terça-feira, 5 de julho de 2016

A velha mídia, incomodada com os historiadores…


Zangados com movimento que denuncia golpe, “Estadão” e Demétrio Magnoli expõem precariedade intelectual e apelo a artifícios argumentativos primários
Por Jocelito Zalla

Um capítulo triste para a história da mídia impressa brasileira foi recentemente escrito por O Estado de S.Paulo. No dia 14 de junho, o jornal publicou editorial, intitulado “O lugar de Dilma na História”, que condena a participação de historiadores no movimento em defesa da democracia. Não nesses termos, evidentemente. A histórica relação do periódico com grupos políticos conservadores, e o poder econômico que eles representam, não é nenhum segredo. Seus malabarismos verbais para esconder a realidade também não são novos. No dia 2 de abril de 1964, por exemplo, o jornal noticiava o golpe militar que iniciou a última ditadura brasileira com a seguinte manchete: “Vitorioso o movimento democrático”. Mas talvez seja inédito um ataque tão explícito a profissionais que estudam o passado.
No cerne desse ataque encontra-se uma disputa pela imagem social da disciplina acadêmica e escolar de História, incluindo a definição do lugar dos historiadores na sociedade.

Memória e ideologia no editorial do Estadão

Há, pelo menos, três tipos de artifícios empregados na ofensiva contra o movimento “Historiadores pela Democracia”: a autolegitimação do emissor (autor/veículo do texto), a desqualificação do oponente/objeto do ataque; a deturpação da realidade. Em todos os níveis do discurso, o editorial do Estadão apela a representações equivocadas do senso comum. Como lembrou Pierre Bourdieu, a ideologia é “uma ilusão interesseira, sem deixar de ser bem fundamentada”. Ou, dizendo de outra forma, socialmente ancorada em verdades aparentes.
O texto começa e termina com a primeira estratégia. Afirma um autor supostamente iniciado na historiografia profissional, que cita, de maneira descontextualizada, um dos fundadores da chamada Escola dos Annales na França, Marc Bloch. Esquece, no entanto, que o “grande mestre desse ofício”, nas palavras do próprio editorial, se envolveu com a luta política de seu tempo (um dos alegados crimes dos historiadores brasileiros, como veremos), defendeu a democracia e foi fuzilado por tropas nazistas em 1944. Esse tipo de dado biográfico, assim como uma leitura densa da obra de Bloch, evidentemente não interessa ao Estadão. A referência é apenas um recurso de autoridade. Tão frágil, vale dizer, quanto sua descrição da tarefa dos historiadores: “reconstituir o passado para entender o que somos no presente”. Aqui predomina a visão ultrapassada da história-memória pré-acadêmica, que enxerga no passado uma entidade autônoma e absoluta, passível de reconstituição factual neutra. Não é preciso demonstrar que esse passado apresentado como puro — “a História como realmente aconteceu”, na fórmula do historiador alemão oitocentista Leopold von Ranke — é sempre uma seleção daquilo que interessa ser lembrado pelo seu defensor. Uma interpretação que esconde a operação interpretativa que a gerou.
A segunda estratégia, a da desqualificação do movimento, começa pela alegação de que os profissionais da área não estão cumprindo seus deveres, ao privilegiar sua “militância”. Assim, o texto advoga um isolamento do historiador de seu entorno social, principalmente da atividade política. Essa construção do editorial seria apenas mais uma visão positivista ingênua e simplista do trabalho intelectual, se não fosse também uma artimanha ideológica comum na disputa política atual: criminalizar as posições consideradas de esquerda, ao mesmo tempo em que se apresentam posições de direita como verdades universais incontestáveis e, no limite da dissimulação, apartidárias. É o mesmo mecanismo utilizado por políticos profissionais de direita para surfar na atual rejeição pública da atividade política, quando esses atrelam os problemas de corrupção no país ao Partido dos Trabalhadores e creditam a crise econômica às opções de governo próximas da pauta da esquerda (como os programas sociais e os investimentos em setores como o da cultura), ao invés das políticas monetárias recessivas adotadas por Dilma em resposta às suas próprias demandas; políticas de austeridade reforçadas e aprofundadas por Temer no governo provisório, vale lembrar. Dessa maneira, historiadores reconhecidos internacionalmente por trabalhos rigorosos de pesquisa são apresentados pelo editorial como agentes do “lulopetismo” ou “intelectuais a serviço de partidos que se dizem revolucionários”. Forçando ainda mais a nota, o Estadão afirma que os historiadores profissionais são “incapazes de aceitar a democracia”, reduzida pelo periódico ao respeito à Constituição. Como se os historiadores não estivessem se apoiando, também, na Constituição Cidadã de 1988. Como se a democracia fosse apenas uma questão de legislação, não de voto e de soberania popular (todo regime autoritário recente, aliás, conta com uma carta constitucional).
A terceira estratégia é ainda mais preocupante, pois revela o baixo nível intelectual e a falta de compromisso profissional da empresa com a atividade jornalística. Acusando os historiadores de prescreverem uma versão conspiratória da história, o Estadão constrói uma narrativa mirabolante de conquista das almas. Para começar, haveria nas escolas e nas universidades a imposição de “pensamento único”. Entrincheirados na academia, os historiadores teriam a missão de fazer crer que o PT transformou o Brasil no país da justiça social. Com o advento da operação Lava-Jato e o início do impeachment de Dilma Rousseff (outro serviço prestado à desinformação, como se pesasse alguma denúncia de corrupção contra a presidenta no processo de impedimento), caberia a eles fazer vencer a tese do golpe. O que os historiadores ganhariam com isso? Segundo o Estadão, “a glória de ditar os termos da história”. Delírio e difamação pura e simples.
Não é preciso muito para mostrar que a fábula do pensamento único não se sustenta. A universidade, como instituição, é principalmente um espaço de debate. O campo historiográfico é pautado por regras sólidas de construção de conhecimento (como a crítica das fontes, a definição refletida de problemas de investigação, a seleção adequada de teorias e conceitos explicativos, a pesquisa empírica exaustiva), sempre passível de confirmação e de revisão. Não é o plano do vale-tudo narrativo, muito menos de imposição de visões unidimensionais. Quanto ao suposto compromisso dos historiadores com o governo petista, basta lembrarmos que houve duas grandes greves de professores universitários nos últimos anos (em 2012 e 2015), com grande envolvimento da área de História. Além disso, muitos historiadores estão na linha de frente da crítica à política econômica da era PT, junto a sociólogos e economistas progressistas. Por fim, a justificativa para a ação dos historiadores soa patética. É óbvio que esses não possuem o monopólio da representação do passado, mas o aparato científico e institucional no Brasil, hoje, dá sustentação e legitimidade à história dos historiadores profissionais. E nunca, na história da historiografia brasileira, houve tanta autonomia no trabalho do historiador. Aí residem duas das grandes insatisfações do Estadão.

