sábado, 16 de setembro de 2017

E os pobres sutentam o cassino financeiro global

Em três décadas, países periféricos transferiram, para nações capitalistas centrais, US$ 10,6 trilhões — trezentas vezes o PIB da Nicarágua. Paraísos fiscais são principal sangria. Só China escapou
Um trabalho do Inesc

Qual impacto que a fuga não-registrada de capitais pode ter no desenvolvimento de um país, principalmente nos mais vulneráveis e pobres? Qual o papel dos paraísos fiscais na facilitação desse fluxo financeiro, que drena importantes recursos de regiões inteiras do mundo? Para tentar responder a essas questões, o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), em parceria com o Centro de Pesquisa Aplicada da Escola de Economia da Noruega (SNF), a Global Financial Integrity (GFI), Universidade Jawaharlal Nehru e o Instituto Nigeriano de Pesquisa Social e Econômica, produziu o estudo “Fluxos Financeiros e Paraísos Fiscais: Uma combinação para limitar a vida de bilhões de pessoas“, um extenso relatório em três partes que avalia o fluxo líquido de recursos de entrada e saída de países em desenvolvimento, durante o período de 1980-2012.
Entre as descobertas do estudo, uma impressiona: os países em desenvolvimento, excetuando-se a China (que é um ponto fora da curva), perderam um total de quase US$ 1,1 trilhões em transferências registradas e US$ 10,6 trilhões a partir de fuga não-registradas de capitais — desse último valor, mais de 80% (cerca de US$ 7 trilhões) saíram por meios ilegais.
O relatório (clique aqui para baixá-lo) conclui, entre outros pontos, que a redução dos fluxos financeiros ilícitos e regulação firme dos paraísos fiscais melhoraria a efetividade das políticas macroeconômicas adotadas nos países em desenvolvimento e contribuiria significativamente para reduzir a desigualdade socioeconômica.
A grande fuga de capitais dos países em desenvolvimento diminui sua capacidade de crescimento, porque boa parte desses recursos poderia ser usada em atividades econômicas destinadas à melhoria do padrão de vida e à redução de desigualdades.
Uma das principais descobertas do estudo é que na década de 1990 os países em desenvolvimento acabaram financiando mais os países desenvolvidos do que o contrário — e isso justamente por conta dos fluxos financeiros ilícitos e paraísos fiscais. “O fluxo de recursos dos países mais vulneráveis para países ricos claramente confronta a eficiência alocativa, que demanda fluxos em direção oposta. Em escala global, essas alocações de recursos incorretas constituem custos sociais consideráveis que seriam, neste caso, incorridos aos cidadãos de países em desenvolvimento.”

Um estudo recente do Fundo Monetário Internacional (FMI) descobriu que o fluxo de entrada de capitais impacta positivamente o investimento doméstico em maior grau que fatores como a qualidade institucional e o crédito doméstico. E como a fuga de capitais drena recursos, é razoável pensar que tais fluxos de saída reduziriam o efeito benéfico de fluxos de entrada sobre os investimentos domésticos. Nossas descobertas, baseadas em dados limitados do FMI são consistentes com as descobertas do Fundo em que mostramos que os fluxos de entrada de capital têm impacto positivo no consumo, e que fluxos de saída ilícitos reduziriam os impactos benéficos sobre o consumo e sobre o padrão de vida em países em desenvolvimento pobres.
(fonte:  http://outraspalavras.net/destaques/e-os-pobres-sutentam-o-cassino-financeiro-global/)

Você come transgênicos sem nem saber que estão na carne e derivados

Indústria omite presença de transgênicos em carnes e derivados
Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina encontrou soja e milho em metade dos produtos analisados. Contrariando a lei, nenhum deles indicava presença de componentes geneticamente modificados
por Cida de Oliveira, Rede Brasil Atual

Brasília – Metade das carnes e derivados contém em sua composição ingredientes transgênicos e o consumidor nem desconfia.
É o que sugere uma pesquisa do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) divulgada durante o Agroecologia 2017 – 6º Congresso Latino-Americano de Agroecologia, 10º Congresso Brasileiro de Agroecologia e 5º Seminário de Agroecologia do Distrito Federal e Entorno.
Dos 496 produtos analisados, 49,2% continham pelo menos um ingrediente derivado de soja ou milho. A maior concentração foi encontrada nos subgrupos de peito de peru e patês. A proteína de soja, detectado em 217 alimentos do grupo (43,7%), foi o ingrediente mais usado. (43,7%), seguido do amido de milho, que estava em 27 itens (5,4%).
Do total, 209 alimentos continham ingredientes derivados de soja, 18 deles continham derivados de milho e outros 21, derivados de ambos.
Os ingredientes derivados de milho e soja identificados na tabela dos rótulos destes alimentos são a proteína de soja, o amido de milho, lecitina de soja, óleo de milho, farinha de soja, farinha de milho, óleo de soja, xarope de milho, molho de soja e dextrose de milho.
As lavouras brasileiras de soja e milho são, em sua maioria, geneticamente modificadas. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), os organismos geneticamente modificados (OGM) estão cada vez mais presentes na alimentação da população mundial, seja como alimento ou como ingrediente de alimentos industrializados.
O Brasil é o segundo país que mais planta transgênicos no mundo e desde 2003 têm aprovado para cultivo e consumo soja, milho, algodão e, mais recentemente, um feijão transgênico, que ainda não está disponível para consumo. Atualmente, 94% da soja, 85% do milho e 73% do algodão cultivados no Brasil são transgênicos.
“Tais cultivos dão origem a subprodutos que são utilizados pela indústria alimentícia como constituintes de muitos alimentos. Considerando a crescente produção de alimentos transgênicos no Brasil, presume-se uma grande possibilidade de que os ingredientes derivados de milho e soja, presentes nesses produtos, também sejam transgênicos”, afirmou a professora da UFSC e líder da pesquisa, Suzi Barletto Cavalli.

Mais agrotóxicos

Essa notícia é ruim porque plantas transgênicas recebem muito mais agrotóxicos durante seu cultivo. Sem contar outros riscos à saúde e ao meio ambiente que sequer foram dimensionados.
No Brasil, o Decreto no 4.680/2003 estabelece que todos os alimentos e ingredientes alimentares que contenham ou sejam produzidos a partir de transgênicos, com presença acima de 1% do produto, devem ser rotulados.
Contudo, estudos brasileiros revelaram a presença destes ingredientes em alimentos com quantidade superior a 1% sem, no entanto, informar a presença destes componentes no rótulo, apesar da legislação de rotulagem.
Para chegar a essas conclusões, as pesquisadoras Rayza Dal Molin Cortese, Suellen Secchi Martinelli, Rafaela Karen Fabri e Rossana Pacheco Proença, do Núcleo de Nutrição em Produção de Refeições (NUPPRE/UFSC), analisaram os rótulos das embalagens de carnes e preparações à base de carnes comercializados em um grande supermercado do Brasil pertencente a uma das dez maiores redes brasileiras, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras).
Foram registradas informações como denominação, nome comercial, marca, fabricante e país de origem. Todos os rótulos foram fotografados para posterior identificação, transcrição e análise da lista de ingredientes e a presença do símbolo “T” referente à identificação de transgênicos na rotulagem. As carnes foram classificadas em subgrupos e analisadas por meio de um software específico.

