segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Até parece que temos uma renovação...

Da Revista IstoÉ
Marina e Eduardo Campos formaram um condomínio político que constitui um enigma da campanha de 2014
Paulo Moreira Leite
No mesmo dia em que a VEJA dava uma contribuição específica ao culto à personalidade de  Marina Silva, dizendo que na véspera ela fora dormir com a esperança de “ter um sonho” que pudesse ajudar a decidir o rumo na campanha presidencial, a líder da Rede  deu provas de que passou os últimos dias acordadíssima.
Numa união destinada a garantir a Marina um espaço na campanha que a Rede não foi capaz de obter, e a Eduardo Campos, uma projeção que ele dificilmente teria como 4º colocado nas pesquisas de intenção de voto, os dois formaram um condomínio político que constitui um enigma da campanha de 2014.
 
Filiando-se ao PSB, Marina assegurou um palanque para seguir em sua verdadeira prioridade,  cada vez mais semelhante a plataforma básica dos vencidos por Lula e Dilma em 2002, 2006 e 2010: impedir de qualquer maneira e por todos os meios uma quarta  vitória do PT e seus aliados em 2014.
 
Dramatizando a própria situação, ela chegou a dizer que o Rede era primeiro partido “clandestino” da democratização – afirmação de caráter retórico, que não faz sentido para quem levou a sério a luta clandestina contra o regime militar de 64 e reconhece o valor da democracia conquistada depois.
 
Vamos combinar: se acredita, de fato, que o Rede foi perseguido por adversários políticos, que teriam boicotado o apoio dos 50 000 eleitores que poderiam ter legalizado seu partido, Marina faria um favor ao país se divulgasse indícios e provas para sustentar o que diz. Sabemos que a Justiça eleitoral abriga cidadãos indicados pelos principais partidos políticos, que devem ser substituídos de 5 em 5 anos. É razoável até imaginar uma imensa  má vontade aqui, outra mais adiante. É assim, no Brasil e em outros países.
 
Mas é um universo com tantas surpresas e imprevistos que ninguém consegue adivinhar o que acontece sem uma apuração real. No caso mais avançado que conheço até aqui, um advogado do Rede chegou a dizer de forma vaga, para uma repórter, que “certamente” ocorreram boicotes em algumas prefeituras. Onde? Em  Minas Gerais. E agora?
 
Ironicamente, Marina e Eduardo Campos se comprometeram ontem, justamente, a  enterrar a República Velha e  a renovar os métodos tradicionais da política. Também falaram do esgotamento do nosso sistema como seu maior compromisso político. Mas não disseram com clareza o que pretendem fazer nem como. Até porque estas são verdades tão fáceis de anunciar mas difíceis de explicar.
 
Quem tem o direito de dizer que o sistema político está esgotado é o eleitor. Ele fez isso em 1984, quando foi as ruas para pedir eleições diretas em pleno regime militar. Como o Congresso rejeitou as diretas naquele ano, o eleitor repetiu a dose cinco anos depois, em 1989, no primeiro pleito em urna após ao regime militar. Destruídos pelos fracassos de sucessivos planos econômicos, os dois herdeiros do governo Sarney não conseguiram somar 6% dos votos. E foi neste cemitério que nasceu Fernando Collor: sem partido, com ideário confuso, vagas promessas moralizantes e absoluto suporte dos meios de comunicação, tornou-se presidente da República. Seu programa era eliminar privilégios e favores do Estado, sintetizados na palavra marajá, usada para definir altos burocratas do serviço público. Parecia uma causa nacional, capaz de unir ricos e pobres, irmanados pelo infortúnio de sustentar privilegiados com dinheiro do contribuinte.
 
Falar que o sistema político está esgotado, hoje, é enxergar o mundo pelo olhar dos desejos, de quem não aprova determinado governo mas é duvidoso que seja expressão do pensamento do  conjunto da população. É um diagnóstico exagerado, no mínimo,  quando o governo federal tem aprovação superior a 50% e a presidente lidera as pesquisas de opinião com 38% das intenções de voto. Quando seu padrinho, Lula, é o mais popular político brasileiro da história. Quando o PT, alvo indiscutível da “publicidade opressiva” praticada pela maioria dos meios de comunicação na ação penal 470, segue o mais popular partido político do país, com  25 ou mesmo 30% da simpatia dos eleitores.
 
Quem está esgotada, até agora, é a oposição. Se é possível falar em algo perto de esgotamento, fim de linha, o problema encontra-se aí e é mais localizado. E é tão grave que ela procura alimentar-se, na verdade, de músculos e cérebros extraviados do governo, como Marina e Eduardo Campos.
 
As ruas de junho deixaram claro que nem  todo mundo pensa a mesma coisa dos nossos políticos. Os milhões de brasileiros que não querem Dilma também recusam personalidades, nomes e ideias que lhes são oferecidas como alternativa. Esses cidadãos Dizem que querem livrar-se de políticos tradicionais quando, na verdade, querem outros políticos – sejam direitistas, revolucionários, reacionários ou simples camelôs ideológicos. Aqueles manifestantes que tinham pontos específicos a reivindicar – como transportes – voltaram para casa depois que a reivindicação foi atendida. Os outros,  permaneceram. Tinham mais a cobrar. Alguns mais quebraram vidros, fizeram provocações. Denunciam o sistema político em nome do fascismo, do anarquismo ou lá o que for.  
 
Em qualquer caso, e é constrangedor lembrar, Dilma ficou sem aliados em seu empenho para aprovar uma reforma política que, bem ou mal, poderia dar uma resposta à nova situação. Não inventou nada. Apoiou um projeto que reúne o apoio de entidades representativas. Não lembro de qualquer manifestação de apoio dos aliados de Marina Silva. O PSB foi explícito. Divulgou nota a favor das reformas – desde que elas não valessem para 2014.  
 