O cerco ao pensamento livre e à educação crítica

O ataque do Estadão, portanto, se baliza em pressupostos da memória histórica refutados pelos historiadores profissionais contemporâneos, mas que ainda ecoam no senso comum (como noções simplistas de verdade e de passado). Dessa forma, cumpre sua função político-ideológica: deturpa a realidade para fazer valer seus interesses. Cabe tudo na tarefa. Inclusive a contradição. Logo no início do editorial, há a afirmação de que o “lulopetismo” posicionou bem os historiadores na academia, lugar de onde eles pretendem difundir sua versão dos fatos. Mais adiante, diz que o patrulhamento dos historiadores engajados tem levado ao isolamento dos colegas dissidentes, justamente, nas universidades, “como se fossem doentes cujo contato se deveria evitar”. O contrassenso seria até risível, se não demonstrasse a trágica pobreza argumentativa de um dos maiores jornais em circulação no Brasil.
Não é possível levar o editorial do Estadão a sério. Mas acredito que ele não tenha a ambição de ser considerado com seriedade. Aí mora todo o perigo. Como artefato ideológico, procura, antes de tudo, disseminar preconceitos políticos e, mais do que nunca, reforçar o cerceamento às vozes que denunciam o processo de (re)tomada do poder pelas forças mais conservadoras do país. Por isso ele precisa ser desconstruído. É esse tipo de discurso que tem buscado coibir as demandas sociais e a possibilidade de efetivação da democracia brasileira, com mais avanços nas conquistas das classes trabalhadoras rurais e urbanas, dos movimentos feminista, negro, LGBT e ecológico. É esse tipo de discurso que tem pavimentado a aceitação pública de projetos de censura à educação, como o “Escola Sem Partido”. A tentativa de retirar os historiadores (e outros intelectuais) do espaço público, ou de deslegitimar sua atuação para além da academia, é só o começo de um processo mais amplo de restrição das liberdades de pensamento e de expressão.
Na esteira do editorial do Estadão, por exemplo, que recebeu contraponto de diversos historiadores, o geógrafo Demétrio Magnoli publicou artigo na Folha de São Paulo, no dia 25 de junho, criminalizando o movimento, rotulado por ele de “quadrilha”. O novo ataque segue estratégias muito semelhantes às do primeiro. Afirma conhecer o ofício do historiador, supostamente violado pelos profissionais que se posicionam no debate público atual, e o define de maneira (neo)positivista como “reconstrução da trama dos eventos”. Chega, ainda, a indicar “vocação totalitária” na iniciativa do grupo, que excluiria do universo democrático os historiadores não alinhados. Recurso retórico para esvaziar o sentido do nome adotado pelo movimento e desacreditar os seus propósitos. Logo se alcança a razão mais profunda de seu texto, lutar pela classificação social do processo político atual, minando a compreensão de que o impeachment é um golpe político contra a presidenta eleita Dilma Roussef e o sistema democrático brasileiro: “Eles decidiram (ou, de fato, o Partido decidiu) que o impeachment é ‘golpe’ – e isso, antes mesmo da deliberação final do Senado”, diz Magnoli.
* * *
Como sabemos, o golpe de 1964 foi chamado, por muito tempo, de “Revolução”. E, para legitimar o episódio, agentes da mídia da época encontraram até mesmo uma dose de “democracia” nas motivações dos militares. Disputar a representação da história, portanto, é fundamental para o pensamento autoritário com o qual, mais uma vez, o Estadão (e parcela majoritária da grande mídia brasileira), se imiscui, na media em que ela justifica determinados projetos políticos para o presente.
Nesse contexto, o lugar dos historiadores só pode ser o da resistência.
(fonte: http://outraspalavras.net/brasil/a-velha-midia-incomodada-com-os-historiadores/)

domingo, 3 de julho de 2016

As 70 milhões de crianças que vão morrer e o recall das cômodas assassinas


Relatório do Unicef diz ainda que 750 milhões de mulheres se casarão ainda crianças, até 2030; notícia sobre cômodas assassinas ganhou quase o mesmo espaço
Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Li as duas notícias ao lado uma da outra, na home do UOL. 1) “70 milhões de crianças morrerão até 2030 se o mundo não agir, diz Unicef“. Antes de completarem 5 anos. 2) “Gigante de móveis Ikea fará recall de 29 milhões de cômodas após mortes“. (Mortes de crianças. Pelo menos seis crianças morreram desde 1989.)

E fiz a conexão singela entre elas: em que momento faremos um recall desse sistema?

As cômodas estão caindo. Elas vão cair. O sistema que permite 70 milhões de mortes de crianças e é naturalizado diariamente pelos meios de comunicação… precisa mudar. E esta não é apenas uma questão revolucionária. Pode ser uma questão para quem tem formação religiosa (mais ou menos conservadora), ou em direitos humanos – direitos humanos nasceram no capitalismo, não são coisa de comunista.