Origem

Foram considerados subprodutos de soja e milho aqueles ingredientes que continham a determinação da origem, como óleo de milho, proteína de soja. Ingredientes como óleo vegetal ou amido não foram considerados, se não contivessem essa especificação. Também foi analisada a frequência dos ingredientes, com o intuito de verificar quais ingredientes derivados de soja e/ou milho estavam entre os mais frequentes nos alimentos analisados.
Do total de carnes e preparações à base de carnes analisadas, 49,2% traziam em sua composição pelo menos um ingrediente derivado de soja ou milho, sendo que a maioria dos subgrupos apresentava mais da metade dos alimentos com esses componentes.
Em apenas dois subgrupos (caviar e charque) não havia nenhum alimento contendo ingredientes derivados de soja e/ou milho. Os subgrupos que continham mais alimentos com ingredientes passíveis de serem transgênicos foram os subgrupos 13 – peito de peru; 14 – patês; 11 – preparações de carnes com farinhas ou empanadas e 1 – almôndegas a base de carnes.
Os achados são semelhantes aos de estudos internacionais e nacionais, que demonstraram a utilização de proteína de soja pela indústria alimentícia como um ingrediente em produtos processados à base de carne.
Estudos apontaram a presença de soja transgênica em carnes como presunto, mortadela de frango e steak de frango; outra, em 12 de 50 amostras de alimentos derivados de mortadela, salsichas, salame, patê, linguiça, frios e rocambole de carne, e em 11 de 30 amostras de salsichas contendo soja.
No caso de carnes e preparações à base de carnes, as proteínas de soja são amplamente utilizadas por suas propriedades de ligação de água, ligação de gordura, textura e capacidade emulsionante, além das características organolépticas como aparência, firmeza e corte.
No estudo catarinense, nenhum dos alimentos analisados continha identificação da presença de transgênicos no rótulo. Contudo, estudos brasileiros identificaram a presença de soja e milho em diversos alimentos, incluindo carne processada e produtos à base de soja em quantidade superior a 1% sem, no entanto, declarar a presença de transgênicos no rótulo, conforme a legislação de rotulagem.
“Assim, considerando que 94% da soja e 85% do milho cultivados no país são transgênicos, é provável que os ingredientes derivados de soja e milho identificados no presente estudo também o sejam”, disse Suzi Cavalli.
Segundo ela, esses resultados são preocupantes porque, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009, 24,5% da quantidade per capita média diária de consumo da população brasileira são provenientes de produtos de origem animal, incluindo carnes, leite e derivados e ovos.
Além da grande quantidade de ingredientes possivelmente transgênicos adicionados pela indústria alimentícia em carnes e preparações a base de carnes, animais alimentados com ração produzida com milho e/ou soja transgênicas também podem constituir fonte de transgênicos na alimentação humana.

(fonte: http://www.viomundo.com.br/denuncias/voce-come-transgenicos-sem-nem-saber-que-estao-na-carne-e-derivados.html)

sábado, 9 de setembro de 2017

A ética da corrupção


Por Jaime Pinsky, historiador e editor, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp.
Tempos atrás, quando um político notoriamente corrupto governava São Paulo, um conhecido, patriarca de poderosa família do interior reclamava de seu irmão que havia dirigido importante empresa púbica: “ele não foi correto; sim, conseguiu fazer dinheiro suficiente para nunca mais precisar trabalhar, mas se esqueceu da família”. Como se vê, até na corrupção há uma ética. E já tem gente reclamando que com a Lava Jato essa ética está sendo desrespeitada.
A corrupção no Brasil não tem funcionado por ondas: trata-se de um fluxo contínuo que remonta à Colônia. Não que sejamos todos corruptos, mas temos convivido pacificamente com ela. Temos um histórico de condescendência para com a corrupção.
A verdade é que, a despeito de todas as condenações, continuamos com a pequena corrupção, cotidiana e muito difundida. É, por exemplo, a da secretária da repartição pública que engorda seu salário digitando trabalhos “para fora”, utilizando máquina, papel e tempo que deveriam servir à instituição. Os chefes justificam esses pequenos desvios com a alegação de que os salários de algumas categorias são baixos. Assim, estabelece-se um pacto: o chefe não luta por melhores salários para seus funcionários, enquanto estes não devolvem à comunidade o salário recebido. O investimento é social, o beneficio, individual.
Há a média corrupção, também bastante frequente: é a do tipo que coloca frente a frente o comerciante sonegador e o fiscal, por exemplo. Ocorre também em muitas cidades em que o engenheiro de obras que assessora a prefeitura e libera as plantas de construção de casas tem, “por acaso”, uma pequena firma de projetos arquitetônicos, no nome da sua mulher. O corrupto médio tem sua ética: ele despreza o pequeno corrupto e inveja o grande corrupto.
Já este dificilmente trabalha sozinho. Tem equipes em que economistas e advogados são peças fundamentais. Infiltra-se em órgãos públicos e especializa-se em atividades que vão de fornecimento de merenda escolar e da retirada do lixo, à exploração de serviço de transporte coletivo. A ironia é que o grande corrupto se apresenta como um benfeitor, por empregar bastante gente, e servir a população. Para ele, fornecer merenda estragada para crianças ou colocar em circulação ônibus sem segurança é apenas parte de um negócio, não um ato sórdido. E ainda se sente à vontade para criticar mordomias no setor público...
Há, finalmente, o megacorrupto. Hábil, insinuante, extremamente articulado, o megacorrupto é um homem da sociedade. Sua especialidade é identificar desejos e manipular interesses, como um Dom Corleone moderno. Dotado de grande inteligência emocional é simpático, generoso com os amigos, implacável com os adversários. Poderoso, infiltra-se tanto no serviço público – legislativo, executivo e até judiciário – como na sociedade civil, onde influi nas organizações aparentemente alheias e até avessas ao seu poder. O megacorrupto chega a ter desprezo pelos corruptos menores, evitando contato físico com eles. Quando o contato se torna indispensável, recorre a interpostos preocupados em agradá-lo.
Cidadão do mundo o megacorrupto não suja as mãos com mercadorias concretas. Cínico ao extremo, fala do dinheiro acumulado como fruto de trabalho honesto: seus milhões guardados em paraísos fiscais não lhe parecem ter sido sonegados aos miseráveis deste país. Não, já que ele pode até dirigir ONGs beneficentes e é homem de bom gosto, roupas e mulheres discretas. É verdade que de um tempo para cá, com a rapidez com que fortunas foram construídas graças ao apoio de benesses governamentais, passamos a ter um novo tipo, o megacorrupto brega, mas a análise deste fica para outro artigo.
Há, é claro, enormes diferenças de grau entre todos esses corruptos. O policial pobre, muitas vezes ele mesmo favelado, nunca sairá de sua condição social e às vezes morre “no cumprimento do dever”, enquanto o coronel marajá ganha regiamente, sem correr risco algum. O pequeno comerciante, assoberbado por impostos e por uma legislação complexa e mutante, enxerga no fiscal corrupto um sócio minoritário e pagá-lo significa apenas viabilizar seu negócio.
Na verdade, toda ou quase todo corrupto tem uma justificativa, e é isso que lhe dá legitimidade social. Não ser envolvido por esses pretextos é fundamental para o país dar o passo em direção da superação, ou da atenuação desse problema endêmico.

