domingo, 5 de agosto de 2018

Sistema Cantareira está próximo de entrar em estado de alerta

por Felipe Mascari, da RBA
São Paulo – Os reservatórios do Sistema Cantareira devem entrar em estado de alerta até o próximo domingo (29). Com o nível do volume útil armazenado caindo diariamente desde abril, o sistema chegou a 40,2% de sua capacidade nesta sexta-feira (27) – número muito abaixo do período pré-crise hídrica, em 2013, quando acumulava 53,9%.
Hoje, o Cantareira está na faixa de atenção – quando se opera entre 40% e 60% de sua capacidade total. Entretanto, quando alcançar os 39,9%, o sistema entrará na terceira faixa: a de alerta. Esses limites foram estabelecidos em 2017, quando a Agência Nacional de Águas (ANA) determinou, por meio da Resolução Conjunta 925, os limites de retiradas de água pela Sabesp.
De acordo com Edson Aparecido da Silva, organizador do Fórum Alternativo Mundial da Água (Fama), a capital paulista caminha para uma nova crise hídrica, pois a situação atual é pior do que a de 2013. "O quadro não demonstra melhora e tem se agravado pela falta de chuva", alerta.
Dados da Sabesp apontam que pluviometria acumulada no mês é de apenas 1,2 mm até esta sexta,enquanto a média de chuvas em julho é de 48,7 mm. Antes da crise, o mesmo período obteve uma pluviometria acumulada de 73,9 mm.
O professor de Hidrologia e Recursos Hídricos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Antonio Carlos Zuffo não acredita que São Paulo terá problemas com abastecimento, pois aposta no El Niño – fenômeno climático que provoca chuvas acima da média. "A partir de outubro começa o período chuvoso novamente e deve haver uma recuperação. Até lá deve haver água, o problema é se chover pouco a partir de outubro", afirma.

Comparação do atual nível do Cantareira com o período pré-crise, em 2013. Registros atuais são mais baixos e preocupa
O boletim da ANA mostra que, na última quarta-feira (25), as vazões afluentes médias, ou seja, o volume de água que entra no sistema Cantareira, chegaram a 7,50 metros cúbicos por segundo. O número é o segundo pior da história para o mês de julho, apenas acima de 2014, período extremo da crise, quando a média foi de 6,43 metros cúbicos por segundo.
Mesmo com a baixa vazão afluente, a Sabesp possui a permissão de retirar 31 metros cúbicos por segundo, mas tem retirado 23,08 metros. Segundo Edson Aparecido, a companhia de recursos hídricos deveria diminuir ainda mais esta retirada. "O Cantareira demonstra uma queda expressiva, então a Sabesp deveria trabalhar na perspectiva de usar menos água dos reservatórios", explica.
As vazões afluentes no Cantareira estão em queda desde o começo do ano. Em janeiro, ele apresentava a entrada de 57,37 metros cúbicos por segundo. Além disso, todos os meses deste ano apresentam as piores médias de entrada de água desde 2015.
Quando o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) decretou o fim da crise hídrica, em março de 2016, a média de vazões afluentes era de 49,55 metros cúbicos por segundo. Porém, em igual período deste ano, o sistema contava com apenas 35,57 metros cúbicos.

Gráfico mostra a média de entrada de água no sistema Cantareira. Desde janeiro deste ano, média cai consecutivamente
Além da falta de chuvas
Apesar do problema da seca em São Paulo, os especialistas afirmam que não há segurança hídrica, já que o sistema continua dependendo das chuvas para se abastecer. O coordenador do Fama lembra que nenhuma medida estrutural foi tomada pela Sabesp ou pelo governo do estado para conter esse problema.
"Já passou do momento de a Sabesp adotar uma política ostensiva para a redução de consumo de água, retomar o programa de bônus. Só não entramos no volume morto porque o sistema conta com novas interligações, mas isso não será sustentado a longo prazo", alerta Edson. "As grandes cidades aumentam, a demanda também, mas o sistema é o mesmo", acrescenta Zuffo.
O professor da Unicamp lembra que outro problema visto é a perda física no sistema de distribuição de água. "Em São Paulo, supera os 40%, ou seja, é um reservatório Cantareira sendo perdido por dia", lamenta.
Edson Aparecido diz que há a necessidade de manter essas matas no entorno. "Na região metropolitana, um dos principais responsáveis pelo desmatamento é o estado, por exemplo, com a construção do RodoAnel, que desmatou muita vegetação em torno das represas Billings e Guarapiranga", critica.
Já Antonio Carlos Zuffo não vê relação entre a falta de água e o desmatamento que ocorre no entorno dos rios que abastecem o Cantareira. Entretanto, diz que a vegetação é importante para a água possuir boa qualidade.
Na terça-feira (24), à rádio CBN, o secretário estadual de Recursos Hídricos, Ricardo Daruiz, afirmou que as obras anteriores do governo do estado irão garantir o abastecimento e que não haverá racionamento de água. "Infelizmente, de quatro em quatro anos a situação se repete. Como é ano eleitoral, o governo insiste em não assumir que estamos diante de uma possível crise de abastecimento. Na nossa opinião, isso é uma irresponsabilidade. O ideal seria o governo estadual se antecipar a essa crise", aponta Edson.
Publicado originalmente na Rede Brasil Atual 
(fonte: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Mae-Terra/Sistema-Cantareira-esta-proximo-de-entrar-em-estado-de-alerta/3/41115)

Objetivos da ONU estão em risco: ''Poucos países estão dentro dos prazos''

Trata-se de um relatório com mais sombras do que luzes: “A situação não é muito promissora. Em relação a alguns objetivos, estamos distantes”, reconhece o professor Angelo Riccaboni, ex-reitor da Universidade de Siena e responsável SDSN pela área do Mediterrâneo. “Precisamos de mais compromisso. E de um maior senso de urgência.”

De acordo com o relatório, apenas poucos países do G20 fizeram ações decisivas para alcançar os ODSs. Muitos estão fazendo progressos rápidos. Mas, no conjunto, o mundo corre o risco de não conseguir.