O empenho de Marina para falar do “novo” ajuda a encobrir que, entre seus assessores econômicos, encontra-se André Lara Rezende, banqueiro  e profeta da decrescimento econômico, advogado da  teoria primeiro-mundista de que os recursos da Terra se esgotaram e que quem não ficou rico até agora deve desistir até de chegar a classe média baixa. Foi padrinho do Plano Cruzado – que ajudou Sarney a tornar-se imperador do país por um semestre, em 1986  – e do Plano Real, berço de tantas heranças, inclusive da privatização das teles, joia da coroa do governo FHC. Seu homem na Justiça é Gilmar Mendes, capaz de dar dois habeas corpus, em apenas 48 horas, a um dos banqueiros aliados de FHC. Seu maior patrocinador financeiro é a herdeira de um banco  que esteve ao lado de todos, absolutamente todos os governos brasileiros nas ultimas décadas, sem distinção de cor, credo, religião ou traje  – podia ser fardado ou à paisana.
 
“Novo”?  
 
Falar da velhice alheia é um dos atalhos mais conhecidos para uma pessoa fingir-se de jovem e seduzir os menos atentos naquela hora da festa em que a maioria dos seres vivos parece parda. Não vamos falar do PSB de Eduardo Campos. O governador  admite que nem estava pensando em termos politicamente geriátricos até a noite de sexta-feira, dedicando-se  a recolher, no laço, quem pudesse reforçar suas fileiras de qualquer maneira. Chegou a trazer para sua casa conservadores notórios, inclusive com ligações diretas com o regime militar. Estranho? Nem um pouco. A política brasileira é feita assim.
 
O errado é querer tingir o cabelo, fazer uma lipo, tomar um banho de butique e  pensar que ninguém enxerga os sinais da plástica.  Para quem é adversaria assumida das usinas hidroelétricas, é que Marina Silva tenha ingressado no mesmo partido do ex-ministro Roberto Amaral, um dos poucos políticos brasileiros que é partidário declarado de pesquisas nucleares, seja para fins pacíficos, e mesmo para conhecimento da fissão atômica, necessário para a produção de artefatos militares. (Estou 100% de acordo com o ministro nesse ponto).  
 
Que renovação é essa, meus amigos?
 
Simples. É a renovação de quem procura um palanque, confunde a  memória e quer nos fazer acreditar que não houve história. Eduardo Campos é um dos melhores políticos de sua geração. Tem luz própria, formação e  capacidade de articulação real.
 
Mas não vamos esquecer que é produto direto do Brasil envelhecido de repente que agora  denuncia. Talvez seja o grande filhote daquilo que a oposição chama de lulismo. Alimento maior de sua popularidade, o crescimento econômico de Pernambuco,  muito superior a média brasileira, foi irrigado por verbas preferenciais de Brasília, com tanto empenho que levou os conservadores preconceituosos do Sul-Sudeste a denunciar em 2010 o favorecimento “aos nordestinos” por parte de Lula.
 
A herança política  de Marina é familiar, também. Segundo o Ibope, a segunda opção de 50% de seus eleitores é Dilma.  Em função do receio de explicitar a estes cidadãos  o enorme grau de sua ruptura do Lula, Dilma e o PT, referencias que fazem parte de sua identidade política essencial, na visão de  tantos brasileiros, Marina Silva tem sido  bastante cuidadosa em suas declarações. Evita afirmar, em público, os chavões reacionários, inspirados no golpismo venezuelano, que o conservadorismo nativo utiliza para comparar o Brasil de Lula-Dilma com o país de Chávez-Maduro.
 
Cada eleitor tem o direito de imaginar que tipo de renovação é essa.