Enquanto Samarco fica impune governo só pensa em liberalizar Código de Mineração

Em 5 de novembro de 2015 aconteceu o rompimento da barragem de rejeitos do Fundão em Mariana (MG), gerida pela mineradora Samarco. O desastre deixou 19 mortos, centenas de desabrigados e um rastro de destruição química ao longo de mais de 600km por toda a bacia do Rio Doce, chegando ao litoral capixaba. Pouco antes, no último dia 7 de agosto, de se completarem dois anos do maior desastre ambiental da história brasileira, a Justiça Federal suspendeu o processo criminal contra mineradora e acionistas.

A reportagem é de Raphael Sanz e publicada por Correio da Cidadania, 04-09-2017.

O processo em questão envolve a Samarco e suas proprietárias (Vale e BHP Billiton), e ainda inclui 21 pessoas ligadas ao projeto acusadas de homicídio com dolo eventual (quando se assume o risco de matar) pelas 19 mortes produzidas. Entre estes 21 acusados estava o engenheiro responsável pelos estudos da barragem do Fundão, contratado da VogBr – a mesma empresa que fez os estudos relacionados ao empreendimento da Belo Sun, próximo da usina hidrelétrica de Belo Monte, como veremos a seguir.
A decisão não interrompe processos civis, que tratam de reparações ambientais e indenizações, mas vale para os processos criminais supracitados. O juiz do caso, Jaques de Queiroz Ferreira (da comarca de Ponte Nova, MG) afirmou para a imprensa que “graves questões podem implicar na anulação do processo criminal”.
Segundo informações também divulgadas na imprensa, podemos supor quais seriam essas “graves questões”. Diz a tese de defesa do então presidente da Samarco, Ricardo Vescovi e seu braço direito, Kleber Terra, que foram usadas provas ilícitas durante o processo, entre elas o uso de escutas telefônicas fora de prazo autorizado pela Justiça, feito pela Polícia Federal e Ministério Público Federal. Por sua vez, o MPF afirmou em nota que as acusações “não procedem” e que as escutas foram feitas dentro do prazo estipulado.
O jornalista Altamiro Borges classificou como “cínica” a decisão da Justiça Federal em acatar aos pedidos da defesa. “As incontáveis provas sobre a ação criminosa da mineradora não foram suficientes para convencer os juízes, que preferiram acreditar nos advogados de Ricardo Vescovi e Kleber Terra, chefões da Samarco à época da tragédia. Com isso, os dois executivos, acusados de homicídio com dolo eventual, seguirão impunes”, escreveu em seu blog no dia 8 de agosto.
Também o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) desaprovou a decisão da Justiça Federal. Em entrevista a Agência Brasil, o movimento criticou o Poder Judiciário que “se preocupa cada vez menos com causas populares e escancara para qual lado pende sua seletividade”. Nos dias subsequentes à decisão, em Governador Valadares (MG), cidade onde vivem pessoas afetadas pela tragédia, ainda ocorreu uma manifestação com centenas de participantes, apoiada pela OAB local, em repúdio à decisão judicial.

“Tudo parado ou andando para trás”

Entrevistada pelo Correio da Cidadania, Maria Júlia Andrade, do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios frente à Mineração, afirma que a notícia foi recebida com muita tristeza por sua organização. “O que vemos é que as negociações, e mesmo as decisões, estão sendo mediadas pela empresa. Sobre o que despontou como contraponto, que foi a atuação do Ministério Público Federal, tanto na parte ambiental quanto na criminal, percebemos que pode não dar em nada”, lamentou.
Andrade afirma que a decisão não entra no mérito de discutir nada do que o MPF apresentou e ainda ignora questões já comprovadas como o histórico de pequenos acidentes das barragens e os inúmeros indícios de negligência.
“A barragem do Fundão apresentou problemas por anos a fio, inclusive tendo leves rupturas em outros momentos e liquefação acima do permitido – o que gerou uma série de diligências no Ministério Público do Trabalho, pois muitos trabalhadores denunciavam aquilo. O MP acompanhou e gerou condicionantes. O que vimos foi uma barragem que por muitos anos já apresentava problemas e seu rompimento não foi uma surpresa para os trabalhadores, o que gera uma dúvida ainda maior se não houve negligência. E nesse contexto, temos de lembrar que são 19 mortos – há ainda uma mãe que demanda que sejam 20 os mortos, já que estava grávida e sofreu um aborto em decorrência do acidente. E para não entrar na complexidade da discussão do Rio Doce e do comprometimento com essa bacia hidrográfica, é preciso pensar o que significam essas mortes. Vão completar dois anos do desastre e a sensação é que as coisas estão paradas ou andando pra trás”, declarou.
Ela pondera que a decisão de suspender o processo criminal não afeta diretamente os processos civis por estarem andando em paralelo, mas sinaliza preocupação quanto ao efeito na correlação de forças dessa disputa. “De toda forma isso dá poder e legitima a empresa e seu discurso, de que não há como condená-la por conta de um suposto abuso ou distorção do MPF, e reforça o discurso de que eles não queriam que isso tivesse acontecido e assim por diante”.
O discurso da empresa é algo que marca esta tragédia desde o início. Logo nos primeiros dias do rompimento das barreiras, a disputa narrativa estava em torno de o evento haver sido um “desastre natural” ou algo “provocado pela atividade mineradora”. O discurso da Samarco, muito bem encaixado nos grandes meios de comunicação, dava conta de um “acidente”, enquanto organizações como a de Maria Júlia e pesquisadores independentes como os biólogos do grupo GIAIA (entrevistados por este Correio 8 meses após o desastre) diziam ser uma “tragédia provocada por ação humana” e pediam a devida investigação para o caso.
Maria Júlia acusa a Samarco de dissimulação. “Essa frase (estamos fazendo todo o possível) é o que eu escuto desde que houve o rompimento”, afirma. Ela conta que a empresa diz isso para a população, especialmente em Mariana, no epicentro da tragédia.
“Vejo como isso deixa a população na condição de refém desse modelo econômico em uma região que é completamente dependente economicamente da mineração e agora está desesperada para que a empresa volte, uma vez que o município de Mariana vive situação de colapso econômico”, argumenta. Sua tese é que este poder econômico bruto sobre a região, somado a facilidades judiciais, pode fortalecer a mineradora de tal modo a fazer com que tudo acabe em pizza.

