sexta-feira, 12 de maio de 2017
Ontário, no Canadá, adota renda básica universal
Moradores receberão até R$ 50 mil por ano. Não se exigirão contrapartidas. Serão avaliadas repercussões na Segurança Alimentar, Saúde, Moradia e Educação
Por Ana Carolina Peliz, na RFI
Depois da Finlândia e da Holanda, o Canadá também está experimentando, a partir deste mês, a distribuição de uma renda básica universal. A província de Ontário vai oferecer cheques mensais para cobrir as necessidades básicas de cidadãos de baixa renda, estejam eles empregados ou não. A iniciativa faz parte de um programa piloto que tem o objetivo de reduzir a pobreza e diminuir a precariedade no trabalho.
O programa que será implementado nas próximas semanas nos municípios de Hamilton, Thunder Bay e Lindsay, na província de Ontário, deve durar três anos e conta com a participação de quatro mil pessoas de baixa renda escolhidas de maneira aleatória. Os participantes do programa têm entre 18 e 64 anos e vão receber rendas entre 17 mil e 25 mil dólares canadenses por ano, ou seja, entre R$ 40 mil e R$ 50 mil.
O projeto também prevê um adicional de 6 mil dólares canadenses (R$ 14 mil), para pessoas com necessidades especiais. O governo de Ontário deve investir aproximadamente 150 milhões de dólares canadenses no projeto piloto.
Em princípio, nenhuma exigência foi feita aos participantes. A renda não tem contrapartida e os beneficiários do projeto podem trabalhar, mas terão um abatimento equivalente a 50% do valor do salário no montante da renda. Eles também poderão continuar recebendo outros benefícios do governo como seguro-desemprego, pensões e o auxílios dados a pessoas com filhos.
Objetivo do programa
Segundo o governo de Ontário, o programa deve medir os efeitos da renda básica em diversas áreas como segurança alimentar, saúde, moradia, educação e também os níveis de estresse e ansiedade da população avaliada. Um dos principais argumentos dos defensores da renda básica universal no Canadá é que a diminuição da pobreza reduziria também os problemas de saúde.
Um único benefício eliminaria também a burocracia na distribuição dos diferentes tipos de auxílios sociais que já existem. Tudo isso significaria economia para os cofres públicos a longo prazo.
Por enquanto, não há sinais de que o programa possa ser estendido ao resto do país. O ministro das Finanças canadense, Bill Morneau, afirmou em março, em entrevista a um site de notícias, que o governo não pensa implementar uma renda básica para todo o Canadá.
Pioneiro da renda universal
Esta não é a primeira vez que o Canadá desenvolve este tipo de programa. Em 1974, o país realizou um dos mais ambiciosos experimentos de renda mínima da América do Norte, com 10 mil habitantes da cidade de Dauphin, na província de Manitoba.
Os resultados do estudo foram promissores, indicando uma redução importante nos índices de pobreza em geral, além de avanços em áreas específicas como diminuição da violência doméstica e melhora geral na saúde e na educação dos participantes. Apesar dos bons resultados, o programa foi interrompido por falta de apoio governamental.
Até hoje, o único país que tem um programa de renda básica universal funcionando é os Estados Unidos. Desde 1982, os habitantes do Alasca recebem uma participação nos rendimentos dos royalties do petróleo recebidos pelo Estado.
A Finlândia, a Holanda, o Quênia estão entre os países que implementaram programas de maneira experimental. No Brasil, a lei que institui a renda básica de cidadania foi aprovada e sancionada pelo presidente Lula, mas não chegou a ser regularizada e implementada.
(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=460476)
quarta-feira, 10 de maio de 2017
Facebook negocia dados de milhões de jovens emocionalmente vulneráveis
Uso de informações de crianças e jovens pela rede social mostram urgência da proteção dos dados pessoais, escreve Marina Pita, jornalista, membro do Intervozes, em artigo publicado por CartaCapital, 04-05-2017.
Eis o artigo.
Há cerca de dois anos, eu e minha família recebemos a notícia de que minha mãe teria de enfrentar um tratamento para câncer. Dias depois de ter recebido a notícia, resolvi compartilhar pelo WhatsApp, com uma amiga querida que estava longe, o estado de ansiedade e apreensão pelo qual passava.
No dia seguinte, um e-mail na minha caixa de entrada informava sobre um remédio milagroso para a doença. Respirei fundo e apaguei. Coincidência ou não, o fato que é que a informação de que o assunto "câncer" estava no meu espectro de interesse poderia, sim, ser usada para fins de publicidade. A fragilidade, a vulnerabilidade, a insegurança, já descobriram os publicitários há alguns anos, são importantes impulsionadores de vendas.
Agora, se o caso ocorreu já há dois anos, por que compartilhá-lo agora?
Porque um documento interno do Facebook, que acaba de ser vazado pelo jornal Australian, revelou a capacidade da companhia de identificar quando um adolescente ou um jovem trabalhador se sente “inseguro”, “inútil” e precisa de um “impulso de autoestima” – tudo baseado num banco de dados de 1,9 milhão de estudantes de Ensino Fundamental, 1,5 milhão do Ensino Médio e 3 milhões de jovens trabalhadores.
Quem acompanhou, no Dia Mundial da Saúde, os diversos alertas sobre depressão e como a doença é hoje a principal causa de problemas de saúde e invalidez no mundo, pode pensar: que ótimo! Esta informação pode ser usada para gerar algum tipo de acompanhamento, indicação de profissional, sugerir que o adolescente busque ajuda.
Não. Veja bem.
O documento em que a maior rede social do mundo se gabava de poder monitorar posts e fotos em tempo real para determinar quando um jovem se sente “estressado”, “derrotado”, “ansioso”, “nervoso”, “estúpido”, “fracassado”, “idiota” ou “um fracasso” era, na realidade, uma apresentação feita para um dos maiores bancos da Austrália.
Isso mesmo, um banco.
Ou seja, a informação sobre a situação emocional de adolescentes e jovens está sendo usada para fins econômicos, para o lucro de corporações.
Neste sentido, o vazamento do documento do Facebook e a exposição dos dados nele contidos não é apenas mais um alerta sobre a capacidade de coleta e processamento de dados na era moderna. É um importante indicador de que todo mundo precisa de privacidade se não quiser que suas maiores vulnerabilidades sejam exploradas para o único fim de vender.
Em um momento em que muitos alardeiam a era do fim da privacidade, como se fosse algo trivial, em que se ouve a cada roda de conversa que alguém não teme a coleta massiva de dados e a vigilância “porque não tem nada a esconder”, talvez esta notícia faça com que todos passem a entender que a privacidade não é importante apenas para os corruptos, bandidos ou ditos subversivos, mas para que qualquer cidadão esteja protegido do modelo de consumo atual: a qualquer custo, sem limites e sem ética, ao qual todos estamos sujeitos.
É hora de pararmos para questionar as maravilhas que os sistemas de “Big Data” farão pela humanidade, usando os nossos dados para nos entregar o que há de mais perfeito para nossa personalidade ou para encontrar a origem de nossas doenças, e começarmos a entender que uma sociedade orientada para o lucro obviamente usará os recursos tecnológicos em vasta medida para este único e exclusivo fim.
E isso é verdade, apesar do que dizem os “evangelistas” de tecnologia, profissionais altamente qualificados, pagos por grande empresas do setor de “coleta de dados e softwares de inteligência” para apregoar, com apoio de potente máquina de influência de mídia, as benesses que serão um dia obtidas com o modelo em que nós entregamos nossas informações mais pessoais sem nem sequer entrar na lógica do lucro e cobrar por isso.
Exploração comercial de crianças e adolescentes
O mais incrível é que a exploração de dados para fins de lucro não encontra limites nem para com crianças e adolescentes, que devem ser tratados como prioridade absoluta – como estabelece a Constituição brasileira.
Pouco importa se pelo menos eles deveriam ser poupados de determinadas práticas mercadológicas até que tenham maturidade para compreender as implicações de terem seus dados disponíveis para as áreas de publicidade e marketing (no mínimo) das companhias.
Além da sanha do mercado, essa falta de limites está relacionada também com a fragilidade regulatória sobre a coleta, processamento, uso e, claro, proteção de dados pessoais. No Brasil, por exemplo, e apesar dos esforços de diversas entidades, especialistas, acadêmicos e juristas (muitos deles reunidos na Coalizão Direitos na Rede) de ver aprovada uma Lei de Proteção de Dados Pessoais, a agenda política do país e alguns interesses escusos têm impedido que o tema se torne prioridade no Congresso Nacional.
