segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Peixes diminuem de tamanho à medida que a temperatura do oceano aumenta

Um dos peixes economicamente mais importantes está diminuindo em peso corporal, comprimento e tamanho físico total à medida que a temperatura do oceano aumenta, de acordo com uma nova pesquisa do professor R. Eugene Turner, da LSU Boyd, publicada na Geo: Geography and Environment. O tamanho médio do corpo do Brevoortia patronus (Gulf Menhaden) um pequeno peixe pescado nos EUA, das costas do Maine ao Texas – diminuiu cerca de 15% nos últimos 65 anos.
A reportagem é de Alison Satake, publicada por Lousiana State University, editada e traduzida por Henrique Cortez e reproduzida por EcoDebate, 09-10-2017.

Menhaden constituiu cerca de metade da pesca de peixe do Atlântico e do Golfo do México, num valor estimado em, aproximadamente, US$ 129 milhões em 2013. São espécies costeiras que se reproduzem no oceano e se mudam para estuários onde os peixes jovens crescem de um até dois anos de idade. A temperatura da superfície do ar e do mar na costa atlântica e no Golfo do México aumentou constantemente, especialmente nos estuários, onde a troca de calor ocorre de forma eficiente entre o ar e o mar. Os menhaden adultos retornam para o oceano onde são pescados com redes de cerco.
Menhaden é uma importante fonte de alimento para aves, focas, baleias e outros animais. Portanto, as consequências do encolhimento de Menhaden, no tamanho do corpo, se estendem por toda a cadeia alimentar.
Turner calculou as mudanças de peso e comprimento desses peixes usando dados coletados pelo National Marine Fisheries Service. De 1955 a 2008, cerca de 495,000 menhaden do Atlântico foram coletados pela agência. De 1964 a 2010, foram coletados cerca de 510 mil menhaden do Golfo do México. Os dados mostram um declínio no peso e comprimento anual entre os peixes de 3, 4 e 5 anos de idade. Por exemplo, um peixe de 4 anos capturado em 2010 pesou 11 por cento menos do que um peixe de 4 anos capturado em 1987.

Referência:

Turner R Eugene. Smaller size-at-age menhaden with coastal warming and fishing intensity. Geo: Geography and Environment. 2017, 4(2): e00044. DOI: 10.1002/geo2.44

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/572496-peixes-diminuem-de-tamanho-a-medida-que-a-temperatura-do-oceano-aumenta)

'Novo analfabetismo': por que tantos alunos latino-americanos terminam ensino fundamental sem ler ou fazer contas

A conclusão do ensino fundamental é uma etapa essencial da vida estudantil, mas para grande parte dos alunos latinos-americanos ela é concluída sem que sejam aprendidas habilidades mínimas.
Segundo um informe recente do Instituto de Estatísticas da Unesco, braço da ONU para a educação, grande parte dos jovens da América Latina e do Caribe não alcançam os níveis exigidos de proficiência em capacidade leitora ao concluírem o que no Brasil equivale à segunda etapa do ensino fundamental, em geral, aos 14 anos.
A reportagem é de Ángel Bermúdez, publicada por BBC Brasil, 11-10-2017.

O estudo diz que, em média, 36% das crianças latino-americanas no ensino fundamental não estão atingindo as habilidades mínimas de leitura. Em matemática, esse índice sobe para 52%.
Em números absolutos, 19 milhões de adolescentes do continente concluem o fundamental "sem conseguir níveis mínimos" de compreensão nessas áreas.
Especificamente no Brasil, dados compilados pela plataforma QEdu com base no Prova Brasil 2015 dão a dimensão do problema nessa etapa do ensino: apenas 30% dos alunos da rede pública saem do 9º ano com aprendizado adequado em leitura e interpretação.
Em matemática, apenas 14% dos alunos do 9º ano aprenderam o adequado em resolução de problemas.