Uma péssima conjuntura e o extrativismo total

Apenas 16 dias depois da decisão judicial favorável a Samarco e comparsas, em 23 de agosto o Governo Federal anunciou a extinção da Reserva Natural do Cobre, conhecida como Renca, e não se preocupou em ocultar a razão desta ação. Devido ao mal recebimento da notícia pela opinião pública, o Governo recuou e novamente, na segunda-feira (28), soltou novo decreto nos mesmos termos do anterior.
A área com quase quatro milhões de hectares, porção territorial correspondente ao estado do Espírito Santo, localizada entre o sudoeste do Amapá e o nordeste do Pará, será destinada à atividade mineradora. Rica em ouro, manganês, ferro e tântalo, a reserva natural e indígena teve sua extinção proposta pelo Ministério de Minas e Energia em março passado.
Na ocasião, a extinção da Renca foi apresentada pelo ministro de Minas de Energia do Governo Temer, Fernando Coelho Filho, de antemão, em Toronto (Canadá). Curiosamente, por conta deste evento, investidores e empresas de mineração canadenses souberam da medida antes da sociedade civil brasileira e outras que compõem o famigerado “pacotão da mineração” – que ainda inclui a criação da Agenda Nacional de Mineração e outras iniciativas para a ampliação do setor.
Entre as empresas canadenses advertidas com antecedência está a Belo Sun, exposta neste Correio, ainda em 2015, logo após a tragédia de Mariana (MG), como uma potencial “Samarco do Pará” pela professora Simone Pereira, coordenadora do Laboratório de Química Analítica e Ambiental da Universidade Federal do Pará, além de praticamente ter sido descoberta pela colunista Telma Monteiro, quando tentava entrar no mercado brasileiro “às escondidas” .
“Eu me referi à implantação dessas bacias na Volta Grande do rio Xingu, que é o empreendimento chamado Belo Sun, no qual uma mineradora canadense vai usar cianeto na exploração do ouro na região. Há a possibilidade de um desastre similar ao de Mariana acontecer lá também. No estado do Pará, em todo o seu território, há uma intensa atividade de mineração. É o segundo em exploração mineral do país, atrás apenas de Minas Gerais. Temos aqui a maior mina de ferro do mundo, a de Carajás, onde existem várias barragens como esta que rompeu em Mariana. É uma preocupação constante”, denunciou a professora em 17 de novembro de 2015 a respeito do empreendimento que fica a 11km da usina hidrelétrica Belo Monte.
Empreendimento este que, como vimos no início desta matéria, também contou com o aval da VogBr, empresa de engenharia que prestou os mesmos serviços a Samarco no empreendimento de Mariana (MG). Os dados são do Movimento de Atingidos por Barragens.
Mas para além do empreendimento na Volta Grande do Xingu, a Belo Sun também está de olho no ouro e no ferro da Renca e de acordo com apuração da BBC Brasil o coordenador da comissão canadense reafirmou este interesse. Também afirmou que a “mineração faz bem ao meio ambiente” e atacou artistas e meios de comunicação que se puseram críticos ao modelo extrativista que está sendo discutido.
Ainda de acordo com apuração deste jornal, também na bacia do rio Tapajós (entre os estados do Pará e do Mato Grosso) é possível encontrar coincidências como essas: empreendimentos hidrelétricos em áreas antes protegidas por reservas naturais e indígenas, cuidadosamente situados próximos de zonas com potencial minerador. Zonas estas que de antemão já estariam sendo loteadas entre grandes mineradoras, segundos denúncias de comunidades, estudiosos e movimentos que atuam na região.
Maria Júlia Andrade explica a conjuntura a partir do atual momento que vive o Brasil e que traz como ingrediente principal uma sistemática perda de direitos e garantias, entre eles a aprovação de uma legislação ambiental mais frágil.
“Essa notícia ainda veio poucos dias depois de o Temer apresentar três Medidas Provisórias que vão regular todo o Código da Mineração, em 25 de julho. Um dos pontos mais absurdos dessa proposta está presente na emenda 790, do Código de Minas propriamente dito, em seu artigo 81b, que trata da questão da fiscalização; e acrescenta um novo artigo que diz que a fiscalização dos empreendimentos de mineração têm de ser feita com prioridade – o que é importante – mas que poderá ser feita a partir de amostragem. Ou seja, após o rompimento da barragem do Fundão, 19 mortos, incontáveis impactos ambientais e assim por diante, eles estão dizendo que a fiscalização pode ser feita por amostragem. E pensando ainda em toda esta gama de empreendimentos, o que vemos é a mostra de que não aprendemos nada”, concluiu.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571422-enquanto-samarco-fica-impune-governo-so-pensa-em-liberalizar-codigo-de-mineracao)

Pivô da crise dos ovos na Europa, pesticida fipronil é utilizado em larga escala no Brasil

Substância foi encontrada em mananciais no Paraná; pesquisadores apontam morte de abelhas e dizem que ela pode afetar a pressão arterial e o sistema reprodutivo.
A reportagem é de Izabela Sanchez e publicada por De Olho nos Ruralistas, 01-09-2017.

