as empresas a imaginar o funcionamento prático entre os mundos off-line e on-line e estabelecer parcerias, principalmente com aquelas que estão na ponta do capitalismo cognitivo. Por exemplo, a parte eletrônica de um carro hoje já custa 40% do seu valor.
Essa revolução exigirá também que as empresas consigam combinar as dimensões digitais, físicas e biológicas. O exemplo bem sucedido nesse caso é o Uber: “A popularidade do aplicativo Uber começa com a melhor experiência do cliente – acompanhamento da posição do carro através de um dispositivo móvel, uma descrição dos padrões do carro e um processo de pagamento dinâmico, evitando atrasos para chegar ao destino”. Temos aqui a combinação dos bens digitais com o físico e o biológico (aplicativo-carro-pessoa).
A questão central colocada para as empresas com a chegada da quarta Revolução Industrial, segundo o autor: “Empresas, indústrias e corporações enfrentarão pressões darwinianas contínuas e, como tal, a filosofia para sempre na versão beta (sempre evoluindo) vai se tornar mais predominante”.
Nacional e Global
Os impactos da quarta Revolução Industrial no mundo da política. Os governos – nacionais, regionais e locais – precisam se reinventar encontrando novas formas de colaboração com os seus cidadãos e o setor privado. Essa revolução coloca em perspectiva a situação de ‘lidar’ com o empoderamento dos cidadãos. Citando Moisés Naím: “No sec. XXI, será mais fácil chegar ao poder, mas difícil usá-lo e mais fácil perdê-lo”.
Como exemplo é mencionado o WikiLeaks, o confronto entre uma entidade não estatal e minúscula e um Estado gigantesco. O autor, porém, faz um alerta, as tecnologias que podem empoderar o cidadão também podem vigiá-lo.
A quarta Revolução Industrial terá um impacto profundo sobre a natureza dos estados e a segurança internacional, destaca o autor. Estamos diante da possibilidade da guerra cibernética; dos robôs voadores (drones); de armas autônomas que atacam alvos de acordo com critérios pré-definidos; da real militarização espacial – nova geração de armas hipersônicas (12 mil km); de dispositivos vestíveis – produção de exoesqueletos que melhoram o desempenho dos soldados; da fabricação aditiva; da reposição de peças no lugar do conflito; de energias renováveis, a produção de energia no local sem necessidade de deslocamento ou abastecimento remoto.
Ainda mais, os avanços na nanotecnologia permitirão armas mais leves, móveis e inteligentes e aumentarão os riscos de armas biológicas: armas letais que podem se propagar pelo ar; de armas bioquímicas: armas do tipo ‘faça você mesmo’. Há ainda o desenvolvimento de neurotecnologias para uso de fins militares. Computadores ligados ao cérebro ou partes do corpo que poderão desenvolver o soldado biônico. “O cérebro será o próximo campo de batalha”, afirma James Giordano, citado pelo autor.
Destaca também o crescente uso da ‘mídia social’, plataformas digitais para recrutamento de ‘militantes’. Como exemplo tem-se o Estado Islâmico do Iraque e da SíriaISIS em inglês.
Sociedade-Comunidade-Indivíduo
Na opinião de Klaus Schwab, a quarta Revolução Industrial poderá levar a um aumento da desigualdade. Lembra que metade dos ativos do mundo é hoje controlado por 1% (os mais ricos) da população mundial, enquanto a metade mais pobre da população mundial possui em conjunto menos de 1% da riqueza global. Há uma tendência que a riqueza continue concentrada, uma vez que o domínio das inovações tecnológicas estará e será controlada por um pequeno grupo de empresas.
A quarta revolução industrial, por outro lado, não está mudando apenas o que fazemos, mas também o que somos. Estamos frente ao surgimento da sociedade centrada no indivíduo. “Ao contrário do passado, a noção de pertencer, de fazer parte de uma comunidade, é hoje definida pelos interesses e valores individuais e por projetos pessoais que pelo espaço (comunidade local), trabalho e família”, destaca o autor.
Schwab destaca estudo do MIT em que 44% dos adolescentes nunca se desplugam, mesmo ao praticar esportes ou durante a refeição com a família e amigos. “As interrupções freqüentes dispersam nossos pensamentos, enfraquecem nossa memória e nos deixam tensos e ansiosos”, afirma Nicholas Carr, escritor de tecnologia e cultura, citado pelo autor.
Por outro lado, a revolução industrial está redefinindo o que significa ser humano. Crianças podem ser feitas sob encomendas? Podemos nos livrar de doenças? Viver mais tempo? Ser mais inteligente? Correr mais rápido? Ter certa aparência?, pergunta o autor. Isso é desejável? Quais são as implicações éticas?