'Novo analfabetismo'

Silvia Montoya, diretora do Instituto de Estatísticas da Unesco, considera "dramática" a ausência de compreensão de leitura em tantos estudantes do continente.
"O fato de haver crianças sem competências básicas, no que se refere a ler parágrafos simples e extrair informações deles, é o que eu consideraria uma nova definição de analfabetismo", diz ela à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC.
"No mundo de hoje, ter um nível mínimo de alfabetização já não é (apenas) saber ler o próprio nome e escrever algum fato da vida cotidiana. Carecer de compreensão leitora é uma espécie de incapacidade de se inserir na sociedade, poder votar e entender as propostas dos candidatos, entender seus próprios direitos e deveres como cidadão. Afeta todas as dimensões."
E, prossegue Montoya, a leitura é uma habilidade básica, sobre a qual se constroem as demais capacidades estudantis.
"Sem essa competência, estamos gerando crianças e adolescentes que vão (vivenciar) diretamente muitas frustrações pessoais e de integração social e profissional. Sem entender textos, é muito difícil avançar em qualquer área."
A situação se agrava quando se leva em consideração o grau de exigências do mundo atual, em que a informação disponível é complexa e tem diferentes graus de qualidade e confiabilidade - o que exige leitores com senso crítico e habilidade de interpretação.

Uma escola que não funciona

E se antes o desafio da América Latina era o da inclusão dos alunos ao sistema de ensino, hoje a questão é mais qualitativa do que quantitativa.

O relatório da Unesco afirma que "o desperdício de potencial humano evidenciado pelos dados confirma que levar as crianças à sala de aula é apenas metade da batalha. Agora, temos de garantir que todas as crianças naquela sala de aula estejam aprendendo as habilidades básicas de que precisam em leitura e matemática, no mínimo".
"Agora, a realidade é que as crianças estão dentro do sistema educativo, mas há uma inabilidade da escola em dotá-los do nível de aprendizado razoável e mínimo para as circunstâncias que demanda o mundo hoje e no futuro", afirma Montoya.
E isso é resultado de uma série de problemas, como formação deficiente que não prepara os docentes para lidar com os desafios de sala de aula, problemas de infraestrutura, numerosas perdas de dias letivos por conta de greves e outras questões - além, também, da própria situação socioeconômica dos estudantes, que "podem vir de lares de baixa renda e contar com menor apoio familiar".
"Há uma combinação de fatores que podem variar em cada lugar, mas evidentemente há uma ausência de políticas específicas para enfrentar o problema", afirma Montoya.
Ela agrega que é preciso analisar os currículos, a formação de docentes - para garantir que sejam capazes de ensinar crianças vindas de contextos sociais difíceis -, contar com um ambiente e uma infraestrutura adequados e ter uma rede de políticas sociais de apoio.
No Brasil, uma nova base nacional curricular, documento do Ministério da Educação que vai definir diretrizes de ensino, está atualmente em fase de consulta pública.
"Não há como resolver (o problema da educação) sem uma visão integral do sistema educacional", opina Montoya.
O problema não se restringe à América Latina - é um drama global.
O relatório da Unesco calcula que, no mundo, haja 617 milhões de crianças e adolescentes - o equivalente a três vezes a população total do Brasil - incapazes de entender minimamente um texto ou resolver problemas matemáticos básicos, o que seria esperado em sua idade escolar.
Na África Subsaariana, 88% dos alunos concluem os estudos equivalentes ao fundamental com problemas de compreensão em leitura. Para efeitos comparativos, esse índice cai para 14% na América do Norte e na Europa.

(fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/572562-novo-analfabetismo-por-que-tantos-alunos-latino-americanos-terminam-ensino-fundamental-sem-ler-ou-fazer-contas)

Número de crianças obesas se multiplica por dez em quatro décadas

O mundo enfrenta uma crise global de má nutrição causada tanto pela falta de comida como pelo consumo de alimentos processados pouco saudáveis. Os dois problemas estão relacionados com a pobreza e a desigualdade social e ameaçam cada vez mais os países em desenvolvimento, alerta um estudo publicado nesta quarta-feira pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em colaboração com instituições acadêmicas do Reino Unido.
A reportagem é de Nuño Domínguez, publicada por El País, 11-10-2017.

