sábado, 11 de novembro de 2017

'Morra, William Waack!', 'Morra, Kevin Spacey!', porque o inferno são os outros

Pela declaração racista, em que foi flagrado dizendo ser coisa de preto ficar buzinando alto, o jornalista William Waack foi retirado do comando do Jornal da Globo e demais programas da Rede Globo e Globonews. Também teve palestras que daria canceladas.

O ator Kevin Spacey foi denunciado por assédio sexual, de um fato que teria ocorrido há mais de 30 anos, e depois surgiram outros, até os dias de hoje, mostrando um comportamento desviante e recorrente. Foi afastado de elencos de filmes que seriam produzidos. Perdeu lugar em entidades a que pertencia, teve premiações canceladas. E agora foi apagado de um filme que estrearia no próximo mês de dezembro.

O diretor Ridley Scott (do primeiro Blade Runner) simplesmente decidiu apagar todas as cenas em que Spacey atuava e convocou às pressas outro ator para refazê-las a tempo de o filme estrear em dezembro sem Spacey.

Mas isso ainda parece ser pouco para o apetite de ódio das redes sociais. Apenas apagar o ator nos filmes parece pouco para gente que quer mais.

Por isso vou publicar aqui boa parte de um texto que achei muito bom, do escritor e ativista Anderson França, que li no Facebook. Você pode conferir o texto na íntegra aqui.