Na Europa, comoção. Relatos alarmistas, manchetes, debates, interdição de granjas, prisões. Foi ele o pivô de uma crise sem precedentes em um dos principais produtos da agricultura do velho continente, o ovo. Trata-se do pesticida fipronil, que já alastrou contaminações em mais de 17 países europeus. Diversas pesquisas apontam os riscos desse pesticida para animais e seres humanos. No Brasil, ele tem um mercado de larga escala.
O fipronil age no sistema nervoso central dos insetos considerados pragas de animais e de monoculturas, como o gado e o milho. A crise na cadeia de ovos começou porque a Chickfriend, empresa holandesa, teria desinfectado aves com fipronil comprado da Bélgica. Acontece que a Europa proíbe o uso para os animais que entram na cadeia alimentar humana. O consumo de um produto contaminado pode causar náuseas, dores de cabeça e estômago, relata o El País Brasil. E, em casos mais graves, atinge fígado, rim e tireoide.
Segundo o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o pesticida é regulamentado no Brasil desde 1994. A assessoria de imprensa da pasta afirma que cinco empresas estão autorizadas a produzir e comercializar o fipronil para uso veterinário: Merial Saúde Animal Ltda; Hertape Saúde Animal S/A; Vétoquinol Saúde Animal Ltda; Ourofino Saúde Animal Ltda e Virbac do Brasil Indústria e Comércio Ltda.
Mapa e Anvisa não demonstram preocupação sobre uma possível crise no Brasil. A Anvisa alega, por meio da assessoria de imprensa, que ele não é utilizado em aves. O fipronil é utilizado em quase todas as monoculturas do agronegócio brasileiro, em especial nos produtos responsáveis pela fama desse modelo no país: cana, soja, milho e até laranja. Um dos alimentos das aves no Brasil é justamente o milho.
Diz a Anvisa:
– Em nosso país, o acesso das aves ao fipronil poderia ser resultante da ingestão de ração com resíduos, haja vista que este agrotóxico é autorizado para o milho. Entretanto não temos indícios de que isso possa acontecer, haja vista que o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos (Para) pesquisou o fipronil em 729 amostras de milho entre 2013 e 2015, não detectando este ingrediente.
O Mapa não fala de uma das marcas que teriam atuado no Brasil. É a Eventra, cuja regulamentação pode ter chegado antes da hora. O site Ecodebate cita uma reportagem de 2012 da Folha. A reportagem aponta que, no dia 10 de outubro de 2011, o Mapa registrou o inseticida. Nessa data, porém, o produto se chamava Fipronil Alta 800 WG. A marca Eventra só teria sido publicada no Diário Oficial da União em 25 de outubro, em substituição à marca anterior.
O Ministério da Agricultura não quis se pronunciar sobre o assunto.

Aumento da pressão

A ciência não estabelece o mesmo nível de riscos para animais e humanos. A contaminação em pessoas, alegam cientistas e a própria Anvisa, é nulo ou moderado. Alguns pesquisadores apontam o contrário.
João Leandro Chaguri, farmacêutico toxicologista da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu (SP), estudou o pesticida e suas consequências na pressão arterial de ratos. O pesquisador escreveu a dissertação de mestrado “Efeitos da exposição ao pesticida fipronil nas alterações pressóricas em ratos acordados”. Os animais tiveram considerada elevação da pressão arterial ao serem expostos à substância.
O pesquisador não descarta que o mesmo efeito possa ocorrer em humanos:
– Uma pesquisa feita usando animais nos dá uma noção do que pode acontecer com humanos, porém é sempre um indício que precisa ser melhor investigado. Modelos de estudos com animais são utilizados amplamente e os riscos de efeitos prejudiciais de agentes químicos para o ser humano são avaliados, baseados em modelos toxicocinéticos e fisiológicos. Porém deve-se atentar para alguns aspectos como variações interespécies e limitações experimentais.

Impacto no sistema reprodutor

Doutora em Farmacologia pela Unesp, Aline Lima de Barros estudou os efeitos do pesticida no sistema reprodutivo dos ratos. Professora da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) em Mato Grosso do Sul, ela escreveu a tese de doutorado “Influência da exposição perinatal ao inseticida fipronil: repercussão tardia em parâmetros reprodutivos masculinos e femininos, em ratos”.
A pesquisadora explica que escolheu o Fipronil pela ampla utilização do pesticida na cultura da cana-de-açúcar. Esse aspecto não era explorado pelas pesquisas. “A exposição foi realizada durante a prenhez e início da lactação, períodos em que ocorre o desenvolvimento dos órgãos sexuais e diferenciação sexual do cérebro em ratos”, descreve. A prole foi avaliada durante todo o desenvolvimento sexual até a vida adulta. “Nós observamos alterações, nas condições experimentais do estudo, no desenvolvimento reprodutivo de fêmeas”.
Aline afirma que os resultados demonstraram efeitos a longo prazo nos espermatozoides dos machos. Apesar de não afetar a fertilidade dos animais, segundo a pesquisadora, o pesticida altera o sistema reprodutor. A preocupação da especialista é o que pode ocorrer com o sistema reprodutivo humano:
– Os praguicidas são conhecidos por apresentarem efeitos cumulativos e o homem está exposto a estas substâncias durante toda a vida. Acredita-se que a exposição ao fipronil possa ter impacto sobre o sistema reprodutor do homem, já que o modelo experimental utilizado no estudo (ratos) apresenta capacidade reprodutiva muito maior que o homem. Assim, as alterações observadas em ratos poder ter um impacto muito maior no homem.

Desaparecimento das abelhas

Natural de Ribeirão Preto (SP), o professor Dr. Lionel Segui Gonçalves é mundialmente conhecido como especialista em abelhas. Professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP), o geneticista aponta que há mais de 10 anos as abelhas têm desaparecido em diversos países do mundo. O principal culpado, segundo ele, são os agrotóxicos. Contamos em agosto essa história: “Pesquisador explica por que agrotóxicos são principais culpados por desaparecimento de abelhas“.
Ele criou a campanha Bee or not to be (Sem Abelhas, Sem Alimento), que divulga a importância das abelhas para a sobrevivência da agricultura e da alimentação em todo o mundo. O professor explica que as diversas agressões ao meio ambiente estão relacionadas à chamada Colony Colapse Disorder (CDC), algo como Transtorno do Colapso das Colônias. Um dos pesticidas que podem desencadear esse colapso é exatamente o fipronil:
Sem dúvida o uso do inseticida fipronil apresenta um sério risco para as abelhas no Brasil. Este pesticida já é largamente utilizado em várias culturas no Brasil como nas plantações de soja, cana-de-açúcar, pastagens, milho, algodão, e constantemente está relacionado a mortes em massa de abelhas trazendo sérios prejuízos econômicos aos apicultores, uma vez que são altamente tóxicos às abelhas.
O professor explica que o fipronil atinge o sistema nervoso das abelhas “alterando os padrões de comportamento cognitivo”. “Prejudica a navegação das mesmas, levando-as a se perderem no campo por não serem capazes de retornar a suas colmeias, causando uma diminuição na atividade de forrageamento ou coleta de alimento, fenômeno conhecido como CCD ou síndrome do desaparecimento”, relata.
Segundo o especialista, os riscos do fipronil são mais abrangentes do que se pensa. Ele menciona o uso nas plantações de eucalipto, para o combate ao cupim, e fala de casos graves relacionados ao nabo forrageiro. Gonçalves aponta que São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais são os estados que têm registrado o maior número de casos de morte de abelhas em razão do fipronil e outros pesticidas. Mas já existem relatos em mais de 13 Unidades da Federação.