fonte: revista istoé.com

Ex-tucano grita contra o vazio da direita


Intelectual, ex-ministro e ex-tesoureiro de Fernando Henrique Cardoso, Luiz Carlos Bresser Pereira publica, nesta segunda, um artigo antológico; no texto, ele protesta contra o "ataque moralista da direita" no Brasil; segundo ele, Lula superou o medo dos mercados, recuperou o crescimento e distribuiu renda, deixando a direita sem discurso; com Dilma, a "direita recuperou a voz, mas uma voz vazia, liberal e moralista"; Bresser fez também uma defesa enfática de José Genoino, um dia depois de FHC ter cobrado pressa do STF e a prisão dos réus da Ação Penal 470
7 DE OUTUBRO DE 2013 ÀS 08:12
247 - Intelectual respeitado, que foi ministro de FHC e tesoureiro do PSDB, o cientista político Luiz Carlos Bresser Pereira parece cada vez mais desapontado com os rumos tomados por ex-aliados. Ontem, no Estado de S. Paulo, FHC publicou um artigo em que cobrava pressa do Supremo Tribunal Federal e exigia a prisão dos réus da Ação Penal 470 (leia aqui). Hoje, no que talvez seja uma resposta a FHC, Bresser condena o "ataque moralista da direita" no Brasil. Segundo o cientista político, a direita brasileira adota um discurso vazio, que passa pelo moralismo e pela negação da própria política, sem que tenha uma agenda para o desenvolvimento. Leia abaixo:
O ataque moralista da direita
Durante o governo Dilma, a direita recuperou a voz, mas vazia, de condenação de todos os políticos
Nestes últimos meses vimos a direita recuperar o dom da palavra. Em 2002 ela se apavorara com a perspectiva da eleição de um presidente socialista. O medo foi tanto e contaminou de tal forma os mercados financeiros internacionais que levou o governo FHC a uma segunda crise de balanço de pagamentos.
O novo presidente, entretanto, logo afastou os medos dos ricos que então perceberam que não seriam expropriados. Pelo contrário, viram um governo procurando fazer um pacto político com os empresários industriais e que não hostilizava a coalizão política de grandes e médios rentistas e dos financistas.
Por outro lado, o novo governo de esquerda pareceu haver logrado retomar o crescimento econômico, ao mesmo tempo que adotava uma politica firme de distribuição de renda. Na verdade, beneficiava-se de um grande aumento nos preços das commodities exportadas pelo país, e da possibilidade (que aproveitou de forma equivocada) de apreciar a moeda nacional que se depreciara na crise de 2002.
Lula terminou seu governo com aprovação popular recorde, e com a direita brasileira sem discurso. Deixou, porém, para sua sucessora, a presidente Dilma, uma taxa de câmbio incrivelmente sobreapreciada, que, depois de haver roubado das empresas brasileiras o mercado externo, agora (desde 2011) negava-lhes acesso ao próprio mercado interno.
Sem surpresa, os resultados econômicos dos dois primeiros anos de governo foram decepcionantes. E, no seu segundo ano, foram combinados com o julgamento do mensalão pelo STF, transformado em grande evento político e midiático.
Com isto o governo se enfraqueceu, e a direita brasileira recuperou a voz. Mas uma voz vazia, liberal e moralista. Liberal porque pretende que a solução dos problemas é liberalizar os mercados ainda mais, não obstante os maus resultados que geraram. Moralista porque adotou um discurso de condenação moral de todos os políticos, tratando-os de forma desrespeitosa, ao mesmo tempo que continuava a apoiar em voz baixa os partidos de direita.
Quando, devido às manifestações de junho, os índices de aprovação da presidente caíram, a direita comemorou. Não percebeu que caíam também os índices de aprovação de todos os governadores. Nem se deu conta de que a presidente logo recuperaria parte do apoio perdido.
Quando o STF afinal garantiu a doze dos condenados do mensalão um novo julgamento de alguns pontos, essa direita novamente se indignou. Agora era a justiça que também era corrupta.
Quando o deputado José Genoino (condenado nesse processo porque era presidente do PT quando as irregularidades aconteceram) manifestou o quanto vinha sofrendo com tudo isso --ele que, de fato, sempre dedicou a sua vida ao país, e hoje é um homem pobre--, essa direita limitou-se a gritar que o Brasil era o reino da impunidade, em vez de perceber que o castigo que Genoino já teve foi provavelmente maior do que sua culpa.
Os países democráticos precisam de uma direita conservadora e de uma esquerda progressista. Mas cada uma deve ter um discurso que faça sentido, em vez do mero moralismo que a direita vem exibindo.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Uma potência à beira da insanidade

Bem.. o autor é norte-americano. Parece ser um dos poucos lúcidos!!!

Uma potência à beira da insanidade



Reféns de direita primitiva, EUA paralisam governo, põem em risco ordem financeira que os favorece e expõem gravidade de sua decadência
Por Paul Krugman | Tradução: Antonio Martins (do Outras Palavras)

Pode ser que o mundo termine assim – não num big bang, mas num ataque de cólera.
A paralisação parcial do governo norte-americano – que tornou-se inevitável depois que a Câmara decidiu, no domigo, liberar recursos para o governo apenas em condições inaceitáveis – não será o fim do mundo. Mas um calote dos Estados Unidos, que só não ocorrerá se o Congresso elevar rápido o teto de endividamento do Estado, pode causar catástrofe financeira. Infelizmente, muitos republicanos ou não entendem o desastre, ou não se importam com ele.
Tratemos primeiro de Economia. Depois das paralisações do governo em 1995 e 96, muitos observadores concluíram que tais eventos, embora evidentemente ruins, não são catástrofes. Os serviços essenciais continuam e o resultado é um grande incômodo, mas não um dano duradouro. Esta observação ainda é parcialmente verdadeira, porém vale notar que as paralisações da era Clinton ocorreram num cenário de economia efervescente. Hoje, ela está fraca e uma das razões principais é a queda dos gastos governamentais. Uma paralisação equivale a mais um golpe, que pode tornar-se forte se o fenômeno se prolongar.
Ainda assim, uma pralisação do governo parece pouco, se comparada com a possibilidade de o Congresso recusar-se a elevar o teto de endividamento. Primeiro, porque se o teto for atingido, haverá um corte de despesas imediato e gigantesco, que provavelmente jogará os Estados Undios novamente em recessão. Além disso, serão interrompidos os pagamentos da dívida governamental norte-americana. Isso pode ter consequências aterrorizantes.
Por que? Os mercados financeiros tratam os títulos da dívida norte-americana como o ativo mais seguro. A presunção de que os EUA sempre honrarão sua dívida é a viga-mestra que sustenta o sistema financeiro internacional. Em particular, os títulos do Tesouro – obrigações de curto prazo dos EUA – são o que os investidores procuram, quando querem contrapartidas absolutamente sólidas contra perdas em empréstimos. Estes papéis são tão essenciais que, em momentos de estresse severo dos mercados, eles às vezes pagam taxas de juros ligeiramente negativas. Ou seja, são tratados com se fossem melhores que dinheiro vivo.
Suponha que se torne claro que os títulos dos EUA não são seguros; que não se pode ter certeza de que o país honrará sua dívida. Subitamente, todo o sistema estaria rompido. Talvez, com sorte, as instituições financeiras engendrassem juntas arranjos alternativos. Mas parece muito provável que o calote norte-americano criaria uma imensa crise financeira, muito superior ao abalo gerado pela quebra do Lehman Brothers, há cinco anos.
Nenhum sistema político saudável correria este tipo de risco. Mas nosso sistema político deixou de ser saudável. Nele, um número expressivo de republicanos acredita que podem forçar o presidente Obama a cancelar a reforma na Saúde chantageando-o com a paralisação do governo, um calote da dívida ou ambos. E os líderes republicanos que entendem o drama um pouco melhor temem opor-se à ala delirante do partido. Por isso, também são delirantes, tanto na Economia como na Política.
Sobre Economia: os radicais do Partido Republicano rejeitam, em geral, o conceito científico do mudança climática. Muitos rejeitam também a teoria da evolução das espécies. Por que esperar que acreditem nos alertas sobre os perigos do calote? Não irão fazê-lo, com certeza. O Partido Republicano reúne um número significativo de “negadores do calote”, que simplesmente desconhecem os perigos de os EUA deixarem de honrar seus débitos
Quanto à Política, as pessoas razoáveis sabem que Obama não pode e não irá deixar-se chantagear desta forma – e não apenas porque a reforma da saúde é seu legado político principal. É que, se passar a fazer concessões àqueles que ameaçam explodir a economia mundial se não obtiverem o que demandam, Obama poderá ser levado também a rasgar a Constituição. Mas os republicanos fundamentalistas – e mesmo alguns dos líderes do partido – ainda insistem que Obama cederá a suas exigências.
Como tudo isso terminará? Os votos para financiar o governo e elevar o teto da dívida existem e sempre existirão. Todos os democratas na Câmara votariam pelas medidas necessárias para tanto, assim como um número suficiente de republicanos. O problema é que os líderes deste partido, temendo a cólera dos fundamentalistas, não demonstram vontade de mobilizar tais votos. O que poderia levá-los a mudar de ideia?
Por ironia, se levarmos em conta quem nos meteu neste labirinto econômico, a resposta mais plausível é que Wall Street fará o resgate – que o big money dirá aos líderes republicanos que eles precisam acabar com sua postura absurda. Mas, e se nem mesmo os plutocratas conseguirem controlar a direita radical? Neste caso, ou Obama deixará que o calote ocorra, ou encontrará alguma forma de desafiar os chantagistas, trocando uma crise financeira por uma crise constitucional.
Tudo isso parece louco, porque é. Mas a loucura de hoje, em última instância não reside na situação – mas nas mentes dos políticos e de quem os elege. O calote não está em nossas estrelas. Está em nós mesmos.