(...) ...o que me chama a atenção no caso do Waack não é ele, e sim a expressão que ele usa.
"Coisa de preto."
Em resumo, deixa eu resumir mesmo o texto pra você que tá no trem e quer pensar: Onde mora o Waack dentro de você?
Porque essa expressão não foi criada por ele.
Ele ouviu de alguém. Eu diria que ele cresceu ouvindo isso. Logo, sua fala denuncia seus pais. Que provavelmente ensinaram isso a ele. E provavelmente aprenderam dos seus pais também.
E dos outros adultos. E dos outros pais. Amigos, colegas. Ele fez jornalismo na USP. Ele fez Ciências Políticas na Universidade de Mainz, na Alemanha. Ele trabalha na Globo. Ele mora num bairro nobre. Ele come num restaurante fino. Ele tem amigos importantes. Ele bebe vinho caro.
Quando chega o primeiro navio com pretos prisioneiros, chega também a primeira afirmação sobre eles, que eram animais, sem alma, intelecto, valores, princípios, modos, capacidade de relacionamento.
Quando o primeiro navio negreiro chega, quem anuncia sua chegada é um antepassado do William Waack.
Com o navio ancorado aqui na frente, no Cais do Valongo, o William Waack do século 16 está em frente a uma câmera, pronto para o link pra Portugal.
E os negros que saem do navio, debaixo de surra, gritam de dor.
Ali ele disse, pela primeira vez: "Sujeito de merda. Sabe o que é isso? Coisa de preto."
A falta de uma mão no meio da cara, naquele momento, permitiu que essa expressão se perpetuasse.
Nunca discutimos o quanto essa expressão está nas nossas vidas. Pare e pense sozinho, se possível, com o computador fechado, para evitar que, sei lá, por telepatia seus pensamentos se tornem públicos.
Quantas vezes, nós já ouvimos e falamos isso?
Vou me colocar nesse lugar com você. Porque é isso: é ilusão pensar que só o Waack diz isso.
Eu digo, você diz, sua mãe, o pastor, aquela vó fofinha fazendo tai-chi-chuan, aquela feminista famosa, aquele socialista povão, aquele artista daora, aquele jogador que veio da favela, o taxista, o uberista e o motorista de ônibus, o carteiro, o médico cardiologista, o psicólogo, o baterista daquela banda, sua esposa, sua prima, seu marido, seu filho,
e o jornalista.
Todos nós hoje precisamos descobrir onde está o William Waack dentro de nós. E não tem desculpas. Tem que estudar. Tem que fazer terapia. Tem que priorizar isso.
Porque você sabe, e eu sei, os efeitos esmagadores do racismo na sociedade brasileira. A escravidão oprimiu pessoas que hoje vivem em desigualdade. Durante 400 anos foi isso, e os outros 117 não deram conta da desordem provocada pelo
branco.
Se "coisa de preto" é tocar buzina, promover desordem, ser inconveniente, o que é a coisa de branco?