Índice SDG, que leva em conta os progressos realizados no que diz respeito a todos os objetivos, vê nos primeiros lugares o “costumeiro” norte da Europa, com a Suécia, Dinamarca e Finlândia. Mas que ainda não estão na trajetória para atingir os objetivos. Alemanha e França são os únicos países do G7 entre os 10 primeiros (dos 193 monitorados).

Itália é o 29º, o que significa que ela está na “lanterna” em nível continental. Mas, mesmo assim, à frente dos Estados Unidos (35º), China (54º), Rússia (63º).

Nenhum país do G20, no entanto, alinhou completamente o seu orçamento nacional com os ODSs. Muitas nações de alta renda erradicaram quase completamente a pobreza extrema e a fome, mas são deficitárias, por exemplo, na ação pelo clima. Enquanto as nações de baixa renda tendem a não dispor de infraestruturas e de mecanismos adequados para gerir as questões ambientais fundamentais.

“Mas também há sinais positivos – explica o professor, que também é presidente da Fundação Prima, uma iniciativa euro-mediterrânea, cofinanciada (500 milhões de euros) por 19 países europeus e pela Comissão da União Europeia, para pesquisas sobre temas como gestão sustentável da água ou sistemas agrícolas sustentáveis – como o fato de que muitos países oficializaram e institucionalizaram seu compromisso com os ODSs: entre eles, a Itália está entre os primeiros (com a recente constituição da Comissão Nacional para o Desenvolvimento Sustentável no Palácio Chigi), junto com o Brasil e o México. Mas é preciso aumentar o ritmo, em todos os níveis: os decisores políticos, o setor privado, a sociedade civil.”

Itália, porém, no relatório, não tem selos “verdes” (avaliação positiva) em relação ao ponto do caminho em que se encontra no que diz respeito a cada um dos ODSs. Há alguns selos “laranja”, por exemplo sobre a biodiversidade terrestre, a saúde e o bem-estar, a nutrição. Mas também preocupantes selos “vermelhos” (índice de atraso grave) sobre temas como consumo e produção responsáveis ou a luta contra as mudanças climáticas.

Então, quais são os caminhos à disposição para aumentar o ritmo? “É preciso pressionar – responde Riccaboni – pela inovação, tecnológica e social. E ser concretos, que, aliás, é o objetivo da nossa rede: promover soluções para alcançar os ODSs. Por exemplo, fizemos um ‘mooc’ (curso de formação a distância via internet, aberto a todos, disponível em www.sdgacademy.org) sobre o tema dos sistemas alimentares sustentáveis, com 2.000 alunos já inscritos. E, há muitos anos, lançamos um projeto sobre o tema ‘plastic busters’, hoje particularmente atual, para livrar o Mediterrâneo do plástico. Certamente, um dos temas fundamentais para agir, por causa das implicações que tem sobre a pobreza, a saúde, o ambiente, é a comida. E um papel fundamental é desempenhado pelos consumidores, que estão cada vez mais atentos a questões de sustentabilidade. Nesse sentido, a Itália, que é o país da dieta mediterrânea, da comida como socialidade, poderia aproveitar a oportunidade para reiterar a importância de um certo estilo de vida. Que está destinado a ser cada vez mais redescoberto.”

*Publicado originalmente em Avvenire | Tradução de Moisés Sbardelotto, publicada na IHU On-line

Temer, o valor do silêncio e o clamor da indústria de alimentos por intervenção

Associação das empresas cobra publicamente nomeação de diretor alinhado na Anvisa, e presidente demonstra desconhecimento sobre alertas nos rótulos

Michel Temer perdeu mais uma chance de manter o silêncio. Incensado pela indústria de alimentos ultraprocessados, o presidente da República demonstrou total desconhecimento sobre a proposta de adoção de advertências nos rótulos para indicar o excesso de açúcar, sal e gorduras saturadas.
O almoço na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na segunda-feira (30), serviu a mais um pedido de intervenção. Wilson Mello, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia), disse que a colocação de um alerta associaria os produtos que vende a um perigo à saúde, segundo informações do jornal Folha de S. Paulo.
Temer não titubeou: “É importantíssimo. Essa coisa do triângulo, que você [Mello] mencionou, que é sinal de perigo, se não tomar cuidado daqui a pouco bota tarja preta no alimento. Vai prejudicar o setor.”
Em tempo:
  • A decisão está nas mãos da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), um órgão regulador que, por mandato, goza de autonomia em relação ao Ministério da Saúde e ao Poder Executivo como um todo.
  • Temer deveria revisar algumas evidências científicas antes de falar em público. Ou manter o silêncio. Todos os estudos existentes demonstram o bom funcionamento dos alertas em comparação com o modelo proposto pela indústria, em formato de semáforo.
  • Sim, é um perigo: cada vez mais pesquisas científicas têm exposto que os altos índices de sal, açúcar e gorduras de produtos ultraprocessados favorecem o desenvolvimento de obesidade e de doenças crônicas.
  • Temer não é obrigado a ser especialista em alimentação. No entanto, é de se esperar um mínimo de fundamentação no que é dito por um presidente da República. Tudo bem que é difícil imaginar que alguém espere seriedade dele, mas até para uma unanimidade nacional há limites.