Cidade nos EUA está preocupada com chegada de neonazistas


Este artigo, publicado hoje no GGN - Blog do Nassif - reforça a tese de que o fascismo não morre, ele apenas, como um camaleão, se amolda a circunstâncias novas.



Cidade nos EUA está preocupada com chegada de neonazistas


Do Opera Mundi
População de Leith está preocupada com a chegada de neonazistas à região
A pequena cidade de Leith, na Dakota do Norte, Estados Unidos, está se preparando para um fenômeno fora do comum. O local foi escolhido por membros de movimentos de extrema direita para se transformar numa comunidade de supremacia branca, recebendo grupos neonazistas norte-americanos como o NSM (Movimento Socialista Nacional Americano) e o WAR (Resistência Ariana Branca).   
O processo começou há dois anos, quando Paul Craig Cobb, procurado pela justiça do Canadá por defender a supremacia branca e promover a discórdia num fórum de discussões na internet, mudou-se para Leith e começou a comprar extensas porções de terra na região.   
Seu objetivo, assinalado pela organização norte-americana South Poverty Law Center, que monitora movimentos de extrema direita, é, silenciosamente, construir uma comunidade neonazista no local, que possui apenas 24 habitantes. A informação foi publicada pelo jornal inglês The Guardian neste domingo (22/09).
Assim, Cobb está no processo de transferir algumas de suas propriedades para Jeff Schoep, comandante da NSM, para Tom Metzger, um antigo membro da Ku Klux Kan, e para April Gaede, fundador do grupo extremista Vanguarda Nacional.   
Segundo Heidi Beirich, do Southern Poverty Law Center, essa não é a primeira tentativa de Cobb, de 61 anos, de instaurar comunidades de coletivismo racista. “Cobb foi provavelmente muito além do que qualquer outro na perseguição por essa ideal de supremacia branca”, disse Beirich, que confirmou iniciativas semelhantes lideradas por ele nas localidades de Idaho e Montana.  
Ativistas contra o racismo de outras partes da Dakota do Norte e do estado vizinho de Minnesota também são esperados na cidade. “Não podemos aceitar esse ódio racista que eles estão trazendo para cá. Leith está em crise e desesperadamente precisando de ajuda” afirmou Jeremy Kell, um dos organizadores da ação contrária à comunidade neonazista, ao Bismarck Tribune.   
Para os 24 habitantes de Leith, a perspectiva de assistirem à sua cidade ser tomada por um movimento de supremacia branca não é nada bem vinda. Conforme relatou o prefeito da cidade, Ryan Schock, os cidadãos estão muito preocupados e iniciam uma articulação para encorajar Cobb a deixar o local. 
Dentre as possibilidades de ação discutidas por eles, estão a criação de um fundo de defesa para pagar taxas legais, permitindo aos moradores empreender ações na justiça contra Cobb. Outra atitude que foi proposta é abandonar o status municipal de Leith antes que os neonazistas se tornem a maioria da população da cidade, e cheguem a controlar a prefeitura do local.  
Todo o burburinho que envolve os planos de Cobb fez com que nenhum proprietário da cidade continuasse a negociar com ele. Diante disso, Jeff Shoep, acusou “extremistas de esquerda” de tentarem retirar Cobb de sua casa, e assinalou que viajará à Leith a fim de “plantar as sementes do Nacional Socialismo na Dakota do Norte”. 
“Craig Cobb não está sozinho, e não será expulso ou forçado a sair. Documentos legais estão sendo preparados para garantir seus direitos civis, e outros novos moradores de Leith não serão violados”, afirmou o comandante da NSM. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Parece filme de terror em que as vítimas somos todos nós!

No blog do Azenha (Viomundo), uma matéria apavorante, sob todos os pontos de vista.