O matador da igreja? Coisa de branco. O Estado brasileiro falido? Coisa de branco. A vida de luxo que a filha do Eduardo Cunha tem? Coisa de branco. Luciano Huck, que apoiou todos os criminosos do Rio? Coisa de branco. Mallu Magalhães? Coisa de branco. Histeria na porta do Sesc Pompéia? Coisa de branco. Ir pro samba e sair de lá dizendo que somos todos humanos porque tem até amigos pretos? Coisa de branco. Esconder a bolsa no elevador? Coisa de branco. Se alguma feminista te oferece trabalho por moradia? Coisa de branco. Se você tá sendo demitido pra ser contratado nas novas leis que fuderam a CLT? Coisa de branco. Tá fechando a empresa porque a economia não te absorve? Coisa de branco. Tá sem merenda na escola? Coisa de branco. Não tem esparadrapo na UPA? Coisa de branco.
Fazer um barco, e sair pelos continentes estuprando, roubando, pilhando, destruindo e escravizando povos que criaram as grandes ciências da humanidade, para no futuro estabelecer uma sociedade baseada no capital onde apenas 8 pessoas se deram bem na vida?
Coisa de branco.
Mas a reflexão de hoje é: Onde está o William Waack dentro de nós. Esse dissimulado. Esse educado, de boas maneiras, que espuma pelo canto da boca, ele diz que não vai falar, mas ele não se controla, ele tá rindo sozinho, ele PRECISA falar, ele tá de piru duro e cu piscando. Ele precisa pingar ódio contra o preto.
Antes de atirar pedra no cara, dá uma passada no espelho do banheiro da firma. Porque o episódio do Waack não é um sinal verde pra você linchar ele, mas pra você descobrir o quanto você tem de semelhança, e meter o loko pra mudar sua cabeça.
Eu vou trabalhar. Trabalho é coisa de preto, mala de dinheiro é coisa de branco vagabundo. Eu vou por um Jazz nos fones. Jazz, essa invenção disruptiva com instrumentos europeus, que deu outro significado a música, coisa de preto. Vou aproveitar pra ler um livro sobre alternativas de país, um livro de Abdias. Coisa de preto. Vou assistir Toddy Ivon falando sobre bitcoin, economia do futuro, ou Adriana Barbosa organizando mais uma Feira Preta, ou Lázaro encenando mais uma peça, ou Obama dando mais uma palestra lotada, ou Pablinho Fantástico fazendo o riscado no passinho, ou Marcio Black peitando o sistema político, ou Ian Black sendo o único homem preto dono de uma grande agência em São Paulo, ou Beyoncé, amor, Beyoncé sendo a artista e investidora negra mais desejada pelo mercado americano, vou sonhar em ter a eloquência de Marcus Garvey, o intelecto de Dr. King, a escrita de Ta-Nehisi, a virtuose de Robert Glasper,
coisa de preto.
(fonte: http://blogdomello.blogspot.com.br/2017/11/morra-william-waack-morra-kevin-spacey.html)

domingo, 5 de novembro de 2017

Academia hackeada | Curso de História da África | História Antiga


Sensacionalismo e métricas de impacto: como a academia tem sido hackeada
Uma reflexão sobre os riscos das atuais métricas utilizadas no mundo acadêmico para avaliar o sucesso ou o fracasso de um artigo. Confira o artigo de Portia Roelofs and Max Gallien, do LSE Blog Impact. Confira aqui.
 


 

Ensino de história da África e dos índios é tema de curso a distância da Unicamp

Curso é voltado para professores de história que atuam nos ensinos fundamental e médio.

Ciclo de debates em História Antiga acontece no Rio de Janeiro, na UFRJ.