Pelo contrário, o que mais se vê são projetos de lei baseados na violação da nossa privacidade para, supostamente, nos proteger dos males contemporâneos.
Uma legislação adequada à proteção de dados dos cidadãos e cidadãs – em especial, dos mais vulneráveis – é necessária e mais do que bem-vinda. Mas o debate ainda encontra os limites na cultura, nas tecnologias disponíveis e no conhecimento dos brasileiros sobre o assunto.
Para tentar sustentar este outro pilar para a tão necessária garantia do direito à privacidade e à autodeterminação em dados pessoais, organizações como o Intervozes, Saravá, Actantes, Encripta Tudo e Escola de Ativismo organizam anualmente um evento aberto para discutir, neste contexto de coleta massiva de dados e vigilância constante por Estados e empresas, temas como segurança, privacidade, criptografia, técnicas e soluções tecnológicas para a proteção de cidadãos e organizações. Trata-se da CryptoRave.
A edição deste ano começa nesta sexta-feira, 5 de maio, e segue até o sábado 6, às 19hs, na Casa do Povo, em São Paulo. Serão 24 horas diretas de palestras, debates, oficinas, jogos e apresentações artísticas para todos os perfis de pessoas – desde os mais geeks até o cidadão comum, que acaba de descobrir que tem muito a perder se não começar a se atentar para o tema.
Nosso lema deste ano é: "Dance como se ninguém estivesse olhando, porque ninguém precisa de mais depressão no mundo. Mas criptografe, porque todos estão”.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/567315-facebook-negocia-dados-de-milhoes-de-jovens-emocionalmente-vulneraveis)
Eis o artigo.
Há cerca de dois anos, eu e minha família recebemos a notícia de que minha mãe teria de enfrentar um tratamento para câncer. Dias depois de ter recebido a notícia, resolvi compartilhar pelo WhatsApp, com uma amiga querida que estava longe, o estado de ansiedade e apreensão pelo qual passava.
No dia seguinte, um e-mail na minha caixa de entrada informava sobre um remédio milagroso para a doença. Respirei fundo e apaguei. Coincidência ou não, o fato que é que a informação de que o assunto "câncer" estava no meu espectro de interesse poderia, sim, ser usada para fins de publicidade. A fragilidade, a vulnerabilidade, a insegurança, já descobriram os publicitários há alguns anos, são importantes impulsionadores de vendas.
Agora, se o caso ocorreu já há dois anos, por que compartilhá-lo agora?
Porque um documento interno do Facebook, que acaba de ser vazado pelo jornal Australian, revelou a capacidade da companhia de identificar quando um adolescente ou um jovem trabalhador se sente “inseguro”, “inútil” e precisa de um “impulso de autoestima” – tudo baseado num banco de dados de 1,9 milhão de estudantes de Ensino Fundamental, 1,5 milhão do Ensino Médio e 3 milhões de jovens trabalhadores.
Quem acompanhou, no Dia Mundial da Saúde, os diversos alertas sobre depressão e como a doença é hoje a principal causa de problemas de saúde e invalidez no mundo, pode pensar: que ótimo! Esta informação pode ser usada para gerar algum tipo de acompanhamento, indicação de profissional, sugerir que o adolescente busque ajuda.
Não. Veja bem.
O documento em que a maior rede social do mundo se gabava de poder monitorar posts e fotos em tempo real para determinar quando um jovem se sente “estressado”, “derrotado”, “ansioso”, “nervoso”, “estúpido”, “fracassado”, “idiota” ou “um fracasso” era, na realidade, uma apresentação feita para um dos maiores bancos da Austrália.
Isso mesmo, um banco.
Ou seja, a informação sobre a situação emocional de adolescentes e jovens está sendo usada para fins econômicos, para o lucro de corporações.
Neste sentido, o vazamento do documento do Facebook e a exposição dos dados nele contidos não é apenas mais um alerta sobre a capacidade de coleta e processamento de dados na era moderna. É um importante indicador de que todo mundo precisa de privacidade se não quiser que suas maiores vulnerabilidades sejam exploradas para o único fim de vender.
Em um momento em que muitos alardeiam a era do fim da privacidade, como se fosse algo trivial, em que se ouve a cada roda de conversa que alguém não teme a coleta massiva de dados e a vigilância “porque não tem nada a esconder”, talvez esta notícia faça com que todos passem a entender que a privacidade não é importante apenas para os corruptos, bandidos ou ditos subversivos, mas para que qualquer cidadão esteja protegido do modelo de consumo atual: a qualquer custo, sem limites e sem ética, ao qual todos estamos sujeitos.
É hora de pararmos para questionar as maravilhas que os sistemas de “Big Data” farão pela humanidade, usando os nossos dados para nos entregar o que há de mais perfeito para nossa personalidade ou para encontrar a origem de nossas doenças, e começarmos a entender que uma sociedade orientada para o lucro obviamente usará os recursos tecnológicos em vasta medida para este único e exclusivo fim.
E isso é verdade, apesar do que dizem os “evangelistas” de tecnologia, profissionais altamente qualificados, pagos por grande empresas do setor de “coleta de dados e softwares de inteligência” para apregoar, com apoio de potente máquina de influência de mídia, as benesses que serão um dia obtidas com o modelo em que nós entregamos nossas informações mais pessoais sem nem sequer entrar na lógica do lucro e cobrar por isso.
Exploração comercial de crianças e adolescentes
O mais incrível é que a exploração de dados para fins de lucro não encontra limites nem para com crianças e adolescentes, que devem ser tratados como prioridade absoluta – como estabelece a Constituição brasileira.
Pouco importa se pelo menos eles deveriam ser poupados de determinadas práticas mercadológicas até que tenham maturidade para compreender as implicações de terem seus dados disponíveis para as áreas de publicidade e marketing (no mínimo) das companhias.
Além da sanha do mercado, essa falta de limites está relacionada também com a fragilidade regulatória sobre a coleta, processamento, uso e, claro, proteção de dados pessoais. No Brasil, por exemplo, e apesar dos esforços de diversas entidades, especialistas, acadêmicos e juristas (muitos deles reunidos na Coalizão Direitos na Rede) de ver aprovada uma Lei de Proteção de Dados Pessoais, a agenda política do país e alguns interesses escusos têm impedido que o tema se torne prioridade no Congresso Nacional.
Pelo contrário, o que mais se vê são projetos de lei baseados na violação da nossa privacidade para, supostamente, nos proteger dos males contemporâneos.
Uma legislação adequada à proteção de dados dos cidadãos e cidadãs – em especial, dos mais vulneráveis – é necessária e mais do que bem-vinda. Mas o debate ainda encontra os limites na cultura, nas tecnologias disponíveis e no conhecimento dos brasileiros sobre o assunto.
Para tentar sustentar este outro pilar para a tão necessária garantia do direito à privacidade e à autodeterminação em dados pessoais, organizações como o Intervozes, Saravá, Actantes, Encripta Tudo e Escola de Ativismo organizam anualmente um evento aberto para discutir, neste contexto de coleta massiva de dados e vigilância constante por Estados e empresas, temas como segurança, privacidade, criptografia, técnicas e soluções tecnológicas para a proteção de cidadãos e organizações. Trata-se da CryptoRave.
A edição deste ano começa nesta sexta-feira, 5 de maio, e segue até o sábado 6, às 19hs, na Casa do Povo, em São Paulo. Serão 24 horas diretas de palestras, debates, oficinas, jogos e apresentações artísticas para todos os perfis de pessoas – desde os mais geeks até o cidadão comum, que acaba de descobrir que tem muito a perder se não começar a se atentar para o tema.
Nosso lema deste ano é: "Dance como se ninguém estivesse olhando, porque ninguém precisa de mais depressão no mundo. Mas criptografe, porque todos estão”.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/567315-facebook-negocia-dados-de-milhoes-de-jovens-emocionalmente-vulneraveis)
Tecnologia pode criar elite de super-humanos e massa de 'inúteis'
Os avanços em tecnologia, genética e inteligência artificial podem transformar a desigualdade econômica em desigualdade biológica? O autor e historiador Yuval Noah Harari se fez essa pergunta.