Alimentação: a tecnologia mórbida


Por Najar Tubino, na Carta Maior
Porto Alegre – A indústria da alimentação deverá faturar em 2014 US$5,9 trilhões, segundo estimativa da agência britânica dedicada à pesquisa sobre consumo e marcas – The Future Laboratory.
O mercado global de snacks (bolinhos, biscoitos, salgadinhos) deverá movimentar US$334 bilhões.
As vendas de chocolates e confeitos vão faturar US$170 bilhões.
O Brasil consumiu em 2012, 11,3 bilhões de litros de coca-cola, empresa que faturou US$48,02 bilhões, e lucrou US$ 9 bilhões.
Na pesquisa do IBGE comparando 2002-2003 com 2008-2009, o consumo anual de arroz das famílias caiu 40,5% — de 24,5kg para 14,6kg — e o de feijão caiu 26,4% — de 12,4 para 9,1kg.
Os refrigerantes do tipo cola cresceram 39,3% de 9,l litros para 12,7 litros.
No Brasil, 48,5% da população está acima do peso, são 94 milhões de pessoas.
Entre as crianças de 5 a 9 anos o aumento da obesidade multiplicou por quatro nos meninos (de 4,1% para 16,6%) e por cinco entra as meninas – de 2,4% para 11,8%.
Uma em cada 10 crianças abaixo dos seis anos já apresenta sobrepeso.
Nos Estados Unidos 35,7% da população, ou seja, mais de 135 milhões de pessoas são obesas, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) – 17% são jovens.
No mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde o número já atinge 1,5 bilhão de pessoas.
Na China, o índice de obesidade duplicou nos últimos 15 anos, na Índia subiu 20%.
No Brasil, segundo um estudo da Universidade de Brasília, o SUS paga R$488 milhões por ano para tratar doenças ligadas ao aumento do peso.
Moderno doentio


As causas citadas para explicar esta tragédia humana estão associadas à mudança tecnológica, ao estilo de vida das metrópoles, aos hábitos sedentários, a questão prática da vida atual, não deixa tempo para cozinhar, comer em casa, entre outras tantas.
É óbvio que a alimentação está no centro desse problema, que há muito tempo deixou de ter uma abordagem cultural, e precisa ser encarado como uma mudança social, política e econômica.
Henry Kissinger, figura famosa na política mundial, dizia que quem domina a comida domina as pessoas.
Não incluíram no pacote as doenças crônicas resultantes do tipo de comida difundida pelo mundo como algo “moderno”, como o hambúrguer e o refrigerante cola – diabetes em adultos, cardiovasculares, câncer e hipertensão, apenas para citar as campeãs nas estatísticas.
A OMS informa que 2,8 milhões de pessoas morrem em consequências de doenças associadas ao sobrepeso.
E outras 2,2 milhões morrem por intoxicações alimentares, resultante de contaminações de vírus, bactérias, micro-organismos patogênicos e resíduos químicos.
Neste capítulo específico a história é longa.
Um dossiê da Autoridade de Segurança Alimentar e Econômica, de Portugal, usando os dados da União Europeia, contabiliza 100 mil compostos químicos usados correntemente no mundo.
Na União Europeia eles registram 30 mil, produzidos a uma média de uma tonelada por ano, sendo que a metade tem potenciais efeitos adversos à saúde.
“Poucos foram estudados em profundidade suficiente de modo a permitir as estimativas de riscos potenciais de exposição, sobretudo aos seus efeitos de longo prazo, quanto à toxicidade ao nível da reprodução ou do sistema imunológico ou ação carcinogênica” [diz o relatório].
A contaminação pode ocorrer no solo, durante o plantio, no tratamento da planta, depois na colheita e armazenagem, também dos processos industriais, da queima de substâncias que se transformam e pela incorporação de contaminantes e aditivos em alimentos:

“- A prevalência de doenças ou a morte prematura causada por químicos presentes nos alimentos é difícil de demonstrar, devido ao período de tempo, geralmente longo, que decorre entre a exposição a estes agentes e o aparecimento dos efeitos”, registra o documento.
Mentira consistente

O problema é que a comida moderna, saborosa, suculenta, cheirosa vendida pela publicidade no mundo inteiro é uma mentira.
Todos os aspectos citados, incluindo ainda a cor, o tempo de vida na prateleira, a viscosidade, o brilho, o sabor adocicado, ou então o salgadinho bem sequinho, todos são resultado da aplicação de uma lista quase interminável de aditivos químicos.
Inclusive registrada internacionalmente por códigos numerados e divulgada pelo Codex Alimentarius, da ONU.
Por exemplo, o conservante nitrito de sódio é o E-250 e o adoçante artificial acessulfamo-K é o E-950.
Antes de avançar no assunto, um alerta da ONU sobre o uso de componentes químicos na vida moderna:

“O sistema endócrino regula a liberação de certos hormônios que são essenciais para as funções como crescimento, metabolismo e desenvolvimento. Os CDAs, desreguladores endócrinos, podem alterar essas funções aumentando o risco de efeitos advesos à saúde. Os CDAs podem entrar no meio ambiente através de descargas industriais e urbanas, escoamento agrícola e da queima e liberação de resíduos. Alguns CDAs ocorrem naturalmente, enquanto as variedades sintéticas podem ser encontradas em agrotóxicos, produtos eletrônicos, produtos de higiene pessoal e cosméticos. Eles também podem ser encontrados como aditivos ou contaminantes em alimentos”.
O alerta das Nações Unidas é no sentido de realizar “urgentemente” novas pesquisas para avaliar o impacto dos também chamados disruptores endócrinos.
Ocorre que alguns químicos sintéticos espalhados mundialmente têm uma estrutura molecular parecida com os hormônios naturais, como o estrógeno e a testosterona.
Os hormônios funcionam como mensageiros da herança genética, e os químicos interferem nesse processo, alterando o conteúdo da mensagem.
Em 1996, um grupo de pesquisadores norte-americanos – Theo Colborn, Diane Dumanoski e John Peterson Myers – lançou o livro “O Futuro Roubado”, tratando dessa temática, com um apêndice na edição brasileira de José Lutzenberger.
No Brasil o livro foi lançado em 2002.
Prático e barato