No mundo já há 124 milhões de crianças e jovens — entre cinco e 19 anos — que sofrem de obesidade, um número dez vezes maior do que o registrado há quatro décadas. Enquanto o problema segue crescendo entre os mais jovens, o avanço da desnutrição está diminuindo a nível global. Se estas tendências continuarem nos próximos anos, em 2022 haverá no mundo mais crianças e jovens obesos do que desnutridos, acrescenta o trabalho, que também ressalta que há outros 213 milhões de garotos e garotas com sobrepeso. À este problema é preciso somar o dos 192 milhões de crianças e jovens com desnutrição moderada e aguda, um problema que afeta especialmente países asiáticos, como a Índia.
“A obesidade também é uma consequência da má nutrição”, explica Chiara di Cesare, especialista em saúde pública da Universidade de Middlesex e coautora do estudo, publicado nesta quarta na revista médica The Lancet, e cujos dados por países podem ser observados aqui. O estudo analisou mais de 2.000 estudos sobre o índice de massa corporal de adultos, crianças e adolescentes que inclui dados de 128 milhões de pessoas para estimar as taxas de sobrepeso, obesidade e desnutrição em 200 países.
“A obesidade também é uma consequência da má nutrição A região com mais crianças obesas é a Polinésia, onde mais de 30% das crianças e jovens estão obesos. Em seguida estão outras regiões de países em desenvolvimento com taxas próximas a 20% na Ásia e no Norte da África, como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait e Egito. América Latina também é uma das regiões onde mais cresceu a obesidade entre as crianças, explica Di Cesare. A nível global, 5,6% das garotas e 7,8% dos garotos estão obesos. Em 1975, o primeiro ano analisado, as cifras eram de 0,7% e de 0,9%, respetivamente. Quando analisados os dados apenas do Brasil, os números são ainda mais altos: entre os meninos, a prevalência é de 12,7% e, entre as meninas, de 9,4% —em 1975, era de 0,9% para ambos e, em 2000, quando houve um estirão de crescimento, de 5,7% entre eles e de 5% entre elas.
“Ainda não está clara qual é a explicação para que se tenha tanta obesidade nestes países, embora uma das razões possa ser as mudanças bruscas no mercado de alimentação e a chegada das comidas processadas com baixo valor nutritivo”, ressalta a especialista. Enquanto a obesidade entre jovens avança nos países em desenvolvimento, o crescimento está estancando na Europa e nos EUA, mas só após décadas de avanço e com uma prevalência que continua sendo muito alta, alertam os autores do trabalho.
Se o impacto da desnutrição é visível e de curto prazo — certa de três milhões de crianças morrem por estas causas a cada ano —, o da obesidade é crônico, pois fomenta doenças como a diabetes, os problemas cardiovasculares ou o câncer, que aparecem após décadas. Com esta tendência, se não se tomarem medidas “sérias” contra a obesidade, “se colocará em risco desnecessário a saúde de milhões de pessoas, o que elevará os custos humanos e econômicos”, alertou Leanne Riley, especialista da OMS e coautora do estudo.
Majid Ezzati, pesquisador do Imperial College e um dos coordenadores do trabalho, ressalta que “a maioria de países ricos resistiram a estabelecer impostos e regulação para mudar os hábitos alimentares das crianças e, assim, evitar a obesidade infantil”. “Mais importante é que existem muito poucas políticas e programas dedicados a facilitar o acesso a comidas saudáveis como os grãos integrais, frutas e vegetais para famílias pobres. A impossibilidade de comprar comida saudável pode levar à desigualdade social e à obesidade”, acrescenta.
A transição entre a desnutrição e o sobrepeso e a obesidade pode acontecer de forma rápida em países em desenvolvimento que passam de ter falta de comida a um acesso facilitado a alimentos e bebidas processadas com alto teor de gorduras, sal e açúcares e poucos nutrientes essenciais, alertam os autores. Ao mesmo tempo, “os países desenvolvidos mostram um estancamento do avanço da obesidade, mas é possível que o que esteja acontecendo é uma redução só entre os mais ricos e um avanço entre os setores mais desfavorecidos”, adverte Di Cesare.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/572560-numero-de-criancas-obesas-se-multiplica-por-dez-em-quatro-decadas)