Para quem tenha compaixão. Algum código de princípios. Pois boa parte desses milhões de crianças vai morrer. Fora as que têm mais de 5 anos. Quantas, exatamente? Quantas ainda podem ser salvas? (E que editorial de jornal está tratando deste tema, hoje?)


Segundo o Unicef, 750 milhões de mulheres terão se casado ainda crianças até 2030. (Alô, feministas.) Na África subsaariana, 9 entre 10 crianças viverão, nesse ano, em pobreza extrema. (E há quem fale em meritocracia.)

Mas voltemos às cômodas – aquelas que essas crianças não terão. “As cômodas satisfazem as obrigações de estabilidade em todos os mercados onde são vendidas”, afirmou o porta-voz da Ikea, gigante sueca do setor de móveis. Ele disse que as cômodas que mataram as seis crianças são seguras se estiverem afixadas às paredes. (A empresa vendeu 147 milhões de cômodas em 13 anos, e diz que as pessoas não seguiram o manual de instruções.)

Claro. Simples. Que ideia das pessoas, não é, deixarem de fixar as cômodas nas paredes. Mas tomemos o cinismo desse senhor como metáfora. As armas são seguras se ninguém apertar o gatilho. As pessoas que vivem em áreas de risco (expulsas pelo sistema para esses lugares perigosos) só morrerão se não estiverem mesmo muito afixadas. Que não chova, portanto. Para as doenças ocasionadas por falta de saneamento, que se tenha saúde.

Qual o manual de instruções para que as populações vulneráveis não sejam executadas pela polícia (ou por algum Exército imperialista), mortas de fome, exploradas sexualmente?

“Quando olhamos para o mundo de hoje, somos confrontados com uma verdade desconfortável, mas inegável: as vidas de milhões de crianças são arruinadas pelo simples fato de terem nascido num determinado país, comunidade, gênero ou circunstância”, escreve o diretor-geral do Unicef, Anthony Lake, no prefácio do relatório.

Mas não, Unicef, não se trata de uma questão climática, física. E sim econômica. E geopolítica. De distribuição das riquezas, de divisão do mundo do trabalho, do acesso das famílias e comunidades aos bens naturais – a começar da terra, da água – e ao que deveria ser oferecido pelo Estado: como saúde, saneamento, educação.

Como? Se essas terras foram usurpadas, se essa água vai sendo privatizada. Se os Estados (como aqueles ao sul do Saara) vão se tornando refém dos mercados e não estão estruturados para salvar essas vidas? Não adianta falar em “iniquidades”, como se elas fossem um puxadinho mal resolvido da casa. São os pilares do sistema que precisam ser questionados.

É o sistema, diretor. É o sistema. E precisamos ser honestos em relação a isso. Muito antes de Thomas Pikkety muita gente expôs as vísceras desse sistema (ele atende pelo nome de capitalismo). A desigualdade é uma questão intestina, estrutural. E não uma “circunstância”. O Estado de Bem Estar Social e os arremedos de social-democracia só têm encolhido, sob pressão diária de nossa imprensa liberal e cínica.

Corolário: a imprensa burguesa mata. Isso precisa ser dito com todas as letras. Como dissociar? Genocídios pressupõem a existência de genocidas. O mercado não salva e não alimenta. Quem o defende acima das pessoas – dos jornais e partidos políticos aos especuladores de plantão – mantém uma bala apontada para cada uma dessas 69 milhões de crianças.

(fonte: http://outraspalavras.net/alceucastilho/2016/06/29/as-70-milhoes-de-criancas-que-vao-morrer-e-o-recall-das-comodas-assassinas/)

Os EUA, sociedade em ruptura?

A poucos meses das eleições presidenciais, Noam Chomsky relata: desigualdade provocada pelos ricos tragou maiorias, reduziu democracia a fachada e alimenta fenômento Trump
Entrevista a C.J. Polychroniou, no Truthout | Tradução: Inês Castilho

Primeira de duas partes. A próxima, sobre relações externas será publicada breve

Os Estados Unidos estão enfrentando um tempo de incertezas. Embora permaneçam como único superpoder global, não são mais capazes de influenciar os fatos e seus resultados conforme desejam, ao menos não a maioria destes fatos. A frustração e ansiedade a respeito do risco de desastres futuros parecem ter peso muito maior que as esperanças dos eleitores por uma ordem mundial mais justa e racional. Enquanto isso, afirma Noam Chomsky, a ascensão e a popularidade de Donald Trump decorrem do fato de que a sociedade norte-americana vive um processo de ruptura.
Nesta entrevista exclusiva à Truthout, Noam Chomsky fala sobre o desenvolvimento contemporâneo nos Estados Unidos e no mundo, e desafia a visão dominante sobre luta de classes, neoliberalismo como resultado de leis econômicas, o papel dos EUA como potência global, o status das economias emergentes e o poder do lobby israelense.

