terça-feira, 18 de outubro de 2016

Eurásia, o pesadelo que atormenta Washington

Por Pepe Escobar | Tradução Vila Vudu

Há quase seis anos, o presidente Putin propôs à Alemanha “a criação de uma comunidade econômica harmoniosa que se estenda de Lisboa a Vladivostok.”
A ideia representava um imenso empório comercial que uniria Rússia e União Europeia ou, nas palavras de Putin, “um mercado continental unificado com capacidade estimada em trilhões de dólares.”
Em resumo: Integração da Eurásia.
Washington entrou em pânico. Registros mostram como a visão de Putin – embora extremamente sedutora para os industriais alemães – foi rapidamente desmontada pelo processo de demolição controlada que os
EUA puseram em ação na Ucrânia.
Três anos atrás, no Cazaquistão, depois na Indonésia, o presidente Xi Jinping expandiu a visão de Putin, propondo o projeto Um Cinturão, Uma Estrada [ing. One Belt, One Road (OBOR)], também chamado Novas Rotas da Seda, ampliando a integração geoeconômica do Pacífico Asiático mediante uma vasta rede de rodovias, ferrovias para trens de alta velocidade, oleodutos e gasodutos, portos e cabos de fibra ótica.

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Em resumo: uma versão da integração da Eurásia ainda mais ambiciosa, envolvendo dois terços da população mundial, a economia e o comércio. A diferença é que agora a coisa vem com poderosos músculos financeiros a lhe dar suporte, mediante um Fundo Rota da Seda, o Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura (BSII), o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS (NBD), uma muito ampla ofensiva comercial por toda a Eurásia e a entrada oficial do yuan na cesta de moedas que usufruem dos Direitos Especiais de Saque do FMI (que é como o batismo do yuan, que passa a ser moeda que interessa manter nos cofres, como moeda de reserva, a todos e quaisquer bancos centrais de países em crescimento.
Na recente reunião do G20 em Huangzhou, o presidente Xi claramente demonstrou como o projeto OBOR é absolutamente central à visão chinesa de como deve avançar a globalização. Pequim está apostando que a ampla maioria de nações em toda a Eurásia preferirão investir em, e lucrar com, um projeto “ganha-ganha” de desenvolvimento econômico, em vez de se deixar enredar num jogo estratégico tipo perde-perde entre EUA e China.
E isso é anátema absoluto para o Império do Caos. Como aceitar que a China esteja vencendo o Novo Grande Jogo na Eurásia / século 21, construindo Novas Rotas da Seda?
E não esqueçam a Rota da Seda na Síria
Poucos no ocidente souberam que, como RT noticiou, antes do G20 reuniu-se um Fórum Econômico Oriental em Vladivostok. Essencialmente, foi mais uma celebração de facto da integração da Eurásia, com Rússia, China, Japão e Coreia do Sul.
E que essa Eurásia integrada em pouco tempo se fundirá com a União Econômica Eurasiana liderada pela Rússia – a qual, só ela, já é um tipo de Nova Rota da Seda russa.
Todas essas estradas levam à conectividade total. Considerem-se, por exemplo, os trens de carga que agora já ligam regularmente Guangzhou, o entreposto chave no sudeste da China, ao centro logístico no parque industrial Vorsino, perto de Kaluga [quase na fronteira entre a Rússia e a União Europeia]. A viagem agora é feita em apenas duas semanas – economizando nada menos que um mês de viagem, em relação ao trajetopor mar; e corta 80% do custo, em relação ao transporte aéreo.
É mais uma conexão estilo Nova Rota da Seda entre China e Europa via Rússia. Outra conexões, muitíssimo mais ambiciosa, será a expansão da ferrovia Transiberiana, com trens de alta velocidade: a Rota da Seda Siberiana.
Há também a integração mais próxima, de China e Cazaquistão – país também membro da União Econômica Eurasiana. A ferrovia duty-free Transeurasiana já está operando, de Chongqing em Sichuan cruzando Cazaquistão, Rússia, Belarus e Polônia, até Duisburg na Alemanha. Pequim e Astana estão desenvolvendo uma zona livre comum de comércio em Horgos. E, paralelamente, uma Zona de Cooperação Econômica Transfronteira China-Mongólia, começou a ser construída mês passado.
O Cazaquistão está até flertando com a ambiciosa ideia de um Canal Eurasiano do Mar Cáspio ao Mar Negro, e dali adiante até o Mediterrâneo. Mais cedo ou mais tarde, empresas construtoras chinesas aparecerão com um estudo de viabilidade, pronto.
Uma agenda de Washington virtualmente invisível na Síria – embutida na obsessão do Pentágono com não admitir que nenhum cessar-fogo jamais funcione, ou para impedir que seus “rebeldes moderados” caiam, em Aleppo – é quebrar ali, também, um importante nó da Nova Rota da Seda. A China tem operado comercialmente conectada à Síria desde a Rota da Seda original, que sempre passou por Palmyra e Damasco. Antes da “Primavera Árabe” síria, comerciantes sírios era presença vital em Yiwu, sul de Xangai, o maior centro atacadista para bens de consumo de pequeno porte de todo o mundo. Os sírios compravam ali todos os tipos de produtos, no atacado, para revender no Oriente Médio.