O caminho a seguir – Epílogo

Concluindo o livro, o autor expressa a sua posição sobre a quarta revolução industrial: Segundo ele, “o eventual curso tomado pela quarta revolução industrial será, em última instância, determinado por nossa capacidade de moldá-lo de modo que ela desencadeie todo o seu potencial (...) os desafios são assustadores como as oportunidades convincentes. Juntos, devemos trabalhar para transformar esses desafios em oportunidades, ao nos prepararmos de forma adequada – e proativa – para seus efeitos e impactos”.
Sugere que “assumamos uma responsabilidade coletiva por um futuro em que a inovação e a tecnologia estejam focadas na humanidade e na necessidade de servir ao interesse público, e estejamos certos de empregá-las para conduzir-nos para um desenvolvimento mais sustentável”.
Finalmente, conclui: “Acredito firmemente que a nova era tecnológica, caso seja criada de forma ágil e responsável, poderá dar início a um novo renascimento cultural que irá permitir que nos sintamos parte de algo muito maior que nós mesmos – uma verdadeira civilização global”.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/568153-um-guia-para-compreender-a-quarta-revolucao-industrial)

Cinco efeitos globais da saída dos EUA do Acordo de Paris

O presidente Donald Trump anunciou nesta quinta-feira que os Estados Unidos abandonarão o Acordo de Paris, alegando que o pacto climático "é desvantajoso" para os interesses da economia e dos trabalhadores americanos.
A reportagem é de Matt McGrath e publicada por BBC Brasil, 01-06-2017.

Trump afirmou que o acordo beneficia outros países em detrimento dos interesses americanos e que tentará renegociar uma nova entrada no pacto com termos sejam "justos com o povo americano". Segundo ele, os termos atuais levam ao fechamento de fábricas americanas e à exportação de empregos da indústria carvoeira para outros países.
Para críticos, porém, ao deixar o acordo, os EUA estarão abdicando de ocupar um papel de liderança em um tema de relevância global.
Assinado há um ano e meio na capital francesa por 195 de 197 países (as exceções são Síria e Nicarágua) na Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas, o Acordo de Paris tem como objetivo manter o aumento das temperaturas médias globais "muito abaixo" dos 2°C em relação à era pré-industrial.
Esse é o ponto a partir do qual cientistas afirmam que o planeta estaria condenado a um futuro sem volta de efeitos devastadores, como elevação do nível do mar, eventos climáticos extremos (como secas, tempestades e enchentes) e falta de água e alimentos.
A assinatura do acordo, em 2015, foi histórica por unir, pela primeira vez, quase todos os países do mundo em um pacto voltado às mudanças climáticas.
Mas o que a saída dos EUA do Acordo de Paris significará para o resto do mundo?