Noam, você tem afirmado que a ascenção de Donald Trump deve-se em grande parte ao colapso da sociedade norte-americana. O que exatamente quer dizer com isso?
As políticas estatais-corporativas dos últimos 35 anos, aproximadamente, tiveram efeitos devastadores sobre a maioria da população. Resultaram diretamente em estagnação e nítido aumento da desigualdade. Isso gerou medo e fez as pessoas sentirem-se isoladas, desamparadas, vítimas de forças poderosas que não entendem e não podem influenciar. O colapso não é causado por leis econômicas. São políticas, uma espécie de luta de classes travada pelos ricos e poderosos contra a população pobre e trabalhadora. Isso é o que define o período do neoliberalismo, não somente nos EUA mas também na Europa e em outros lugares. Trump é atraente para aqueles que sentem e experimentam a desagregação da sociedade norte-americana – profundos sentimentos de raiva, medo, frustração, desamparo. Provavelmente, há setores da população que vivem um aumento na mortalidade, algo antes desconhecido — a não ser na guerra.
A guerra de classes mantém-se tão perversa e unilateral como sempre. A governança neoliberal nos últimos trinta anos, fosse o governo republicano ou democrático, intensificou enormemente o processo de exploração e levou a fissuras ainda maiores entre os que têm e os que não têm na sociedade norte-americana. Além disso, não vejo a classe política neoliberal recuando, a despeito das oportunidades abertas em razão da última crise financeira e pelo fato de um democrata ocupar o centro na Casa Branca.
As classes empresariais, que em larga medida governam o país, têm muita consciência de classe. Não é uma distorsão descrevê-los como materialistas vulgares, com valores e compromissos reversos. Foi somente há trinta anos que o líder do sindicato mais poderoso reconheceu e criticou a “luta de classes unilateral”, incessantemente travada pelo mundo empresarial. Ela teve êxito, alcançando os resultados que você descreveu. Contudo, as políticas neoliberais estão em ruínas. Elas acabaram por prejudicar os mais poderosos e privilegiados (que as aceitaram para si mesmos apenas parcialmente, para começo de conversa), de modo que não podem ser sustentadas.
É muito impactante observar que as políticas que os ricos e poderosos adotam para si mesmos são o exato oposto daquelas que impõem aos fracos e pobres. Assim, se a Indonésia está numa crise financeira profunda, as instruções do Departamento do Tesouro norte-americano (via FMI) correm para saldar a dívida (ao Ocidente), aumentar as taxas de juros e desacelerar a economia, privatizar (de modo que corporações ocidentais possam comprar os bens) e todo o resto do dogma neoliberal. Para si mesmos, as políticas são esquecer suas dívidas, reduzir a zero as taxas de juros, nacionalizar (sem usar a palavra) e despejar recursos públicos no bolso das instituições financeiras, e daí por diante. É também impressionante que o tremendo contraste passe desapercebido, visto que está de nos registros da história econômica dos últimos séculos, razão fundamental da separação entre primeiro e terceiro mundos.
Até aqui, a política de classes, está apenas marginalmente sob ataque. O governo Obama evitou dar até mesmo passos mínimos na direção de acabar e reverter o ataque aos sindicatos. Obama até mesmo sinalizou, indiretamente e de modo interessante, seu apoio a esse ataque. Vale recordar que a primeira viagem para mostrar sua solidariedade com as classes trabalhadoras (denominada “classe média”, na retórica dos EUA) foi à fábrica da Caterpillar em Illinois. Foi até lá desafiando os pleitos de organizações religiosas e de direitos humanos, em razão do papel grotesco da Caterpillar nos territórios ocupados por Israel, onde é um instrumento preferencial na devastação das terras e vilas das “pessoas erradas”. Mas parece não ter sido sequer notado que, adotando as políticas antitrabalhistas de Reagan, a Caterpillar tornou-se a primeira corporação industrial em gerações a quebrar um sindicato poderoso ao empregar fura-greves, violando radicalmente as convenções internacionais do trabalho. Isso isolou os EUA do mundo industrial, junto com a África do Sul do apartheid, na tolerância a tais meios de minar os direitos dos trabalhadores e a democracia – e, presumo, agora os EUA estão sós. É difícil acreditar que a escolha tenha sido acidental.

Há uma crença generalizada, ao menos entre alguns estrategistas políticos bem conhecidos, de que fatos não definem as eleições norte-americanas – ainda que a retórica seja de que os candidatos precisam entender a opinião pública para conquistar eleitores – e sabemos, claro, que a mídia fornece uma riqueza de informações falsas sobre temas críticos (tome o papel da mídia de massa antes e durante o lançamento da guerra do Iraque) ou não fornece informação nenhuma (sobre temas trabalhistas, por exemplo). Contudo, fortes evidências indicam que o público norte-americano preocupa-se com as grandes questões sociais, econômicas e de política externa enfrentadas pelo país. Por exemplo, conforme estudo divulgado há alguns anos pela Universidade de Minnesota, os norte-americanos colocavam os serviços de saúde entre os temas mais importantes. Sabemos também que a grande maioria dos norte-americanos apoia os sindicatos. E que julgaram um fracasso completo a guerra contra o terror. À luz de tudo isso, qual a melhor maneira de entender a relação entre a mídia, a política e o público na sociedade norte-americana contemporânea?
É bem conhecido o fato de que as campanhas eleitorais são concebidas de modo a marginalizar os problemas e concentrar-se em personalidades, estilos retóricos, linguagem corporal etc. E há boas razões para isso. Gestores de partidos leem as pesquisas, e estão bem conscientes de que, num grande conjunto de problemas, os dois partidos estão bem à direita da população – o que não surpreende; afinal, são partidos de negócios. Pesquisas mostram que a grande maioria dos eleitores é contra, mas são as únicas escolhas oferecidas a eles num sistema eleitoral gerido como negócio, em que o candidato mais pesadamente financiado quase sempre vence.
Da mesma forma, os consumidores podem preferir um transporte de massa decente a escolher entre dois automóveis, mas esta opção não é prevista pelos publicitários – na verdade, pelos mercados. A publicidade na televisão não oferece informação sobre produtos; ao contrário, fornece ilusão e imagens mentais. As mesmas empresas de relações públicas que buscam minar o mercado, certas de que consumidores desinformados farão escolhas irracionais (ao contrário de teorias econômicas abstratas), tentam, do mesmo modo, minar a democracia. E os gestores estão bem conscientes disso tudo. Figuras influentes no setor vangloriavam-se, na imprensa econômica, de que desde Reagan vêm fazendo o marketing dos candidatos como se fossem commodities – e esse é seu maior sucesso, pois, preveem, fornecem um modelo aos executivos das corporações e indústria de marketing do futuro.
Você mencionou a pesquisa de Minnesota sobre serviços de saúde. Ela é típica. Durante décadas, estudos mostraram que a saúde está no topo, ou perto dele, nas preocupações da população – não por acaso, dado o desastroso fracasso do sistema de saúde, com custo per capita duas vezes mais alto que o de sociedades comparáveis e alguns dos piores resultados. (…) Acontece que a indústria manufatureira vem sofrendo em razão do sistema de saúde privatizado, caro e ineficiente, e dos enormes privilégios garantidos, por lei, à indústria farmacêutica. Quando um grande setor de concentração de capital favorece um programa, ele se torna “politicamente possível” e tem “apoio político”. Tão revelador quanto os próprios fatos é que eles não são comunicados.
Muito disso é verdade para várias outras questões, domésticas e internacionais.