O problema é que a indústria se interessa por custo/benefício. Os aditivos dão consistência aos alimentos, não deixam a mostarda e a maionese virar uma gororoba, a carne e os produtos curados, como salsichas, mortadela, salames, perderam a cor vermelho-rosada.
Os sorvetes não ficam com espuma, as sopas e caldos tem um cheiro maravilhoso.
Fiquei enjoado de tanto ler sobre aditivos químicos nos últimos tempos. O mais impressionante, dos mais de 40 trabalhos que repassei, é a declaração da supervisora de marketing, da Química Anastácio (SP), para a revista Química e Derivados:

“O nitrito de sódio é o principal aditivo usado em produtos cárneos, é o agente conservante de todos os produtos curados, promove a coloração vermelho-rosada nas curas e nos crus e o róseo avermelhado nos cozidos, além do sabor característico. Realmente esses produtos são considerados carcinogênicos, porém os grandes frigoríficos os utilizam pelo fato de não ter substituto no mercado. Mas devem ser usados com responsabilidade, respeitando os limites máximos de 0,015g por 100g e 0,03g por 100g, nos casos do nitrito e nitrato de sódio”, disse Alessandra Fernandes Guerra.
A Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (PROTESTE) tem trabalhos que mostram a capacidade dos nitritos e nitratos de sódio de reagir com certas substâncias presentes nos alimentos, que são as aminas, e se transformam em nitrosaminas, potencialmente cancerígenas.
Danos cerebrais
Uma pesquisa de Sandrine Estella Peeters, da COPPE-UFRJ aborda o tema de como os aditivos químicos afetam a saúde.
Hiperatividade em crianças, citado como consequência de corantes em alimentos, além de dor de cabeça crônica.
Urticária, erupção da pele, câncer em animais, além de riscos de longo prazo de causar danos cerebrais. Este é o caso do glutamato de sódio, muito conhecido nos temperos, mas é utilizado em mais de cinco mil produtos.
Considerado como um agente capaz de produzir efeito neurotóxico. Em outra pesquisa, da Universidade Cândido Mendes, Roseane Menezes Debatin, tese de mestrado, comenta o seguinte sobre o glutamato de sódio:

“É um sal composto de uma molécula de ácido glutâmico ligada ao sódio. Tem um sabor adocicado, é um grande estimulante do paladar, suprimindo os gostos desagradáveis, levando a uma maior consumo de produtos industrializados. Usado em caldos, biscoitos, snacks, miojos, batata frita. O ácido glutâmico está envolvido na ativação de uma série de sistemas cerebrais, concernentes à percepção sensorial, memória, habilidade motora e orientação no tempo e espaço. Existem vários trabalhos científicos comprovando a neurotoxicidade do glutamato, principalmente na região do hipotálamo e no sistema ventricular”.
Nos Estados Unidos, o glutamato foi retirado dos alimentos infantis em 1969. A Ajinomoto maior indústria do ramo — 107 fábricas em 23 países — que comercializa o produto informa que o consumo no mundo cresce 5% anualmente.
Lista interminável

Os antioxidantes, usados na conservação, interferem no metabolismo, produzem aumento de cálculos renais, ação tóxica sobre o fígado e reações alérgicas, conforme a pesquisa da COPPE.
Os conservantes, como o ácido benzoico, um dos mais usados, produzem irritação da mucosa digestiva, outros produzem irritações nas células que revestem a bexiga, podendo atuar na formação de tumores vesicais.
As gorduras hidrogenadas provocam o risco de doenças cardiovasculares e obesidades. E os adoçantes artificiais, substitutos do açúcar, estão relacionados com a diabete, obesidade e o aumento de triglicerídeos (gordura na corrente sanguínea).
Sobre os adoçantes, o professor e doutor em ciência de alimentos da Unicamp, Edson Creddio, comenta o seguinte:

“Os adoçantes são medicamentos que devem ser usados por pessoas com diabetes e hipoglicemia e não por todas as pessoas, inclusive crianças, como se fossem totalmente isentos de risco. Esta substância é vista pelo público leigo como panaceia passada pela mídia com a imagem que levará o usuário a ter um corpo perfeito”.
Os adoçantes artificiais mais usados são a sacarina, que é 500 vezes mais potente que o açúcar, o aspartame, como diz o professor, que é 150 a 200 vezes mais doce, além do ciclamato e o acessulfamo-k, também muito mais doce que o açúcar.
Estão presentes nos refrigerantes, bebidas isotônicas, sucos preparados, e demais industrializados.
Sódio em demasia