Evento acontece entre os dias 6 a 9 de novembro.
 

sábado, 4 de novembro de 2017

Novo número da Revista Espaço Acadêmico

Revista Espaço Acadêmico
v. 17, n. 198 (2017): Revista Espaço Acadêmico, n. 198, novembro de 2017
Sumário
http://periodicos.uem.br/…/…/EspacoAcademico/issue/view/1415


DOSSIÊ: Ações comunitárias do cotidiano (Orgs.: Alejandra Astrid Leon Cedeno, Flávia F. de Carvalhaes e Rafael B. Silva)
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Devir construtoras: experimentando lugares físicos e subjetivos de autogoverno (01-13)
Flávia Fernandes Carvalhaes, Alejandra Astrid Leon Cedeño

El diálogo de saberes en investigaciones de ecología urbana: narrativas locales, cotidianidad e interdisciplinariedad (14-24)
Dayana Ortiz, Williams González

Participación, comunidad y transformación: reflexiones desde el Centro Social Comunitario Luis Buñuel (25-36)
Jaime Andrés

La Psicología Social Comunitaria en procesos de reubicación masiva: una experiencia de la Gran Misión Vivienda Venezuela (37-47)
Luis Fernando Giuliani

Por uma psicologia social crítica comprometida politicamente no cotidiano (48-60)
Roberth Miniguine Tavanti, Alexandre Bonetti Lima

Considerações sobre Psicologia, trabalho e cotidiano (61-69)
Sonia Regina Vargas Mansano, Rafael Bianchi Silva

direito
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O direito em fala: sobre bichas e homens no futebol brasileiro (70-79)
João Carlos da Cunha Moura

Segurança pública e polícia militar no contexto do Estado democrático de direito brasileiro (80-90)
Marcus Pinto Aguiar, Everaldo Ferreira Santana

educação
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Educação do Campo: discussões sobre cultura, currículo e políticas (91-99)
Maurício de Novais Reis, Geraldo José Murta

filosofia política
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Socialismo ou barbárie: a atualidade histórica da ofensiva socialista na luta pela emancipação humana (100-109)
Renato Nunes Bittencourt

história
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O Boletim de História da Faculdade Nacional de Filosofia (1958-1963): uma crítica ao Ensino de História (110-121)
Vanessa Clemente Cardoso

planejamento urbano
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Poluição atmosférica em cidades médias: uma proposta de avaliação para Rondonópolis-MT (122-130)
Deleon da Silva Leandro, Fabio Angeoletto

resenhas & livros
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História da Educação Especial - Roraima (1970-2001) (131-134)
Cláudio Rodrigues da Silva

DUKA, Marília. Gritos no Silêncio e Sussurros no Jardim. Bauru (SP): Editora Canal 6. (135)
REA Editor

MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. Lenin: vida e obra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017 (224 p.) (136)
REA Editor

PRIORI, Angelo; MATHIAS, Meire; FIORUCCI, Rodolfo (Orgs.). O anticomunismo e a cultura autoritária no Brasil. Curitiba: Editora Primas, 2017 (254p.) (137)
REA Editor

SILVA, Leda Maria Messias da; BERNARDINELI, Muriana Carrilho. (Orgs.) Temáticas do meio ambiente de trabalho digno. São Paulo: LTR Editora, 2017 (96 p.) (138-139)
REA Editor

revistas
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Revista Margem Esquerda, 29. Boitempo Editorial, 2017 (160p.) (140-141)

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

São Paulo e Brasília “comem veneno” acima do permitido, diz Greenpeace

Uma análise realizada pelo Laboratório de Resíduos de Pesticidas do Instituto Biológico de São Paulo mostrou que diversos alimentos à venda em São Paulo e Brasília contêm resíduos de agrotóxicos acima do limite máximo permitido. Muitos chegam ao consumidor com a presença de mais de um tipo de pesticida, levando ao chamado efeito coquetel das substâncias químicas. E em outros tantos, foi detectada a presença de resíduos de substâncias não permitidas para aquele alimento e até de agrotóxicos que são proibidos no Brasil.
A reportagem é de Marina Rossi, publicada por El País, 31-10-2017.