A economia dos EUA está enfrentando uma miríade de problemas, embora os lucros dos ricos e das corporações já tenham, há tempos, voltado aos níveis anteriores à erupção da crise financeira de 2008. Mas o problema da dívida governamental é o único que a maioria dos analistas acadêmicos e financeiros parece focar como o mais crítico. De acordo com os analistas mainstream, a dívida dos EUA está quase fora do controle, razão pela qual eles vêm se posicionando consistentemente contra os pacotes de grande estímulo econômico para o crescimento, sob o argumento de que tais medidas apenas mergulharão os EUA mais profundamente na dívida. Qual é o impacto provável que uma dívida inflada terá na economia norte-americana e na confiança dos investidores internacionais, diante de eventual nova crise financeira?
Ninguém sabe realmente. A dívida foi muito mais alta no passado, particularmente depois da Segunda Guerra Mundial. Mas foi superada, graças ao notável crescimento da economia, semidirigida no tempo da guerra. Por isso, sabemos que, se o governo incentiva o crescimento sustentável da economia, a dívida pode ser controlada. E há outros artifícios, como a inflação. Mas, quanto ao resto, trata-se de muita suposição. Os principais financiadores – principalmente China, Japão, os países produtores de petróleo – podem decidir transferir seu capital para outro lugar em busca de lucros mais altos. Mas há poucos sinais desses movimentos, e eles não são muito prováveis. Os financiadores participam da sustentação da considerável economia dos EUA para suas próprias exportações. Não há como fazer previsões confiáveis, mas parece claro que o mundo inteiro está numa situação delicada, para dizer o mínimo.

Você parece acreditar, ao contrário de tantos outros, que os EUA mantêm-se como um superpoder econômico, político e, claro, militar, mesmo depois da última crise. Também tenho a mesma impressão, uma vez que o resto das economias do mundo não somente não estão em condições de desafiar a hegemonia norte-americana, como olham para os EUA como um salvador da economia global. O que você vê como vantagens competitivas do capitalismo dos EUA sobre a economia da União Europeia e as novas economias emergentes na Ásia?
A crise financeira de 2007-2008 foi originada principalmente nos EUA, mas seus principais competidores – a Europa e o Japão – acabaram sofrendo mais severamente, e os EUA mantiveram-se o local preferido dos investidores que buscam segurança em tempo de crise. As vantagens dos EUA são substantivas. Eles têm amplos recursos internos. São unificados, um fato importante. Até a guerra civil nos anos 1860, a frase “Estados Unidos” era plural (como ainda é nas línguas europeias). Mas desde então, vem sendo usada no singular, no inglês padrão. As políticas traçadas em Washington pelo poder estatal e capital concentrado valem para todo o país. Isso é muito mais difícil na Europa. Há muitas vantagens da unidade. Alguns dos efeitos nocivos da inabilidade europeia para coordenar a respostas à crise têm sido amplamente discutidas pelos economistas europeus.
As raízes históricas dessas diferenças entre a Europa e os EUA são familiares. Séculos de… conflitos impuseram um sistema de estado-nação na Europa, e a experiência da Segunda Guerra Mundial convenceu os europeus de que devem abandonar seu esporte tradicional de trucidar uns aos outros, porque a próxima tentativa seria a última. Então temos aquilo que os cientistas políticos gostam de denominar “uma paz democrática”, ainda que nem de longe esteja claro se a democracia tem algo a ver com isso. Em contraste, os EUA são um Estado colonizador-colonial, que assassinou a população indígena e confinou os remanescentes em “reservas”, ao mesmo tempo em que conquistava metade do México e expandia-se para além. Muito mais que na Europa, a rica diversidade interna foi destruída. A guerra civil cimentou o poder central e, da mesma forma, a uniformidade em outros domínios: linguagem nacional, padrões culturais, enormes projetos público-privados de engenharia social tais como a suburbanização da sociedade, subsídio central maciço à indústria avançada por meio de pesquisa e desenvolvimento, aquisição e outros instrumentos, e muito mais.
As novas economias emergentes na Ásia têm incríveis problemas internos, desconhecidos no Ocidente. Sabemos mais sobre a Índia do que sobre a China, porque é uma sociedade mais aberta. Há razões pelas quais ela está em 130º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (mais ou menos onde estava antes da reformas neoliberais parciais); a China está no 90º lugar, e poderia ser pior se se soubesse mais a respeito do país. Isso apenas arranha a superfície. No século 18, China e Índia eram os centros comerciais e industriais do mundo, com sistemas de mercado sofisticados, níveis avançados de saúde pelos padrões comparativos etc. Mas conquistas imperiais e políticas econômicas deixaram-nos em condições miseráveis. É notável que o único país do Sul Global a desenvolver-se foi o Japão, o único que não foi colonizado. A correlação não é acidental.