Fiz uma relação com 14 grupos de aditivos mais usados nos alimentos consumidos atualmente. Os conservantes aumentam o prazo de validade, os estabilizantes mantêm as emulsões homogêneas vamos dizer, os corantes acentuam e intensificam a cor natural para melhorar a aparência e fazer o consumidor acreditar que está levando algo novíssimo.
Os antioxidantes evitam a decomposição, os espessantes dão consistência ao alimento e os emulsificantes aumentam a viscosidade do produto.
Os agentes quelantes protegem os alimentos de muitas reações enzimáticas e os flavorizantes tem o papel de realçar o odor e o sabor dos alimentos.
Já os edulcorantes são usados em substituição ao açúcar e os acidulantes utilizados para acentuar o sabor azedinho do alimento.
Os humectantes mantêm a umidade e a maciez, os clarificantes retiram a turbidez, os agentes de brilho mantém a aparência brilhante e os polifosfatos são usados para reter a água, no caso dos congelados, como o frango e nos produtos curados.
No Brasil, a ANVISA desde 2011 negocia com a indústria de alimentos para diminuir a quantidade de sódio dos alimentos industrializados.
Não há nem meta nem prazo para chegar a um nível aceitável.
Numa pesquisa realizada em 2011, com 496 produtos das regiões nordeste, sudeste e sul foram encontradas entre produtos de diferentes empresas quantidades 10 vezes maiores nos queijos tipo minas frescal, parmesão e ricota.
No entanto, as menores diferenças na quantidade usada de sódio entre os mesmos produtos de diferentes empresas chegaram a 40% no caso das mortadelas, macarrão instantâneo e bebidas lácteas.
O teor de sódio mais elevado foi registrado no queijo parmesão inteiro e ralado, macarrão instantâneo, mortadela, maionese e biscoito de polvilho.
Informa a ANVISA: o sódio é um constituinte do sal, equivalente a 40% da sua composição, sendo um nutriente de preocupação para a saúde pública, que está diretamente relacionado ao desenvolvimento de doenças como hipertensão, cardiovasculares e renais.
Na tabela de informação nutricional dos alimentos, que deve estar no rótulo, consta a quantidade de sódio. Para ser isento não pode ter mais de 5mg por 100g de alimento.
Se tiver 40mg na mesma proporção é muito baixo e 120mg é considerado baixo.
Na pesquisa da ANVISA o teor médio de sódio do macarrão instantâneo foi de 1.798mg por 100g, da mortadela foi de 1.303mg por 100g e o da maionese 1.096mg por 100g.
Leia também:
Dr. Rosinha: Ruralistas vencem batalha para colocar mais veneno na mesa

A raiz do problema da corrupção política

Artigo do blog do Nassif, agora GGN. A saída proposta, no ultimo parágrafo da matéria, é interessante, resta saber se ela entrará algum dia na proposta de reforma política!!!


A raiz do problema da corrupção política

Hoje em dia, quando chegamos a qualquer país, nosso primeiro contato com a política local se dá por meio do último escândalo de corrupção. Uns poucos atravessam fronteiras, como o que envolveu Sarkozy e a dona da L'Oreal, mas a maioria absoluta fica restrita ao noticiário político nacional, pois envolve figuras completamente desconhecidas fora do país. Entre verdades e mentiras, exageros e omissões, a resultante é clara: a política se banditizou no mundo todo. Não se faz política, hoje, sem envolvimento em esquemas criminosos. Não se trata mais da corrupção antiga, cuja única razão de ser era o enriquecimento ilícito dos envolvidos. O fato novo é que a corrupção, hoje, tem como razão de ser a própria sobrevivência política dos partidos. No mundo todo, com pequenas variações locais, encontramos exatamente a mesma situação que temos no Brasil: eleições envolvem espetáculos midiáticos, que custam centenas de milhões de dólares, que  por sua vez precisam ser recolhidos junto à iniciativa privada. Esta última "colabora", desde que tenha retorno garantido depois. E o retorno, neste caso, atende sempre pelos mesmos nomes: contratos superfaturados, concorrências fajutas, informações privilegiadas, e por aí vai.
Como a política se banditizou, a discussão política se judicializou. Uma parte fundamental das ações e das discussões políticas tem como eixo, não planos de governo e concepções de sociedade. Este tipo de discussão foi transferido para dentro dos partidos, e praticamente não vem à tona. Resolve-se em lutas internas, das quais só ouvimos no noticiário alguns ecos distantes. Ações e discussões políticas têm como foco os crimes supostamente cometidos pelos adversários e as tentativas de levar esses adversários para a cadeia. Estamos ficando cada vez mais fluentes em detalhes abstrusos da legislação processual. Nesse processo, a grande imprensa tem papel fundamental. As denúncias só se amplificam caso encontrem ressonância nas manchetes. A imprensa deixa de ser, assim, uma observadora crítica e passa a ser parte integrante da luta política cotidiana. Cooptar grandes grupos de mídia torna-se uma etapa fundamental na vida dos partidos, e cooptar partidos torna-se uma parte fundamental do gerenciamento das grandes empresas de comunicação.
Do ponto de vista de quem acredita na democracia representativa, isso distorce completamente os mecanismos de formação da opinião pública. Curiosamente, porém, essa distorção é vista como positiva pelos setores mais conservadores da sociedade. A grande preocupação desses setores sempre foi e sempre será a tensão que existe entre a desigualdade econômica que move o capitalismo, de um lado, e as potencialidades transformadoras do regime democrático. Do ponto de vista conservador, a democracia tem que ser domada, mantida dentro de limites estreitos, afastada de questões perigosas, como distribuição de renda e controle do capital. A banditização da política aparece para essas forças conservadoras como um mal menor, quando não um bem. Por dois motivos. Primeiramente, o debate fica esvaziado de conteúdo, reduzindo-se a um Fla-Flu no qual cada parte tenta mostrar que a parte contrária é "mais corrupta", e que seus principais líderes merecem ir para a cadeia. As questões perigosas são mantidas, assim, a uma distância segura. Além disso, os políticos todos — e muito especialmente os de esquerda — já chegam ao poder com culpa no cartório, com as mãos sujas, vulneráveis a campanhas midiáticas movidas pelo mecanismo da denúncia seletiva.
O partidarismo da grande mídia, que antes se manifestava na mera veiculação e defesa de pontos de vista conservadores, agora pode se manifestar de maneira aparentemente neutra e enganosamente virtuosa: ganho os contornos da defesa da moralidade na luta contra o crime. O modelo do jornalista contemporâneo passou a ser um José Luiz Datena. Os jornais, revistas e emissoras de televisão encheram-se de repente de Catões grandiloquentes movendo uma cruzada contra os agentes do Mal.
É a partir dessa equação perversa que podemos entender o debate político contemporâneo, sobrecarregado de um moralismo hipócrita e seletivo (de parte a parte). É esse o nó que a esquerda tem que desatar. Financiamento de campanhas eleitorais não é simplesmente um tema entre outros. É o tema central, que toca na raiz de todos os males. Enquanto for necessário levantar centenas de milhões de dólares junto ao empresariado, nenhum projeto político poderá se sustentar sem o recurso à corrupção. A política continuará essencialmente (e não episodicamente) banditizada, e a esquerda chegará ao poder com uma lâmina pendendo acima do próprio pescoço.
A saída é, a meu ver, muito simples: cortar o mal pela raiz, e exterminar a política baseada no espetáculo. Partidos políticos são estruturas burocráticas complexas, e precisam de dinheiro para se manter. O fundo partidário dá e sobra para isso. Campanhas políticas, por outro lado, não precisam custar um tostão furado. Políticos num estúdio, falando para toda a nação. Nada de Duda Mendonça, nada de tomadas externas, nada de artistas convidados, nada de animações, nada de efeitos especiais, nada de santinhos emporcalhando as ruas, nada de comícios, nada de caravanas pelo Brasil. A viagem, hoje, se faz por ondas eletromagnéticas, a custo zero. É por isso, a meu ver, que a esquerda deveria lutar. 