A avaliação foi feita à pedido da ONG Greenpeace com mais de 100 quilos de alimentos como arroz, feijão, frutas, verduras e legumes. Os resultados compõem um dossiê da organização sobre agrotóxicos divulgado nesta terça-feira. "Percebemos que o problema dos agrotóxicos está em todos os lugares", diz Marina Lacôrte, especialista do Greenpeace em agricultura e alimentação.
"Ou seja, não é uma questão geográfica. E para mostrarmos isso escolhemos alimentos de São Paulo e Brasília". Para ela, não há níveis seguros para o consumo de agrotóxicos a longo prazo. "Estamos comendo veneno. Os agrotóxicos estão na nossa rotina".
Detalhando as informações, o dossiê mostra que das 50 amostras testadas, 30 continham resíduos tóxicos. Dessas, 13 apresentavam agrotóxicos não permitidos no Brasil. Duas amostras de pimentão - uma de cada cidade - apresentaram sete tipos de substâncias diferentes, incluindo agrotóxicos proibidos para este alimento. Este efeito coquetel foi detectado em outras 15 amostras. De acordo com Amir Bertoni Gebara, pesquisador do Instituto Biológico e doutor em saúde pública, esta mistura de substâncias adiciona mais uma preocupação. "O chamado efeito coquetel é quando você mistura diferentes moléculas. Mas o problema é que ninguém sabe o que elas todas juntas podem fazer no organismo", diz. "Bem não faz".
Segundo o documento, três das quatro amostras de mamão pesquisadas apresentaram o efeito coquetel, com quatro tipos diferentes de resíduos. Em uma delas havia um pesticida que não é permitido para o uso neste tipo de fruta. Em outra, também foi encontrado uma substância com valores muito acima do permitido: nove vezes a mais. Ainda, duas amostras desta fruta continham um pesticida que é proibido no Brasil desde fevereiro do ano passado, o procloraz.
Além disso, banana e laranja vieram com níveis de agrotóxicos acima do limite máximo permitido pela Anvisa. Amir Gebara explica que, teoricamente, existem margens de segurança para o consumo destas substâncias, mas na prática estes níveis são questionáveis. "Depende da frequência com que você se alimenta daquele produto", diz. "Mas isso é uma roupagem, a verdade do quanto pode fazer mal para o consumidor é desconhecido". Para ele, as regras que giram em torno dos pesticidas no Brasil são flexíveis demais.
"Já encontramos, inclusive, agrotóxicos em alimentos orgânicos", diz Amir Bertoni Gebara, pesquisador do Instituto Biológico. Ainda assim, Marina Lacôrte recomenda que quem tem acesso ao alimento orgânico compre estes produtos. "É um pedido que não dá para fazer a todo mundo", reconhece. Isso porque os alimentos orgânicos costumam custar em torno de 30% a 40% a mais que os convencionais. Quem não puder comprar orgânicos, a dica é lavar muito bem os alimentos e esfregar com uma escova quando possível, inclusive as cascas das frutas que são consumidas sem casca, como a melancia e a laranja. Pimentão, alface, tomate, mamão, pêssego, figo, couve, goiaba e laranja são, de acordo com Gebara, os alimentos que normalmente apresentam mais resíduos de agrotóxicos.
O Greenpeace enviou para o laboratório 113 quilos de alimentos adquiridos em diferentes estabelecimentos comerciais de São Paulo e Brasília em setembro. Os alimentos analisados foram: arroz branco e integral, feijão preto e carioca, mamão formosa, tomate, couve, pimentão verde, laranja, banana nanica e prata e o café. De todos os alimentos, as amostras de café foram as únicas que não apresentaram nenhum resíduo. As demais, em ao menos um tipo ou espécie em pelo menos uma das duas cidades estavam contaminadas.
"Comer comida no Brasil hoje é uma loteria, mas ninguém quer ganhar, porque o prêmio não é bom", diz Marina Lacôrte, do Greenpeace


"Pacote do veneno"

O Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo. E as políticas em torno deste tema neste momento devem ajudar a manter o país no pódio. Tramita na Câmara um projeto de lei (PL 6299/2002) de autoria do atual ministro da Agricultura, Blairo Maggi, que altera as regras da lei do uso, pesquisa, produção e comercialização dos agrotóxicos. Chamado pelos ambientalistas de "pacote do veneno", o projeto propõe, por exemplo, tirar o ministério do Meio Ambiente e a Anvisa do processo de aprovação das substâncias que podem ser usadas, deixando somente o ministério da Agricultura responsável por isso. Também propõe que os agrotóxicos passem a ser denominados "defensivos fitossanitários", dentre outras mudanças. O projeto já foi aprovado pelo Senado. "Se hoje já somos o maior consumidor de agrotóxico do mundo, [se esta lei for aprovada] o país vai virar um mar de veneno", diz Marina Lacôrte.
Por outro lado, aguarda aprovação da Câmara o projeto de lei que institui a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pnara). O texto propõe, basicamente, reduzir gradualmente o uso de agrotóxicos na agricultura e estimular e promover a agricultura agroecológica. "É preciso pressionar para que a Pnara seja aprovada", diz Lacôrte. Ela reconhece que o atual momento político não favorece a aprovação deste tipo de lei, e lembra que existe uma petição online para tentar pressionar o Congresso, a plataforma Chega de agrotóxico. "O cenário é o pior possível. A nossa saúde e outras agendas estão virando moeda de troca barata", diz ela. "Comer comida no Brasil hoje é uma loteria, mas ninguém quer ganhar, porque o prêmio não é bom".