Os EUA ainda estão ditando as políticas do FMI?
Isso não é claro, mas meu entendimento é que os economistas do FMI supostamente são, talvez sejam, de certa forma independentes dos políticos. No caso da Grécia, e da austeridade em geral, os economistas publicaram alguns papers fortemente críticos aos programas da União Europeia, mas os políticos parecem estar ignorando-os.
(fonte: http://outraspalavras.net/capa/eua-sociedade-em-ruptura/)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O golpe ruralista e o preço do feijão

por

Na última semana, fomos bombardeados pelas notícias sobre a alta no preço do feijão. O povo, chocado em ver o quilo passando de R$10, ouviu as mais diversas explicações dos analistas: geada e muita chuva no sul, falta de chuva em outras regiões, e até o boato de que uma pequena doação para Cuba feita em outubro de 2015 teria sido a causa da escassez. A solução mágica apresentada pelo ministro interino da agricultura, o Rei da Soja, foi zerar a taxa de importação para facilitar a entrada de feijão estrangeiro.

O que estranhamente não saiu em lugar nenhum foi um elemento muito simples: o agronegócio brasileiro não se preocupa em produzir alimentos para o Brasil. E isso fica muito claro quando olhamos a mudança na utilização das terras no país. Nos últimos 25 anos, houve uma diminuição profunda na área destinada à plantação dos alimentos básicos do nosso cardápio. A área de produção de arroz reduziu 44% (quase metade a menos), e a mandioca recuou 20%.

A área plantada com feijão, o vilão do momento, diminuiu 36% desde 1990, enquanto a população aumentou 41%. Apesar de ter havido um aumento na produtividade, a diminuição da área deixa a colheita mais vulnerável e suscetível a variações como estamos vendo agora.

E o agronegócio?

Os grandes latifundiários do Brasil, aliados aos políticos da bancada ruralista, à multinacionais de agrotóxicos e sementes como Bayer, Monsanto e Basf, e às empresas que dominam a comunicação no país não estão preocupadas com a alimentação da população. Este atores compõem o chamado agronegócio, que domina a produção agrícola no Brasil, e vê o campo apenas como local para aumentar suas riquezas.
Isso significa, na prática, produzir soja e milho para alimentar gado na Europa e na China, enquanto precisamos recorrer à importação de arroz, feijão e até do próprio milho para as festas de São João. Exportamos milho, e agora precisamos importar o milho. Faz sentido?

No mesmo período em que a área plantada de arroz e feijão caiu 44% e 36%, respectivamente, a área de soja aumentou 161%, enquanto o milho aumentou 31% e a cana, 142%. Somados os três produtos, temos 72% da área agricultável do Brasil com apenas 3 culturas. São 57 milhões de hectares que ignoram a cultura alimentar e a diversidade nutricional do nosso país em favor de um modelo de monocultura, que só funciona com muito fertilizante químico, semente modificada e veneno, muito veneno.

No caso da cana e da soja, é fácil entender que não são alimentos, e sim mercadorias ou (commodities) que vão ser comercializadas nas bolsas de valores pelo mundo. No caso do milho, basta ver que em 2015 foram exportados 30 milhões de toneladas de milho, em relação direta com a alta do dólar. Com o preço da moeda americana em alta, vale mais à pena exportar do que vender aqui. Assim, o que sobra no Brasil não é suficiente para o nosso consumo, e por isso temos que importar, o que também irá pressionar o preço. Hoje é o feijão, logo logo será o milho que vai explodir de preço.

Outro aspecto importante é analisar que quem bota o feijão na mesa do povo é a agricultura familiar. Os dados ainda de 2006 mostram que 80% da área plantada de feijão (e 70% a produção) são da agricultura familiar. E esta agricultura não tem espaço no reino do agronegócio.

O agronegócio ameaça a soberania alimentar no Brasil. Ao deixar de plantar comida para plantar mercadorias, ficamos extremamente dependentes do mercado externo, e vulneráveis às mudanças climáticas.

O primeiro passo: reforma agrária para dar terra a quem quer plantar comida. Com a terra na mão, precisamos de incentivo à agroecologia, para produzir alimentos saudáveis. Finalmente, essa produção deve ser regulada pelo Estado, via Conab, para garantir o abastecimento interno antes de embarcar tudo para fora.

O governo interino já admite privatizar a Conab, e pode em breve aprovar leis que facilitam ainda mais o uso de agrotóxicos e o uso de pulverização aérea nas cidades.

É, de fato, também um Golpe Ruralista.
(fonte: https://brasildefato.com.br/2016/06/29/opiniao-o-golpe-ruralista-e-o-preco-do-feijao/)

America Latina X Estados Unidos

Joseph S. Tulchin obteve seu PhD em História pela Universidade Harvard. Especializou-se em História da América Latina, especialmente da Argentina. Foi professor das Universidades Yale e Carolina do Norte. De 1989 a 2005, dirigiu o Programa Latino-Americano do Woodrow Wilson International Center for Scholars em Washington. Foi bolsista da Comissão Fulbright e da Hoover Institution.
 
 