Professor de História na Universidade Hebraica de Jerusalém, ele estuda o passado para olhar para o futuro. Autor de dois best-sellers, Sapiens: Uma breve história da humanidade (editora L&PM)e Homo Deus: Uma breve história do amanhã (editora Companhia das Letras), Harari foi entrevistado pelo programa The Inquiry, da BBC, 06-05-2017, sobre a possibilidade de a tecnologia alterar o mundo e a espécie humana.
Eis o depoimento.
"A desigualdade existe há no mínimo 30 mil anos. Os caçadores-coletores eram mais igualitários do que as sociedades subsequentes. Eles tinham poucas propriedades, e propriedade é um pré-requisito para desigualdade de longo prazo. Mas até eles tinham hierarquias. Nos séculos 19 e 20, porém, algo mudou. Igualdade tornou-se um valor dominante na cultura humana em quase todo o mundo. Por quê? Foi em parte devido à ascensão de novas ideologias como o humanismo, o liberalismo e o socialismo.
Mas também se tratava de mudanças tecnológicas e econômicas - que estavam ligadas a essas novas ideologias, claro.
De repente, a elite começou a precisar de um grande número de pessoas saudáveis e educadas para servir como soldados nos exércitos e como trabalhadores nas fábricas. Os governos não forneciam educação e vacinação porque eram bondosos. Eles precisavam que as massas fossem úteis. Mas agora isso está mudando novamente.
Os melhores exércitos da atualidade demandam poucos soldados, mas altamente treinados e com equipamentos de alta tecnologia.
As fábricas também estão cada vez mais automatizadas.
Esse é um dos motivos pelos quais poderemos - num futuro não tão distante - ver a criação das sociedades mais desiguais que já existiram na história humana. E há outros motivos para temer esse futuro.
Com rápidos avanços em biotecnologia e bioengenharia, nós podemos chegar a um ponto em que, pela primeira vez na história, desigualdade econômica se torne desigualdade biológica.
Até agora, humanos tinham controle sobre o mundo ao seu redor. Eles podiam controlar rios, florestas, animais e plantas. Mas eles tinham muito pouco controle do mundo dentro deles.
Eles tinham capacidade limitada de manipular seus próprios corpos, cérebros e mentes. Eles não podiam evitar a morte. Talvez esse não seja sempre o caso.
Há duas maneiras principais de aprimorar humanos: ou você altera algo em sua estrutura biológica por meio de alteração de seu DNA, ou - o jeito mais radical - você combina partes orgânicas e inorgânicas, talvez conectando diretamente cérebros e computadores.
Os ricos - ao adquirir tais melhorias biológicas - poderiam se tornar literalmente melhores que os demais: mais inteligentes, saudáveis e com vidas mais longas. Nesse ponto, será fácil que essa classe "aprimorada" tenha poder. Pense desta forma: no passado, a nobreza tentou convencer as massas que eles eram superiores a todos os outros e que deveriam deter o poder. No futuro que estou descrevendo, eles realmente serão superiores às massas.
E como eles serão melhores que nós, fará mais sentido ceder a eles o poder e a prerrogativa de tomada de decisões.
Podemos também constatar que a ascensão da inteligência artificial - e não apenas automação - pode significar que grandes contingentes de pessoas, em todos os tipos de emprego, simplesmente perderão sua utilidade econômica.
Os dois processos casados - aprimoramento humano e ascensão de inteligência artificial - podem resultar na separação da humanidade em uma pequena classe de super-humanos e uma gigantesca subclasse de pessoas "inúteis".
Eis um exemplo concreto: pense no mercado de transporte.
Há centenas de motoristas de caminhões, táxis e ônibus no Reino Unido. Cada um deles comanda uma pequena parte do mercado de transporte, e todos ganham poder político em função disso. Eles podem se sindicalizar e, se o governo faz algo que não gostam, eles podem fazer uma greve e travar todo o sistema.
Agora, avance 30 anos no tempo. Todos os veículos conduzem a si próprios e uma corporação controla o algoritmo que comanda todo o mercado de transporte. Todo o poder econômico e político previamente compartilhado por milhares agora está nas mãos de uma única corporação.
Depois que você perde sua importância econômica, o Estado perde ao menos um pouco do incentivo de investir em saúde, educação e bem-estar. Seu futuro dependeria da boa vontade de uma pequena elite. Talvez haja boa vontade mas, em tempo de de crise - como uma catástrofe climática -, seria muito fácil te descartar.
Tecnologia não é determinista. Ainda podemos fazer algo para lidar com tudo isso. Mas acho que deveríamos estar cientes de que descrevo um futuro possível. Se não gostamos dessa possibilidade, precisamos agir antes que seja tarde.
Existe mais um passo possível no caminho rumo à desigualdade previamente inimaginável. A curto prazo, a autoridade pode se centrar em uma pequena elite que detenha e controle os algoritmos e os dados que os alimentam. A longo prazo, porém, a autoridade poderá se transferir completamente dos humanos aos algoritmos.
Quando uma inteligência artificial for mais inteligente que nós, toda a humanidade poderá se tornar inútil.
O que aconteceria depois disso? Não temos nenhuma ideia - literalmente não podemos imaginar. Como poderíamos? Estamos falando de uma inteligência muito maior do que a que a humanidade possui."
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/567378-tecnologia-pode-criar-elite-de-super-humanos-e-massa-de-inuteis-diz-autor-de-best-seller)
Professor de História na Universidade Hebraica de Jerusalém, ele estuda o passado para olhar para o futuro. Autor de dois best-sellers, Sapiens: Uma breve história da humanidade (editora L&PM)e Homo Deus: Uma breve história do amanhã (editora Companhia das Letras), Harari foi entrevistado pelo programa The Inquiry, da BBC, 06-05-2017, sobre a possibilidade de a tecnologia alterar o mundo e a espécie humana.
Eis o depoimento.
"A desigualdade existe há no mínimo 30 mil anos. Os caçadores-coletores eram mais igualitários do que as sociedades subsequentes. Eles tinham poucas propriedades, e propriedade é um pré-requisito para desigualdade de longo prazo. Mas até eles tinham hierarquias. Nos séculos 19 e 20, porém, algo mudou. Igualdade tornou-se um valor dominante na cultura humana em quase todo o mundo. Por quê? Foi em parte devido à ascensão de novas ideologias como o humanismo, o liberalismo e o socialismo.
Mas também se tratava de mudanças tecnológicas e econômicas - que estavam ligadas a essas novas ideologias, claro.
De repente, a elite começou a precisar de um grande número de pessoas saudáveis e educadas para servir como soldados nos exércitos e como trabalhadores nas fábricas. Os governos não forneciam educação e vacinação porque eram bondosos. Eles precisavam que as massas fossem úteis. Mas agora isso está mudando novamente.
Os melhores exércitos da atualidade demandam poucos soldados, mas altamente treinados e com equipamentos de alta tecnologia.
As fábricas também estão cada vez mais automatizadas.
Esse é um dos motivos pelos quais poderemos - num futuro não tão distante - ver a criação das sociedades mais desiguais que já existiram na história humana. E há outros motivos para temer esse futuro.
Com rápidos avanços em biotecnologia e bioengenharia, nós podemos chegar a um ponto em que, pela primeira vez na história, desigualdade econômica se torne desigualdade biológica.
Até agora, humanos tinham controle sobre o mundo ao seu redor. Eles podiam controlar rios, florestas, animais e plantas. Mas eles tinham muito pouco controle do mundo dentro deles.
Eles tinham capacidade limitada de manipular seus próprios corpos, cérebros e mentes. Eles não podiam evitar a morte. Talvez esse não seja sempre o caso.
Há duas maneiras principais de aprimorar humanos: ou você altera algo em sua estrutura biológica por meio de alteração de seu DNA, ou - o jeito mais radical - você combina partes orgânicas e inorgânicas, talvez conectando diretamente cérebros e computadores.
Os ricos - ao adquirir tais melhorias biológicas - poderiam se tornar literalmente melhores que os demais: mais inteligentes, saudáveis e com vidas mais longas. Nesse ponto, será fácil que essa classe "aprimorada" tenha poder. Pense desta forma: no passado, a nobreza tentou convencer as massas que eles eram superiores a todos os outros e que deveriam deter o poder. No futuro que estou descrevendo, eles realmente serão superiores às massas.
E como eles serão melhores que nós, fará mais sentido ceder a eles o poder e a prerrogativa de tomada de decisões.