1. O acordo fica mais fraco

Não há dúvidas de que a ausência dos EUA dificulta o cumprimento das metas estabelecidas pelas nações globais no Acordo de Paris - sobretudo impedir que a temperatura global suba mais de 2ºC. Em 2016, registrou-se no mundo um nível recorde de emissões de dióxido de carbono, algo que especialistas chamaram de "uma nova era" de aquecimento global e "prova irrefutável" da responsabilidade humana sobre as mudanças climáticas.
O acordo parisiense prevê limites à emissão de gases do efeito estufa e que países ricos ajudem os mais pobres financeiramente a se adaptar às mudanças climáticas e na adoção de energias renováveis. Os EUA contribuem com cerca de 15% das emissões globais de carbono, mas ao mesmo tempo é uma importante fonte de financiamento e tecnologia para países em desenvolvimento em seus esforços para combater o aquecimento global.
Outra questão é a da "liderança moral" da qual os EUA abdicarão ao deixar de lado o acordo climático - algo que pode ter consequências no âmbito diplomático. O ambientalista Michael Brune, diretor-executivo do grupo Sierra Club, considerou o recuo americano "um erro histórico que será analisado por nossos netos com decepção e surpresa sobre como um líder global conseguiu estar tão distante da realidade e da moralidade".

2. A China ganha protagonismo

China e Estados Unidos foram atores cruciais na consolidação do acordo climático. O ex-presidente Barack Obama e seu par chinês, Xi Jinping, entraram em consenso quanto à criação de uma "ambiciosa coalizão" com pequenos países insulares e a União Europeia.
A China apressou-se em reafirmar seu compromisso com o acordo parisiense, e espera-se um comunicado conjunto de Pequim e União Europeia nesta sexta-feira prometendo maior cooperação no corte de emissões de carbono. "Ninguém deveria ficar para trás, mas a UE e a China decidiram andar para frente", disse o comissário climático da União Europeia, Miguel Arias Cañete.
É possível também que, além de aumentar o protagonismo chinês, a decisão americana abre espaço para que Canadá e México ascendam como "players" significativos nas Américas no esforço de impedir o aumento das temperaturas globais.

3. Lideranças empresariais globais se sentirão contrariadas

Líderes corporativos americanos formaram uma das mais fortes vozes em favor da permanência dos EUA no Acordo de Paris. Centenas de empresas como Google, Apple e até mesmo produtoras de combustíveis fósseis como Exxon Mobil haviam pedido a Trump que se mantivesse nas negociações climáticas.
Darren Woods, executivo-chefe da Exxon, escreveu uma carta pessoal a Trump dizendo que os EUA "estão bem posicionados" para competir globalmente dentro do acordo, com o qual os EUA teriam "um assento na mesa de negociações de forma a garantir a igualdade" das regras de mercado.

4. É improvável que o carvão volte a ter protagonismo

Uma das forças eleitorais de Trump no pleito de 2016 é região americana produtora de carvão - em Estados como Virgínia Ocidental, Ohio e Pensilvânia, que ele diz terem sido prejudicados pelo Acordo de Paris -, à qual o presidente prometeu incentivos e empregos durante a campanha. Mas o ocaso do carvão, que também está sendo abandonado em diversos outros países, dificilmente será revertido.
Além disso, a quantidade de empregos gerados nos EUA pela indústria carvoeira equivale hoje à metade dos gerados pela indústria de energia solar. Ainda que muitos países em desenvolvimento ainda dependam do carvão, essa fonte de energia é alvo de críticas por seu forte impacto na qualidade do ar.
E a queda dos preços da energia renovável também tem levado nações como a Índia a adotar fontes mais verdes de combustível.

5. Ainda assim, as emissões devem cair

Mesmo com a saída americana, as emissões de carbono devem continuar a cair nos EUA - isso por causa do crescimento do gás como fonte de energia em substituição ao carvão. O uso do gás de xisto - que também é alvo de polêmicas ambientais - cresceu exponencialmente com o aumento da produção e a queda dos preços.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/568279-cinco-efeitos-globais-da-saida-dos-eua-do-acordo-de-paris)