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/573193-sao-paulo-e-brasilia-comem-veneno-acima-do-permitido-diz-greenpeace)

2020 é última chance de salvar o clima, diz ONU

Relatório de órgão ambiental das Nações Unidas diz que ambição das metas do Acordo de Paris precisa subir imediatamente para que o mundo tenha chance de estabilizar temperatura em menos de 2°C.
A reportagem é de Claudio Angelo e publicada por Observatório do Clima, 31-10-2017.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente publicou nesta terça-feira (31) seu relatório anual sobre o tamanho da dívida climática da humanidade. A boa notícia é que, aplicando tecnologias já existentes hoje, o mundo conseguiria chegar a 2030 com grande folga dentro da meta de estabilizar o aquecimento global em menos de 2oC, como recomenda o Acordo de Paris. A má notícia é que um plano global para aplicar essas tecnologias em larga escala precisa começar a ser executado daqui a dois anos – e até agora não há o menor sinal de que isso esteja no horizonte.
O relatório, chamado Emissions Gap Report, se destina a medir o tamanho do buraco (“gap”, em inglês) existente entre a ambição das metas climáticas colocadas na mesa pelos países e a trajetória de emissões necessária para evitar que a temperatura da Terra atinja níveis catastróficos neste século.
Há oito anos ele é publicado sempre às vésperas das conferências do clima da ONU, que acontecem entre novembro e dezembro. E há oito anos a mensagem é a mesma: o buraco é imenso e, se todos não começarem a correr, não será possível fechá-lo.
A edição de 2017 mostra que, para ter uma chance maior do que 66% de manter o aquecimento em menos de 2oC sem arrebentar a economia global, a humanidade precisa chegar a 2030 emitindo no máximo 42 bilhões de toneladas de gás carbônico (CO2) e outros gases de efeito estufa. Em 2016 nós emitimos 51,9 bilhões, o que nos deixa um “buraco” de, no mínimo, 11 bilhões de toneladas de CO2 equivalente em 2030. E isso se todas as metas nacionais (NDCs) do Acordo de Paris forem cumpridas com régua e compasso. Não parece ser o caso, dado, por exemplo, que os EUA estão dando para trás no seu compromisso.
Para ter mais de 50% de chance de estabilizar o clima em 1,5oC, o “centro da meta” do Acordo de Paris – temperatura acima da qual as geleiras polares poderiam entrar em colapso rápido, condenando as nações insulares ao afogamento –, o nível de emissão necessário em 2030 é menor: 36 bilhões de toneladas. O buraco, portanto, é de pelo menos 16 bilhões.
Para dar ideia do que isso significa, reduzir 11 bilhões de toneladas de CO2 para ficar nos 2oC equivaleria a zerar emissões de “dois EUA” em 12 anos. Tentar cumprir a meta de 1,5oC equivaleria a zerar emissões de uma China e um Brasil. A atual trajetória de emissões põe a Terra no rumo de um aquecimento de 3,2oC no fim deste século, segundo o Pnuma.
“Já em 2016, os primeiros artigos científicos apontavam que com os compromissos das NDCs ainda ficaríamos em torno de 3oC. Ainda é preciso considerar que muitas propostas, como a brasileira, não têm ainda detalhamento que assegure que o está lá efetivamente poderá ser alcançado”, disse ao OC a ecóloga Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília, coautora do relatório. “Ou seja, já partimos devendo e sem muita certeza de que os países irão entregar o que está nas NDCs.”
A única solução, segundo o relatório, é partir para um aumento imediato da ambição das NDCs – já em 2020, quando as metas começam a rodar. O Acordo de Paris prevê esse aumento, mas a negociação internacional é famosa por ter um grau de pressa bem menor que o da atmosfera. A primeira conversa sobre o assunto, o chamado “diálogo facilitativo”, está prevista para o ano que vem. E uma revisão das NDCs só está programada para ocorrer a partir de 2023. Vários países, como China e União Europeia, têm suas metas iniciais (fracas) para 2030, quando em tese a humanidade já reveria ter fechado o buraco de emissões. A matemática da atmosfera é, portanto, clara: ou bem se aumenta a ambição coletiva antes do prazo oficial, ou bem tostamos o planeta.
“Perder a opção de revisar as NDCs em 2020 tornaria praticamente impossível fechar o buraco de emissões”, afirmou o Pnuma.
Ferramentas técnicas para isso existem. Pela primeira vez, o relatório do Pnuma trouxe um cardápio de tecnologias que poderiam ser aplicadas a custos baixos (ou negativos) para reduzir emissões. Apenas seis delas – energia eólica, solar, eficiência energética, carros de passeio eficientes, reflorestamento e fim do desmatamento – seriam capazes de reduzir de 15 bilhões a 22 bilhões de toneladas de CO2 equivalente até 2030. É mais do que o mundo precisa para fechar o “gap”.
O problema é que entre saber o que precisa ser feito e fazê-lo há um fosso mais difícil de transpor do que o de emissões de carbono. Alguns países desenvolvidos, como os da UE, vêm pressionando pelo aumento da ambição coletiva para 2020. No entanto, emergentes como o Brasil insistem, não sem razão, em que não há conversa sobre ambição de corte de emissões sem uma conversa simultânea sobre ambição do financiamento climático.
E no topo de um diálogo que já não era simples de equilibrar sentou-se um elefante: o Partido Republicano dos EUA com Donald Trump. O presidente americano cortou os aportes de seu país ao Fundo Verde do Clima e prometeu tirar os EUA do Acordo de Paris, ampliando a percepção no mundo em desenvolvimento de que alguém chegou ao banquete antes, comeu toda a lagosta e agora quer empurrar a conta.
A 23a Conferência do Clima da ONU, que começa na próxima segunda-feira (6) em Bonn, na Alemanha, será um termômetro do impacto da retirada dos EUA sobre a confiança internacional. Diplomatas esperam que Fiji, anfitriã da conferência, apresente um plano para o diálogo facilitativo de 2018. Será um teste para a determinação do mundo em acertar as contas com a atmosfera.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/573210-2020-e-ultima-chance-de-salvar-o-clima-diz-onu)