Podemos também constatar que a ascensão da inteligência artificial - e não apenas automação - pode significar que grandes contingentes de pessoas, em todos os tipos de emprego, simplesmente perderão sua utilidade econômica.
Os dois processos casados - aprimoramento humano e ascensão de inteligência artificial - podem resultar na separação da humanidade em uma pequena classe de super-humanos e uma gigantesca subclasse de pessoas "inúteis".
Eis um exemplo concreto: pense no mercado de transporte.
Há centenas de motoristas de caminhões, táxis e ônibus no Reino Unido. Cada um deles comanda uma pequena parte do mercado de transporte, e todos ganham poder político em função disso. Eles podem se sindicalizar e, se o governo faz algo que não gostam, eles podem fazer uma greve e travar todo o sistema.
Agora, avance 30 anos no tempo. Todos os veículos conduzem a si próprios e uma corporação controla o algoritmo que comanda todo o mercado de transporte. Todo o poder econômico e político previamente compartilhado por milhares agora está nas mãos de uma única corporação.
Depois que você perde sua importância econômica, o Estado perde ao menos um pouco do incentivo de investir em saúde, educação e bem-estar. Seu futuro dependeria da boa vontade de uma pequena elite. Talvez haja boa vontade mas, em tempo de de crise - como uma catástrofe climática -, seria muito fácil te descartar.
Tecnologia não é determinista. Ainda podemos fazer algo para lidar com tudo isso. Mas acho que deveríamos estar cientes de que descrevo um futuro possível. Se não gostamos dessa possibilidade, precisamos agir antes que seja tarde.
Existe mais um passo possível no caminho rumo à desigualdade previamente inimaginável. A curto prazo, a autoridade pode se centrar em uma pequena elite que detenha e controle os algoritmos e os dados que os alimentam. A longo prazo, porém, a autoridade poderá se transferir completamente dos humanos aos algoritmos.
Quando uma inteligência artificial for mais inteligente que nós, toda a humanidade poderá se tornar inútil.
O que aconteceria depois disso? Não temos nenhuma ideia - literalmente não podemos imaginar. Como poderíamos? Estamos falando de uma inteligência muito maior do que a que a humanidade possui."
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/567378-tecnologia-pode-criar-elite-de-super-humanos-e-massa-de-inuteis-diz-autor-de-best-seller)
Novo número da Revista Espaço Acadêmico
Revista Espaço Acadêmico acaba de publicar o número mais recente em
http://periodicos.uem.br/ojs/i ndex.php/EspacoAcademico. Convidamos a navegar
no sumário da revista para acessar os artigos e itens de interesse.
Agradecemos seu interesse em nosso trabalho,
Antonio Ozaí da Silva
UEM, Maringá
Fone 44 - 3011-4288
aosilva@uem.br
Revista Espaço Acadêmico
v. 17, n. 192 (2017): Revista Espaço Acadêmico, n. 192, maio de 2017
Sumário
http://periodicos.uem.br/ojs/i ndex.php/EspacoAcademico/issue /view/1209
DOSSIÊ: CENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO RUSSA (Orgs.: Antonio Ozaí da Silva,
Josimar Priori e Renato Nunes Bittencourt)
--------
A Revolução Russa e os militares: um diálogo com Lênin (01-16)
Paulo R. Ribeiro Cunha
agroecologia
--------
Feira Agroecológica da ARPASUL, Pelotas, RS: produção, segurança
alimentar e comercialização, um estudo de caso (17-25)
André Luiz Radünz, Amanda Fabres Oliveira Radunz
ciência política
--------
Estado, direitos do homem, constituição republicana e a construção de
uma ‘federação de povos livres’: À Paz Perpétua de I. Kant (26-37)
Raquel Kritsch
direito
--------
A importância do direito como tema das redações e a efetividade do
direito à educação (38-49)
Francisco Antonio Morilhe Leonardo
economia política
--------
A formação metodológica a partir do debate historicismo versus
universalismo (50-58)
Tais Regina da Silva Ferreira, Paula da Silva Esquerdo
educação
--------
Formações continuadas em educação ambiental: características e
limitações (59-68)
Junior Cesar Mota
Reflexões sobre a importância da História e Filosofia da Ciência no
Ensino de Ciências (69-77)
Ana Paula de Melo, Dalva Cassie Rocha
filosofia
--------
Ambiente ecológico e mundo vivido: aproximações possíveis entre a
fenomenologia de Merleau-Ponty e a Filosofia Ecológica (78-85)
Sabrina Balthazar Ramos Ferreira
filosofia política
--------
Truculência policial e desumanidade da segurança pública na falência
estatal (86-96)
Renato Nunes Bittencourt
geografia
--------
O diálogo entre a geografia e a arte: aproximações possíveis a partir de
um categorial geográfico (97-108)
Danilo Henrique Martins
história
--------
Quando o deus da guerra era uma mulher: Inanna/Ishtar a deusa guerreira da
Antiga Mesopotâmia (109-118)
Simone Aparecida Dupla
letras
--------
O que é que este autor tem? O romance entre presságios, maledicências e
profanações (119-127)
Ederson Luís Silveira
literatura
--------
A formação do professor para o trabalho com a literatura: uma proposta de
formação continuada (128-141)
Ginete Cavalcante Nunes
sociologia
--------
Agricultura familiar: perspectivas e desafios para o desenvolvimento rural
sustentável (142-154)
Luís Felipe Perdigão Castro
DOCUMENTO (Memória)
--------
Memorial (155-193)
Antonio Ozaí da Silva
resenhas & livros
--------
O Crescente lembrado: Islã e nacionalismo na Península Ibérica (194-196)
Felipe Freitas de Souza
POMAR, Valter. A metamorfose. Programa e estratégia petista: 1980-2016.
São Paulo: Editora Página 13, 2016 (2ª. Ed.), 296p. (197)
REA Editor
CESAR, Rodrigo. (Org.) Wladimir Pomar: textos e contextos. São Paulo:
Editora Página 13, 2016, 356 p. (198)
REA Editor
http://periodicos.uem.br/ojs/i
no sumário da revista para acessar os artigos e itens de interesse.
Agradecemos seu interesse em nosso trabalho,
Antonio Ozaí da Silva
UEM, Maringá
Fone 44 - 3011-4288
aosilva@uem.br
Revista Espaço Acadêmico
v. 17, n. 192 (2017): Revista Espaço Acadêmico, n. 192, maio de 2017
Sumário
http://periodicos.uem.br/ojs/i
DOSSIÊ: CENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO RUSSA (Orgs.: Antonio Ozaí da Silva,
Josimar Priori e Renato Nunes Bittencourt)
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A Revolução Russa e os militares: um diálogo com Lênin (01-16)
Paulo R. Ribeiro Cunha
agroecologia
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Feira Agroecológica da ARPASUL, Pelotas, RS: produção, segurança
alimentar e comercialização, um estudo de caso (17-25)
André Luiz Radünz, Amanda Fabres Oliveira Radunz
ciência política
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Estado, direitos do homem, constituição republicana e a construção de
uma ‘federação de povos livres’: À Paz Perpétua de I. Kant (26-37)
Raquel Kritsch
direito
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A importância do direito como tema das redações e a efetividade do
direito à educação (38-49)
Francisco Antonio Morilhe Leonardo
economia política
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A formação metodológica a partir do debate historicismo versus
universalismo (50-58)
Tais Regina da Silva Ferreira, Paula da Silva Esquerdo
educação
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Formações continuadas em educação ambiental: características e
limitações (59-68)
Junior Cesar Mota
Reflexões sobre a importância da História e Filosofia da Ciência no
Ensino de Ciências (69-77)
Ana Paula de Melo, Dalva Cassie Rocha
filosofia
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Ambiente ecológico e mundo vivido: aproximações possíveis entre a
fenomenologia de Merleau-Ponty e a Filosofia Ecológica (78-85)
Sabrina Balthazar Ramos Ferreira
filosofia política
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Truculência policial e desumanidade da segurança pública na falência
estatal (86-96)
Renato Nunes Bittencourt
geografia
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O diálogo entre a geografia e a arte: aproximações possíveis a partir de
um categorial geográfico (97-108)
Danilo Henrique Martins
história
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Quando o deus da guerra era uma mulher: Inanna/Ishtar a deusa guerreira da
Antiga Mesopotâmia (109-118)
Simone Aparecida Dupla
letras
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O que é que este autor tem? O romance entre presságios, maledicências e
profanações (119-127)
Ederson Luís Silveira
literatura
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A formação do professor para o trabalho com a literatura: uma proposta de
formação continuada (128-141)
Ginete Cavalcante Nunes
sociologia
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Agricultura familiar: perspectivas e desafios para o desenvolvimento rural
sustentável (142-154)
Luís Felipe Perdigão Castro
DOCUMENTO (Memória)
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Memorial (155-193)
Antonio Ozaí da Silva
resenhas & livros
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O Crescente lembrado: Islã e nacionalismo na Península Ibérica (194-196)
Felipe Freitas de Souza
POMAR, Valter. A metamorfose. Programa e estratégia petista: 1980-2016.