No mínimo, Temer deveria saber dos dados do Ministério da Saúde: as doenças crônicas não transmissíveis causam três em cada quatro mortes no Brasil. Tabaco, alimentação, álcool e atividade física são os fatores que explicam o problema.
A fala dele também expõe o descasamento entre as prioridades do mundo político-partidário e os problemas da sociedade. Essa deveria ser uma agenda central do Executivo e do Legislativo, mas poucas figuras desse universo são capazes de tratar o assunto com a devida seriedade. Como mostramos recentemente, tampouco se pode esperar conhecimento de causa pela maior parte dos candidatos à Presidência.
De outro lado, novamente chama a atenção que a indústria de alimentos busque a intervenção externa ao processo na Anvisa. Primeiro, tentou-se via Ministério da Saúde. Quando Ricardo Barros era o titular, não funcionou porque ele tinha convicção sobre o melhor funcionamento dos alertas. Depois, Gilberto Occhi, que assumiu o cargo recentemente, chegou a ecoar os argumentos das empresas, mas recuou.
Chegou, então, a vez de o Judiciário ser acionado em socorro das corporações, que conseguiram estender em 15 dias o prazo para a consulta pública sobre rotulagem na Anvisa. Uma operação meramente protelatória, na visão da agência, que se sentiu invadida e desrespeitada, acusando a Abia de se valer de informações “infundadas” e “inverídicas”.
Agora, o impopular presidente vira a bola da vez na tentativa de evitar uma medida importante para o direito da população de saber o que está comendo. Com um pedido claro de intervenção por parte de Wilson Mello: “Tudo passa por uma escolha que Vossa Excelência [Temer] tomará, que é a escolha do novo presidente da Anvisa. Isso acontecerá nos próximos meses. Nosso único pedido é que seja alguém que continue dialogando com a indústria”, afirmou.
Jarbas Barbosa, o diretor-presidente que deixou recentemente o cargo, disse ter se reunido oito vezes com representantes da Abia desde o ano passado para discutir o assunto. Diálogo não faltou. Mas diálogo pressupõe a capacidade de discordar.
E a apresentação de informações que não induzam o interlocutor a engano. Mais uma vez, a Abia se valeu de dados imprecisos ao falar sobre os alertas. Já mostramos como as empresas estão exagerando, sem nenhum fundamento, falando do impacto negativo dessa medida sobre a criação de empregos.
Agora, o presidente da associação disse que o segmento responde por 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. No ano passado, toda a indústria de transformação respondeu por 11,8% do PIB. Nessa conta entram setores de maior valor agregado, como montadoras, e outros segmentos relevantes para a balança comercial, como a siderurgia. A menos que a Abia tenha tomado para si os números da agropecuária, é impossível chegar a 10%.
(fonte: http://outraspalavras.net/ojoioeotrigo/2018/07/temer-o-valor-do-silencio-e-o-clamor-da-industria-de-alimentos-por-intervencao/

'Qualidade dos alimentos processados no Brasil é pior que em outros países', diz nutricionista antidietas


Sophie Deram acha que os brasileiros merecem mais. Doutora em nutrição e professora na Universidade de São Paulo (USP), a franco-brasileira acredita que, mesmo que o país tenha uma boa oferta de produtos naturais e saudáveis, o brasileiro escolhe mal o que comer. E, quando escolhe alimentos industrializados, tem opções piores do que em outros países.
"A indústria está fazendo uma festa de ultraprocessados no Brasil, e com certeza tem que ter um olhar mais firme do governo para limitar esses excessos. As multinacionais fazem no Brasil coisas que não se permitiriam fazer em outros países".
A reportagem é de Camilla Costa, publicada por BBC Brasil, 28-07-2018.

Deram é nutricionista, engenheira agrônoma e especializada em obesidade infantil, nutrigenômica, transtornos alimentares e neurociência do comportamento. Autora do livro O Peso das Dietas (Ed. Sextante), defende que uma alimentação com menos processados evita a adoção das dietas da moda que são, segundo ela, "um gatilho para engordar".
"Acho que, como brasileiros, devemos pedir uma melhora na qualidade dos alimentos, tanto processados quanto in natura. Mais vigilância sobre os agrotóxicos, mais alimentos in natura dentro dos processados, menos conservantes." O Guia Alimentar para a População Brasileira define alimentos ultraprocessados como aqueles que "são formulações industriais feitas totalmente ou em grande parte de substância extraídas de alimentos, derivadas de constituintes de alimentos, sintetizadas em laboratório, realçadores de sabor e aditivos". Por exemplo, refrigerante e macarrão instantâneo.
Outros, como atum enlatado e frutas em calda são considerado processados. Já cortes de carne congelados e leite pasteurizado são considerados minimamente processados.
"Vemos que 95% das pessoas que fazem dieta fracassam. Quer dizer, todo mundo fracassa. A dieta restritiva abre a rodovia do engordar", afirma.

Eis a entrevista.