Aquecimento global é uma grave ameaça à saúde, aponta relatório da revista The Lancet

Poluição, ondas de calor, epidemias, desnutrição... Um novo relatório do "The Lancet" avalia os efeitos do aquecimento global na saúde humana de forma perturbadora.

A reportagem é de Delphine Nerbollier, publicada por La Croix International, 01-11-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O aquecimento global tem um custo enorme para a nossa saúde e, como enfatizou, em 2015, a Comissão de Saúde e do Clima (Commission for Health and Climate) do The Lancet, pode estragar os últimos 50 anos de progresso da medicina no mundo.
Agora, um novo relatório publicado na respeitada revista britânica na terça-feira, dia 31 de outubro, confirma a tendência alarmante.
O relatório, que é a primeira edição de “The Lancet Countdown: Tracking Progress on Health and Climate Change" (Contagem Regressiva The Lancet: Acompanhando o Progresso na Saúde e nas Mudanças Climáticas), analisa os efeitos das ondas de calor, da poluição e da proliferação de insetos vetores de epidemias em grande escala, acompanhando 40 indicadores.
A “Contagem Regressiva The Lancet” resulta de um projeto conjunto de 24 organizações de pesquisa e instituições internacionais, como a Organização Mundial da Saúde e o Banco Mundial. O objetivo é publicar um relatório a cada ano até o ano de 2030.
Os números falam por si. Entre 2000 e 2016, o número de pessoas vulneráveis expostas às ondas de calor disparou.
Em 2015, a taxa aumentou em 125 milhões, afetando 175 milhões pessoas, com inúmeros riscos importantes, tais como insolação e agravamento de condições cardíacas ou de insuficiência renal pré-existentes.
De acordo com o relatório, apenas a poluição por carbono contribuiu para mais de 800.000 mortes prematuras na Ásia neste mesmo ano. Os efeitos das ondas de calor e da seca na produção agrícola e no abastecimento de alimentos também causam preocupação.
A revista The Lancet estima que o aumento de temperaturas causou uma queda de 5,3% na produtividade dos trabalhadores em áreas rurais desde 2000, colocando as populações agrárias carentes em risco de não conseguirem se sustentar.
O relatório também destaca o aumento alarmante da desnutrição no mundo. De acordo com os cálculos dos pesquisadores, cada grau a mais pode resultar em uma diminuição de 6% e 10% na produção de trigo e de arroz, respectivamente.
Epidemias também foram objeto de atenção no relatório.
A incidência de certas doenças, como a dengue e o chicungunha, em breve, pode aumentar muito, devido ao clima mais quente e à proliferação de mosquitos vetores. Os pesquisadores estimam que a capacidade vetorial para a transmissão da dengue já aumentou 9,4% desde a década de 50.
Esta é uma observação preocupante, porque as consequências para a saúde poderiam ter sido diminuídas se políticas ambiciosas de mitigação e adaptação tivessem sido postas em prática durante a década de 90, após as primeiras advertências da ONU e do IPCC sobre o estado do planeta.
Os pesquisadores foram cautelosos nas suas conclusões nesta primeira edição. Isto é particularmente significativo, uma vez que os efeitos das alterações climáticas na saúde pública também contribuem para o aumento da desigualdade no mundo, afetando as populações mais vulneráveis primeiro.
Porém, os pesquisadores também veem o lado bom da situação, com o aumento geral da consciência nos últimos cinco anos e, em particular, com o acordo de Paris, de 2015.
"Pode ir de uma grande ameaça para a saúde a maiores avanços no campo da saúde durante a próxima década", afirma o professor Anthony Costello, diretor da OMS, que co-dirigiu o relatório.
Os autores também pediram uma aceleração da "transição para uma sociedade com baixo consumo de carbono".

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/573296-aquecimento-global-e-uma-grave-ameaca-a-saude-aponta-relatorio-da-revista-the-lancet)

O vexame dos deputados brasileiros em Israel

Texto escrito por José de Souza Castro:

Não me surpreendeu saber que havia um deputado federal mineiro na comitiva do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, no passeio a Israel, Itália e Portugal, descrita hoje por Miriam Sanger, de Jerusalém, à “Folha de S.Paulo”. O vexame dessa viagem paga pelos contribuintes brasileiros também não me surpreende.
Dos nove deputados federais que acompanharam Rodrigo Maia e sua mulher, sete votaram sim ao relatório do tucano mineiro Bonifácio Andrada que livrou Michel Temer de ser processado pelo Supremo Tribunal Federal. Eles devem ter ido comemorar a vitória, usando para isso um avião da FAB e diárias em dólar pagas por nós.
Que se expliquem os deputados Orlando Silva, do PCdoB paulista, e Rubens Bueno, do PPS paranaense, que votaram não. Por que se juntar a Rodrigo Maia, que não votou, e aos sete do sim, nessa viagem que só trouxe despesas e vexame aos brasileiros?
As despesas, primeiro. Relata Miriam Sanger:

“Os trajetos aéreos estão sendo realizados com um avião da FAB. O valor de uma passagem aérea com o trajeto São Paulo – Tel Aviv – Roma – São Paulo (sem incluir Portugal) teria o custo de R$ 28.500 em classe executiva, de acordo com o site da companhia Air France.
Além do custo aéreo da FAB, o dinheiro público envolvido na viagem inclui diárias para bancar hospedagem, transporte local e alimentação. Ela é de US$ 428 (R$ 1.408) para cada um dos deputados. Devido ao seu cargo, Maia tem direito a um valor maior: US$ 550 (R$ 1.808) – na semana passada, a assessoria de Maia afirmou que ele decidiu abrir mão do recebimento das suas diárias.
Ao todo, cada deputado receberá US$ 2.750 (R$ 8.921). Ou seja, só as diárias, somadas, custarão quase R$ 90 mil aos cofres públicos.”
Nesses cálculos não estão incluídas despesas da FAB com combustível, com diárias da tripulação e com os comes e bebes a bordo. Talvez o contribuinte nunca venha saber quanto disso lhe coube nessa farra.
O vexame, a seguir.