O “Lago Norte-americano”

A Washington neoconservadora/neoliberal está totalmente catatônica, incapaz de formular qualquer resposta – ou, pelo menos, alguma contraproposta, à integração eurasiana. Uns poucos ali, com QI um pouco mais alto, podem compreender que o que se chama “ameaça” da China aos EUA tem tudo a ver com força econômica. Considerem a profunda hostilidade de Washington contra o BAII (Banco Asiático de Infraestrutura e Investimento). Mas nem todo o lobbying norte-americano mais furioso conseguiu impedir que aliados seus, como Alemanha, Grã-Bretanha, Austrália e Coreia do Sul, se integrassem ao novo banco, como parceiros.
E há o empenho insano para conseguir aprovar a “Parceria” Trans-Pacífico, TPP – China excluída – e braço comercial da OTAN, de apoio ao pivô para a Ásia, que deveria ter sido a cereja do bolo, hoje já quase completamente abatumado, da política econômica de Obama. Seja como for, no pé em que está hoje, a TPP está praticamente morta.
O que a conjuntura geopolítica parece estar mostrando é a Marinha dos EUA disposta a fazer praticamente qualquer coisa, no esforço para impedir que a China assuma o domínio estratégico no Pacífico, ao mesmo tempo em que a TPP operaria como arma para impedir que a China dominasse economicamente aquela região.
Com o pivô para a Ásia configurado como ferramenta para “conter a agressão chinesa”, os excepcionalistas demonstraram claramente como são incapazes de admitir que todo o jogo está relacionado à geopolítica da cadeia de suprimento pós-ideológico. Os EUA não precisam conter a China; precisam, isso sim, desesperadamente, da conexão industrial, financeira e comercial com os nós cruciais, em toda a Ásia, para (re)construir a economia norte-americana.
Longe vão os dias, de março-1949, quando MacArthur podia pavonear-se de que “o Pacífico é agora um lago anglo-saxão”. Mesmo depois do fim da Guerra Fria, o Pacífico era um lago norte-americano de facto; os EUA violavam à vontade o espaço aéreo e naval da China.
Hoje, meros 67 anos depois, temos aí toda a Academia de Guerra do Exército dos EUA e toda a Think-Tankelândia passando noites em claro debruçados sobre os sofisticados mísseis chineses capazes de vedar o acesso à Marinha dos EUA para o Mar do Sul da China. Lago norte-americano? Acabou-se. No more.
O xis da questão é que a China apostou fortemente na construção de infraestrutura – que se traduz em conectividade de primeira classe para todo o planeta – como os reais commons globais do século 21, muitíssimo mais importantes que security. Afinal, toda uma grande parte da infraestrutura global ainda está para ser construída. Enquanto a China turbina o próprio papel de maior exportador global de infraestrutura – de ferrovias de alta velocidade a telecomunicações de baixo custo – a “nação indispensável” está ainda às voltas com a tal pivoteação, atrapalhada, perplexa, doentiamente obcecada com “contenção” por via militar.
Dividir para governar aqueles rivais “hostis”
Bem… As coisas não mudaram muito desde quando o Dr. Zbig “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski sonhava no final dos anos 1990s com uma fragmentação chinesa de dentro para fora, diretamente até a Estratégia de Segurança Nacional de 2015 de Obama, que nada é além de fútil nostalgia retórica sobre conter Rússia, China e Irã.
Daí a cesta de mitos agregados como “liberdade de navegação” – eufemismo que Washington adota para “controle perene de rotas marítimas que são rotas de suprimento para a China – e uma apoteose de “agressão chinesa” cada vez mais fundida com “agressão russa”; afinal de contas, a parceria estratégica encabeçada por Pequim-Moscou para integração da Eurásia tem de ser rompida a qualquer custo.
Por quê? Porque a hegemonia global dos EUA tem de ser sempre percebida como força irremovível, uma força da natureza que ninguém muda, feito a morte e os impostos (exceto a Apple na Irlanda).
Vinte e quatro anos depois do Guia de Planejamento da Defesa do Pentágono (ing.Pentagon’s Defense Planning Guide), ainda prevalece o mesmo modo de pensar: “Nosso primeiro objetivo é impedir a reemergência de novo rival (…) impedir qualquer potência hostil de dominar região cujos recursos, sob controle consolidado, sejam suficientes para gerar poder global. Essas regiões incluem Europa Ocidental, Ásia Oriental, o território da União Soviética e o sudoeste da Ásia”.
Epa! Agora, até o Dr. Zbig “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski também está apavorado. Como conter essas amaldiçoadas rotas da seda, com as “ameaças existenciais” (para o Pentágono) China e Rússia, bem ali, no coração da ação? Dividir para governar. E o que mais teriam?!
Para um já confuso Brzezinski, os EUA devem “conceber uma política na qual pelo menos um dos dois estados potencialmente ameaçadores torne-se parceiro na busca por estabilidade primeiro regional, depois mais amplamente global, e assim conter pelo menos o rival menos previsível mas potencialmente o que tem maior probabilidade de se superdistender. Atualmente, o que mais provavelmente se superdistenderá parece ser a Rússia, mas no longo prazo, pode ser a China.”
Tenham bons pesadelos.
(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/eurasia-unida-o-pesadelo-que-atormenta-washington/)