Os descontentamentos da globalização e os 'novos' desafios econômicos

por Rodrigo Medeiros

Em 1997, Dani Rodrik, professor da Universidade de Harvard, publicou um livro cujo título é “A globalização foi longe demais?”. Desde então, já havia uma percepção generalizada de que as desigualdades de renda e patrimônio eram crescentes em muitos países e que tal fato poderia colocar em risco a estabilidade democrática dessas sociedades. Pouco tempo depois, Rodrik desenvolveu o “trilema” (teorema da impossibilidade), que sustenta que democracia, soberania nacional e integração econômica global são mutuamente incompatíveis; podemos combinar duas dimensões, mas nunca todas as três simultaneamente e completamente.
No ano de 2002, o economista Joseph Stiglitz publicou um livro chamado “A globalização e os seus descontentamentos”. Após o crash mundial de setembro de 2008, outros acadêmicos aprofundaram análises relevantes sobre o mal-estar da globalização. A hipótese do economista Alvin Hansen (1938) sobre a “estagnação secular” foi resgatada por Lawrence Summers (2013), ex-secretário do Tesouro norte-americano. Em síntese, a economia mundial pode ter entrado num período longo de crescimento muito baixo e a “armadilha da liquidez” descrita por Keynes (1936) não permitiria que os juros baixos (e até negativos) impulsionem o investimento privado.
Ainda nesse contexto do mal-estar da globalização, Tony Judt publicou um instigante tratado sobre as insatisfações do presente, “O mal ronda a terra” (2010). Os problemas enfrentados pela socialdemocracia são ressaltados pelo historiador. Ele mostra uma especial preocupação com o déficit democrático contemporâneo: “Se não respeitamos os bens públicos; se permitimos ou estimulamos a privatização dos espaços, recursos e serviços públicos; se apoiamos com entusiasmo a propensão de uma geração mais jovem a cuidar exclusivamente de suas próprias necessidades, então não deveremos nos surpreender com a progressiva redução do engajamento cívico no processo público de tomada de decisões”. No curto prazo é até possível que as democracias possam sobreviver à indiferença de seus cidadãos. Do fordismo no pós-guerra ao sistema de acumulação flexível nas últimas três décadas, a visão de mundo e as perspectivas geracionais se mostram crescentemente divergentes em diversos países.  
Os desafios no horizonte merecem destaque. Na edição de 25 de junho de 2016, a revista “The Economist” trouxe um relatório especial sobre Inteligência Artificial (AI, em inglês). O tema em questão mostra sua relevância pelos prováveis efeitos da automação a serem sentidos nos mercados, incluindo os eventuais ajustes que provavelmente ocorrerão no Estado de bem-estar social. Segundo consta no citado relatório, “a automação poderá ter um impacto muito maior nas economias em desenvolvimento do que nos países ricos”. Nesse sentido, há o risco de que a crescente automação poderá negar aos países de baixa ou média renda a oportunidade para o desenvolvimento através da industrialização.
Renomados economistas falam da "desindustrialização prematura". Dani Rodrik observa no respectivo relatório especial que o emprego industrial na Grã-Bretanha atingiu um pico de 45% pouco antes da Primeira Guerra Mundial, mas já atingiu o pico no Brasil, Índia e China, com a participação de não mais de 15%. Processos de fabricação industrial estão mais automatizados do que costumavam ser. A China, por sua vez, ultrapassou os Estados Unidos como o maior mercado de automação. Nesse contexto, uma crescente automação industrial poderá significar maiores dificuldades para as economias emergentes no crescimento e, portanto, elas precisarão encontrar “novos modelos” de desenvolvimento.
Sem os empregos na indústria de transformação para construir uma classe média, observa Tyler Cowen, da Universidade George Mason, esses países "podem ter uma elevada desigualdade de renda em suas estruturas econômicas fundamentais". São os países ricos que se preocupam mais com os efeitos da automação sobre a educação, o bem-estar social e o desenvolvimento. Os formuladores de políticas públicas nos países em desenvolvimento deveriam estar mais atentos ao assunto. No Brasil, por exemplo, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) disponibiliza, em uma página digital, o potencial instalado das “indústrias criativas” (por unidade federativa, município e segmento). A relevância do aprofundamento das políticas públicas nesse campo se deve ao fato de que o trabalho criativo é mais difícil de ser automatizado, pois ele é composto por atividades cognitivas não rotineiras. Diferentemente das commodities que exportamos, as atividades criativas costumam ser formadoras de preços nos mercados.
A “questão das máquinas” foi objeto de atenção do economista clássico David Ricardo, em 1821, ao dizer respeito à influência das máquinas sobre os interesses das diferentes classes da sociedade. Essa análise entendia que a opinião da classe trabalhadora era de que o emprego de máquinas seria frequentemente prejudicial aos seus interesses. O retorno desse debate se deve aos avanços da Inteligência Artificial, que permitem com que as máquinas realizem tarefas que anteriormente podiam ser feitas apenas por seres humanos. Seu impacto poderá ser profundo, pois a Inteligência Artificial ameaça os trabalhadores cujos empregos pareciam impossíveis de serem automatizados. Existem ameaças, mas também oportunidades.

Previsões de que uma crescente automação farão os humanos redundantes já foram feitas antes. Entretanto, a tecnologia acabou criando mais empregos do que destruiu. No geral, é possível dizer que automatizar tarefas para que elas fossem feitas mais rapidamente e eficientemente aumentou a procura por trabalhadores para a realização de outras tarefas próximas (ecossistemas circundantes). Ainda que as comparações com o passado sugiram cenários não tão sombrios, o futuro é incerto e ele dependerá do que for feito e desejado pelas pessoas. Não há como negar que existem relações assimétricas de poder nas sociedades e que o mal-estar da globalização integra esse complexo quadro histórico de desafios coletivos.
Recentes críticas públicas da parte de quadros técnicos do Fundo Monetário Internacional (FMI) em relação a certos aspectos do neoliberalismo, a abertura plena da conta de capitais do balanço de pagamentos e a austeridade fiscal independente do contexto econômico, deveriam demandar que o Brasil repensasse a sua inserção externa, o conjunto das políticas públicas domésticas e as reformas institucionais necessárias para que nos tornemos efetivamente um país menos desigual e mais desenvolvido. O mal-estar global precisará ser enfrentado em algum momento de uma forma mais progressista e não será um retorno ideológico à década de 1990 a solução para os nossos problemas coletivos no Brasil.
Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)

(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/Os-descontentamentos-da-globalizacao-e-os-novos-desafios-economicos/7/36363)

O "Brexit", o fascismo e o medo

por Mauro Santayana

Depois de intestina disputa que rachou a sociedade inglesa, cujo ápice foi o emblemático assassinato da deputada trabalhista Jo Cox por um fanático fascista que, ao atacá-la a tiros, gritou “a Grã Bretanha primeiro!”, slogan inspirado, assim como o de “o Brasil acima de tudo!”, no “Deutschland Uber Alles!”, do hino nazista, o Reino Unido - cada vez mais desunido - votou, finalmente, por sua saída da União Europeia.    

O resultado provocou terremotos internos e externos. As bolsas caíram em todo o mundo. O primeiro-ministro David Cameron já marcou data para se afastar do cargo.