A alimentação do brasileiro piorou?
O que piorou não foi a nossa alimentação, foi a neura das pessoas. Elas estão com uma neura absurda. Dá para comer de maneira super adequada indo na feira, cozinhando e comendo alimentos menos processados.
Mas todo mundo está sempre de dieta, muitos profissionais fazem o que eu chamo de "terrorismo alimentar", e a indústria coloca produtos carregados de açúcar e adoçantes nas prateleiras, por exemplo. Hoje os estudos já sugerem que essa troca de açúcar por adoçante não é nada saudável.
Enfim, tem um conjunto de forças que vão contra a boa alimentação apesar de no Brasil haver uma abundância de frutas e verduras.
Que tipo de forças?
O Brasil passou pelo que se chama de transição nutricional, uma mudança cultural da alimentação. Vemos isso em todos os países, e tem a ver com a globalização e a urbanização acelerada. Isso muda completamente o modelo.
Mulheres, homens, inclusive os educadores, muitas vezes não tiveram uma infância na cidade e agora tem que inventar um novo modelo de viver. Muitos tinham as mães na casa cozinhando, pegando legumes na feira ou no quintal. De repente, têm que viver na cidade e compram tudo no supermercado sem nem saber o que há em cada pacote.
Essa transição fez com que a população começasse a consumir cada vez mais alimentos processados e ultraprocessados. Em 2007 e 2008, o Brasil foi apontado como um dos países em que a indústria de alimentos e bebidas mais crescia no mundo.
Houve um investimento muito grande de marketing dessa indústria aqui. As pessoas que foram viver nas cidades acabaram sendo educadas pelo marketing da indústria, pela televisão. Vejo isso no meu consultório: muitas dessas pessoas acreditam que o suco em caixa é melhor porque dá mais energia ao filho ou porque na embalagem diz que ele tem cálcio e outras vitaminas.
Mas você defende que dá para comer bem cozinhando mais, comprando mais produtos in natura na feira e menos processados. Em uma sociedade em que cada vez mais mães, além dos pais, trabalham fora e o trabalho doméstico está mais caro, como é possível manter essa rotina?
É um desafio cozinhar, é verdade, mas é também uma questão de planejamento.
Trabalhei em um laboratório de obesidade infantil, e muitas mães de baixa renda faziam um trabalho ótimo de cozinhar no fim de semana para ter comida pronta. Mas muitas achavam que era mais saudável comprar pronto porque a comida pronta continha mais vitaminas.
Vale lembrar que esse papel também é dos pais, não só das mães. Temos que reorganizar a sociedade, aprender a lidar com a realidade de hoje, em que todo mundo trabalha e almoça fora.
Você lançou a campanha #queromaisqualidade, e afirmou que os brasileiros precisam exigir alimentos melhores, tanto in natura quanto processados. O que exatamente significa exigir mais qualidade?
No caso dos alimentos in natura, precisamos de mais vigilância sobre os agrotóxicos. Mas é preciso ter cautela com os números divulgados por aí dizendo, por exemplo, que o brasileiro consome cinco a sete litros de agrotóxico por ano.
Esses números são divulgados por habitante, mas não devemos esquecer que o Brasil é o maior exportador do mundo de produtos agrícolas. Então nem tudo o que é produzido aqui é consumido pela população brasileira. Esses dados nem sempre são adequados. Acho que deveríamos saber a quantidade de agrotóxicos por quilos de alimento produzidos.
Outra coisa importante de lembrar é que estamos num país tropical, que tem menos facilidade de produzir alimentos orgânicos como os Estados Unidos ou a França. Um país tropical precisa de pesticidas.
Fazer agricultura orgânica no Brasil é uma arte, e nunca vamos conseguir ter uma quantidade plena para alimentar todo mundo. Sou engenheira agrônoma, também entendo a dificuldade dos agricultores. Temos que parar o terrorismo de acusar a agricultura dessa maneira, mas o governo precisa de mais vigilância. A atual não é adequada.
E o que significa exigir qualidade nos alimentos processados?
O iogurte vem com foto de morango, mas dentro dele quase não tem morango. Tem um xarope, um aroma. Porque a lei brasileira permite que não tenha nada de morango. Se você pega o mesmo produto na Europa, da mesma empresa, ele vai ter de 8 a 10% de fruta. Ou seja, o país maravilhoso de frutas permite comercializar um produto com foto de fruta sem exigir certa quantidade de fruta.
É impressionante como a qualidade dos alimentos processados aqui é pior do que a gente vê fora. Acho isso uma coisa inaceitável. Mais qualidade também significa ter menos aditivos, menos conservantes. Sabemos que eles são necessários para vender os alimentos, que precisam ser estáveis. Mas a indústria está colocando aqui muitos aditivos cosméticos. O Guia Alimentar brasileiro até nomeia alguns deles.
Dentro dos alimentos ultraprocessados, a maioria dos ingredientes são aditivos cosméticos, para dar um gosto e um aspecto bonitinho pra vender, ou mais açúcar ou gordura. E nosso cérebro adora açúcar e gordura. Esses alimentos ficam na nossa memória hedônica, a memória do prazer. Esses alimentos sequestram nosso sistema de recompensa.
Mas aí começa também um terrorismo de que não se deve comer nada processado, qualquer coisa da indústria vira vilão. Isso também não é verdade. Há muitos produtos que são interessantes, higienizados, práticos.
Esse terrorismo de pessoas querendo comer tudo fresco atrapalha o dia a dia, porque você demora muito para achar esses produtos. A comida deve ser, de preferência, in natura, mas também integrando alguns alimentos processados como base e, de vez em quando, ocasionalmente, alguns ultraprocessados. Mas não se deve viver disso.
Para crianças, as mães compram tudo empacotado. Suco de caixinha, bolo empacotado achando que é melhor porque alegam ser saudável, dizem ter cálcio, vitaminas. Mas o melhor seria um bolo caseiro, com ovo de verdade. A indústria é capaz de fazer bolo processado com manteiga, ovo, farinha e um conservante. Mas ela faz com mil xaropes e gorduras.
Mas, segundo os dados da última pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde, um em cada cinco brasileiros é obeso. E esse índice aumentou nos últimos 10 anos. Por que isso?
Esse levantamento mostrou que as pessoas de fato estão engordando mais e ficando mais obesas, mas também mostrou que as pessoas estão comendo mais verduras e legumes e fazendo mais exercícios físicos. Então não é tão simples assim.
A oferta de alimentos no Brasil não piorou, mas as pessoas estão escolhendo de maneira pior. Há muita esperança. A população brasileira ainda come muito alimento de verdade. Os EUA estão numa situação bem pior. Aqui, 60 a 70% do que comemos ainda é comida de verdade.
Mas esse índice de obesidade está crescendo de modo que ninguém sabe explicar. Está acontecendo no mundo inteiro. Um estudo publicado na (revista científica) Lancet em 2014 mostrou que nos últimos 30 anos, cerca de 149 países aumentaram o número de obesos e ninguém conseguiu diminuir. Estamos revendo até o tratamento. Será que o que estamos fazendo está ajudando? Provavelmente não.
Revendo o tratamento de que maneira?
Estamos vendo que as coisas que passam para obesos e pessoas acima do peso fazerem atrapalham o processo, em vez de ajudar. Quando você faz uma dieta muito restritiva você emagrece sim, no começo, mas seis meses a dois anos depois você volta a engordar.
Vemos que 95% das pessoas que fazem dieta fracassam. Quer dizer, todo mundo fracassa. A dieta restritiva abre a rodovia do engordar.
Infelizmente, há um entendimento errado de que quanto mais magro, mais saudável. A saúde não é avaliada pelo número na balança, mas por muitos fatores. O peso na balança é um deles. Há os níveis de colesterol, de insulina, muitos dados são importantes. Focar tudo no peso é um dos muitos erros da saúde atual.
Outro erro é achar que o corpo é uma máquina simples de calorias, que se trata do que entra e do que sai. Cada pessoa tem um corpo diferente e o que você come não é computado no corpo como calorias e sim como proteína, carboidrato, etc. A pessoa que só pensa em calorias não cuida da qualidade, e sim da quantidade.
Além disso, esse ganho de peso em excesso não é necessariamente o problema que você tem que atacar. Às vezes ele é consequência de um estilo de vida, um problema de saúde, um desrespeito ao corpo, que engorda para se defender. As pessoas precisam parar de fazer dieta e fazer as pazes com a comida.
Você diz que dietas da moda, como a low carb (com pouco consumo de carboidratos), jejum intermitente, sem glúten e sem lactose são "terrorismo nutricional". Por quê?
Deram - Por que quem ganha com isso é a indústria porque as pessoas ficam reféns de produtos ultraprocessados que não têm glúten ou lactose. Quando se começa a proibir alimentos básicos da nossa cultura, como pão e leite, é preciso se preocupar. Temos que repensar o comer, mas não proibir tudo o que era da nossa cultura.
Com certeza há cerca de 2% da população que precisa tirar o glúten, que é uma proteína, por causa das doenças celíacas. E algumas pessoas têm uma sensibilidade maior do que outras. Mas as pessoas tratam se isso fosse alergia ao glúten, e não é isso. Não é tão grave assim.
O que acontece é que no processo de panificação antigamente, a fermentação era natural e bem mais lenta. Os micro-organismos digeriam mais o glúten. Já a panificação industrializada de hoje é rápida, muito brutal. Eles até colocam como ingrediente dentro desses pães o glúten refinado, para crescer mais rápido. Isso sim pode irritar nosso sistema intestinal. Comendo mais alimentos in natura você já volta a uma alimentação mais tranquila.
A lactose, por sua vez, é o açúcar do leite. Quando viramos adultos, digerimos menos esse açúcar. Algumas populações de origem asiática ou africana nem conseguem digerir. Na Europa houve uma mutação genética que faz com que muitos adultos ainda produzam essa enzima. Muitas pessoas, mesmo com intolerância diagnosticada, toleram um pouco de lactose.
Low carb é mais um terrorismo, como se de repente o vilão fosse o carboidrato a todo custo. Tenho no meu consultório uma vibe de compulsão alimentar por causa desse low carb. O carboidrato é nossa gasolina para funcionar. Se você corta isso, claro que emagrece, mas seu cérebro não vai gostar e começa a pedir carboidrato.
As pessoas que ficam low carb muitas vezes desenvolvem a compulsão por carboidrato. É como se o cérebro valorizasse mais a comida que foi proibida. Depois da dieta, o cérebro não responde mais aos sinais simples de ansiedade. Ele mistura sinais de cansaço, tédio, tristeza, com sinais de fome. E nisso, a tendência é justamente comer alimentos com carga energética maior, que confortam mais o cérebro - açúcar e gordura. Aí ela fica com culpa porque fica low carb o dia inteiro e no fim da tarde come um pacote de bolacha.
Esse terrorismo faz com que as pessoas busquem mais ajuda de profissionais e de produtos industrializados. Há um mercado aí por trás disso. Já tive pacientes que estavam sem glúten, mas, para ser mais fácil, só compravam produtos empacotados onde estava escrito sem glúten. E eu dizia: "Mas gente, arroz e feijão são sem glúten. Mandioca, pão de queijo...".
Jejum intermitente já se mostrou interessante em adultos em pesquisa controlada, em laboratório, em hospital. Mas em casa, não faça. Você funciona no dia a dia com muitas cobranças. Se você não está alimentando seu corpo, vira uma bomba prestes a explodir. De início se emagrece, mas o problema é manter.
E existe algum tipo de dieta que valha a pena fazer?
As dietas ayurvédicas são muito interessantes, se são bem feitas. Mas é preciso tomar cuidado porque muitos usam esse termo para fazer dietas da moda.
Também é preciso combater o que chamo de "comer emocional". Quando você está triste, é melhor chorar do que comer uma barra de chocolate. Mas tudo isso pede um investimento de tempo, de energia, de concentração que as pessoas não querem fazer.
Seus avós sentavam à mesa e comiam mais ou menos em função da fome. Não tinham esse conhecimento de glúten, lactose, blá blá blá que atrapalha a alimentação. Se tinha uma goiabada, pegavam um pedaço. E hoje temos que treinar as pessoas a voltar a funcionar assim. Temos tudo dentro de nós para funcionar corretamente, mas terceirizamos nossa fome, olha que loucura.
É importante dizer às pessoas que emagrecer não é só questão de #foco, #força e #fé (hashtags populares para tratar do tema no Instagram). O interessante seria as pessoas tentarem manter o peso e mudar sua alimentação. É possível treinar mais o comer emocional antes de tentar emagrecer 10 quilos. Ou seja, comer porque está com fome ou vontade de comer. Quando está triste, chora. Quando está ansioso, liga para um amigo, sai com o cachorro.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/581319-qualidade-dos-alimentos-processados-no-brasil-e-pior-que-em-outros-paises-diz-nutricionista-antidietas)