Café História da semana

Projeto inovador de quadrinhos digitais estreia com ficção sobre Segunda Guerra Mundial
“Protanopia” é um quadrinho multiação, animado e que o próprio leitor controla a partir de tablets e celulares. Aplicativo é gratuito. Clique aqui para ler a notícia. 
 


 

Historiador comenta novo “Call of Duty”, famoso game que está que volta à II Guerra Mundial

Game multiplataforma que será lançado em novembro já foi objeto de estudo de dissertação de mestrado em História defendida no Brasil.

Historiadora cria blog para registrar o dia a dia de sua pesquisa no Egito

“Diário de campo de uma egiptóloga portuguesa no Egito” foi lançado nesta terça-feira e também tem a função de difundir o debate sobre o Egito Antigo.
 




Hidrocídio brasileiro: a matança das águas

São Francisco, Araguari, Paracatu, Tocantins, Javaés. Os rios brasileiros agonizam. “Não sabemos o que será e nem como será, só sabemos que estamos preparando o inferno para as gerações futuras.”
Por Roberto Malvezzi (Gogó)

A cada dia chega a notícia da morte de um rio, ou de que um rio famoso agoniza. Afluentes dos grandes rios brasileiro estão sendo mortos às centenas, aos milhares, num verdadeiro hidrocídio, isto é, a matança das águas.

Esses dias nos chegou a visão do leito seco do Paracatu, um dos maiores afluentes do São Francisco. No ano passado, em Macapá, me contaram que a pororoca do rio Araguari estava extinta. Esse ano, no Acre, me informaram que o prognóstico científico é de que o rio do Acre seque em dez anos.
Em Miracema, quando estive lá no ano passado, quase atravessamos o rio Tocantins a pé, com a água alcançando no máximo a cintura. Ali mesmo nos contaram que o rio Javaés, que faz a Ilha do Bananal, considerada a maior ilha fluvial do mundo, também tinha secado.

O Velho Chico agoniza a olho nu, com pouco mais de 500 m³/s, e na sua foz o mar avança São Francisco adentro, já salinizando as águas antigamente doces das comunidades ribeirinhas.
Nosso ciclo das águas, que se origina na Amazônia e depois se espalha por todo território brasileiro, chegando até Buenos Aires, Assunção e Montevideo, está sendo estrangulado pelas atividades predadoras que precisam destruir a vegetação para se impor. Ao destruir a Amazônia matamos a bomba biótica que injeta água na atmosfera; ao destruir o Cerrado matamos nossos maiores reservatórios naturais, aquíferos como o Bambuí, Urucuia e Guarani. A riqueza derivada da rapinagem não tem fôlego e também entrará em colapso com o colapso de nossas águas.

Não sabemos exatamente o que será e nem como será, só sabemos que estamos preparando o inferno para as gerações futuras.

Mesmo assim não nos conformamos. Como diz uma frase atribuída a Martin Luther King, “se eu soubesse que o mundo acabaria amanhã, mesmo assim hoje eu plantaria uma árvore”.