E pode levar à desagregação do país, já que a Irlanda do Norte e a Escócia anunciaram que pretendem convocar plebiscitos próprios para decidir, a primeira,  se continua na União Européia, e a segunda, se vai unir-se à República da Irlanda.

Além disso, a libra já caiu mais de 10% com relação ao dólar e ao euro, e os alimentos e as viagens para o exterior ficarão mais caras, porque em alguns produtos, como leite e manteiga, e certos vegetais, por exemplo, mais de 50% do que é consumido na Inglaterra vem do continente, no outro lado do canal. 

Comandada pela direita e pela extrema direita, e provocada principalmente pela ignorância característica dos dias de hoje - milhares de britânicos entraram no Google para perguntar, às vésperas do plebiscito, o que era “União Européia” - e pelo medo e a aversão aos imigrantes, a vitória do “Brexit” é mais um poderoso exemplo do comportamento burro, deletério e ilógico do fascismo.
      
 Com a saída da UE, a Inglaterra tende a perder influência na Europa; a enfraquecer-se frente a eventuais adversários extracomunitários; a empobrecer econômicamente, diminuindo seu acesso a um dos maiores mercados do mundo; além de aumentar seu isolamento no âmbito geopolítico e sua histórica dependência dos Estados Unidos.

Uma situação que deveria servir de alerta, no Brasil,  para aqueles que querem acabar com a UNASUL e o Mercosul a qualquer preço e substituí-lo por “acordos” de livre comércio desiguais com países e grupos de países altamente protecionistas, como a própria União Europeia, que contam com capacidade de pressão muito maior que a nossa.
  
Decepcionada e frustrada com os resultados das urnas, a juventude inglesa reclamou que seu futuro foi cortado, lembrando que os jovens britânicos perderam, entre outras coisas, a chance de trabalhar em 27 diferentes países, e  engrossou um manifesto de 3 milhões de assinaturas que pede a realização de novo plebiscito - hipótese improvável, praticamente impossível de avançar neste momento, diante da indiferença e do egoísmo dos vitoriosos.

Nunca é demais lembrar que o fascismo, também em ascensão na Inglaterra de hoje, rejeita e despreza - apaixonadamente -  o  futuro.

Mesmo quando se disfarça de "novo" e disruptivo, como ocorreu com a Alemanha Nazista, ele está profundamente preso ao passado, como mostrou claramente Mussolini - e também Hitler com seus monumentos, estátuas, bandeiras e desfiles - ao tentar emular, canhestramente, a cultura   greco-romana e repetir - nesse caso, na forma  de tragédia, com as seguidas derrotas militares italianas - a glória perdida da Roma Imperial.

O fascismo - ao contrário do que muitos pensam - não é glorioso, mas medroso. 

Fascistas temem, paradoxalmente, aqueles que consideram mais fracos, e por isso são “apolíticos”, homofóbicos, eugenistas, antifeministas, racistas, intolerantes, discriminatorios, xenófobos,  anti-culturais e contrários ao voto obrigatório e universal.

A suástica, girando sobre seu eixo,   reproduz o movimento concêntrico de alguma coisa que se encerra em si mesma, repelindo tudo que venha de fora, como uma tribo ignorante e primitiva, um molusco que fecha velozmente sua concha, ou um filhote de porco espinho ou de tatú que se enrola, tapando a cabeça, ao primeiro sinal de ruído ou de aproximação.

Da mesma forma que faziam, patologicamente, os soldados   nazistas, educados no temor da “contaminação” judaica, cigana ou bolchevique, que se comportavam como diligentes técnicos de dedetização tentando conter uma epidemia, fechando-se a qualquer razão ou sentimento, ao matar récem nascidos e crianças de três, quatro, cinco, seis anos de idade, escondidas debaixo da cama, ou trancadas na derradeira escuridão das câmaras de gás, da forma mais fria e repulsiva, como se estivessem exterminando, simplesmente, pulgas, percevejos e ratos, ou esmagando ovos de barata.

O Brexit - a saída da Inglaterra da União Européia - é mais um perigoso aviso, entre os muitos que estão se repetindo, nos últimos tempos - como sinais proféticos - do próximo retorno de um fascismo alucinado e obtuso.

Um retorno que se dá, e se torna possível, mais uma vez, pela fraqueza e indecisão da social democracia, a existência de uma pretensa massa de “defensores” do Estado de Direito e da liberdade, amôrfa, apática, inativa; e de uma esquerda que apenas espera, de braços cruzados, também encerrada, em muitos países do mundo, em seus próprios sites e grupos, disfuncional, estrategicamente confusa, passiva, inerme e dividida, sem reagir ou defender-se quando atacada, nem mesmo institucionalmente, como um letárgico  bando de carneiros pastando ao sol.

O medo fascista está de volta. 
E não se limitará à Inglaterra.

Se não for contido o avanço de sua imbecilidade ilógica, por meio do recurso ao bom senso e à inteligência, outros países da UE, tão xenófobos quanto racistas, seguirão o reino de Sua Majestade em seu caminho de  intolerância, isolamento e fragilidade.

Porque o fascismo só avança com a exploração do medo e do egoísmo.

O medo de quem se assusta com o outro, repele o que é diferente e rejeita o futuro e a mudança.

O egoísmo daqueles que preferem erguer muros no lugar de derrubá-los; que se empenham em separar no lugar de unir; que escolheriam, se pudessem decidir, matar a fecundar, saudando a morte, como fazem em muitos países do Velho Continente e em outros lugares do mundo, jovens e antigos neonazistas de coração estéril, com a artrítica, tremente, mão espalmada levantada,  no ressentimento raivoso de uma velhice amarga, que cultiva e adora o deus do ódio no lugar de celebrar a vida, o amanhã, a alegria, o encontro e a diversidade.

(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/O-Brexit-o-fascismo-e-o-medo/6/36367)