Tolerância, intolerância, fanatismo

Por Jaime Pinsky, historiador e editor, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp.
Na Alemanha de Hitler prevalecia a ideia da superioridade de uma suposta raça ariana, à qual, evidentemente, pertenceriam os alemães. Para não macular a pureza da raça, nem uma única gota de sangue de outras etnias deveria circular nas veias desses super-homens.  O espantoso não são os delírios ridículos, destituídos de qualquer comprovação científica. Ditadores em qualquer latitude têm sido pródigos em sonhos de grandeza que acabam se transformando em pesadelos para o seu povo. O assustador foi o fato de um povo tão culto e informado quanto o alemão ter embarcado em “verdades” como a que garantia que um loiro de olhos azuis, por mais boçal que fosse, pelo simples fato de pertencer a uma suposta raça ariana era superior a gênios como Einstein, Marx e Freud, todos eles de origem judaica.
Manipulação? Sonhos de grandeza enrustidos na alma alemã? Vingança consciente contra um inimigo poderoso? Puro interesse econômico?  O que leva uma pessoa, um grupo de pessoas, todo um povo, uma nação inteira a se fanatizar?
Há quem diga que o primeiro passo em direção ao fanatismo é a intolerância. E então, o que leva as pessoas a se tornarem intolerantes? A esposa daquele primo de Goiânia, que parecia tão pacífica, aquela mesma que faz uma broa de milho deliciosa, não está dizendo que tinha que ir todo o mundo para a cadeia, menos os militantes do partido dela? Que se houve algum desvio de dinheiro foi por necessidade política e que isso não é crime? Não está vibrando com a prisão de gente “do outro lado”, estes sim um bando de safados, aliados dos bancos e da grande mídia? Quando perguntei para a Estela (ops, eu não devia revelar o nome dela) se o partido dela não tinha beneficiado e sido beneficiado por grandes empresas ela me pediu pra não fazer mais parada em sua casa para bater papo e tomar café, pois não tínhamos mais nada em comum.
Por outro lado aquele tio em terceiro grau não acha que pobre é pobre porque não trabalha, se trabalhasse ficava todo mundo rico? Não diz que deveriam exigir pós-graduação em administração para qualquer gestor (ele não usa mais a palavra prefeito e governador) e comprovação de independência econômica, já que quem tem dinheiro não precisa roubar? (E não adianta eu dar exemplos de um grande empresário, ladrão notório dos cofres públicos, impedido de sair do país e prestes a coroar sua vida com alguns anos de cadeia).
Temos de tudo por aqui. Os que ainda negam a importância do agronegócio, querendo a volta da pequena propriedade ou até a implantação do kibutz, experiência já abandonada até em Israel. E os que acham que a ação de jagunços assassinos dizimando posseiros e índios é um mal menor, em face da modernidade e dos lucros com a exportação obtida pelas grandes empresas.
Grupos de opinião diferentes se digladiam nas redes sociais. Mais do que argumentos consistentes ou ideologias bem fundamentadas, vemos a intolerância para com o outro manifestada de forma superficial e grosseira. Claro que a rapidez e a facilidade para emitir opiniões ajudam muito; basta acionar o celular com os polegares e o estrago está feito: irmãos rompem amizade, tios viram a cara para sobrinhos, amigos se ofendem e deixam de se falar por muito tempo. Mas não podemos jogar a responsabilidade no WhatsApp ou no Facebook. Por trás das redes sociais, por trás do celular, por trás dos dedos, há um ser humano intolerante, convicto de que as únicas verdades são as suas.
Difícil convencer os donos dos polegares que ouvir o outro, tolerar uma opinião contrária à sua, não implica, necessariamente, concordar com ele ou abrir mão de suas próprias convicções. Confundimos, muitas vezes, tolerância com fraqueza, com complacência. Não tem de ser assim. Tolerar opiniões contrárias às nossas não quer dizer a mesma coisa que tolerar violência, racismo, homofobia. Pois há tolerâncias e tolerâncias.
O intolerante, com frequência, se aproxima e se confunde com o fanático. É aquele que acha que “o outro” é inferior. Em pleno século XXI, ainda existe preconceito e intolerância contra negros, mulheres, homossexuais, imigrantes, migrantes, idosos, praticantes de religiões diferentes das nossas. Ao desenvolver uma intolerância contra “o outro”, o intolerante busca se afirmar como superior, como pertencente a uma maioria imaginária que teria como obrigação marginalizar, combater e até eliminar quem não cerra fileiras com suas ideias, aparência, opção sexual e até time de futebol. A violência é um subproduto dessa atitude.