“Estamos deixando o celular alterar a forma como somos humanos”


Há dois anos Catherine Price decidiu que tinha de romper a relação que tinha com o celular. Pelo caminho, escreveu um Manual de Desintoxicação sobre o processo. Em entrevista, explica aquilo que aprendeu e partilha as estratégias que usou.
A entrevista é de Karla Pequenino, publicada por Público, 30-07-2018.

Aos 37 anos, a norte-americana Catherine Price, autora e jornalista de ciência, percebeu que já não sabia ocupar o tempo livre sem o telemóvel e que, por isso, a relação tinha de acabar. A decisão chegou em 2016 quando estava a amamentar Clara, a filha recém-nascida. “Reparei que enquanto eu olhava para a tela e deslizava os dedos por mensagens antigas e candeeiros em lojas online, ela estava a olhar para mim. E eu não estava a olhar para ela,” relembra a autora. “Não queria que essa fosse a sua primeira memória de interação com outra pessoa.”
A experiência para diminuir a necessidade de ter o celular sempre na mão, levou Price a uma investigação sobre os efeitos dos aparelhos na mente e no corpo humano, e à forma como as grandes empresas tecnológicas os criam para ser viciantes. Os problemas são vários: a luz azul que é emitida por aparelhos modernos influencia o ritmo circadiano do ser humano e desregula os padrões normais de sono, o uso excessivo do aparelho está associado a problemas de isolamento nos jovens, e as pessoas estão mais focadas nos aparelhos que no mundo em redor. Há quem os use mais de sete horas por dia.
Os resultados são detalhados no livro Como largar o celular: Manual de Desintoxicação, publicado este mês pela Arena. Na entrevista, Catherine Price fala das conclusões e partilha estratégias para reconquistar o tempo que se perde ao celular em 30 dias. “O primeiro passo é querer romper a relação amorosa que se tem com o celular.”