(fonte: http://outraspalavras.net/blog/2017/10/13/hidrocidio-brasileiro-a-matanca-das-aguas/)

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Wallerstein: tempos de incerteza caótica

Cresce a instabilidade global. Atores políticos antes previsíveis alteram seu comportamento bruscamente. Antecipar o futuro torna-se quase impossível. A crise estrutural aprofunda-se

Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Inês Castilho

Você está confuso com o que acontece no mundo? Eu também estou. Todo mundo está. Essa é a realidade subjacente e contínua de um sistema-mundo caótico.
Numa situação caótica, há mudanças constantes e dramáticas nas prioridades de todos os atores. Num dia, as coisas parecem correr de modo favorável, do ponto de vista de certo ator. No dia seguinte, a perspectiva parece muito desfavorável.
Além disso, parece não haver possibilidade de predizer que posição os atores assumirão no momento seguinte. Comportam-se de maneiras que pensávamos impossíveis, ou no mínimo improváveis, surpreendendo-nos repetidamente. Mas estão simplesmente tentando maximizar sua vantagem, ao mudar de postura sobre uma questão importante, mudando também as alianças que farão para conseguir aquela vantagem.
Nem sempre o sistema-mundo esteve mergulhado no caos. Muito pelo contrário! O sistema-mundo moderno, como qualquer sistema, tem suas regras de funcionamento. Essas regras possibilitam que tanto os de fora quanto os participantes avaliem o comportamento provável de diferentes atores. A aderência às regras de comportamento expressa o funcionamento “normal” do sistema.
Somente quando o sistema atinge um ponto em que não é possível retornar a um equilíbrio (móvel) que renova suas operações normais é que ele entra numa crise estrutural. A incerteza caótica é uma característica central dessa crise estrutural.
No começo de setembro de 2017 houve três dessas mudanças dramáticas em prioridades e alianças. A que atraiu maior atenção foi o anúncio, pelo presidente dos EUA Donald Trump, de que havia chegado a um acordo com os líderes democratas do Congresso – senador Chuck Schumer e deputada Nancy Pelosi – para promulgar uma medida de (1) ajuda emergencial para o furacão no Texas e estados vizinhos, sem impor quaisquer condições, combinada com (2) aumento do teto do endividamento, por três anos.
Esse acordo foi significativo por duas razões. Primeiro, porque Trump havia se comprometido a não negociar com os democratas. E mais, essa negociação foi aparentemente nos termos estabelecidos pelos democratas. Mais importante ainda, Trump fez esse acordo sem informar, até o último minuto, a liderança republicana no Congresso – o deputado Paul Ryan e o senador Mitch McConnell, que se sentiram compreensivelmente atacados por essa ação. Segundo, e ainda mais surpreendente, ele adiou por seis meses o fim do programa DACA, celebrado pelo ex-presidente Barack Obama. O DACA foi projetado por Obama para permitir a permanência, nos EUA aos chamados dreamers, imigrantes “ilegais” que chegaram ao país na infância. Trump prometera cancelar o programa no primeiro dia do seu mandato.
Por quanto tempo esse acordo irá durar, ainda não se sabe. Mas seu simples anúncio perturbou, provavelmente por um longo tempo, a relação de confiança entre Trump e os congressistas republicanos. Foi por certo uma virada dramática.
Menos notada, mas muito importante, foi o anúncio, pelo governo da Indonésia, da mudança, para Mar de Natuna Norte, do nome das águas imediatamente ao norte do país. Esse ato aparentemente inócuo pode ser entendido em termos de história das reivindicações marítimas nas águas do leste e sudeste da Ásia. Há algum tempo, a China tem reivindicado a maior parte desses mares e construído bases em ilhas ou mesmo rochas neles localizadas.
As reivindicações chinesas foram contestadas pelas Filipinas, Taiwan e Vietnã, e também pelos Estados Unidos. Até agora, a Indonésia tentou manter-se neutra nessas disputas e até se ofereceu como mediadora. O ato de renomear as águas ao norte do país é, contudo, uma proclamação dos direitos indonésios a águas reclamadas pela China. Anunciar publicamente essa disputa é não apenas um ato contra a China como também uma atitude muito “dura” da Indonésia. A China imediatamente sinalizou seu desagrado com a renomeação. A Indonésia não está recuando.
A terceira virada em alianças é menos dramática porque já acontece há algum tempo. Todavia, agora assumiu uma forma dramática. A Turquia parece ter renunciado a suas obrigações como membro da OTAN, ao decidir pela compra de um sistema militar russo de mísseis terra-ar, que não é “interoperável” pelos aliados da OTAN.
Esse ato é considerado um grande giro nas antigas relações turcas com a Europa Ocidental e os Estados Unidos. Da perspectiva turca, é simplesmente uma resposta a atos hostis de membros da OTAN contra ela. Tem ainda implicações para alianças geopolíticas e grandes arranjos econômicos. É uma maneira de relegar ao passado disputas entre a Turquia e a Rússia sobre a Síria e o Irã. Também aqui é preciso averiguar o quanto durará.
Viradas dramáticas são o arroz com feijão cotidiano de uma crise estrutural. Isso significa que viveremos em incerteza caótica até que a crise estrutural seja resolvida em favor de uma das duas pontas da bifurcação. Precisamos concentrar nossas análises e nossas ações naquilo que torna mais provável o lado progressista da bifurcação ultrapassar, no médio prazo, o lado reacionário, para a resolução dessa luta.