Mananciais contaminados

Um dos estados ameaçados é o Paraná. Um artigo de pesquisadores da Universidade Federal da Fronteira Sul afirma que os mananciais da região sudoeste estão contaminados pelo pesticida. Os autores avaliam a permanência desse e outros componentes nos rios das cidades Salto do Lontra, Santa Izabel do Oeste, Nova Prata do Iguaçu, Planalto e Ampére.
Entre as amostras que mais contaminaram os locais avaliados está o fipronil:
– De todas as amostras, os analitos encontrados e quantificados em maior número de amostras foram atrazina (11 amostras), simazina (7 amostras), penoxulam Vieira, M. G. et al. 000 Rev. Virtual Quim (4 amostras), seguido malationa (5 amostras), iprodiona (3 amostras), epoxiconazol, fipronil e tebuconazol (1 amostra).
Sobre as resoluções e normativas que estabelecem a quantidade permitida em cada um dos produtos, os pesquisadores lembram que o fipronil “não possui limite máximo de resíduos estabelecidos na legislação brasileira”.

O que o governo diz 

Questionado sobre os riscos do fipronil à saúde humana, o Mapa afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que “o uso da molécula está alinhado às normas do Codex Alimentarius, que a registrou e não tem restrição ao uso”. Segundo a pasta, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também não tem restrição ao uso. “O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) faz estudos constantes e não há evidência de riscos à saúde humana pelo uso do produto”, informa a pasta.
A Anvisa nega riscos de contaminação pela utilização do pesticida no Brasil:
– O fipronil está registrado no Brasil como agrotóxico desde meados de 1994, tendo várias marcas comerciais disponíveis no mercado, de diversas empresas. Ainda não foi evidenciado um risco para a população brasileira, considerando o tipo de contaminação ocorrida nos ovos na Europa, conforme demonstram os dados de monitoramento disponíveis.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571317-pivo-da-crise-dos-ovos-na-europa-pesticida-fipronil-e-utilizado-em-larga-escala-no-brasil)

“A indústria não deveria fingir que está interessada em curar doenças”, diz prêmio Nobel britânico

(por Gilson Dantas)

Richard Roberts, ganhador do prêmio Nobel em medicina nos anos 1990, é uma conhecida personalidade britânica contemporânea e está longe de ser um esquerdista. Ele é a favor dos transgênicos e é um dos diretores de uma indústria de biotecnologia. Também defende toda ênfase nas verbas públicas na esfera da pesquisa, lado a lado com as pesquisas privadas. Portanto, se presume que não tenha lido textos marxistas seriamente.
No entanto, é dele a afirmação acima, de que as “companhias farmacêuticas não deveriam fingir que estão interessadas em curas, porque não estão. Até onde sei, não é nada frequente que financiem pesquisas à busca de curas”. [Esta afirmação encontra-se no site https://www.meneame.net/m/actualidad/c/15041078, em matéria de 14/7/14, intitulada: El fármaco que cura no es rentable para las farmacéuticas].
Em seguida ele esclarece que não está acusando as empresas de que estejam conspirando, isto é, tentando ativamente tornar as enfermidades crônicas [interpretaram isso em relação a ele, em matéria que circulou mundo afora].  Está “apenas” dizendo – o que já é mais que esclarecedor e grave – que curar não é seu objetivo…
Britânico, prêmio Nobel na área de Medicina e Fisiologia em 1993, nascido na Inglaterra em 1943, Richard J Roberts mudou-se para os Estados Unidos e foi laureado por seus estudos do DNA, pesquisando aqueles fragmentos de DNA que não têm, aparentemente, a ver com a informação genética e, nessa área fez grandes descobertas.
Evidentemente há vozes e amplos estudos que denunciam o papel da indústria capitalista de medicamentos, o seu lado sombrio. Como a Dra. Marcia Angell, autora de A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos, 2007 e o Dr. Peter C Gotzsche, autor de Medicamentos mortais e crime organizado, de 2016, e portanto trata-se de um debate já instalado contra a indústria de medicamentos capitalista.
É nessa perspectiva, aliás, que as alas mais conscientes do debate defendem diretamente a estatização de todas essas companhias, sua fusão em uma única [uma Farmobrás], sob controle dos trabalhadores; e muitos argumentam que enquanto medicamentos, equipamentos médicos e os próprios serviços de assistência médica forem mercadorias, forem privados, enquanto a medicina for mercantilizada, esse setor não sai do pântano histórico em que foi jogado pela ânsia inexorável da acumulação do capital.
Mas Sir Richard Roberts não pertence a esse campo mais consciente. No entanto, por isso mesmo, e ironicamente, sua denúncia deve ser levada em conta: ele fala a partir do ambiente farmacêutico, ele sabe do que está falando.
Segundo a fonte acima citada, ele teria declarado que “as companhias farmacêuticas têm pouco interesse em gastar muito para encontrar curas de algumas enfermidades porque uma vez que a cura fosse encontrada, o potencial de mercado estaria limitado enormemente. Preferem encontrar medicamentos que sejam efetivos contra enfermidades crônicas que os pacientes terão que continuar tomando durante muitos anos, e, de preferência, pelo resto de suas vidas”. Ele citou o caso dos anti-hipertensivos.
Justamente. Karl Marx dixit: o espectro anticapitalista de Marx circula por onde menos se espera, e hoje ronda também os ambientes da medicina do capital.
O Dr. Roberts, que trabalha na empresa New England Biolabs [fabricante norte-americana de reagentes biológicos para investigações nas ciências da vida, ] reitera que “habitualmente as companhias farmacêuticas tocam um modelo de negócios que não busca curas e que a exceção são os antibióticos”. E acrescenta que tais curas estão sendo investigadas na medicina acadêmica e o resultado “só se transfere para as empresas quando existe um modelo de negócios que faça sentido” para elas. Em português coloquial: só vai para a frente, se der lucro. É por isso que a medicina está tão degradada, imediatista, corrompida e a nossa vida tão medicalizada.
Também no El País, mês passado, o mesmo Roberts deu outra entrevista onde reiterou sua tese: ele “critica que a indústria farmacêutica diga que quer curar enfermidades quando não faz isso, porque não é negócio. E agregou que “à indústria do câncer lhe interessa mais tratar de parar a progressão do câncer do que eliminá-lo” [El País, 5/7/17, entrevista a Kristin Suleng, onde ele defende os transgênicos].
Outro prêmio Nobel, o americano Roger Kornberg [Nobel de química, 2006] vai na mesma linha, ao afirmar que as empresas farmacêuticas ficam diante de diferentes decisões, como a de “criar um remédio que cure uma doença com uma dose” ou outro que tenha que ser administrado em múltiplas doses. Para ele, os executivos-chefes da empresa “apoiarão a segunda opção, que é mais benéfica economicamente”. [A fonte é sua entrevista para a EFE, Valencia, Espanha, em 2/6/08, Cientistas vencedores de Premio Nobel dizem que clonagem humana será possível].
Nesta mesma entrevista, na Espanha, Richard Roberts também declarou que    acredita que os laboratórios farmacêuticos optam por fabricar um determinado medicamento porque é “proveitoso economicamente e não necessariamente para a saúde” [Quem leu O capital vai se sentir em casa, novamente, ao ouvir essa tese].
Em resumidas palavras, e contrariando aqueles defensores do capitalismo que alegam que a empresa apenas produz os medicamentos de que necessitamos [e, “naturalmente”, apenas pegam seu lucro básico], o que se vê, inclusive por parte de dois cientistas do stablishment, dois prêmios Nobel, é o contrário: se o medicamento é produzido em função do lucro, o resultado final passa a ser suspeito. Pode visar objetivos espúrios, desumanos, promovendo, no final de contas a permanência das doenças crônicas, mais lucrativas por conta do mercado cativo de medicamentos de uso continuado.
A velha conclusão se impõe: nenhuma ciência pode ficar isenta, e frequentemente não consegue deixar de se corromper [como “bad science”], se continuar nas mãos do capital.
* GILSON DANTAS é graduado em Medicina pela Universidade de Brasília; Doutor em Sociologia pela UnB.