Eis a entrevista.

Na versão original, o título do livro é mesmo “acabar o namoro com o telemóvel”. O objectivo é que os leitores abandonem totalmente os aparelhos?
Atenção, o meu livro não é sobre atirar o aparelho para baixo de um caminhão. Isso não é realista. Estamos a falar de smartphones, telemóveis com acesso à Internet, que nos dão direções e permitem fazer compras. É impossível negar a utilidade para nos conectar ao mundo, mas a realidade é que usamos demasiado estes aparelhos. Quando estamos aborrecidos, a primeira solução é agarrar no celular. Durante a noite, dormimos com ele debaixo da almofada. Se ouvimos o som do SMS temos necessidade de o ver de imediato. É como um romance obsessivo, em que dependemos da outra pessoa para tudo, e isso não é uma relação saudável.
O telemóvel é uma enorme parte do nosso quotidiano. Como é que se sabe que se tem um problema?
Uma forma rápida de perceber a dimensão do problema é o CAGE, o questionário de quatro perguntas para detectar problemas de alcoolismo. Basta substituir álcool por smartphone. Têm de ver o celular assim que acordam de manhã? Sentem necessidade de passar menos tempo ao celular? Sentem-se culpados com o tempo que passam ao celular? As pessoas criticam o tempo que estão a mexer no celular? É assustador. Felizmente, o meu livro saiu na altura certa, por coincidência, com o escândalo dos dados do Facebook a alertar as pessoas sobre a forma como registram a vida toda nos aparelhos. E empresas como o Google e a Apple lançarem sistemas para nos ajudar a “largar o celular”. Não é por estarmos todos viciados que a forma como usamos o telemóvel se justifica.
Hoje é possível aceder à Internet e às redes sociais em relógios, em tablets, no computador... Porquê o foco nos smartphones?
A diferença entre o smartphone e os computadores ou tablets é que temos os celulares sempre conosco. As sugestões do livro podem ser adaptadas a outros contextos, mas se olharmos à nossa volta, ninguém abre o portátil para trabalhar no elevador. Os celulares tornam-se um problema único devido à sua portabilidade e, também, à capacidade de nos interromperem constantemente com notificações.
Um dos conceitos mais explorados é a ideia que as empresas estão a programar os smartphones para ‘raptar’ o nosso cérebro e levar-nos a passar mais tempo neles. Onde é que isto se vê?
Fiquei chocada pela facilidade com que os smartphones podem ser comparados às chamadas slot machines, com o deslizar dos nossos dedos pela tela a ser o equivalente ao puxar a alavanca da máquina da sorte. Reparem que a maioria das aplicações é criada para nos recompensar por usá-las mais tempo.
No livro surgem alguns exemplos.
A funcionalidade de “streak” na aplicação de mensagens do Snapchat. Quando as pessoas trocam mensagens entre si todos os dias na aplicação, surge um ícone com uma chama do lado do nome do utilizador que aumenta para motivar o utilizador a manter a tendência. Já o Instagram está programado para ocultar novos “gostos” aos utilizadores de modo a apresentá-los de uma só vez no momento mais eficaz possível.
As redes sociais são o grande problema dos smartphones?
As redes sociais não são o inferno. O que está mal é a necessidade de tocar no celular e abrir uma aplicação – qualquer que seja – quando se está a trabalhar, quando se está a conduzir, numa conversa menos interessante. Algumas pessoas justificam o tempo que passam no telemóvel com a necessidade de estar ‘conectado com o mundo’, mas ninguém precisa de estar conectado, mesmo que seja às notícias, 24/7. Está-se a fazer algo sobre as ações humanitárias que tanto se lê? E está-se mesmo a ler o artigo todo ou o mais recente tweet sobre Donald Trump? É preciso refletir sobre isto.
A Apple e o Google lançaram recentemente painéis de controlo no telemóvel, para perceber o tempo que se passa a utilizar o aparelho. Isto é uma forma dos gigantes ajudarem as pessoas a combatê-lo?
É uma admissão do problema. Curiosamente, ainda não nos ajudam a passar menos tempo com os celulares, mas no livro recomendo que os leitores que querem largar o celular utilizem aplicações do gênero. Ajudam a perceber o tempo que passam no celular.
Uma das primeiras sugestões do livro é experimentar uma “desintoxicação digital” de 24 horas em que se desliga o telemóvel. O que é preciso para que tenha sucesso?
Isto é uma separação teste para se perceber a falta que se sente do celular, e descobrir tempo para fazer outras coisas como ler livros sem distrações. Quando comecei o ritual semanal com o meu marido, estávamos constantemente tentados a pegar no celular. Dizíamos a nós próprios que era com o receio de perder uma mensagem importante. É uma preocupação comum. Para evitar a ‘desculpa’, recomendo avisar outras pessoas que se está a fazer uma desintoxicação e avisar como é que nos podem contactar em caso de emergência. Uma forma de fazer isto é criar uma mensagem de resposta automática, no celular, que remeta para um número de telefone fixo, ou uma visita a casa. É impressionante o quão pouco as pessoas precisam, realmente, de nos contactar. Outra forma de começar a desintoxicação, é deixar o celular para trás quando se vai jantar fora.
Quem lê o livro é convidado a preencher questionários diários sobre o seu processo de “desintoxicação” de 30 dias. O que é que aprendeu com as respostas dos leitores?
Há pessoas que passam sete horas por dia a mexer no celular e a média são quatro horas diárias. Até terem de parar para pensar no assunto, não percebem. O mais impressionante é o quão semelhante somos. As respostas são quase iguais: gostamos do telemóvel porque nos conecta com o mundo e com quem está longe, e não gostamos porque sentimos que começamos a perder muito tempo nas redes sociais, nas aplicações de jogos, e em sites de namoro. São os três grandes vícios.
O que mais a preocupa sobre os resultados?
Estamos a deixar o smartphone alterar a forma como somos humanos. Fala-se mais por mensagens que cara-a-cara, e há uma espontaneidade que se perde nesse tipo de conversas. A nossa dependência do celular para combater o aborrecimento impede-nos de usufruir de momentos, de refletir e de pensar sobre a vida. As viagens de comboio já não são feitas a pensar e a descansar mas a fazer scroll no celular. Quantas grandes descobertas surgiram de momentos de introspecção? Vão deixar de existir?
Os efeitos dos celulares nas crianças são outro dos grandes focos do livro. Qual é a idade certa para introduzir o aparelho?
Ninguém sabe – estamos viver uma enorme experiência descontrolada em que os nossos filhos crescem, pela primeira vez, agarrados ao celular. Mas sei que aos 10 anos, que é a idade média nos EUA, é cedo demais. É importante saber estar aborrecido quando se está a crescer. Desenvolve a criatividade, aumenta a persistência. O celular  impede isto porque com jogos, redes sociais, Internet, está constantemente a estimular os mais novos. Os pais justificam que querem que os filhos estejam contactáveis, mas não é preciso celulares com Internet para isso. Há outras opções, telemóveis mais básicos, relógios com GPS.
O seu livro não é o primeiro a fazer estes alertas. Nos últimos anos, o conceito de “distracção digital”, em particular, pelo uso do smartphone, vem associado a problemas com a qualidade de sono, postura, problemas de aprendizagem nas crianças, vícios em videojogos, e um aumento da ansiedade. As pessoas estão a ignorar os avisos?
Os alertas não estão a ser bem-feitos. Não pode ser só dizer que passamos muito tempo no celular e precisamos de uma dieta. Ninguém gosta de dietas. Por isso é que digo ‘criar uma nova relação’. É preciso mostrar que o celular começa a ser o obstáculo para coisas que queremos fazer.
Qual é a relação perfeita com o celular?
Tal como com pessoas, não há relações perfeitas. O objetivo do meu livro é ajudar a chegar a uma relação mais saudável. Caso contrário corremos o risco de passar horas a fazer nada, a não ser deslizar com os dedos para cima ou para baixo.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/581349-estamos-a-deixar-o-smartphone-alterar-a-forma-como-somos-humanos)