São Paulo: Editora Página 13, 2016 (2ª. Ed.), 296p. (197)
REA Editor
CESAR, Rodrigo. (Org.) Wladimir Pomar: textos e contextos. São Paulo:
Editora Página 13, 2016, 356 p. (198)
REA Editor
sábado, 6 de maio de 2017
Previdência: Com a fé em Deus e o pé na cova.
Por Mauro Santayana
Com a substituição da CLT pela CPPT - a Consolidação dos Privilégios de Previdência e Trabalho, o Brasil vai cumprindo, pouco a pouco, o ideal clássico e fascista de sua transformação em uma pseudo Nova Roma.
A invasão do parlamento por carcereiros, mostra o empenho de certos estratos da plutocracia de não ficar de fora do trem da alegria previdenciário que, covardemente, o sistema assegura aos servidores armados do estado e aos ligados ao poder de "justiça", ambos já beneficiados por altíssimos salários e toda classe de benesses, e continuará negando cada vez mais aos cidadãos comuns, de segunda classe, aprofundando a falta de isonomia e a desigualdade de destino que caracteriza, desde o nascimento, a sociedade brasileira.
Com a substituição da CLT pela CPPT - a Consolidação dos Privilégios de Previdência e Trabalho, o Brasil vai cumprindo, pouco a pouco, o ideal clássico e fascista de sua transformação em uma pseudo Nova Roma.
A invasão do parlamento por carcereiros, mostra o empenho de certos estratos da plutocracia de não ficar de fora do trem da alegria previdenciário que, covardemente, o sistema assegura aos servidores armados do estado e aos ligados ao poder de "justiça", ambos já beneficiados por altíssimos salários e toda classe de benesses, e continuará negando cada vez mais aos cidadãos comuns, de segunda classe, aprofundando a falta de isonomia e a desigualdade de destino que caracteriza, desde o nascimento, a sociedade brasileira.
Daqui pra frente, estaremos cada vez mais divididos,
quanto ao futuro e às condições de vida, entre os centuriões, os
acusadores e os juízes, a plebe e os servos feudais dos sonhos do
Deputado Nilson Leitão, do PSDB do Mato Grosso, que, trabalhando por até
12 horas por 24, 18 dias ininterruptos, em troca apenas de teto e
comida, serão rapidamente reduzidos à condição de escravos, sendo
expulsos dos limites da propriedade quando seus braços já não aguentarem
o batente, rumo à miséria ou ao cemitério.
Se tivessem um mínimo de coerência e vergonha, os deputados e senadores que estão aprovando essa reforma deveriam renunciar às suas aposentadorias, abraçando e adotando, para si mesmos, o modelo que pretendem impor à maioria dos brasileiros, que poderíamos chamar, "tout court", de FÉ EM DEUS E PÉ NA COVA.
Enquanto isso, a mídia que serve ao governo, bate, "didaticamente", ao modo do professor Goebbels, e dos técnicos do Ministério da Verdade de "1984", nos dados do déficit da Previdência, negando-se deliberadamente a informar à população que a maior parte da sangria do orçamento público é causada pelos juros mais altos do mundo, pagos a bancos particulares que lucram bilhões de reais - confiram os balanços e os jurômetros - por trimestre, em um país mergulhado no caos institucional, na paralisia e sucateamento - quando não na simples entrega aos estrangeiros, a preço de banana, - de obras e projetos importantíssimos, e no desemprego.
Se tivessem um mínimo de coerência e vergonha, os deputados e senadores que estão aprovando essa reforma deveriam renunciar às suas aposentadorias, abraçando e adotando, para si mesmos, o modelo que pretendem impor à maioria dos brasileiros, que poderíamos chamar, "tout court", de FÉ EM DEUS E PÉ NA COVA.
Enquanto isso, a mídia que serve ao governo, bate, "didaticamente", ao modo do professor Goebbels, e dos técnicos do Ministério da Verdade de "1984", nos dados do déficit da Previdência, negando-se deliberadamente a informar à população que a maior parte da sangria do orçamento público é causada pelos juros mais altos do mundo, pagos a bancos particulares que lucram bilhões de reais - confiram os balanços e os jurômetros - por trimestre, em um país mergulhado no caos institucional, na paralisia e sucateamento - quando não na simples entrega aos estrangeiros, a preço de banana, - de obras e projetos importantíssimos, e no desemprego.
(fonte: http://www.maurosantayana.com/2017/05/previdencia-com-fe-em-deus-e-o-pe-na.html)
Trump a caminho da guerra nuclear?
Noam Chomsky alerta: EUA desprezam todas as
chances de acordo, em conflitos globais explosivos. Que loucura fará o
presidente, quando seu capital político se esgotar?
Entrevista a Dan Falcone | Tradução: Inês Castilho
A proliferação nuclear e as mudanças climáticas são hoje motivo de preocupação aguda, levada ao extremo em razão do governo de Donald Trump, nos EUA. Nesta entrevista exclusiva para a Truthout, o intelectual dissidente Noam Chomsky debate a cobertura da mídia sobre esses temas, ressaltando as tensões dos EUA com a Rússia, o Irã e a Coreia do Norte, bem como o recente ataque aéreo dos EUA a uma base da Força Aérea da Síria.
Como você vê a angustiante falta de debate, na mídia hegemônica, sobre mudanças climáticas e proliferação nuclear?
Se você quiser aprender sobre armas nucleares e a razão pela qual esse tema não está sendo tratado, dê uma olhada na edição de 1º de março do Bulletin of the Atomic Scientists (Boletim dos Cientistas Atômicos), onde há um artigo absolutamente espetacular escrito por dois verdadeiros experts – Hans M. Kristensen e Ted Postol, do MIT (Massachussets Institute of Technology). Eles discutem os novos sistemas de direcionamento inventados no Programa de Modernização de Obama, agora em plena escalada com Trump, e que são extremamente perigosos. Afirmam, com base em informações disponíveis, que os sistemas de mísseis dos EUA foram de tal forma aperfeiçoados que agora são capazes de aniquilar instantaneamente o efeito de dissuasão da Rússia.
É um enorme excesso, que acaba com a estabilidade nuclear – e, claro, os russos sabem disso. A implicação é que, se em algum momento os EUA sentirem-se ameaçados, serão levados a fazer um ataque preventivo – porque do contrário estão mortos, entende? E isso significa que todos estaremos mortos. Este é o fato mais importante de que se tem notícia em não sei quanto tempo.
O New York Times e outras mídias mainstream mantiveram sua prática convencional de enaltecer o último ataque do Trump contra a Síria, mas continuaram lamentando-se porque essa doutrina de política exterior é improvisada. De certa forma, considerando as nomeações do seu gabinete, ele faz lembrar Bush filho, que escolheu alvos indefesos. Eles alegam estar lutando contra o terrorismo e a proliferação nuclear, mas parecem estar simplesmente piorando os problemas.
Eles com certeza não estão lutando contra a proliferação nuclear. Bem, se quiserem mesmo fazer isso, há atitudes que podem tomar. O Irã, que na verdade nunca foi um problema, poderia ter sido resolvido há anos. Há um livro interessante do ex-embaixador brasileiro Celso Amorim. Em 2010, ele realizou um esforço conjunto com a Turquia para solucionar a questão do Irã. Ninguém, além dos Estados Unidos, considera que seja realmente um problema.