O programa do Mercado feito por Henrique Meirelles e suas consequências desastrosas para o povo brasileiro

Texto escrito por José de Souza Castro:

O Mercado, informa Samuel Pinheiro Guimarães, é integrado por cerca de 200 mil pessoas que declaram à Receita Federal rendimentos mensais superiores a 80 salários mínimos (cerca de R$ 80 mil). Seu número é inferior a 0,2% da população adulta brasileira. E menos de 1% dos declarantes do Imposto de Renda.
Pois bem, é para essa população reduzida que se orienta toda a política econômica do governo Temer. Visando a satisfazê-la e seguindo à risca as políticas do Consenso de Washington formuladas, em 1989, por economistas do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, satisfazendo também os integrantes do Mercado mundial. Tudo boa gente.
É um assunto árido que o embaixador Pinheiro Guimarães, no entanto, trata de forma bem clara e didática num artigo publicado na última quinta-feira. Vou resumi-lo. Para quem não sabe, o autor foi secretário-geral do Itamaraty e Ministro de Assuntos Estratégicos no Governo Lula.
O programa do Mercado é o programa econômico do ministro Henrique Meirelles, que foi presidente do BankBoston entre 1996 e 1999 e do FleetBoston Financial, nos Estados Unidos. Que presidiu o Banco Central do Brasil, de 2003 a 2010. E, entre 2012 e 2016, o Conselho de Administração da holding J&F, de Joesley Batista, aquele que até junho deste ano era um dos milionários amigos de Temer.
Esse programa, diz Pinheiro Guimarães, é “desejado com ardor (e promovido com recursos) pelos banqueiros, rentistas, grandes empresários comerciais e industriais, grandes proprietários rurais, donos de grandes órgãos de comunicação, gestores de grandes fortunas, executivos de grandes empresas e seus representantes no Congresso”.
Tudo gente boa.
O problema é que o Programa de Reformas de Meirelles – na verdade, contrarreformas – promove um retrocesso econômico e social ao período anterior a 1930. Anterior a Keynes. Um programa que deveria ser rejeitado, não fosse a ignorância, pela esmagadora maioria do povo. Enquanto o povo não se informar e reagir, esse programa será imposto de forma implacável ao Brasil.
Não se pode afirmar que o Consenso de Washington seja ruim para todos os países. Estados Unidos, por exemplo, se beneficiaram. Mas, diz Pinheiro Guimarães, aqueles países que se desenvolveram e cresceram rapidamente depois de 1989 “foram os que não seguiram estas políticas do Consenso (sempre advogadas pelos Estados Unidos, organismos econômicos e países desenvolvidos) com especial destaque para a China, e em parte pela Índia”.
O Consenso de Washington tem 10 princípios. O primeiro é a disciplina fiscal, que significa o esforço de promover um rigoroso equilíbrio entre receitas e despesas públicas. Para isso, “elimina a possibilidade de endividamento do Estado para realizar políticas anticíclicas, para enfrentar o desemprego e o subemprego, e realizar os investimentos estruturantes e indispensáveis ao desenvolvimento sustentado de um país”, esclarece Pinheiro Guimarães. Daí a Emenda Constitucional 95, “que congela as despesas ‘primárias’ por 20 anos, sem tocar nas despesas do Estado com a dívida pública, que chegam a quase 50% do total do orçamento e dos gastos públicos, sem permitir o aumento de receitas, rejeitando o combate à sonegação de impostos e à evasão de divisas, e, implicitamente, negando a possibilidade de aumento de impostos e de reforma tributária”.
O segundo princípio do Consenso – a redução dos gastos públicos – significa diminuir as despesas primárias com as atividades do Estado. O autor prevê algumas consequências:
1. Redução do Bolsa Família, que atende hoje a 25% da população, o que redundará em aumento da pobreza absoluta;
2. Redução do atendimento às crianças na primeira infância;
3. Redução do SUS e agravamento da situação da saúde da massa de cidadãos pobres, sem capacidade de pagar por remédios e assistência médica;
4. Redução dos investimentos em educação e sua privatização o que excluirá os pobres do acesso à educação;
5. Redução dos investimentos em defesa, necessários a uma política de dissuasão, imprescindível a um país com as dimensões geográficas, populacionais e econômicas do Brasil.
6. Redução dos investimentos em ciência e tecnologia.
O terceiro princípio, a reforma tributária, não significa tornar o sistema tributário menos regressivo, isto é, menos incidente sobre os mais pobres, mas sim reduzir impostos sobre o capital e as contribuições previdenciárias das empresas para, com o aumento da perspectiva de lucro das empresas, atingir o objetivo de estimular os investimentos privados.
“A pouca disposição de Henrique Meirelles de rever as desonerações fiscais e de cobrar a dívida pública da União, que supera o montante de três trilhões de reais, e as dívidas das empresas privadas para com a Previdência, que chegam a mais de 400 bilhões de reais; os programas de refinanciamento de dívidas (REFIS) que são, em realidade, programas de perdão de dívidas; a tolerância com as decisões do Conselho Administrativo da Receita Federal (CARF) em favor das grandes empresas e contra o Estado; a tolerância com a evasão de divisas para o exterior, revelam, em seu conjunto, a natureza da reforma tributária que Meirelles está, na prática, realizando em benefício do capital e contra o trabalho”, critica Pinheiro Guimarães.
O quarto princípio – a prática de juros de mercado – significa que o Estado “não deve executar políticas de juros subsidiados para estimular e fortalecer as empresas de capital nacional em sua competição, interna e internacional, com as megaempresas multinacionais que, além dos recursos de suas tesourarias, tem fácil acesso a financiamento de bancos públicos de seus Estados e de megabancos privados multinacionais”.
Meirelles está conseguindo, no Congresso Nacional, substituir a taxa de juros cobrada pelo BNDES nos empréstimos às empresas, seguindo o quarto princípio do Consenso de Washington. É um dos instrumentos da política de privatização dos bancos públicos brasileiros, diz Pinheiro Guimarães. No caso do BNDES, “visa também beneficiar as empresas estrangeiras que atuam no Brasil e forçar as empresas brasileiras a se financiarem junto a bancos privados que praticam taxas de juros (a empresas) que superam 30% ao ano, taxas que tornam inviável qualquer investimento produtivo”.