sábado, 15 de outubro de 2016

Assim o Pentágono vê o mundo em 2030

Um artigo assustador, acompanhado de um vídeo não menos pavoroso. Não deixem de ler e vejam o vídeo usando o link ao final do texto. Está em inglês, mas dá para perceber a gravidade da situação.

Filme secreto, usado em treinamento militar, é revelado. EUA preveem que, em 15 anos, metrópoles estarão devastadas e caóticas. E querem preparar-se para guerrar nestas condições extremas

Que as guerras promovidas pelos EUA neste século devastam cidades, inviabilizam países e instalam situações de caos permanente, já se sabia. Porém o site The Intercept, de Glenn Greenwald, acaba de obter uma informação chocante. Este cenário de desumanização brutal é o que o Departamento de Defesa (“Pentágono”) — órgão que coordena as forças armadas norte-americanas — prevê, de forma “inevitável”, para as metrópoles do mundo todo, já em 2030.

A distopia está expressa num vídeo de cinco minutos publicado acima, e revelado ontem graças a um requerimento baseado na Lei de Liberdade de Informação dos EUA. Não se trata de fantasia especulativa, mas de material didático. A peça foi parte de um curso oferecido, no começo deste ano, pela a Universidade de Operações Especiais Conjuntas (JSOU, na sigla em inglês) do Pentágono. Intitula-se Megacities: Urban Future, the Emerging Complexity, ou “Megacidades: o Futuro Urbano, a Emergente Complexidade”.



Em The Intercept, o jornalista Nick Turse faz uma breve resenha. Segundo o vídeo, em menos de quinze anos as grandes cidades do mundo “serão um amálgama de cenários como os dos filmes Fuga de Nova York e Robocop — com toques de Warriors e Divergent”. Sucedem-se cenas de ruas entulhadas de lixo, vândalos mascarados, e tropas de choque enfrentando manifestantes. “O crescimento ampliará o divisão crescente entre ricos e pobres”, diz o narrador. A descrição do futuro inclui cidades dominadas por “redes criminosas”, “infraestrutura precária”, “tensões religiosas e étnicas”, “favelas miseráveis”, “lixões abertos”, “esgotos transbordantes”.

A preocupação do Pentágono, expressa com clareza no filme é o despreparo das tropas norte-americanas para lidar com este tipo de cenário. Um porta-voz do Pentágono afirmou a The Intercept que o objetivo da produção foi “iluminar os desafios da operação nos ambientes das mega-cidades”.
O próprio vídeo afirma, aos participantes do curso, no tom de uma superpotência que parece acreditar apenas na força bruta como meio de manter seu poder: “Mesmo nossa doutrina de contra-insurgência, testada nas cidades do Iraque e montanhas do Afeganistão, é incapaz para enfrentar a futura realidade urbana (…) Enfrentamos um desafio que exige redefinir nossa doutrina de maneira radicalmente nova e diferente”

(fonte: http://outraspalavras.net/blog/2016/10/14/assim-o-pentagono-ve-o-mundo-em-2030/)

PEC 241: a quem morder para cima

Texto escrito por José de Souza Castro:

Passados dez meses da publicação do artigo pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo – uma parceria entre o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e o Governo do Brasil –, já é possível afirmar como nossa imprensa se distancia dos interesses da maioria dos brasileiros. Uma pesquisa no Google mostra que grandes jornais, rádios e televisões não destacaram que “cerca de dois terços da renda dos super-ricos (meio milésimo da população) está isenta de qualquer incidência tributária”, como se lê AQUI.