‘Só trafico drogas’, diz senador Zezé Perrella em conversa com Aécio Neves

Texto escrito por José de Souza Castro:

“Não faço nada de errado, só trafico drogas”, diz o senador Zezé Perrella ao ouvir uma dura do senador Aécio Neves, num áudio divulgado dia 30 de maio pelo jornal “Hoje em Dia”. Aécio ligou às vésperas da Semana Santa, para reclamar de uma entrevista dada pelo seu vice no governo de Minas à Rádio Itatiaia. Foi antes da divulgação da “colaboração premiada” de Joesley Batista, mas Aécio já era denunciado na Lava Jato.
A assessoria de Perrella tenta explicar ao jornal:
“Basta ouvir o áudio na íntegra e contextualizar a expressão mencionada.
Durante o diálogo, o senador Zezé Perrella cita o episódio do helicóptero referindo-se ao fato de que, mesmo após ter sido comprovada sua inocência, lamentavelmente, a imprensa ainda insiste em associar o seu nome ao caso.
Seu incômodo está explícito no áudio, antes mesmo do momento em questão. Fica óbvia, inclusive pela reação do interlocutor, a ironia expressa pelo Senador Zezé Perrella em relação à forma criminosa e caluniosa que abordam o assunto”.
Não foi uma confissão de culpa, talvez – você decide, após ouvir o vídeo. E Aécio, na conversa, tenta se desvencilhar da companhia de políticos que pediram dinheiro a empresas para se enriquecer. Disse que pediu apenas para a campanha política, sua e de outros correligionários do PSDB, como Perrella.
A divulgação dessa conversa entre dois senadores mineiros é ilustrativa, mas não é o fato mais grave do dia. Vamos a outros:
Michel Temer, cujo índice de rejeição, de 86%, só perde para Eduardo Cunha (88%), segundo pesquisa do Ipsos, na qual Aécio fica com 77%, continua insistindo que a economia brasileira está se recuperando. “O Brasil está de volta. A inflação está sob controle, criamos condições para a redução responsável de juros e a economia voltou a crescer”, afirmou Temer na noite de segunda-feira a presidentes de empresas multinacionais, numa reunião em São Paulo.
Não era o momento de falar sobre os 14,2 milhões de desempregados nesse Brasil temeroso. Motivos não faltam para o pessimismo. Por exemplo, o colapso da indústria naval formada por 40 estaleiros, dos quais 12 estão totalmente parados e o restante está operando bem abaixo da capacidade instalada. “Dos tempos de euforia, sobraram uma dívida bilionária para pagar no mercado e quase 50 mil trabalhadores demitidos, segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria Naval (Sinaval)”, conforme reportagem do “Estado de S. Paulo”.
Nesse quadro de desemprego generalizado, as centrais sindicais já anunciam nova greve geral em junho, maior do que a realizada dia 28 de abril, para protestar contra as reformas da CLT e da Previdência Social.
E parlamentares do PT, PSB, PDT, PC do B, PSOL e Rede Sustentabilidade criaram a Frente Parlamentar Mista Pelas Diretas-Já. O símbolo da campanha será o mesmo criado pelo humorista Henfil para a campanha pelas Diretas, em 1984:

É esperar para ver se a campanha deste ano será maior e mais bem-sucedida do que a realizada já nos estertores da ditadura militar. Como se sabe, Tancredo Neves, o avô de Aécio, acabou sendo eleito indiretamente pelo Congresso Nacional – e não pôde governar, pois morreu antes de tomar posse.
Maus presságios para quem for eleito agora (e não será Aécio, carta fora do baralho), sem o voto de milhões de brasileiros…

(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/05/31/audio-perrella-aecio/#more-13931)