(fonte: http://outraspalavras.net/capa/wallerstein-tempos-de-incerteza-caotica/)

Catalunha: depois da polícia, os tanques?


Até os neoliberais inteligentes sugerem ao governo espanhol negociar. Mas Mariano Rajoy recrudesce — ou por cálculo eleitoral, ou porque à “nova” direita já não importa nem as aparências democráticas
Por Nuno Ramos de Almeida, de Barcelona

O Tribunal Constitucional mandou anular a sessão de segunda-feira do Parlamento catalão, na qual o presidente do governo da Catalunha, Carles Puigdemont, apresentaria os resultados do referendo de 1º de outubro, antes mesmo da sessão ter sido formalmente convocada. Apesar das várias ofertas de mediação para tentar que governos espanhol e catalão se encontrem e falem sem condições prévias, como referiu à estação de televisão La Sexta o vice-presidente da Generalitat, Oriol Junqueras, a verdade é que Mariano Rajoy, presidente do Governo espanhol exige, para conversar, a rendição dos catalães.E a pressão segue em várias frentes. O responsável pela polícia catalã, Josep Lluís Trapero, e os dirigentes das associações independentistas Assembleia Nacional Catalã (ANC) e Omnia Cultural foram responder em Madrid no tribunal da Audiência Nacional por acusações de sedição.Apesar de repetir todos os dias, como um mantra, que a Catalunha continuará a ser parte de Espanha, o governo de Rajoy ultima um decreto que facilite a saída de empresas da região rebelde para outras partes de Espanha. Segundo o vice-presidente catalão, “o governo espanhol pressionou os bancos Sabadell e a Caixa para saírem da Catalunha com métodos que não usam governos democráticos”. Métodos à parte, o banco Sabadell já confirmou a saída para Alicante, justificando a “necessidade de defender os seus acionistas e os seus depositantes”, perante um cenário de anúncio de Declaração Unilateral de Independência (DIU), e não podendo arriscar ficar fora do euro e do guarda-chuva do Banco Central Europeu.
Uma decisão que tem dois lados, como sublinha em entrevista ao i, a sair na próxima segunda-feira, o antigo porta-voz da Candidatura de Unidade Popular Unitária (CUP, autonomista de esquerda) no Parlamento da Catalunha, David Fernàndez. “Se a Caixa e o Sabadell se forem, perdem grande parte dos seus negócios aqui; no caso da Caixa isso significa cerca de 50% de seu faturamento”, afirmou. Mais do que medidas econômicas está-se assistindo a um segundo turno do referendo de 1º de outubro, em que algumas das grandes empresas catalãs tomam uma posição ativa contra uma possível independência, a exemplo do que fizeram as suas congêneres escocesas, nomeadamente o Banco da Escócia, quando da realização do referendo sobre a eventual independência dessa parte do Reino Unido.
O fato de o ministro das Finanças espanhol, Luis de Guindos, elaborar uma lei para facilitar a saída das empresas da Catalunha, em caso de uma Declaração Unilateral de Independência, prova duas coisas: que o governo de Rajoy joga armas pesadas contra os independentistas, ao mesmo tempo que implicitamente admite que uma independência de fato da província não é totalmente impossível. A situação está num verdadeiro impasse. Rajoy só aceita negociar caso a Catalunha desista da ideia de ser independente, e pelo seu lado, a Generalitat quer negociar para acordar com Madrid os termos da realização de uma alteração legal que permita a realização de um referendo com a anuência de todos, a qual possibilite aos catalães decidir os termos da sua relação com Espanha, como cantou a célebre banda britânica Clash: Should I Stay Or Should I Go?.