O tema interessa sobretudo agora, quando o novo governo busca formas de garantir pelos próximos 20 anos o pagamento aos investidores ricos que compram títulos públicos, atraídos pelos mais altos juros pagos por um governo de país responsável no mundo, à custa de programas que interessam de perto à grande maioria dos brasileiros pobres ou remediados.

O desinteresse foi notável, tanto que o site da ONU no Brasil insistiu na divulgação do artigo, ao publicar no dia 31 de março, nova notícia a respeito do estudo feito pelos pesquisadores Sérgio Gobetti e Rodrigo Orair, que também são pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), desta vez com o seguinte título: “Brasil é paraíso tributário para super-ricos, diz estudo de centro da ONU”. O título do artigo publicado em dezembro é este: “Tributação e distribuição da renda no Brasil: novas evidências a partir das declarações tributárias das pessoas físicas”.

Trechos desse artigo:
– O Brasil é um dos países que, por falta de suficiente transparência fiscal, ficaram de fora do estudo dos economistas Anthony Atkinson e Thomas Piketty, que fornece uma perspectiva global sobre a concentração de renda no topo da distribuição, a partir dos dados das declarações do imposto de renda. Felizmente, em 2015, a Receita Federal do Brasil voltou a disponibilizar, à sociedade, informações mais detalhadas das declarações do imposto de renda, que permitem, por exemplo, identificar os brasileiros no topo da pirâmide social, aproximadamente, 71 mil pessoas que correspondem ao meio milésimo mais rico (0,05 por cento da população adulta) e ganharam, em média, R$ 4,1 milhões em 2013.

– A concentração de renda brasileira supera qualquer outro país com informações disponíveis. O décimo mais rico apropria-se de metade da renda das famílias brasileiras (52 por cento), o centésimo mais rico algo próximo a um quarto (23,2 por cento) e o milésimo mais rico chega a um décimo (10,6 por cento), índices que ultrapassam os limites considerados toleráveis para as sociedades democráticas, segundo Piketty. Mas o que realmente chama a atenção é que o meio milésimo mais rico concentra 8,5 por cento da renda.

– Os brasileiros super-ricos pagam menos imposto, em proporção da sua renda, que um cidadão típico de classe média alta, sobretudo o assalariado, o que viola o princípio da progressividade tributária, segundo o qual o nível de tributação deve crescer com a renda. Cerca de dois terços da renda dos super-ricos (meio milésimo da população) está isenta de qualquer incidência tributária, proporção superior a qualquer outra faixa de rendimentos. O resultado é que a alíquota efetiva média paga pelos super-ricos chega a apenas 7 por cento, enquanto a média nos estratos intermediários dos declarantes do imposto de renda chega a 12 por cento.

– Essa distorção deve-se, principalmente, a uma peculiaridade da legislação brasileira: a isenção de lucros e dividendos distribuídos pelas empresas a seus sócios e acionistas. Dos 71 mil brasileiros super-ricos, cerca de 50 mil receberam dividendos em 2013 e não pagaram qualquer imposto por eles. Além disso, beneficiaram-se de uma baixa tributação sobre ganhos financeiros, que no Brasil varia entre 15 por cento e 20 por cento, enquanto os salários estão sujeitos a um imposto progressivo, cuja alíquota máxima de 27,5 por cento atinge níveis muito moderados de renda (acima de R$ 4,7 mil de renda mensal.

– O potencial distributivo do imposto de renda no Brasil, medido em termos de queda no índice de Gini, é menor que nos países mais desenvolvidos da América Latina, como México, Uruguai, Argentina e Chile, e bem inferior ao dos países europeus. Em resumo, os dados revelam que o Brasil é um país de extrema desigualdade e também um paraíso tributário para os super-ricos, combinando baixo nível de tributação sobre aplicações financeiras, uma das mais elevadas taxas de juros do mundo e uma prática pouco comum de isentar a distribuição de dividendos de imposto de renda na pessoa física.