A visita a Israel começou no dia 29 de outubro e terminou no dia 1º de novembro com passeio turístico pela Cidade Velha de Jerusalém e visita a Belém, na Cisjordânia, onde os deputados foram recebidos por um colega de lá no lugar do prefeito Anton Salman, que cancelou o encontro pré-agendado.
O prefeito deve ter tido conhecimento do que ocorreu nos três dias anteriores e decidiu que não tinha tempo a perder com os brasileiros. Sua passagem por Israel, a repórter nos informa, “foi marcada por reuniões oficiais breves a portas fechadas, várias mudanças de agenda e pouco contato com a imprensa, permitido parcialmente nos dois primeiros dias (em Israel), mas proibida nos dois dias seguintes, nas visitas a Ramalá (dia 31) e a Belém (1º). O horário de partida para a Itália também foi alterado de última hora.”
Sim, os deputados estiveram rapidamente no Parlamento israelense, mas antes participaram de uma visita guiada pelo Museu do Holocausto. É difícil dizer qual dessas agendas era pior. Pelo menos, não tiveram que conversar com o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, que preferiu ignorar os visitantes brasileiros. E quem os recebeu estavam com pressa. “As outras duas reuniões previstas, com o presidente do Parlamento, Yuli Edelstein, e o ministro de Segurança Pública, Gilad Erdan, duraram cerca de 20 minutos”, diz a atenta Miriam Sanger. Afinal, alguém tem que prestar atenção a Maia, não? Em ambas essas reuniões, acrescenta a repórter, “houve apenas uma conversa formal e troca de cortesias”.
A pouca importância levou, na terça-feira, a nova mudança de agenda: em lugar de uma visita a Belém, na Cisjordânia, o grupo se deslocou para Ramalá, onde depositou uma coroa de flores sobre o túmulo de Yasser Arafat. Não foi possível saber se ele se revirou na cova ao receber a homenagem de tão impuras mãos.
A comitiva se reuniu depois, por cerca de 20 minutos, com o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, o primeiro-ministro palestino, Rami Hamdallah, e outros membros do Conselho Legislativo da ANP. Enfim, uma reunião com um primeiro-ministro. Pena que de alguém que governa pouco mais de 4 milhões de pessoas…
Os brasileiros ficariam muito decepcionados se não fossem a Belém, lugar onde teria nascido Jesus. Deu-se um jeito que fossem na quarta-feira de manhã, só para visitar a Igreja da Natividade, que passa por restaurações e precisa de apoio financeiro internacional para a finalização das obras. Duvido que algum deputado tenha enfiado a mão no bolso para ajudar tão nobre causa.
O relato de Miriam, a partir desse dia, se limita a informar que na quinta-feira nossos ilustres compatriotas estariam na Itália, onde “o único compromisso” seria uma cerimônia em Pistoia, no “monumento votivo militar brasileiro”, construído no lugar do antigo cemitério dos pracinhas que morreram em combate na Segunda Guerra Mundial. De Pistoia, a comitiva partiria para Lisboa, onde teria encontro com diplomatas brasileiros e assistiriam à palestra de encerramento do 4º Seminário Internacional de Direito do Trabalho.
O sábado, afirma Miriam, é reservado apenas para “agenda privada” em Lisboa – seja lá o que isso signifique para tantos parlamentares brasileiros que viajaram deixando suas esposas dedicadas, suponha-se, aos afazeres do lar.
Tudo bem. Só não posso terminar sem falar do representante mineiro no convescote internacional. Trata-se do deputado Marcos Montes, em seu terceiro mandato na Câmara Federal, para onde foi eleito, sucessivamente, pelo PFL, pelo DEM e pelo PSD, depois de ter sido prefeito de Uberaba e secretário estadual de Desenvolvimento Social e Esportes, durante a primeira gestão do governador Aécio Neves.
Nesses anos todos como deputado, Montes tem a ostentar apenas duas propostas de alterações em projetos de lei que se transformaram em “normas jurídicas”. Numa, acrescentou novo artigo na Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, para instituir a empresa individual de responsabilidade limitada. Noutra, altera a Lei nº 10.893 de 13 de julho de 2004, que dispõe sobre o Adicional ao Frete para a Renovação da Marinha Mercante – AFRMM e o Fundo da Marinha Mercante – FMM.
Canseira! É dura a vida de deputado…

(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/11/03/vexame-deputados-israel/#more-14665)