O quinto princípio é a adoção, pelos países em desenvolvimento, de uma política de câmbio de mercado. Isto é, que o Estado “não interfira de nenhuma forma no mercado cambial e que não controle de nenhuma forma os fluxos de ingresso e de saída de capitais da economia e, portanto, permita a intensa especulação que existe no mercado mundial de divisas”.
Para piorar, aqui se realiza uma política de câmbio valorizado, “isto é, o real tem um valor em relação ao dólar muito superior ao que seria conveniente para promover o desenvolvimento industrial e os investimentos privados necessários, política que dificulta as exportações brasileiras, inunda o mercado doméstico com importações de produtos industriais baratos (provenientes em especial da China, mas não somente da China), estimula as despesas com turismo etc. e desnacionaliza a indústria brasileira que, cada vez mais enfraquecida, é gradualmente vendida a preços ‘muito bons’, segundo os especialistas em vender o Brasil”.
O sexto princípio é a abertura comercial, que consagra a divisão internacional do trabalho entre países primários e países industriais. “É o objetivo de Henrique Meirelles na medida em que este pratica uma política de plena liberdade de ingresso no Brasil de produtos industriais estrangeiros, mesmo quando há situações de dumping”, afirma o autor. E prossegue:
“As consequências desta política de abertura se pode verificar pelos déficits na balança comercial de produtos industriais com os países altamente industrializados e com a China; por não haver regulamentação da exportação de produtos agrícolas, altamente favorecida pela política de crédito do Governo (o que beneficia os países que importam produtos primários brasileiros); pela decisão de extinguir o acesso a crédito favorecido às empresas instaladas no Brasil que era concedido pelo BNDES; pela eliminação da política de conteúdo nacional; pela fraca defesa das políticas brasileiras denunciadas na Organização Mundial do Comércio (OMC) pelos países exportadores industriais que procuram impedir a emergência de competidores enquanto, no Brasil, se repete sem cessar o mantra da competitividade e da produtividade, na realidade, argumentos para promover a redução de salários e de benefícios aos trabalhadores.”
Para dificultar a reversão dessa política de recolonização do país, Henrique Meirelles vai promover a adesão do Brasil à Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países mais desenvolvidos do mundo, “para articular posições comuns em negociações e em organismos internacionais, sem ouvir a sociedade ou o Congresso Nacional, aferrolhando (lock in) toda sua política ultra neoliberal e tornando sua eventual revisão, ainda que venha a se verificar indispensável pelas necessidades de desenvolvimento de um país com as características do Brasil, mais difícil, pois sua revisão contrariaria “compromissos Internacionais”’.
O sétimo princípio – a eliminação das restrições ao investimento direto estrangeiro – vem sendo posto em prática pela privatização e desnacionalização das empresas estatais (“sem qualquer precaução de natureza estratégica, como ocorre em países desenvolvidos em relação a setores como eletricidade, portos e meios de comunicação”), pela abertura da exploração das reservas do pré-sal às megaempresas petrolíferas estrangeiras, pela política de fragmentação e venda a multinacionais petroleiras de empresas do complexo da Petrobrás e pelo fim da política de conteúdo nacional.
“Outras políticas do Governo de favorecimento ao capital estrangeiro são a abertura de setores de serviços como a saúde e educação; a venda de terras a estrangeiros; a desregulamentação ambiental e a abertura de reservas florestais à exploração econômica, em especial à mineração”, lembra Pinheiro Guimarães.
O oitavo princípio é a privatização das empresas estatais. “Agora foi anunciada a privatização de 57 empresas, entre elas a Eletrobrás, a Casa da Moeda e grandes aeroportos, e prossegue, de forma discreta, o programa de desinvestimento da Petrobras, executado por Pedro Parente, que transformará a Petrobras, uma grande empresa de petróleo integrada e altamente competitiva no cenário internacional, em uma pequena empresa exportadora de petróleo, em especial para os Estados Unidos.”
O nono é a política de desregulamentação, “que significa, no mínimo, o afrouxamento da legislação econômica e trabalhista”. Tem mais: “Na área ambiental, a flexibilização se faz pela transferência da União para os Estados da competência para a determinação de reservas ambientais; pela redução das exigências dos relatórios de impacto ambiental; pela flexibilização no uso de agrotóxicos. Todo o programa de privatização (e desnacionalização) de empresas estatais corresponde também a uma ampla desregulamentação da atividade econômica em benefício das empresas privadas, mas não dos trabalhadores. O enfraquecimento da regulamentação econômica se agravará com a redução das atividades de fiscalização do Estado que decorrerá da atrofia dos organismos de fiscalização devido a cortes de recursos e de pessoal”.
Finalmente, a décima recomendação do Consenso de Washington diz respeito a proteção da propriedade intelectual através de uma legislação mais favorável aos detentores de patentes e marcas “que são, em geral, megaempresas multinacionais”.
Mais previsões do autor:
A concentração de renda e de riqueza tenderá a se aprofundar continuamente, assim como as demais disparidades internas e vulnerabilidades externas. A violência urbana e rural tenderá a se agravar de forma significativa.
E os detentores de grandes fortunas tenderão a se tornar absenteístas, isto é, passarão a residir no exterior como já ocorre em relação a muitas de suas famílias e herdeiros.
Esses aí conseguem fugir do Mercado que estão criando e contribuindo para transformar a maioria dos brasileiros numa massa “de desempregados, subempregados e miseráveis”.

(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/09/04/henriquemeirelles/#more-14383)