"Imprevisibilidade climática veio para ficar", afirma diretor da FAO


A Organização das Nações para a Agricultura e Alimentação (FAO) estima que 830 milhões de pessoas já sofram atualmente de insegurança alimentar e que as mudanças climáticas podem agravar o problema nos próximos anos, com secas provocando escassez de alimentos e fome.
Em entrevista à Deutsche Welle, Alex Jones, diretor da Divisão de Clima e Meio Ambiente da FAO, afirma que há pode haver também perdas de nutrientes nos alimentos e que a variabilidade do clima será uma nova normalidade com a qual os agricultores terão de lidar – um problema particularmente grande para países em desenvolvimento.
"Se tivéssemos uma tendência constante poderíamos lidar com isso. O problema é a variabilidade, com eventos climáticos extremos. A imprevisibilidade é o elemento mais difícil, e parece que ela veio para ficar", afirma.
A entrevista é de Sonya Angelica Diehn, publicada por Deutsche Welle, 01-08-2018.

Eis a entrevista.

Estamos enfrentando uma onda de calor global que vem afetando agricultores. Como eles estão lidando com isso?
É muito difícil para os agricultores lidar com isso no meio de um ciclo [agrícola], especialmente se eles estiverem lidando com uma cultura de ciclo longo, como cereais. Se plantarem trigo ou milho, depois que as sementes estão no solo, não há absolutamente nada que se possa fazer, exceto talvez irrigar um pouco mais.
Trata-se antes de obter informações melhores, plantar sementes mais resistentes. E especialmente dividir o risco, não se concentrar exclusivamente numa única cultura, mas no policultura. Aumentando a biodiversidade no campo, de forma que existam diferentes plantios, você se protege contra o fracasso total.
A seca poderia causar escassez de alimentos e fome nos próximos anos ou décadas? Quais regiões correm mais risco?
Com certeza, é claro que pode causar fome. A estimativa da FAO é que 830 milhões de pessoas sofram atualmente de insegurança alimentar. Elas não têm comida suficiente para comer.
Sabemos também que produzimos alimentos mais do que suficientes no mundo para alimentar a todos. Mas há problemas de distribuição, e cerca de um terço de toda a comida se perde na fase de transformação. Portanto, há muitas lacunas a serem preenchidas aqui; mas obviamente, diminuir a produção pode ser um fator importante.
Também estamos olhando para a questão da perda de nutrientes. Mudanças climáticas, mudanças de CO2 no ar estão tendo um impacto no conteúdo nutricional dos alimentos. Alguns cereais possuem cerca de 10% menos proteína e têm menos minerais e menos vitaminas. Portanto, não é apenas uma questão de quantidade, mas também da qualidade desse alimento.
A seca vai se tornar uma nova normalidade para os agricultores?
Infelizmente, a variabilidade [climática] vai se tornar o novo normal. Muita chuva num ano, seca no próximo, temperaturas congelantes no seguinte e, na sequência, um ano muito bom. Esse é o maior problema. Se tivéssemos uma tendência constante ou soubéssemos que a temperatura fosse subir 2°C e ficaria por aí, poderíamos lidar com isso, 2°C é administrável.
O problema é a variabilidade, com eventos climáticos extremos, como ciclones, furacões, chuvas, queda de granizo e altas temperaturas em agosto no norte da Europa. A imprevisibilidade é o elemento mais difícil, e parece que ela veio para ficar.
As soluções estão ao nosso alcance. Mas por que elas não estão sendo aproveitadas?
Bem, elas são caras, e os agricultores já estão muito estressados com a dificuldade de obter algum lucro. E é claro que num ano como este, em que eles provavelmente vão perder dinheiro devido à seca, se viermos e dissermos: "Bem, nós queremos que você invista mais dinheiro em equipamentos de mobilização reduzida ou nula dos solos", é claro que eles vão dizer: "Você está louco, eu já estou endividado."
Trata-se de encontrar vontade coletiva e garantir que todos estejam em igualdade de condições, pois, é claro, se os fazendeiros na Alemanha adotarem isso, mas seus vizinhos de outro país não o fizerem, eles correrão risco em termos de competitividade. Todos nós precisamos concordar com certos padrões para que haja condições equitativas e possamos fazer esses investimentos.
Agricultores em algumas regiões da Alemanha estão enfrentando até 25% de perda de safra. A maioria consegue recorrer a seguros para ajudar a cobrir esses prejuízos. Mas como o seguro funciona quando as perdas ocorrem ano após ano, como pode começar a acontecer?
Os prêmios de seguro subirão. Este é o modo operacional básico de uma seguradora: quanto maior o risco, maiores os prêmios. Então, em algum momento, a questão vai ser: os agricultores poderão pagar um seguro? Será que valerá a pena se os prêmios forem tão altos? Essa é uma preocupação importante.
Poderemos ver um sistema de seguros falhar se os agricultores não conseguirem lidar com o problema. E, é claro, estamos muito preocupados com todos os ainda incipientes planos de seguro de colheitas que estamos tentando ajudar a formar nos países em desenvolvimento, porque eles precisam muito disso.
O Acordo de Paris incluiu o setor agrícola?
Infelizmente não. O Acordo de Paris não mencionou a agricultura. No entanto, desde então, tem havido um enorme progresso. Houve uma grande discussão na COP22 [22ª Conferência da ONU sobre o Clima], chamada Parceria de Marrakesh, que concordou em criar um componente agrícola.
E na COP23, no ano passado, em Bonn, acordou-se o chamado Trabalho Conjunto Koronivia na Agricultura, que é um acordo em que todas as partes da COP trabalharão juntas por dois anos em cinco áreas de foco agrícola, e chegarão a padrões a ser incluídos no Acordo de Paris sobre agricultura.
Então, há coisas em andamento, mas o mundo só precisa se unir para amalgamá-las?
Precisamos acelerá-las, porque não temos duas décadas para trabalhar nisso. Nós realmente precisamos obter resultados dentro de alguns anos. Caso contrário, será tarde demais.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/581415-imprevisibilidade-climatica-veio-para-ficar)