– A justificativa para tal isenção é evitar que o lucro, já tributado ao nível da empresa, seja novamente taxado quando se converte em renda pessoal. Entre os 34 países da OCDE, que reúne economias desenvolvidas e algumas em desenvolvimento que aceitam os princípios da democracia representativa e da economia de livre mercado, apenas três isentavam os dividendos até 2010. México retomou a taxação em 2014 e República Eslováquia instituiu em 2011 uma contribuição social para financiar a saúde. Restou somente a Estônia, pequeno país que adotou uma das reformas pró-mercado mais radicais do mundo, após o fim do domínio soviético nos anos de 1990, e que, como o Brasil, concede total isenção tributária à principal fonte de renda dos mais ricos. Em média, a tributação total do lucro (somando pessoa jurídica e pessoa física) chega a 48 por cento nos países da OCDE (sendo 64 por cento na França, 48 por cento na Alemanha e 57 por cento nos Estados Unidos). No Brasil, com as isenções de dividendos e outros benefícios tributários, essa taxa cai abaixo de 30 por cento. No entanto, a excentricidade brasileira não para por aí. O Brasil possui uma elevada carga tributária para os padrões das economias em desenvolvimento, por volta de 34 por cento do PIB, equivalente à média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Diferentemente dos países da OCDE, nos quais a parcela da tributação que recai sobre bens e serviços é residual (cerca de um terço do total) e há maior peso da tributação sobre renda e patrimônio, cerca de metade da carga brasileira provém de tributos sobre bens e serviços que, proporcionalmente, oneram mais a renda dos mais pobres. Ou seja, os privilégios aos rendimentos da propriedade do capital, que tornam o imposto de renda no Brasil pouco redistributivo, são apenas um elemento de uma estrutura tributária global muito regressiva.

– Contudo, é interessante assinalar que nem os governos conservadores de Ronald Reagan e George W. Bush, nos Estados Unidos, e Margaret Thatcher, no Reino Unido, conseguiram fazer o que o governo brasileiro fez em 1995, ao isentar completamente os lucros e os dividendos. E, enquanto o avanço conservador está sendo parcialmente revertido na maioria dos países da OCDE, que estão aumentando a taxação sobre os mais ricos, inclusive os dividendos, de acordo com os esforços de ajustes fiscais que não penalizem tanto os mais pobres; no Brasil nenhuma reforma de fôlego com o objetivo de ampliar a progressividade do sistema tributário foi realizada nos últimos 30 anos de democracia, dos quais 12 anos sob o governo de centro-esquerda do Partido dos Trabalhadores (PT). Repensar essa questão e colocar em pauta a agenda da progressividade, já com certo atraso, é um dos grandes desafios para o Brasil na atualidade.

Os leitores mais atentos podem dizer que já leram sobre isso por aí. É verdade. Muitos sites divulgaram o estudo na Internet. E não apenas “blogs sujos”. Este, por exemplo, não pode ser considerado suspeito aos olhos de Temer.

Mas quem, na imprensa, no governo e no Congresso Nacional, está debatendo o tema neste momento? O que seria mais apropriado? Nem Elio Gaspari ousa, num jornal como a “Folha de S. Paulo”, em artigo intitulado “Para que a PEC 241 seja eficaz, precisa morder para cima”, explicitar quem deve ser mordido.
O jornal citado, que no passado dizia não ter rabo preso com ninguém e se tornou o mais lido do país, talvez pudesse publicar editorial de primeira página, como fez algumas vezes sobre assuntos de grande relevância, apontando a quem morder: os 71 mil brasileiros super-ricos, dos quais cerca de 50 mil receberam dividendos em 2013 e não pagaram qualquer imposto por eles.

(fonte: https://kikacastro.com.br/2016/10/14/pec-241-a-quem-morder-para-cima/#more-13127)

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A guerra (fria) entre Paris e Moscou

por Leneide Duarte-Plon, de Paris*
 
Um vento polar começou a soprar entre Moscou e Paris. As relações entre as duas capitais nunca estiveram tão frias.

Dia 19 de outubro, o presidente russo deveria estar em Paris para inaugurar o monumental Centro Espiritual e Cultural Ortodoxo Russo, que conta com uma imponente Igreja Ortodoxa no coração de Paris, perto da Torre Eiffel. O projeto milionário custou 170 milhões de euros e, pela lei, o conjunto goza do status de « bem diplomático ».

Mas a vinda de Putin foi cancelada e a inauguração não vai contar com a presença de Hollande.

Assim, as relações diplomáticas entre franceses e russos estão congeladas até segunda ordem. Nesse quadro de guerra fria, o presidente Vladimir Putin encarna a figura do vilão.

O seu grande pecado é garantir a sobrevida do regime sírio de Bachar Al-Assad através de bombardeios permanentes aos rebeldes que, diga-se de passagem, são armados pelos Estados Unidos e pela própria França. Mas, como em quase todas as guerras, tudo é muito nebuloso e complexo.

Bombas sobre Alepo

Para alguns observadores, colocar em Putin toda a responsabilidade dos efeitos atuais da guerra na Síria (civis morrendo sob as bombas, refugiados fugindo em desespero) e do fracasso das duas tréguas tentadas recentemente não passa de « russofobia » da política externa francesa.