 

Um suposto eventual escândalo

Muito interessante o comentário do Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa. Reforça o que já foi dito por outros analistas: a diferença de tratamento da imprensa quando os fatos se referem ao PT e ao PSDB.


Acostumados às manchetes ruidosas e aos textos definitivos durante os cinco anos em que predominou no noticiário o julgamento da Ação Penal 470, os leitores de jornais devem estar estranhando o estilo cauteloso com que a imprensa trata o episódio que envolve o governo de São Paulo em desvios de dinheiro para obras de transporte urbano sobre trilhos.
Curiosamente, o esquema de preços combinados, com evidências de pagamentos de propina, assumido publicamente e oficialmente por duas gigantescas multinacionais com sede na Europa, se transforma, nas páginas dos jornais, em “suposto esquema de cartel”.
Não que a imprensa devesse assumir o papel do Ministério Público e sair “manchetando” culpas e sentenças em casos ainda sob investigação. Isso é o que foi feito durante os anos em que o caso chamado de “mensalão” dominou o noticiário. Apenas deve causar algum estranhamento nos leitores mais atentos essa mudança de estilo na imprensa escrita.
Observe-se, por exemplo, que na noite de segunda-feira (30/9), o Jornal Nacional, da Rede Globo, foi muito mais assertivo ao noticiar o imbróglio do que foram as edições dos diários de terça (01/10). Também deve causar alguma inquietação nas mentes dos leitores mais curiosos a insistência da imprensa em concentrar as referências do caso nas ações das empresas envolvidas, quando há evidências de um escândalo com participação de autoridades no outro lado do esquema.
O telejornal da Globo esclareceu que o acerto para a partilha de verbas para obras do metrô e do sistema de trens em São Paulo começou durante o governo de Mário Covas, falecido em março de 2001 e substituído por Geraldo Alckmin; prosseguiu sob o governo de seu sucessor e alcançou o mandato de José Serra, que se elegeu em 2006.
Portanto, há evidências de que a história ultrapassa em muito um eventual acerto entre empresas concorrentes e se configura como um processo longo, oficial e consolidado de corrupção. Mas a imprensa se nega a ligar uma coisa com outra.
Observe-se, por exemplo, que na primeira página do Estado de S. Paulo, na edição de terça-feira (1), trata-se de um “suposto esquema de cartel”, enquanto a reportagem publicada no interior do mesmo jornal fala sobre “suposto esquema de pagamento de propinas a servidores públicos e dirigentes de estatais”.
Noticiário cauteloso
Já a Folha de S. Paulo traz um texto curto sobre o assunto, menor do que o espaço destinado pelo carioca O Globo. O jornal paulista informa que a Justiça quebrou o sigilo das contas bancárias de 11 indiciados num dos inquéritos sobre o pagamento de suborno a políticos e servidores por conta de contratos para obras nos setores de transportes e energia. Quase metade da reportagem é dedicada ao chamado “outro lado”, com respostas e justificativas dos advogados de alguns dos acusados.
Nada contra, pois, afinal, a cada acusação deve corresponder o direito de defesa equivalente.
Não se trata, porém, da rotina observada em outros casos de corrupção noticiados pela imprensa nos últimos anos. O comum, no comportamento dos jornais, tem sido a abertura de manchetes sucessivas, negligenciando o direito de defesa dos acusados, transformando em escândalo toda denúncia, inclusive criando jargões e apelidos para fixar melhor na memória do leitor os detalhes de cada enredo. Assim, pulularam nas primeiras páginas expressões como “propinoduto”, “mensalão”, “valerioduto” e outras invenções que têm mais claramente a função de consolidar opiniões do que de informar.
Também é interessante observar que, juntando-se o noticiário esparso sobre as supostas irregularidades envolvendo obras de expansão do metrô paulistano e do sistema de trens metropolitanos, existem duas fontes básicas de informações dizendo praticamente a mesma coisa.
Uma delas nasceu da disposição da empresa alemã Siemens de mudar sua política de governança, adotando mais transparência e enfrentando os pecados de antigos executivos. A revelação de que havia um esquema de cartel nas concorrências para obras e manutenção do sistema de transporte em São Paulo surgiu desse movimento da empresa.
A outra tem origem na investigação sobre as atividades da francesa Alstom, que vem sendo denunciada por razões semelhantes, e que acaba de produzir a quebra de sigilo das contas de alguns dos acusados, conforme noticiou o Jornal Nacional na segunda-feira (30/9) e segundo os jornais da terça-feira.
Uma pergunta que muitos leitores devem estar fazendo é: se a imprensa está tratando de duas vertentes do mesmo caso, com uma origem comum, por que o noticiário vem dividido em duas partes, como se se tratasse de um escândalo da Siemens e outro da Alstom?
Eremildo, o Idiota, aquele personagem criado pelo jornalista Elio Gaspari, deve estar muito encafifado com isso.