Produção e consumo crescente de carne afetam desmatamento na Amazônia, dizem especialistas


O consumo crescente de proteína animal, principalmente carne bovina e de aves, é um dos fatores responsáveis pelo aumento do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, biomas severamente impactados pela criação de gado e plantação de soja. O alerta é de especialistas, que participaram na quarta-feira (1º) de debate referente ao Dia da Sobrecarga da Terra, no Museu do Amanhã, no Rio.
A reportagem é de Vladimir Platonow, publicada por Agência Brasil, 02-08-2018.

A data marca o dia do ano em que a humanidade consumiu mais recursos do que a capacidade regenerativa do planeta. Este ano, o foco foi a produção de carne e os impactos no meio ambiente. A coordenadora de Programas e Projetos de Justiça Socioambiental da Fundação Heinrich Böll Brasil, Maureen Santos, destacou que existe uma responsabilidade pessoal, de cada um repensar seus hábitos de consumo, e também coletiva, que passa pela participação política.
Segundo ela, o aumento no consumo de carne no Brasil e em todo o mundo pressiona as áreas florestais, que acabam desmatadas e queimadas, para dar lugar a pastagens ou plantações de soja e milho, utilizados como ração na alimentação de bois, porcos e frangos.
“A cadeia da proteína animal se expandiu com o aumento da produção de commodities [grãos para exportação] no Cerrado. Foi empurrada para a Amazônia, com a criação de gado, em um volume gigantesco de hectares. A soja abrange 33 milhões de hectares e a pecuária, mais de 200 milhões de hectares. Não tem como resolver o problema do desmatamento sem olhar para a pecuária e o monocultivo [de soja]. É uma questão que tem de ser enfrentada”, disse Maureen.

Consumo de carnes

Os hábitos individuais também têm grande impacto sobre o meio ambiente, pois o consumo de carnes, processadas ou in natura, impulsiona o desflorestamento e a abertura de áreas para plantação de gramíneas, segundo a nutricionista Alessandra Luglio, coordenadora do Departamento de Medicina e Nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira.
“O seu bife é o principal devastador da floresta, principalmente pelo fato de que se precisa abrir campos para o gado e plantar alimentos como soja e milho para a pecuária, não só o gado, mas também para o frango, o porco e o peixe, animais de consumo que são criados de uma forma intensiva. Além disso, a produção de carne produz gases de efeito estufa, que estão gerando secas e mudanças climática, alteradoras do ecossistema”, disse Alessandra.

Documentário

O debate no Museu do Amanhã foi precedido pela exibição do documentário Sob a Pata do Boi, que aborda os impactos da produção pecuária e de grãos sobre o meio ambiente. A direção é de Márcio Isensee e Sá, produzido com apoio da organização O Eco e do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).
De acordo com o documentário, a Amazônia tem hoje 85 milhões de cabeças de gado, três para cada habitante. Na década de 1970, quase não havia bois e a floresta estava intacta. Desde então, uma porção equivalente ao tamanho da França desapareceu, da qual 66% virou pastagem. Segundo o Atlas da Carne, publicado pela Fundação Heinrich Böll, o Brasil é o segundo maior produtor de soja, tendo saído de 66,5 milhões de toneladas em 2012, para 94,5 milhões de toneladas em 2015, atrás apenas dos Estados Unidos, que produziu 108 milhões de toneladas em 2015.
Em 2009, o atlas mostra que o Brasil já tinha 185 milhões de cabeças de gado, praticamente uma para cada habitante.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/581440-producao-e-consumo-crescente-de-carne-afetam-desmatamento-na-amazonia-dizem-especialistas)