Para outros, Vladimir Putin é um criminoso de guerra ao prosseguir o bombardeio de Alepo, deixando milhares de civis como reféns do regime de Bachar Al-Assad. Para esses, Putin traça sua política de enfrentamento com o mundo ocidental  seguindo sua própria lógica.

Tanto o presidente francês quanto o Quai d’Orsay enviaram um recado diplomático sobre o que gostariam de tratar com Putin em Paris : a Síria e somente este assunto. Nada de frivolidades, diziam os diplomatas referindo-se ao Centro Cultural e à igreja ortodoxa. O mal estar que se formou levou Moscou a cancelar ontem, dia 12, a visita do presidente, prevista há mais de um ano.

O porta-voz do Kremlin anunciou que Putin virá a Paris « quando o momento for oportuno e o presidente Hollande se sentir à vontade », deixando claro quem provocou a anulação.

Crimes de guerra : Alepo seria a nova Guernica

Numa escalada diplomática, a França denunciou a Rússia e a Síria por « crimes de guerra » no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

« Nós respondemos a essa acusação no Conselho de Segurança da ONU (8 de outubro) quando a resolução francesa foi bloqueada. Depois eles bloquearam nossa resolução. Tudo foi dito e explicado », respondeu o chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, na cúpula sobre a energia, que aconteceu em Istambul, onde Vladimir Putin esteve presente.

Durante um debate extraordinário na Câmara dos Comuns, em Londres, o conservador Andrex Mitchell, ex-ministro britânico do Desenvolvimento Internacional, comparou a posição atual da Rússia na ONU ao que a Itália e a Alemanha fizeram na Sociedade das Nações nos anos 30.

E foi além : em Alepo, a Rússia faz o que os nazistas fizeram em Guernica, durante a Guerra Civil Espanhola, em 1937.

Na França, a política externa de Hollande em relação a Moscou não agrada nem à extrema direita nem à extrema esquerda. Nos dois extremos há quem acuse o presidente de « lacaio dos americanos » ou de « alinhamento total com Washington ». No complexo universo político francês tanto Marine Le Pen, do Front National, de extrema-direita, quanto Jean-Luc Mélenchon, do Parti de Gauche, extrema-esquerda, condenam a diabolização que governo e uma certa imprensa francesa tentam fazer do presidente russo.

Como o novo presidente francês será eleito em maio próximo, o prudente Putin vai, quem sabe, esperar para ver com quem terá que se entender (ou não) nos próximos anos.

* Leneide Duarte-Plon é autora de « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado » (Editora Civilização Brasileira, 2016)

(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/A-guerra-fria-entre-Paris-e-Moscou/6/37005)

Para conter crise das commodities, governo aprova importação de milho transgênico

Rute Pina

Na última quinta-feira (6), a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), instância colegiada multidisciplinar integrante Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) aprovou a importação de três variedades de milho transgênico cultivados nos Estados Unidos (EUA) para o Brasil.
Duas variedades de milho transgênico autorizadas foram desenvolvidas pela multinacional norte-americana Monsanto, com a promessa de que as sementes seriam tolerantes à seca. O outro grão foi criado pela Syngenta, transnacional do ramo de sementes e produtos químicos com sede na Suíça, e será destinado à produção de biocombustível.
Os grãos receberam o aval para a produção de ração, com a recomendação de que sejam exclusivamente destinados ao consumo e que não sejam plantados no país, onde ainda não passaram pelos testes previstos pela Lei de Biossegurança.

Risco

A justificativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) é de que a aprovação das variedades transgênicas visa garantir o abastecimento do mercado brasileiro depois da quebra de safra no Brasil por problemas climáticos, que encareceu o produto e os custos de produção. “A medida vai beneficiar indústrias e produtores que usam o milho na ração animal”, disse o secretário de Relações Internacionais do Agronegócio Odilson Ribeiro e Silva em nota à imprensa.
Neste ano, a colheita do milho foi reduzida em vários estados, e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) previu uma safra 19,1% menor no país em relação ao ano anterior, com 68,47 milhões de toneladas.
Entretanto, essa autorização está desalinhada com o princípio da precaução da CTNBio, conforme defende o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ex-membro da comissão entre 2008 e 2014. Para ele, o órgão permitiu "uma liberação comercial disfarçada de autorização" a grãos que ainda não tiveram seus riscos de plantio mensurados no país.
Além de não terem sido criadas originalmente para a alimentação, Melgarejo afirma ser "fato consumado" que a disponibilidade do produto no Brasil vai gerar desvios com a finalidade do plantio. Um dos temores é que, ao fazer a comercialização de milho não testado no Brasil, algum agricultor queira plantar esse milho e, ao fazer isso, gerar substâncias que possam causar alergia, intoxicação e outros problemas para saúde.
"Essas plantas estarão submetidas a condições de clima e estresse diferentes daquelas em que foram estudadas nos EUA. Nessas pressões, podem surgir características indesejáveis e até mesmo perigosas", afirma.
Segundo Melgarejo, as empresas "pulam caminhos" para a aprovação total das sementes transgênicas através de liberações parciais. "A legislação já tem suas fragilidades, como o fato de, em muitos casos, os produtos transgênicos serem aprovados sem cumprir os requisitos da própria CTNBio. Esse é um dos casos em que o produto vai ser comercializado no Brasil sem cumprir as normas da Lei de Biossegurança", sentenciou.