Aqui nos EUA, é a pior ameaça da história da humanidade. Mas Brasil e Turquia conseguiram um acordo com o Irã em que, basicamente, o país entregaria seu urânio (pouco) enriquecido para a Turquia armazenar, e em troca as potências ocidentais (isto é, os EUA) lhe forneceriam tubos de gelo para usar em seus reatores de uso medicinal. Isso teria liquidado o assunto. Foi imediatamente rejeitado por Obama e Hillary Clinton. E a razão principal foi que não queriam ver ninguém mais envolvido no assunto. Supostamente, os norte-americanos é que deveríamos lidar com o problema – a mas isso não foi dito. A razão ostensiva foi de que Hillary estava prestes a pressionar o Conselho de Segurança da ONU para adotar novas sanções contra o Irã, e não queria que essa iniciativa fosse minada – o que mostra uma atitude voltada para a proliferação. O mesmo está acontecendo com a Coreia do Norte. [Recentemente] anunciaram mais ações ofensivas contra a Coreia do Norte.
Misseis navais vão elevar o nível [do perigo], [mas] há uma opção diplomática? Sim, há. A Coreia do Norte e a China propuseram o que parece ser uma opção muito inteligente. A Coreia do Norte deveria acabar com o desenvolvimento de armas nucleares – manter o estoque como está, não fabricar mais – e, em troca, os EUA acabariam com essas manobras militares hostis na fronteira da Coreia do Norte – bombardeiros B52 com capacidade nuclear e por aí vai. Os EUA rejeitaram imediatamente a oferta. E a imprensa e todo o mundo disse [quase nada]…
Esse programa de modernização é um exemplo muito claro de como o que importa não é a segurança. Não há nenhum ganho em segurança, mas destruição maciça da capacidade de dissuasão do adversário. A única consequência disso é provocar o risco de um ataque preventivo. E um ataque preventivo leva a um mundo de inverno nuclear.
Sem contar que temos uma presença militar lá. Lembro que uma vez você disse algo sobre como a dissuasão não era para as armas nucleares, mas para a militarização da Coreia do Norte apontada para Seul e as Forças Armadas dos EUA.
Se os EUA atacassem a Coreia do Norte, com certeza destruiriam aquele país – mas provavelmente a Coreia do Sul também seria exterminada. Eles concentraram artilharia apontada para Seul, e não há nada que se possa fazer respeito.
Quanto às relações dos EUA com a Síria, há soluções políticas? A última vez que Medea Benjamin escreveu no Democracy Now!, ela dizia como há opções políticas que nunca foram tentadas para os EUA e a Síria.
Houve sugestões em 2012. O embaixador russo nas Nações Unidas fez algumas propostas para um acordo político no qual Hafez Assad seria lentamente removido. O Ocidente a desconsiderou imediatamente, e não sabemos se ela era real, porque não veio do Kremlin, e era informal. Mas o fato é que todas essas propostas são imediatamente refutadas. E simplesmente não se sabe se são verdadeiras.
É um pouco como o 11 de Setembro. Afinal, o Talibã sinalizou que poderia extraditar Osama bin Laden, mas os EUA não lhe deram ouvidos. Tinham de usar a força. Bem, uma das razões é que o Talibã pediu provas, e um dos problemas é que não apresentaram evidência alguma.
Como as mudanças climáticas e as ciências climáticas relacionam-se com a questão das armas nucleares e sua capacidade destrutiva?
Uma das poucas instituições preocupadas com as mudanças climáticas é o Pentágono. Eles terão problemas, por exemplo, com a Marinha – a Base Naval de Norfolk será inundada quando o nível do mar aumentar, e a elevação do nível do mar e outros sistemas climáticos perigosos irão causar enormes ondas de refugiados.
Dê uma olhada em Bangladesh. É uma planície costeira – e algumas centenas de milhões de pessoas. O que eles farão, se as coisas piorarem? Você sabe?
Com a chegada de Rex Tillerson ao posto de secretário de Estado de Trump, as coisas parecem ter se “normalizado”, no governo dos EUA. Que perigos ele representa para o planeta?
É incrível o que está acontecendo, e o mais espantoso é que ninguém fala disso. Neste momento – desde 8 de novembro – os Estados Unidos estão literalmente sozinhos no mundo – primeiro, na sua recusa em unir esforços para fazer algo a respeito do aquecimento global. Mas, pior ainda, empenhados em agravar a situação. Em toda parte, está-se tentando fazer alguma coisa. Só os Estados Unidos esforçam-se para destruir — e não só Trump, mas todo o Partido Republicano. É difícil encontrar palavras para descrever isso. Não há informações. Não há debate.
Refiro-me ao mais importante evento de 8 de novembro – do qual tenho falado algumas vezes, mas ninguém ouve. Como devem saber, havia uma conferência internacional em Marrocos, em sequência à conferência de Paris – para dar alguma substância aos acordos de Paris. Mas no dia 8 de novembro [dia da vitória de Trump], a conferência foi interrompida. A questão era, nós sobreviveremos? Não se disse uma única palavra sobre isso. Mais espantoso ainda, o mundo espera que a China venha socorrê-lo. Os EUA são a máquina destrutiva que está arruinando tudo. O mundo tem esperança de que a China irá, de alguma maneira, salvá-lo.
O que isso — o mundo esperar o apoio da China — significa em relação ao establishment norte-americano?
Significa que os Estados Unidos são com certeza o país mais perigoso do mundo.
Isso não é positivo para a democracia — ou a esperança em relação a ela.
Não tem muito a ver com democracia, porque uma democracia mal e mal funciona sob um sistema neoliberal. A maioria da população está desconectada dos temas relevantes. Há uma retórica apaixonada sobre como “não podemos cruzar os braços”, enquando o país usa armas para matar civis inocentes.
Neste momento, os Estados Unidos estão apoiando ataques militares da Arábia Saudita ao Iêmen e uma política de escassez – uma política de fome – que irá matar dezenas de milhares de pessoas; na verdade, já está matando. Mas alguém fala sobre isso? Só Gareth Porter e mais uma ou outra pessoa escrevem [sobre isso].
O que você pensa sobre a direção em que caminha o governoTrump, e como seria sua política exterior? É imprevisível, como ele? Ou segue uma trajetória?
Penso que a política externa não é uma preocupação deles, na verdade. Assim como o ataque à Síria: não significou quase nada. Alvejaram uma base aérea vazia. Um dia depois, ela estava funcionando novamente. Aviões voavam a partir dela. Foi um show para o público interno, você sabe: vejam como sou forte; não sou como Obama. E então tudo volta ao “normal” – penso que, de fato, o que acontece é o orçamento d[o presidente da Câmara], Paul Ryan e seus programas legislativos.
Tudo isso está ocorrendo sob a cobertura das extravagâncias midiáticas de Trump e seu secretário de Imprensa, Sean Spicer. Eles caras fazem uma coisa após outra para captar a atenção da mídia. E funciona. Ligue na CNN e é isso que se ouve, enquanto são feitas mudanças legislativas que destroem tudo o que o governo tem de utilidade para a maioria das pessoas. Penso que Paul Ryan é a pessoa mais perigoda desse governo. Ele sabe o que está fazendo — e é muito sistemático. Presumo que está por trás das nomeações do gabinete, e é incrível como todas elas são a escolha de alguém devotado à destruição de uma política pública — ou para garantir que não funcione. Colocou-se muito foco no EPA (Agência de Proteção Ambiental), o que já é bem ruim, mas os programas ambientais mais significativos estão no departamento de Energia — e serão propositalmente desmontados.
Quer dizer que Trump nomeia pessoas deliberadamente escolhidas para minar as políticas públicas?
Sim, todos os seus secretários: Educação, Ambiente, Trabalho – cada um é escolhido para minar todos os aspectos do governo que se relacionem a qualquer apoio à maioria das pessoas e não beneficiem os super-ricos. E isso de forma absolutamente sistemática. A pergunta que interessa é: por quando tempo o eleitorado de Trump vai entrar nesse jogo de trapaças. Eles estão levando na cara mais do que ninguém –m as ainda têm fé no seu homem. Se isso sucumbir – o que, suponho, mais cedo ou mais tarde vai acontecer – o governo Trump terá de fazer alguma coisa bem radical para tentar manter o controle.
Qual a atitude da Rússia quando ao ataque à Síria, a seu ver? Eles acham que foi um teatro?