Apesar de parecer ter os tanques e a força na mão, a atitude de Rajoy nesta crise tem motivado críticas duras da imprensa internacional, com destaque para a influente revista Economist. “Qualquer acordo [entre os governos catalães e espanhol] tem de incluir a opção de um referendo para a independência”, considera a revista. Ela critica a via repressiva espanhola para resolver o problema, e afirma que a gestão da crise que Rajoy fez, não é mais do que atirar gasolina ao fogo. Para a revista britânica, a saída da Catalunha será um mau negócio para todos. A capa da edição desta semana é todo um programa: “Não é demasiado tarde para evitar a ruptura com a Espanha”, e isso só é possível com diálogo, coisa que Rajoy parece incapaz de fazer. “Para evitar a calamidade, perguntem aos catalães o que querem realmente”, avisa o editorial da Economist, que recorda a via eficiente como o Reino Unido resolveu o problema escocês e aconselha que o governo espanhol promova um referendo e dê a escolher aos catalães “um novo acordo constitucional”, que inclua “mais autonomia e poder de criar e recolher mais impostos próprios, mais proteção da língua catalã e um certo reconhecimento dos catalães como nação”.
O problema da lógica racional da imprensa internacional é que ela não vive na Espanha e ignora que grande parte das pulsões do conflito têm a “racionalidade” do nacionalismo. Na Espanha, quando se fala em nacionalismo é para falar de bascos, catalães e galegos, ignorando o discurso nacionalista hegemônico que é o espanholista. Só assim se percebe que, no dia seguinte à greve geral na Catalunha, o El País tivesse uma foto com um grupo de 31 pessoas nas ruas de Barcelona, quando se manifestaram centenas de milhares de pessoas nesse dia; ou que os jornalistas da TVE da Catalunha tenham feito um comunicado para protestar por terem sido proibidos de filmar e exibir, na emissão da televisão pública, as imagens da repressão policial no dia 1º de outubro, que provocou cerca de 900 feridos.
O que impede a resolução do conflito não é só Madrid recear que um referendo pudesse dar uma hipotética vitória aos independentistas, é Mariano Rajoy ter a certeza que inflamar os sentimentos nacionalistas espanhóis pode-lhe garantir uma vitória por maioria absoluta, à Erdogan, numas próximas eleições antecipadas em Espanha. Ou os catalães têm a força suficiente – com a ajuda da União Europeia, que entende o potencial economicamente explosivo desta crise – para colocar as duas partes a negociar, ou a ação de Mariano Rajoy será demasiado previsível: evocar o artigo 155 da Constituição que extingue a autonomia, fazê-lo aprovar pelo Senado, onde o PP tem maioria, e caso o seu governo seja censurado e derrubado no parlamento, ir para eleições antecipadas. Ficaríamos com um quadro em que Madrid teria maioria absoluta do PP e na Catalunha deixariam de existir eleições e autonomia por muito, muito tempo. Num país da Europa que se ufana da democracia teríamos uma situação de clara repressão a uma comunidade e nação histórica. Naturalmente, isso só seria possível com o tornar a democracia espanhola uma espécie de ditamole e uma farsa, que iriam pagar não só os catalães, mas os espanhóis no seu conjunto.

(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/catalunha-depois-da-policia-os-tanques/)