Crise

Para João Dagoberto, representante da agricultura familiar na CTNBio, o governo federal transferiu a responsabilidade para a comissão sob a contingência de segurança nacional. "Foi armada uma estrutura que forçou a aprovação, O correto isso seria ser jogado para o CNB [Conselho Nacional de Biossegurança], que é composto por vários ministérios, para deliberar nas instâncias corretas", disse.
Segundo ele, as atribuições da CTNBio se restringem a questões de biossegurança, não a aprovar a importação e o consumo do cereal em casos em que deveria restringi-los. Para Dagoberto, tais atribuições adicionais põem em risco a seriedade e a legitimidade da comissão.
Os pareceres técnicos dos relatores da CTNBio pediram vistas do processo e a reprovação da medida. Dagoberto aponta que as variedades foram aprovadas porque a comissão segue "um padrão de aprovação" e houve pressão do governo federal, que considerou a medida uma das alternativas para suprir o problema da falência das safras de milho.

Outro lado

A assessoria do MCTIC afirmou que desconhece a existência de plantio dessas variedades no Brasil até o momento, mas, para evitar a prática, "uma lista de medidas de biossegurança foi recomendada pelos membros da CTNBio, e o Mapa tem a competência de fiscalização".
Sobre isso, Dagoberto afirma que há "garantia zero" de evitar o plantio irregular e afirma que, com certeza, haverá contaminação do meio-ambiente. "O Mapa hoje não tem condições de monitorar os carregamentos desde o dia em que ele chega ao porto até o [caminho que faz até] o consumidor", disse o técnico.
A Monsanto, por sua vez, ressaltou que o milho deverá ser utilizado somente para alimentação e será importado pela indústria de ração, produção animal em forma de grão, e não em semente. Segundo a empresa, a tecnologia está aprovada em 15  países, entre eles os Estados Unidos, a Austrália, o Canadá, a Colômbia, o Japão, a China, a África do Sul, além da União Europeia.
A Syngenta foi procurada pelo Brasil de Fato e não respondeu aos questionamentos até o fechamento da reportagem.
Edição: Camila Rodrigues da Silva
(fonte:  https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=3948262116088624722#editor/target=post;postID=166684325435892403)

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Como o Yahoo viola os seus emails


Ex-funcionários denunciam: empresa invade e vasculha contas de usuários para atender pedidos da NSA. Questionado, Yahoo confirma, implicitamente, que “cumpre as leis dos Estados Unidos”
Por Altamiro Borges, em seu blog

A agência de notícias britânica Reuters publicou na última quarta-feira (5) uma denúncia gravíssima, que comprova mais uma vez a postura agressiva do governo dos EUA. Na era da internet, os falcões imperialistas estão hiperativos na espionagem, desrespeitando a privacidade individual e a soberania das nações. Não dá para ter qualquer ilusão sobre a segurança com as novas tecnologias da informação.

Segundo a reportagem, “o Yahoo criou secretamente um software personalizado para pesquisar todos os e-mails recebidos por usuários de seus serviços. O programa buscava informações específicas requeridas por autoridades de inteligência dos Estados Unidos, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto”.

Ainda de acordo com a matéria, a empresa cumpriu uma diretriz secreta do governo, pesquisando centenas de milhões de contas do Yahoo Mail por ordem da Agência Nacional de Segurança e da polícia federal dos EUA, o FBI. A ilegalidade foi revelada por dois ex-funcionários da empresa. “Especialistas em vigilância disseram que isto representa o surgimento do primeiro caso de uma empresa de internet norte-americana a concordar com exigência da agência de espionagem para pesquisar todas as novas mensagens, em vez de analisar e-mails armazenados ou um pequeno número de contas em tempo real”.