Bem, há algumas questões interessantes aqui. Pode-se buscar a razão por que Assad teria ficado bem louco, para provocar uma intervenção dos EUA quando está vencendo a guerra. A pior coisa para ele seria atrair os Estados Unidos pra dentro do conflito. Por que iria lançar um ataque com armas químicas? Pode-se imaginar que um ditador com interesses apenas locais venha a fazer isso, pensando ter sinal verde para tanto. Mas por que os russos permitiriam? Não faz nenhum sentido. E há de fato questões sobre o que aconteceu. Algumas pessoas que merecem muita credibilidade – não tipos conspirativisas, mas gente com sólidas credenciais de inteligência — dizem que o ataque não aconteceu.
Lawrence Wilkerson afirmou que a Inteligência dos EUA localizou um avião que provavelmente atingiu um depósito da Al-Qaeda, onde estava armazenado algum tipo de arma química, que se espalhou. Eu não sei. Mas isso por certo pede ao menos uma investigação. E as pessoas [que chegaram a essa conclusão] não são insignificantes.
Você poderia falar sobre como a esquerda está dividida nessa questão da Síria?
A esquerda é horrível nisso. De um lado, grande parte é pró Assad. [Nesses círculos], você não pode criticar Assad, embora saiba que ele é um criminoso de guerra monstruoso. Qualquer um que o critique está aderindo aos imperialistas norte-americanos, o que é simplesmente grotesco. Seja o que pensemos sobre os fatos recentes, Assad é responsável por uma enorme massa de atrocidades. É uma história de horror.
Outros dizem que os Estados Unidos simplesmente não deveriam se envolver em outra guerra. Quer dizer, para eles a narrativa de Washington está certa, e se é verdade que a Síria usou armas químicas, não seria um grande crime enviar uma espécie de tiro de advertência para dizer: vocês não podem mais fazer isso. Não seria a melhor coisa do mundo, mas não seria também um crime capital. Penso que, no mínimo, deveria ter havido uma investigação sobre o que aconteceu. Agora, aderir simplesmente ao coro de que estamos, finalmente, reagindo aos crimes na Síria – isso é ridículo.
Não concordo com a intervenção dos EUA na Síria, mas também não sou a favor de Assad. Como pode alguém opor-se a Assad e ao mesmo tempo ser reticente quanto à intervenção dos EUA?
Algumas pessoas do campo da esquerda dizem: “veja, não podemos deixar essas atrocidades continuarem, então vamos entrar na guerra e nos livrar de Assad”. O problema é que, com isso, abre-se uma guerra nuclear com a Rússia. E a Síria será dizimada, juntamente com tudo o mais. Então, é preciso dizer: “certo, vamos acabar com os crimes; mas como, exatamente?”
(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/trump-a-caminho-da-guerra-nuclear/)
Entrevista a Dan Falcone | Tradução: Inês Castilho
A proliferação nuclear e as mudanças climáticas são hoje motivo de preocupação aguda, levada ao extremo em razão do governo de Donald Trump, nos EUA. Nesta entrevista exclusiva para a Truthout, o intelectual dissidente Noam Chomsky debate a cobertura da mídia sobre esses temas, ressaltando as tensões dos EUA com a Rússia, o Irã e a Coreia do Norte, bem como o recente ataque aéreo dos EUA a uma base da Força Aérea da Síria.
Como você vê a angustiante falta de debate, na mídia hegemônica, sobre mudanças climáticas e proliferação nuclear?
Se você quiser aprender sobre armas nucleares e a razão pela qual esse tema não está sendo tratado, dê uma olhada na edição de 1º de março do Bulletin of the Atomic Scientists (Boletim dos Cientistas Atômicos), onde há um artigo absolutamente espetacular escrito por dois verdadeiros experts – Hans M. Kristensen e Ted Postol, do MIT (Massachussets Institute of Technology). Eles discutem os novos sistemas de direcionamento inventados no Programa de Modernização de Obama, agora em plena escalada com Trump, e que são extremamente perigosos. Afirmam, com base em informações disponíveis, que os sistemas de mísseis dos EUA foram de tal forma aperfeiçoados que agora são capazes de aniquilar instantaneamente o efeito de dissuasão da Rússia.
É um enorme excesso, que acaba com a estabilidade nuclear – e, claro, os russos sabem disso. A implicação é que, se em algum momento os EUA sentirem-se ameaçados, serão levados a fazer um ataque preventivo – porque do contrário estão mortos, entende? E isso significa que todos estaremos mortos. Este é o fato mais importante de que se tem notícia em não sei quanto tempo.
O New York Times e outras mídias mainstream mantiveram sua prática convencional de enaltecer o último ataque do Trump contra a Síria, mas continuaram lamentando-se porque essa doutrina de política exterior é improvisada. De certa forma, considerando as nomeações do seu gabinete, ele faz lembrar Bush filho, que escolheu alvos indefesos. Eles alegam estar lutando contra o terrorismo e a proliferação nuclear, mas parecem estar simplesmente piorando os problemas.
Eles com certeza não estão lutando contra a proliferação nuclear. Bem, se quiserem mesmo fazer isso, há atitudes que podem tomar. O Irã, que na verdade nunca foi um problema, poderia ter sido resolvido há anos. Há um livro interessante do ex-embaixador brasileiro Celso Amorim. Em 2010, ele realizou um esforço conjunto com a Turquia para solucionar a questão do Irã. Ninguém, além dos Estados Unidos, considera que seja realmente um problema.
Aqui nos EUA, é a pior ameaça da história da humanidade. Mas Brasil e Turquia conseguiram um acordo com o Irã em que, basicamente, o país entregaria seu urânio (pouco) enriquecido para a Turquia armazenar, e em troca as potências ocidentais (isto é, os EUA) lhe forneceriam tubos de gelo para usar em seus reatores de uso medicinal. Isso teria liquidado o assunto. Foi imediatamente rejeitado por Obama e Hillary Clinton. E a razão principal foi que não queriam ver ninguém mais envolvido no assunto. Supostamente, os norte-americanos é que deveríamos lidar com o problema – a mas isso não foi dito. A razão ostensiva foi de que Hillary estava prestes a pressionar o Conselho de Segurança da ONU para adotar novas sanções contra o Irã, e não queria que essa iniciativa fosse minada – o que mostra uma atitude voltada para a proliferação. O mesmo está acontecendo com a Coreia do Norte. [Recentemente] anunciaram mais ações ofensivas contra a Coreia do Norte.
Misseis navais vão elevar o nível [do perigo], [mas] há uma opção diplomática? Sim, há. A Coreia do Norte e a China propuseram o que parece ser uma opção muito inteligente. A Coreia do Norte deveria acabar com o desenvolvimento de armas nucleares – manter o estoque como está, não fabricar mais – e, em troca, os EUA acabariam com essas manobras militares hostis na fronteira da Coreia do Norte – bombardeiros B52 com capacidade nuclear e por aí vai. Os EUA rejeitaram imediatamente a oferta. E a imprensa e todo o mundo disse [quase nada]…
Esse programa de modernização é um exemplo muito claro de como o que importa não é a segurança. Não há nenhum ganho em segurança, mas destruição maciça da capacidade de dissuasão do adversário. A única consequência disso é provocar o risco de um ataque preventivo. E um ataque preventivo leva a um mundo de inverno nuclear.
Sem contar que temos uma presença militar lá. Lembro que uma vez você disse algo sobre como a dissuasão não era para as armas nucleares, mas para a militarização da Coreia do Norte apontada para Seul e as Forças Armadas dos EUA.
Se os EUA atacassem a Coreia do Norte, com certeza destruiriam aquele país – mas provavelmente a Coreia do Sul também seria exterminada. Eles concentraram artilharia apontada para Seul, e não há nada que se possa fazer respeito.
Quanto às relações dos EUA com a Síria, há soluções políticas? A última vez que Medea Benjamin escreveu no Democracy Now!, ela dizia como há opções políticas que nunca foram tentadas para os EUA e a Síria.
Houve sugestões em 2012. O embaixador russo nas Nações Unidas fez algumas propostas para um acordo político no qual Hafez Assad seria lentamente removido. O Ocidente a desconsiderou imediatamente, e não sabemos se ela era real, porque não veio do Kremlin, e era informal. Mas o fato é que todas essas propostas são imediatamente refutadas. E simplesmente não se sabe se são verdadeiras.
É um pouco como o 11 de Setembro. Afinal, o Talibã sinalizou que poderia extraditar Osama bin Laden, mas os EUA não lhe deram ouvidos. Tinham de usar a força. Bem, uma das razões é que o Talibã pediu provas, e um dos problemas é que não apresentaram evidência alguma.