A Reuters informa que não se sabe quais as informações as autoridades de inteligência dos EUA estavam procurando, apenas que elas queriam que o Yahoo pesquisasse um conjunto de caracteres. “Isto pode significar uma frase em um e-mail ou um anexo, disseram as fontes, que não quiseram ser identificadas”. De acordo com os dois ex-funcionários, a decisão da presidente-executiva do Yahoo, Marissa Mayer, de obedecer a diretriz irritou alguns executivos e levou à saída, em junho de 2015, do diretor de segurança de informações, Alex Stamos, que agora detém o principal cargo de segurança do Facebook.

“O Yahoo é uma empresa que obedece a legislação e cumpre com as leis dos Estados Unidos”, confirmou a empresa em resposta às perguntas da Reuters. Já a famigerada NSA, denunciada pela presidenta Dilma Rousseff na assembleia da ONU por suas práticas criminosas, não quis responder ao questionamento da agência britânica. A Reuters revela ainda que “as empresas de telefonia e Internet dos EUA entregaram dados de usuários para agências de inteligência, mas alguns ex-oficiais do governo dos EUA e especialistas em vigilância particulares disseram que não viram anteriormente uma diretriz tão ampla para a coleta de dados em tempo real ou uma que exigisse a criação de um novo programa de computador para isso”.

Especialistas disseram à agência que é provável que a NSA e o FBI tenham abordado outras empresas com o mesmo pedido. “A Reuters não pode confirmar se a exigência de 2015 foi feita a outras empresas, ou se alguma cumpriu a ordem. Google e Microsoft, duas das maiores provedoras de e-mail dos EUA, não responderam aos pedidos de esclarecimento”. Não faz muito tempo, Edward Snowden, ex-funcionário da NSA, revelou ao mundo o gigantesco esquema de espionagem dos EUA. A reportagem da Reuters confirma que o esquema permanece ativo e atinge extensões ainda maiores. É bom ficar esperto!

(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=363929)

Bela, recatada e do lar: um projeto


Basta analisar a cobertura da velha mídia ao primeiro discurso de Marcela Temer para perceber: está em curso um movimento para colocar mulheres, negros e homossexuais “em seu lugar” — ainda que haja beijos gay nas novelas

Por Mauro Lopes

O episódio do discurso de Marcela Temer ainda merece atenção. Porque ele evoca o desenho de país que os golpistas pretendem. É mais que tomar o pré-sal e deixar o Estado a serviço dos rentistas.
Há, para além da esfera econômica, uma construção cultural-ideológica que pretende assegurar a dominação.
Assim, eles vão “organizando” o lugar de cada um na sociedade. Para as elites, é essencial enfiar as mulheres numa caixinha que arrebente seu protagonismo, um dos principais vetores da renovação do país. O desejo da direita é relegá-la a papéis subalternos num arranjo que sequer existe mais no século 21 (bela, recatada e do lar). O primeiro-damismo cheira a mofo, mas eles pretendem soprar a poeira e passar um lustrinho.

Esse movimento nao é coisa da cabeça do carcomido do Temer e sua quadrilha apenas. Todo o aparelho ideológico entra em cena. E, com isso, cai a última ligação entre a Globo, Folha e outros com o dinamismo da sociedade -restrito nesta altura do campeonato à esfera dos “costumes”.
Tomei emprestada análise breve e certeira do Quartinho da Dany sobre a cobertura da mídia golpista sobre o discurso de Marcela:
“Na Folha, fizeram questão de deixar bem claro que o tom do discurso de Marcela foi EMOTIVO e a primeira-dama fez questão de ressaltar que será um TRABALHO VOLUNTÁRIO, SEM REMUNERAÇÃO. O tom de seu discurso também foi descrito como PAUSADO e PROFESSORAL. No G1, enfatizaram que Marcela é JOVEM e MÃE. No Estadão, seu tom foi descrito como MATERNAL e ela também destacou a importância do INSTINTO MATERNO.
Todas as palavras fazem parte do campo semântico do papel feminino da mulher-mãe na nossa sociedade patriarcal.”
É isso. É o projeto deles.
É claro que os operadores dos aparelhos ideológico-culturais das elites não são bobos. Enquanto martelam a submissão das mulheres, gays, negros, indígenas e pobres em geral com uma mão, com a outra aplicam as técnicas conhecidas como pinkwahing para não se desconectarem completamente da sociedade. É o que fazerem aqui e ali nas novelas e em algumas reportagens. Mas quem conhece os bastidores da indústria do jornalismo e do entretenimento no Brasil sabe que elas são misóginas, racistas, anti-humanas.
A cobertura do discurso de Marcela revela-os todos.
(fonte: http://outraspalavras.net/blog/2016/10/07/bela-recatada-e-do-lar-um-projeto/)