Como as mudanças climáticas e as ciências climáticas relacionam-se com a questão das armas nucleares e sua capacidade destrutiva?
Uma das poucas instituições preocupadas com as mudanças climáticas é o Pentágono. Eles terão problemas, por exemplo, com a Marinha – a Base Naval de Norfolk será inundada quando o nível do mar aumentar, e a elevação do nível do mar e outros sistemas climáticos perigosos irão causar enormes ondas de refugiados.
Dê uma olhada em Bangladesh. É uma planície costeira – e algumas centenas de milhões de pessoas. O que eles farão, se as coisas piorarem? Você sabe?
Com a chegada de Rex Tillerson ao posto de secretário de Estado de Trump, as coisas parecem ter se “normalizado”, no governo dos EUA. Que perigos ele representa para o planeta?
É incrível o que está acontecendo, e o mais espantoso é que ninguém fala disso. Neste momento – desde 8 de novembro – os Estados Unidos estão literalmente sozinhos no mundo – primeiro, na sua recusa em unir esforços para fazer algo a respeito do aquecimento global. Mas, pior ainda, empenhados em agravar a situação. Em toda parte, está-se tentando fazer alguma coisa. Só os Estados Unidos esforçam-se para destruir — e não só Trump, mas todo o Partido Republicano. É difícil encontrar palavras para descrever isso. Não há informações. Não há debate.
Refiro-me ao mais importante evento de 8 de novembro – do qual tenho falado algumas vezes, mas ninguém ouve. Como devem saber, havia uma conferência internacional em Marrocos, em sequência à conferência de Paris – para dar alguma substância aos acordos de Paris. Mas no dia 8 de novembro [dia da vitória de Trump], a conferência foi interrompida. A questão era, nós sobreviveremos? Não se disse uma única palavra sobre isso. Mais espantoso ainda, o mundo espera que a China venha socorrê-lo. Os EUA são a máquina destrutiva que está arruinando tudo. O mundo tem esperança de que a China irá, de alguma maneira, salvá-lo.
O que isso — o mundo esperar o apoio da China — significa em relação ao establishment norte-americano?
Significa que os Estados Unidos são com certeza o país mais perigoso do mundo.
Isso não é positivo para a democracia — ou a esperança em relação a ela.
Não tem muito a ver com democracia, porque uma democracia mal e mal funciona sob um sistema neoliberal. A maioria da população está desconectada dos temas relevantes. Há uma retórica apaixonada sobre como “não podemos cruzar os braços”, enquando o país usa armas para matar civis inocentes.
Neste momento, os Estados Unidos estão apoiando ataques militares da Arábia Saudita ao Iêmen e uma política de escassez – uma política de fome – que irá matar dezenas de milhares de pessoas; na verdade, já está matando. Mas alguém fala sobre isso? Só Gareth Porter e mais uma ou outra pessoa escrevem [sobre isso].
O que você pensa sobre a direção em que caminha o governoTrump, e como seria sua política exterior? É imprevisível, como ele? Ou segue uma trajetória?
Penso que a política externa não é uma preocupação deles, na verdade. Assim como o ataque à Síria: não significou quase nada. Alvejaram uma base aérea vazia. Um dia depois, ela estava funcionando novamente. Aviões voavam a partir dela. Foi um show para o público interno, você sabe: vejam como sou forte; não sou como Obama. E então tudo volta ao “normal” – penso que, de fato, o que acontece é o orçamento d[o presidente da Câmara], Paul Ryan e seus programas legislativos.
Tudo isso está ocorrendo sob a cobertura das extravagâncias midiáticas de Trump e seu secretário de Imprensa, Sean Spicer. Eles caras fazem uma coisa após outra para captar a atenção da mídia. E funciona. Ligue na CNN e é isso que se ouve, enquanto são feitas mudanças legislativas que destroem tudo o que o governo tem de utilidade para a maioria das pessoas. Penso que Paul Ryan é a pessoa mais perigoda desse governo. Ele sabe o que está fazendo — e é muito sistemático. Presumo que está por trás das nomeações do gabinete, e é incrível como todas elas são a escolha de alguém devotado à destruição de uma política pública — ou para garantir que não funcione. Colocou-se muito foco no EPA (Agência de Proteção Ambiental), o que já é bem ruim, mas os programas ambientais mais significativos estão no departamento de Energia — e serão propositalmente desmontados.
Quer dizer que Trump nomeia pessoas deliberadamente escolhidas para minar as políticas públicas?
Sim, todos os seus secretários: Educação, Ambiente, Trabalho – cada um é escolhido para minar todos os aspectos do governo que se relacionem a qualquer apoio à maioria das pessoas e não beneficiem os super-ricos. E isso de forma absolutamente sistemática. A pergunta que interessa é: por quando tempo o eleitorado de Trump vai entrar nesse jogo de trapaças. Eles estão levando na cara mais do que ninguém –m as ainda têm fé no seu homem. Se isso sucumbir – o que, suponho, mais cedo ou mais tarde vai acontecer – o governo Trump terá de fazer alguma coisa bem radical para tentar manter o controle.
Qual a atitude da Rússia quando ao ataque à Síria, a seu ver? Eles acham que foi um teatro?
Bem, há algumas questões interessantes aqui. Pode-se buscar a razão por que Assad teria ficado bem louco, para provocar uma intervenção dos EUA quando está vencendo a guerra. A pior coisa para ele seria atrair os Estados Unidos pra dentro do conflito. Por que iria lançar um ataque com armas químicas? Pode-se imaginar que um ditador com interesses apenas locais venha a fazer isso, pensando ter sinal verde para tanto. Mas por que os russos permitiriam? Não faz nenhum sentido. E há de fato questões sobre o que aconteceu. Algumas pessoas que merecem muita credibilidade – não tipos conspirativisas, mas gente com sólidas credenciais de inteligência — dizem que o ataque não aconteceu.
Lawrence Wilkerson afirmou que a Inteligência dos EUA localizou um avião que provavelmente atingiu um depósito da Al-Qaeda, onde estava armazenado algum tipo de arma química, que se espalhou. Eu não sei. Mas isso por certo pede ao menos uma investigação. E as pessoas [que chegaram a essa conclusão] não são insignificantes.
Você poderia falar sobre como a esquerda está dividida nessa questão da Síria?
A esquerda é horrível nisso. De um lado, grande parte é pró Assad. [Nesses círculos], você não pode criticar Assad, embora saiba que ele é um criminoso de guerra monstruoso. Qualquer um que o critique está aderindo aos imperialistas norte-americanos, o que é simplesmente grotesco. Seja o que pensemos sobre os fatos recentes, Assad é responsável por uma enorme massa de atrocidades. É uma história de horror.
Outros dizem que os Estados Unidos simplesmente não deveriam se envolver em outra guerra. Quer dizer, para eles a narrativa de Washington está certa, e se é verdade que a Síria usou armas químicas, não seria um grande crime enviar uma espécie de tiro de advertência para dizer: vocês não podem mais fazer isso. Não seria a melhor coisa do mundo, mas não seria também um crime capital. Penso que, no mínimo, deveria ter havido uma investigação sobre o que aconteceu. Agora, aderir simplesmente ao coro de que estamos, finalmente, reagindo aos crimes na Síria – isso é ridículo.
Não concordo com a intervenção dos EUA na Síria, mas também não sou a favor de Assad. Como pode alguém opor-se a Assad e ao mesmo tempo ser reticente quanto à intervenção dos EUA?
Algumas pessoas do campo da esquerda dizem: “veja, não podemos deixar essas atrocidades continuarem, então vamos entrar na guerra e nos livrar de Assad”. O problema é que, com isso, abre-se uma guerra nuclear com a Rússia. E a Síria será dizimada, juntamente com tudo o mais. Então, é preciso dizer: “certo, vamos acabar com os crimes; mas como, exatamente?”
(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/trump-a-caminho-da-guerra-nuclear/)
Boletim Café Historia 11
Os deslocamentos dos candomblés na Reforma Pereira Passos
Para
apagar as marcas do passado colonial e alinhar-se aos ideais da belle
époque, uma série de reformas urbanísticas “botaram abaixo” diversas
casas de candomblé presentes no centro do Rio de Janeiro. Transferidas
para zonas afastadas da cidade, essas casas tiveram que se adaptar para
sobreviver. Clique aqui.
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